domingo, 2 de dezembro de 2012

Heróis – Nós temos sim senhor!


                                              (Em nome do agente ferroviário Antônio Cândido homenageio à todos que fizeram a história da REFESA. 12/ 12/ 1912 ____12/ 12/2012)


Das árduas circunstâncias do dia-a-dia emerge o imprevisto herói ou um insensível e inerte personagem da história. O verbo agir, do vocábulo latino agere – aquele que atua, que aciona, opera e faz – sempre determina, como um carimbo, os momentos que ficam estampados nos textos áureos da volumosa obra da humanidade. Agir, no momento exato, é tão crucial que fixa uma possibilidade, entre infinitas outras, rumo ao futuro que se supõe incerto. A conjugação deste precioso verbo é tão importante que devia ser repetida a exaustão, ano após ano, incutindo toda força psicológica na consciência das crianças, que lentamente amadurecem nos bancos escolares. Aos atos heroicos ou às condutas pusilânimes também se regam como se água uma frágil plantinha de um jardim. Assim, a tendência altruísta vai se fortalecendo, de grau em grau, na índole de um cidadão.

Foi o impulso da índole que fez com que a coragem do jovem Peter colocasse o dedinho num orifício que jorrava água de um enorme dique de proteção das inundações do mar, salvando a Holanda. Depois de uma noite solitária e uma frienta madrugada, com o dolorido braço começando a ficar dormente e nenhuma resposta aos gritos de desespero: – Socorro! Alguém venha até aqui! Ele repetiu incansavelmente as suplicas chorosas: – Será que ninguém vai vir? Mãe! Mãe! E no clarear do dia, aquela região que fica abaixo do nível do mar, tinha um herói para aclamar!

Foi o impulso da índole que fez com que aquele pai na interiorana cidade de Paiçandu, no Paraná, salvasse o filho. A BR-467 é sempre movimentadíssima e no acostamento está ele a segurar a mão do menino de três anos. A irrequieta criança se solta e corre para atravessar a pista. Num automático ato de coragem, o pai o alcança e o joga no acostamento. A moto desesperada atropela o bravo senhor, que não resiste à pancada e ali mesmo, ensanguentado no chão, dá adeus ao filho pequenino.

Foi o impulso da índole que fez com que o sargento Sílvio Delmar Hollenbach, sem pensar nas consequências, pulasse no fosso das ariranhas do Jardim Zoológico de Brasília e salvasse uma criança que estava pestes a ser devorada pelas feras. O militar morreu, mas tornou-se um herói sem ter que ir para a guerra. No outro dia o jornalista Lourenço Diaferia escreveu uma crônica “Herói Morto”, dizendo que o sargento é que era o verdadeiro herói e não Duque de Caxias. O redator foi preso porque o Exército Brasileiro considerou o texto uma ofensa às Forças Armadas.

Foi o impulso da índole que fez com que um avô, o Senhor Joaquim, se atracasse com uma sucuri de cinco metros para salvar o netinho Matheus que já estava sendo estrangulado pela mesma. Um córrego da cidade de Cosmorama, interior de São Paulo, deságua numa imensa represa de onde a cobra subira para caçar. O avô obstruiu a boca da serpente com tijolos e pedras, salvando o neto que já desmaiara.

Foi o impulso da índole que fez com que Jordan Rice, de treze anos de idade, insistisse para que o bombeiro salvasse primeiro seu irmão Blake, de dez anos e a sua mãe. O carro deles fora arrastado para um caudaloso rio, numa das piores enchentes da Austrália, em 1967. As águas torrenciais levaram o jovem Rice, que superou o primeiro degrau do heroísmo, vencer o medo, mesmo sem saber nadar.

Nos Sertões de Crateús, o ano de 1967, também fora de uma quadra invernosa particularmente pesada. As chuvas não davam tréguas para que o solo desencharcasse no calor do sol e as plantas realizassem uma salutar fotossíntese. Quase toda lavoura estava ameaçada, todos os açudes já haviam sangrado, e o Rio Poti invadia as ruas próximas do seu leito, locais que são seu por direito.

Na noite alta de domingo do dia 23 de abril, mês dos ápices dos bons invernos, todos os moradores da fazenda Pastos Bons do Senhor Eduardo Melo estavam numa preocupante expectativa, pois a grossa chuva que começara à tardinha não dava sinal de esperado fim. O sangradouro, que fora providencialmente alargado, não dava conta de liberar tanta água com uma lâmina já lambendo rente ao topo da parede.

Precisamente à meia noite o Antônio Pequeno ( Antônio Cavalcante Morais, um dos moradores do lugar) sai à porta da bodega do jovem Mesquita Torres, filho do Seu Melo, e vê o destroço das águas revoltas arrancando de rojão os pés de bananeiras na vazante  abaixo da parede do açude, que já havia se rompido.

Grita para a esposa de Seu Eduardo Lima: – Eita, Dona Jandira, agora o açude véio arrombou mesmo!  Todos viram, com os olhos de espanto, quando num instante a água em turbilhão impetuoso chegava à calcada das casas e arrastava na força bruta o pontilhão da linha férrea, ficando somente os dormentes e os trilhos dependurados.

Alguém se lembra do trem de passageiros, que vinha de Sobral, e ainda não havia passado. O Antonio pequeno, espiritualmente conjuga o verbo agir e por impulso da índole pede emprestada a saia vermelha da irmã, colocando-a na ponta de uma vara. Ele e o Mesquita se apressam de encontro ao trem, para evitar um trágico acidente.

Caminham entre os trilhos, pois a noite é um breu, e a grossa chuva com clarões de relâmpagos que estalam bem próximo e com os estrondos de trovões intensificam um pavor, fazendo das trevas algo ainda bem mais pesado.  A probabilidade de ser uma vítima deste fenômeno é grande, principalmente se alguém sai numa noite de chuva forte, vendo os clarões dos raios que correm estalando como chicote nas cercas de arame farpado, ouvindo o som das trovoadas estremecerem o ar com um eco seco estridente: – Brrrrr boooom! boooom! rasgando as grossas folhas-de-flandes no céu. É natural que se tenha medo!

Com menos de um quilômetro de caminhada vislumbram o facho de luz da locomotiva que, prudentemente, vinha mais devagar do que de costume. O maquinista ver o aviso de perigo e vai parando lentamente até chegar próximo ao pontilhão estraçalhado e agradece a Deus e aos dois heróis que salvaram o trem com 200 passageiros a bordo. As pessoas vão lentamente tomando consciência de que aquela parada forçada não fora um prego nos pneus do trem, como algum engraçadinho afirmava dentro dos vagões, e sim uma benção por suas vidas que foram salvas naquela torrencial noite de abril.

O Trem volta de macha ré até a fazenda Tetéu do senhor Pedro Bandeira para pernoitar. Alguns passageiros mais abastados atravessaram a caatinga rumo à estrada onde os carros de praças ou familiares os aguardavam. Outros esperavam o dia amanhecer e tiveram que atravessar a grota nos braços do Antônio Pequeno, com água até o pescoço. O disposto Antônio ainda ganhou um bom trocado dos agradecidos passageiros do expresso ferroviário de domingo.

 Como naquele sortudo trem viajava uma delegação do LIONS CLUBE DE CRATEÚS proveniente de uma convenção em sobral, os filantrópicos leoninos com suas respectivas domadoras, agradecidos, homenagearam ao jovem Mesquita com uma digna medalha. Hoje, eu pergunto, não está na hora de se fazer justiça para história dos fatos acontecidos no dia 23 de abril de 1967, amigos Leões?

Como me disse o Antônio Pequeno, lá na sua casa, na Vila Toré da Rua Franquinha Machado: – O Mesquita não fez quase nada e foi todo merecido!

Pois se alguém me perguntar se nós temos heróis, eu direi, e com muito orgulho, que sim e são dois.

Em Cratheús, nós temos heróis, sim senhor! 
Raimundo Cândido




(No dia 12 de Dezembro de 2012 o  Lions Clube de Crateús concedeu ao Senhor Antonio Pequeno um Certificado de Reconhecimento, agradecendo pelo feito heroico que salvou muitas vidas! Foi o reconhecimento a um herói!)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

MINICONTOS - Crônica de Pedro Salgueiro para O Povo

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá" - Augusto Monterroso, "O dinossauro"
Talvez por preguiça, sempre tive fascínio por textos curtos. Frases aparadas até quase o miolo. Gracilianos, Rulfos, Moreiras e João Cabrais limando adjetivos. Procurando substantivos que dispensem adereços, penduricalhos. Nenhum preconceito contra os caudalosos rios Euclidianos, Proustianos, Joyceanos, Roseanos. Apenas predileção e pronto. Ponto.

Sempre desconfiei que nós, os pobres escrevinhadores de vãs malfeitorias, não escolhemos o gênero literário no qual vamos nos expressar. Mas ele, irremediavelmente, nos escolhe. Tenho certo amigo que até pra me passar um número de telefone conta seu dia inteirinho. Outro, inquirido, me deixa apenas fragmentos de suas intenções. Claro que alguns podem, e até devem, ir contra a corrente. Deslizar rio acima, olhos estufados de lama. Alma pesada, mas satisfeita.

Para mim, o “barato” é tentar dizer o máximo com o mínimo de palavras. Mesmo sem quase nunca conseguir.

Há tempos recebi convites dos colecionadores Marcelino Freire (Os Menores Contos Brasileiros do Século XX) e Laís Chaffe (Contos de Algibeira) para participar, com textos mínimos, de duas coletâneas. Tomei gosto pela coisa. Resumi contos antigos. Li Haicais. Reli Dalton Trevisan. Arrumei esmeril, comprei estilete. Lupa de relojoeiro, dedal de sapateiro...

Os perigos do laconismo, da incompreensão total, da pura piada. Quase nunca encontramos o ponto certo. Mil tentativas e pouquíssimos acertos. Vamos tentando pulverizar o mundo, atomizar o cotidiano. Minimalistas que fomos. Minianimalista que somos. Ao pó que retornaremos.
(Rinaldo de Fernandes)

(Silas Falção)


Alguns amigos, recentemente, têm incorrido nessa prática de limar continhos já por demais curtos, numa quase obsessão. Rinaldo de Fernandes mandou alguns pra que eu desse opinião. Organiza um livro. Silas Falcão, lá das bandas da Vila Coutinho, tem pegado gosto pela coisa. E leva jeito o Morcegão, como carinhosamente o apelidamos. Tem feito progressos incríveis nessa arte de quase reduzir a pó histórias, frases, palavras, intenções.

Resgatei dos meus cadernos de ocioso alguns relatos mínimos. E vão aí para distrair preguiçosos:

MECANISMO
Mesa posta. Pai, mãe e filho regem o silêncio.
Preces.
Novamente.

MEDO NA PRAÇA
Silêncio. O artista sua, lapida suas preces. Aplausos. De novo. O silêncio.

PESO DO MORTO
Noite sem lua. Rasga-mortalha.
— Dorme, pai. Deixa de falar só...
Já no meu segundo livro, O Espantalho, de 1996, eu havia (em vão) tentado:

DALTONIANAS EM FÁ MENOR
A mulher matou o marido. Mandou matar em cima do túmulo. O único pecado dele trocar seu nome por outro e acender velas todas as quartas-feiras.
* * *

Havia olhos fugindo de órbita, um coração descompassado. Um medo de ir... outro de voltar.

Havia ossos enterrados no quintal e um medo danado de assombração.

Havia uma multidão de adrenalinas e uma certa dúvida...

* * *

Enquanto cancão brinca no quintal, deixei muleta, um pé-de-cabra e uma bengala. Deixei um grito preso no elevador.

* * *

Antigas visitas já mortas retornam à antiga sala de visitas. Cumprimentam o cadáver de minha mãe, recebem um aceno eufórico de meu pai moribundo.

— Cala a boca, velho caduco, deixa de falar só.

Grita a negra Suzete, da pia.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

“QUERO A VIDA NA QUAL ESTAVÁMOS”


                                    “QUERO A VIDA NA QUAL ESTAVÁMOS”
                              “... a busca de uma poesia que ficou perdida no tempo”.

 Por Silas Falcão
Não se anuncie, amigo leitor. Este livro é o seu Grande Mundo. Pode entrar de porta adentro que o anfitrião é cordial. Não tenha cerimônia e nem pressa. Mas antes se despeça do presente, do mau humor, da ingratidão, de qualquer geometria de ausência, porque você fará uma viagem - não é um passeio - por diferentes noites, dias e lugares. Seus olhos armazenarão múltiplas imagens de fatos e pessoas que possivelmente terão afinidades ou parentescos com você. Assim eu fiz ao abrir a porta da primeira página e adentrei informalmente neste livro que também é o meu Grande Mundo. Raimundo Cândido Teixeira, o cordial anfitrião deste Grande Mundo de memórias, é professor, mas antes é poeta, cronista, membro da minha infância e da Academia de Letras de Crateús, e retorna a literatura cearense com Cratheús – do portão da feira aos galos das torres.  

Todo viajante tem a sua interpretação do que vê e escuta numa viagem. Você, leitor, terá as suas variadas impressões durante esta prazerosa viagem literária. Você sentirá emoções amenas e bruscas. Visitará paisagens secas e verdejantes. Conversará com poetas e benzedeiras. Sentará ao lado de dois ilustres intelectuais de Crateús nos longos bancos da igreja matriz ou nos espaços públicos de nossa cidade. Como toda viagem, não haverá monotonia. Repetição de imagens. A terrível consciência do não querer. Cada etapa da sua viajem uma paisagem humana ou geográfica alimentará a sua motivação de continuar até o local de desembarque que será a última página deste livro.

O planejamento e execução desta viagem, que é o conjunto textual deste livro fadigou, em várias etapas da sua elaboração, o incansável cronista Raimundo Cândido. Pelo aprofundamento das argumentações, pelas identificações de datas, de pessoas, percebe-se que ele foi um escafandrista irredutível. Mergulhou fundo nas abordagens históricas, conduzindo-nos a Quinta Avenida de New York, ao Arco do Triunfo e Champs Élisées de Paris, a curitibana Rua das Flores e outros lugares magníficos.  

Caro leitor, assim como ocorreu a mim, possivelmente você não sabe que no Museu Nacional de Meteorologia do Rio de Janeiro está catalogado como Meteorito Crateús um globo inflamado e brilhante de 27 quilos e meio que estrondou como uma explosão de mil dinamites nas margens do Rio Poti. Claro que a sua mente instintivamente perguntará: como e em que ano foi? Durante a viagem você descobrirá a data e outros detalhes interessantes na crônica Zé do Povo, um dos seres humanos ilustres de Crateús. Meu pai, Pedro Severino, para alongamentos da nossa casa enraizada nesta rua, inúmeras vezes contratou a competência precisa e honesta do Zé do Povo que iniciou seu empreendedorismo empresarial aos sete anos de idade. Para saber mais do Zé do Povo viaje por este Grande Mundo embarcando na Maria Fumaça que saia de Crateús para Oiticica.   

É comum os imprevistos causarem desistências, enjoos, cansaço antecipado durante uma viagem. Mas nesta não existem imprevistos virulentos determinando você a desistir da viagem antes do desembarque final n’ A nova Praça.

Raimundo Cândido é honesto e arguto observador. Minucioso no olhar. Microscópico na identificação. É o que percebo neste Grande Mundo de 246 percursos, onde o sertão de antes de ontem se pronunciou em lágrimas ou em aquarelas de cores. Em noites estreladas e sol pesado, em Vaqueiros e Currais. Lendo esta crônica de boi, de corda, de laço e de mourões inquebráveis relembrei um vídeo literário sobre Guimarães Rosa em que o corajoso Manuelzão, vaqueiro que se tornou personagem em Grande Sertão – veredas, manifesta suas habilidades no laço certeiro e suas saudades da terra natal nunca mais visitada.

Cratheús – do portão da feira aos galos das torres é diversidade de enredos inquietos. É uma reposição continua do passageiro-leitor a partir das diversas situações. Consequentemente estes enredos determinam uma redistribuição das emoções humanas no tempo/espaço em cada construção textual. Neste livro os elementos da narrativa não se submetem a uma ordem cronológica. Nenhum enredo se desenvolve sob a rigidez linear do tempo. Os textos, que reproduzem a realidade histórica de Crateús, entrelaçam épocas distintas. Em um determinado momento o leitor estaciona sua mente na fazenda Boa Vista do ano de 1829. Ou em Utopia cabocla, crônica de uma áspera realidade neste final de 2012 que foi a morte do encantador de pessoas Matos Melo que tive o prazer de compartilhar sua fiel amizade no final da década de 1970. Nesta viagem de emoções e recordações, uma frase, uma paisagem, uma data, A celebração das andorinhas ou uma travessia corajosa do rio Poti caudaloso são memórias tão convincentes como o desaparecimento do busto do grande poeta José Coriolano da praça homônima, inaugurado festivamente no dia 30 de novembro de 1947. Outros detalhes deste magnífico dia em que a nossa cidade se arrumou em roupas e felicidades para homenagear o grande poeta, você saberá durante o itinerário. Estes são os mil olhares do nosso cronista que tantas noites, assim como eu, brincou de bila, triângulo, peteca, guerrô e futebol nesta inesquecível Rua Frei Vidal.

Os livros, não necessariamente os literários, mas principalmente estes, têm que exercer o fascínio da permanência do leitor. Caso contrário, ele não atingirá o objetivo maior que é comunicar o que o escritor escreve. Cronista de várias linguagens e signos, Raimundo Cândido não exclui o leitor da leitura com este grave erro de estrutura textual. As suas crônicas desobstrui as nossas vias respiratórias. Reeditam leituras esquecidas no espaço da nossa memória através de uma linguagem compreensível a qualquer nível de leitor. Cratheús- do portão da feira aos galos das torres tem a simplicidade de um botequim e a utilidade artística de um seleiro.

A você leitor, como ocorreu a mim, várias crônicas farão o seu pensamento parar. Destaco Harley, o Palhaço Cara-melada e Chico sem nome. Esta inesquecível Rua da Cruz arquiva memórias antigas de centenas de infâncias humanas. Inúmeras vezes ficávamos sob o frondoso benjamim que sombreava a casa do Harley, de quem ouvíamos histórias e brincadeiras do menino travesso como se estivesse ensaiando o Palhaço que foi até recentemente. Raimundo Cândido estava lá. Despedi-me do Harley ainda na nossa infância e nunca mais no reencontramos. Revi-o através de uma fotografia no face book, dias após sua morte. Chico sem nome, o caminhão-humano, é outra agradabilíssima memória que congela meus pensamentos. A sua imagem física ainda é lúcida em minhas recordações: Corpo sem camisa. Moreno de estatura mediana. Cabelos crespos sobre olhares indecisos. Centenas de vezes ele percorreu a escuridão desta rua da década de 1960 em direção ao nada, ao vazio que era sua vida. Às vezes o caminhão-humano estacionava em frente à casa do meu pai mostrando uma lata fazia. Minha mãe desaparecia no final da casa e retornava da cozinha com alimentos e água. Inesquecível o Chico Budu, antes pai de família em sua profissão de motorista de caminhão. A saudade da família, vítima fatal de um acidente de caminhão, foi o motivo da eterna loucura silenciosa do Chico sem nome.   

A crônica é um estilo de texto que trata do cotidiano. Aborda costumes, problemas sociais ou faz observações sobre uma sociedade de uma época. A reveladora crônica Estecom – Setenta lamparinas faz esta observação de época do ano de 1964 “em que a nossa luzidia energia elétrica advinha de um potente motor a óleo”. Revoltado com a atitude de rejeição a uma mensagem do poder executivo municipal, o Dr. Olavo Frota, a época prefeito desta cidade, agindo contra a câmara de vereadores, ordenou o fechamento da Casa de Força e mandou jogar a chave dentro dela. O Grêmio Estudantil da Escola Técnica Padre Juvêncio, representado pelo jovem presidente Neto Gonçalves e como orador oficial o futuro poeta Juarez Leitão, protestou contra a atitude do prefeito organizando a Passeata das Lamparinas. Caro leitor, há outros detalhes históricos interessantes nesta crônica que você precisa saber. Eu desconhecia esta Passeata das Lamparinas.  Como também não sei quase nada da história da nossa cidade. Mas esta escuridão está desaparecendo.

Como falei anteriormente, este Grande Mundo tem 246 percursos que na linguagem literária são metáforas dos textos compondo este livro. Não serei arrogante em querer falar de todos eles, e o bom senso determina respeito aos ouvintes, ao tempo das pessoas, a paciência do público e a inteligência superior dos que aqui estão, mas não me excluo de convidar você leitor, a saborear as qualidades literárias e, principalmente, a densidade histórica das crônicas Avôhai; Prof. Luiz Bezerra – ponderações de um sábio; Louro da Cruz; Caçadores de tesouros; Galo do Tourão; Coriolano- Príncipe dos Poetas; Preito à loucura; Ofício e banhos no Poti; Uma fábrica de sonhos; e, principalmente, O Ipê e Colibri, crônica manhosa, sutil, conotativa, em que a subjetividade da escrita homenageia a grande educadora Dona Delite. Esta crônica me surpreende pelo final do enredo que a transforma num digno conto.

Cratheús – do portão da feira aos galos das torres é um livro que já pertence ao patrimônio intelectual de Crateús, pela importância das memórias, das histórias que emergem das crônicas como janelas abertas para uma ancestralidade.

O cronista Raimundo Cândido não foi nada cândido ao insultar nossas almas com tantos fatos antigos e recentes, com tantas relembranças antes silenciosas.

Agradeço ao amigo cronista por me convidar a prefaciar este livro. Para esta festa de lançamento em frente a esta maravilhosa Fábrica de sonhos, o Externato Nossa Senhora de Fátima dos meus primeiros estudos e, principalmente, por este evento literário ser, coincidentemente, realizado na rua da minha infância.

Ao amigo poeta, cronista e bom humano, finalizo este prefácio com um pedido: quero a vida na qual estávamos.

LANÇAMENTO: DIA 17 SÁBADO ÀS 17:30 HORAS NA CALÇADA DO EXTERNATO N. S. DE FÁTIMA .
José Alberto de Souza disse...
Brilhante prefácio que desnuda uma obra lapidada na mais pura das gemas, causando-nos uma surpresa incomparável a todos nós ansiosos para apreciar as nuances inesperadas desta escultura literária que nos reservava um artista tão talentoso. Parabenizo ao ilustre prefaciador pelas palavras tão cativantes e plenas de uma sensibilidade incomum.

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Salve!

Lindo prefácio! Certamente portal da urbe erigida pela matemática construção literária do arquiteto Raimundinho.

Silas, um verdadeiro "Falcão" nessa lapidação prefacial, parabéns!

Cândido Raimundo, festejo tua evolução humanística e cidadã. Em especial, a excelência de tua produção no roçado das letras!

Um grande abraço!

Júnior Bonfim

sábado, 10 de novembro de 2012

APRESENTAÇÃO DO LIVRO "TROIA - UMA VIAGEM NO TEMPO"


Autoridades aqui presentes,

Senhoras e Senhores,

Boa Noite!

Apresentar um livro, para mim, é como oferecer um cardápio de entrada para um fausto banquete. É tarefa delicada. Exige habilidade. O responsável há que se esquivar da tentação do exagero. Impõe-se que cultive aquilo que os franceses chamam l’sprit de finesse (o espírito de finesse), servindo aos convidados apenas o indispensável para despertar o sistema olfativo. Com simplicidade e discrição, optar pelo petit e apontar para a mesa em que será servido o prato principal. E o principal aqui é o livro e sua autora.

Conheci a doutora Grecianny Carvalho Cordeiro no Palácio da Luz que congrega os amantes das letras abrigados sob a AMLEF – Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza, aqui representados pelo nosso Presidente Seridião Montenegro e pelo General Torres de Melo, nosso confrade. À época, ela já tinha escriturado o seu romance inaugural, Anjo Caído, que nos sacode com a história de Maria, jovem de alma marcada pelas feridas da exploração sexual. Exibindo a Carteira Profissional de quem resolveu se dedicar ao ofício de promover a justiça, conquistou-nos com seu rosto angelical, sua alma generosa, o coração em festa, a límpida fronte. Mãe e mestra, pisou no tablado acadêmico com seu andar libertário. Na qualidade de custus legis, fiscal da cidadania feita ternura, afeiçoou-se ao nosso convívio para nos lembrar a obediência aos Estatutos da Paz e à Legislação do Amor.

Hoje a romancista Grecianny nos mimoseia com mais um trabalho de fulgor e fôlego, de fascínio e fantasia: Troia – uma viagem no tempo. Com indizível felicidade escolheu um dos mais ricos e populares conflitos bélicos da história para reescrever com a tinta de sua genialidade. Montou uma passarela literária em que desfilam as figuras mitológicas da famosa narrativa. Como uma prestidigitadora montou um show mágico em que a roda da história se inverte e o futuro visita o passado. O brasileiro Mário é acordado por Cassandra em pleno Templo de Apolo. Grecianny organizou um baile de fantasias em que o factual e o quimérico ocupam a mesma pista de dança. 

Tenda ou Lenda, matéria real ou arroubo mitológico, a Guerra de Troia se constitui um dos eventos mais arraigados no inconsciente coletivo da humanidade. Seja pela inserção nos pergaminhos históricos ou pela mera tradição popular da transmissão oral, a narrativa poetizada por Homero ganhou a simpatia universal. Expressões como “gregos e troianos” (protagonistas da cizânia), “o calcanhar de Aquiles” (que era invulnerável em todo o seu corpo, exceto no calcanhar), “presente de grego” (que é usada para se referir a um presente dado com más intenções ou que, ao invés de nos deixar felizes, causa frustração) e outras mais se incorporaram ao cotidiano geral. 

Confesso que estamos diante de uma obra de sabedoria. Ou melhor, um livro saboroso. Sabedoria (em latim, sagasse) encontra, também no latim, a sapientia, que significa conhecimento saboroso. E sapere, em latim, tem o duplo sentido de “saber” e “ter sabor”

Vejam, por exemplo, como é descrita Helena, a formosa e famosa, bela e estonteante Helena na página 25...

Desaprumado semeador de versos, desafinado aprendiz de poeta, sempre cedi aos espasmos da estupefação em relação aos romancistas. Eles me despertam certa inveja admirativa. 

Apesar de ambos perscrutarem as grutas da transcendência, há entre o poeta e o romancista diferenças essenciais. O poeta produz o vôo rápido, o raio meditativo, a faísca genial, o relâmpago do achado, a centelha da alegria. O romancista é o condoreiro do vôo demorado, o arquiteto do edifício meticuloso, o mantenedor da sustentabilidade inventiva. O poeta acende o êxtase com o palito de fósforo e parte; o romancista senta-se no terreiro e descreve o crepitar de cada pedaço de madeira da imensa fogueira. 

Poetas, admitamos: os romancistas alçam vôos mais altos que nós. É óbvio que há exceções. 

Neftali Ricardo Reyes Basoalto, que o mundo conheceu como Pablo Neruda, o mais caloroso poeta que o frio austral do Chile produziu, escreveu um poema-romance em que cantou os rios caudalosos e as imensas florestas da nossa América. No seu Canto Geral festejou nossos bosques e avenidas, amaldiçoou os pequenos déspotas e louvou os libertadores de nossa latino América. 

O cearense Gerardo Mello Mourão, o maior poeta do século XX segundo a Guilda Órfica Européia, foi outro que construiu um império poético digno das melhores civilizações romanceadas. Com sua dicção refinada, Mello Mourão nos brindou com Invenção do Mar, a epopéia da nacionalidade brasileira. Neruda e Gerardo, que foram contemporâneos e amigos, constituem monstros sagrados excepcionais que apenas atestam a veracidade da regra: os romancistas são maiores que os poetas. Não por acaso François Mauriac dizia que “o romancista é, de todos os homens, aquele que mais se parece com Deus: ele é o imitador de Deus”

Aprendiz de poeta, vim aqui apenas para reverenciar a romancista da nossa AMLEF e incitá-los a saborear este delicioso livro. Confesso-lhes que, definitivamente, este não é um presente de grego!


(Júnior Bonfim, no lançamento do Livro “Troia – Uma Viagem no Tempo”, de autoria de Grecianny Carvalho Cordeiro, na noite de 09.11.2012, no auditório da Procuradoria Geral de Justiça do Ceará)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Do Mercado Velho à Igreja Senhor do Bonfim, tangidos por Raimundo


Ontem recebi a visita sempre sorridente do grande poeta Raimundo Cândido Teixeira Filho, meu amigo há muito mais do que apenas um par de dias. Conheço Raimundo de um tempo em que o mundo parava somente para apreciar a gente na doce beleza de brincar de ser menino – ele quase nunca crescendo nos banhos demorados da temível "goela" do Poti, eu esquecido de crescer nas correrias atrás de bilas e papagaios. Se algum dia trocamos duas ou três palavras não lembro, talvez não tivéssemos tempo. Talvez Raimundo fosse calado, talvez eu, inquieto. Talvez, porém, o mundo, àquele tempo, fosse um mundo grande demais e nós, embora vizinhos, nunca nos esbarramos. Talvez. 

Quando voltei a encontrar Raimundo, anos e anos e anos depois, a vida já dera com a gente no chão um bom pedaço de vezes. Raimundo era então um curioso, um menino grande correndo as bodegas da cidade, bebendo-lhes todos os segredos, inclusive e especialmente os inventados. Eu, de minha parte, meio esquecido de crescer, aprendendo, quando muito, a ser besta. Tenho para mim, porém, que, ressalvadas as devidas diferenças, éramos eu e ele duas figuras! 

Hoje eu sei que Raimundo é uma daquelas descobertas que fazemos uma vez na vida, coisa única, sem sobresselente. Em risco de extinção, devemos cuidá-lo como quem cuida de uma cacimba num ano de seca braba no esturricado sertão cearense, bebendo-o com parcimônia, devagarzinho, apreciando todo o seu poder de hidratar nosso querer bem. 

Mas, como eu dizia no princípio, ontem Raimundo veio me visitar. Veio avexado, de passagem apenas, na correria de ir pegar o ônibus para nossa capital. Não é que o danado estará com suas obras expostas na X Bienal Internacional do Livro do Ceará! Para ser mais exato, no estande de número 121 da Associação Cearense dos Escritores. Nunca é demais lembrar que Raimundo é um feliz autor de três livros: [1] Karatis, [2] Raiz do poema: teorema pra nos tanger e outras esquisitices ao quadrado e [3] Crateús – do portão da feira aos galos das torres – este último o verdadeiro motivo de sua visita. Vejam só vocês, veio me deixar com antecedência sua mais nova obra, a ser lançada somente no dia 17 próximo. Arre! Me senti nem sei como!... 

Mas isso é bem próprio do Raimundo: essas atenções. E pelo pouco que vislumbrei do livro – ao qual prometo retornar com mais vagar num futuro próximo e aqui discorrer sobre ele, se vocês me derem a oportunidade de fazê-lo – e pelo pouco que vislumbrei, eu dizia, Crateús inteira, todos aqueles que provarem das letras derramadas da obra de Raimundo, hão de concordar comigo que ele é um iluminado, prendendo em nossa memória – e mais! –, em nossos sentidos muito daquilo que nosso município tem e teve de melhor. No livro do Raimundo, não temo em dizê-lo, em cada folha sua, um pouco da alma de cada um de nós. Desafio qualquer um a lê-lo e a não se identificar, n'algum momento, com alguma coisa. 

Não sei vocês, mas eu... vixe como eu gosto do Raimundo. Salve. 

Lourival Veras


João Silas Falcão disse...

Lourival, bela crônica. Justa homenagem ao Raimundo Cândido. Onte, sexta-feira, 9/11, o dito personagem de sua crônica me deu o prazer de sua longa visita ao estande da ACE. Conversamos. Conversamos. Rimos. Retornamos aos mergulhos do Rio Poty. Ele autografou três exemplares do seu Grande Mundo de memórias nossas que é Crathéus- do portão da feira ao galos da torres. Hoje, ele retornará ao mesmo ambiente da nossa Associação e sei que mais dois exemplares o esperam para autografos. R. Cãndido é um bom humano e outros adjetivos que eu o defino em meu prefácio ao Crathéus... Parabéns pela bela crônica, Poeta.

 José Alberto de Souza disse...

Pois é, como dizemos aqui no sul, o homenzinho é um "come-quieto". Eu até que desconfiava mas juro que não sabia que ele já era autor de três livros. E, se não fosse, já estava na hora dele botar o seu bloco na rua, para apresentar essas alegorias maravilhosas da sua gente e de suas raízes... Crateus se universaliza com seus escritos!

domingo, 4 de novembro de 2012

As 7 Noivas do Mozão


 
               Desde quando a serena imagem de Nossa Senhora passou a fitar, do topo do Arco de Fátima, os devotos crateuenses que  num deliberado ato de amor, prenderam-na em grades cordiais, desde quando os irmãos Lúcia, Jacinta e Francisco passaram a lhe fazer contemplativa companhia que o quarteirão da Rua Dom Pedro II, partindo da divisória linha férrea até a calçada do imponente prédio do Banco do Brasil, se transformou numa verdadeira algazarra de transeuntes. Não faltam motivos para se percorrer aquele trecho comercial nas primeiras horas da manhã, enquanto o sol inclemente pouco arde.
              O trânsito é intenso naquela via, mas bem poucos se benzem ao passar pelo venerado e histórico arco, pois a preocupação com o dia-a-dia os torna indiferentes, num vivo clima de inquietação, em busca de sobrevivência.
               A maioria são criadores de gado, ovelhas ou porcos que se desesperam atrás de comprar ração para que seus animais possam escapar desta impiedosa seca de 2012, a pior dos últimos trintas anos.
              O comércio do saudoso Senhor Izauro Machado, um dos mais antigos daquele trecho, é do tempo em que cada prédio tinha uma avantajada Jiboia (cobra de veado) para dar conta das infestações de ratos. Hoje, os filhos Flávio e Antônio, continuaram a tanger o empreendimento, conservando os antigos fregueses aliado aos novos que vão chegando pelo bom atendimento e pelo clima de convivência cultural.
             — Amigo Antônio, qual o preço da ração, hoje? Pergunta um Senhor com um elegante chapéu de massa e ares de fazendeiro.
              — O milho está 46, o xerém e o resíduo 48 e a soja a 80. Aproveite que já vai subir de preço.
              Mas há quem nada compre, sendo assíduo freguês das cadeiras de couro cru, dispostas como um convite a sentar-se e lorotar, falar dos políticos, da vida alheia ou contar uma mentira qualquer. Eu, vou só ouvir!
               A palavra que sai da boca do povão é sempre espontânea, carregada de adjetivos, se elogia, enaltece mesmo, se fere, punge como um punhal amolado!
               — É um tinhoso! Um bacorim enjeitado do cangote duro! Alguém chega reclamando de um negócio que não deu certo por aí.
                — Que foi que fizeram com você, meu amigo? Pergunta Flávio Machado já em busca de novos dados para alguma saborosa crônica.
                 Às vezes, velhos conhecidos que há muito se foram em busca de melhores dias regressam, como ave de arribação, e proseiam sobre o que fizeram ou deixaram de fazer, mas sempre confessando suas doloridas saudades.
                 Quando não é o insensato Chico - entre outros tantos que já houve - pedindo uns trocados para comprar cigarros e que logo escapole da sugestão de trabalho, como o capeta foge da cruz, é o taxista Romualdo soltando uma canção melosa, e é ele mesmo quem faz a introdução da segunda voz, pedindo música: — Oh, Romualdo, canta mais uma aí! 
                 — Não posso, não! Ele responde.  
                 — E por quê?
                 — Porque não posso mais andar procurando ela...  Entoa, em voz alta, um melodrama choroso que em pouco tempo atrai diversos curiosos para a porta do armazém.
                 Quem mais chama atenção nas assembleias bisbilhoteiras da Rua Dom Pedro II é o Mozão, um sessentão bonachão que dá a impressão de ter achado o segredo da felicidade, pois está sempre com um sorriso estampado no rosto. Ouvindo-o esquadrinhar a vida do povo, lembrei-me do Poeta Passarinho, Mário Quintana, que uma vez disse: “Não te abras com teu amigo, que ele um outro amigo tem. E o amigo do teu amigo possui amigos também...”
                 Mesmo sendo um caminhoneiro de alto gabarito profissional e tendo conduzido trens rumo ao calorento Piauí, tenho a impressão de que a sua verdadeira profissão é de repórter, pela curiosa tenacidade com que sabe da vida de deus e do mundo, incluindo os segredos das mulheres casadas.
                 Relata com detalhes como um criador espertalhão colocava o gado, já cansado e caduco, propositalmente na linha férrea para depois de atropelado retirar o quarto traseiro e ainda receber as indenizações da REFESA e num espirituoso gracejo conclui: — O “fulanim” era velhaco que só jumento da orelha branca, daqueles que não deixa a gente colocar nem o cabresto!
               Conta-nos da situação dos ricos da cidade que só saem para rua à noite, com medo dos credores, diz que alguns até almoçam escondido para não ter que pagar refeição para os coitados dos empregados. Peremptoriamente afirma: — Eu não tapo o sol com peneira, não! Pode ser meu pai, prestou, prestou! Não prestou, não Prestou! Sei de fazendeiros por aqui que só tem os filhos doutores por causa do leite com água! E tem gente boa que só paga as contas com intrigas, afirma ele.
                 Não sei por que, mas nestas horas lembro-me do velho sábio Freud: “Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”. Mesmo ciente que o homem é dono do que cala e escravo do que fala, contínuo sorrindo e me divertindo com as histórias do Mozão.
                Alguém atenta para o vivo olhar do aposentado maquinista, que acompanha com saudade os passos de uma jovem que passa rápido pelo portão do armazém e pergunta:
               — Mozão e as noivas? Conta aí! 
              Ele ri, mas destrinça lentamente a inusitada história.
               — Eram sete noivas, todas com alianças no dedo, e entre elas havia cinco campesinas Marias. A bicicleta tinha um dínamo colado no pneu que acendia um farol para iluminar as veredas do caminho. Eu, com a cabeleira luzindo de brilhantina, partia do Barro Vermelho até a casa da primeira candidata a casamento, que impaciente esperava com os cabelos que nem mijada de mocó com tanto óleo de mamona que escorria no cangote, passava um tempinho por lá.
               Aquele era o tempo dos réis, quando palavra dita valia mais que papel assinado. Os pais das noivas iam logo ameaçando: — Oh, se bulir, eu capo! Hoje, é um enroscado de novela, que se o cabra namorar mais de sete dias ou ele mexe com a moça ou a moça mexe com ele!
              Quando me despedia da casa da primeira noiva, ela subia num pé de ata para observar que rumo eu tomava, mas eu não era besta, apagava a lanterna da bicicleta e seguia danado para cortejar a segunda, depois namorar a terceira...
               Mas sabemos que isso é coisa bíblica, vejam Abraão, Jacó, Davi e Salomão tinham várias mulheres. Só o sábio Salomão chegou a ter 700 esposas e 300 concubinas e o sertanejo alencarino, cabra-da-peste virado numa girita, não fica muito atrás, não! O senhor Franciné de Pacajus, com 77 anos é conhecido como homem de ferro do sertão, tem três mulheres e 51 filhos sustentando a todos sem a grande riqueza dos velhos profetas.
             Mozão nos confirma que cada uma das mulheres sabia da existência das outras e que todas tinham a absoluta certeza que seria a preferida, por isso nunca deu desavença. Confusão grande foi receber de volta as alianças das outras seis, quando ele escolheu uma das Marias para digníssima esposa. Mesmo assim, o galanteador Mozão um dia trocou a eleita Maria, custosamente escolhida entre as sete noivas, por uma nova esposa e afirma disparatadamente que voltou 500 reais pela permuta... Eita, Mozão feroz!
           Um dia, na terra do frevo e de lampião, um cidadão confundiu o amigo Flávio com o seu querido Secretário de Cultura, e não me surpreendo mais não, porque hoje sei a razão: alguns felizardos atraem espontaneamente cultura assim como o metal é seduzido pelo imã, e se duvidar é só passar um tempinho no armazém do Seu saudoso Izauro! Oh, Cratheús...

 

Raimundo Cândido

José Albertto de Souza disse...
Aqui no Sul, o nosso Érico se orgulhava da sua condição de contador de histórias, E você, caro Raimundo, que “só vai ouvir nas assembléias bisbilhoteiras da Rua Dom Pedro II”, é bem um guardião desta rica oralidade (assim sem “m” antes), “da palavra espontânea que sai da boca do povão”... Preservando-a para a posteridade.