quinta-feira, 1 de agosto de 2013

- E agora, Raimundo?


- E agora, Raimundo? 
Teu verso acabou,
tua prosa sumiu
e vieste a mim.
 Milagre?  Faço não,
por tua fraca inspiração!
                                 - E agora, Raimundo?                             
Feito aventureiro,
metido a sabichão,
acabou-se a animação,  
minguo o dinheiro,
e foi-se a alegria
de quem corre atrás de poesia!
- E agora, Raimundão?
- Tem nada não, Drummond!
A gente se faz de itabirense
que tem ferro na alma
para confrontar o Vasto Mundo.
Com jeitinho crateuense
e muita coragem na cara
se inventa até disposição!
- Ah, agora sim Raimundo,
me animei deveras
e mesmo no aperto de aposentado 
lhe empresto uns trocados,
para voltares pro teu Ceará!
- Valeu, Drummond,
até a próxima!

Raimundo Cândido

sábado, 27 de julho de 2013

 
MUNDO
A esposa segredou à enfermeira, no quarto da mansão: Ele nunca deve acordar. Nunca! Ouviu bem?
Do livro O colecionador de dedos.
Silas Falcão

sexta-feira, 26 de julho de 2013

David, O Profeta da Física.


            Afirmam os estudiosos, ao analisarem a infância, que de um mês aos três anos, nas crianças em plena maturação, principia uma vivacidade que vai brotando, levemente, das meigas pétalas da inocência. Dizem que se desenvolvem os inúmeros reflexos, realça-se a percepção de pessoas e coisas, um sorriso prazenteiro se estampa no rosto e salienta-se a sensível curiosidade em descobrir tudo ao seu redor, concluem com altivez os eruditos da pedagogia. Mas se um irrequieto menino é dotado, inexplicavelmente, de uma esperteza maior, tudo vem medrando mais cedo e as inesperadas surpresas vão assustando os incrédulos professores, os parentes arregalam os olhos, para orgulho dos genitores.
- Reparem como meu filho é inteligente! Diz a mãe vaidosa, mostrando alguma façanha do pirralho, aos sobressaltados vizinhos. São os geniozinhos que, aqui acola, surpreendem e assustam o mundo.
O batismo foi na Igreja da Matriz, com ablução de água benta pelo Padre Eliesio, um renascer espiritual, mas que para o menino Karlo David não foi o suficiente, pois um ser intrépido tem que ser purificado é no ardor do fogo. Logo que completa um ano, David se encanta com a luz proveniente das brasas de uma fogueira. A claridade, o princípio de tudo, a causa primeira do próprio existir, alumbrou o menino de Dona Raimundinha. Quando correram, em desesperado socorro, David já estava com uma brasa incandescente nas pequenas mãozinhas, num batismo de fogo, que é a iniciação de todo guerreiro. A marca, que o acompanhou pela árdua vida, confirma mais que um renascer espiritual, denota a manifestação de fibra que se apresentou na raquítica criança, como sinal de extraordinária coragem para o homem que iria enfrentar os desafios e os mistérios do mundo.
O Menino cresce e frequenta a escola para apreender a vida como as crianças pobres da Rua Cel. Tobias, mas não é um deles, tem incumbências que aos pouco vão se revelando na responsabilidade em cumprir suas obrigações e deveres, no talento para os desenhos que impressionavam os adultos, na preocupação social em querer proteger o velho e intermitente Rio Poti, eternamente sufocado pela poluição, na vivacidade do raciocínio e do olhar, que adquiriu do braseiro que queimou sua mão e na modéstia da alma, força que nunca perdeu.
Na gloriosa e tradicional Escola Técnica de Comercio Pe. Juvêncio, patamar sólido das vitórias de muitos cidadãos, revelou a aptidão pelo estudo das Ciências Exatas. Estudar é um trabalho difícil, pesadíssimo, comparável a brocar uma roça no pino do meio-dia. É um fino dom e arte, coisa para poucos! E dedicar-se a Física? Só para os eleitos, que estudam mais que os outros e vivem queimando neurônios!
A claridade da Física de Isaac Newton, mesmo vindo da luminosidade de uma brasa, princípio de tudo, causa primeira do próprio existir, um dia alumbrou o espírito irrequieto de David. Os Físicos são aves raras, profissionais de ponta que fazem com que as pessoas olhem com espanto e mentalmente declarem: - Ah, isso é que é Físico? Mas é um ser em carne e osso! Sim, e num cidadão comum, como  David, é que se resguardam os tesouros de um País, numa profissão que alavanca o desenvolvimento de um povo e que o Brasil pouco soube valorizar.
Um dia, para minha surpresa e espanto, recebo a ligação de David: - Prof. Raimundinho, gostaria de lhe convidar para uma aula inaugural do curso Teoria da Relatividade, aqui na Universidade Estadual do Ceará. Aceitei com satisfação o honroso convite. Um auditório lotado de mentes jovens, com um belo futuro pela frente, assistindo uma aula de Teoria da Relatividade de Albert Einstein ministrada pelos dois únicos Professores-doutores, e foi a única vez que vi dois pós-doutores presentes na cidade de Crateús, pois David havia convidado o amigo, pesquisador de Física das Partículas Elementares e Campos, com ênfase em Teoria de Supercordas, Prof. Dr. Leandro Ibiapina Beviláqua para juntos ministrarem um curso de uma semana. Estava sem acreditar... Em Crateús? Fiz questão de repetir, mentalmente, a pergunta: - Isso está acontecendo aqui mesmo, no meu Cratheús?
Alguns Jovens, crateuenses daquele auditório, tinham sido meus alunos , via-os agora cavalgando num raio de luz, como velocinautas no tempo e espaço da Ralatividade, viajavam para um futuro bem melhor, um porvir que meus olhos podiam ver, estava ali na minha frente!
Aquele menino, que mostrou uma responsabilidade social pelo seco Rio Poti no começo da década de 90, apontava o destino daqueles ansiosos universitários e demostrava o amor pela terra em que nasceu, quando muitos - quase todos - ao se verem com um diplominha de nível de nível superior nas mãos, criam asas, debandam e esquecem o torrão em que nasceram.
          O conhecimento nos faz responsáveis. Se nossos “doutores” tivessem um por cento da afeição que tem o Prof. Dr. David, por Crateús, seriamos um município bem mais desenvolvido, pois o guerreiro resolveu ficar, fazendo o bem para sua gente, ajudando a juventude a conseguir um futuro digno.
Um determinado dia, o Prof. David convida o Químico, também professor e ex-aluno, André Aguiar a levarem o nome de Crateús até o longínquo Rio Grande do Norte. Eles concorrem no II Encontro Nacional de Química e arrebatam o Troféu “Erlenmeyer de Ouro”, e esse é somente um exemplo do impulso que o nosso Físico impõe na mente de nossa juventude.
Como David, o profeta Rei de Israel, que era dono de muitos dons, da música, da dança, da poesia e dos salmos, David , nosso Profeta da Física, é o dono do pensamento mais feliz de Einstein, quando disse que ao mergulhar no mais profundo silêncio a verdade se revelava. De meu incomum e longo silêncio vejo a verdade da Física do bem e da bondade iluminando os caminhos de nossos jovens com uma acesa brasa da sabedoria na mão. Só quero confirmar, com essa breve história, que, Karlo Einstein David Saboia, é um crateuense que tenho orgulho de ser conterrâneo!

Raimundo Cândido

quinta-feira, 25 de julho de 2013

AS HORAS




Das cinco a sete da manhã o condomínio ouvia vozes, sorrisos e música.
Até a manhã seguinte, um silêncio extenso.
 
E há décadas que concreto lacra porta e janelas do apartamento.

 
O colecionador de dedos – micro contos.
Silas Falcão
 
 

DIDEUS SALES E A POESIA POPULAR

                

POR DIMAS MACEDO
 
 
                                             DIDEUS SALES
  

                Existe uma tradição (e uma tendência) na poesia de todos os tempos que resiste à tentação das vanguardas e da modernidade: a poesia de inspiração e ritmo popular. Não se enquadra nos rótulos de nenhuma gramática, não cabe em manuais acadêmicos e não se mede pelos parâmetros do mercado onde se vendem mercadorias e serviços.
 
               É espontânea como as energias do amor, a plenitude e o brilho das estrelas ou como as águas que descem fagueiras das escarpas em busca dos regaços que as levam de volta para Deus.
               Trata-se de uma poesia heroica e multifacetada, que paga tributo unicamente à vida e às grandes esperanças do homem. É revisada e atualizada sempre que entra em contato com o leitor, pois é para ele e não para as ilusões do mundo que ela se refaz e sempre se renova.
 
                Foi assim com a poesia épica de Homero, com os jogos florais do medievo, com os movimentos trovadorescos de todas as idades e com a poesia popular ibérica que nos deu as linhas de pesquisa e os formatos de bolso e de linguagem da literatura de cordel.
 
                Está mais próxima do romance e do enredo de gosto popular do que qualquer outra forma de representação veiculada pela palavra ritmada. Está mais próxima do leitor e das suas aventuras do que as projeções ou a dança das imagens que remarcam a existência da sociedade moderna.
 
                O sertão é o seu locus privilegiado, pois é aí que ela se elabora e se reproduz pela voz dos aedos populares. Leandro Gomes de Barros, no campo do folheto de cordel; Aderaldo Ferreira de Araújo, no setor dos cantadores de viola; Lobo Manso, na seara das profecias e da poesia de combate; e Patativa do Assaré, na linha de todos os ritos polifônicos que unificaram a voz dos deserdados e despossuídos em busca de igualdade e de justiça – são exemplos de poetas do Nordeste que mudaram o curso da literatura popular no Brasil. 
 
               A afirmação do extrato máximo da cultura, para a minha visão, não está nas Universidades, tampouco nas Academias, esses nichos de petulância e de quase nenhuma produção, mas naqueles que fazem a cultura prosperar, em todos os quadrantes do mundo e, especialmente, no sertão. 
 
               Os grandes produtores de cultura do Ceará não estão somente em Fortaleza, como pensavam, até bem pouco tempo, os pesquisadores eruditos, mas em toda a extensão da terra de Alencar. Juvenal Galeno, Patativa do Assaré, Oswald Barroso e Gilmar de Carvalho conheceram ou conhecem o Ceará e as suas tradições muito mais do que os poetas que mourejam no Ideal; ou muito mais do que os eruditos que estudam a extensão da sua ignorância nos corredores do Benfica. 
 
            Dideus Sales, andarilho e pastor de sonhos, que costura a ligação vilas e cidades, no interior do Ceará, é um legitimo representante da cultura cearense e da poesia popular do Nordeste. E mais do que representante, Dideus é o maior e o mais vivo dos poetas cearenses a fazer, no Ceará, a ponte da cultura entre o sertão e o litoral.
 
              Jornalista, poeta e guardador de tradições sem conta da alma sertaneja, Dideus não para de crescer e produzir. Editor da revista Gente de Ação, sediada em Aracati e que se espraia por todo o Ceará, Dideus atravessa o sertão da sua terra sempre a carregar nos bolsos (e na alma) a verve do povo cearense e as suas mais belas tradições.
 
             Na condição de poeta, já nos deu meia dúzia de livros e opúsculos que o colocam em posição de relevo. Mas Dideus não para de escrever e publicar. Prova dessa sua paixão de ordem cultural, é o seu livro: Veredas do Sol (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2006), que dispensa prefácios ou apresentações. É sóbrio, sereno, espontâneo, equilibrado e arrojado como todos os grandes e pequenos projetos literários do autor.
 
              Ter sido o autor do prefácio desse livro constitui um privilégio para mim, porque nesse texto me vejo retratado também. E para além da minha condição de poeta, orgulho-me de ser amigo de Dideus, de ser hóspede do seu coração e do seu afeto e de ser leitor de suas intenções e dos seus grandes achados no plano da cultura.
 
              Não vou entrar no conteúdo do livro. Deixo para o leitor o prazer de desfrutar, de primeiro, as imagens e os ritos do sertão que esse volume documenta: lições de vida e de beleza, lições de vida e esperança, lições de vida e de amor desse trovador e poeta do sertão, que o Ceará e o seu povo legaram à poesia telúrica do Brasil.
 
 
Postado por Silas Falcão


terça-feira, 16 de julho de 2013






Janeiro.

A carta apareceu. Curiosos, todos leram a história inacabada.

Lua do janeiro seguinte.

Na cidadezinha ainda com medo, a última frase da carta apareceu desvendando o mistério.

 
Do livro O colecionador de dedos

Silas Falcão

sábado, 6 de julho de 2013

CONFESSIONÁRIO


 

- Pode contar seus pecados, meu filho.
- Padre, sou seu neto.

Silas Falcão


Do livro de micro contos O colecionador de dedos.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A Coruja esfomeada.

                                                           
Uma grande crise se abateu sobre o Planalto Central. No desespero, sem saber o que fazer, o Centro Administrativo dos Camundongos convoca todos os ratos, ratinhos, ratões e as ratazanas da nação  para uma Grande Convenção entre os salafrarios , ordinários,  patifes, tratantes  e roedores larápios do Brasil. O que tinha de rato em Crateús, (E não eram poucos!) pegou carona, clandestinamente é claro, nos ônibus e caminhões que se dirigiam à Brasília. Quem sofreu bastante foram as pobres corujas! Procuraram um ratinho para matar a fome e não acharam! Estavam ficando magras e desnutridas.
                Uma coruja branca, destas orelhudas e da cara redonda, moradora dos telhados do Colégio Vitória, teve uma ideia brilhante , pois não aguentava mais passar tanta fome. Iria comer um dos saborosos alunos daquele estabelecimento, alguns até pareciam uns ratinhos dentuços. Ficou de olho, bem atenta! Percebeu uns quatro meninos que moravam ali por perto e tramou um plano. Estes estavam no papo! Sábia, como é toda coruja, eliminou logo dois, pois eles não tinham carne nem para fazer um pastel!  Dos outros,  viu que o mais gordinho, metido a alemão, era muita sustância para sua fome. Pronto, estava escolhida a vitima: Arthur Goiano, até o nome era sugestivo como cardápio de lanchonete, não precisaria nem de maionese nem ketchup.
Sorrateiramente, voando leve como uma pluma, penetrou no quarto dos meninos e, bem oculta, aguardou. O coraçãozinho do Arhur quase pula pela boca quando viu aquele bico arregalado e as pontiagudas garras de cinco centímetros da coruja esfomeada. Foi um pega num pega, um corre que corre tremendo e Arthur gritava desesperado:
- Socorro!!! Alguém me ajude! Esta coruja doida está pensando que sou um rato! 
- Já que alguém aqui não tem coragem, chamem o Tio Dim, e bem depressa, por favor!
Alguém pegou o telefone e, rapidamente, liga para o tal corajoso Tio Dim que, como um Super Herói das revistas em quadrinho,  voa rápido  e apreende a Coruja malvada, salvando o menino Arthur, que nem fôlego tinha mais, de tanto correr.  
A Coruja foi solta nas margens do Rio Poti, que é o seu verdadeiro lugar, mas mandou um recado para o gordinho Arthur:
- Oh, seu intrometido Tio Dim, diga para aquele ratinho roliço, que se nossos alimentos não vierem logo de Brasília eu volto lá, e ele agora não escapa não! E levantou voo, piando tristemente, com suas longas asas talhadas ruflando no ar, rumo à inóspita Caatinga para se alimentar de algum desprevenido e saboroso calango.


Raimundo Cândido

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Piauí terra querida...

( De Maria José Carvalho Coelho, sobrinha do Ilustradíssimo e saudoso  Nonato Bonfim, professora na cidade de Salvador - BA e trabalha poesia(cordel) com seus alunos – Nasceu em Campo Maior – terra da Batalha de Jenipapo, de Gonçalves Dias e Torquato Neto)

“Piauí terra querida
Filha do sol do equador”
Por isso és bela e quente
Feita torrente de amor

Eu sou da terra das serras:
Das Confusões, da Capivara
Presentes dado por Deus
Ao mundo que Ele criara

A Chapada do Corisco
Tem valor inestimável
Em São Raimundo Nonato
Tem arqueologia notável

Temos rios cachoeiras
Até um braço do mar
Fica em Luís Correia
É lindo cê vai gostar!

O Delta do Parnaíba
É nosso cartão postal
Visite ele pra ver
Que Deus só fez esse igual

Único em mar aberto
Das Américas é o maior
Com 66 km de extensão
Ecossistema, o melhor.

Sou de uma terra linda!
E com muitas coisas raras.
A opala pedra preciosa
Em dois lugares encontras

No Piauí tem de tudo
Ilhas, lagoas, igarapés
Praias de areia fina
Tem hotéis e tem chalés

Temos dunas e coqueirais
Tem o Morro do Gritador
Tem a Cidades de Pedra
Que ao mundo encantou

Tem a Pedra do Castelo
Cachoeira do Urubu
Tem a Lagoa do Portinho
Vamos lá fazer um tour.

Temos frutas exóticas
Bacuri e buriti
Encontradas no cerrado
Como o famoso pequi

Pequi é afrodisíaco
Rico em vitamina A
Por isso somos saudáveis
Não temos do que queixar.

Nós também exportamos
Carnaúba, algodão,
A cera, soja, castanha,
Manga, caju e mamão...

Temos também a mamona
Que vira combustível
Pra fazer o carro andar
E chamam de biodiesel

“Minha terra tem palmeiras”
E verdes carnaubais
As aves também gorjeiam
Saudando belos pardais

Temos festas populares
Bumba-meu-boi, Zambelê,
Temos lendas, marujada...
Tem festejos pra se vê

Sou filha de Campo Maior
Cidade linda e acolhedora
Tem a melhor carne do sol
Pra fazer comida boa

Foi lá em Campo Maior
Que lutamos por liberdade
Pra nos livrar de Portugal
E toda sua crueldade

A Batalha do Jenipapo
Foi “guerra” de três estados
Contra as tropas de Fidié
Lutamos sem ter soldados

Em 13 de março de 1823
A batalha foi decidida
Foi bom pra Independência
Mas pra história esquecida

Faltou vontade política
Pra fazer divulgação
E validar nossa luta
Nos livros da Educação

Nossa bela capital
Chama-se Teresina
Auspiciosa, hospitaleira
Tem cheiro de cajuína

Bebida que vem do caju
Feita sem muita proeza
Tem um sabor refrescante
Igual a mãe natureza

Da Costa e Silva fez o hino
Do meu belo Piauí
Teus filhos cantam e encantam
Tal qual um pitiguari

Sou da terra de Torquato Neto
Sou matuta sou brejeira
Sertaneja, ribeirinha
Piauiense matreira

Piauí terra querida
Majestosa, altaneira
Orgulho de ser sua filha
Terra amada, brasileira.

Maria José Carvalho Coelho

Direitos autorais reservados

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cratheús Aguerrido.

                                                              
           Os vespertinos raios do sol mal banham a superfície cristalina do Rio Poti quando este, repentino, muda de leste para o norte num fluir sinuoso, rumo ao paredão da Ibiapaba, delimitando o agreste palco dos Sertões de Cratheús.
O tablado dos acontecimentos históricos, ornamentado por galhos retorcidos de aroeiras, angicos, juazeiros e catingueiras, esquadrinhado pelos preás, tatus-bola e veados-catingueiros foi, e continua sendo, o lugar de épicos, comédias e tragédias de um povo aguerrido no seio da caatinga inóspita. Por aqui, sucederam-se grandiosas obras teatrais de fazer inveja aos gregos Ésquilo, Sófocles e Eurípides.
Desumanos Mestres-de-Campo são convidado por Francisco Garcia d'Ávila, proprietário da Casa da Torre, na Bahia, para aniquilar os índios, por toda essa região.
A expansão pastoril do Castelo da Torre não conhecia limites, com uma audaciosa ganância, às avessas ao mar, Domingos Jorge Velho e Diogo Afonso Sertão, dos Ávilas, vinham desbravando o Piauí. E os Kara-thi-us, de lanças e arcos nas mãos, não puderam combater os bacamartes de boca sino cuspindo raiva e fogo na rudimentar guerra de um agreste palco, configurando-se a primeira derrota do destemido sertão.
Apaziguado os ânimos dos gentios, vai surgindo, pouco a pouco, um povoado nas margens do rio das piranhas, seduzido pelo aromático estrume dos currais e pelo ecoar dos aboios a tanger o gado.
Do tronco da velha fazenda Piranhas, nas margens do Poti, esgalha-se a futura Vila Príncipe Imperial, esparsa e bucólica num esboço rústico, mas já exibindo cenas de um tumultuoso velho oeste, necessitando de periódicas intervenções dos emissários da arcaica cidade de Oeiras, nossa primeira capital. E já vibrava, pelas empoeiradas ruas, um DNA aguerrido das famílias Melo e Mourão, que duelavam entre si, a sangue e ferro, conclamando o duro pulso de uma força policial.
Foi tal qual uma Guerra interna, mas estendeu-se por pastagens longínquas, bem fora do nosso domínio, atraindo os olhares dos administradores da Província e os rancores Imperiais.  Do alto de seu trono, Dom Pedro II ordenava ao Pe. José Martiniano de Alencar: - Acabem com a raça dos Mourões!
Era Alexandre da Silva Mourão IV, caráter belicoso, que atraía para si todas as atenções numa época de irrefreado cangaço. Quando não guerreava diretamente, usava a sabedoria de submeter o inimigo sem combate, que o diga o Tenente Felix Bandeira, com 40 soldados bem armados, cansou de percorrer as veredas dos sertões no encalço do ardiloso e desalmado cangaceiro, filho do célebre Alexandre II, que fizera parte da Batalha de Jenipapo enfrentando as tropas do português Fidié, que tinha pretensões de manter esta região sobre o domínio lusitano, surgindo assim, o Movimento Separatista de Oeiras. Uma manifestação genuinamente brasileira.
Foi no tempo em que, nos conflitos dos sertões bravios, os viris sertanejos ao falar em guerra, até as suas palavras tinham o peso do chumbo e a ligeireza das flechas. Como a capital Oeiras, Cratheús também proclamou uma independência dos domínios lusitanos, é o que afirma um trecho vago de um antigo documento: “O povo de Príncipe Imperial e Marvão, por pretenderem levá-lo ao criminoso Partido de Libertação, advertimos que não tendes proporções para a Independência. Falta-vos agricultura, arte, ciência, manufatura, comércio, dinheiro e, sobretudo, Exército e Marinha”
À sombra das ordens do Cel. João de Araújo Chaves, 300 homens dos Sertões de Crateús e Inhamuns, a 13 de março de 1823, juntaram-se as tropas de vaqueiros e roceiros do Piauí, para um combate feroz nos barrancos do Riacho Jenipapo, próximo à Vila de Campo Maior.  Quando Dom Pedro I, às margens do Ipiranga, deu o grito de “Independência” não se derramou uma só gota de sangue, mas na sangrenta Batalha do Jenipapo, que assegurou a unidade territorial do Brasil, o combate foi brutal, causando a morte de mais de duzentos bravos sertanejos, toscamente armados com facões, espingardas socadeiras, foices e até mão de pilão, em cinco eternas horas de agonias, tempo que durou a malograda batalha e que foi uma vitória de Pirro para Fidié, derrotado logo em seguida, na vila de Caxias, no Maranhão.
O poeta da Itabira, Carlos Drummond de Andrade, em reconhecimento à ação dos combatentes independentes de jenipapo, imortalizou-os no poema “Cemitérios”: “No cemitério de Batalhão os mortos do Jenipapo / Não sofrem chuva nem sol; o telheiro os protege / Asa imóvel na amplidão campeira.”
A lendária vida dos rudes homens do cangaço, expulsos de suas terras, tostados pelo sol e amaldiçoados pelos sangue das almas que abateram, é um padecer sem fim. E Alexandre Mourão IV, o mais famoso cangaceiro dos Sertões dos Kara-thi-us, vê a oportunidade de se redimir dos inúmeros crimes com uma Revolução que se alastra no Maranhão, A Balaiada.  Alista-se aos 200 soldados que sobem à Serra dos Tucuns sob o comando do Cap. Antônio José Luís de Oliveira, para ser absorvido de seus delitos e poder voltar a uma legalidade.
No Maranhão, os ricos fazendeiros, num sarneísmo antecipado da aristocracia rural, por conta de uma dura crise econômica impõem perversa fome e maus-tratos aos vaqueiros e escravos, que se incitam e começam uma revolução na terra em que nasceu e viveu o poeta Gonçalves Dias. O vaqueiro Raimundo Gomes, o balaieiro Manoel dos Anjos e o quilombola Cosme Bento emprestaram coragem, força, alma e sangue aos revoltosos balaios.
Em 1841, Alexandre Mourão IV, e alguns de seus parentes crateuenses, seguem uma tropa de 8 mil soldados, com farto armamento de guerra, para a Vila de Caxias, para lutar ao lado do Coronel Luiz Alves de Lima e Silva, aniquilando impiedosamente 12 mil pobres sertanejos, vaqueiros, agricultores e escravos e, com isso, o desumano Coronel Barrão foi premiado, passando a se denominar Duque de Caxias e o nosso herói cangaceiro retorna ao seu torrão, livre, puro e sem piedade, como um carcará que revoa pelo sertão!
  Em tempo de guerras os homens viram tigres, dizem. E deve ser verdade, pois estávamos até no maior conflito armado da América do Sul: A guerra do Paraguai! Um estéril combate em que morreram mais soldados por doenças, fome e exaustão física do que propriamente pelas ação das balas. No livro, A retirada da Laguna de Visconde de Taunay, capítulo XIX em que fala da passagem do Rio Miranda, em cheia alta, lemos o feito heroico do soldado Damásio, um corajoso crateuense, quando tentavam passar quatro pesados canhões pelas correntezas do rio pantaneiro, sobre troncos de árvores, tracionados por cordas e polias. A primeira peça, passa tranquila, com estrepitosa aclamação dos soldados do outro lado. Já a segunda peça, escapou das amarras e caiu no fundo do rio. Leiam agora na própria “voz” de Taunay: “Um soldado, cujo nome merece ser recordado, Damásio, ofereceu-se imediatamente para mergulhar no ponto da imersão, e, tendo conseguido reconhecer o fundo, pode, após duas ou três emersões, para tomar fôlego, passar em torno da peça uma corda de que se provera e serviu para a puxar. Foi a lição aproveitada quanto aos cuidados tomados com a amarração das demais bocas de fogo e apressou o resto da operação, permitindo completar a passagem à tarde daquele dia e na manhã seguinte.” Desta guerra, conhecida também como o massacre dos meninos, nenhum pais envolvido teve algum proveito: O Paraguai com 100 mil mortos, entre soldados e crianças inocentes,  ficou em ruina total, já o Brasil, com a fragilidade da estrutura militar exposta e 50 mil brasileiros mortos por doenças e pelos rigores de um clima!
Quando o beato cearense Antônio Conselheiro, espectro vivo a rezar ladainhas, liderava 20 mil sertanejos na comunidade de Canudos, na Bahia, o Exército Brasileiro tentou por três vezes aniquilá-los, na rústica arapuca de um arraial. De Belo Monte, que na realidade era um vale, o radical devoto dizia: - A República é materialização do reino do anticristo na terra. Quando, no dia 5 de outubro de 1897, a 4ª Expedição Militar disparou um tiro de canhão atingindo a torre da Igreja, os sertanejos que já sem água e sem comida e mesmo assim não se renderam, um crateuense estava lá! Francisco Lopes Ferreira Lima incorporado a um batalhão, viu o massacre de milhares de marginalizados do sertão nordestino. Presenciou quando um velho, uma criança e dois sertanejos, os últimos insurretos, ficaram honrosamente de pé, na frente de 5 mil soldados que rugiam como animais para o desfecho final da batalha e também viu quando os agarraram pelos cabelos, dobraram-lhes as cabeças, engargalando-lhes os pescoços e, francamente expostas suas gargantas, os degolaram. 
Nos, Crateuenses, lutamos até na floresta Amazônica participando da conquista do território do Acre. Foi quando chegou por aqui, no início do século, o conterrâneo José Francisco da Silva que guerreou ao lado do Cel. Plácido de Castro, e trouxe a notícia da expulsão dos invasores bolivianos da região. O Acre é o Estado Brasileiro que todo dia 15 de junho, data da elevação à condição de estado, hasteia três bandeiras em seus pavilhões: a Brasileira, a do Acre e a do Estado do Ceará, em homenagem aos heróis cearenses-crateuenses que lutaram na Revolução Acreana. Podia hastear a bandeira crateuense, também!
Não fomos a 1ª Grande Guerra mundial, em 1914, chamada de Guerra das Trincheiras onde os soldados morriam se contorcendo como baratas pelos corrosivos gases mostarda e cloro. Mas em (des)compensação estivemos na Sedição de Juazeiro, um ano antes da seca do 15.  Na remota década de 20, quando o menino Norberto Ferreira Filho não estava entregando pão da padaria de seu pai ou colocando água das cacimba do retiro, ficava ouvindo as conversas do velho sapateiro Moises Almeida que havia tomado parte na Revolta de Juazeiro do Norte, nos Sertões do Cariri, integrando as forças do Governo Federal que lutaram contra os jagunços de Floro Bartolomeu e do Padre Cícero Romão Batista. Ferreirinha aprendia a arte de Heródoto e ficou sabendo que o velho Moises havia perdido a guerra e que o excomungado Padim Cícero permaneceu como eminência parda na política cearense, com uma população de sertanejos venerando-o, feito santo, feito profeta.
Já na 2ª Grande Guerra estivemos em número bem maior, pois o Exército saiu a catar soldados, ou se ia para o fronte de batalha ou para a Guerra da Borracha, enfrentar animais perigosos e a maleita, no seio da Floresta Amazônica.
Os Expedicionários brasileiros-crateuenses foram incorporados às tropas americanas e ficaram entrincheirados nas encostas do Vale do Reno, em Monte Castelo, onde enfrentaram a 232ª Divisão de Infantaria Alemã, à temperatura de 10°C negativos e com neve até o peito. Ouviam, constantemente, os disparos dos inimigos e os estrondos das granadas que pipocavam ao lado. O herói crateuense, Francisco Bezerra Lima, o Chico da Doninha, entregador de água em jegue e amigo de Seu Ferreirinha, foi ferido duas vezes no eufêmico “Teatro de Operações” e recebeu um certificado de liberação, para ir para casa.
Os alunos do Instituto Santa Inês, tendo à frente a professora Madrinha Francisca, receberam o guerreiro cantando: “ Você sabe de onde eu venho? Das margens crespas dos rios, / Dos verdes mares bravios / Da minha terra natal. / Por mais terras que eu percorra, / Não permita Deus que eu morra / Sem que volte para lá; / Sem que leve por divisa / Esse "V" que simboliza / A vitória que virá: / Nossa vitória final, / Que é a mira do meu fuzil, / A ração do meu bornal, / A água do meu cantil, / As asas do meu ideal, /A glória do meu Brasil.” Foi uma grande festa para recepcionar um herói crateeuense!
Mas nem tudo são flores na vida de um ex-combatente, veterano de guerra. O Chico da Doninha, cidadão educado e tranquilo, não podia experimentar a danada da cachaça Lagoa do Barro. Quando chegava num bar, só ficava o dono com as pernas tremendo, atrás do balcão. Os vapores do álcool liberavam os pesadelos do “Teatro de Operações” e o coitado do Chico ouvia os gritos dos companheiros feridos e os estrondos das granadas. Então, como em Monte Castelo, desfechava tiros a torta e a direita e jogava facas afiadas ao encontro dos troncos das árvores.
O povo, que olhava das janelas entreaberta, penalizado dizia: - Coitado, pegou a maleita da guerra!
Certo fez o novo orientense, crateuense Sargento Hermínio Aurélio Sampaio - que um dia, no prédio quadrado da atual prefeitura, atocaiou o bandoleiro Alexandre Mourão IV- ele resolveu se transformar em herói e na madrugada do dia "D", o momento mais importante de 2ª Guerra, enfrentou as gargalhadas sinistras dos morteiros inimigos. Naquele fatídico dia, estava com uma pá na mão e preparava uma posição para um Fuzil Metralhador, sempre a gritar:  - Precisamos avançar! Venham comigo!  Súbito, uma rajada certeira e mortífera o fulminou,  ali tombou o Sargento Sampaio que não quis passar, como o Chico da Doninha, pelas maleitas de guerra nas ruas de sua cidade, resolveu permanecer na Itália, sepultado no cemitério de Pistola, onde estão os corpos dos membros da Força Expedicionária Brasileira. E pelos primeiros indômitos karatis que tombaram na árida caatinga, pela geração de Mourão com bacamarte na mão, pelo soldado Damásio, pelos Franciscos, pelos Moises, e por todos os outros extraordinários guerreiros crateuenses, damos vivas aos nossos heróis!
Raimundo Cândido



 (A crônica “Cratheús Aguerrida” não se pretende alçar de rigidez histórica, mas seus dados podem ser comprovados nos livros: Fatos e Cousas do Passado e Coletâneas 1 e 2 de Norberto Ferreira Filho, Meus Avós de Raimundo Raul Correia Lima, Inhamuns, Terra e Homens de Antônio Gomes de Freitas, A retirada da Laguna de Visconde de Taunay e Diversos Documentos antigos de Crateús que estão no Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.   E aos que me cobram precisão de fatos e épocas peço, se possível, que coloquem esta narrativa na gaveta dos pretensos textos literários.)
José Alberto de Souza disse...
Esta crônica Cratheús Aguerrida" tem a sua importância marcante na medida em que faz um levantamento sucinto de todo o passado heróico dessa brava gente do Ceará. Através de todos expoentes épicos que deixaram seus nomes registrados em diferentes obras de autores consagrados. E que Raimundo Cândido teve a paciência de compilar, demonstrando assim como historiador mais uma de suas facetas.



domingo, 16 de junho de 2013

O Casarão do Crime


Com exceção da lascívia dos felinos sobre a vertente dos telhados e da permissividade dos ébrios inveterados deslizando pelas ruas da cidade, tudo que vagueia ao relento faz parte da obscura mazela que povoa a calada da noite. É a hora em que as máscaras caem e o sorrateiro mal avança. Momento em que os valores morais e éticos são postos à prova, pois é na recôndita calada das trevas que as hienas espreitam!
Quando os vampiros saem de suas tocas, ávidos por sangue, quando os guizos das cascavéis chocalham com seus mórbidos avisos, é a dita hora em que as coisas que não podem ser feitas em público, são postas em prática. Mal o limite do oculto se amplia, os crimes contra o povo são perpetrados. É no momento em que os olhos da dignidade serenam, distraídos, sem espreitar nem se precaver do secreto, aí o falso moralista mostra que não passa de um hipócrita.  A ganância humana vira lobisomem!
O áspero cabo de aço intrometeu-se pela janela do oitão da Rua Cel. Zezé deslizando pela velha sala de visita - na qual esparramava-se o sonolento semblante de uma tradição, a face de uma era - e saiu pela claridade da Rua João Tomé, num serpentino abraço atando-se a um robusto trator, que já roncava. A tração, um cortante cerol, talha a grossa parede de imensos tijolos como faca amolada no queijo coalho e tudo vem abaixo. As gerações dos aguerridos Mourões abalaram-se em seus incorpóreos alicerces, agora sem o bacamarte em punho para revidar, sente-se a falta da pena do poeta José Coriolano para protestar contra o ato insano em seu sanguíneo cabedal. O Coletor Estadual e chefe político Enoque Mourão, com todos seus descendentes, se agita, de onde está, sem nada poder fazer. Ruiu, como um castelo de cartas, o Casarão dos Mourões!
Há muito que se notava uma força estranha estendendo tentáculos gananciosos pelas terras do Senhor do Bonfim, como uma sombra que caminha agachada, sorrateiramente a negacear, a tirar proveitos de ajustes escusos, como os judeus, de quem nos fala Gustavo Barroso em Historias Secretas do Brasil, que com os repulsivos lucros desde o tráfego negreiro, com os ágios de corrupções e das drogas, vêm comprando o Brasil e o mundo. Estarão, também, devorando os velhos casarões de Príncipe Imperial, em busca de uma legitimidade?
Já passava da meia-noite, quando o bancário Fred observa uma poeira de escombros subindo pelo cruzamento das Ruas Barão do Rio Branco e Cel. Lúcio e percebe a tramóia, era a iminência de mais um crime na calada da noite. Liga para o Professor Paulo Geovane que alardeia a todos na reunião do comitê do Partido Socialismo e Liberdade, Psol:
- Meu povo, estão derrubando mais um casarão da cidade!
 A Professora Adriana Calaça, candidata a prefeita, alvoroça-se e parte na frente, rumo ao anunciado endereço, seguida de perto por Geovane.  
O trator já patina no assalto, em marcha à ré, tracionando um forte cabo de aço amarrado nas paredes do imenso Casarão dos Machados: Vroom!! Vroooom!!! Vroooooomm!!! Os olhos espantados de Adriana Calaça clareiam-se num lampejo de coragem e determinação, como nos raros momentos da história em que surgem os heróis, quando ouviu um estalido seco, como um chicote no ar: Páááá!!! O cabo de aço partira-se! De imediato avisa para seu companheiro de partido:  - Paulo, isso foi um aviso! É para nos dizer que não deixemos esse povo demolir o casarão! Siga-me!
Passam por baixo do cabo de aço, que um funcionário novamente amarrava por entre os janelões, e postam-se, corajosamente, em frente ao paredão que irá cair!
O motorista do trator e os recentes donos do prédio, aos gritos, avisam:
- Vocês são loucos!!! Vão acabar morrendo se não saírem daí!
A turba que aguarda, ansiosa, para assistir ao espetáculo do tombo do Castelo, estava dividida. Alguns, subordinados pelo dinheiro, gritavam:
- Derruba por cima! Mata! Mata a prefeita!
Rapidamente, outras pessoas foram chegando, e dão apoio à temerária dupla, armada somente com a disposição extraordinária de alma de guerreiro. O poeta Elias de França, notando que não se entenderá com os proprietários por meio de meras palavras, liga para o Promotor de Justiça, Dr. José Arteiro, e marca-se uma Audiência Pública de conciliação entre as partes, os proprietários do prédio e Academia de Letras de Crateús representando a sociedade civil. A reunião de conciliação foi presidida pelo Juiz da 3ª Vara de Tauá, Dr. Adriano Pontes de Aragão. Naquele dia, assistiu-se a um belíssimo show de erudição e discernimento de um honrado magistrado, que lembrou a sabedoria bíblica do Profeta Salomão, confirmando que a força da lei, em mãos hábeis e sábias, é o poder que restaurará a Nação. Assinou-se um acordo de preservação da fachada histórica do Casarão dos Machados, mas este já havia confirmado a sua inalterabilidade na face do tempo, desde o dia em que recebeu o batismo da eternidade por um raio de cem mil volts mandados pelos céus, e que escoou pela fachada em mistura de barrenta descarga elétrica, cal e tijolos do pico do seu oitão. 
A lei Nº 186 de novembro de 2011 que dispõe sobre a preservação do patrimônio histórico, cultural e turístico do Município de Cratheús protege os prédios históricos, e afirma: pela destruição, pela demolição do bem tombado, multa de até dez vezes o valor venal do edifício.
Mesmo assim, as madrugadas sonolentas da cidade são inimigas do nosso patrimônio e, numa mera distração da dignidade, a ganância continuará a detonar nossos casarões, pelas frientas caladas das noites.
Uma sensação de temor e apreensão ainda desfila pelas madrugadas da Rua João Tomé, esquina com Cel. Zezé: O Casarão, aonde Dona Isabel Bonfim Leitão serviu água e café para o falso aleijado, Cap. Pretinho, alertando a cidade para a presença de um perigoso espião da Coluna Miguel-Prestes, pode a qualquer hora amanhecer no chão!
 Uma sensação de temor e apreensão ainda desfila pelas madrugadas da Rua Padre Macedo com a Rua Firmino Rosa: O Casarão dos Bonfim, sede da Fazenda Piranhas, que ostenta o símbolo da Intendência Municipal em sua fachada, pode a qualquer momento amanhecer no chão!
 Uma sensação de temor e apreensão ainda desfila pelas madrugadas da Rua Carlos Rolim com a Rua Dr. José Coriolano: O casarão onde morou Padre Macedo, que um dia hospedou o escritor Antônio Bezerra de Menezes e de onde o criminoso Adriano pulou a janela após esfaquear o sacerdote, pode a qualquer instante acordar no chão!
   Uma sensação de temor e apreensão desfila pelas madrugadas das ruas da cidade aonde ainda exista, de pé, um histórico casarão: pode não haver, nesta noite calada, fria e desprevenida, uma heroína-guerreira, uma entusiasmada Adriana, decidida e de prontidão!                         

Raimundo Cândido

José Alberto de Souza disse...
Às vezes, me quedo perguntando,  se a humanidade ainda não se encontra preparada para o progresso,  será que não precisa duma nova Inquisição?