segunda-feira, 25 de março de 2013

Expedito de Paiva – Um Gênio!




Havia uma intensa satisfação nos rostos daqueles jovens que, desde cedo, esperavam na calçada da Rua Firmino Rosa, pela abertura de um estreito portão de ferro. Notava-se, atrás de um longo muro, o prédio alto e amarelado que para uma igreja só faltava as torres. Os inúmeros batentes da entrada principal davam para uma robusta e desgasta porta de madeira, aberta de par em par, onde se postava o Pe. Bonfim, rígido sentinela dentro de uma moralizante batina preta, a inspecionar os mínimos detalhes dos uniformes dos alunos do Colégio Pio XII. Um desleixozinho de nada e um olhar enérgico os mandavam de volta, para casa.

Os alunos, disciplinadamente, dirigiam-se às filas na quadra de futebol, ao lado. Ouviam as prédicas do dia, cantavam-se hinos e, enfileirados, entravam nas respectivas salas de aula.

No Primeiro Ginasial, naquele dia, haveria aula de canto Orfeônico. Um senhor, de tez morena, alto e robusto, aparentando certo rigor, mas que na realidade não passava da personalização da Serenidade, chegava à porta e, num gesto de respeito ao mestre, os alunos se levantavam.

 – Vocês podem se sentar, meus queridos! Solicitava, mais que ordenava, o Professor Expedito Paiva com uma brandura como se dirigisse aos próprios filhos. Tal o deus grego Orfeu, que tinha o poder de cativar os animais e as aves por meio da canção lírica, o mestre também possuía um talento extraordinário para a arte musical, para nos deleitar com suas melodias.

Na aula de técnicas vocais, começava mostrando a forma correta de respiração, depois vinha a impostação de voz. Ele verificava, um a um, a aprendizagem dos seus orfeões. E, carinhosamente, os corrigia. Achega-se ao irrequieto filho do Senhor Manoel Ferrim, e aconselha: - Oh, Zé Arteiro, meu filho, música é alegria sim, mas se concentre!  Já para o menino do Senhor Zé Claudino, um vizinho na Praça do Barrocão, afirmava: - José Almir, respire profundamente, emita o som com calma e firmeza! O futuro grande orador, sofregamente, absorvia as lições daquele professor multi-instrumentista autodidata, para suas atividades futuras, tanto na profissão de advogado, quanto nas astúcias da política.

Na sala vizinha, a Professora Rosa Morais, que passara uma atividade sobre os prefixos gregos e latinos para os alunos do Segundo Ginasial, ouve as explanações do Prof. Expedito e fica a imaginar que só numa mente brilhante como aquela, onde a harmonia musical lapida os hemisférios cerebrais em pura sensibilidade e alto intelecto, pode surgir um anjo de bondade consolidado num admirável gênio, e que está ali, a ministrar aula para os alunos privilegiados do Pio XII!

Um dia, nos bamburrais da Serra de São Benedito, o menino Expedito procura, com muita atenção, um pedaço de talo que já esteja maduro e seco, corta-o, remove os nós internos, serrilha o bico, faz os orifícios de acordo com as notas musicais que sua intuitiva audição determina e, constrói seu primeiro instrumento musical, passando no teste de iniciação, indicando para àqueles que o ouvem tocar na Flauta de Pan, que nascia um prodígio. Seu irmão mais velho, Raimundo de Paiva, companheiro de longos duelos no repente e nas noitadas de reisado onde se improvisavam de cantadores de Reis, alerta à jovem e futura esposa do determinado Expedito: - Tenho certeza, Antônia dos Anjos, que meu irmão nasceu para a música!

 O 4º BEC, quando soube da existência de um músico completo naquela cidade serrana, o mandou buscar para resolver os problemas na Banda Militar e enquanto o Batalhão ganhava um funcionário especial, a cidade de Crateús obtinha um filho exemplar, que muito contribuiu na sua formação artística.

                O Padre Bonfim, além de tê-lo como professor e bedel, convidava-o para auxiliar nas missas dominicais onde tocava emotivas músicas religiosas no órgão da igreja. Expedito de Paiva concebia músicas em partituras como sopros celestes, como objeto de natureza divina que usava para o engrandecimento da alma, surgindo daí sua extrema religiosidade.

                Na Escola Técnica de Comércio Pe. Juvêncio, foi aluno e Inspetor de Disciplina de fazer inveja ao indiano Mahatma Gandhi, com sua bondade e imensa paciência ao peitar os indisciplinados alunos “Meus Santos, não façam isso, não!” e a indicar, como o líder pacifista, que não existe um caminho para a Paz. A Paz é que é o caminho.

                Inspiração não lhe faltou para pôr em música os versos do Dr. Antônio Carlos Barreto, numa mistura de cantos de natal, banda marcial temperado na flauta doce: ”Dentre as águas do rio junto à serra / Pequenina cidade surge um dia / Entretanto, a grandeza já se encerra / Em seu porte real de fidalguia...” Presenteou-nos ele, com uma melodia belíssima, no Hino de Crateús!

                O primeiro conjunto oficial, que o apresentou ao povão, foi Os Dragões, mas logo mudou para Os Diamantes, uma banda do Batalhão, formada pelos companheiros Bodinho, Garrincha, Caquinho (Joaquim Bonfim), Dede Garçom, Paulo Sovela, Marcelo e Deoclécio na época áurea dos grandes clubes da cidade: Crateús Clube, Caça e Pesca, Sargento Hermínio e AABB. Apresentaram-se até em cidades distantes, como em Barreiras, na Bahia.  Os crateueses mais velhos ainda recordam dos carnavais memoráveis, quando os foliões iam dormir com o som do Trombone de Vara de Expedito, ainda retumbado nos aturdidos tímpanos. Um artista que domina a sua obra em detalhe e em perfeição, a obra também o domina e por isso mesmo era requisitado a todo instante.  Todo seu tempo era para a música, mesmo em casa não descansava, sempre tinha turmas de jovens que queriam aprender a tocar violão.

                Concordo, quando dizem que aqueles eram tempos de facilidades, mesmo aparentando ar de carências, coisas que a gente nem notava. Hoje se tem tudo e tudo é uma proposital dificuldade. Desde 2008 que se publicou uma lei obrigando as escolas brasileiras a reintroduzir a música nos currículos, os instrumentos estão ai, jogados num canto, se despedaçando pelo abandono. Na época do genial Expedito Pereira de Paiva havia erudição nos colégios, existia uma preocupação com a educação integral do cidadão e até com o seu desenvolvimento artístico, inclusive que fossem musicalmente alfabetizados.

                Naquela manhã do dia 25 de março de 1963, em frente a Guarda do 4º BEC, uma animada turma de funcionários espera por uma condução para o centro da cidade. Eles notam, no rumo da estrada da Independência, uma poeira subindo e rapidamente se aproximando. O Jipe Azul do Senhor Zé Ziziu Martins atende ao sinal de mão, aos que lhe pediam carona. O motorista conhece o músico Expedito Paiva e mal se cumprimentam, já sobram na próxima curva em frente a um depósito, atualmente, da Tropigás.  O jipe vira, tombando diversas vezes e perdem a vida o motorista Zé Ziziu e outros dois companheiros. O Músico Expedito de Paiva leva uma enorme pancada na cabeça que deixa sequelas gravíssimas, dores irremediáveis, inclusive uma cicatriz de lembrança.

                Naquela manhã, de um ensolarado domingo do ano 1970, com a Matriz repleta de fiéis, os cantos iniciais estavam só começando, quando várias pessoas correm para socorrer o Senhor Expedito, que parara de dedilhar o velho e surrado órgão, o qual preenchia a nave da Igreja do Senhor do Bonfim com um som de esperança e fé.  Subitamente, a música se extingue, pois o músico se desequilibrara e caíra, ficando estendido no chão, fora acometido de um seríssimo AVC. Saíra de casa, no intuito de regressar e não mais volta para um merecido repouso dominical, ao lado de sua esposa, a Senhora Toínha de Paiva, que teve, então, de criar sete filhos pequenos, no zig-zag de uma máquina de costurar.

                 O seu gênio musical ficou registrado na história, como um impressionante ser humano que aprendeu, num esforço solitário, a mostrar-se em bondade, como a um hino. E a comoção na cidade pelo falecimento de Expedito de Paiva foi tanta que o povo, desolado e em peso, foi dar o último adeus àquele que nos deixou sábias lições de vida e nos deu exemplos de genialidade, ao tocar, praticamente todos os instrumentos musicais, com ardor na alma, como se entoasse a luz divina. 


Raimundo Cândido.

João Silas Falcão Soares disse...
Excelente relembranças,poeta Raimundinho. Lembro-me com clareza a alta e disciplinada figura do seu Expedito Paiva. Muito religioso e rigoroso mas não sendo áspero, inconveniente com seus alunos. Parabéns.

José Alberto de Souza disse...
Comparo a música ao esporte (ou outra atividade qualquer) - tanto um como outro requerem uma disciplina constante para que se domine a sua arte, principalmente por parte daqueles que não dispõem de um dom inato. Já me disseram que existem técnicas para desenvolver a divisão musical, a grande dificuldade de quem não nasceu com o ouvido pronto para discernir qualquer tipo de harmonia.
Crateús, pelo visto, tem sido aquinhoada com notáveis artistas que souberam transmitir aos iniciados seu talento e habilidade. Invejo sua gente por tudo que estes lhe proporcionaram.
Minhas aulas de canto orfeônico, onde apenas um aluno conseguia assimilar as lições de um velho mestre, enquanto os demais se perdiam no entendimento de semifusas e bemóis, dispersos numa algazarra que fazia Maestro Raffo bradar:
- "Afinal isto aqui é uma aula ou uma jaula?"

sexta-feira, 22 de março de 2013

Dideus Sales


Vida de poeta é cansativa, mas e a de poeta mesmo, dos grandes! Dideus Sales, para homenagear o Rei do Baião, preparou uma justa e bela homenagem, um senhor Livro: “Luiz Gonzaga muito além de um Sanfoneiro”, magnificamente ilustrado por Audifax Rios, que foi lançado dia 4 de abril em Fortaleza, dia 12 de Abril em Tamboril e agora se encontra na Cidade Maravilhosa participando de umas plenárias na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, da qual é membro. De lá parte para a região dos Lagos, pois ninguém é de ferro, precisa descansar! Valeu Poeta, você é um dos nossos maiores patrimônios, leve o nome de Crateús a toda essa região maravilhosa.  Venha, logo, lança este livro aqui na terrinha!

quinta-feira, 21 de março de 2013

De Cangaceiro a Cartãozeiro



A poesia, voz das paixões, clamor das visões, é a verdadeira espada do espírito literato, mesmo que isolado no seu mundo por um mero obstáculo físico, ele, o vate, se conecta como um fantástico Dom Quixote de antena sensivelmente em riste, na repentina defesa da vida e da paz. O aguerrido poeta Lourival Veras pintou, recentemente, uma bela crônica com cortante indignação, fina ironia e incisiva sublevação “Violência em Crateús: quem se importa?!” que começa assim: Tá lá o corpo estendido no chão! 14 furadas! E afirma: “Violência é morte matada. E essa, benza deus!, quase não vemos por aqui”. Foi um ser humano e não um indigente... Se indigna com o descaso da população.

Fico a pensar na narrativa do poeta e na condição humana, que nos faz agir assim. Será o potencial biológico de agressão preservado em nossa parte animal, refreada pela longa evolução ou uma atitude apreendida socialmente desde a lei de talião, do dente por dente e olho por olho?

Não faz muito tempo, uma delegação de escritores de Academia de letras de Crateús foi à Teresina, capital do Piauí, em busca dos dados iniciais de nossa história. A surpresa ficou por conta de caixas e mais caixas com amarelados papéis, no antigo prédio do Instituto Histórico e geográfico- IHG, confirmando que a Villa Príncipe Imperial piauiense, já quase cearense, não passava de um caso de polícia. Versa um trecho do poemeto de Raimundo Cândido sobre o Crateús de então: “Desde lá, que se perdem as esporas, / e ganham em incitamento e júbilo. / Aqui, subtrai-se o bridão e o estribo. / E nunca mais se reverenciou a Oeiras. // Nem o calor do sopro monárquico / reina mais na remota Príncipe imperial, / a poeirenta Villa, que nunca se dobrou, / nem ao ferro nem ao fogo da lei.”

E sobreveio o cangaço, oriundo desta remota época. Lê-se, no livro Rastro de uma Caminhada do Pe. Heleno, na página 130: Entre 1871 e 1874 o cangaço se fez presente em Crateús, capitaneado por Manoel Ribeiro de Melo, desertor do 14º Batalhão de Infantaria. Nos Livros: Meus Avós de Raimundo Raul Correia Lima, no Bacamarte dos Mourões de Nertan Macêdo e no País dos Mourões, de Gerardo Melo Mourão, confirma-se a epopeia sangrenta da guerra fraticida entre os Melos e os Mourões, nos sertões de Crateús.

Uma sequência de destemidos crateuenses, como os mandacarus do sertão, vai brotando até chegar ao cangaceiro Alexandre da Silva Mourão IV, juntamente com seu irmão José de Barros Mourão (denominado “O Cascavel”, que amargou anos de prisão na horrorosa cadeia municipal de Crateús, situada no prédio quadrado da atual prefeitura, aonde veio a falecer) usavam os incansáveis Bacamartes de boca-de-sino, cuspindo fogo e nutrindo um desprezo profundo pelos soldados do governo.

O Governador da Província, José Martiniano de Alencar, tinha ojeriza aos cangaceiros que não rezavam pela sua cartilha (Partido Liberal) e a pedido de Dom Pedro II, decreta a destruição dos Mourões de Crateús, a terra de criminosos, de coito de bandidos, país de facínoras e valentões cangaceiros ferozes e desalmados. O 2º Tenente de Artilharia Félix Bandeira, com uma volante de 40 praças, andou no encalço dos Mourões, pelos lombos da Serra da Ibiapaba e nos descampados dos Sertões, até cansar. Relata o Tenente a seu chefe, o Pe. Benze-cacete, como o chamava o bandoleiro Mourão IV, em 02/05/1835: “... continuei minha marcha e corri todos esses Sertões de Crateús, porém não foi possível achar nem ao menos notícias dos facinorosos e, fazendo ponto nesta Vila, recebi um recado dos ditos, mandando-me desafiar, para o campo da Fazenda Jardim, onde me esperavam para se bateram comigo e, aceitando eu este desafio, mandei somente 20 soldados a cavalo, deixando o restante a pé, e apresentei-me no distante campo, não encontrei pessoa alguma...” O militar engoliu a artimanha e, mais uma vez, os Mourões fugiram.

Até o Presidente da província do Piauí, Brigadeiro Manoel de Souza Martins, Barão da Paraíba, que proclamara a independência de Oeiras, queixava-se do fato de que os Mourões de Crateús serem batutas na cabala eleitoral, agindo eficazmente nas eleições populares, conseguem ser camaristas, Juízes de Paz, Municipais e Promotores, não obedecendo, por isso mesmo ao Governo.

Sem contar as dezenas e dezenas de assassinatos a sangue frio, vinganças em cima de vinganças, culminando com homicídio, perversamente cruel, do Pe. Inácio Viera de Melo por motivos políticos. No livro Meus Avós, pág. 167: “1849 a 1851 – Enfrentam-se Mourões e Melos nos Sertões de Crateús por questões de sobrepujanças. Nestas intrigas, estavam envolvidos os Feitosas do lado dos Melos e membros da família do Francisco Fernandes Vieira, o Visconde de Icó (Carcarás) que bafejavam do lado dos mourões”.

Conde de Sabugosa, em 1735, em carta ao Governador de Pernambuco Duarte Sodré Pereira, um descendente do Castelo Garcia d’Ávila ou a Casa da Torre na Bahia, afirmava: “o Ceará tem em si quantas legiões de demônios há no inferno, e já considero que nenhum ouvidor, fará ali bem a sua obrigação...”

Parece-me, caro amigo poeta Lourival Veras, que, por aqui, os demônios continuam bem soltos, como na época da velha e poeirenta Vila. Num desses programas de TV, que mostram a violência do dia-a-dia nas cidades, o entusiasmado repórter narrava um acidente na capital cearense: “O elemento evadiu-se rapidamente do banco e começou a perseguição policial. Não deu sorte, pois na fuga em alta velocidade, o carro foi a se chocar num poste, vindo o elemento a falecer no local, e anuncia os dados do fugitivo: Fulano de tal, solteiro, 21 anos, natural da cidade de Crateús, cartãozeiro que tentava instalar um “chupa-cabra” numa destas máquinas eletrônica de uma agência bancária. O Nome do “Fulaninho” não me era estranho e recordo ter sido meu aluno, medianamente esforçado e tranquilíssimo, num dos colégios da cidade.

Recordo que tudo começou no seio de uma única família de sete irmãos, afeito aos Mourões, só necessitou de uma bagatela do irascível sabor violento, como uma pitada de fermento que contamina toda a massa.

E as notícias, envolvendo o nome da cidade pelo mundo, não são nada alvissareiras: “Um cartãozeiro foi fuzilado na calçada de um supermercado localizado na Av. Santos Dumont, no bairro Papicu, em Fortaleza, no início da noite desta quarta-feira. De acordo com a polícia, o cidadão da cidade de Crateús, de 42 anos, era o cartãozeiro mais conhecido da polícia do Ceará. Noutro importantíssimo jornal: Foi deflagrada, na cidade de São Paulo, a operação “Boca de Lobo” onde foram presos cinco cearenses, das cidades de Novo Oriente, Crateús e Independência, conhecidas como triângulo dos Cartãozeiros. Antes, os acusados tinham instalado um aparelho de leitura e filmagem conhecido como “chupa cabra” em um dos caixas eletrônicos da agência e, de acordo com o delegado titular da 20ª DP, os golpes aplicados pela quadrilha podem chegar a R$ 1 milhão. O Delegado, ironicamente, ainda perguntou na frente das câmaras de TV: - Gostaria de saber onde fica essa Faculdade de Cartãozeiros, se é em Crateús, Novo Oriente ou Independência!

                Enquanto isso, pelas ruas da cidade, alguns jovens desfilam, vistosamente, em Dodge Ram, Fiorinos e Camaros, estimulando o desejo na imatura juventude à incautas e perigosas aventuras em busca da satisfação imediata de seus anseios.

                É meu caríssimo poeta, a indignação é uma moeda rara nos dias de hoje. Quando no recente Carnaval, pelas ruas da cidade, uma colombina puxou de uma peixeira do cós e esfaqueou outra animada foliã, por um simples olhar atravessado, percebi que o bom senso e o equilíbrio de nossos dias estão, irreversivelmente, sem controle.

                Tá lá, mais um corpo estendido no chão! Mas vale seu grito de alerta, poeta, pois a violência não se restringe aos atos físicos, ela vai muito além, a maior violência está presente na omissão dos mais poderosos quanto à defesa dos mais fracos em seus direitos à moradia, liberdade, salários justos, saúde e educação.

                Por enquanto, meu digníssimo Dom Quixote, vamos nos sublevando sim, pois a indignação ainda é o ato dos seres mais nobres!

              Raimundo Cândido   
 Zacharias Bezerra de Oliveira disse...

É vero, meu caro! Há muita safadeza, mas a desigualdade é gritante e o poder público omisso contribui muito para essa violência constante!

sábado, 16 de março de 2013

Os Profetas da Chuva



O sertão é um inexplicável lugar de milagres que nos seduz e nos inspira, mesmo pelos raríssimos prazeres que colhemos entre laboriosas dificuldades. Ele faz com que a gente enfinque raízes no chão, inospitamente seco, mas não nos educa como bem educou as plantas xerófitas para sobreviver no semi-árido mortificante, adequadas a hibernar em vida latente no penoso verão. Nós, sertanejos obstinados e subordinados ao duro agreste inadaptável, padecemos à falta d’água e afligirmo-nos ao ver o espírito da natureza sendo alquebrado pela cruel sequidão, lamentando o triste mugido do gado, sem ter o que comer e sem ter o que beber.

Disse, Leonardo da Vinci, um dos grandes sábios da humanidade: "Se tens que lidar com água, ou com a falta da mesma, sonda primeiro as experiências, depois consulta a razão". Antes de cair, num chuvisco fino ou como uma chuva medonha diluindo-se jubilosa, espargindo o perfume da terra molhada, ela dá um indício que vem. E alguns sertanejos sabem discernir os aspectos indicativos dos céus e os ocultos sinais da natureza. Formados nos descampados do sertão, como os profetas bíblicos que são produzidos nos desertos áridos, os adivinhos, como os cangaceiros, os beatos e os penitentes, estão profundamente identificados com os efeitos inevitáveis das secas. Ela, voraz e perversa, sempre vem e mata tudo: a roça, o curral e o lar, e só deixa uma nesga de esperança, inseparável da rija alma do rústico homem do campo, como seu último e doloroso bem, afixado nas fibras do coração.  

Dizem, os doutos, que nessas épocas difíceis, dos bichos de fôlego só escapa mesmo o fole.  E o sertanejo sabe que é bater os paus da porteira, se benzer e esperar, esperar somente... Por isso, é bem vinda a boa previsão dos profetas agricultores que aparecem, um em cada lugarejo, um em cada rincão. Desde que o monge capuchinho Frei Vidal da Penha, nos idos de 1870, missionou pelos Sertões de Crateús profetizando que a Praça da Matriz seria uma cama de baleia – no mínimo já prevendo chuvas para o Lago de Fronteiras – ou de quando os índios da Ibiapaba trucidaram o Jesuita Francisco Pinto e percorriam em procissão pelo cume da serra, com os ossos do velho padre a chocalhar dentro de um cesto de taquara de cipó, a implorar chuvas, que o rústico agricultor aprendeu a fazer previsão.   

                E os indícios da natureza são tantos: a floração do juazeiro em setembro, que é também o mês do ipê florir e dá frutos e do mandacaru em fevereiro que são bons sinais de quadra invernosa. A brisa fria do vento do “Aracati” se repetindo todo dia 18, de junho a setembro, é também um sinal. Verifique as alterações dos movimentos das formigas, dos cupins, dos sapos, das lagartixas, das cigarras e dos maribondos com suas casas nos cantos das varandas. Mas se um pássaro chamado joão e sua companheira maria-de-barro fizerem uma casinha com abertura para o poente, teremos muita chuva, sim senhor! A primeira lua de janeiro deve ser “atoalhada” por uma forte nuvem e se você puder, de uma olhadinnha no pé da orelha de um jegue, estando suado, é muita água por vir.

                Houve época em que nas Carrapateiras, Distrito do Realejo, na frente da casa do Senhor Firmino Barbosa, pai da Chica do Zé Dobrão, à tardinha, numa longa tora de madeira apoiada por reforçada forquilhas, os trabalhadores da roça iam se abancando para ouvir o profeta Firmino: - Vocês notaram como os mandacarus já estão florindo, é muita chuva! Eu percebi também umas alterações na estrela-d’alva! O Profeta do pé da serra já misturava os observações dos astros com as coisas da natureza, buscando uma melhor previsão.

                Na localidade de Jitirana, no rumo do açude carnaubal, o Zé Balé e o Juvenal Paraibano eram insistentemente procurados por previsões meteorológicas e também por outro dom preciosíssimo. Eles adivinhavam aonde havia água rasa nos subsolos, com ajuda de uma varinha bifurcada de madeira e um peão a girar, dependurado num cordão. Seguravam a forquilha com as palmas da mão para cima, envergando a outra extremidade para o chão. Quando a vareta vibrava era por que já estavam passando por cima de água subterrânea. Possuíam uma sensibilidade às radiações telúricas como se o próprio corpo fosse um campo magnético a detectar o valioso líquido debaixo da terra por meio daquela anteninha de madeira.   Os técnicos, atados aos conceitos científicos, chamam isso de radiestesia humana. Quando os músculos do Juvenal começavam a vibrar, uníssono à pontinha da forquilha, ordenavam: -  É aqui, podem cavar que tem água! Uma probabilidade de acerto de 100%!

                Outro profeta que dificilmente errava uma previsão era o Senhor Citó Mourão, morador da localidade de Tourão. O rico fazendeiro Raimundo de Pinho, apressado (Dizem que os Taiocas são assim mesmo!) em comprar uma partilha de gado de um amigo aperreado, consulta o Citó, que logo o avisa: - Raimundinho, as águas este ano são fundas!  E o fazendeiro desiste do negócio. Com a quadra invernosa se mostrando muito boa para o gado, Seu Raimundo de Pinho volta para reclamar do adivinho: - Mas Citó, você me deu um prejuízo! O profeta se defende, apontando o Riacho Tourão, ali, nas alturas: - Entre aí, Raimundinho, e veja se as águas não estão fundas!

                Dou crédito a um especialista quando este acredita no que diz, principalmente se passou a vida inteira observando os sinais proféticos da natureza e dos astros. É o caso do Senhor Ossian Machado Portella, um aposentado da Coletoria Estadual, tal qual o guerreiro e poeta irlandês, também chamado Ossian, gerador das genuínas baladas provenientes da Escócia. O profeta crateuense afirma, peremptório: - Professor, as observações na natureza são para as previsões imediatas, de pouquíssima duração. Eu me oriento pelos astros, sou um seguidor do inglês Mister Huss, o engenheiro que construiu as primeiras estradas de ferro de São Paulo até o Ceará. E o Senhor Ossian continua a me dar aula sobre Francis Reginald Hull e sábias lições meteorológica:  - A linha ferroviária da Serra do Mar, onde a gente ver incríveis obras de arte, como três túneis belíssimos, três viadutos com estrutura metálica, viadutos sobre pedras e trinta eclusas abobadadas, foi ele quem executou. Por aí, você tira meu amigo!  Ele pesquisou, incansavelmente, o fenômeno secular das secas no nordeste e descobriu que havia um estreita correlação entre a frequência dessas anomalias meteorológicas e o ciclo undecimal das manchas solares. Ao apresentar o famoso Diagrama das Secas tornou-se a maior autoridade em estudos climáticos do Nordeste . Este sábio engenheiro criou um amor tão grande pelo Ceará que um dia aspirou assim: "Desejo que após a minha morte, meu corpo seja envolvido na bandeira da minha pátria e que aos meus pés sejam amarradas barras de ferro da usina da Ceará Light, em seguida coloquem-me numa jangada e lancem meus despojos mortais a três milhas da costa cearense.”

 Ossian continua: - Estou de olho no El Ninho, que é uma explosão dentro do Pacífico, na sua massa de ar quente que se atravessa sobre o Estado de Minas impedindo a passagem de chuvas para o Nordeste. Vou vigiar, também, a linha do sol sobre o equador na passagem do equinócio, que é o um fenômeno do qual a Igreja tira proveito, para o dia 19, o dia de São José. E qualquer novidade eu lhe aviso, meu amigo!

Fico a imaginar como seriam os funcionários da FUNCEME com o denodo deste cearense no desejo de prever as chuvas ou a falta delas, depois que captam os dados dos céus, da terra e do mar, coloca nos melhores computadores para analisar, e ainda vão à imprensa, escrita, falada e televisiva, só para se vangloriar.

Vi, recentemente, um dos grandes pecuaristas de nossa cidade bastante preocupado, o Senhor Milton Menezes que, dia a dia, observa contrito, o seu gado morrendo. Liga para o filho, Cândido Neto, em Fortaleza: - Netinho, que você me diz das previsões? E o Cândido Neto, com fina ironia pelas previsões oficiais, responde: - Pai, por aqui só tenho os dados da FUNCEME, que não tem perigo de errar, ela ousa afirmar que, este ano, o inverno vai ser abaixo da média. Desanimado, Seu Milton desliga o telefone, o semblante cansado é um pálido desalento e fica, como todo criador crateuense, com vontade de bater os paus da porteira e se benzer, esperando pela maior alegria do sertanejo, que é ouvir os pingos tamborilando nas telhas, como música, onde cada gota cadente é um hino uníssono e festivo de ninfa vivificadora: a chuva!

Raimundo Cândido


Zacarias Bezerra de Oliveira disse...

É a sabedoria popular dizendo que o Homem precisa, antes de tudo, aprender a CONVIVER com a seca e não com bater. A natureza é sábia e se adapta ao meio. O Homem teima em lutar, em ir contra e sempre se dá mal, acaba não tirando proveito do seio
José Alberto de Souza disse...

A sua crônica me fez lembrar do filme Dersu Uzala - um dos melhores que já assisti - sobre um habitante solitário das florestas da Sibéria que serviu de guia a um oficial do exército russo, auxiliando-o em tarefas de demarcações territoriais e impressionando-o por seu conhecimento intuitivo, tão semelhante às observações telúricas do sertanejo.
É o homem despojado da tecnologia que se vale da contemplação da Natureza e que dialoga com ela na ausência de qualquer contato humano.

terça-feira, 12 de março de 2013

O poeta José Coriolano voltou


A noite de sexta-feira (8) teve um calor especial misturado àquele natural da seca que assola nosso Nordeste querido. Depois de uma ausência de anos, eis que voltou ao aconchego dos que lhe querem bem o "príncipe dos poetas piauenses", o crateuense José Coriolano. Voltou dourado, anunciando um futuro mais promissor às letras locais. Voltou para emprestar, uma vez mais, peso à já rica e extensa história cultural de Crateús. Voltou para juntar-se a panteões da altura de Dom Fragoso e Padre Alfredinho (que adotaram Crateús e seu povo como morada e missão de amor), para ombrear batalhas tão épicas quanto a travada pelas ruas da cidade contra os "revoltosos" de Carlos Prestes, para apreciar coisas simples e belas do dia a dia, praticadas anonimamente por cada um dos habitantes deste torrão amado. 

Segundo o poeta Raimundo Cândido, membro da Academia de Letras de Crateús e responsável, juntamente com Edmilson Lopes Providência, pelo resgate do busto do poeta José Coriolano ao seu lugar de origem, um dia o grande poeta Gerardo Melo Mourão olhou o vazio da praça e cobrou: "Meu povo, cadê o Coriolano?" Pois bem, José Coriolano de Souza Lima está de volta! E continua a entoar Crateús: 

"..... terra, onde a alvorada 
Primeira pra mim raiou! 
Onde a primeira morada 
Meu pai querido assentou! 

Onde o galo, à madrugada 
Cantando me despertou! 
Onde à primeira alvorada 
Ouvi-lhe o có-corô-cô!" 

Sua festa de retorno foi linda, bem ao gosto do poeta – que certamente estava por lá, dando uma conferida. As fotos abaixo (de autoria de Carlos Henrique) dão uma ideia de como foi um momento cultural gostoso e de que a cidade precisa vez por outra. 

Entre os presentes, dona Rosa Moraes (agraciada com uma bênção papal), seu Ferreirinha, autoridades municipais e eclesiais, população em geral, além do trineto do poeta, Ivens Roberto de Araújo Mourão, que fez doação dos originais do poema Crateús à Academia de Letras de Crateús. 

É válido ressaltar que o retorno do poeta teve a contribuição inestimável da Prefeitura Municipal de Crateús.



















quinta-feira, 7 de março de 2013

Uma Prosa para uma Rosa!


No final da Rua Cel. Giló avista-se o solitário Casarão dos Morais. Na sala de estar, repleta de quadros, exibem-se os vultos que outrora se abancavam na calçada para uma genuína prosa sobre o imponderável tempo, arrematando as conclusões da vida. Hoje, estamparam-se nas paredes, numa saudosa galeria mnemônica. As janelas abertas, de par em par, observam atentamente os inquietos transeuntes que passam rumo ao Bairro dos Venâncio. Havia, até recentemente, mais o que se ver, porém o impiedoso tempo corroeu a robustez das coisas e as volúveis lembranças. Um frondoso Flamboyant, fincado em frente à senhorial casa, é testemunha daquelas fulgurantes eras.


Às vezes o intempestivo rio, que passa ali em frente, ilhava o casarão. Irrequietos remos de canoas, num esforço hercúleo, trabalhavam para ir de uma margem a outra. A meninada, em algazarra, fazia estripulias nos banhos do Poti. De quando em quando, o intermitente fluído aquoso, esquecia-se de voltar. As forças da natureza, que fazem desaguar as providenciais  chuvas, se afastavam do sertão. O verão, outra vez doloridamente infecundo, estica o mês de abril destroçando as esperanças de um ser que teima em sobreviver, que insiste na agreste ilusão. Naqueles tórridos dias, o homem do campo veste um aviltante gibão do inaceitável padecer. Tudo perdido, esgotada as provisões, a fome é um ranger de dentes nas mirradas carne dos filhos pequeninos e o único apelo é campear um minguado auxílio nas cidades. Até a insensível caatinga agoniza no aspecto desolador, árvores sem folhas, galhos estorcidos e secos afeito à dolorosa paisagem que concebe a tristezas dos ermos.


  Assim, transcorrem pesarosos os ressequidos meses de 1951. Como Portinari a pintar “Os Retirantes”, uma solene senhora, debaixo de um imenso chapéu abriga-se de um sol escaldante, exibe paleta e pincel nas mãos a tingir um quadro sobre um cavalete. Bem próximo, no leito do Rio Poti, os retirantes montaram imensas latadas de moitas de mufumbo, onde diversas famílias de maltrapilhos sertanejos descansam, após uma manhã de suplicantes esmolas campeadas pelo centro da cidade. Enquanto a jovem Rosa Morais imprime aquele momento histórico na oleosa tela intitulada “Realidade Nordestina” recorda-se de outros momentos marcantes de sua vida.  Foi em outra grande seca, a de 21, mal completara 4 anos de ingenuidade infantil e já se deslumbra com as belezas da natureza nas margens do Poti. Vendo o exemplo dos retirantes, experimenta o frutinho verde de jaramataia, atitude que lhe custa a boa saúde, mesmo com tanto purga de leite que sua mãe lhe obrigara a beber.


Fora as graves consequências do envenenamento pelo fruto silvestre, a jovem Rosa Morais é uma pessoa temperada na disposição de fazer, na vontade aprender e, principalmente, na vigorosa fé pela busca da vida. Transporta uma considerável cultura, aprendida de forma quase autodidata, como uma mestra de si mesmo em constante evolução, num sábio fluir, mas os pés na realidade.  Mal termina o 3º Ano Primário no Colégio Lourenço Filho, passa no concurso para professora do Estado, indo substituir uma professora na cidade de Novo Oriente.


Recorda-se de quando o senhor Agostinho Teixeira, da fazenda campestre, chama os dois netos e ordena: - Oh, Antônio Cândido, chame o Raimundinho, selem três cavalos e vão buscar a professora Rosa, na cidade de Novo Oriente. Ela vem passar o fim de semana com a gente. Os  meninos vão satisfeitos, pois têm a meiga Rosa como uma querida irmã. Na volta, a professora, sentada de lado numa sela especial, conversa amenidades com os rapazes, relata seus acontecimentos na terra da Lagoa do Tigre, aponta displicente para um carcará na copa de uma aroeira a vigiar a solidão do sertão e pergunta o que os meninos fizeram na semana.

Uma de suas amigas, com ciúmes,  até afirmara: - A Rosa, agora, só quer saber dos Teixeiras!

Mas amizade é um amor que nunca morre! O jovial Antônio Cândido, espirito brincalhão, confiante na lealdade da companheira, se faz até de confidente ao contar que noivara em Ipueiras e socorria-se com ela nos momentos de apertos: - Rosa, você tem um dinheirinho aí? Mas não diga a Joaninha, que depois eu lhe pago! Sabia que ele gostava de se entreter numa mesa de bilhar. Já o Raimundo era mais pacato, concentrado, e já caprichara ao escrever o discurso que ele iria pronunciar na posse de Presidente da Congregação Mariana, na cidade de Sobral e com certeza Dom José Tupinambá estaria na plateia! Nunca entendeu direito porque seu grande amigo Raimundinho se afastara de sua companhia, só desconfia, pois tudo aconteceu depois que ele conheceu a professora Delite. Não viam a hora de chegar logo na cidade para, à noitinha, ir a praça da Matriz e ficar ouvindo a banda tocar no coreto.

Imensa é sua gratidão ao professor Luiz Bezerra, pois o mesmo a obrigou aceitar um convite para ensinar desenho na Escola Normal. Na apreensão pela missão imposta, ele a tranquiliza: - Rosa, mesmo faltando um semestre para você se diplomar, sei que és capaz e dará conta, até vai lhe ajudar no pagamento da mensalidade! Desta experiência, ao longo dos anos, foram surgindo as 42 belas obras que compõem o tema “Natureza e Arte” a maioria das telas com perspectivas nordestinas que estão espalhadas pelo mundo.

Lecionava pela manhã, estudava à tarde e à noite, na luz do lampião, fazia florzinhas de fécula de batata, de papel, de couro, de parafina, enfeites de velas de primeira comunhão para adquirir dinheiro e pagar a escola. Concorrido foi o Curso de pintura, que montou na Escola Normal, entre os alunos tinha um padre francês, chamado João, que pincelava os quadros como se fosse uma oração.

                Outro amigo que a digníssima professora Rosa Morais recorda com carinho é do Pe. Moacir, que planejou sua entrada para a Congregação Religiosa das Josefinas. A irmã Rosita permitiu que ela passasse 17 dias internada, para pensar e se avaliar.  Rosa afirma: – Eu rezei muito para o Senhor mostrar minha vocação. Tive vontade, mas me faltou aptidão para usar o habito das freiras. Não sabia o que fazer, nunca usei batom, nem esmaltes nas unhas. Eu sou eu mesma, sempre me pertenci! Não fiquei na irmandade, mas também não tive coragem de casar! Apareceu um rapaz, era um ex-seminarista e eu lhe disse que ele foi bobo, por ter jogado os pés no Senhor.

                Rosa sempre esteve em contado com os padres, inclusive o irmão, Francisco Ferreira de Morais que foi um deles, na cidade do Ipu. Do Pe. Bonfim, em Crateús, lembra-se do temperamento explosivo e de quando surgia um probleminha no colégio, onde ensinou por 37 anos, ela mesma tentava resolver, com ajuda do Senhor Expedito Paiva, antes de o levar ao conhecimento do duro Monsenhor. No famoso colégio da Firmino Rosa, exerceu mais um dos seus dotes artísticos, o poético, é a autora do belo hino que glorifica o Colégio Pio XII.

                Hoje, o velho casarão dos Morais tem um ar nostálgico, que transparece no olhar das janelas abertas ao horizonte, mirrando a calha seca do rio. E na sala de estar, Dona Rosa repousa de uma longa batalha para educar gerações de crateuenses, assistindo uma destas emissoras católicas de TV. Nem imagina que nesta sexta-feira, dia 8 de Março, receberá uma homenagem, que pouquíssimas pessoas no mundo tiveram a honra de receber, uma Benção Papal, assinada pelo punho do próprio Bento XVI, antes de renunciar. Sem falar que já se prepara a grande festa para o dia 26 de outubro, quando completará 100 anos de admirável existência. A professora Rosa Morais, com tantos motivos para ser feliz, sendo a própria dona da felicidade autêntica, ainda ganha mais uma longeva e poética satisfação: vida cônscia! Obrigado, Mestra!
Raimundo Cândido
  José Alberto de Souza disse...
 
Salve, ilustre poeta e prosador!
Você nem imagina a grande alegria que me traz, quando apresenta todos esses vultos do seu caminho que lhe inspiraram tantas mensagens de gratidão e reconhecimento.
Ainda bem que existe um Raimundo Cândido a exaltar essas eminentes figuras de Crateús, não se deixando iludir por falsos mitos do cenário nacional.

Zacarias Bezerra de Oliveira disse...

Uma Prosa para uma Rosa é uma rima de mote e glosa que irá abrilhantar a biografia dessa grande personalidade de Crateús, caso o autor assim o permita. Nesse dia 8 de março a homenagem mais adequada ao Dia Internacional da Mulher é esse texto publicado aqui nesse "chão sagrado da Academia de Letras de Crateús na internet": Uma Prosa para uma Rosa,que é uma rima de mote e glosa!

sexta-feira, 1 de março de 2013

CONVITE

CONVITE DE INAUGURAÇÃO DO BUSTO DO Poeta José Coriolano de Souza Lima - Dia 8 de Março – 19: 30 horas Do lado direito da Praça da Matriz. Crateús Ceará.
 
Quem foi ele? Foi um grande poeta, autor de mais de 250 poesias. Nasceu em Crateús, em 29/10/1829, onde habitaram os índios Carateús, outrora chamada Povoação de Piranhas e, posteriormente, Vila do Príncipe Imperial. Sétimo e último filho de Gonçalves Correia Lima e Anna Rosa Bezerra. Descende do primeiro Mourão cearense: Alexandre da Silva Mourão (I). A sua avó paterna, Joana Batista Correia Lima, era neta desse primeiro Mourão, filha que era de sua única filha do primeiro casamento, Maria Coelho Franca. Em 1870 os amigos fizeram publicar parte de suas poesias, com o título: “Impressões e Gemidos”, escolhido por José Coriolano atendendo a sugestão do seu pai. O plano era publicar seus originais, escritos de próprio punho pelo poeta, em dois volumes. O primeiro veio a lume com a ajuda do Governo do Piauí. O segundo nunca chegou a ser publicado, por não contar mais com o apoio oficial. Como houve uma mudança na direção da Província, o novo Governo decidiu não patrociná-lo (segundo volume), por não concordar com as ideias republicanas do poeta e de seus amigos. Foi, portanto, vítima da ignorância de uma censura política que, nos anos seguintes, tanto se repetiu na história brasileira. A viúva, com cinco filhos menores, não tinha recursos para arcar com a publicação. Em 1973 o Governo do Piauí, na gestão de Alberto Silva, promoveu uma nova edição de Impressões e Gemidos, com o título: Deus e a Natureza em José de Coriolano. O Piauí o considera “o Príncipe dos Poetas Piauienses”, pois na época em que viveu (1829 a 1869), Crateús, sua cidade natal, pertencia àquele Estado. A passagem para o Ceará deu-se em 1880.

Chico Pascoal disse ...                 
Ainda que tardia, a homenagem ao nosso primeiro homem de letras. Soube que é uma reinauguração, mas não conheci o antigo busto.
Crateús bem o merece, Parabéns a todos.


Ivens Mourão disse...
A todos que fazem a Academia de Letras de Crateús meus parabéns por resgatar a memória do grande poeta José Coriolano. Que venha agora um Memorial para o estudo da sua grande obra poética.
Farei o possível para estar presente.

Ivens Roberto de Araújo Mourão
Trineto do poeta


Luiza Lira disse ...
 Estimado colega,
Raimundinho.
Bom dia!
Agradecemos o convite e sugiro que  a academia de Letras em colaboração com a Prefeitura, possa criar um espaço onde tenhamos a oportunidade de conhecermos o acervo bibliográfico e de forma explícita possamos divulgar para turistas a obra poética deste renomado escritor.

Um carinhoso abraço a todos da ALC.

Luiza Lira
 

 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013




SOBRE A AUTORA
 FERNANDA COUTINHO é Doutora em Teoria da Literatura pela UFPE e Pós-Doutora em Literatura Comparada, junto à UFMG e à Université de la Sorbonne – Paris. Professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na UFC. Responsável pelo projeto intitulado Infância e interculturalidade, cujo objetivo é refletir sobre a construção e desconstrução da noção de infância num movimento histórico-sócio-ideológico.
Publicou Família e sentimento: paisagens da infância em Vidas Secas; organizou o seminário “Vidas, para sempre secas” e a exposição “Caras murchas das vidas secas”, no CCBNB. Organizou ainda os livros: A vida ao rés do chão: artes de Bispo do Rosário, em colaboração com Marília Carvalho e Renata Moreira; Raquel de Queiroz: uma escrita no tempo; Clarices: uma homenagem (90 anos de lançamento de Laços de família, em parceria com a Profª Vera Moraes.

SOBRE O LIVRO
“Num livro claro, denso e preciso, Fernanda Coutinho sabe como ninguém abrir o envelope das palavras, dando-lhes vida. Mais do que um ensaio sobre literatura comparada, esse livro é uma meditação. Merece estar nas mãos de todos os que se preocupam com a infância, real ou imaginária, no Brasil.”
Mary Del Priore 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013



Gosto de livros antigos, mesmo tendo edições recentes. Li vários títulos de Jorge Amado. Tenda dos milagres foi um dos apreciados. Este exemplar é de 1969.  Editora Martins. 75 mil exemplares. Na estante virtual ele é comprado por 8,00/9,00 reais acrescido do frete. Encontrei em um sebo de Fortaleza por 3,00 reais. Aliás, encontrei Moacyr Sclyar, Ledo Ivo e etc. Todos nas prateleiras da promoção.

Silas Falcão  
Raimundo Candido disse...
Grande Silas Traça Falcão, aproveito para lhe agradecer o Livro de Crônicas do Drummond, acho que ele foi editado antes do poeta nascer. Valeu!