Este é o chão sagrado da Academia de Letras de Crateús na internet. Como um templo ecumênico, nele há espaço para todos que adoram cultuar a beleza da virtude, a simplicidade da inteligência, a singeleza do verbo, o fascínio da cultura, a liberdade da palavra, a profundidade do amor.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
EDITAL DE CONVOCAÇÃO
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Re: FW: Contradições
Enviada: domingo, 13 de fevereiro de 2011.
Para: Isis Celiane
Prezada Isis Celiane,
novamente bom dia!
Faltam-me adjetivos para comentar teus sempre inteligentes poemas; igualmente belos são os dos teus confrades. Parabéns.
Conforme já disse para alguns, sou "brabo" em internet. Já me disseste como entrar no blog da ALC e como postar comentários. Hoje mesmo entrei no blog (http://academiadeletrasdecrateus.blogspot.com) e não consegui encontrar a maneira de postar no blog. Assim, resta-me apenas dizer que o dístico no pórtico da ALC: TEMPLO ECUMÊNICO para todos que adoram cultura e beleza (e os demais sintagmas que lhe seguem), já se constituem belíssimos poemas.
Lendo as poesias tuas e de teus confrades, revolta-me a constatação de não sermos, nós nordestinos, vistos, lidos e apreciados com o valor que temos. Lembro-me bem de, há muitos anos, ter lido um livro cujo título era: HOMEM ALGUM É UMA ILHA. Isso era um refrão de que o escritor, católico francês, se apropriou para falar de religião e outros temas. Por que, na literatura, somos ilhas? Por questão midiática? Preconceito? No Sul-maravilha os escritores e poetas são mais inspirados? Mas perdoemos os sulistas, porque os intelectuais de nossas capitais ou cidades maiores do interrior, também têm suas "cismas" com aqueles que vivem no que consideram "Grotões". Será que alguém em Fortaleza é mais inspirado e escreve melhor que Isis ou Cândido, e outros mais da ALC?
Vocês são dignos de figurar em qualquer antologia do país. Eu também já amarguei este tipo de preconceito. Herculano Morais, membro da Acad. P. de Letras, em carta que me dirigiu em fev/96, sobre meu livro PENSÃO CASSILDA (Familiar), que por sinal estará sendo postado em meu blog brevemente, diz textualmente: "Na própria Academia Piauiense de Letras você aponta quatro ou cinco que têm hábito de ler. Desses, menos da metade gosta dos autorers piauienses. Preferem os "best-sellers" anunciados pela mídia nacional.
Perdoe o desabafo.
Abraço a você e aos demais confrade desse belo Templo literário
João Bosco.
.
João Bosco disse...
Prezada Isis,boa noite.Finalmente consegui acessar o blog. Doravante vou fazer bastante uso. Saudações
João Bosco
Nota: Sim, muito obrigado pela postagem.
Domingo, 13 Fevereiro, 2011
sábado, 12 de fevereiro de 2011
CONTRADIÇÕES (Isis Celiane)
Não serei um poeta fanático a fenecer de paixão,
tampouco um trovador triste a chorar seus versos.
Meu canto não será sofrido, minha dor não será infinita.
Não. Não morrerei de amor!
Se dele me restar ainda amarguras,
que sejam somente agruras
e passem velozes feito o vento.
Que não me reste qualquer pensamento.
E se existir ainda a saudade,
que não seja nostálgica a lembrança.
Ainda que exista um fio de esperança,
seja espera alegre e não sofrida.
Que não haja dor se houver partida.
Não morrerei de amor!
Não cobrirei as flores com o véu de minha tristeza,
não ignorarei a lua como se não fosse mais poeta,
não perderei o pôr-do-sol como se ele agora
houvesse perdido o encanto.
Seguirei a lógica incoerente do coração:
Não morrerei de amor!
Mas quero morrer de tanto amar
Este amor sem media e sem razão
que um dia longe fui achar.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Nem necessita, ele se diz.
Fragrante desde a aurora,
espirituoso e intenso,
ouro negro de luxuria e nobreza
apetitosamente ativo na xícara.
Meu olfato, cão de caça, fareja
bem antes do vapor de ébano subir.
Suavidade líquida, sólido deleite,
esplendor dos deuses.
Sugo, sôfrego, mais um cafezinho
e saio absorto, embevecido!
Raimundo Candido
WWW.raimundinho.hpg.com.br
sábado, 29 de janeiro de 2011
ILUSÃO (Elias de França)
Qual a que te faz insano?
Qual a ilusão matriz?
Qual a que te faz feliz?
Qual a ilusão do ano?
que os sonhos levam à vida nova
e pus-me tempo-a-diante
fiando linhas azuis
polindo bilros de cedro
batendo estacas no tabuleiro
tecendo e enchendo meus baús de planos
suei o peso constante de malas mil
por, de repente, um limiar
subi, desci
descansei nos braços da morena da ocasião
doei horizontes aos despojados
adornei de flores os caminhos
arranquei pedras, amaciei trilhas
amoleci e endureci...
Fim de estrada:
não há mais linha nem vontade...
nenhum limiar
nem ao menos uma aurora cor-de-rosa
os caminhos continuam
de pedras e passos
a vida segue em passos
... passa
passo
sem chegar à vida sonhada
mas, olhando para trás:
minha vida foi “um sonho!”
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
QUANDO CHEGA A VELHICE (Isis Celiane)

Aquela voz que outrora gritava
e esbravejava por seus ideais,
agora enfraquecida quase não fala,
quando raramente não cala,
diz manso, diz baixinho.
O corpo sempre apoiado,
não arrisca um passo sem seu bastão,
aquele bordão que lhe sustenta a matéria cansada,
servindo de apoio a velha mão calejada.
Marca que o trabalho lhe deixou de herança.
Mãos trêmulas tentando equilibrar o copo.
É difícil andar, falar e comer...
Viver é difícil quando se chega à velhice.
Na mente cansada, sinais de caduquice.
Permanecem intactas as boas memórias.
A vida se esgota!
Todos os sonhos estão esgotados,
encerrados nas conquistas e nas frustrações.
Exaurem-se os desejos e as ilusões.
O velho deseja apenas descansar.
Quando se chega à velhice
nada mais parece lhe pertencer.
É comum ouvir dizer: “no meu tempo...”
Como se o tempo da gente durasse apenas o instante
em que se é jovem.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
..................................................................................Manuel Bandeira.
Seu primo conta-lhe a novidade. Atentamente ele ouve, estranhando, porque nasceu crescendo em apartamento de passos medidos. Desde então a curiosidade borbulhante insulta-lhe viagem.
Interior.
A pequena cidade é construída de ruas mansas, sorrisos fáceis, simplicidades abundantes, natureza ativa, rio corrente, pássaros emoldurando as casas niveladas. Ambiente de caráter.
O primo detalha cada centímetro da área feita de liberdade. Universo de aventuras.
Sua alma, ganhando movimentos inéditos, corre espaços como o vento, o sol.
Seu olhar, desviando-se de um plano a outro, se amplifica como os puros sons do sino anunciando missa.
Sua maturidade de concreto sensibiliza-se insolitamente.
Ele se sente outro. Outro completo.
E fotografa.
Fotografa minuciosamente como quem eterniza uma relíquia volátil.
No final de semana ele convida os amigos dos apartamentos de passos medidos para a exposição fotográfica dos quintais, que os concretos do crescimento urbano aterraram.
(João Silas Falcão Soares)
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
... e todo o resto!

adoçando as noites de insônia
e lembranças de belas namoradas.
Havia alma,
e mais oxigênio na brisa matutina.
Eu pensava versos,
gemia cantigas
e enxergava com o coração...
Algo se perdeu no emaranhado de sonhos e tentativas,
levado pelo vento errante
com a poeira dos chinelos, ao caminhar.
Algo desbotou na retina embotada...
Gastou-se junto às botas...
O coração ficou cego:
não me deixa ver graça em viver.
O coração está surdo:
só ouço esvaírem-se os encantos
das melodias mundanas...
Salta, coração aleijado,
enquanto a vida corre
para lugar nenhum...
O tempo passa...
leva o doce
ficam as noites de insônia;
leva as namoradas,
ficam as lembranças tenras;
leva a alma,
fica o corpo cansado
implorando a piedade eterna;
leva a inspiração,
fica a brisa matutina
cada vez mais poluída;
leva o verso,
fica o pensamento repleto de remorsos;
leva as cantigas,
fica o gemido;
leva o coração,
ficam as pontes de safena...
O homem passa...
leva sua ganância,
fica sua fortuna;
leva sua esperança,
ficam as marcas dos seus atos;
leva sua arrogância,
fica o desprezo pelo seu ódio;
leva sua bondade,
fica a saudade;
leva suas derrotas,
ficam as chacotas;
leva suas utopias,
leva suas vitórias,
leva suas alegrias... suas agonias,
fica a história...
(Elias de França - do livro "cantigas do oco do mundo - poesia. Ed. independente, Fortaleza, 2002.)
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
SLIDES
Na América o medo inibe voos e susta e mata
- Já é de penas e escamas os olhos da gélida estátua que vigia Manhattan.
Labaredas vermelhas de um titânico dragão localizado na Ásia sorve o ar e oxigena
o que somente existe cifrado: no câmbio o âmbito do mundo não vale o sopro de um esfolado.
E não tendo sido escrito o poema proibido de ser dito se recita silêncio.
Lio-o abertamente na mente daqueles que, feito eu, querem ir e vir e
respirar, sem grades, o mundo.
Despossuídos de liberdade são liberados a proverem-se de mercado e trabalho
se de inanição morrem as ilhidiotologias que previram animalizar humanos
servando com gente populações de cadáveres.
O mundo transita.
Não sou indício de nada se indico por satélite o oceao Índico
ou à distância identifico sentimentos que aproxima
amor e ódio e ânsias de morte e de matar: tudo na gente rima.
Gramáticos nem bem a revisam a língua cobra trocar
a pele da escrita ao soar das mutações: quando ao ser fala, dita.
Milhões de faróis vagam nas ruas varando rumos aos seres sem luz
- Literatura não é luz, mesmo se luz do que somente se fita na escuridão:
A luz dissolve o ser e o devolve ao cerne, onde, falho, vejo-me pleno.
Um homem sozinho estarrece toda a civilização
exploda, cante ou nos force a dançar à alucinação de se ter por estrela - e pop.
Estelar, um poltro selvagem na Mongólia acaba de sumir
catalogado e devidamente arquivado em bytes.
Algo fez sumir minha sombra enquanto eu encandecia
- O contrito e o irrestrito não se cabe escrito.
O eu não é lírico, megalomaníaco quer-se épico e acaba por ser,
se insolente, feito eu, meramente poético e, se solene, cerimonialmente patético:
limado, estudado, rimado, classificável, concretizado - ou métrico.
Camaleão se confunde não altera - integra-se à miragem: interage.
Eco não mia, miam milhões de gatunos e nem são gatos
os ratos de Paços corroem maços de papel e moeda e a massa moral.
O Phallos venerado nas antigas civilizações, em bytes escandaliza
mas não é mais porno do que outros elementos sagrados que também se comercializa.
A burca desnuda o regime que se ocultA lá de quatro
em Teerã de bunda de fora oram Aiatolás.
O que se torna alegoria de um tempo transcende.
Transpareço por onitorrinco se, brasil, transpiro o continente nordestino.
Na Austrália me estranham por marsupial americano, lá sou um gambá.
No Pantanal o poeta João de Barros fila a língua
untada de matas bichos insetos e se se farta de etimologia e água
cria sapos gramáticos que, enfáticos, saltam classes e originam palavras por girinos e grilos.
No matagal da língua a vida está sempre se a.bolindo.
Se engole o que a devora devolve ao agora o que o ser siga engolindo.
A raquítica criança hatiana que me aparece sorrindo
premiou o fotográfo e a galeria numa expor em Paris.
Prêmio de crítica e público - gente sensível à arte fácil se humaniza
se a vida se esgarça e radicaliza.
A realidade não rivaliza, ridiculariza.
Não há poesia, na miséria há a frágil e brutal humanidade
crua e brutalmente exposta - e a gente gosta
e expeciona o ambiente e se pressente a presa ao prêmio se abandona.
Isso não é um poema, galeria de cada imagem que se desdobra em infinitos links
e a minha revelia aleatórias alegorias camuflam o que confabulam.
Um nativo da Sibéria se veste de pele felpuda e branca contra a neve
para que não falte foca ao abate em Quebec e pelos aos animais das passarelas.
Etnográfos registram populações indiginas que não existem indiginas
- O humano não cabe senão humano mesmo se humano não se sabe.
Há ursos, não há abutres polares nem no mundo de Alice
mas ante certos homens um arrepio me alerta sobre carniceiros frios.
Um nome proferido em todos os idiomas busca um único ser a ser banido.
Suspendo este escrito que o mundo se precipita ainda mais infinito ao esgarçar-se grito.
Cesso o escrito, não de me abandonar ao que fito.
Grito, precipito-me ao infinito.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
MINHA TERRA QUERIDA (Isis Celiane)
Tanto tempo sem ver meu povo
O solo que me serviu de berço quando nasci
Terra de sol escaldante e brava gente
Lugar nenhum é como o meu Piauí
Eu aqui com minha saudade
Revirando fotos na lembrança
Recordando os rostos, as ruas e as vozes
Sofrendo até onde a memória alcança
Novamente em solo nordestinho
Longe, porém, da terra querida
Que deixei ainda infante
Terra distante, jamais esquecida
Cada vez que visito minha gente
Trago na bagagem tanta saudade
Tantas lembranças dos dias bons
Que saudade da minha cidade!
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Re: FW: VELHOS TEMPOS DO FUTURO
Enviada: quinta-feira, 6 de janeiro de 2011 2:56:16
Para: Elias de França
.
Caro amigo, que lindo!!
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011 14:42:51
Obrigada professor, por me incluir em sua conrrente de velhos e novos amigos!Não lhe conheço pessoalmente, mas sei pelo que já disse, diz e dirá em outros textos e versos,sei que me sentiria uma criatura melhor, visto que em muitos dias de sol ou de chuva, duvido da criação divina.Contudo, quando conheço pessoas novas ou velhas, mas que sabem usar as palavrasnão para agredir ferir maltratar, furtar, mas para fazê-las carinho, atenção, amizade, poesia,e reinventar a vida, sem dúvida, sinto a criação divina presente...
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
CRATEÚS DA MANHÃ SEGUINTE (Lourival Veras)

sua pele outros pêlos
corpo de novo sê-lo
outra vida janeiro
e não me venham com essa
de quando fevereiro chegar...
saudade já me mata agora
no instante mesmo em que miro a porta
que me leva a lugar nenhum em que você está
sobretudo agora
o fosco baço leitoso neblina poeira
sobre a estrada da manhã seguinte
o futuro é um agente
da scotlad yard...
aqui a gente só ouve falar
Que bom poder voltar a lê-lo, Sê-lo novo, ou de novo, e com versos tão singelos, como a propria vida, e ao mesmo tempo tão profundos, capazes de nos medir quão distante é Crateús da velha Londres da nova scotlad yard; o agora janeiro nasciturno do carnaval que não se consegue mais pôr como uma promessa; quão distante, enfim, o tempo ideado nos nossos sonhos do futuro decidido além sertões, no centro do mundo, que, por certo, nunca foi aqui.
4 de janeiro de 2011 10:52
Que bom ter Lourival Veras no blog, assim posso conhecer melhor suas criações, que de início já me agrada muito. Continue postando e encantando nossos olhares com tão belos versos.
Terça-feira, 04 Janeiro, 2011
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
VIRADA (Isis Celiane)

No último dia do ano
Crepúsculo triste anunciando alvorada
Nas ruas a juventude vibrando
Esperando, cheia de vida, a hora da virada
O velho ano de bagagens prontas
Carregadas de recordações, quase indo embora
Deixando sonhos, conquistas e desilusões
Que serão amanhã miragens em nossa memória
E os poetas do tempo e da vida
Dizendo em versos o quanto ela é breve
“Vida louca, vida (...)
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve.”
Alguns carregando seus deveres
Lembrando a rapidez com que o tempo passa
“A vida é uns deveres que nós
Trouxemos para fazer em casa (...)”
“Quando se vê já são seis horas: há tempo (...)
Quando se vê passaram-se 60 anos” num segundo
E embora todo o dia ao acordar não tenha mais o tempo que passou
“(...) tenho muito tempo, temos todo tempo do mundo...”
ANDARILHOS (Aldo Costa)
Dois ciganos a vagar
Sem destino, como a brisa
Sem preguiça, como o mar
Os seu olhos têm o verde
Do milho, lá no roçado
Na boca, doce desejo
Do prazer e do pecado
O amor tem várias fases:
É verão e é inverno
É lucidez e loucura
Paraíso e inferno
Se te quero e te preciso
A vida inteira, só prá mim
Nessa estrada vou contigo
Caminhar até o fim
Estradas...ciganos
Andarilhos cansados
Amor ao relento
Corpos saciados.
Aproveitando este momento dos últimos de 2010,
Gostaria de abraçar a todos(as) amigos(as) acadêmicos(as),
desejando-lhes um novo ano cheio de muita paz, saúde, luz e
muita inspiração ao lado de todos aqueles que amam e prezam!
FELIZ 2011!
Aldo Costa
Isis Celiane disse...
Lindos versos, carregados da simplicidade que torna a poesia encantadora e apaixanante. Feliz ano novo para ti e para todos nós desta casa de versos chamada Academia de Letras de Crateús.
Sexta-feira, 31 Dezembro, 2010
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
VELHOS TEMPOS DO FUTURO (Elias de França)
O céu continua azul;
o sol, deslumbrante, ilustra o nascente;
o mundo tem nova data marcada para acabar: 2012.
Passam os bêbados de volta da noitada,
patinando na lama dos esgotos da rua,
tropeçando em latas de cerveja, copos plásticos,
aspirando poeira, vômito, enxofre...
detritos do homem descartável
em festa de reveillon.
Ainda sobre a calçada,
toda a vizinhança em sacos de lixo
de um ontem tão distante...
Zé Porfírio ainda vive, servindo raro leite, na sua velha carrocinha -
mas já não lhe sou freguês:
hoje bebo pó sintético de cereal transgênico,
dada a intolerância à lactose;
o jegue Stalone não teve a mesma sorte: foi atropelado por um caminhão,
não sem antes ter matado minha muda de palmeira,
e em seu lugar plantei um pé de Nim Indiano.
Totó-da-Bodega faliu!
Aí se aposentou e mudou-se para a capital.
Agora passo o cartão no supermercado da cidade,
E sigo pendurando faturas aos fins dos meses...
A casa vizinha virou uma lan house, um cyber sem café, sei lá o que mais...
os sons sintetizados de supercarros de formula 1, nos games,
redundam em meus tímpanos...
Morro de saudades daquele cheiro de CO2 colorido de cinzas, que enevoava toda a rua – Não desse gás catalisado, incolor, insípido e inodoro,
que todos devoram sem tapar o nariz
e nos dilacera oculto os brônquios -
e do barulho cansado da velha Brasília vermelha,
há dez anos vendida no quilo para o ferro-velho...
A banda militar, ao longe, estranhamente,
ainda toca os velhos refrões,
ensaia as “antigas lições”,
de coturnos em teimosia com o asfalto,
enquanto jovens praças
rondam minha rua em modernas volantes.
Não há robô algum a recolher dejetos,
nem naus espaciais zanzando em meu beco.
Nem mesmo o carro-pipa que abastecia os baldes nos socorre,
pois se encontra no prego no quilômetro 15 da rodovia,
com o diferencial quebrado
e não se fabricam mais peças para sua manutenção...
Aí bebo água tônica comprada a preço de prata
e me banho no canal,
que um dia já foi um rio com nome indígena,
cuja pronúncia me foge à memória...
É 2011, como se fosse ontem...
um ontem tão distante
que insiste em não desaparecer,
com todos os seus resquícios
da “parte rudimentar” da história humana...
É 2011, igualzinho ao ontem,
o ontem tão distante
que não desapareceu,
com sua pobreza, seus males e fracassos...
É 2011, o mesmo que ontem,
que tanto mais mude, tanto mais cresça, tanto mais se modernize,
tão mais velho fica o ontem,
assim tão distante e tão presente.
E eu que tanto já ralhei, gritei, indignei...
continuo a ter amigdalite na garganta operada;
tempero de veneno o repolho, prevenindo a teníase;
respiro caltin para não morrer de dengue;
tomo resignado meus coquetéis de pílulas diários,
um para cada mal,
e vou ao templo todos os dias
louvar ao criador
pela graça de ver a aurora do novo ano,
que me nasce à minha imagem:
enrugado, esclerosado, demente, insano...
Raimundo Candido disse...
Acho que do lirismo de Cecília à poesia filosófica e trina de Pessoa neste poema há. Por sinal, acho que há é uma multidão de poetas que se reunirão na pena do profeta, digo vate Elias( dá no mesmo! ) para entusiasticamente louvar um ano que vai e outro que vem, assim na vida do Zé Porfírio ou de um jegue, que convenientemente tem o nome stalone, pelos velhos tempos do futuro antes que eles se acabem ( Espero que fique bom de sua amigdalite, bem antes! ) .Quinta-feira, 30 Dezembro, 2010
COELHO disse...
O Raimundo Candido acha que "Em Velhos Tempos do Futuro" há Cecília e há Pessoa...Discordo do Raimundo...Quem sou eu para discordar? Mas discordo assim mesmo... Neste poema só há o verbo dilacerante, às vezes impiedoso, deste artista de múltiplos talentos de quem tenho a honra de ser amigo...Salve, salve, grande Elias de França...Espero que nos encontremos antes que o mundo se acabe... Um grade abraço
Elias de França disse...
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
UM SARAU DE POESIA NO SERTÃO: SERÁ POSSÍVEL?

A surpresa advinha de dois motivos: um deles, o gênero do evento: sarau, nome dado às rodas de declamação de poesia. Ao longo dos meus mais de 40 anos nesses Sertões, foi a primeira vez que me ocorreu saber de acontecimento desse tipo, pelo menos com amplitude publicada nos meios de comunicação locais. Na infância, era comum ouvir convite enterro, convite festa - no caso forrós, tocados por sanfoneiros da região, convite dança de São Gonçalo, reisados, cantorias de viola, festejos de santo padroeiro, novenas de Nossa Senhora de Fátima, vaquejadas, derrubadas de Judas... Mas nas últimas décadas, as alternativas de eventos se apresentam cada vez mais escassas, quase se resumindo às festas, agora tocadas por megabandas e anunciadas com meses de antecedência.
Convidado a sentar em um bloco de cadeiras chamado pelos organizadores de “tribuna de honra”, juntamente com diversas autoridades municipais e regionais, pusemo-nos a contemplar o decorrer do evento. O mestre de cerimonial, vestido a caráter, passa então a anunciar as apresentações, já desde os cumprimentos iniciais, através de bem elaborado script, amplamente fundamentado, todo intercalado de citações de escritores, poetas e pensadores de todos os níveis e estilos. Os declamadores eram os próprios alunos da escola, desde a educação infantil até as séries finais. Todos, desde a menor criança até o mais adulto, demonstrando grande esforço, explicitado no cuidado de haverem memorizado todas as falas, inclusive, as informações biográficas dos autores escolhidos. As declamações dos poemas sempre eram precedidas das apresentações dos respectivos autores, enquanto uma criança desfilava a mostrar sua imagem física ampliada, traçada em grafite por retratista.
De meu trabalho, como um dos homenageados, o único presente em pessoa e um dos poucos ainda vivos, não tinha quase a dizer, posto que tanto já havia sido dito, boa parte pelo próprio fato. Ao fim, como se tamanha honra não bastasse, como se meu peito já não transbordasse, como se não estivéssemos repletos da poesia cantada por aqueles meninos e meninas, ainda ganhei minha caricatura de presente e tomei o caminho de volta, tecendo e desfiando reflexões.
E a passarela, não houve desfile? Houve sim. Foram eleitas as garotas poesia. Elas desfilaram com faixas contendo os nomes dos autores, aos efeitos sonoros de um DJ (Dijei, não sei se é assim que se escreve). Ao fim foram convidadas a responder por que ostentavam os nomes daqueles escritores, advertidas pelo mestre de cerimônia de que a beleza física é precária caso não se conjugue a beleza intelectual, cultural e espiritual.


Teddy Williams disse...
Parabéns a todos por esse evento. Que outras comunidades realizem ações parecidas como essa e que possamos, juntos, criar uma Grande Ciranda Cultural divulgando atividades sócioculturais que acontecem nos sertões.Parabéns Elias de França, pelo texto e por sua vasta contribuição.Abraços!Teddy WilliamsCiranda das Coisas do Coração.
Quarta-feira, 29 Dezembro, 2010
Meh'ssias disse...
Realmente... um importante evento! PARABÉNS A TOD@S QUE ORGANIZARAM. Muito bom saber que existem lugares e comunidades que organizam prestigiam um evento como esse! PARABÉNS ELIAS! PARABÉNS Á ESCOLA QUE PROMOVEU ESTA ATIVIDADE!!!
Quinta-feira, 30 Dezembro, 2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
AO POETA JOÃO BOSCO,
Muito prazer em contatá-lo!
Gostaria de agradecer pelos acessos ao nosso blog, pelas boas impressões manifestadas e pela reflexão acerca da questão das Academias de Letras.
Sobre esse ultimo tema, trata-se de um assunto que tem motivado grandes debates e dividido largos segmentos da sociedade e até a classe dos escritores. Divide, inclusive, a nós aqui de Crateús: alguns bons cultores de letras de nossa terra, que possuem todos os méritos e talentos para compor conosco esta Arcádia, não o estão em face de possuírem restrições de princípios em relação às estruturas orgânicas e fins das academias de letras.
Respeitamos seus posicionamentos e prosseguimos tentando construir esse ente que, para nós, como você sugere, se emprenha na missão de “produzir, de se reunir, discutir e resenhar obras, sem o sentimento da egolatria e do egocentrismo, mas com o sadio desprendimento da solidariedade, do companheirismo".
Pensamos como você; não fizemos uma academia para nos sentirmos “imortais”; para nos vangloriarmos ou celebrar honras e comendas vazias. Pois que, como você e os colegas de letras ai de Francisco Santos, assim como em todos esses rincões tórridos nordestinos, sabemos que a literatura é uma semente rara de difícil cultivo e traquejo que requer, alem do solo fértil, da água tão rara nesse nosso chão, muito amor, compromisso e dedicação. Só temos alguma chance organizados, solidários e companheiros.
Assim, gostaria de nos por a disposição dos amigos aí dessas terras irmãs para maiores intercâmbios, inclusive mediante a troca de postagens, através dos nossos blogs. Nosso email institucional é alcrateus@gmail.com.
Teremos todo o prazer de corroborar as letras dos amigos.
Abraço Fraternal e que a palavra talhada nos aproxime cada vez mais
Elias de França
Presidente da ALC
sábado, 25 de dezembro de 2010
Caros amigos.
Quero compartilhar com vocês uma bela observação feita pelo poeta e escritor piauiense, João Bosco, no blog da cidade de Francisco Santos-PI, direcionada a todos nós da ALC:
"Prezadíssima Isis.
Através de teu último e-mail, pude "viajar" um pouco pelo blog da ALC, onde me deparei com péroloas como teu poema sobre o natal. Ligando uma coisa à outra, li, com satisfação, no blog de F. Santos, texo teu sobre o mesmo tema, cuja postagem eu havia sugerido.
A propósito do asusnto ACADEMIA, fez-me cócegas comentar conceito depreciativo externado por Fernando Jorge em seu livro ACADEMIA: Do Fardão e da Confusão: "A Casa de Machado de Assis é estéril como uma mula". Quem assim se expressa deve estar cheio de sentimentos malsãos, explindo em gotas de veneno frustrações e desgostos, quem sabe em razao de ali ainda não haver chegado. Acadêmicos da ALC, cuidem de produzir, de se reunir, duscutir e resenhar obras, sem o sentimento da egolatria e do egocentrismo, mas com o sadio desprendimento da solidariedade, do companheirismo e - sim - da sadia competição.
E tu, botão de múltiplas promessas, haverás de, em breve, desabrochar em buquês literários frutos conforme já prometes em teus poucos trablhos (divulgados), que não tardarão em aparecer compilados em livro, sonho maior de todo escritor.
Perdoem a extensão do comentário, pois muitas vezes a emoção me domina.
Saudações natalinas e a desiderata de que o ano novo traga para todos a realização dos nossos sonhos mais caros.
João Bosco da Silva" (http://fcosantospi.blogspot.com/)
Cuidemos em divulgar nossa arte e compartilhá-la com todos que nutrem amor pelas letras, pois como brilhantemente observou o Sr. João Bosco, "quem escreve só para si, quando muito produz um prazer solitário e egoístico".
Isis Celiane.
João Bosco Disse...
Caríssima Isis,boa noite! Consegui abrir o blog da ALC, onde li muita coisa boa, produções deveras extraordinárias. Elias França: teu natal dos bichos, um primor; dá vontade de a gente, diante de tanta injustiça, desejar tornar-se animal irracional; Rogerlando: vermelho cor, vermelho ora ação, cor velmelha coração. Excelente. E o Raimundo Cândido, em cujo "verso fervilha (...)sanguínea esperança". Ótimo.E os demais? Dos outros falarei depois. Para isso é preciso que tu medigas como postar comentário do blog da ALC, pois não consegui encontrar janela para tal. Sim, e tu és fora de série. Avise para os confrades da ALC que estou com um blog exclusivo para divulgação de minhas produções inéditas. Para acessá-lo, basta digitar http//joaoboscodasilva.blogspot.com/
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
NATAL SEGUNDO OS BICHOS (Elias de França)
- Ele vem aiiiiiiiiiiiiiií!
O cancão, de lá da moita de mufumbo, põe-se a pular de galho em galho, olhando curioso em todos os cantos, a indagar:
- Quem-quem? Quem-quem?
O bezerrinho que acaba de nascer, enquanto tenta encontrar as tetas da mãe, berra de lá:
- um deeeeeeeeus! Deeeeeus!
Do galho mais alto, o pássaro gorgoró afia sua garganta para anunciar:
- agogogogogogogoooooora!
Então, o bem-te-vi emerge em voo, subindo céu-a-pino, e do alto azul, enxerga a revelação, gorjeia seu gozo em pleno ar, depois mergulha veloz em direção a sua estaca, enquanto o galo, no seu poleiro, bate as asas a gritar:
- Jesus Cristo nasceeeeeu! Jesus Cristo nasceeeeu!
A vaca, virando-se de súbito, balança seu chocalho a perguntar:
- Aooooonde! Aoooooooooonde!
Ao que a ovelha responde com seu berro trêmulo:
- Beleeeeem! Beleeem!
O bem-te-vi, de volta à estaca, saltita eufórico:
- bem que vi! Bem que disse! Bem que disse! Bem que disse!
A ninhada de pintinhos piam sem parar:
- viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu?
A rolinha fogo-apagou repete em sequência:
- Cristo chegou! Cristo chegou! Cristo chegou! Cristo chegou!...
O vem-vem decola animado do galho, em voo rasante sobre o pasto a convidar:
- vem ver! Vem ver! Vem ver!
O peru apressa a todos, arrastando suas asas no chão e gritando alto:
- logo! Logo! Logo! Logo!
-logo! Logo! Logo!
O bando de galinhas d’angola salta do poleiro a proclamar em coro:
- que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato!
O pato acompanha balançando o pescoço e apontando a direção com o bico a exclamar:
- de fato! De fato! Fato! Fato!
A lagartixa, pregada no tronco da árvore, tentando descer, vai concordando com tudo balançando a cabeça juntamente com o pato.
Cuspindo entusiasmo, o bode pai-de-chiqueiro bodeja de lá:
- bom bom bom bom bom bom!
E o gavião rapina concorda:
- si-iiimmm! si-iiimmm!
o cavalo, o burro e o jumento soltam suas risadas, as galinhas caem na gargalhada:
-rim rim rim rim hun!
-Hoooooonn Urrrr hoon urrr hon ur hon ur hon!
- cocococococo! cocococococo!
O sabiá, tomando de seu bico de caneta, passa a gorjear sua canção típica, composta exclusivamente para aquele momento especial:
- que bom
Quem bom é ser
Estar aqui pra crer e ver
Menino deus nascer, nascer!
O galo de capina, excelente imitador que é, não perde tempo e passa a fazer coro com o refrão do sabiá, enquanto toda a bicharada se espalha nas florestas, campos, terreiros e quintais para viver um novo dia de uma nova era, porque, enfim, o mundo,desde ali, ganhara um salvador, fonte do amor, da misericórdia e do perdão eterno.
E ainda que, um dia, os homens se esqueçam serem eles as criaturas com imagem e semelhança do criador, que as luzes de natal se apaguem, que o significado do nascimento do menino deus seja associado tão somente à ocasião ideal para vender, comprar e consumir modernidades, que a figura comercial do papai Noel tome o lugar do cristo, enquanto houver alvorada e os animais enxergarem os raios do sol, haverá natal na voz dos bichos e nos corações iluminados. Pois que eles testemunharam, eles haverão de rememorar em todas as manhãs de todos os dias, enquanto houver tempo e vida na Terra.
Raimundo Cândido disse...
Excelente texto onomatopéico com uma mensagem "divina". O Thalles ( meu filho) vibrou com a leitura que fiz para ele!Valeu poeta!Sexta-feira, 24 Dezembro, 2010
SABi CRATEÚS disse...
É sempre gostoso demais ouvir suas histórias de contador sertenejo, raízes plantadas em nosso chão... é uma felicidade! É um prazer que nos motiva e orgulha. Parabéns pelo texto. Haveremos de contá-lo muitas e muitas vezes em nossos encontros de amor à arte, em rodas de criança e alegria, sempre celebrando a esperança de um mundo melhor.
Sexta-feira, 24 Dezembro, 2010
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Natal (Isis Celiane)

Nas casas onde as luzes não brilham
Sem enfeites ou mesa farta
Há lá no canto do quarto dos sonhos
Um menino a escrever uma carta
Desenha compassadamente as letrinhas
Confusas linhas de uma clara esperança
Não é brinquedo que deseja o menino
Não há qualquer devaneio de criança
Tudo que pede a esse desconhecido velhinho
É que venha depressa e chegue ligeiro
Trazendo no grande saco das ilusões
Comida que o alimente o ano inteiro
E vai para a janela o menino
Dia após dia, sozinho esperando
E na solidão de sua espera amarga
O tempo sem trégua vai passando
Até que apagam-se as luzes e calam-se os sinos
Tudo agora volta ao normal
E o menino recolhe-se ao canto dos sonhos
À espera solitária de mais um Natal.
Elias de França disse...
Obrigada, Elias, pela bela observação sobre o que escrevi. Percebo que os poetas são poetas em todas as situações, tranformam em poesia tudo que falam. Parabéns!Abraços...
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
SER SEM SE RESSENTIR (Rogerlando Gomes)
e transborda todo ser - a humanidade brilha.
Brilha enfeite, presente, brilha, brilha ceia.
Brilha se excede se cede à bebida
e se inebria amor ou ressentimento - se extravase vida.
Os indiferentes também brilham transbordante humanidade
- Mesmos as mais frias e as mais ascetas pupilas cintilam.
O asfalto nos cintila e nós faróis, nós aros, nós prédios
cintilamos muitíssimo mais nos egoísmos e nos assédios
comerciais e de amor, ande pela 25 de Março, desfile na 5ª avenida
ore a Alá, vista burca e na China o vermelho
não seja das vestes do bom Noel, mesmo assim
desnude o cruel da existência oprimida
onde mais se suprima a liberdade de se rir de si mesmo,
sem, contudo, abolir o ridículo - o mal intenta elidir o bem
tornando o humor macabro também,
mas o riso não se contrita e, mesmo se atrita, vem à esmo
- O humano, a sucumbir, cintila e rir e o riso ilumina,
sem disfarce, a face da humanidade que a mais mínima faísca, me fascina:
a China não deixará o vermelho, a atingirá, Liu, o global vermelho humano.
E até a Coréia do Norte sairá do vermelho... que elimina
para o vermelho que de humanidade se contamina
que o globo ainda é a única esfera do universo que cintila
vida - e nutre a impar espécie, única ciente que cria, e aniquila.
O Natal, então, como o bem e o mal não é capital, capital à existência
humana é a liberdade de cintilar humanidade - e independência.
Que qualquer ato - acordar, rir, um beijo...um soco -, pois, nos seja vermelho.
Vermelho cor, vermelho ora ação cora vermelho coração.
E a humanidade tenha suas mãos por seu mais caro aparelho
De toque e de plantar, colher, fazer e todas as manhãs se dividir em pão
Em bebida, em riso e amor, mesmo o de intrigante rivalidade
Para que a gente, humanidade, não se ressinta de humanidade.
Um homem de várias facetas. Isso se pode falar, sem medo de errar, de ROGERLANDO GOMES CAVALCANTE. Todas elas voltadas para a produção artística . Com efeito, é na charge, no cordel e na combinação criada por ele dos dois (convenientemente denominada charge/cordel) que Rogerlando acentua mais o espírito criativo e crítico. Mas também há espaço para o desenho, para o ensaio, para a música e até para as histórias em quadrinhos nessa salada. Não por acaso, ele é um dos compositores do hino de sua cidade, Independência, localizada no Vale de Crateús, a 310 quilômetro de Fortaleza. (...) Thiago Barros –especial para O POVO. VISITE O BLOG DO PEQUENO: http://www.rogerlando.com/CHÃO INAUGURAL -2009, obra de estreia. O próximo livro, A MÁQUINA DO MUNDO, está no prelo.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
RAIMUNDO CÂNDIDO ESTÁ ENTRE OS AGRACIADOS COM O XIII PRÊMIO IDEAL DE LITERATURA, QUE HOMENAGEIA RAQUEL DE QUEIROZ

Companheiros de Academia:
Tinha dito que estava impossibilitado de participar de nossa reunião de dezembro, mas não tinha falado o motivo. Como agora está confirmado, esclareço: Estou na Seleção do XIII Prêmio Ideal Clube de Literatura, Prêmio Raquel de Queiroz.É um livro de conto e estou entre os 40 selecionados, o convite veio pelo correio, por email( abaixo) e por telefone, fechando o ano com um preminho que num é nada ruim!
Um abraço a todos!
Raimundo Cândido
Em 14 de dezembro de 2010 17:18, ana costa escreveu:
Boa tarde!
Prezados Senhores,
desde já desejo muito BOA SORTE a todos.
Senhores, o Prêmio ideal Clube de Literatura foi antecipado para o mês de Dezembro de 2010.
Estou lhes comunicando caso o Convite ainda não tenha chegado em suas residências, pois os mesmos já foram postados.
Detalhes:
O Prêmio acontecerá no dia 16 de Dezembro (Quinta-feira) de 2010.
Local: Salão Nobre
Horário: 20horas
Traje: Esporte Fino
Mais informações: (85) 3248-5688.
Atenciosamente,
Caroline Gadelha.
++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
Caro Raimundinho:
Enche-nos de júbilo saber da sua caminhada evolutiva. És um testemunho vivo da brisa criativa espargida pela nossa Academia.
Confrades: mirem-se no exemplo desse Raimundo, Cândido no esmero do trato com os fonemas da fecundação.
Encerras o ano com o prêmio Ideal, que celebra uma das mais poderosas fêmeas da literatura nacional: Raquel de Queiroz!
Parabéns, poeta! De um canto da "goela" do Rio Poty fazes o conto, brinda-nos com o canto e revelas o encanto do telurismo sertanejo!
Na Paz,
Júnior Bonfim
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
EDITAL DE CONVOCAÇÃO
Crateús, 13 de dezembro de 2010
ANTONIO ELIAS DE FRANÇA
Presidente
sábado, 4 de dezembro de 2010
OBAAA!! VAI TER LANÇAMENTO DE LIVRO INFANTIL
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
JERI

Do outro lado um lugar especial,
Aguardava ansioso a nossa alegria.
Deixamos a areia contar nossos passos,
Subimos em busca da celeste atração;
Guardei meu amor nos braços
E, ao pôr do sol, fizemos nossa saudação.
Na diferença de tantas faces,
Vi o mundo ao encontro da natureza;
A noite, sem as luzes do disfarce,
Mostou na penumbra sua beleza.
De uma lua por estrelas enfeitadas;
Da paz entrelaçando os corações;
De ruas com artes nas calçadas;
De um vento que ecoa os violões.
Para mergulhar na luz do amanhecer
Em lagoas de águas azuladas;
Para ver o sol à tarde se esconder
Atrás de uma pedra furada.
Imprimir Jericoacoara na memória
É como sonhar de olhos abertos
E deixar registrado na nossa história
A viagem a um paraíso descoberto.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
MEU PRIMEIRO AMOR (Elias de França)
Ela foi os primeiros cabelos lisos a entrelaçarem minhas fantasias...
Os primeiros ombros morenos expostos que enxerguei,
a costa nua que inaugurou minha virilidade.
Um ralho seu valia um verso...
Quantas vezes, beliscava colegas,
à espera de ter seus dedos longos cravados na minha orelha!
Contava, um a um, os minutos das tardes;
à noite, ninava sonhos
e acreditava na manhã seguinte,
no reencontro com a professora.
Ainda hoje, me apanho a olhar ossos da clavícula,
palmados na pele de moças anônimas,
como que a tocar o corpo da tia...
As músicas da época ainda cantam seu olhar.
Gosto mais, nos novos amores,
dos traços iguais aos da professora.
Raimundo Cândido disse...
Nas suas traquinices carregadas de malícias corria-se o risco de um ralho mas gerou-se um verso... e valeu a pena!
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Amores
Carregam dores moderadas
Amores conformados
Sentimentos sem sentimentos
Escassez de versos: poesia em crise!
É, já não se ama como Vinícius
Muito menos como Jobim
Não se chora como Marias e Clarices - coisa de Elis
O exagero de roubar mil flores,
Só mesmo o de Cazuza
Ser capaz de perder o medo da chuva
Como um maluco beleza
Ter a paciência de esperar o segundo sol,
Ninguém melhor que Nando Reis
Mas o que mais desejo é carregar
A força e a coragem de Gonzaguinha
Pra começar tudo - sempre - outra vez
Eterno recomeço, "... nada foi em vão"
Nêga
domingo, 28 de novembro de 2010
ESCRITOR (Isis Celiane)
E às manhãs não vir a aurora
Mesmo quando tudo for nostalgia
Estaremos como agora
Mesmo que a lua perca seu brilho
E as estrelas se tornem frígidas
Mesmo que o frio nos faça tremer
Estaremos como agora
E não adiaremos para outra hora
O momento de escrever
Mesmo que nos faltem paisagens belas
E não tenha verão nem primavera
Estaremos como agora
E tudo é como era
Mesmo que o tempo passe
E a velhice venha nos tomar
De cabelos brancos e mãos trêmulas
Estaremos como agora
Mesmo que o nosso lugar se torne pequeno
E o nosso peito fique sereno
Estaremos como agora
E não adiaremos para outra hora
O momento de escrever
Mesmo que sejamos imperceptíveis
E os nossos versos ilegíveis
Estaremos como agora
Mesmo quando chegar nossa hora
E nossa alma tiver de ir embora
Estaremos como agora
Mesmo que já tenhamos partido
Se o céu nos for permitido
Entraremos como agora
E não adiaremos para outra hora
O momento de escrever!
terça-feira, 23 de novembro de 2010
O QUADRO DA SALA
Vinte anos afastado de sua criação,
Como um barco à deriva pela vida,
E as cores pedindo ajuda as suas mãos
Para darem formas as novas margaridas.
Então, pela cidade de Paraty, sentiu-se atraído
Como se aquele lugar fosse sua aquarela
Ao chegar, por um pássaro vermelho foi recebido
Quando abriu para o mundo sua janela.
Mas gente sempre foi sua verdadeira paixão
E os quadros foram chegando com rostos e cores,
Pintados sobre a lona de um caminhão,
Que de suas viagens traz remendos e amores.
Histórias foram completando seu ateliê e galeria,
Enquanto suas telas traçavam as rotas do mundo,
Mas no Rio de Janeiro existia uma sala ainda vazia
Em que um casal aguardava um quadro profundo.
Este em busca de uma arte que tocasse o seu ser
Até que um intenso azul iluminou suas retinas.
Nascendo nele, o ávido desejo de conhecer
O criador da pureza das duas belas meninas.
Os pincéis com suavidade traçaram linhas convergentes
E as vidas dos três se cruzaram na “Veneza Brasileira”,
Pois a arte que por sublimidade é atraente
Constrói entre as pessoas uma relação verdadeira.
Depois de apreciarem tanta beleza,
Em uma tarde, em tão agradável companhia,
O Casal sentiu no âmago a certeza
De que sua sala clamava por aquela alegria.
Então, foram surpreendidos pela nobreza do pintor
Que lhe propôs criar um quadro com seu gosto
E nas noites seguintes, a moça sonhou com a cor
Que daria vida a tela e cada rosto.
Já no aniversário dela, como se por magia,
Duas jovens de sombrinhas em tons vibrantes
Preencheram de encanto a sua sala vazia,
Tornando inesquecível cada instante.
(Silvia Régia Lopes Melo)
Elias de França disse...
Que belo poema, poetisa!
Como que pintando uma historia de vida, os versos vão pincelando as imagens de distâncias findas em doces reencontros, longas idas em coloridos chegares, saudades perdidas reachadas em novas invenções... pintada assim, então, a vida parece tela em aquarela!
Raimundo Candido disse...
Qur bom ter novamente a Silvia Régia por aqui, e agora bem mais colorida! Muito bom!
Isis Celiane disse...
Gostei muito! Versos doces e serenos como sua criadora. Parabéns, Dra. Sílvia!
Silvia Melo disse...
As palavras dos colegas: Elias, Raimundinho e Celiane seguiram em linha reta rumo ao meu coração.Obrigada pelo carinho!Silvia Melo.
sábado, 20 de novembro de 2010
INQUIETAÇÃO (Elias de França)
algo que sirva para alegrar.
Não é cantar, não é dançar,
não é correr, nem é parar.
Não é brincar, nem é brigar;
é uma vontade de fazer algo,
algo que sirva para alegrar.
Viver não serve; morrer, pior.
Tenho vontade de provocar um sono intenso,
não fosse dia de trabalhar.
Eta vontade!
Eta ansiedade!
Beber é ruim,
mas ficar lúcido me faz cismar:
serei só eu quem sente isso?
Essa vontade de novidade?
Estando em casa, quero o trabalho.
Vou trabalhando, me atrapalhando,
sempre pensando que estou cansando,
envelhecendo sem estar vivendo...
Um velho dirá que encontrou vida
nas margaridas, nas carraspanas,
na boemia, na fantasia...
E eu, poesia?!
De um baile a outro,
tanto me enfado que fico inchado,
sempre pensando que estou cansando,
envelhecendo sem estar vivendo...
Ah! Que vontade de novidade!
eliasdefranca@hotmail.com
RAIMUNDO CÂNDIDO DISSE:
Poeta Elias acho que já senti essa inquietação e tenho a impressão que é poesia borbotando das entranhas! Um abraço!
Raimundo Candido
ELIAS DISSE:
Fico aliviado em saber que "nao sou so eu quem sente isso, essa vontade de novidade"
E que mais poesia no sangue nos inquiete sempre
abraço
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
VIVENDO...
Da oportunidade a ocasião
Da palavra fiz a chave
Do sentimento a poesia
Fiz amigos inesquecíveis
Outros que se esqueceram
Fiz projetos “absurdos”
Alguns já realizei
Fiz do medo a coragem
E da coragem a ousadia
Do risco fiz a chance
Do abismo um alerta
Fiz das pedras obra prima
Dos desvios, novos caminhos
Fiz da vontade o que pude
E agora o que posso fazer?
Da interrogação alguns pontos
Três pontos infinitos para viver
...
Isis Celiane
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Ofícios e banhos no Poty
.........Ainda jorram impetuosas, aquelas águas barrentas de minha infância. Corre sobre minha pele um Poty translúcido e equídeo escramuçando entre rochas, com crinas ao vento nas tardes bucólicas. Creio que me tornei rio para fluir livremente desde o primeiro e delirante mergulho.
.......Era como sentir a quinta sinfonia beethoveniana que ia aumentando em vigor, suas notas aquosamente sonoras à medida que nos afoitávamos na sua nervosa correnteza. Para mim só houve segurança enquanto não aprendi a nadar. O pé ficava ancorado ao chão pelo medo de enfrentar a perigosa aventura das corredeiras da “Goela”. Sequer tinha aprendido a boiar como um cãozinho sobre uma porção liquescida e tranquila e já me achava destemido, com ânimo para enfrentar as águas que corriam céleres levando com selvageria a vida e a morte no percurso de rio que sabe ser fiel ao seu destino marítimo. O mar seria bem menor se faltasse uma só gota do Poty.
.........Posso dizer, com imensa satisfação e uma deliciosa nostalgia, que meus banhos no rio da caatinga brejeira foram inesquecíveis. Incomum era esperar pelo desfecho de janeiro, quando se firmam as temporadas de chuvas, para sabermos se o nosso amigo fluvial serpentearia ao nosso encontro repleto de algazarras, de prazerosos momentos em suas jubilosas margens.
........O mais importante daquele entardecer impetuoso, em meio ao caos da multidão irrequieta e dos riscos do volumoso rio com suas águas revoltas e turvas, a rodopiar os sonhos e os medos para a profundeza lamacenta de seu bojo, era o assombro que se estampara em nosso olhar, ao ver sendo arrastado de arrojo um atônito e pesado boi com seus olhos marejando um adeus como se um tronco lenhoso fosse, um troço qualquer. A felicidade também havia e rolava de nossos corações fluvio-sanguíneos por pressentirmos que a infância se salvaria nas brincadeiras salutares na beira do rio, pois o melhor antídoto para salvaguardar a meninice foi e sempre será, brincar.
.........Mas, às vezes, o Poty não estava para brincadeiras. Chegava como um cão raivoso para tomar posse de seu lugar. E lá estavam nossos familiares com os cacarecos na cabeça procurando mudança. Quando vinha nos seduzir em nossos quintais, víamos apreensão estampada nos olhos por mais uma ameaça de desocupação compulsória do que não era nosso, e esperávamos mais uma ordem de despejo. Ainda assim, nunca faltou motivo para nossos banhos.
........Vez por outra o Poty tem perda parcial de memória e esquece-se de voltar. Mas suas amnésias temporárias nunca prejudicaram a imersão fluente de nossas tardes. Ficavam os poços como que nos aguardando para substituí-lo. O Poço da Roça tinha um ar de mistério e de lenda no seu grande anfiteatro aquático de alta mata ciliar. Era nossa piscina olímpica, onde exercitávamos natação e a expectativa de sermos felizes sem ter consciência disso. Ali desenvolvíamos um particular amadurecimento quando a ingenuidade sucumbia à admiração de espiar as lavadeiras tais quais libélulas ensaboando roupas com uma naturalidade original de seus corpos seminus em linhas sinuosas, como as curvas do rio, para nosso deleite.
.........Lá, onde há a pedra da Mãe d’água, aprende-se a nadar. Tínhamos que passar por essa prova de coragem. Era nossa iniciação, para o conhecimento de coisas misteriosas e difíceis. Um enfrentamento ao submundo da escuridão para adquirir um oficio ou arte, nadar. Arrisquei por tentativas inúmeras, de elevado desespero, chegando ao ponto de sentir a mão fria e escamosa da Iara me puxando para seu reino de medo e lama, mas uma força mística dos céus ou da terra, ou um travesso duende, não sei, me fez voltar ao mundo dos vivos.
..........O Poty, como velho fênix que constantemente renasce de si ondulando como cobra em fluxo sonoro, um dia fixou um povoamento no mesmo espaço de terra onde outrora uma tribo rústica de nome Karatis da cor do mufumbo, ululava aos céus em danças de caça e pesca. O rio que avançava impetuoso, rouco, se contorcia, pulava e ria com sua graça meninil, ficou para trás.
.........Hoje, sentado à margem de seu doloroso curso, não vejo o sangue puro e plasmático, que nutria com hemácias e seiva o chão ávido e sedento. Não sinto o rio que vertia um sangue como no Nilo bíblico, cheiro forte e venoso quando eu o bebia... Hoje, à margem do Poty, com uma nostalgia profunda, eu me sentei e chorei... Sinto que ele escorreu pelas minhas mãos.
Raimundo Candido
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Elias de França Disse:
chico pascoal disse...
Meu caro Raimundo, que beleza de crônica! Parabéns!Lembrei do único ano em que estudei na antiga escola da Dona Delite e, travesso que era, inevitavelmente provei da "grande disciplinadora"; e, pasme, até senti saudades.um abraço
Sexta-feira, 29 Outubro, 2010

O Livro era volumoso para o tamanho diminuto do menino magricelo e ingênuo, também para a minha época de coisas escassas. O tempo achava-se carente de tudo, havia mínguas no ar e não se via à farta facilidade que se apresenta nos dias de hoje.
Acabara de deixar a terceira série, por meu brio estudantil. Pulava-se para a quinta série como um prêmio pelo esforço de aprender a aprender e de ser um dos primeiros da turma. Nunca mais no resto de meus dias tive esse avanço tão justo e tão estimulador. Título de meu alfarrábio: Programa de Admissão e ainda vinha carimbado na capa com a palavra “NOVO” escrita na diagonal.
Naquele dia, a lição de português era “Uma Tarde no Campo” de Érico Veríssimo que dizia de um vento fresco com cheiro de campo e de distância. O primeiro exercício pedia para dar o sinônimo das palavras: rutilante e cintilação. Na folha anterior havia o Vocabulário, era só olhar e ler e nunca mais esquecer tão belas palavras. Acho que realmente brilhei enquanto pude, resplandeci com o texto de Veríssimo até não poder mais, porque depois me veio um apagão. Se tremeluzi foi pelas faíscas que chegavam a sair da barra da Maria Bonita!
Foi assim: nas Capitanias Hereditárias, eu dormi no ponto! Como de costume colocava uma cadeira voltada para a parede, para não ter desvio de atenção, mas a desatenção habitava em mim. Não sei por que se inventou a bola, redondinha como o planeta, mas que seduzia meus pés e os meus indolentes neurônios a ponto de não pensar noutra coisa a não ser sonhar. Imaginava que um dia iria ser jogador de futebol. Só eu não via a falta de habilidade e de talento para tal artimanha, mas sonhava. Fiz gols que nem Pelé ousaria, driblei zagueiros que ficaram mais zonzos que os “Joões” a quem Garrinha driblava. Cheguei a ler, sim, o sistema de capitanias, a de São Vicente, a de Pernambuco e as dificuldades do regime. Li e reli tentando fixar em minha mente esvoaçada aquela confusa lição.
Em volta da mesa as perguntas caminhavam. A minha vinha chegando e com ela uma angústia, uma agonia que acabei me acostumando no transcorrer de minha vida. A aflição é um dos motivos que trava a vontade da gente. Descobrir isso aos pouco e dolorosamente! Mas sempre se aprende, por dor ou alegria.
- Quais foram as principais causas que impediram o progresso das capitanias?
Silêncio no ar. Não havia resposta, pois as palavras não passavam por uma garganta onde estava dado um nó. Novamente a pergunta. Novamente o ar silencioso de um indivíduo taciturno e atônito por aquele momento de aperto.
_ A pergunta é sua, meu Doutor! Responda! Inquiria-me a mestra. Não ouve resposta, porque eu não sabia. Ali, provei mais uma vez, da dura reputação da Maria Bonita.
Recordo destes momentos com alegria, como algo de bom de meu passado escolar e não como um estorvo marcando a minha trajetória. Quem passou pela palmatória e foi pelo menos um estudante mediano, a recorda com carinho, e não como embaraço. Foi à disciplina que torceu o pepino desde menino e não deve ser esquecida.
Se você nunca levou um bolo, um castigo de palmatória, mesmo de leve, saiba que ela emite chispas metálicas fosforescentes sempre que entra em contato com a palma da mão, tentando arrancar os saberes pelos poros e eliminar as ilusões que afloram em nosso céu tornando a dar asas às palavras que ficaram presas num chão de chumbo.
Não vou entrar no mérito se a palmatória foi um erro ou um acerto ou sobre seu valor como instrumento pedagógico. Nem quero resgatar rigor do autoritarismo da educação tradicional.
Estou recordando, saudosamente, a pedagogia da palmatória que fez parte de uma época aqui, na Europa ou no Japão e tenho convicção que ela educou sim.
Vivemos numa época de crise de paradigmas, inclusive no campo da educação. Os pais, em sua maioria, não educam e esperam que os colégios e os professores assumam essa digna e difícil missão. E ambas as estruturas, quase sempre, caem em armadinhas que geram falhas educativas. Educar sem traumas, sem castigos e punições requer uma arte e uma nova ética que poucos ainda dominam com eficiência, lamentavelmente.
Pressinto que algo tem que mudar urgentemente, para acabar com tanto fingimento. Os estudantes não têm mais o que se preocupar: eles fingem que aprendem, os professores fingem que ensinam, a escola finge que vai reprová-los, as faculdades fingem que fazem um vestibular e novamente os alunos fingem que estudam, a sociedade finge que os aceita. E eu fico, aqui, recordando da Maria Bonita que fez parte de meu amadurecimento como ser humano e nem estou tão traumatizado assim.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
EDITAL DE CONVOCAÇÃO N° 02 PARA REUNIÃO ORDINÁRIA DA ALC
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
UM PALHAÇO NO PARLAMENTO
Isis Celiane.



