O biógrafo Lira Neto, na acurada pesquisa que realizou sobre o escritor e político cearense José de Alencar, relata com detalhes a intimidade dos jornais com a produção literária no período imperial.
Os periódicos de uma maneira geral se constituíam no principal estuário da efervescência cultural daquelas distantes eras.
O estilo literário do cearense de Messejana, também conhecido como romance de costumes, em que se destacam livros como Diva, Lucíola e A Viuvinha, passando pelos romances regionalistas tipo O Sertanejo e O Tronco do Ipê, incursionando pelos históricos As Minas de Prata e A Guerra dos Mascates, até chegar ao mundo indianista por meio de Iracema e O Guarani, foi sempre inicialmente festejado na imprensa. Os jornais da época publicavam, em primeiríssima mão, capítulos de suas obras.
Mais do que pergaminhos noticiosos, os jornais cumpriram ao longo da história a solene missão de fornecer aos apreciadores da leitura a porção estrelada dos fonemas, o delicado perfume da crônica, o fermento sedutor da poesia.
Nesta edição o Jornal Gazeta do Centro Oeste finca o mourão dos quinze anos de existência, saúda a alegria vital e estende à retina de todos a faixa de feliz aniversário!
Há uma década e meia João Aguiar idealizou este quinzenário. Convidou amigos e autoridades, preparou uma grande festa e exibiu o recém nascido à luneta da comunidade sob paternal emoção.
Depois de algum tempo passou a tocha para César Vale, que o pôs no topo do console: é o mais longevo forno de formação e informação escrita da nossa centenária cidade. Poucos sabem ou imaginam ou têm ciência ou se dão conta de quão meticulosa ou árdua ou exigente é a tarefa de organizar um Jornal. Hercúlea função.
Sei que o seu editor às vezes encetou campanhas em que recebeu pedradas de incompreensão. Polemista arrojado, já levantou bandeiras fulgurantes, como aquelas bordadas com as cores da nossa flora, exibindo as palavras de ordem de defesa do meio ambiente. Em outros momentos, esposou posicionamentos políticos que geraram reações adversas. Não quero aqui entrar nesse terreno. Não quero por na mesa de hoje o cálice amargo ou derramar o líquido ácido, apesar de sabê-los indispensáveis ao ofício jornalístico.
Quero, em especial, reconhecer o contributo saudável. Valorizar o mérito prazeroso. Enaltecer a dignificante edificação.
O Jornal Gazeta do Centro é responsável por grande parte do banquete cultural que a cidade de Crateús hoje experimenta.
Como o periodismo dos tempos do Império, aqui tivemos a oportunidade de conhecer em primeira mão a fluência literária de bons mestres das letras.
Algumas pessoas se revelaram luminares da escrita, talentosos manejadores das palavras através da incubadora deste periódico. A cidade hoje festeja nomes que se revelaram exímios cronistas pelas colunas da Gazeta. Flávio Machado é um exemplo desse movimento de fecundidade literária.
O nosso Silogeu, a Academia de Letras de Crateús, teve seu primeiro estalo levado aos tímpanos da população por estas páginas. Quantos e quantos movimentos outros de emoção e sensibilidade, de alegria e cidadania emergiram do leito deste Jornal?
Aqui se ouviu o primeiro grito contra a algazarra, o barulho ensurdecedor, a perturbação do sossego alheio. Daqui explodiu uma luta renhida contra a poluição e em favor do equilíbrio sonoro.
Só para citar outro exemplo: quem não lembra de ter lido as garrafais letras que denunciavam a crueldade ante o tombamento injustificado de árvores centenárias? Foi por estas páginas que escorreram as primeiras lágrimas oriundas daquelas caudalosas raízes...
Por dever de justiça impõe-se que reconheçamos a dedicação obstinada, a tenacidade guerreira do editor destas páginas. Este tem sido um Jornal forjado por múltiplos colaboradores, mas que se sustenta em uma só coluna: César Vale. Sei que não raro o concreto do tempo o açoita. Espero que não o desestimule.
Nesta edição desejo, de coração, que o único veículo de comunicação local com capilaridade nacional continue a ser um elo integrador da conterraneidade. Mas que, sobretudo, sobre tudo, continue sendo um semeador de letras que fortaleçam o espírito, animem a esperança e alimentem o altruísmo humano.
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, de Crateús, Ceará)
Este é o chão sagrado da Academia de Letras de Crateús na internet. Como um templo ecumênico, nele há espaço para todos que adoram cultuar a beleza da virtude, a simplicidade da inteligência, a singeleza do verbo, o fascínio da cultura, a liberdade da palavra, a profundidade do amor.
terça-feira, 12 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Trem de Fogo
O tema me veio à baila quando
o Hilário (do latim hílare, alegre, contente, gracejador) Ferreira Azevedo — um
jovem crateuense que numa seriedade brincalhona se intitula o “PARA SEMPRE” na
página do CRATEÚS: FUTURA CAPITAL DO ESTADO mantida no Facebook — postou uma
foto com uma afirmação que comprova o adequado uso de seu nome: ”Vejam que esta
placa fala da construção do Metrô de Sobral, vamos ver quando sairá o de
Crateús!”. Comentei, reforçando sua zombaria: “Eh, eh, eh! Esperaremos PARA
SEMPRE. Esta inquietação é hilariante, Hilálio!
A brincadeira é também uma
forma de dizer a verdade e, sobretudo, revestida de uma fina ironia como um
entretenimento para o coração, a emanar de uma sensibilidade espirituosa que o
diga o pai da Capitu, o bruxo do Cosme velho, Machado de Assis.
Algumas recordações me
chegaram, inesperadamente, com a gratuita distração daquele momento. A primeira,
foi na forma de uma consequente indagação: O que seria hoje daquela pessoa que
fora batizada, inadequadamente, com o nome de Um Dois Três de Oliveira Quatro ou de
outra chamada de Naida Navinda Navolta Pereira, estariam bem resolvidas, como o
nosso querido Hilário?
A outra reminiscência foi a que me apertou,
dolorosamente, o dissolvido peito, pois não posso ouvir alguém falar em ferrovia
sem que eu viaje para uma época remota de minha infância, quando ia esperar o
trem de ferro dando sinal com um longo piuííííí quando vinha se aproximando,
sempre acolhido calorosamente pelo povo.
Nas ferrugens a corroer os vagões dos
velhos trens que por aqui ainda passam, se vão as lembranças de Titonho, um eficiente
agente da RFFSA cujo nome era Antonio Cândido, meu tio, com um sorriso sincero
e carinhoso, a cuidar de um inevitável progresso que chegava, lentamente, à
estação e nos passou o legado genético desta imensa paixão ferroviária.
Foi
uma data marcante aquele distante 12/12/12 quando o trem, pela primeira vez,
aqui chegou. A Praça da Estação até já se acostumou com o barulho dos vagões que
se acomodam uns nos outros, com inoportunos estrondos em plena madrugada e sem
atrapalhar o sono dos cidadãos que candidamente sonham. Os mais velhos contam
que bem antes da chegada do trem á cidade, um destes sertanejos, bem amatutado,
uma vez, viu um trenzinho de brinquedo num ferrorama e correu para cima com um
pau na mão, assustado e gritando: — Mata! Mata! Mata! Que esse bichinho quando
crescer vai virar um grande monstro que soltam fogo pelas ventas!
Imagino
quantas belas histórias o trem nos trouxe ou levou em seus vagões, com a
esperança atrelada na fé em busca de saúde, de uma provável cura na cidade de
Sobral ou em Fortaleza, a saudade apartada dos que iam, a expectativa dos que
vinham, o lucro dos comerciantes que trafegavam com suas mercadorias e a
alegria intraduzível daqueles que viajavam nos vagões de passageiros, o Sonho
Azul ou bebericavam indiferentes num agradável restaurante, até nos duros
bancos de madeira da 3ª Classe reinava uma satisfação imensa em correr sobre os
trilhos lisos, onde, às vezes, perigosamente brincávamos, antes do trem passar.
Incrédulos,
ouvíamos histórias de que o trem pegou uma pessoa que estava na linha ou que
por descuido alguém caiu do batente da estação, mesmo esses acidentes casuais
nunca tiraram a magia e a beleza de uma viagem de trem.
Soube,
recentemente, que um grande trem-teatro percorreu a Europa inteira, com uma parada
obrigatória em Auschwitz, para relembrar os campos de concentração e extermínio,
pois ele é um dolorido símbolo para os judeus, que iam chegando em intermináveis
vagões, na II Guerra Mundial, para última estação. Mesmo assim, meu espírito
aventureiro ainda sonha em colocar uma mochila nas costas e pegar o Trem da
Morte, em Quijarro, próximo a Corumbá, Mato Grosso do Sul, com destino à Santa
Cruz de La Sierra, na Bolívia passando pelo encantamento da cidade perdida dos
Incas, Machu Picchu, no Peru.
O
elemento mais importante da revolução industrial, que foi apelidado de Cavalo
de Aço pelos os índios americanos, sempre enfrentou as mais diversas agruras,
cruzando os locais mais desolados da Terra, desde o infinito deserto de Saara ao
vigoroso Trem Transiberiano, cortando a ofuscante brancura de gelo sobre os
trilhos, entre a Rússia, a Mongólia e a china.
Nestes cem anos em que as rodas de ferro
cruzaram os Sertões de Crateús, margeando o interino Rio Poti, edificaram-se as
mais belas histórias sobre os trilhos, muitas delas ainda por contar. Um trem
cargueiro, destes que diariamente interrompe o trânsito das ruas da cidade leva,
em media, trinta vagões tracionados por duas ou três hercúleas locomotivas,
rumo ao porto de Mucuripe ou em sentido contrario, chegando a Teresina, a
capital do Piauí.
Era
um destes grandes cargueiros com vagões lotados de combustíveis altamente
inflamáveis, óleo e gasolina, que o Marcos Goiano recebeu na missão de
conduzi-lo até Castelo, no Piauí, quando um pulmão, o revezamento no jargão
ferroviário, por lá se efetuaria. A professora Marta Áurea, sua esposa, o
acompanhava numa viagem tranquila de fim de tarde.
É um habito
dos maquinistas, em sua retilínea solidão, remoer o passado. Enquanto o trem
cortava o caminho monótono pelas caatingas do Quirino, marcos relembrava do dia
em que pedras enormes interromperam seu caminho, num desfiladeiro íngreme que
fica depois da desolada Oiticica. Tiveram um trabalho enorme de quebrar blocos
imensos de pedras para o comboio pudesse passar.
Como
cantou um poeta, os meses quentes do verão são os mais cruéis, sempre deixam um
tom acinzento pelo capim alto e seco e cheirando a pólvora, na terra morta. Uma
roda ia desencarquilhada, delineando o chão como um giz risca a lousa e a oportuna
fagulha ciscou em busca do estopim, como sempre faz. O fogo avivou rápido,
excitado, em cintilante revolta. Em poucos segundos estavam mais alto que os
dourados vagões de óleo sob uma lua cheia. Quem viu ao longe, enxergou uma
serpente de fogo correndo entre as touceiras de capim e se apresentou em socorro,
pois o rude sertanejo é predisposto nestas horas.
O
maquinista e sua esposa já tinham parado o trem, fracionado os pesados vagões e
já descarregavam todo o pó químico dos extintores nas ígneas línguas de fogo,
mas nada adiantou. Um extintor é como certos remédios, só tem eficácia na
labareda de início, se a coisa já é adiantada é trabalho de Sísifo. Melhor teriam
feito se tivessem apagado o fogo com o abundante suor que derramaram. O Corpo
de Bombeiro chegou no exato momento em que as últimas fráguas de um calor
intenso estavam sendo apagadas, com areia, pelo povo.
A
população do distrito de Ibiapaba por muito tempo comentou aquele divino
milagre, um trem de fogo que foi pacificado na areia que o povo rapidamente ia borrifando
na mata e nos abrasados vagões, todos na iminência de explodir. Mas só Deus e a
Professora Martha Áurea sabem o que representa o poder da oração. Enquanto
ajudava, desesperadamente a extinguir o fogo com as delicadas mãos de mestra,
seus lábios insaciavelmente rezavam, sem tréguas: um Padre-nosso, uma Ave-Maria
e um Glória ao Padre, oferecidos ao anjo Custódio que é o poderoso em apagar
fogo, repetia e repetia, incansavelmente, pois logo o fogo fora debelado.
E
com a avultada lua já bem alta na abobada do firmamento, o trem fora liberado para
partir, rumo a um dos seus destinos, o majestoso Castelo do Piauí: - Piuuííí!!!
Raimundo Candido
José Alberto de Souza disse:
Sabe, "Mundinho", que só andei de trem, mas trem mesmo, umas duas vezes em toda minha vida, que me deixaram recordações inolvidáveis.
Na primeira delas, vinha eu de Bagé, quando o cavalo de ferro parou na estação de Cerro Chato para o café da manhã, que me serviram na hora.
Afobado, sorvi um gole quente do café-com-leite, incendiando-me as entranhas e me traumatizando pelo resto de minha existência.
Acontece que a parada era rápida e os atendentes não tinham tempo de servir a bebida para cada passageiro, os quais já eram aguardados com as xícaras cheias dentro do forno do fogão para não esfriar...
Nirton Venancio disse...
José Alberto de Souza disse:
Sabe, "Mundinho", que só andei de trem, mas trem mesmo, umas duas vezes em toda minha vida, que me deixaram recordações inolvidáveis.
Na primeira delas, vinha eu de Bagé, quando o cavalo de ferro parou na estação de Cerro Chato para o café da manhã, que me serviram na hora.
Afobado, sorvi um gole quente do café-com-leite, incendiando-me as entranhas e me traumatizando pelo resto de minha existência.
Acontece que a parada era rápida e os atendentes não tinham tempo de servir a bebida para cada passageiro, os quais já eram aguardados com as xícaras cheias dentro do forno do fogão para não esfriar...
Nirton Venancio disse...
Caro Raimundo Candido,
gostei muito do seu texto. Os trens me dão prazerosamente um sentimento
de saudade, de nostagia, de bons momentos na infância. É um cenário da
minha vida em Crateús. Essa foto é como se eu estivesse ali. Você
também está ali, claro. Gostei da imagem poética "é um hábito dos
maquinistas, em sua retilínea solidão, remoer o passado.
Antonio Edmilson de Sousa Lopes disse ...
Eu estava neste trem.................................. o trem da saudade.
Antonio Edmilson de Sousa Lopes disse ...
Eu estava neste trem.................................. o trem da saudade.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Caçadores de Tesouros
Nunca o implacável tempo deu
um mero sinal de cansaço na função de arrastar o mundo em redemoinho voraz,
consumindo tudo, devorando a todos e deixando escassas imagens estampadas no
ar, como vulto de um passado.
Ele sempre transpassou
borrifando um ácido corrosivo na pele das coisas que se alteram,
impreterivelmente, compondo aparêcias sombreadas decorrentes de um lento
processo de metamorfose.
É quando a nossa atenção se volta para outro
rumo, para o que é mais ostentoso aos olhos, sempre sequiosos por uma novidade,
sedentos por mudanças.
E assim, as essências das
épocas caem num esquecimento impiedoso, sem data prevista para acabar. É como
se bebesse a água de um dos rios de Hades na Grécia antiga, o célebre e
lamacento Lete, que cruza a morada dos mortos com seu fluido aquoso a provocar
um demente olvidamento. A realidade
transitória das coisas, como os homens, está sujeita a esta maresia, mesmo que
esteja bem longe do mar. É necessária uma compleição forte para burlar o zelo
profano do tempo em nos repostar como poeira da eternidade, e só conseguem este
grande feito os tesouros verdadeiramente determinados, os que já deixaram em seu
pretérito a feição da imortalidade.
A estes, que brilham mesmo na
escuridão momentânea do esquecimento, o destino sempre dará um jeito para que
voltem a cintilar, fazendo com que alguns devolutos cidadãos se transformem em
caçadores de talentos perdidos, incumbindo-se da nobre missão de procurá-los: —
Oh, doce brisa do norte, avistaste algum disperso poeta por aí? Saímos a
revirar as entranhas abissais da terra, investigando nas fendas do tempo,
auscultando seu tíbio sopro e até pomo-nos a catar nos entulhos abandonados
pelos desleixados entes queridos, tudo para redescobri-los e salvá-los, e a
isso nos dispomos.
Como os três mosqueteiros de Alexandre
Dumas, Athos, Porthos e Aramis,
partimos, eu e meus intrépidos companheiros: Edmilson Providência, um
cabra bem oh xente, que veste o manto da composição poética, e o nobre
historiador Flávio Machado, rumo à aventura, numa atitude que já se tornou bem
habitual.
Havia começado “a busca”, casualmente,
numa pesquisa de campo nos distritos de Crateús para o Livro dos 100 Anos,
quando admirado soube da existência do poeta de Monte Nebo, Nelson Sabóia Barros,
nascido no sopé da Serra Grande e de lá partiu, maturado e afeito ave migrante,
para se revelar na distante cidade de Sobral, sob os olhares do poderoso Dom José
Tupinambá da Frota.
A esse, Monte Nebo com certeza lhe dará
mérito, e louvará a sua gloria como se deve exaltar a um filho querido que
transporta nos ombros e nos versos a história de seu lugar.
Era como se levássemos uma quartinha
com as águas do rio Mnemósine, a contraparte do Lete, e ao chegarmos no Curral
Velho dos Bonfim aspergimos a água benta da memória e pululou poetas de todo
canto, como se estivessem em sortilégio por muito tempo e agora vicejam e
versejam ao vento. O Curral Velho é um grande celeiro de poetas. Só tivemos que
separar direitinho, com ajuda do vate Dideus Sales, o enganoso joio do
essencial trigo.
O
Bastiãozinho, debaixo de uma velha casa alpendrada, observava-nos com um olhar
penetrante e com certeza já sabia o que fazíamos por ali, pois nada disse e
nada perguntou. Devia refletir sobre o destino de outro vate, seu amigo, que
fora morar na cidade aos cuidados da família, o ativo e falante Datim Bonfim
que gosta de recitar: “Tem quatro coisas no mundo/ Que faz eu trocer o camim/ Uma rodia de cascavel/ Uma briga de guaxinim/ Dos bebos do
Curral Velho/ Ser morador dos Bonfim”.
O poeta Junior Bonfim, essência e pó do
extremado nectário do Curral Velho, foi quem nos lembrou, no Livro do
Centenário: “Foi um fidalgo das letras que teve a graça de alcançar os píncaros
da glória!”. E saímos à procura dele - José
Coriolano de Souza Lima, o Príncipe dos Poetas - um grande crateuense.
O pesquisador incansável, inquiridor
metódico, um perfeito historiógrafo, Flávio Machado, liga-me dizendo que no
Livro “Meus Avos” de Raimundo Raul Correia Lima, na página 247, poderia encontrar os dados exatos do poeta.
E vi entre as páginas amareladas deste
livro, que conta a história da família correia Lima, a grande festa em
homenagem ao vate crateuense.
A missa solene, no dia 30 de novembro
de 1947, um ensolarado domingo, já havia acabado e o Pe. José Maria Moreira do
Bonfim abençoou a lápide em que se encontram os restos mortais do poeta, quando
todos foram convidados a se dirigir ao largo, no lado esquerdo da matriz, onde
um pano encobria, como surpresa, um monumento.
O
prefeito, Dr. Afonso de Almeida Vale, depois de descerrar o busto revelando um
rosto fino sob um cabelo ondulado, o nariz afilado e um brônzeo olhar de poeta
perscrutador, foi primeiro a falar. Advogado, de palavra fácil, exímio orador,
encantou a plateia que se aglomeravam em círculo apurando a audição para
ouvi-lo melhor. O doutor aproveitou a ocasião e mostrou seus dotes de excelente
declamador, recitando o poema Crateús: “..... terra, onde a alvorada/ Primeira
pra mim raiou!/ Onde a primeira morada/ Meu pai querido assentou! // Onde o
galo, à madrugada/ Cantando me despertou!/ Onde à primeira alvorada/ Ouvi-lhe o
có-corô-cô!”
Uma
salva de palmas ecoou infundindo inveja aos badalos dos sinos que assistiam do
alto das duas torres da matriz. Os vereadores presentes, Leônidas Bezerra de
Melo, Chico Gomes, Tobias Soares Resende entre outros, olhavam
sentindo vontade de ter sido deles aquele momento de exaltação ao digníssimo
poeta. Encerrada a festa, todos se dirigiram a suas casas, buscando repousar
para mais uma semana de trabalho.
A
quem afirme que a vida é uma lousa e o destino quando quer escrever um novo
caso precisa apagar o anterior, só para confirmar que esquecer é uma necessidade. Mas
isso é para as lembranças imediatas e passageiras. O que se viveu
intensamente nas cordas do coração, não se pode desprezar; as pegadas marcadas
na alma são indestrutíveis.
Mas
o implacável tempo que nunca deu um mero sinal de cansaço na função de arrastar
o mundo em redemoinho voraz, fez o busto sumir, desaparecendo, levando até a
lembrança do poeta.
Dizem
que a família o retirou pelo descaso e abandono com que se encontrava em plena
praça, comprovando que a ingratidão tem memória curta.
Foi quando os três mosqueteiros, como uma
infalível cavalaria, entraram em ação numa descomedida busca pelo torso do
poeta. Conjecturava-se: — Um busto tão pesado não pode ter saído a
andar por ai, ou criado asas imitando a imaginação de poeta Coriolano! Por fim,
alguém afirmou: — Tenho certeza de que o busto foi derretido! Uma tristeza enorme
apossou-se dos animados caçadores de poetas, deixando-os em desalento profundo
e, com olha incrédulo, perguntávamos ao vazio: — Como pode um líquido brônzeo que
representa nossa poesia, escoar pelo ralo da ingratidão e desaparecer nas
coxias da ignorância?
Como Aramis, um racionalista,
detalhista e corajoso, o poeta Edmilson Lopes logo arranjou novas soluções e
mobilizou a família inteira do poeta, espalhada pelos lugares por onde ele palmilhou
o seu encantamento e seu valor. Premedita-se uma nova festa como aquela do
domingo batido de sol, no ano 47, quando um novo busto resplandecerá na Praça
José Coriolano, provando que o coração do poeta ainda pulsa e sua mente ainda
vive.
E sinto-me um pouco o Athos,
desacreditado e desiludido com os tristes fatos da vida, mas já mandei fazer
uma roupa nova, como aquela de primoroso brim que minha mãe sempre me
presenteava no natal para ir à praça. Tomara que na festa do retorno do Poeta
José Coriolano, tenha o saboroso bolo de milho e o delicioso aluá feito com
água do memorável Poti, para reviver alguns momentos felicidade. E antes que me
esqueça, meu(minha) querido(a) amigo(a), você também está convidado.
Raimundo Candido
Antonio Edmilson de Sousa Lopes disse...
Caro amigo Raimundo, confesso que fiquei sensibilizado com seu texto, você conseguiu passar uma emoção muito grande e um desejo de cada vez mais mergulhar neste resgate cultural que , sem dúvidas, vai ser de grande importância pra nossa cidade e com certeza vai abrir a possibilidade de muitos outros resgates. Parabéns.
José Alberto de Souza disse...
Antonio Edmilson de Sousa Lopes disse...
Caro amigo Raimundo, confesso que fiquei sensibilizado com seu texto, você conseguiu passar uma emoção muito grande e um desejo de cada vez mais mergulhar neste resgate cultural que , sem dúvidas, vai ser de grande importância pra nossa cidade e com certeza vai abrir a possibilidade de muitos outros resgates. Parabéns.
José Alberto de Souza disse...
terça-feira, 29 de maio de 2012
SOBRE CALMA E PACIÊNCIA
Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.
Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama.
Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.
Desapontados pelo fato do mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram:
- "Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?"
- "Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?" - perguntou o Samurai.
"A quem tentou entregá-lo" - respondeu um dos discípulos.
"O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos" - disse o mestre."Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de você. As pessoas não podem lhe tirar a calma, só se você permitir..."
A autoria da estória ou História acima me é desconhecida. No entanto, a reflexão que suscita é inquestionável. Ela saltou na prateleira da minha memória quando vi reações irascíveis em redes sociais a colocações que fiz no espaço deste periódico.
Primeiro quero pontuar que considero a internet uma das mais extraordinárias criações da moenda humana. É inimaginável como seria o complexo das relações entre as pessoas, ante os desafios das modernas gerações, se não existisse essa aldeia virtual que nos coloca de mãos dadas sob a mesma tenda global.
Porém, esse instrumento fantástico de massificação da produção científica, esse fascinante armazém do conhecimento acumulado, essa fonte inesgotável de recursos – que deveria ser a ecumênica e sagrada montanha da fraternidade universal – ás vezes é transformado em uma verdadeira arena grega. Internautas viram gladiadores. Transformam-se em ferozes animais. Substituem a sociabilidade pela selvageria. Ao invés do debate, optam pelo deboche. No lugar da racional discussão, preferem a irracional agressão. Devemos procurar nos abster de dar reflexo a esse tipo de postura.
É nessas horas que vejo mais nitidamente a relevância da calma e da paciência. Calma e paciência! Ou... paciência e calma! Palavras que se completam.
A calma, que nasceu do Latim tardio (vejam a coincidência!), vem de cauma, “o calor do meio-dia (quando tudo fica quieto)”. Ou, do Grego kauma, “calor (principalmente o do sol)”, de kaiein, “queimar”.
Por sua vez, a palavra paciência –do Latim patientia, “resistência, paciência”, do verbo pati, “agüentar, sofrer”, derivada de addurare, oudurare, “durar, resistir, perseverar”, alterando-se depois o sentido para“suportar, agüentar”. E, aqui, vale lembrar que agüentar vem do Italiano agguantare, “segurar firme”.
No grego bíblico a paciência é conhecida como makrothumia, traduzida como “tardio em vinganças incorretas”. É uma palavra composta, consistindo em makros (longo ou grande) e thumia (temperamento). Assim, literalmente significa ter um "fusível longo" ao contrário de ser curto/rápido, temperamental. Daí o motivo de chamarmos as pessoas explosivas e que têm dificuldade de regular as próprias emoções de “pavio curto”...
Quando a intolerância bate à nossa porta, devemos aguentar firme, resistir, pois devolver de bate pronto é fácil. Deixar saltar o nosso urso interior é simples. Difícil, complexo, exigente e delicado é domar os ímpetos, resistir à imprudência, manter longo o fusível dos sentimentos.
Certamente foi nessa esteira que o duque de La Rochefoucauld elaborou o pensamento de que “a moderação das pessoas felizes deriva da calma que a boa fortuna dá ao seu temperamento”.
Paciência e calma. A paciência – ou o ato de suportar as adversidades e aguentar firme ante os solavancos da existência - pode ser vista como a ciência da paz; a calma – essa quietude que é produto da queima das gorduras temperamentais - é viver em concordância com a alma.
William Shakespeare dizia que “as águas correm mansamente onde o leito é mais profundo”. Ao contrário do que sugere a superfície do mundo, os calmos e pacientes são muito mais profundos!
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
terça-feira, 22 de maio de 2012
SR.VERSO
Por Silas Falcão, no IV Seminário Revelando a Literatura Cearense realizado no teatro Emiliano Queiroz – SESC -, nos dias 21-22/05.
Ele não está na mídia. Permanece distante das festas literárias. Ele prefere a reclusão, a “solidão” de sua biblioteca, redescobrindo novas artes de cantar a vida, de elevar a alma. Poetas assim não formam uma população no universo literário. Francisco Carvalho, fala mansa, timidez assumida, faz questão de se manter afastado das igrejinhas literárias, das noites de autógrafos em clubes sociais e, em silêncio, realiza uma das mais sólidas obras poéticas do nosso país. Atentem para essas declarações do próprio poeta: “não faço questão de aparecer; a timidez faz parte de minha personalidade, sempre assumi uma posição mais reservada. Tenho certo pudor, certa preocupação de não me envolver com grupos; no meio literário há muitas vaidades”. Francisco Carvalho, mantendo-se à margem da confraria do elogio mútuo, não soma lenhas na grande fogueira das vaidades.
Com a publicação de um folheto de cordel sobre a seca no Ceará, Francisco Carvalho se inicia na poesia. Os anos eram 0 décimo quinto da sua existência. Esse cordel ressoava a influência dos cantadores de viola, cantadores ambulantes. Era natural que assim ele começasse.
Em minhas pesquisas/leituras para evoluir esta biografia afetiva do poeta da simplicidade grandiosa, assentei nestas páginas uma entrevista de 9 de abril de 1988, quando lhe é perguntado qual o papel da poesia: “é um instrumento de paz e solidariedade entre as pessoas. Assim como você ouve música para se apaziguar, você lê poesia. É sempre um instrumento de enriquecimento. Quando leio um grande poema sinto uma alegria interior inexplicável. A poesia deve emocionar. E se alguém se emociona lendo um bom texto, então está justificada a poesia”. E Francisco Carvalho emociona com sua produção poética, pela qual manifesta sua preocupação com a realidade social e a possibilidade de sua transformação. Ele poetiza as suas inquietudes metafísicas, a família, a terra, o amor, as mazelas sociais e a sua infância permanente, de quem declara “ser a pátria dos poetas, a matriz das nossas sensações, dos nossos alumbramentos, da nossa magia”.
Poeta de fôlego montanhoso, Francisco Carvalho transforma um acontecimento aparentemente corriqueiro ou um simples objeto em pura poesia, como se observa em MESA DE JACARANDÁ:
Nesta mesa de jacarandá
Já houve muita paz
O vinho já acendeu corações
Taças já entoaram
seus cânticos de cristais”.
Justificando a mesa deste poema, o poeta explica: “Éramos pobres, modestos agricultores. Nossa mesa era de imburana. Madeira comum no Nordeste brasileiro. Jacarandá, madeira nobre, só existe na Amazônia e em outras regiões privilegiadas. A mesa de jacarandá do poema vai por conta da imaginação poética. Afinal de contas, o sonho é a matéria-prima da poesia”.
Em 1939, ano da morte do seu pai, Francisco Carvalho, nascido em Russas em 11 de junho de 1927, após realizar estudos iniciais no Ateneu São Bernardo, de Russas, busca em Fortaleza outras imagens, inéditos burburinhos e espaços mais vivos se contrapondo aos clichês do cotidiano urbano da sua cidade natal, trazendo definitivamente para estas terras de Iracema, um poeta adolescente querendo se expandir, se aperfeiçoar, conquistar a sua singularidade poética através dos seus recursos verbais, pois como afirmou Mallarmé: “Não é com ideia que se faz versos, mas com palavras”.
Certa vez, falando sobre as origens da sua construção poética, Francisco Carvalho declarou: “Sem indignação não se produz boa literatura. Ninguém escreve de bem com a vida, com lugar no céu”. Na multidão poética que compõe a obra de Francisco Carvalho, existem épocas dolorosas, como as registradas em VERSOS AO PAI, quando este agonizou seis meses antecendentes a sua morte:
Volto a ser o menino que segurava o teu braço
pelas ruas de uma cidade vazia.
Só a manada dos ventos dialogava com
as aldravas que restaram de antigos invernos
e ríspidos estios de pássaros e nuvens
que se acasalavam no ar.
À morte, essa grandeza tenebrosa
com sua grinalda de espanto na cabeça,
já se desenhava em teu corpo
com suas teias de escárnio e seu odor de matéria que se decompõe
ao gargalhar das mortalhas dançarinas.
Expulsando-se da gargalhada das mortalhas dançarinas, o poeta pulveriza na sua escritura poética a esperança em uma nova estrutura espiritual para o homem, manifestada na poesia CANTO PARA A DIMENSÃO DO HOMEM.
Um homem é o que se atira à posse das estrelas
por serem do alto e puras.
O que se identifica pela chama
do seu amor às outras criaturas.
Um homem é o que acende a sua brasa
para aquecer o sono do vizinho.
O que põe o seu olho à escuta
da oculta beleza que mora no mundo.
Este é o canto do poeta preocupado com a grandeza humanística das pessoas.
Filho de Clicério Leite de Carvalho e Maria Helena de Carvalho, Francisco Carvalho é um poeta que assume o papel de ser o interlocutor, o intérprete dos nossos anseios, dos nossos descontentamentos, das nossas fragilidades também simbolizadas na figura dos heróis. Necessitando manifestar a nulidade dos heróis, o poeta escreveu
NÓS, NÓS NÃO TEMOS HERÓIS:
Nós, nós não temos heróis
nem jamais os tivemos.
Afinal, para que servem os heróis e suas estátuas de granito ou mármore negro, seus cavalos de bronze, suas medalhas barrocas e as espadas que não passam de metáforas?
Para que servem os heróis se o ácido da chuva desdenha da glória dos homens e nem os pássaros se importam com eles?
Para que servem os heróis se o ácido da chuva desdenha da glória dos homens e nem os pássaros se importam com eles?
Para que servem os heróis se nem sabem quem somos nem jamais ouviram falar dos nossos mitos e utopias?
Infeliz do país que necessita de heróis
Na página literária d’O Povo de 27 de abril de 1987, encontrei a belíssima e trepidante poesia ROSA DA PEDRA:
Vi uma rosa nascer da pedra
Beleza ardente
Como a de um ser soprado pela boca de um deus
Vi uma rosa nascer da pedra
Pisada pela multidão
Uma rosa irrigada pelo sangue da síntese
Vi uma rosa nascer da pedra
Tamanha vida
Tamanho o impulso de ressurreição.
Na manhã do segundo domingo deste santo mês das mães, empunhando uma longa cerveja nevada, eu escutava atentamente João Cabral de Mello Neto declarar n’O curso do poeta, vídeo do distante ano de 1973: “Não pretendo fazer poesia lisa, macia como um carro deslizando no asfalto regular. Quero fazer uma poesia trepidante, de estrada de carroçal que faz o passageiro tremer aos solavancos. Quero fazer uma poesia que crie catarse”. A poética, com ritmo e planejamento, de Francisco Carvalho nos impõe seguidos solavancos a nossa alma.
No dia 24 de abril de 2012, o poeta Batista de Lima, cronista semanal do DN, publicou a II parte do ensaio A Pastoral Poética de Francisco de Carvalho, onde afirma: “Mesmo que esse filho de Russas pregue que seus poemas são menores e que todos morrerão consigo, não será morte com enterro final. Cada leitor disputará a alça desse esquife em busca de um sepultamento que nunca ocorrerá”. Retorno a outra leitura que fiz no jornal O Povo de 6 de março de 1964, em que uma nota do editorial anuncia: “Não faz muito tempo, o poeta Francisco Carvalho surpreendeu os meios literários cearenses com uma grave decisão de abandonar, em caráter definitivo, as suas atividades literárias. E apresentava uma estranha justificativa, com a qual não concordaram quantos conhecem a sua poesia. Disse que chega a conclusão de que realiza uma obra medíocre”.
Mas não foi assim que pensou a crítica literária nacional em 1982, quando o livro Quadrante Solar venceu o I Prêmio Nestlé de Literatura. Nem quando, em 1997, com Girassóis de Barro, Francisco Carvalho obteve o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Outro reconhecimento cearense foi o seu ingresso na Academia Cearense de Letras, onde ocupa a cadeira 31.
As angústias velhas e novas, os acontecimentos corriqueiros, as saudades intermitentes do pai, dos sobrados e casarões de sua terra. Outros calendários do passado como a recordação do tempo em que o adolescente Francisco Carvalho trabalhava numa bodega de subúrbio poluído e melancólico desta capital, fato este que motivou a crônica O poeta e a bodega, de 6 de março de 1962, do jornalista Deusdete de Sousa. Houve outras bodegas em que Francisco Carvalho amarga experiência de garçom num restaurante noturno da periferia da cidade, onde o dono era míope e tocava violino fanhoso que maltratava a alma do poeta, que recebia de salário apenas um bilhete azul e alguns conselhos para melhor ser sucedido na vida. Não posso esquecer nesta biografia a atitude humanista do então Magnífico Reitor Antonio Martins Filho resgatando o poeta de uma esquelética empresa comercial e levando-o para assessorá-lo na reitoria da UFC, onde permaneceu por trinta e nove anos. Todos esses fatos e outras memórias voluntárias e involuntárias que não fogem das raízes do poeta Francisco Carvalho, e tantos outros passados pesquisados/lidos por mim em livros e ausentes desta biografia por determinação do tempo para cada palestrante deste Seminário, são responsáveis pela construção de um longo e qualificado projeto literário iniciado em 1942 e dedicado inteiramente a poesia nas suas mais diversas formas de expressão.
Distribuo para vossos ouvidos a leitura que fiz em um texto do acadêmico Junior Bonfim, de um fato na vida do poeta Olavo Bilac. O dono de um pequeno comércio, amigo do poeta, abordou-o na rua: - Bilac, estou precisando vender o meu sítio, que você tão bem conhece. Poderá redigir o anúncio para o jornal? Olavo Bilac escreveu: "Vende-se uma encantadora propriedade, onde os pássaros cantam ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalinas e mareantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda." Meses depois se reencontraram. O poeta perguntou se o amigo havia vendido o sítio. “- Nem pense mais nisso. Quando li o anúncio foi que percebi a maravilha que tinha”.
Eis a função do poeta: revelar a beleza escondida nas coisas, nos lugares e nas pessoas!
Para Francisco Carvalho a poesia é a sua pele.
“Encerro” esta biografia afetiva intitulada Sr. Verso, com o depoimento de outro titã da nossa literatura, o saudoso José Alcides Pinto: “A poesia de Francisco Carvalho é patrimônio da humanidade. No entanto, esta humanidade vive em débito com o poeta Francisco Carvalho”.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Dia 21 de maio (segunda-feira)
Abertura - Sr. Luiz Gastão Bittencourt da Silva, Presidente do Sistema Fecomércio
Biografia Afetiva: O Sr. Verso - Silas Falcão (Escritor, pesquisador da obra literária de Milton Dias, Diretor de Eventos da Associação Cearense dos Escritores (ACE), Membro da Academia de Letras de Crateús (ALC) e do Abraço Literário, do SESC.
A Pastoral Poética de Francisco Carvalho - Batista de Lima (Escritor, membro da Academia Cearense de Letras (ACL), Professor da UECE e da UNIFOR, Mestre em Literatura pela UFC).
Momento Poético - Grupo Converso
Dia 22 de maio (terça-feira)
Abertura – Ana Néo (cerimonialista)
Os Diálogos Poéticos de Francisco Carvalho – Carlos Vazconcelos (Escritor, graduado em Letras pela UECE, Mestrando em Literatura pela UFC, Membro da Ceia Literária, do Abraço Literário e da Associação Cearense dos Escritores (ACE)
Esquete: A Ciência não gosta de rir – Airton Soares e Eudismar Mendes
Momento Poético - Ricardo Guilherme
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Enquanto a original era exposta ao público, guardava-se a sete chaves a réplica.
Deu no que deu, quando a mesma desapareceu bem diante de nossos olhos, sabe-se lá se foi derretida ou não.
Por via das dúvidas, ainda guardo uma garrafa de cachaça no formato "Campeã do Mundo"...