quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

                                                     Procissão


                O mundo é obra de fôlego divino, incansavelmente escrita de capítulo em capítulo, que às vezes soletramos com uma vista enevoada por uma cega emoção, mas só devíamos proferir suas prosas ou recitar seus versos pelo olhar da lucidez ou da razão. Há momentos em que, inesperadamente, surpreendo-me ao ler uma jorrante frase, ainda sendo escrita numa página em branco, como ali na calçada da matriz, observando o povo sendo invocado pelas badaladas de um sino, e vão chegando à conta gota para a procissão do Senhor do Bonfim, no primeiro dia do ano.
               Um fim de tarde, ainda ardente, se dissipa devaga, esticando cada vez mais o mormacento dia, imerso em incisiva claridade. Espera-se que o deus Rá dos antigos egípcios se acalme, para que o cortejo do santo comece. Dizem que em cada cm2 do planeta recebemos, em média, duas calorias de vital radiação solar por minuto, mas tenho a impressão que esse número está bastante subestimado, de forma bem grotesca, pois até as plantas se abanam de tanto calor e sufocam ao realizarem uma banal fotossíntese.
              Enfim chega o momento em que Pe. João Batista autoriza o início da cerimônia com um forte comando emocional: — Viva Jesus Cristoooo! As pessoas, autômatas conscientes, respondem: — Vivaaa!!! Foi como se ligar um botão, a multidão caminha e celebra em cânticos, a me lembrar o Rei Davi, pulando e cantando em êxtase. Seguem um arranjo floreado onde se encontra a imagem de Nosso Senhor pregado na Cruz, nosso querido Padroeiro. Desfilam liderados por três coroinhas, com uma cruz ladeada de luzes abrindo caminho pelas ruas da cidade. Na frente do andor o Bispo Dom Jacinto e os Padres, que vestem uma túnica branca como aquela de cor púrpura que foi vestido em Jesus na casa do perverso Herodes.       
               O carro de som, um potente trio elétrico de milhares de watts de potência, toca a marcha como um animado bloco de carnaval em ladainhas e rezas acompanhado dos estouros de fogos de artifícios no ar, que devem ter feito salivar algum cidadão - o sistema nervoso central condicionado, como nos cães que salivam por um pedaço de carne ao ouvir uma sirene – e que vive a confundir todo rojão com o festejo da cannabis sativa chegando à cidade.
               Nas épocas de incertezas somente a fé e a oração é que podem oferecer alguma segurança na vida. Dizem-me os excêntricos poetas, tudo que é maravilhoso está entre as brumas e o que os encanta mesmo é a própria incerteza. Livrai-me da persuasão destes vates, da convicção dos loucos e da ingênua fantasia das crianças. Vade retro! Prefiro mesmo ser um simples matuto do pé rachado. 
               A ciência também me assusta, com suas descobertas que me cheiram a bruxarias pelo potencial de sondar o invisível e espiar o infinito. Chegaram a descobrir que no mistério de um sem fim, equilibra-se um planeta, como nas asas de uma borboleta, confirmando o que me disse uma vez meu amigo Guimarães Rosa, nas trilhas de um sertão, quando nada acontece é porque há um milagre que não estamos vendo. Como uma magia, chamada de El Niño, que impede a ressurgência  de águas frias e profundas nas costas da America do Sul, no oceano pacífico, mudando todo o clima do planeta Terra-Água. Comprovaram até que a feia seca é um fenômeno periodicamente decenal e a expõe num fadado calendário: 71 e 72... 81, 82 e 83... 92 e 93... 2002 e 2003... Meu Deus! Socorra-nos, São José! Se até o dia 19 de março a chuva não vier, vamos caminhar e suplicar em mais uma longa procissão.
               De todas as procissões, a que mais me move e comove é a medieval celebração de Corpus Christi, em adoração ao Santíssimo Sacramento por ser uma fina arte de tapeçaria.
               Os fieis preparam tudo como numa grande festa na madrugada utilizando todos os tipos de materiais: serragem colorida, borra de café, farinha, areia, acessórios como tampinhas, folhas e flores, muitas flores coloridas atapetando o chão com uma belíssima obra que não deixa nada a desejar para arte e a cultura da antiga Pérsia. Na quarta-feira do dia 7 de junho deste ano de Nostradamus, se as surpresas dos caminhos não desviarem meu trajeto, quero presenciar essa magnífica diversão para os olhos e vigoroso júbilo para a alma.
                As cerimônias religiosas absorvem a minha vista e o meu espírito neste grandioso espetáculo de entoar preces com imagens expostas pelas ruas, dignas de veneração.
                Na Semana santa há a comovente Procissão do Encontro. A vida é a arte do eterno encontro, embora haja tanto desencontro pela vida, versejou o poeta Vinicius. 
                Os homens saem da Igreja de São Francisco com o Senhor Morto, coroado de espinhos, ensanguentado, escarrado e carregando a cruz nas costas, é a imagem do Senhor dos Passos.
                As mulheres, da Igreja de São Vicente, levam a imagem de Nossa Senhora das Dores, e as acompanha a piedosa Verônica que enxugou o rosto de Jesus numa toalha, ficando ali estampado uma face, e também a devota Maria Madalena, a que voltou na madrugada do sábado para ungir o corpo de Jesus com os perfumes que havia comprado, e então um Anjo lhe comunica que Ele havia ressuscitado.
                 Encontram-se, na frente da Catedral, numa emocionante dramatização da cena do que aconteceu naquela sexta-feira santa, recordando as dores de Nossa Senhora com o martírio de Jesus.
                 Devo me lembrar que todo dia é propício ao encontro, para que possa olhar no olho do irmão sol e sentir o resplendor da vida, para me confidenciar com a amável irmã lua e poder me encontrar comigo mesmo, seguindo neste cortejo maior ao encontro do Supremo Princípio, palmilhando nesta solitária procissão em que vou ao abraço do paternal  Senhor do Universo.

 Raimundo Candido.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

I ENCONTRO CEARENSE DE ESCRITORES- IPU

PROGRAMAÇÃO

Dia 13 de janeiro de 2012 (sexta-feira):

18h – Credenciamento e recebimento de material.
20h – Apresentação de DVD sobre a Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes.
20h30min – Abertura do 1º Encontro Cearense de Escritores.
20h45min – Posse de novos acadêmicos.
21h – Lançamento da Revista nº 2 e do Livro dos Patronos da Academia
Ipuense de Letras, Ciências e Artes.
22h Encerramento com coquetel
 
Dia 14 de janeiro de 2012 (sábado)

18h – Palestra sobre Educação Especial
Palestrante: Celeni Penaforte, membro do Conselho Estadual de Educação
19h – Bazar das Letras: Mariposa são feitas de cobre
Participação: Francélio Figueredo
Mediação: Carlos Vazconcelos
19h30: Palestra Como editar e escrever um livro.
Palestrante: Assis Almeida
20h – Performance poética.
Participação: Airton Soares
20h30min-Palestra
Participação: Ana Néo
21h30 – Recital poético
Participantes: Grupo Abraço Literário
22h – Encerramento com o Encontro dos Ipuenses.
 
Dia 15 de janeiro de 2012 (domingo)

9h30- Apresentação musical Gevan Siqueira
10h – Lançamento do livro Devaneios, Delírios e Desamores.
Autor: Bernivaldo Carneiro
10h30m – Performance: Toadas, Abôios e Poesia..
Participação: Poeta Chico Neto
11h – Lançamento do livro Cuide bem do seu jardim
Autor: Airton Soares
11h30 – Performance: Mala de prosa e verso
Participação: Poeta Lucarocas.
12h – Performance: Um toque de vida
Participação: cantor e compositor Cayman.
12h30m – Divulgação da cidade interiorana que sediará o 2º Encontro
Cearense de Escritores. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012



A HOMENAGEM

Dia 15/12/2011, no evento de posse da nova diretoria da ACE, do lançamento da 2ª Antologia e da confraternização natalina realizada na FIEC, a Associação Cearense dos Escritores - ACE - homenageou com o Diploma Mérito Cultural, a educadora crateuense Maria Delite Menezes Teixeira. Familiares da homenageada e representantes da Academia de Letras de Crateús – ALC – estiveram presentes ao evento, aos quais a ACE agradece. Na ocasião li a biografia (resumida) da Dona Delite, sobre a qual faço a postagem neste blog para que os internautas conhecem um pouco da vida desta educadora:
Maria Delite Menezes Teixeira nasceu em 24 de julho de 1918, na fazenda Gameleira, Piauí. Poucos dias após o seu nascimento, veio para o Ceará, residindo na fazenda Ponciano, no município de Crateús. Em 1939, Maria Delite cola grau como normalista do Colégio das Dorotéias, de Fortaleza. Em 1954, realiza o seu maior sonho: inaugura o Externato Nossa Senhora de Fátima, em Crateús. As salas de aula desse Externato, palco da vida de Maria Delite, eram frequentadas por pessoas distintas entre si nas suas origens sociais e étnicas, mas que recebiam o mesmo tratamento da Mãe Delite, como era convocada, pois constantemente ela saía de si para aconselhar, ouvir, orientar quem a procurava. Os seus olhares humanos estavam sempre insones para os que nela buscavam afeto e palavras que animassem e reconstruíssem o nível da esperança. Aluno que fui dessa eterna Mestra, relembro a senhora austera editando contemplações firmes, apontadas para nossa adolescência. Tínhamos medos. Mas hoje reconhecemos que essa assustadora severidade da Dona Delite não era de intimidação, de arrogância, de ameaça, mas trechos da coletânea do respeito ao nosso futuro. Ela desejava que seus alunos — extensão da sua família — fossem vitoriosos, e só o seríamos se conduzíssemos em nossos sonhos a firmeza da dedicação na realização dos nossos objetivos. Em 14 de outubro de 2011, Maria Delite Menezes Teixeira, a orientadora de vidas, recebeu, entre outros reconhecimentos públicos, o titulo de Cidadã de Crateús. Merecida homenagem a essa representante da simplicidade. O ético e humano Diacordo, personagem do meu livro de crônicas Por quem somos, afirmou: Silas, a Dona Delite é uma das construtoras do Estatuto da subjetividade. No dia 16 de novembro de 2011, aos 93 anos, dos quais 64 dedicados à educação de gerações de crateuenses, a mulher guerreira e de bom coração se ausenta definitivamente do nosso abraço físico. Mas sabemos que do mundo espiritual a sua força de vida continuará atuando em favor da realização e felicidade humanas. É dela esta frase: “Dediquei toda minha vida ao magistério".

Silas Falcão

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012


                                                                     Sangradouro Santo
Um entardecer sobrevem lento e atrasado, se desvanecendo preguiçoso como a impedir mais uma noite densa e sombria sobre o gueto. O tempo desce feito uma brisa carregada de presságio, anunciando martírios e a gotejar pesadas aflições na branca eternidade guarnecida por arame farpado, num bairro judeu.  Um vulto baixinho,de cabeça raspada num pijama listado de azul e branco com uma rubra insígnia triangular colada no peito, escorrega furtivamente por entre sombras de antigos prédios, desviando-se de olhares traiçoeiros da cruel Gestapo que perscruta até as batidas de um emudecido coração.
 A fome, o frio, o trabalho extenuante e as doenças infecciosas, como o tifo, já exterminam os judeus bem antes da vergonhosa “Solução Final” que caracterizou o holocausto.  As pessoas morrem pelas ruas e os encarregados não dão conta da remoção dos cadáveres. Removidos pela manhã, novas pilhas se formavam à tarde. Crianças brincam nas calçadas, em meio a corpos apenas cobertos por folhas de jornais. O tempo, como o conhecemos, das horas, dos dias e dos meses, não existe. A existência, pesadelo atroz, é conduzida entre um infortúnio e outro. Uma rala sopa diária, de batatas podres, é a única refeição com uma bisnaga semanal de pão, que completa a fraquíssima refeição.
O cozinheiro Fredy Kurtz, nosso vulto baixinho aprendera russo só para pregar o Evangelho aos companheiros desliza encoberto pelas sombras e traspõe um longo pátio levando sobras de comidas para os colegas de infortúnio. Alfredo pensa em Maximiliano Kolbe, mártir da caridade, que se voluntariou para morrer de fome no lugar de um pai de família, quando é surpreendido pela Polícia Nazista e, neste instante, relembra-se das brancas montanhas da Suíça, onde gozara a infância. Em 1945, num ato de ousadia próprio de uma alma inspirada, foge. Estranha a indiferença dos exaustos soldados arianos, com quem se depara pelo caminho e percebe, com alegria no peito, que a cruel guerra chegara ao fim.
Ali, naquela lastimosa estrada, recuperada a liberdade, um dos dons mais preciosos da humanidade, toma três decisões importantíssimas para sua vida: tornar-se padre, trabalhar com os mais pobres entre os pobres e jamais vestir outra roupa que não reproduzisse o modelo do uniforme do campo de concentração, em memória de seus companheiros mortos.
Se a porta da percepção estivesse sempre aberta a nossa frente, veríamos como são infinitos os caminhos para as possibilidades. Ao escapar da morte no caminho da liberdade e o fogo divino o ilumina e o sagra espiritualmente, como senhor das forças e dos dons que já o habitava, é  sinal de grande benção. E naquele incomum lugar, nasce o místico Afredinho.
Na linha tênue que sincroniza coincidência e destino, sempre se manifesta o anonimato de Deus, como na união do alimento com a vontade de comer, da refrescante água com a desconfortante sede, como no benéfico encontro do Pe. Afredinho com o saudoso Dom Antônio Batista Fragoso, no propício sertão de Crateús.
Já ouvira falar desta terra distante, cheio de sacrifícios, de pelejas, de espinhos como os pregos da cruz e também soube que reside um povo que nunca esmorece, nunca se entrega como os mandacarus no tempo da seca. Igual ao sertão de Guimarães Rosa, onde viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... É uma travessia perigosa, mas é a vida.  
Soube que neste semi-árido nordestino marcado por estiagens periódicas e, sobretudo por injustiça para com os mais necessitados, havia uma Diocese que era considerada como um espinho na garganta da famigerada ditadura militar, reputação devida ao famoso bispo, Dom Fragoso, que fizera opção preferencial pelos pobres. Isso o agradou e com um sorriso franco no rosto, decide vir para encontrar-se entre os mais pobres.
Há uma palavra marcada com ferro em brasa na fronte da sociedade brasileira: Prostituição Infantil. A mais triste e antiga das misérias da humanidade que corroí o nome da pátria, não do país do carnaval, não do país do futebol ou da corrupção, mas a pátria de Irmã Dulce, a de Dom Helder e a de Dom Fragoso. A violência e o abuso sexual dentro de casa, o abandono, a fome, a miséria contribuem para que essa chaga vergonhosa faça com que uma digna mulher se humilhe e se venda como uma simples mercadoria.
Logo ao chegar por aqui, o Pe. Alfredinho é levado a visitar uma jovem vítima da prostituição que estava morrendo de tuberculose.  A difícil “vida fácil’ daquela menina-prostituta (Antonieta é seu nome!) condói em seu coração. Enquanto a maioria desvia o olhar para longe, os olhos do amor têm uma preciosa visão daquilo que se rejeita. Uma visão que se torna clara à medida que se olha para dentro do coração, pois a nossa única riqueza é ver. É fácil enxergar além do que nossos olhos são capazes, pois a dor - ao contrário do prazer - não tem máscara. A prostituta confessa-se com o Padre Alfredinho que lhe responde, suavemente:  “ Antonieta, somos nós que devemos pedir perdão a você. Perdão pelos pecados de uma sociedade que não lhe ofereceu outra alternativa de vida. Como Jesus prometeu Antonieta, você nos precederá no Reino de Deus. Interceda por nós.”
Afredinho, ao criar a Irmandade do Servo sofredor (ISSO) disse: “O pior do mal não é matar o homem, mas matar a imagem de Deus no homem. A força do mal não procura destruir o ser humano, mas Deus nele” A missão da irmandade é restaurar o rosto desfigurado, o rosto machucado do ser humano. Se uma parte está desfigurada toda humanidade está desfigurada. Se um único ser humano for rejeitado, toda humanidade será rejeitada.
São Francisco de Assis dizia que o homem vale pelo que é diante de Deus e mais nada. A verdadeira humildade é uma grandeza e diante dos inferiores é uma nobreza.
A pureza no coração de Pe. Alfredinho é inseparável de sua simplicidade e de sua inerente humildade. É estranha essa qualidade... No momento que achamos que a temos... Já a perdemos. Numa tarde ensolarada, o Padre caminha concentrado pela Rua Frei Vidal com passos curtinhos e apressados, sem o baboleio característico dos braços que se apóiam em duas surradas sacolas a tiracolo. Quando se emparelha defronte a um frondoso Benjamin, pára e entra na residência de Dom Fragoso. Em ato contínuo lhe pede a benção: — A benção, Dom Fragoso! O Bispo, homem digno, nobre e naturalmente humilde, em respeito ao padre, responde: — Que é isso, Alfredinho? Eu é que tenho que lhe tomar a Benção... – A benção, Alfredinho! Riem os dois, e também sorri mais Alguém, lá em cima, daquela demonstração de franqueza e modéstia.
Sacrifício é algo que vai além dos meros significados contidos no dicionário, como renúncia, abnegação ou ofertas. Sacrifício é vida, nos diz o fundador da Irmandade do servo Sofredor. A missa é um grandioso e santo sacrifício. A maior de todas as ofertas solenes, que já existiu na face da Terra, foi a morte de Jesus Cristo ou quando Abraão, com o coração partido e os olhos lagrimejando, levantou-se naquela bíblica madrugada e foi imolar Isaque, seu único filho, em obediência a Deus. Alfredinho reza, sem comer há dias, deitado no duro chão da Igrejinha de São Francisco, em habitual sacrifício e lhe servem somente uma salobra água de coco. O povo implora para que ele pare. Não entendem, como pode um raquítico homem suportar tanto tempo sem comer! O ano de 1983 começa particularmente difícil, depois de três anos seguidos de seca no sertão de Crateús. O dia 19 de março já se foi e São José não mandou a abençoada chuva. O gado morre de sede e de fome, o agricultor não semeou o chão. E alguém associa o sacrifício de Alfredinho a uma grave de fome para que o Céu mande a redentora chuva. Será que Deus está cego, surdo e mudo que não ouve a clemência deste pobre homem? Será que, mais uma vez, nos abandonou? Não! Um outro grita, lá do meio da rua. Ele ouviu!!! No décimo quinto dia, quando já chega ao fim o sacrifício, cai um providencial aguaceiro salvando o sertão. Uma multidão dirige-se a igreja, e o aclamam e o veneram como a um santo.
Quando, numa seca violenta, os sertanejos vinham para a cidade sem nada, pedindo comida e trabalho, eram considerados pelo exército, pelos comerciantes e pela polícia como invasores e inimigos. Alfredinho tomou a frente e disse: Invasores não, são irmãos que precisam de nós. Então sugeriu que se colocasse um cartaz nas casas, com a sigla PAF (Porta aberta ao faminto), isto é, vocês não são invasores. Mais de 2000 casas colocaram os cartazes e acolheram os pobres irmãos do interior.
No período de estiagem extrema, onde a fome aperta como um dolorido cinto e o êxodo rural expulsa o homem do sertão, os governantes abrem as inoperantes emergências para sustentar o trabalhador do campo. Alfredinho se alista na frente de serviço do Sangradouro da Santa Fé com o único propósito de ser presença viva da fé, sem remuneração e relembra o tempo do sofrimento e da opressão nos campos de concentração. Como um Dom Quixote, o cavalheiro de triste figura, vestido com uma armadura medieval, um elmo na cabeça para evitar a insolação, leva um carrinho de mão cheio de barro, num vai-e-vem constante, parando para descansar e rezar pelos irmãos ”Ouve, Senhor, a justa causa; atende ao meu clamor...; dá ouvidos à minha oração...” No final celebra, como o profeta Isaias, a vaticinar de seu altar ”: O sangradouro da santa fé, como Jesus, um dia vai verte água e sangue ...”  Santo Sangradouro... Santo Alfredinho, que ali, continua presença viva pelos pobres e ainda sangra...

Raimundo Candido

José Alberto de Souza disse...
Nesse capítulo, você fala em Guimarães Rosa, que ainda estou devendo, e me lembra de Graciliano Ramos, que ainda estou pagando...Mas quem lê Raimundo Cândido que outra imagem mais pungente e vigorosa pode encontrar para sentir o drama dos excluidos desta nossa sociedade impermeável a qualquer altruísmo!



Paulo Nazareno disse... 





Meus Deus! Primorosos textos esses do J.Bonfim e Raimundinho Cândido.Fiquei zonzo.Cada um no seu cada qual,usaram do "chicote do corpo"(língua/palavras)de modo maestroso. Tem gente assim;uns dizem ser dom, outros inspiração.Não interessa! Cabe a nos,pobres mortais,o privilégio de poder sorvê-los à conta-gotas, a sílabas por síbalas, nesse misterioso exercício da inteligência e da superação humana. Suas bençãos!

Convite

Você é nosso (a) convidado  (a) especial!
Venha participar do lançamento do livro
“HISTÓRIA DOS EVANGÉLICOS EM CRATEÚS”
Zacarias Alves Beserra
Local: Igreja Batista
(Rua Marechal Hermes, com a Rua Juarez Távora)
Data: 12/01/2012
Horas: 19:30hs.
Conto com tua presença!
(SIC)

FELIZ DIA NOVO!

Tudo tem uma primeira vez na vida. Pela vez primeira passei um réveillon fisicamente distante dos meus rebentos. Por um dever de ofício, mas, sobretudo arrebatado de ardente paixão por uma causa, fiquei no plantão judiciário do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, pleiteando um alvará de soltura para um sexagenário pai de família que estava lançado às agruras da masmorra, à escuridão das catacumbas, à solidão do cárcere. Sentinela da liberdade – assim me senti.
Um colega de escritório me ligou e disse: “você já fez tudo o que era possível. Vá ao encontro de sua família”.
Porém, algo me dizia que eu devia ficar. E fiquei. Era uma forma de me solidarizar com a dor de outra família, separada não por uma decisão voluntária, mas por uma imposição sistêmica.
Todo ritual de passagem – e o conjunto de gestos e decodificações simbólicos na travessia de um ano para outro é exatamente isso – tem um forte apelo à transformação. É um mergulho nas águas batismais do Jordão. O incenso que exala do ciclo de alteração anual é um convite a um passeio pelos labirintos da memória e ao êxtase do sonho da projeção. Daí o mantra “Feliz Ano Novo!”.
Repisando o gramado do itinerário pessoal, fiquei relembrando algumas lições que solidifiquei ao longo de 2011. Quero compartilhar três delas.
A primeira é a tradução daquele longevo ensinamento dos nossos ascendentes: “fazer o bem sem olhar a quem”. No que pertine a esse mandamento, somos sempre estimulados a distinguir quem é merecedor e quem não o é. Evite isso. Faça o bem sem olhar a quem. Faça o bem! E não espere atitudes de retorno ou gestos de gratidão de quem, naturalmente, deveria prestá-los. A vida nos surpreende. Quantas vezes, sem explicação plausível, recebemos recompensas incomensuráveis de pessoas que nenhum débito tem para conosco?! Quase sempre a bondade retorna para nós por vias desconhecidas, surpreendentes e inimagináveis!... Por isso, faça o bem sem olhar a quem!
A segunda: alimente esse vulcão indomável, essa cachoeira silenciosamente rumorosa, essa árvore singela de raízes colossais chamada fé. Descobriu-se que o átomo, a menor partícula de um elemento químico, é pura energia. O maior fenômeno da evolução tecnológica, a transmissão de dados por via digital, que aparentemente parece fruto de ímpeto materialista, só se concretiza porque as pessoas crêem. Crêem que, instantaneamente, imagens podem ser enviadas de um extremo para outro do planeta. Tudo é energia, inclusive nós. Ironicamente, é preciso se ter muita fé para não acreditar em Deus...  
A terceira é: renove. Inove: renove-se continuamente. Alguns gênios do nosso cancioneiro conseguiram a façanha de revestir melodias bonitas com conteúdos de linho filosófico. São profetas da composição. Suas músicas se incorporaram às partituras de nossas almas. Gonzaguinha – oh! quão cedo se foi! - quedou-se imortalizado em pérolas compositivas carregadas de interrogação e exclamação. Em uma delas, O Que É, O Que É?, com a singeleza de um infante, traduziu esse espasmo mágico de quem ainda mantém acesa a brasa da infância:  “Eu fico/ Com a pureza/ Da resposta das crianças/ É a vida, é bonita/ E é bonita.../ Viver!/ E não ter a vergonha/ De ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser/ Um eterno aprendiz...”
Chico Buarque, no hino filosofal intitulado Todo o Sentimento, fala-nos do encantamento com o tempo da delicadeza. A delicadeza é encantadora. Dilata a mente, desobstrui artérias do corpo e da alma, cura feridas, revitaliza o ser. Eis o desafio para 2012: inaugurar o tempo da delicadeza! Tornar diário o mantra anual. Ao invés do voto de um ano novo, fazer a cada manhã os votos de um dia novo. Construir e desejar Feliz Dia Novo!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

SABI abre inscrições para oficina de Grafite


A SOCIEDADE AMIGOS DA BIBLIOTECA NORBERTO FERREIRA FILHO – SABI, ATRAVÉS DO PONTO DE CULTURA “CULTURA É PARA TODOS”, ABRE INSCRIÇÕES PARA OFICINA DE GRAFITE COM MONITORIA DE JOÃO HENRIQUE (BISOURO), AS INSCRIÇÕES VÃO ATÉ DIA 09 DE JANEIRO E PODEM SER FEITAS NA SEDE DA SABI, SITUADA À RUA DO INSTITUTO SANTA INÊS, 231 – CNETRO, PRÓXIMO A PM.
A OFICINA INICIARÁ DIA 10/01/2012 E ENCERRARÁ DIA 13/01/2012 E ACONTECERÁ NO PERÍODO DA MANHÃ DE 09:00H AS 11:00H.

PARTICIPE E GARANTA SUA VAGA!

REALIZAÇÃO:
SABI – MINISTÉRIO DA CULTURA

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Primeira Reunião 2012

Amig@ Acadêmic@,

Vamos nos encontrar?

Nossa primeira reunião em 2012 será na quinta (05.01.2012) às 17:00h na nossa sede (rua do Instituto Santa Inês, 231 - Centro), aqueles que estiverem por aqui venham, nós vamos fazer uma Avaliação de 2011 e Planejar as ações para 2012.

Pra você:

Desejos
Desejo a você 
Fruto do mato 
Cheiro de jardim 
Namoro no portão 
Domingo sem chuva 
Segunda sem mau humor 
Sábado com seu amor 
Filme do Carlitos 
Chope com amigos 
Crônica de Rubem Braga 
Viver sem inimigos 
Filme antigo na TV 
Ter uma pessoa especial 
E que ela goste de você
...
Carlos Drummond de Andrade

sábado, 31 de dezembro de 2011


Juízo Final

Não chores!
É verdade.
Chegamos ao extremo
supremo das eras!
Há 14 bilhões de anos
que a poeira se assenta
e, inevitavelmente,
fecharemos para balanço!
Um estranho alinhamento astral será o sinal,
o sul engolindo o norte num gelo antártico,
banhará meu sertão em ondas de mar,
feito os primitivos oceanos que se exaurem!
Desse Armagedon,
ou Apocalipse, como queiram,
se procriará um novo e geológico mapa,
num quadro sinóptico de Juízo final.
E confirmaremos Nostradamus arcaico,
 até os arqueológicos Maias,
antes que o ultimo grão de poeira caia!

Raimundo Candido

Hoje você me vaticinou
Isto que está acontecendo
Em nosso pobre planeta
Rumo a miseráveis desditas,
O mar invadindo a terra
Fazendo estragos incalculáveis,
A clamar desesperado socorro
Nossa natureza maltratada,
Toda devastação impune
Em que o desatino impera!!!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Os poemas? Benditos: não envelhecem!

Dizem que algumas coisas não envelhecem:
o amor, os sonhos, os poemas... Benditos sejam!
Ha 11 anos, carrego nas costas um poema
que nascia com o novo milênio
tão menino, tão franzino, tão magrelo...
já nascera, porem, menino-velho!
Daí, só renova, so engorda, só encharca...
está obeso e vive a me escambichar.
Não vou mais chamá-lo de poema,
para ver se me livro dele,
maldito ditado
que transcrevo abaixo:

VELHOS TEMPOS DO FUTURO

Elias de França

Amanhece, e eu de novo à janela.
O céu continua azul;
o sol, deslumbrante, ilustra o nascente;
o mundo tem nova data marcada para acabar: segundo os Maias, 2012; e conforme Juscelino Nobrega da Luz, 27 de outubro de 2013.

Passam os bêbados de volta da noitada,
patinando na lama dos esgotos da rua,
tropeçando em latas de cerveja, copos plásticos,
aspirando poeira, vômito, enxofre...
detritos do homem descartável
em festa de reveillon.

Ainda sobre a calçada,
toda a vizinhança em sacos de lixo
de um ontem tão distante...

Zé Porfírio ainda vive, servindo raro leite, na sua velha carrocinha -
mas já não lhe sou freguês:
hoje bebo pó sintético de cereal transgênico,
dada a intolerância à lactose;
o jegue Stalone não teve a mesma sorte: foi atropelado por um caminhão,
não sem antes ter matado minha muda de palmeira,
e em seu lugar plantei um pé de Nim Indiano.
Totó-da-Bodega faliu!
Aí escapuliu, se aposentou e mudou-se para a capital.
Agora passo o cartão no supermercado da cidade,
E sigo pendurando faturas aos fins dos meses...
A casa vizinha virou uma lan house, um cyber sem café, sei lá o que mais...
os sons sintetizados de supercarros de formula 1, nos games,
redundam em meus tímpanos...
Morro de saudades daquele cheiro de CO2 colorido de cinzas, que enevoava toda a rua – Não desse gás catalisado, incolor, insípido e inodoro,
que todos devoram sem tapar o nariz
e nos dilacera oculto os brônquios -
e do barulho cansado da velha Brasília vermelha,
há dez anos vendida no quilo para o ferro-velho...
A banda militar, ao longe, estranhamente,
ainda toca os velhos refrões,
ensaia as “antigas lições”,
de coturnos em teimosia com o asfalto,
enquanto jovens praças
rondam minha rua em modernas volantes.
Vez em quando, tais coturnos se divertem chutando-pisando estudantes e professores, nos campus ou na casa do povo...

Não há robô algum a recolher dejetos,
nem naus espaciais zanzando em meu beco.
Nem mesmo o carro-pipa que abastecia os baldes nos socorre,
pois se encontra no prego no quilômetro 15 da rodovia,
com o diferencial quebrado
e não se fabricam mais peças para sua manutenção...
Aí bebo água tônica comprada a preço de prata
e me banho no canal,
que um dia já foi um rio com nome indígena,
cuja pronúncia me foge à memória...

É 2012, como se fosse ontem...
um ontem tão distante
que insiste em não desaparecer,
com todos os seus resquícios
da “parte rudimentar” da história humana...

É 2012, igualzinho ao ontem,
o ontem tão distante
que não desapareceu,
com sua pobreza, seus males e fracassos...
É 2012, o mesmo que ontem,
que tanto mais mude, tanto mais cresça, tanto mais se modernize,
tão mais velho fica o ontem,
assim tão distante e tão presente.
E eu que tanto já ralhei, gritei, indignei...
continuo a ter amigdalite na garganta operada;
tempero de veneno o repolho, prevenindo a teníase;
respiro caltin para não morrer de dengue;
tomo resignado meus coquetéis de pílulas diários,
um para cada mal,
e tomaria até a vacina contra a gripe suína, se houvesse, ao menos, uma dose disponível...

e vou ao templo todos os dias
louvar ao criador
pela graça de ver a aurora do novo ano,
que me nasce à minha imagem:
enrugado, esclerosado, demente, insano...

Epitácio Macário disse...




Eu conheço bem esse poema, que está mais encorpado porque mais real. E conheço não apenas de oitiva, mas de vida mesmo. Pois sou um dos que privou da companhia cotidiana deste "velho poeta" por alguns anos, na primeira juventude. Já o citei em crônica intitulada "presente de natal", não por protocolo, senão porque sua mensagem se impunha.

Raimundo Candido disse:

Existem os poemas tradicionais, os poemas livres, os poemas sujos, os poemas práxis, os poemas concretos, os poemas experimentais; são tantos, que é bem difícil a gente enumerar todos. Li agora mesmo, para minha surpresa, um poema caramujo! Uma concha que foi se formando nas costas de um menino magricelo até se compor nesse caracol poético que nos brinda com uma aurora de um ano  novo... Feliz 2012, poeta, profeta Elias!

Há pouco li que perguntaram numa competição estudantil do antigo rádio - em que século foi descoberto o Brasil XV ou XVI - o que deu uma polêmica danada, acabando por encerrar o programa. A mesma coisa aconteceu em 1º. de janeiro de 2000 quando toda a midia saudava um terceiro milênio que ainda era segundo. Porém, me permitirei fazer um exercício numerológico - que se repare a mudança na "quilometragem", de 1999 para 2000 não restou qualquer dos passados algarismos. Será que esse fato não teria influido de alguma forma em nossas percepções extra-sensoriais? Afinal o que nos afetou ao ingressarmos no "buraco negro" desse fantástico limiar?

Elias de França Disse...
Alberto, você levanta uma questão muito relevante... Como todo mundo eu pensava que o novo milenio começava em 2000. Esse poema, de fato nasceu em 1999, e o ano que repetia era 2000 (que diziam que nele o mundo ia se acabar, uns, enquantos outros que íamos atingir o triunfo tecnico-espacial). De fato, sua metáfora (um buraco negro) é muito oportuna. Em todos os aspectos - meio ambiente, economia, relações sociais, sentidos subjetivos, estruturas urbanas... tudo parece um caos, um buraco negro. Ou então somos nós que estamos em colapso sensorial e nao conseguimos interpretar as coisas com lucidez. Grande abraço!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011


                                                                 A CAMINHADA


Sou um admirador exaltado das caminhadas e ciente de seus numerosos benefícios: espantar a preguiça, diminuir o mau colesterol para uma boa disposição de vida, como anunciam alguns experts em saúde. Cheguei a inventar trilhas pelas ruas da cidade e muitas vezes segui reto na velha Central (BR 404), rumo à aldeia em que reinou um duende chamado Bastiãozinho, o legitimo Poeta do Curral Velho. Pedras no meio do caminho obrigaram-me a parar. Havia esquecido um parágrafo na introdução do livro Karatis, escrito por mim, imaginem, onde ouso dizer que nosso caminhar não pára, mesmo sem os fatigados pés em poentas estradas que nos prepara a vida, na luz do dia ou em trilhas escuras, que impõem medo à peregrina alma.
          Encho-me de coragem e retomo a velha caminhada, meditativamente só, sem solidão...  Com solitude, fazendo com que me sinta mais próximo de mim mesmo. Precisei, apenas, insinuar o primeiro passo.
          Como ponto de partida escolho a Vila Esperança, no final do Bairro São José, que tem como soleira a velha e fatigada Ponte Preta. Esperança, o último aglomerado urbano do lado oeste da cidade, tímido e calado, mostra-me um olhar de desespero frente à dura sobrevivência. Como profere Shakespeare: “Os miseráveis não têm outro remédio a não ser a esperança”.
            Os Velhos poetas sempre me põem a pensar, e nada melhor para manter a mente ativa, enquanto se caminha.  Logo me chega outro desses sábios, chamado Vitor Hugo, que arremata: “ A esperança seria a maior das forças humanas se não fosse o desespero”.  Tenho a ligeira impressão de que, caminhar e remoer escritores de outras eras, confunde a mente da gente e tento reestruturar a desordem no pensar com mais um arcaico vaticínio, escolhendo Sêneca, o Moço, que assevera: “Só não alimentarás mais o desespero quando não tiveres mais esperanças”.
           Mergulho num profundo sobressalto... Putz!!! O que será da singela vilazinha da Esperança?
          Meus pés se despedem apressadamente da prometedora vila e transponho a centenária linha férrea para pisar no chão em que outrora trilhou o profeta Vidal de Frascarolo, capuchinho do Convento da Penha no Recife. Peregrinou pelos sertões do Ceará, antes do serpentear de trilhos, exercendo uma grande autoridade no espírito popular, como lembra Luis Câmara Cascudo, a nos relatar uma de suas famosas vidências: “Intentos grandes haverão, porém, na era de 189..., antes ou depois, verás coisas mil, no mês mais vizinho de abril”. Deu nome a esta larga Avenida (Regina Viarum) traspassada em toda sua extensão por padres, santos e coronéis, mas que em mim ainda palpita e acelera meu sangue queimando mórbidas calorias. Passo ao lado de uma réplica do cruzeiro em que Frei Vidal enfincava como marca de sua passagem. Mais adiante avisto a lúbrica bodega do Valmir, o último reduto dos etilistas da cidade que, ávidos, esperam acorrentados e sem livre arbítrio, desde os primeiros raios solares. Algo me impele a passar rápido. Na próxima esquina volto a sentir o cheiro de couro curtido no ar que se irradiava da bucólica bodega de Seu Raimundo Cândido, um dos comerciantes mais honestos que o mundo já viu.
             Num piscar, passo pela Fábrica de Sonhos, o Externato, e meu coração se aperta como a querer regar o leito seco do sazonal Poti. É dolorosa essa lembrança, é intolerável essa dor de que, até recentemente, só ouvira falar. Pesaroso, sigo em frente. A Praça do Barrocão se descortina, muito diferente daquela que outrora dava guarida as rodas gigantes e aos hilariantes palhaços de memoráveis circos. A Rua Frei Vidal finda (inicia) exatamente no cruzamento com a Padre Macedo, a única rua com ardência de pimenta e que somente Seu Ferreirinha sabe o porquê, e que, segundo o dramaturgo e poeta Lourival Veras é o maior memorialista de nossa história.  Alegre diviso as Torres da Matriz, onde dois vigilantes galos recentemente batizados (Macedo e Bonfim) olham-me a advertir, pedindo que passe e bem rápido, tenho a impressão que estão ressentidos com alguma coisa.
             Sigo em passo cadenciado, numa marcha puxada pela Rua Firmino Rosa, o velho professor que veio de Teresina ensinar na distante Villa Príncipe Imperial. Vejo uma antiga fachada, como uma pétala caída, que incita um mnemônico álbum de fotografia: Toty, Magy, Dona Rosa Morais, Monsenhor Bonfim, de um velho Pio XII que ainda se conserva numa relativa aparência de felicidade.
            As forças parecem minguar nas minhas cinquentenárias pernas, é o excesso de peso, lembrando-me que preciso de um sério regime, de uma firme dieta, sem sal, sem doce e sem gorduras, o preço que se paga por uma vida de atleta, ou pelo velho sonho de ficar velho sem envelhecer, correndo atrás de uma ilusória juventude.   
            Enxergo um Centenário prédio que anuncia o nome Cratheús num oitão nascente e fico atento ao apito do trem que ainda se descortina na velha ponte de ferro, trazendo em seus vapores de óleo, exalado em fumo, o arremate para uma longa espera que se impacienta sobre a marquise da estação.
           Ultrapasso novamente a linha férrea e sigo apressado pela Av. Sto. Hermínio, um herói(?) de guerra em tempos de paz, cujo irmão caçula, um dia, barbaramente tirou a vida do   pai do Professor, Cronista, Contista e Orador Juarez Leitão que, como grande Poeta, retratou a cena daquela tragédia: “E me lembro de ti, / cavaleiro de fêmeas e de anseios,/ nas noites e nos dias da saudade / que me guardam menino espantado. / O espanto / de teus olhos me agarrando com súplica / e acenando molhados, / Na garganta o grito ensangüentado,/ no corpo /  as janelas da tragédia / escancaradas para / soltar a vida. /  E tua vida era rubra./  Eu vi.” Recordo-me de uma apropriada frase que diz que a vida é uma tragédia sombria entre dois infinitos sonos.
            Caminho um pouco mais e tenho a impressão de ver o Sr. Otávio Portela, todo de branco, atendendo alguns militares e funcionários uniformizados que esperam o ônibus do Caxitoré, rumo ao 4º Bec. Ele coloca rapidamente mais uma garrafa de café quente sobre o balcão e avisa: O café aqui, é a jato! Não é por acaso que tem a alcunha de Frei Ajato. 
             Continuo mesmo ofegante, sentindo o esforço, pensando em desistir da longa empreitada e contorno um compasso-esquadro com um G centralizado, símbolo de justa medida e de retidão maçônica em frente a uma insensível estátua de um soldado sempre de prontidão e me lembrar o poeta Manoel Bandeira: ” Não quero amar, não quero ser amado.Não quero combater, não quero ser soldado” .  Agora percorro vagarosamente a BR 404 que vai direto para a Pedra 70 de onde se tem, a tardinha, uma esplendorosa visão de um belo pôr-do-sol, que se esmorece lentamente, por trás da Serra da Ibiapaba.  
            Percorro a BR 404 e na altura da Associação Atlética do Banco do Brasil contemplo a Rua Edmundo Pinto, o exemplo de cidadão íntegro, caridoso,trabalhador  e dono da saudosa Sapataria União, mantendo ao lado uma fábrica com 30 funcionários que eram também seus compadres.  Sigo o longo estirão que me conduz ao trevo de contorno para Curral Velho após a ponte sobre o Riacho do Tourão que, como um bovídeo aquoso se avoluma pelo sertão, mostrando um temperamento bravio, até desaguar no sequioso Poti.
           Admiro a sequência de suntuosos motéis pela pista que contornam o lado leste da cidade: Manhatan, Vips, Plaza, Charme Motel, para os momentos poéticos dos nossos concidadãos. Se não fôssemos humanos, demasiadamente humanos, seriamos libidinosamente coelhos, como dizem os poetas: o amor é só uma prosa livre, mas o sexo... é pura poesia, como nos atesta Quintana: Quando duas pessoas fazem amor, não estão apenas fazendo amor, estão dando corda no relógio do mundo
            No estremo urbano da BR 404 dobro à esquerda, na Rua Gentil Falcão, e mais adiante avisto outro motel, é o 2 mil, para comprovar minha viripotente tese. No limite de minhas forças físicas passo pelo Bairro dos Patriarcas, onde reside seu Gerardo, um dos três últimos seleiros de artes e ofícios de nossa cidade. Sorvo, de cima da ponte de concreto, as paisagens de uma saudosa goela onde nosso querido Itaim é abraçado pelas milenares pedras do Curtume, e se estreita pela primeira vez como a treinar para seu deslumbrante espetáculo no famoso Cânion, logo mais adiante.
           A Cidade Nova, em adiantado desenvolvimento, me surpreende, é só argamassa, britas, cimento e tijolos em construção. O Insular Bairro da Ilha está quase independente em tudo, livre do restante da centenária cidade. Outra vez diviso o Poti e o transponho como se atravessa historicamente o Rubicão, num trecho seco chamado Rio da Dona Delite. Sei que o tempo é sempre de travessias, e se não ousarmos fazê-las ficaremos para sempre à margem de alguma jornada.  E novamente piso a Frei Vidal, bem na esquina da minha amada Fabrica de Sonho e dou por encerrado este meu longo trajeto, sentindo o corpo cansado, mas o coração feliz por saber que, mais dias ou menos dias, terei pela frente mais uma longa caminhada a percorrer.


Raimundo Candido





José Alberto de Souza disse...

Cheguei junto com você a seu destino,
acompanhei prazeiroso essa caminhada
e fui conhecendo no passo vagaroso
uma longa estirada nesses recônditos
escamoteados pela nossa indiferença
que acesa memória teima em recordar
tantos fatos, diversos personagens
surgindo nos meandros deste trajeto...
Luciano Gutembergue Bonfim Chaves disse...
Raimundo Cândido, caríssimo Raimundinho,
viva as caminhadas, viva o pau Brasil, viva os que procuram guardar, expondo, a memória da cidade. Contudo, neste contexto da introdução do artigo, não sei qual o significado da palavra legítimo poeta do Curral Velho, mas afirmo sem medo de errar que pelo menos outro poeta viveu naquela nação, não sei se reinou, mas refiro-me ao senhor Joaquim Bonfim Filho, Datim Bonfim - não por coincidência meu avô e primeiro mestre em assuntos literários e anedotas populares.
Ressalto: reconheço e considero os versos de Bastiãozinho, inclusive certa feita imprimi alguns de seus versos em forma de "cordel" e lhe presentiei, exemplares que ele distribuiu entre amigos e apreciadores de poesia.
Ressalto 2: Raimundo Cândido, reconheço e admiro o vosso trabalho, apenas não pude calar esta ressalva.
Grande abraço, do amigo
Luciano Gutembergue Bonfim Chaves.


Elias de França Disse...
Acabo de aprender uma diferença entre solidão [só vim anunciar os teus cem anos de solidão] e solitude. Talvez a primeira expressasse a denúncia do "insulamento" que nossa cidade centenária sofrera por parte dos que a deviam cuidar... ou sei lá... só os poetas o sabem. Já nesta solitude, um olhar de raio-X sobre o tempo, os espaços, as suas personagens e as subjetividades... o passado está aí, com toda sua riqueza de detalhes, sua lírica e sua poesia, mas vivemos a aprender desprezá-lo em nome da modernidade. E debalde veneramos um presente e uma promessa de futuro, na mais das vezes, carente de sentidos.
A lamentar? Só uma coisa: não estar tambem esta caminhada nos anais do nosso livro do centenário. Parabens, poeta! Por preencher de sentidos os vazios de nossa inóspita vida!
Grande abraço


Prof Albery Gomes disse...
Raimundinho!
Preciso caminhar, não apenas para perder peso, pois preciso.
Mas para descobrir todas as vias de sonhos, as ruelas do sentimento e as veredas da alma.
Caminhar...
Caminhando com você, não contemplamos apenas o tempo ou paisagens. Mas a brisa e suas façanhas, as qualidades e defeitos do ser, já na chegada concluir que a caminhada não foi em vão, entendendo que o amor é o ponto de partida em qualquer caminhada.
Friso:
amor é só uma prosa livre, mas o sexo... é pura poesia, como nos atesta Quintana: Quando duas pessoas fazem amor, não estão apenas fazendo amor, estão dando corda no relógio do mundo.
Obrigado pelo texto adorei... Parabéns é maravilhosa sua obra.
Feliz Natal! Boas festas.


Ocelio Camelo disse...
Parabéns, Raimundo, por mais essa "Linda caminhada"!!!
E parabéns Crateús, não só pelos Cem anos, mas também por ter você, Raimundinho,
que sabe revelar, com tanta maestria e essa grande essência poética, o retrato da nossa querida
Cratheús...

Epitácio Macário disse...
Puxa vida, que verve desse crateuense Raimundinho. Se não me perco nas possibilidades de conhecimento geográfico, arqueológico, antropológico dessa caminhada, enxergo o mais profundo: uma visão humana, demasiadamente humana, de um povo de uma terra de tardes escaldantes. Este é um escritor por meio de quam a própria terra fala e sua gente diz a que veio. Enriqueceu-me a forma e o conteúdo da caminhada, elevando minha personalidade. Por isso sou-lhe muitíssimo grato, caro Raimundo Cândido - professor.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Encontro das Artes


A Sociedade Amigos da Biblioteca Norberto Ferreira Filho - SABI, PC Cultura é para Todos, tem o prazer de convidar toda a população de Crateús para a abertura da exposição multiarte  Encontro das Artes ocasião em que estará mostrando os trabalhos finais dos cursos de Violão, Canto Coral e Artes Plásticas, desenvolvidos por crianças e adolescentes do município.

Local: Rua do Instituto Santa Inês, 231 - Centro
Dia: 21 de dezembro de 2011
Horas: 19:30h

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

MEMBRO DA ALC NA ABLC

A POSSE DE DIDEUS SALES NA ABLC

A Academia Brasileira de Literatura de Cordel, estará recebendo sábado dia 17 de dezembro de 2011, às 16hs, o poeta e escritor Antonio Dideus Pereira Sales que tomará posse como o mais novo membro da ABLC.
Dideus Sales ocupará a cadeira de nº 33 que tem como patrono Rodolfo Coelho Cavalcante e já foi ocupada pela saudosa Wanda Brauer.
Dideus Sales dirige e edita a revista GENTE DE AÇÃO.
Pertence a União Brasileira de Escritores, UBE-SP; Casa do poeta Lampião de Gás – SP; União Brasileira de Trovadores UBT – RJ; Sindicato dos radialistas do Ceará; Associação Cearense de Jornalistas do Interior, ACEJI.
É membro fundador da Academia de Letras de Crateús cadeira, cadeira 22 que tem como patrono Gerardo Mello Mourão.
O que diz Gilmar de Carvalho, escritor e jornalista, sobre Dideus Sales:
“Dideus continua a cantar seu canto, a encantar seus leitores com suas rimas, sua métrica,
Sua melodia, que tem o lugar para colocar as sílabas tônicas e átonas, e seu universo, que é o público-alvo que almeja e que atinge com seu cantar de aboios, com sua viola imaginária, cruzando o arco da rabeca, falando dos temas eternos, como o amor, a morte, e a terra castigada pelo sol.”
Dideus no poema Auto-Retrato, inicia com os seguintes versos:
“Pra quem não gosto não faço
Visita de Cortesia,
Não sei fingir o sorriso
Quando não tenho alegria,
Nem há em meu coração
Lugar para hipocrisia.”
Dideus com sua rica bagagem cultural, com certeza, virá para acrescentar e enriquecer o nosso quadro acadêmico.

(Dalinha Catunda)

Raimundo Candido disse...

É uma imensurável honra ter, na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, o nosso Dideus!. Parabéns não só a ele, mas a todos nós, crateuenses! Valeu grande Poeta das Gitiranas de Luz! Cada vez mais nos orgulhamos de você!

Luciano Bonfim disse...

Dideus Sales,

"Matuto do pé rachado"
Ave de arribação
"Natureza Paz e Poesia"
Remédio contra a solidão.
Arauto, mensageiro, poeta
"Das flores vivas e mortas"
Das coisas do meu sertão.
Parabéns pelo merecido reconehcimento!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

                                                  CONVITE


15 de dezembro será o lançamento da 2ª Antologia da ACE. Nesta noite de nossa confraternização natalina, será empossada a nova diretoria da ACE para o período administrativo de 15 de dezembro de 2011 a 15 de dezembro de 2013.

Repetindo o mesmo reconhecimento de presença, a ACE entregará a três dos nossos escritores que compareceram a todos nossos eventos realizados em 2011, o Diploma Associado 100%.

Reconhecendo pessoas e instituições que contribuem para a promoção da cultura e valorização da leitura e do livro em nosso Estado, a ACE homenageará com o Diploma Mérito Cultural a educadora Maria Delite Menezes Teixeira, Dom Manuel Edmilson da Cruz, Maria Cleide da Silva Ribeiro Leite, Minzenzzo Feitosa e o Abraço Literário, grupo de leituras do SESC.

Intercalando a programação dessa noite festiva, os momentos poéticos serão interpretados por Lucarocas, Academia Maria Ester de Letras e Leituras, Gevam Siqueira, finalizando com a apresentação musical do compositor Caymã. Após este cerimonial cronometrado, será servido coquetel.

Todos os participantes da 2ª Antologia, com exceção dos beneficiados com a isenção da taxa de 40,00 (quarenta) reais, receberão gratuitamente dois exemplares da Antologia.

A antologia, com 266 páginas, será vendida por 10,00 (dez) reais. Comprar mais exemplares nunca é demais.

Local: Auditório Waldir Diogo, FIEC, Av. Barão de Studart, 1980, próximo ao Carrefour, da Av. Antônio Sales.

Horário: 19h30min.

Traje: SORRISO, PAZ E ABRAÇOS.

                                                       Cordialmente

                         Haroldo Felinto                               Silas Falcão
                           Pres. de ACE                              Dir. de Evento     

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"Crateús: 100 anos", em Noite Memorável!

O Teatro Rosa Moraes e o Espaço do Quintal com Arte foram, na ultima sexta feira, dia 09 de dezembro, palco de um evento memorável: o lançamento do Livro “Crateús: 100 anos”, produzido pela Academia de Letras de Crateús, abordando a história da Cidade Centenária. Com os dois espaços completamente lotados, escritores, pesquisadores e memorialistas de varias gerações apresentaram à população um belíssimo trabalho de pesquisa histórico-antropológica sobre a Cidade de Crateús. O Evento foi prestigiado também pelo Bispo Emérito de Limoeiro do Norte Dom Edmilson Cruz e pelo Professor Cláudio Regis Quixadá, da Comissão Brasileira de Justiça e Paz da CNBB. Na ocasião foi feita a doação de um exemplar a cada Escola e Instituição Pública e Entidades Sociais.
Diante do excelente acolhimento da obra, a ALC poderá promover, nos próximos meses, o seu lançamento em Fortaleza e em outras capitais do País que abrigam “colônias” de Crateuenses.