sexta-feira, 28 de junho de 2013

Piauí terra querida...

( De Maria José Carvalho Coelho, sobrinha do Ilustradíssimo e saudoso  Nonato Bonfim, professora na cidade de Salvador - BA e trabalha poesia(cordel) com seus alunos – Nasceu em Campo Maior – terra da Batalha de Jenipapo, de Gonçalves Dias e Torquato Neto)

“Piauí terra querida
Filha do sol do equador”
Por isso és bela e quente
Feita torrente de amor

Eu sou da terra das serras:
Das Confusões, da Capivara
Presentes dado por Deus
Ao mundo que Ele criara

A Chapada do Corisco
Tem valor inestimável
Em São Raimundo Nonato
Tem arqueologia notável

Temos rios cachoeiras
Até um braço do mar
Fica em Luís Correia
É lindo cê vai gostar!

O Delta do Parnaíba
É nosso cartão postal
Visite ele pra ver
Que Deus só fez esse igual

Único em mar aberto
Das Américas é o maior
Com 66 km de extensão
Ecossistema, o melhor.

Sou de uma terra linda!
E com muitas coisas raras.
A opala pedra preciosa
Em dois lugares encontras

No Piauí tem de tudo
Ilhas, lagoas, igarapés
Praias de areia fina
Tem hotéis e tem chalés

Temos dunas e coqueirais
Tem o Morro do Gritador
Tem a Cidades de Pedra
Que ao mundo encantou

Tem a Pedra do Castelo
Cachoeira do Urubu
Tem a Lagoa do Portinho
Vamos lá fazer um tour.

Temos frutas exóticas
Bacuri e buriti
Encontradas no cerrado
Como o famoso pequi

Pequi é afrodisíaco
Rico em vitamina A
Por isso somos saudáveis
Não temos do que queixar.

Nós também exportamos
Carnaúba, algodão,
A cera, soja, castanha,
Manga, caju e mamão...

Temos também a mamona
Que vira combustível
Pra fazer o carro andar
E chamam de biodiesel

“Minha terra tem palmeiras”
E verdes carnaubais
As aves também gorjeiam
Saudando belos pardais

Temos festas populares
Bumba-meu-boi, Zambelê,
Temos lendas, marujada...
Tem festejos pra se vê

Sou filha de Campo Maior
Cidade linda e acolhedora
Tem a melhor carne do sol
Pra fazer comida boa

Foi lá em Campo Maior
Que lutamos por liberdade
Pra nos livrar de Portugal
E toda sua crueldade

A Batalha do Jenipapo
Foi “guerra” de três estados
Contra as tropas de Fidié
Lutamos sem ter soldados

Em 13 de março de 1823
A batalha foi decidida
Foi bom pra Independência
Mas pra história esquecida

Faltou vontade política
Pra fazer divulgação
E validar nossa luta
Nos livros da Educação

Nossa bela capital
Chama-se Teresina
Auspiciosa, hospitaleira
Tem cheiro de cajuína

Bebida que vem do caju
Feita sem muita proeza
Tem um sabor refrescante
Igual a mãe natureza

Da Costa e Silva fez o hino
Do meu belo Piauí
Teus filhos cantam e encantam
Tal qual um pitiguari

Sou da terra de Torquato Neto
Sou matuta sou brejeira
Sertaneja, ribeirinha
Piauiense matreira

Piauí terra querida
Majestosa, altaneira
Orgulho de ser sua filha
Terra amada, brasileira.

Maria José Carvalho Coelho

Direitos autorais reservados

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cratheús Aguerrido.

                                                              
           Os vespertinos raios do sol mal banham a superfície cristalina do Rio Poti quando este, repentino, muda de leste para o norte num fluir sinuoso, rumo ao paredão da Ibiapaba, delimitando o agreste palco dos Sertões de Cratheús.
O tablado dos acontecimentos históricos, ornamentado por galhos retorcidos de aroeiras, angicos, juazeiros e catingueiras, esquadrinhado pelos preás, tatus-bola e veados-catingueiros foi, e continua sendo, o lugar de épicos, comédias e tragédias de um povo aguerrido no seio da caatinga inóspita. Por aqui, sucederam-se grandiosas obras teatrais de fazer inveja aos gregos Ésquilo, Sófocles e Eurípides.
Desumanos Mestres-de-Campo são convidado por Francisco Garcia d'Ávila, proprietário da Casa da Torre, na Bahia, para aniquilar os índios, por toda essa região.
A expansão pastoril do Castelo da Torre não conhecia limites, com uma audaciosa ganância, às avessas ao mar, Domingos Jorge Velho e Diogo Afonso Sertão, dos Ávilas, vinham desbravando o Piauí. E os Kara-thi-us, de lanças e arcos nas mãos, não puderam combater os bacamartes de boca sino cuspindo raiva e fogo na rudimentar guerra de um agreste palco, configurando-se a primeira derrota do destemido sertão.
Apaziguado os ânimos dos gentios, vai surgindo, pouco a pouco, um povoado nas margens do rio das piranhas, seduzido pelo aromático estrume dos currais e pelo ecoar dos aboios a tanger o gado.
Do tronco da velha fazenda Piranhas, nas margens do Poti, esgalha-se a futura Vila Príncipe Imperial, esparsa e bucólica num esboço rústico, mas já exibindo cenas de um tumultuoso velho oeste, necessitando de periódicas intervenções dos emissários da arcaica cidade de Oeiras, nossa primeira capital. E já vibrava, pelas empoeiradas ruas, um DNA aguerrido das famílias Melo e Mourão, que duelavam entre si, a sangue e ferro, conclamando o duro pulso de uma força policial.
Foi tal qual uma Guerra interna, mas estendeu-se por pastagens longínquas, bem fora do nosso domínio, atraindo os olhares dos administradores da Província e os rancores Imperiais.  Do alto de seu trono, Dom Pedro II ordenava ao Pe. José Martiniano de Alencar: - Acabem com a raça dos Mourões!
Era Alexandre da Silva Mourão IV, caráter belicoso, que atraía para si todas as atenções numa época de irrefreado cangaço. Quando não guerreava diretamente, usava a sabedoria de submeter o inimigo sem combate, que o diga o Tenente Felix Bandeira, com 40 soldados bem armados, cansou de percorrer as veredas dos sertões no encalço do ardiloso e desalmado cangaceiro, filho do célebre Alexandre II, que fizera parte da Batalha de Jenipapo enfrentando as tropas do português Fidié, que tinha pretensões de manter esta região sobre o domínio lusitano, surgindo assim, o Movimento Separatista de Oeiras. Uma manifestação genuinamente brasileira.
Foi no tempo em que, nos conflitos dos sertões bravios, os viris sertanejos ao falar em guerra, até as suas palavras tinham o peso do chumbo e a ligeireza das flechas. Como a capital Oeiras, Cratheús também proclamou uma independência dos domínios lusitanos, é o que afirma um trecho vago de um antigo documento: “O povo de Príncipe Imperial e Marvão, por pretenderem levá-lo ao criminoso Partido de Libertação, advertimos que não tendes proporções para a Independência. Falta-vos agricultura, arte, ciência, manufatura, comércio, dinheiro e, sobretudo, Exército e Marinha”
À sombra das ordens do Cel. João de Araújo Chaves, 300 homens dos Sertões de Crateús e Inhamuns, a 13 de março de 1823, juntaram-se as tropas de vaqueiros e roceiros do Piauí, para um combate feroz nos barrancos do Riacho Jenipapo, próximo à Vila de Campo Maior.  Quando Dom Pedro I, às margens do Ipiranga, deu o grito de “Independência” não se derramou uma só gota de sangue, mas na sangrenta Batalha do Jenipapo, que assegurou a unidade territorial do Brasil, o combate foi brutal, causando a morte de mais de duzentos bravos sertanejos, toscamente armados com facões, espingardas socadeiras, foices e até mão de pilão, em cinco eternas horas de agonias, tempo que durou a malograda batalha e que foi uma vitória de Pirro para Fidié, derrotado logo em seguida, na vila de Caxias, no Maranhão.
O poeta da Itabira, Carlos Drummond de Andrade, em reconhecimento à ação dos combatentes independentes de jenipapo, imortalizou-os no poema “Cemitérios”: “No cemitério de Batalhão os mortos do Jenipapo / Não sofrem chuva nem sol; o telheiro os protege / Asa imóvel na amplidão campeira.”
A lendária vida dos rudes homens do cangaço, expulsos de suas terras, tostados pelo sol e amaldiçoados pelos sangue das almas que abateram, é um padecer sem fim. E Alexandre Mourão IV, o mais famoso cangaceiro dos Sertões dos Kara-thi-us, vê a oportunidade de se redimir dos inúmeros crimes com uma Revolução que se alastra no Maranhão, A Balaiada.  Alista-se aos 200 soldados que sobem à Serra dos Tucuns sob o comando do Cap. Antônio José Luís de Oliveira, para ser absorvido de seus delitos e poder voltar a uma legalidade.
No Maranhão, os ricos fazendeiros, num sarneísmo antecipado da aristocracia rural, por conta de uma dura crise econômica impõem perversa fome e maus-tratos aos vaqueiros e escravos, que se incitam e começam uma revolução na terra em que nasceu e viveu o poeta Gonçalves Dias. O vaqueiro Raimundo Gomes, o balaieiro Manoel dos Anjos e o quilombola Cosme Bento emprestaram coragem, força, alma e sangue aos revoltosos balaios.
Em 1841, Alexandre Mourão IV, e alguns de seus parentes crateuenses, seguem uma tropa de 8 mil soldados, com farto armamento de guerra, para a Vila de Caxias, para lutar ao lado do Coronel Luiz Alves de Lima e Silva, aniquilando impiedosamente 12 mil pobres sertanejos, vaqueiros, agricultores e escravos e, com isso, o desumano Coronel Barrão foi premiado, passando a se denominar Duque de Caxias e o nosso herói cangaceiro retorna ao seu torrão, livre, puro e sem piedade, como um carcará que revoa pelo sertão!
  Em tempo de guerras os homens viram tigres, dizem. E deve ser verdade, pois estávamos até no maior conflito armado da América do Sul: A guerra do Paraguai! Um estéril combate em que morreram mais soldados por doenças, fome e exaustão física do que propriamente pelas ação das balas. No livro, A retirada da Laguna de Visconde de Taunay, capítulo XIX em que fala da passagem do Rio Miranda, em cheia alta, lemos o feito heroico do soldado Damásio, um corajoso crateuense, quando tentavam passar quatro pesados canhões pelas correntezas do rio pantaneiro, sobre troncos de árvores, tracionados por cordas e polias. A primeira peça, passa tranquila, com estrepitosa aclamação dos soldados do outro lado. Já a segunda peça, escapou das amarras e caiu no fundo do rio. Leiam agora na própria “voz” de Taunay: “Um soldado, cujo nome merece ser recordado, Damásio, ofereceu-se imediatamente para mergulhar no ponto da imersão, e, tendo conseguido reconhecer o fundo, pode, após duas ou três emersões, para tomar fôlego, passar em torno da peça uma corda de que se provera e serviu para a puxar. Foi a lição aproveitada quanto aos cuidados tomados com a amarração das demais bocas de fogo e apressou o resto da operação, permitindo completar a passagem à tarde daquele dia e na manhã seguinte.” Desta guerra, conhecida também como o massacre dos meninos, nenhum pais envolvido teve algum proveito: O Paraguai com 100 mil mortos, entre soldados e crianças inocentes,  ficou em ruina total, já o Brasil, com a fragilidade da estrutura militar exposta e 50 mil brasileiros mortos por doenças e pelos rigores de um clima!
Quando o beato cearense Antônio Conselheiro, espectro vivo a rezar ladainhas, liderava 20 mil sertanejos na comunidade de Canudos, na Bahia, o Exército Brasileiro tentou por três vezes aniquilá-los, na rústica arapuca de um arraial. De Belo Monte, que na realidade era um vale, o radical devoto dizia: - A República é materialização do reino do anticristo na terra. Quando, no dia 5 de outubro de 1897, a 4ª Expedição Militar disparou um tiro de canhão atingindo a torre da Igreja, os sertanejos que já sem água e sem comida e mesmo assim não se renderam, um crateuense estava lá! Francisco Lopes Ferreira Lima incorporado a um batalhão, viu o massacre de milhares de marginalizados do sertão nordestino. Presenciou quando um velho, uma criança e dois sertanejos, os últimos insurretos, ficaram honrosamente de pé, na frente de 5 mil soldados que rugiam como animais para o desfecho final da batalha e também viu quando os agarraram pelos cabelos, dobraram-lhes as cabeças, engargalando-lhes os pescoços e, francamente expostas suas gargantas, os degolaram. 
Nos, Crateuenses, lutamos até na floresta Amazônica participando da conquista do território do Acre. Foi quando chegou por aqui, no início do século, o conterrâneo José Francisco da Silva que guerreou ao lado do Cel. Plácido de Castro, e trouxe a notícia da expulsão dos invasores bolivianos da região. O Acre é o Estado Brasileiro que todo dia 15 de junho, data da elevação à condição de estado, hasteia três bandeiras em seus pavilhões: a Brasileira, a do Acre e a do Estado do Ceará, em homenagem aos heróis cearenses-crateuenses que lutaram na Revolução Acreana. Podia hastear a bandeira crateuense, também!
Não fomos a 1ª Grande Guerra mundial, em 1914, chamada de Guerra das Trincheiras onde os soldados morriam se contorcendo como baratas pelos corrosivos gases mostarda e cloro. Mas em (des)compensação estivemos na Sedição de Juazeiro, um ano antes da seca do 15.  Na remota década de 20, quando o menino Norberto Ferreira Filho não estava entregando pão da padaria de seu pai ou colocando água das cacimba do retiro, ficava ouvindo as conversas do velho sapateiro Moises Almeida que havia tomado parte na Revolta de Juazeiro do Norte, nos Sertões do Cariri, integrando as forças do Governo Federal que lutaram contra os jagunços de Floro Bartolomeu e do Padre Cícero Romão Batista. Ferreirinha aprendia a arte de Heródoto e ficou sabendo que o velho Moises havia perdido a guerra e que o excomungado Padim Cícero permaneceu como eminência parda na política cearense, com uma população de sertanejos venerando-o, feito santo, feito profeta.
Já na 2ª Grande Guerra estivemos em número bem maior, pois o Exército saiu a catar soldados, ou se ia para o fronte de batalha ou para a Guerra da Borracha, enfrentar animais perigosos e a maleita, no seio da Floresta Amazônica.
Os Expedicionários brasileiros-crateuenses foram incorporados às tropas americanas e ficaram entrincheirados nas encostas do Vale do Reno, em Monte Castelo, onde enfrentaram a 232ª Divisão de Infantaria Alemã, à temperatura de 10°C negativos e com neve até o peito. Ouviam, constantemente, os disparos dos inimigos e os estrondos das granadas que pipocavam ao lado. O herói crateuense, Francisco Bezerra Lima, o Chico da Doninha, entregador de água em jegue e amigo de Seu Ferreirinha, foi ferido duas vezes no eufêmico “Teatro de Operações” e recebeu um certificado de liberação, para ir para casa.
Os alunos do Instituto Santa Inês, tendo à frente a professora Madrinha Francisca, receberam o guerreiro cantando: “ Você sabe de onde eu venho? Das margens crespas dos rios, / Dos verdes mares bravios / Da minha terra natal. / Por mais terras que eu percorra, / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte para lá; / Sem que leve por divisa / Esse "V" que simboliza / A vitória que virá: / Nossa vitória final, / Que é a mira do meu fuzil, / A ração do meu bornal, / A água do meu cantil, / As asas do meu ideal, /A glória do meu Brasil.” Foi uma grande festa para recepcionar um herói crateeuense!
Mas nem tudo são flores na vida de um ex-combatente, veterano de guerra. O Chico da Doninha, cidadão educado e tranquilo, não podia experimentar a danada da cachaça Lagoa do Barro. Quando chegava num bar, só ficava o dono com as pernas tremendo, atrás do balcão. Os vapores do álcool liberavam os pesadelos do “Teatro de Operações” e o coitado do Chico ouvia os gritos dos companheiros feridos e os estrondos das granadas. Então, como em Monte Castelo, desfechava tiros a torta e a direita e jogava facas afiadas ao encontro dos troncos das árvores.
O povo, que olhava das janelas entreaberta, penalizado dizia: - Coitado, pegou a maleita da guerra!
Certo fez o novo orientense, crateuense Sargento Hermínio Aurélio Sampaio - que um dia, no prédio quadrado da atual prefeitura, atocaiou o bandoleiro Alexandre Mourão IV- ele resolveu se transformar em herói e na madrugada do dia "D", o momento mais importante de 2ª Guerra, enfrentou as gargalhadas sinistras dos morteiros inimigos. Naquele fatídico dia, estava com uma pá na mão e preparava uma posição para um Fuzil Metralhador, sempre a gritar:  - Precisamos avançar! Venham comigo!  Súbito, uma rajada certeira e mortífera o fulminou,  ali tombou o Sargento Sampaio que não quis passar, como o Chico da Doninha, pelas maleitas de guerra nas ruas de sua cidade, resolveu permanecer na Itália, sepultado no cemitério de Pistola, onde estão os corpos dos membros da Força Expedicionária Brasileira. E pelos primeiros indômitos karatis que tombaram na árida caatinga, pela geração de Mourão com bacamarte na mão, pelo soldado Damásio, pelos Franciscos, pelos Moises, e por todos os outros extraordinários guerreiros crateuenses, damos vivas aos nossos heróis!
Raimundo Cândido



 (A crônica “Cratheús Aguerrida” não se pretende alçar de rigidez histórica, mas seus dados podem ser comprovados nos livros: Fatos e Cousas do Passado e Coletâneas 1 e 2 de Norberto Ferreira Filho, Meus Avós de Raimundo Raul Correia Lima, Inhamuns, Terra e Homens de Antônio Gomes de Freitas, A retirada da Laguna de Visconde de Taunay e Diversos Documentos antigos de Crateús que estão no Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.   E aos que me cobram precisão de fatos e épocas peço, se possível, que coloquem esta narrativa na gaveta dos pretensos textos literários.)
José Alberto de Souza disse...
Esta crônica Cratheús Aguerrida" tem a sua importância marcante na medida em que faz um levantamento sucinto de todo o passado heróico dessa brava gente do Ceará. Através de todos expoentes épicos que deixaram seus nomes registrados em diferentes obras de autores consagrados. E que Raimundo Cândido teve a paciência de compilar, demonstrando assim como historiador mais uma de suas facetas.



domingo, 16 de junho de 2013

O Casarão do Crime


Com exceção da lascívia dos felinos sobre a vertente dos telhados e da permissividade dos ébrios inveterados deslizando pelas ruas da cidade, tudo que vagueia ao relento faz parte da obscura mazela que povoa a calada da noite. É a hora em que as máscaras caem e o sorrateiro mal avança. Momento em que os valores morais e éticos são postos à prova, pois é na recôndita calada das trevas que as hienas espreitam!
Quando os vampiros saem de suas tocas, ávidos por sangue, quando os guizos das cascavéis chocalham com seus mórbidos avisos, é a dita hora em que as coisas que não podem ser feitas em público, são postas em prática. Mal o limite do oculto se amplia, os crimes contra o povo são perpetrados. É no momento em que os olhos da dignidade serenam, distraídos, sem espreitar nem se precaver do secreto, aí o falso moralista mostra que não passa de um hipócrita.  A ganância humana vira lobisomem!
O áspero cabo de aço intrometeu-se pela janela do oitão da Rua Cel. Zezé deslizando pela velha sala de visita - na qual esparramava-se o sonolento semblante de uma tradição, a face de uma era - e saiu pela claridade da Rua João Tomé, num serpentino abraço atando-se a um robusto trator, que já roncava. A tração, um cortante cerol, talha a grossa parede de imensos tijolos como faca amolada no queijo coalho e tudo vem abaixo. As gerações dos aguerridos Mourões abalaram-se em seus incorpóreos alicerces, agora sem o bacamarte em punho para revidar, sente-se a falta da pena do poeta José Coriolano para protestar contra o ato insano em seu sanguíneo cabedal. O Coletor Estadual e chefe político Enoque Mourão, com todos seus descendentes, se agita, de onde está, sem nada poder fazer. Ruiu, como um castelo de cartas, o Casarão dos Mourões!
Há muito que se notava uma força estranha estendendo tentáculos gananciosos pelas terras do Senhor do Bonfim, como uma sombra que caminha agachada, sorrateiramente a negacear, a tirar proveitos de ajustes escusos, como os judeus, de quem nos fala Gustavo Barroso em Historias Secretas do Brasil, que com os repulsivos lucros desde o tráfego negreiro, com os ágios de corrupções e das drogas, vêm comprando o Brasil e o mundo. Estarão, também, devorando os velhos casarões de Príncipe Imperial, em busca de uma legitimidade?
Já passava da meia-noite, quando o bancário Fred observa uma poeira de escombros subindo pelo cruzamento das Ruas Barão do Rio Branco e Cel. Lúcio e percebe a tramóia, era a iminência de mais um crime na calada da noite. Liga para o Professor Paulo Geovane que alardeia a todos na reunião do comitê do Partido Socialismo e Liberdade, Psol:
- Meu povo, estão derrubando mais um casarão da cidade!
 A Professora Adriana Calaça, candidata a prefeita, alvoroça-se e parte na frente, rumo ao anunciado endereço, seguida de perto por Geovane.  
O trator já patina no assalto, em marcha à ré, tracionando um forte cabo de aço amarrado nas paredes do imenso Casarão dos Machados: Vroom!! Vroooom!!! Vroooooomm!!! Os olhos espantados de Adriana Calaça clareiam-se num lampejo de coragem e determinação, como nos raros momentos da história em que surgem os heróis, quando ouviu um estalido seco, como um chicote no ar: Páááá!!! O cabo de aço partira-se! De imediato avisa para seu companheiro de partido:  - Paulo, isso foi um aviso! É para nos dizer que não deixemos esse povo demolir o casarão! Siga-me!
Passam por baixo do cabo de aço, que um funcionário novamente amarrava por entre os janelões, e postam-se, corajosamente, em frente ao paredão que irá cair!
O motorista do trator e os recentes donos do prédio, aos gritos, avisam:
- Vocês são loucos!!! Vão acabar morrendo se não saírem daí!
A turba que aguarda, ansiosa, para assistir ao espetáculo do tombo do Castelo, estava dividida. Alguns, subordinados pelo dinheiro, gritavam:
- Derruba por cima! Mata! Mata a prefeita!
Rapidamente, outras pessoas foram chegando, e dão apoio à temerária dupla, armada somente com a disposição extraordinária de alma de guerreiro. O poeta Elias de França, notando que não se entenderá com os proprietários por meio de meras palavras, liga para o Promotor de Justiça, Dr. José Arteiro, e marca-se uma Audiência Pública de conciliação entre as partes, os proprietários do prédio e Academia de Letras de Crateús representando a sociedade civil. A reunião de conciliação foi presidida pelo Juiz da 3ª Vara de Tauá, Dr. Adriano Pontes de Aragão. Naquele dia, assistiu-se a um belíssimo show de erudição e discernimento de um honrado magistrado, que lembrou a sabedoria bíblica do Profeta Salomão, confirmando que a força da lei, em mãos hábeis e sábias, é o poder que restaurará a Nação. Assinou-se um acordo de preservação da fachada histórica do Casarão dos Machados, mas este já havia confirmado a sua inalterabilidade na face do tempo, desde o dia em que recebeu o batismo da eternidade por um raio de cem mil volts mandados pelos céus, e que escoou pela fachada em mistura de barrenta descarga elétrica, cal e tijolos do pico do seu oitão. 
A lei Nº 186 de novembro de 2011 que dispõe sobre a preservação do patrimônio histórico, cultural e turístico do Município de Cratheús protege os prédios históricos, e afirma: pela destruição, pela demolição do bem tombado, multa de até dez vezes o valor venal do edifício.
Mesmo assim, as madrugadas sonolentas da cidade são inimigas do nosso patrimônio e, numa mera distração da dignidade, a ganância continuará a detonar nossos casarões, pelas frientas caladas das noites.
Uma sensação de temor e apreensão ainda desfila pelas madrugadas da Rua João Tomé, esquina com Cel. Zezé: O Casarão, aonde Dona Isabel Bonfim Leitão serviu água e café para o falso aleijado, Cap. Pretinho, alertando a cidade para a presença de um perigoso espião da Coluna Miguel-Prestes, pode a qualquer hora amanhecer no chão!
 Uma sensação de temor e apreensão ainda desfila pelas madrugadas da Rua Padre Macedo com a Rua Firmino Rosa: O Casarão dos Bonfim, sede da Fazenda Piranhas, que ostenta o símbolo da Intendência Municipal em sua fachada, pode a qualquer momento amanhecer no chão!
 Uma sensação de temor e apreensão ainda desfila pelas madrugadas da Rua Carlos Rolim com a Rua Dr. José Coriolano: O casarão onde morou Padre Macedo, que um dia hospedou o escritor Antônio Bezerra de Menezes e de onde o criminoso Adriano pulou a janela após esfaquear o sacerdote, pode a qualquer instante acordar no chão!
   Uma sensação de temor e apreensão desfila pelas madrugadas das ruas da cidade aonde ainda exista, de pé, um histórico casarão: pode não haver, nesta noite calada, fria e desprevenida, uma heroína-guerreira, uma entusiasmada Adriana, decidida e de prontidão!                         

Raimundo Cândido

José Alberto de Souza disse...
Às vezes, me quedo perguntando,  se a humanidade ainda não se encontra preparada para o progresso,  será que não precisa duma nova Inquisição?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O Pintor


                                                     (Aos pincéis de João Batista)

Um dia, sucedido deleite
na rua da beira do rio,
uma inspiração dizia-me:
Bom dia!
Eram os pinceis fervorosos
do mestre João
que já se achavam inebriados.

Um dia,
pela janela descerrada,
qual tela visionaria,
pasmos, meus olhos liam
o escoar do  Poti fluvial
em aguado pincel de um Portinari
e o emanar do sertão cordial
afeito aguerrido Picasso.

Um dia,
as coisas avivadas verteram
em magia de um Da Vinci, 
fluindo no expressivo plasma
expelido na doce janela
como luzidio arco-íris no ar.

Um dia,
porção de findo instante,
quando um encanto emergia
germinando  flores,
a mão do poeta-pintor
adormeceu no tempo,
mas pincelou as águas revoltas
em memória estática
arrebatadas nos remansos
e nos delírios inesquecíveis
do Poço da Roça.

Raimundo Cândido



sábado, 8 de junho de 2013

Salve, Salve...( Regina Estela Bonfim)



Meu primo...
Meu PROFESSOR...(muito obrigada pelas aulas de cálculo 1 e 2 quando ingressei na faculdade. Como havia cursado o Normal Pedagógico e não o Científico, tinha pouco conhecimento daquela matéria.

Graça e Paz !!!!
DEUS ilumine você na Presidência da ACL
   Parabéns pela espécie de homenagem ao jumento...
   Você é um ser muito sensível ao detalhes...
    Um ser humano diferenciado...
    Enxerga o mais  profundo na simpliciadade...
     Tem um olhar poético e enxerga a beleza nas adversidades da vida cotidiana do SERTÃO.
     Poucas pessoas enxergam assim... A Maioria ver o "BELO" através do luxo da ostentação.
     Para mim a beleza está na "simplicidade", no olhar observador que enxerga o que a maioria
     não enxerga.
     Fico revendo na minha mente e com uma gostosa saudade a  "pedra do fato"... ali mamãe nos levava para tomarmos banhos (quando ainda era possível). Ela ficava bem atrás da sua casa e da casa do "Pan" (pai do Gotardo).Tenho saudade da passagem das "Pedrinhas", alí tomavamos banho e praticamente não passava carros.
Oh, que saudade do "Jequi" ou "Jiqui", do Curtume, da Goela, ... tudo passa tão rápido.
Acredida que  acompanhei um dia trabalho  da Comadre Dilourdes, ( comadre e amiga da mamãe) lavadeira de roupa.Depois de muita insistência mamãe autorizou.
As lavadeiras eram muito cooperativas, elas eram organizadas: cada uma tinha seu derritório, sua pedra para lavar, ensaboar, seu local de colocar para quarar (ou corar) a roupa... (quaradouro, quarador,corador)e
local para enxugar ...
Elas trabalhavam em equipe... chegam na mesma hora e saiam todas juntas. Elas se ajudavam... Uma fazia o café...  fogo feito com galhos secos entre uma trempe de pedras... chaleira feita de uma lata com um arame amarrado de uma margem a outra da lata, era o pegador. Cada uma levava seu farnel... um pedaço de rapadura, farinha, feijão com toucinho, farofa de óvos, tapioca etc.
Quem terminasse de lavar primeiro ficava vigiando as roupas espalhadas nas moitas, nas cercas para enxugar (secar).
Mamãe tinha umas amigas lavadeiras... lembro de mamãe sempre esperando a passagem delas, tanto na ida como na volta para distribuir uma merenda... Eu gostava de ver e ouvir a volta delas, colocavam as trouxas nos parapeitos,as cuias com resto de sabão e as cabaças sem água no chão... Estavam suadas, o cheiro de roupa limpa era muito forte e gostoso... entravam lá em casa iam tomar água fria retirada do pote, enxugavam o suor com a rodilha que colocavam na cabeça para equilibrar a trouxa de roupas...
Ali era sempre uma parada...para refrescar um pouco, tomar água, café e muitas e muitas vezes até almoçar. Naquele momento elas compartilhavam o dia com mamãe. Também a dureza da vida familiar...
O relacionamento com as "patrôas chiques"... Mamãe sempre ouvindo, ouvindo... dava um leve sorriso e diazia: " cada um tem seu jeito de ser"...
A maioria não sabia ler nem escrever, muitas traziam cartas dos maridos e filhos que migraram para São Paulo, Rio ou Brasília para mamãe ler e responder...  Elas eram  as "heroínas anônimas" como tantas outras sertanejas menos favorecidas, discriminadas. MULHERES, ANALFABETAS, POBRES,LARGADAS. VIVENDO À MERCÊ DA SORTE.
(De Regina Estela Bonfim, num email para o Prof. Raimundinho.)


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Campestre

Um aconchego 
recostado ao seio da terra
e pronto: fragrâncias de imburanas 
inspirando paisagens
que se estampam no ar!


Um sereno,
segregando húmos,
afagos que borbotam
nos liame das aroeiras,
é o que será!

Um zelo acatado
do terral ímpeto
e a gêmula brota,
feito cerne fascinante
no pando esgalhar das canafístulas!

Raimundo Cândido

terça-feira, 4 de junho de 2013

O Berro do Jegue Crateuense


Percorria, vagueando, densamente absorto, uma poeirenta estradinha entre as sebes de ripas entrelaçadas de uns cercados nos arredores da cidade, e pareceu-me ouvir – muito ao longe - numa voz grave e rouca, alguém a citar meu nome:
 - Professor Raimundo!
Paro, viro-me e olho para a trilha já percorrida, só poeira! Verifico atrás das excludentes cercas, já em ruínas, mas não vejo ninguém que possa ter me invocado.
Confesso que senti um estranho calafrio percorrendo-me à espinha dorsal, até os pelos do braços eriçaram. Indaguei-me: - Será uma alma do outro mundo? Quis correr, porém olhei para a copa do Juazeiro, fincado na beira da estrada, sei que era quase impossível, mas poderia ter um vivente ali, empoleirado!
                Mesmo envergonhado pelo medo súbito e por confundir o som do vento com uma voz real, acelero o passo.
                - Professor Raimundinho! (De novo aquela estranha voz e, agora, tenho certeza absoluta, não foi o vento!) 
- Estou aqui debaixo do Juazeiro! Gostaria de conversar um pouco com o senhor!
                Parei novamente, mas fiquei sem coragem de olhar para trás, havia notado um velho e esgotado jegue, descansando sob a sombra do pé de Juá, que estava fora dos cercados... Não poderia ser?!
                - Não tenha medo, por favor! Sei que parece impossível o senhor está me ouvindo, mas é verdade! Nos falamos sim, mas só para aqueles que sabem ouvir e conseguem ver a essência das coisas e por isso você precisa saber o que estamos passando, deve ter ciência do que estamos sofrendo!
                Saber que os animais se comunicam e possuem sentimentos me ajudou aceitar o episódio inusitado... Mas um jegue! Por que não o vadio pinscher Luppi, que entendo tudo que ele diz e tudo que ele quer! O Jumento, de uma cor acinzentada com uma cruz negra pregada nas costa, continua falando:
                - Professor, pode me chamar de Jerico! Quero lhe fazer uma perguntas, eu posso?
                - Claro que pode, meu amigo Jerico! Respondi rápido, ainda com temor daquela arrumação.
                - É verdade que aquele povo de olhos puxados, querem levar o restante de nossos irmãos, aqui do nordeste, para fazer enlatado, lá na China?
                Eu sabia que era verdade, mas notando uma lágrima escorrer pela face do Jerico, fiquei sem saber o que dizer. Tentei amenizar:
                - Meu amigo, aquele povo é muito estranho, mas não se preocupe, eles vão primeiro consumir as formigas, os escorpiões, os morcegos e uma multidão de cães, que já estão armazenados em suas geladeiras... Não quis dizer que um acordo entre o Brasil e a China liberou o intercâmbio de jumentos!
                - Obrigado Professor, por tentar me acalmar, mas nós ficamos sabemos de tudo! Desde que aquele cidadão, que sabemos muito bem quem é, pegava os nossos antepassados pelas estradas – Lembra-se de que ele tinha até um jeitinho de laçar os jegues e uma roldana fazia o resto do serviço, puxando nossos irmãos para dentro de um gaiolão do caminhão? - que o apetite dos chineses foi despertado para carne de Jumento. Até aquele famoso escritor, seu amigo, o tal de Luciano Bonfim, e que escapa lá para lado de Sobral, denunciou que os enlatados provenientes de Pernambuco e São Paulo, eram quitute de jegue. Ele disse também, que uns amigos dele, depois de consumir o tal filé, forma vistos um bom tempo depois, a ornear pelos campos...
E o Jerico continua a debulhar seu rosário de lamentos:
                - Estou velho e cansado, não posso mais com o peso nos lombos, por isso me abandonaram nesta estrada. Professor me diga, sinceramente, você conhece um ser vivo na face da terra que já foi mais injustiçado que a nossa raça? Ganhamos essa cruz na nossas costas desde que ajudamos a Maria e o José a fugir com Jesus Cristo para o Egito. Ajudamos até a Sansão vencer uma guerra e se formos numerar, a lista seria imensa, não merecemos tantas injustiças, não acha, professor?
                Confirmei com o maneio de cabeça, mas não deu tempo nem de falar, o Jerico continuou:
                - Veja você, estamos passando por um aperto danado nestes anos de seca, água vai faltar nas suas casas e não se lembram do que nós fizemos! Mas professor, quantos anos e quantas décadas, sustentamos com água de beber os potes da sua cidade. Desde a época do lote de jegue carregados com os roliços canecos do Seu Lino, abastecendo a casa de Seu Amâncio e toda a Praça da Matriz.  Você era menino, professor, e o Seu Gonçalinho, o Gonçalo Soares Melo, está lembrado, que fornecia água para a casa da Dona Delite, do Seu Milton, do Seu Osvaldo, do Aguiar a 100 cruzeiro a carga, vindos da Grota do Neco ou do Retiro? Aqueles jumentinhos que trabalhavam o dia inteiro e à tardinha eram soltos no cercado do Poço da Roça, foram grandes heróis, professor!
                - Quero só ver quando setembro chegar, vocês todos correndo atrás dos carros pipas, implorando por água que não sabem nem de onde vem!
                - Professor, deixe eu lhe lembrar uma coisinha, nos anos de 80, 81 e 82, tudo foi seca braba como essa que estamos sofrendo e só foi chover em 83, no dia 19 de março, depois do décimo quarto dia de um sacrifício da santo Afredinho, lembra-se? Pois sim, em 82, todas as cacimbas aqui por perto secaram! Sabe como foi resolvida a situação? As tropas de Jegue, do Seu Alaíde, do Seu Chico Bezerra, do Joaquim Adão, do Seu Vicente, do Gonçalinho com seus canecos redondinhos, foram quem salvaram a situação. Água só tinha mesmo no poço do Ramalho, a 6 km de distância, lá no Morro Alegre. As veredas chagaram a afundar de tanto os jegues pisarem com suas cargas d’água que salvaram a cidade de Crateús, somos ou não somos heróis, professor Raimundo?
                Empolgado, com aquelas boas lembranças do Jerico, completo: - Sem falar, meu amigo, na tropa de Jegue do Genaro levando carradas e carradas de caixotes de areia para construir a cidade! Sem falar nas centenas de açudes, de barreiros, feitos pelo esforço e compactados com o suor de vocês.
                Notei que o Jerico até se animou mais um pouco, mas aquela lágrima não parava de escorrer pelo seu focinho e, também, me deu vontade de chorar. O jegue fala:
                - Amigo, Raimundinho, eu lhe chamei aqui, foi mais para que você levasse uma mensagem para esse povo que não tem o mínimo respeito pelo nosso passado e nem pelo serviço prestado que fizemos à cidade.  Concordo em transmitir a mensagem do jerico crateuense, e me despeço, do amigo que ficou esperando o fim de seus dias sem um reconhecimento e sem uma homenagem.
O Jerico me chama, mais uma vez, e diz: - Raimundo, se um dia não existir mais nenhum membro de nossa espécie por aí, gostaria que você convocasse aquela sua equipe: o Providência, o Flavio Machado e o Silas Falcão e empreendessem uma campanha para colocar o busto do jerico ao lado daquele poeta que vocês plantaram na Praça José Coriolano. Sorrio, sem negar, sem confirmar e sigo vagueando, densamente absorto, uma poeirenta estradinha entre as sebes de ripas entrelaçadas de uns cercados nos arredores da cidade.
                Agora, seres injustos e cruelmente ingratos, prestem bem atenção na mensagem de protesto, apurem bem a audição e ouçam o berro que o jerico mandou para vocês:
                - Hooooooonnn! Hiiiiii! Hooooonnn! Hiiii!  Hooooonnn! Hiiii!  Hoooon! Hiiiiii! Hooonn! Hooonnn!

Raimundo Cândido



Zacharias Bezerra de Oliveira disse...
Hooooooonnn! Hiiiiii! Hooooonnn! Hiiii! Hooooonnn! Hiiii! Hoooon! Hiiiiii! Hooonn! Hooonnn!

É verdade, professor Raimundo, os animais falam, mas nós não os sabemos escutar!

José Alberto de Souza disse ...
Quem sabe este dileto amigo não funda um Centro de Tradições Crateuenses a fim de preservar o jegue como animal símbolo da sua cidade, a exemplo do que ocorre com o cavalo aqui no Rio Grande do Sul. Até podia ser equiparado a uma condição sagrada que nem a vaca na Índia...
Já ouvi falar que nossos antepassados, quando queriam abrir uma estrada, costumavam amarrar umas latas na cola de um burro e depois espantavam-no mato afora, seguindo seus rastos para abrir a facão essa picada.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Academia de Letras de Crateús elege sua nova diretoria


Sábado, 1º de junho de 2013, a Academia de Letras de Crateús elegeu sua diretoria para o biênio 2013-2015. Foram eleitos: Raimundo Cândido (presidente), Flávio Machado (vice-presidente), Karla Gomes (secretária), Adriana Calaça (tesoureira) e Ana Cristina do Vale (Diretora de Publicações e Comunicações); para o Conselho Fiscal: Edmilson Lopes, Lourival Veras e Vera Fernandes.

A posse da nova diretoria será dia 13 de junho, no Teatro Rosa Moraes, quando da abertura do II Encontro Cearense de Escritores, que estará acontecendo em Crateús entre os dias 13 e 15 de junho de 2013.

Fotos: Carlos Henrique









domingo, 2 de junho de 2013

O Trem do medo


A nave da Igreja Senhor do Bonfim nunca admitira tantos fiéis como naquele distante domingo de janeiro de 1926, estava lotada. Aglomera-se gente até nas calçadas e, na ponta dos pés, estiravam o pescoço para melhor ver e ouvir a homilia do Padre Juvêncio. A pregação do sacerdote teve de tudo, menos o seu estilo característico, coloquial e ameaçador, sobre as benesses e os castigos do Evangelho. O Padre Juvêncio, ao perceber a grande inquietação, parecia um psicólogo:
- Meus amigos, fiquem calmos! Sabemos que os revoltosos estão chegando, mas não se alvorocem, por favor! Rezemos para que tenhamos a proteção de Nosso Senhor Jesus Cristo!
A maioria não esperou o final da missa. A prédica surtira um efeito contrário. Correram para suas casas e reforçaram as tramelas das janelas e das portas. Pelas ruas só se via os soldados dos municípios vizinhos ajudando à força policial do Governo Federal e da cidade de Crateús a reforçarem as barricadas e a cavarem trincheiras na Praça da Estação.
Alguém, imprudentemente e numa propagação desesperançada, anuncia aos quatro cantos da cidade, para que todos possam ouvir:
- O aviso do ataque veio pelo telégrafo da estação! A coisa não é de brincadeira, meu povo! Quem puder que se salve, pois o Capitão Peregrino soltou até o famigerado cangaceiro Zé Mourão, para proteger a nossa cidade!
O alvoroço, que já era grande, piorou. Os mais abastados, na calada da madrugada, sumiram para as fazendas, em ligeiras tropas de animais e, antes de escapulir, enterraram suas patacas de ouro e prata, amarradas em mocós de couro de bode, debaixo de algum verde juazeiro, pelas redondezas da cidade. Nestas desesperadas apreensões, para evacuar uma população em perigo, a quem tolha os movimentos e trave as suas ações, mas também há quem cedo se alvoroce e busque as soluções dos desespero.
Um trem estava parado na estação. E da idéia para a ação foi só o tempinho de reunir algumas famílias importantes, incluindo a do maquinista e do foguista, sem eles não teriam como partir.  Tudo em surdina.  Não poderiam espalhar a notícia, pois não comportaria uma cidade inteira nos vagões da Maria Fumaça. Dizem que foi o único trem que partiu sem um apito de despedida, e até o fumo que exalava de sua negra chaminé era pálido como a neve, para não chamar atenção! Mesmo assim, estava abarrotado de gente, que desertavam de sua cidade.
Fora o desagradável sacolejo dos vagões e o repetitivo som metálico: tchuc tchuc tchuc das rodas de aço nos encontros dos trilhos, só se ouvia as aves marias e as salve rainhas, quase silenciosas, dos lábios das aflitas senhoras com terços nas mãos. Algum soluço choroso, pelo pavor reinante nos lábios de uma criança, era imediatamente abafado. O Trem do Medo abria caminho pela madrugada incerta e todos tinham a impressão que caminhavam para a morte!
 Alguns corajosos cidadãos, com seus revólveres winchester Smith na cartucheira, ou mesmo um socadeira dependurada no ombro, confabulavam com o condutor sobre a probabilidade de encontrarem os revoltosos pela frente, eles diziam:
- Maquinista, se avista uma tropa com lenço vermelho no pescoço, não pare o trem, siga em frente!
Avisaram para os demais passageiros que ficassem abaixados, principalmente quando passassem por uma cidade, e quem olhasse para aquele trem, deslizando sobre a linha férrea, teria a impressão de que era uns vagoes fantasmas, sem um vivente nas cadeiras.
O trem, enquanto engolia carvão, comendo distâncias, soltava fumaça e já passara pela cidade de Ipueiras, ao sopé da Serra de Ipiapaba, sem parar. Subitamente um grande medo toma conta de todos, pois o maquinista reduzira a velocidade. Na frente, um amontoado de dormentes despregados sobre os trilhos, anunciava perigo. Tiveram que parar, senão desencarrilhariam e seria grande o desastre. Primeiro, perscrutam qualquer som estranho, como um estalar de galhos, vozes de soldados ou o engatilhar de fuzis, pois estavam todos abaixados. Levantam-se, lentamente, e percebem que estão sozinhos, sem poder seguir para a cidade do Ipu. A linha férrea havia sido destruída.
Ponderam sobre o que fazer, diversas sugestões aparecem, até em abandonar o trem e ganhar a caatinga sem rumo, em busca de algum socorro. O maquinista, como líder experiente, toma uma firme decisão, ele retornará e quem quiser ficar, que fique e ganhe as brenhas da caatinga, sem comida, sem água para beber. Todos resolvem segui-lo e o trem começa a longa viagem de volta, rumo à cidade de Crateús e de marcha à ré.
As mesmas orações que foram ditas na vinda são, desesperadamente, reconfirmadas na volta, pois mesmo em regresso, continuam numa viagem de fuga e cheia de incertezas. Mais de 200 quilômetros percorridos pelo Trem do Medo, onde em cada janelinha semiaberta pares de olhos imaginam vultos armados nas moitas de mufumbo, que margeavam a linha férrea.
Ou foi o poderio das rezas das senhoras ou um grande lapso da sorte, pois o destacamento de João Alberto marchava seguindo a linha férrea. Retornam à Crateús, são e salvos. Param o trem ao lado de uns cargueiros repleto de algodão, e se dirige as suas casas, vão reforçar, também, as tramelas da portas e das janelas.
Foi a tempo de saberem notícias de um estranho mendigo, se fazendo de aleijado, pedindo esmolas pela cidade, perambulando pelas ruas, mapeando tudo, caxingando por uma perna e com uma suja capa preta cobrindo a cabeça. O pedinte estira a mão para o casarão da Rua João Tomé nº 290 e pede esmola. Dona Isabel Bonfim Leitão oferece água, café e bolo, mas nota que o aleijado tinha boas maneiras, firmeza em pegar na xícara e levá-la à boca. Corajosa, pergunta:
- O que o senhor sabe dos revoltosos?
- Minha Senhora, eu não sei de nada, só sei das minhas esmolas!
Era o capitão Pretinho, perigoso espião do Batalhão de João Alberto, que anunciava angustiantes momentos de tempestades e medo!
Às três horas da madrugada, quando os revoltosos soltaram uma saraivada de fuzis, pelos cantos, denotando o cerco da cidade, os corações dos passageiros do Trem do Medo aceleraram novamente em disparada, e ao mesmo tempo sentiram alívio por não terem encontrado esses disparos em sua frustrada rota da fuga. A força policial que defenderia a cidade, revida com um crepitar intenso de fuzilaria. Era a cidade de Crateús em guerra!
O cangaceiro Zé Mourão rolava pelas calçadas e, agilmente, disparava seu fuzil, tal qual o bacamante de Alexandre Mourão, mas a Praça da Estação caiu em poder dos revoltosos, que ataram fogo nos cargueiros com algodão.
A nossa sorte foi que o Quartel General da polícia era a Matriz do Senhor Do Bonfim e do alto de uma das Torres um tiro certeiro acerta Antônio Cabeleira que saía correndo de uma casa em frente à Igreja. O tiroteio continua cerrado.
Dona Maria Augusta, olhando por uma fresta de porta, atesta o fim da luta. O Pelotão de policiais comandados pelo capitão Peregrino Montenegro encontra-se com uma tropa de revoltosos liderada pelo Tenente Tarquínio, na Rua da Pimenta, separados por um monte de pedras. Os dois oficiais, em duelo, trocam palavrões, vitupérios mútuos e por fim, tiros, mas erram. O Tenente provoca o Comandante da guarnição de Crateús para uma luta, na ponta ferro branco. O que faz Peregrino gritar: - Pois então saia daí e venha brigar! Mal o delegado de Crateús fecha a boca, já viu diante de si o audaz guerreiro revoltoso, que foi recebido com um tiro certeiro de mosquetão. Com o revoltoso ao chão, as pontas de facas o acabam de matar.
Era o crepúsculo de uma luta feroz pelas ruas de Crateús.  Os revoltosos, com seus lenços vermelhos nos pescoços, desaparecem pela Várzea dos Paus Brancos, foram enterrar seus mortos... Mas as lutas, as eternas lutas, pelas quais começaram uma grande marcha contra as fraudes eleitorais, a concentração de poder político nas mãos das elite agrárias, exploração das camadas mais pobres pelos coronéis, ainda continuam...
Pelo visto, os Trens do Medo nos trilhos da vida, permanecerão a circular!

Raimundo Cândido

José Alberto de Souza disse ...
Isto já não é crônica, mas sim capítulo de um romance histórico que, a partir deste momento, esse grande escritor está desafiado para concluir, pois deixou seus leitores ansiosos em saber começo e fim de tais acontecimentos.

Joâo Silas Falcão Soares disse...
Poeta e presidente eleito da Academia de Letras de Crateús, Raimundo Cândido. Li e reli com atenção única e vigorosa a sua crônica histórica e muito bem narrada. O título O trem do medo se encaixou com muita fidelidade ao contexto da narrativa de medo, receios, fugas e perigos. Desde criança escuto falar dos revoltosos, da Coluna Prestes em nossa cidade, mas não com detalhes como você abordou. Sei que você tem muitas pesquisas sobre a história de Crateús. Muito bom porque todas estas pesquisas serão assuntos para suas crônicas. 
Parabéns, amigo cronista.