terça-feira, 27 de agosto de 2013

BAZAR DAS LETRAS ENTREVISTA O POETA DIDEUS SALES



Carlos Vazconcelos (D) mediando o Bazar

Público atento. E aplaudiu bem o poeta.



Abraço Literário sempre prestigiando o Bazar das Letras
Poetisa Rosa Morena e Silas Falcão



Abraço Literário.



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cabra declamador


                                                        Tu, cabra declamador:
                                                        que gosta de uma boa rima,
                                                        aspirina, cafeína, cafetina
                                                        em voz de choro e de furor,
                                                        em farto riso e copiosa dor,
                                                        quero ver se é bom recitador
                                                        se conseguir sem se engasgar,
                                                        sem presunção, sem se alongar,
                                                        na apropriada  entonação,
                                                        com alma, timbre na marcação,
                                                        imitar na firmeza de toda cerda
                                                       o grunhido do bacurim na merda,
                                                       misturando tudo, feito incréu
                                                       e sem faltar uma virgula ou trema,
                                                       com a aguda risada da sariema
                                                       e o esgoelado alarme do tetéu!


                                                              Raimundo Cândido

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A Praça da Matriz - O coração da cidade!


             Quando a comitiva do historiador, autodidata e polígrafo (aquele que redige sobre o que o nariz aponta) Antônio Bezerra de Menezes, na 4ª etapa de uma Viagem Científica de reconhecimento pelo interior do Ceará, chega à Vila Príncipe Imperial, no dia 13 de novembro de 1884, resolveu descansar um pouco. Fica, cinco dias, hospedado na casa do Sr. Francisco Coelho Ferreira, na Praça da Matriz. A esgotada tropa de animais descansa na Rua da Beira do Rio, ruminando o verde capim das margens do Poti, pois o percurso fora longo, desde a cidade do Ipu, no sopé da Serra da Ibiapaba. Já colhera as informações sobre o povoado com o Reverendo Macedo e o Juiz Municipal Antônio Gomes de Macedo Coutinho, sobrinho do padre. Agora, sentado num rústico tamborete, papéis sobre a mesa, faz os apontamentos para as Notas de Viagem. Escreve: “Esta Vila, situada na margem esquerda do Rio Poti, se compõe de uma espaçosa praça em cujo centro se acha a Igreja da Matriz, um templo pequeno, mas bem construído e ainda sem as duas torres.O sino alojado no lado esquerdo, sob um telheiro, é de onde o sacristão anuncia as horas que orientam a vida na vila, as últimas badaladas soam, exatamente, às 9 horas da noite. O povoado tem poucas ruas, com largos intervalos sem edificações, que se estendem de nascente a poente”
É a Praça da Matriz, exalando as primeiras inspirações bucólicas, florejando num instante de puberdade, alargando-se no poeirento chão de terra batida.
Na divagação sobre a Vila, surge nas veias do historiógrafo-poeta uma vontade de versejar, mas como afirmara João Brígido, um dos seus desafetos literário, faltava-lhe a tecla da inspiração. E eis que, repentino, é desperto por um ruído agradável, ininterrupto, vindo de longe, como se fosse a poesia chegando.
— nhein...nhemheinin...renheinhein...onooonnnn...nheim...
Sai a porta, olhando para a praça, e deslumbra-se com o que, naquela época, já se transmuta em momento de saudade. O canto lamentoso, como um gemido de dor, que passa em frente à Igreja, rumo a Boa Vista dos Correias. Quem ouviu, ouviu. Quem não ouviu, não ouve mais o murmúrio doce do carro cantador puxado por uma junta de bois, o primeiro veículo do Brasil. O carreiro caminha ao lado com o ferrão na mão, uma vara comprida e pontiaguda. Comanda os bois com ordem vocais:  —Ôooooo, êeeeeeeeee boi!—Õa, ôa Mimoso!
O escritor volta à mesa, para terminar de descrever a vila, com o Rio Poti, os banhos no Curtume e as cruzes enfincadas nos caminhos do sertão pelo monge capuchinho Frei Vidal da Penha, mas o canto poético não lhe sai da mente, nhein...nhemheinin...do carro de boi que descortina-se no horizonte decaindo para o poete, terra do poeta Coriolano, um massapé torrado e brusco onde nasceu o valoroso e eterno touro fusco.
Por falar em príncipe dos poetas, fundador da literatura do Piauí,que influenciou Castro Alves em alguns versos no épico Navio Negreiros, José Coriolano, ele mesmo, relata em carta a um amigo que o marco inicial da cidade de Crateús foi a construção de uma casinha, para abrigar os frades franciscanos que vinham em missão de evangelização, no povoado de Piranhas. Posteriormente, segundo ele, no mesmo local foi erguida uma igreja, que hoje é a Matriz da Diocese. Antes de uma capela, portanto, houve um alojamento, para o descanso dos franciscanos que percorriam os rincões do Vale do Poti, na nobre missão de pregar o evangelho. Era uma rústica latada de pau-a-pique com cobertura de folhas de coqueiros, entre os mandacarus e algumas frondosas árvores, onde se amarravam os animais.
Da primeira capelinha de taipa(1769), no largo terreno central do povoado de Piranhas,  principiou-se o esboço de uma Praça, que será o pulsante coração da vila, a princesa do sertão.
 Em 1770 é construída, no lugar do tosco tapume, uma capela em alvenaria sólida, tijolos de 17 quilos, tão fortes quando a fé que fervilha na alma do sertanejo aterrorizado pelas imagens horríveis de um purgatório, pintada pelo Pe. Serafim.  O Cel. José Amâncio, sentado numa cadeira de balanço, na calçada de sua casa, olhando para a mureta que circula a Igreja, predizia: -Nosso primeiro sacerdote foi o Padre Serafim e o último será um Bonfim! Levando em consideração uma era, ele acertou em cheio!
Com a chegada de uma imagem esculpida por santeiros da Bahia, conduzida por escravos, em 1792, numa fantástica viagema pé e a mando de Dona Luiza Coelho da Rocha Passos, a Praça da Matriz ganhou novo impulso. A Catedral Senhor do Bonfim, de paredes espessas e dilatáveis como a grossa artéria de um coração-praça, bombeia fôlego e vigor que vitaliza a cidade. A capela de Dona Luiza cresceu de reformas em reformas (Pe. Macedo, Pe. Rosa, Pe. Juvêncio e Pe. Bonfim) chegando à Catedral. A construção das Torres da Igreja, como dois braços implorando aos céus, rogando-nos bênçãos, completara-se com o assentamento da estátua do Cristo Redentor, numa proteção divina.
Existia, numa das solitárias esquinas da praça uma velha casa de taipa, teimosa ruína subsistindo ao inclemente sol e às águas invernosas, que testemunhou o soerguer dos primeiros casarões dos coronéis numa época de indultos fáceis e aquiescência de títulos, comprados de acordo com as posses dos ricos fazendeiros. A antiga tapera viu subir o serpenteado  da fumaça dos fogões a lenha em plena praça, escutou o barulho da fábrica de cigarro e ouviu o tilintar dos vinténs jogados pelo janelão do sobrado da Rua Santos Dummont para os desafortunados sertanejos na cruel seca de 1877. De um Quartel General, na Rua Firmino Rosa, um heroico Capitão Peregrino mirava a torre da Igreja, e nem imaginava o futuro duelo com os revoltosos esgotados, que vinham numa interminável marcha de esperança e sonhos. E na Rua do Poeta José Coriolano, onde já havia um busto lustroso estampado no ar, o comerciante Mariano Raimundo Cândido sai, orgulhoso à porta, expondo aos raios matutinos, o primeiro rebento da professora Maria Delite, sua esposa.
Como uma autêntica acrópole grega, a praça exibe-se, naturalmente exuberante. Como um lugar sagrado, sacrário da alma, o coração de um povo sofrido. Como uma poética sala de estar que é constantemente remodelada de acordo com o mero desejo de um gestor, na vontade de se perpetuar na sua estampa. Num forçado metamorfismo, uma indelicadeza com um rico passado e, assim, a praça passa uma borracha no nome de quem, intencionalmente a transforma. O Paço do resplendor ilumina-se por si, e bem reluz!
Das missas campais, a do cinquentenário da cidade foi inesquecível, com a inauguração de um obelisco egípcio, um quadrante solar em plena praça, guardando, na base de concreto, uma cápsula do tempo que ninguém leu.  As animadíssimas quermesses da Igreja, no mês de Junho, o tempo deletou...  A mão que constrói, também aniquila, como o cruel e huno Átila, e o belíssimo coreto circular, ao lado da catedral, foi apagado.  Cadê os Jovens que, após a missa das 9 horas, iam se deliciar e paquerar na Sorveteria Itália que logo se transformou num inferninho, chamado Barril?  E a noturna e velha praça, giroscópica, em circunvolução de verso e reverso, com as flores-meninas, belas de olhar com cheiro de pétalas?  Como afirmou um velho poeta: “A minha saudade, até agora, rodopia, de tanto lembrar!”
Hoje, uma felicidade, como um invisível vaga-lume, continua a vaguear pelo Largo da Matriz e se senta no banquinho entre as flores de um jardim, aspirando ao aroma gorduroso de presunto e ovos fritos, sem a malemolência opaca da antiga Vila Imperial e da poética vida de outras horas. Um modernismo trouxe uma Praça de Alimentação, com um desespero e uma pressa de viver, ouvindo a canção alegre de um povo fingido e triste. E o saudoso vaga-lume da felicidade, sentado no seu banquinho da praça, relembra uma canção triste, orquestrada no velho coreto da Matriz e animando, no coração da cidade, o povo alegre e resplandecente de outrora.
Raimundo Cândido


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quarta-feira, 21 de agosto de 2013


SOBRE O LIVRO:

“O poeta e escritor Dideus Sales nos encanta com Luiz Gonzaga, muito além de um sanfoneiro, luminosamente ilustrado por Audifax Rios, uma das mais belas e emocionantes homenagens que já se renderam ao criador de Asa Branca e Assum Preto...” EDMÍLSON CAMINHA.

“Encantamento redobrado é quando nos deparamos com poeta cantando e contando a história de outro poeta. Eis que o poeta Dideus Sales dedilha sua lira e em versos cheios de fervor e melodia, conta a vida do filho de Januário, num preito de ímpar homenagem àquele cuja voz soa à audição do povo nordestino como um hino perene de estímulos à resistência e à luta pela liberdade e pelo direito inalienável a uma vida digna. A inteireza da obra se confirma com o traço inconfundível e também eivado de sugestões poéticas de Audifax Rios (...) a encher nosso olhar de terra, coisas e povo do sertão.” 
BARROS ALVES


SOBRE O AUTOR:

DIDEUS SALES, Poeta, Escritor, Radialista, Folclorista e Produtor Cultural. Nasceu na fazenda Várzea do Canto, Independência – Ceará e criou-se em Crateús. Verteu parte de sua produção poética para o áudio, lançando os CDs “Frutos Poéticos”, “Alma Brejeira” e “Cantilena”, este último em parceria com o cantor e compositor Acauã. Foi radialista em várias importantes emissoras do Estado.

                                                       Publicou:

O Sertão de cabo a rabo; Matuto do Pé Rapado; Florescências; Colheita de Versus; O Sertão em Verso e Prosa; Nos Cafundós do Sertão; Veredas de Sol. Flores Vivas e Mortas; Minha Terra, Minha Gente; Natureza, Paz e Poesia.



Postagem: Silas Falcão

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Dor


(FRANCISCO PASCOAL PINTO)

Chega
De chagas, de cravos
De tapatabefe e choque
Providenciem um acalanto
Que a dor (com ou sem mágoa e pranto)
Deve adormecer.

Que a mão verduga
Que a inflige
Exige
Réplica & reparação

 Chega!
Quero aspirina
Morfina
Xilocaína
Para esta dor ausente
dor constante
dor cortante
dor de dente
dor do parto
dor do Horto
dor da cólica
dor de cotovelo
dor da saudade
dor melancólica
dor fingida do poeta
migué do jogador

Tudo nesta vida minha amiga é falsa dor

Portanto
Quando calar o acalanto
Vá devagar com o andor

Que é de terracota o santo
E é de Mártir do Gólgota

A sua sagrada dor.

Última imburana



                                                                       Silêncio...
                                                                       O espírito da mata
                                                                       prescreve calmaria!
                                                                       Astúcia... Precaução...
                                                                       Esquivam-se as plumas!
                                                                       Não piam, a rolinha,
                                                                       a sariema e o cancão!
                                                                       Avizinham-se passos...
                                                                       Machado à mão!
                                                                       Pá... Pá... Pá...
                                                                       Som furioso e seco,
                                                                       tal qual o desespero,
                                                                       impregna o ar,
                                                                       pendoa amargura
                                                                       a escorrer da pele
                                                                       lisa e nobre
                                                                       do tronco musculoso
                                                                       e oleoso da imburana!
                                                                       E a resignada mata-branca
                                                                       em pranto negro-triste
                                                                       abafa o longo silêncio....


                                                                       Raimundo Cândido

sábado, 17 de agosto de 2013

Academias e Associações

Há uma grande quantidade de academias literárias e associações culturais no Ceará. São grupos que comprovam que o intelectual cearense é gregário, gosta de um mutirão, quando o assunto é qualquer vertente das artes. Parece que o nosso artista não confia muito na capacidade individual. É através dessa união de pessoas que os projetos de divulgação de obras se tornam viáveis. Mesmo assim encontram-se alguns intelectuais renitentes em não se aproximarem de outros nessas entidades. São poucos, mas é bom lembrar que o escritor Alcides Pinto era um deles, sempre se negando a ser acadêmico.

Certa feita convidaram Alcides Pinto para pleitear uma cadeira na Academia Cearense de Letras. O poeta respondeu que instituíssem um concurso que ele talvez pudesse concorrer. Francisco Carvalho foi praticamente colocado na Academia. Não pediu voto a ninguém. Inscreveram-no. Foi à posse e não mais frequentou aquele sodalício. O poeta Roberto Pontes e o contista Pedro Salgueiro nunca se interessaram por academias. Há, no entanto, escritores de pequeno porte, que se dilaceram em campanhas para ocupar cadeiras de academias. Há deles que participam de oito a dez dessas entidades.

A Academia Cearense de Letras, a mais disputada, mais glamourosa e a mais antiga, pois foi fundada em 1894, ocupa, atualmente, o Palácio da Luz. Ali, além de ser sediada, ela ainda abre suas portas para as reuniões de outras 11 academias. Além dessas, há outras entidades que também se reúnem nas suas dependências. Entre elas estão a Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil, seção do Ceará; a Associação Brasileira de Bibliófilos e a Sociedade Cearense de Geografia e História. Quanto às academias que se reúnem no Palácio da Luz, além da ACL, podemos citar a de Retórica, a da Língua Portuguesa, a Metropolitana de Letras, a de Letras dos Municípios do Ceará, a Fortalezense de Letras e a Municipalista de Letras, entre as mais atuantes.

A Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará (Almece) possui em seus quadros representantes dos municípios cearenses. Nem todos os municípios estão ali representados. Se isso acontecer um dia, nós teremos 184 sócios já que é esse o número de municípios de nosso Estado. Interessante é que os municípios, por sua vez, estão criando suas academias como é o caso da Academia Limoeirense de Letras, da lavrense, da cedrense, da varzealegrense, da ipuense, da comucinense e de outras. Assim, teremos em breve 184 academias, uma para cada município cearense. É evidente que muitos municípios ainda não criaram seus sodalícios mas o exemplo vale a pena ser seguido.

Curioso é que os colégios também estão criando suas academias. Tudo começou com o Colégio Maria Ester, criando sua Academia de Letras com componentes sendo alunos da entidade. Logo em seguida, outras escolas lhe seguiram o exemplo. Já há um bom número dessas entidades nas escolas cearenses. Acontece que, segundo dados do Conselho Estadual de Educação, há no Ceará 10 mil escolas de ensino fundamental e médio. Se todas essas escolas criarem suas academias, daqui a pouco teremos 10 mil academias a mais.

Diante desse grande número de academias há os que aprovam mas há os que reprovam. Há até escritores que falam mal de tanto academicismo, diante da rara qualidade de muitos dos componentes dessas instituições. Há escritores jovens que falam mal até da Academia Cearense de Letras e, quando chegam à maturidade, lutam para ingressar nos seus quadros. Essa luta para ingressar na ACL muitas vezes apresenta lances inusitados. É que às vezes, no próprio velório de um acadêmico, há quem já se insinue como pretendente à vaga aberta. Depois, sem o respeito pelos prazos regulamentares, há os que já telefonam em pedido de votos. Essa prática condenável também acontece às vezes até na ABL.

Outra prática prejudicial às academias fica por conta daquelas pessoas que lutam para ingressar na entidade, são eleitas, tomam posse e não mais a frequentam. Essas entidades reúnem-se mensalmente e apenas em torno de 30% dos membros frequentam as reuniões. Os dirigentes lutam para que haja frequência maior, mas não conseguem. Aliás, por falar em presidência, são poucos os acadêmicos que desejam dirigir suas academias. É um trabalho espinhoso por falta de apoio público e pela obrigação de manter viva e atuante a entidade. Por isso que há presidentes que são como que permanentes.

Dois presidentes que há bastante tempo vêm sendo reeleitos para suas respectivas academias são Lima Freitas, da Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará, e Maurício Benevides, da Academia Cearense de Retórica. Há outros cidadãos que ocupam a presidência de mais de uma entidade. José Augusto Bezerra é o atual presidente da Academia Cearense de Letras, mas também é presidente da Associação Brasileira de Bibliófilos, isso sem contar que até há pouco tempo presidia o Instituto do Ceará, agora sob a presidência de Ednilo Soarez. O jornalista Vicente Alencar é o atual presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa e presidente da União Brasileira de Trovadores, além de dirigir a Terça-feira em Prosa e Verso.

Se aqui fôssemos citar todas as academias do nosso Ceará e seus presidentes, seria um não acabar mais. Entretanto é bom lembrar que todas elas têm sua função social. Eles congregam pessoas de saberes, estreitam relações de amizades, promovem palestras, confraternizações, e dinamizam hábitos de leitura e aprendizagem. O que poderia ser feito por pesquisador, de uma dessas áreas contempladas, era um levantamento de todas essas entidades, com seus estatutos, seu histórico, seus dirigentes e a relação dos sócios ao longo dos anos. O pesquisador teria material suficiente para monografia, dissertação ou tese. Afinal, o importante seria também apontar as razões que contribuem para tantas entidades culturais entre nós. Não adianta conhecermos o mundo cultural lá de fora se não nos conhecemos, mesmo com nossas limitações.

Batista de Lima

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O Pai-de-chiqueiro

                                                                   
             Sou sertão! Nasci sertão e vivo sertão! Corre, em minhas veias, a seiva vivífica das catingueiras, dos angicos e dos marmeleiros! Detenho, impregnado no faro, o cheiro consistente do mufumbo a perfumar a vasta e desamparada caatinga que se estampa no meu olhar.
Trago, embutido no cerne inflexível de mim, um desalento cassimiriano, quando diz: —   Não sei porque - mas a minh'alma é triste! Perdi os risos - a minh'alma é triste!
                Agora, pagando tributo a uma bucólica dor, caminho por uma tortuosa vereda da qual se vê, ao longe, uma velha casa alpendrada em aspecto decadente e as ruínas dos currais que o impiedoso tempo corrói. A vista cansada percorre o eito do abandono no solo esturricado e a mata seca que resiste a uma cruel estiagem, por três seguidos e demorados anos. O sol da manhã já é impiedoso com um calor refletido dos esbranquiçados ossos espalhados pelo chão, tudo que restou das carcaças, antes criação de robustos animais de criação. Prevejo o presságio das mandíbulas da calamidade! Sinto o que essa terra secular sempre sentiu, o ansioso desejo de um líquido precioso, da água salvadora, numa sede que vem lá das entranhas. Busco um copo de água, das mãos cordiais do sertanejo morador da descorada casa, um cidadão rude, mas hospitaleiro acima de tudo. 
                Caminho ao lado dos currais. A porteira escancarada espera a volta de fantasmas. No aprisco das cabras uma ampla latada oferta o alivio das sombras, mas só para o estrume de bolinhas roliças e ressequidas, nem sinal de um dócil cabritinho demonstrando o longo desuso do recinto e ainda sinto um cheiro forte de um ranço no ar, odor característico dos bodes.
                Dou alguns passos rumo ao alpendre da fazenda, em busca de matar minha sede e ouço um insistente balido, como um chamado:
                — Béeeeeeee! — Béeeeeeee!
                Paro, instantaneamente. No lugar da água redentora para consolar minha sequidão, circula nas veias é a impulsiva adrenalina, mandando-me correr.
                — De novo não, meu Deus do Céu! Mal me recuperei do susto de um jegue falante, já me aparece um bode, agora!
                Embora pouca, coragem foi o que nunca me faltou! Viro-me, lentamente, rumo ao portão do chiqueiro das cabras e um velho bode de longa barba decaída e enormes chifres retorcidos, apresenta-se numa voz puxada e decrépita:
                — Professor Raimundo, aguardava o senhor, por aqui!
                O pai-de-chiqueiro exala um inhaca insuportável e seus claros olhos baços me fitavam como se olhasse para um dos seus semelhantes, um igual. Não consegui dá nem um educado bom dia e, percebendo minha surpresa, o bode continua a falar:
                — Está vendo o abandono em que estamos, professor! Esta seca foi tão perversa quanto àquela que matou o bode do qual senhor usou a carcaça, para tirar um retrato lá em Campo Maior, a terra dos Heróis de Jenipapo e da carne de sol!
                — É verdade, amigo, foi uma seca braba! Consegui responder.
                — Braba é pouco, Seu Raimundo! Está foi mortal, destruiu praticamente todo sertão! Veja aí, como está o chão, apinhado de ossos do gado do patrão, nem o cavalo alazão escapou, e mesmo o jegue, a quem você endeusa, não resistiu. Agora, com seu olhar de poeta chorão, me procure por aí, a ossada de uma cabra ou de um bode... Encontra não, Professor! E quer saber por quê? Deixe eu lhe dizer: Há 7 mil anos, que a humanidade aprende com a gente a resistência e a capacidade de adaptação às condições extremas de vida e sempre somos nós que os salvamos, aos homens. Quando for beber água ali, na casa do patrão, pergunte porque a família dele ainda está viva, aí entenderá o que estou dizendo.
                O arquejado bode demonstrava uma sapiência secular e notei que ele fazia questão de me explicar tudo, tim-tim por tim-tim com a ânsia daquelas pessoas que nos pegam pelo braço e só nos soltam quando desabafa toda uma história que se engasga na alma. O velhusco pai-de-chiqueiro continua a sua lição particular de vida:
                — A seca é um horror secular e você sabe disso, amigo Raimundo, ela sempre existiu e voltará a existir. Desde que Dom Pedro II disse "Não restará uma única joia na minha Coroa, mas nenhum nordestino morrerá mais de fome" que os políticos vêm fazendo promessas e mais promessas, e quando “ela” chega, tudo é como antes, um Deus nos acuda e nem água de beber se tem! Mas para nossa conversa não ficar em vão, quero que leve uma sugestão para esses governantes metidos a sabichões, só há uma solução para essa situação: a criação extensiva de caprinos por todo o sertão! O Estado da Paraíba está conseguindo a sua redenção as nossas custas, os bodes! Lá, somos Reis, os Imperadores do sertão! A nossa festa e os nossos recursos incrementam a economia, valorizam a cultura, a história, o meio ambiente, a arquitetura e a gastronomia e resgatam a autoestima da população. Viu a nossa importância, professor!
                Com a pisada da impaciência e o nariz ardendo, tento me sair da presença do pai-de-chiqueiro, mas ele me retém com autoridade firme dos anciões:
                   — Calma amigo, deixe-lhe dizer mais uma coisinha importante e nem lhe peço desculpa, porque é uma grande verdade! Sei que você não dorme com as cabras, mas é um dos nossos, um libidinoso bode e se pudesse teria uma harém, como nós temos os fatos, repletos de odaliscas caprinas. Você é como o poeta paraibano Ariano Suassuna, criador de bode e que um dia disse:  "Uma das cenas mais bonitas, cavaleiras e fortes que já vi em minha vida foi a de um pai-de-chiqueiro enorme e preto cobrindo uma vermelha e nova novilha-de-cabra, num pedaço áspero e bruto da caatinga sertaneja".  E não deixe que muita gente leia o que anda escrevendo, meu amigo, senão esses assuntos chagam aos ouvidos de quem não pode ouvir... Cuidado com a cabrita Isabelle! Evite os dramas! Mas a vida humana é assim mesmo, uma tragédia e tragédia que dizer: tragos + otos ou literalmente, o Caminho do Bode, por isso calcule bem onde pisa, olhe direitinhos seus passos, faça como os velhos bodes, para não cair nos precipícios! Lembre-se, professor Raimundo, bode, nesta vida, somos todos!
                Esse último conselho foi a gota d’água para escapulir, não aguentava mais tanto atrevimento daquela sabedoria bodiana, ainda mais metido a filósofo, e até meus olhos começavam a arder com o aroma enjoativo que empestava o ar.
                — Obrigado pela bela aula e pelos bons conselhos, amigo pai-de-chiqueiro! Eu levarei sua sugestão ao prefeito da nossa cidade, mas não estou aguentando mais de tanta sede!
                Caminho até o alpendre da casa da fazenda, peço um copo de água ao respeitável senhor que se apresenta e que me pareceu tão velho quanto o bode do abrigo das cabras.
                Bebo sofregamente o líquido precioso e raro por aquela região e pergunto ao fazendeiro:
                — Amigo, me diga uma coisa: Aquele bode que está solitário, ali no chiqueiro, não tem o que comer e o que beber não?
                — Que bode, meu senhor? A última peça do rebanho de caprinos que a gente tinha nós comemos, um velho pai-de-chiqueiro de carne dura que nem pau ferro, há dias!
                Agradeço a hospitalidade do sertanejo, baixo a cabeça, sigo em frente e por outra vereda, para não passar em frente ao aprisco das cabras. Será que além de velho e caduco estou tresvariando assim, para ver um bode velho que já morreu, na porteira de um curral!
Evito olhar até para os troncos das árvores, pois tenho a impressão de que tudo berra!
— Béeeeeeee! — Béeeeeeee!


Raimundo Cândido

domingo, 11 de agosto de 2013

Goela



Aorta pletórica do sertão!
Touro indomável
escramuçando ao vento,
arrastando assombros, 
receios e medos
e mesmo assim 
mergulhávamos
na efervescência 
das águas revoltas
e o sedoso vento 
em nossos rostos
avivava a adrenalina 
na alma infantil
que subjugava 
um selvagem potro,
 sem crinas!
Ainda fluímos,
a pique, por entre
as pedras liquefeitas
de uma triste Goela 
cordialmente estagnada, 
nas locas do tempo!

Raimundo Cândido

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Minha vida!


(A Miriam Menezes Teixeira)

Flor de Nabucodonosor não fui, não sou!
Fico ao vento, verde ramo, tal galho seco
imaginando borboletas que rebentam casulos.
De um inocente subsistir, prisioneira sou!
Oh, Deus... A minha vida!
Desaprendi o infantil sorrir,
mas não me retirei pranteando
o aguado sal a escorrer no rosto,
pela antecipada ruína da vida!
Nada disputei, perdi e ganhei a hora da dor.
Hora de um instante amargo,
é o que me restou!            
Oh, Deus... A minha vida!
O que pintei sem tom, o que fiz de ruim,
Deus dos Profetas?
O que deixei por fazer nas eiras que nunca trilhei,
Deus dos inocentes?
Que pesado holocausto imputam a mim,
Deus da humanidade?
Pois expio o fel do mundo com o reles doce
que em mim, ainda há!
Oh, Deus...Da minha vida!


Raimundo Cândido

terça-feira, 6 de agosto de 2013

ANIVERSÁRIO DO MEDO





Janeiro.
Uma carta apareceu. Curiosos, todos leram a história inacabada.
 
Lua do janeiro seguinte.

Na cidadezinha ainda com medo, a última frase da carta apareceu desvendando o mistério.

 
Do livro O colecionador de dedos – micro contos

Silas Falcão

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Um dia, Raquel bateu na minha porta.



Um dia, Raquel bateu na minha porta: Toc!  Toc!  Toc!   
- É o Professor Raimundo Cândido? Aquele que quer ser poeta sem poder?
- Mas menino, se não é a grande Raquel de Queiroz em viva alma, que vem da fazenda Não Me Deixes!
- Sim, meu amigo e vim lhe dar um conselho, e seriíssimo por sinal, em nome da boa literatura, já que alguns de seus amigos, como o intelectivo caçoador  Luciano Bonfim, o crítico impiedoso Silas Falcão, o tatu-bola zombador  Edmilson  Providência, o arisco poeta Lourival Veras, o pertinaz jornalista César Vale e muitos outros, indiretamente,  lhes preceituaram e você se fez de mouco!
- Não estou compreendendo, Dona Raquel!
- Viu! Já está se fazendo de desentendido.  É o seguinte, vamos direto ao ponto nevrálgico da questão! Amigo, você tem que parar de insistir com o que não poder ser! Quem já viu urubu querer cantar como galo. Você já viu uma vaca voar, Senhor Raimundo?  Poesia é coisa séria, embora não sirva para nada, mas somente os escolhidos das musas é que podem mexer e remexer com os seus acordes. Então, como você é uma pessoa de boa índole e até gostei quando reclamou do abandono da Praça dos Leões, aonde resido agora, vim lhe pedir para que você arranje outra coisa para fazer, a xilogravura por exemplo. Não vê aí, o Almeidinha, quem o observa até diz que é um grande ator de novela e nem nota que é melhor artífice do mundo.  Não querendo, vá ganhar dinheiro! Deixe essa desventurada profissão que escolheu, seja comerciante como seu pai foi ou se candidate a vereador por um partido sério, a cidade estar muito a precisar. Tem muita coisa para você fazer, pela arte e pelo pão, mas pela poesia... Não!
Mas pensando bem, por pura simpatia e notar que tem tanta gente sem a mínima condição tentando entrar no Reino dos Versos sem antes passar pela Portão da Virtude,  vou lhe desaconselhar da minha deliberação. Insista mais um pouco! Não dizem que quem não arisca não petisca, pois sim!  Olhe, um assunto que tenho bastante experiência é sobre as secas e na sua região é coisa que nunca faltou, escreva sobre isso. Água mole em pedra dura... Vá tocando a sua corneta devagarzinho, um dia a nota soa!
Mal Raquel dobou a esquina, rumo ao trono literário que lhe é reguardado, já tinha tomado uma firme decisão. Escorar-me-ei, como sempre faço, na infinita paciência de meu amigo Gilberto Pereira, pois sempre que escrevo uma prosa ele afirma que tem verso e eu, inocentemente, acredito! Seguirei o segundo conselho da amiga Raquel, um dia eu aprendo, e não darei, aos amigos da onça, o gostinho de me ver desistir de um sonho tão facilmente.
PS: Antes de dobrar a esquina, Raquel olhou para trás, com aquele sorriso doce-meigo de sempre, mas tinha um quê a mais, que ainda estou por adivinhar!
Raimundo Cândido