terça-feira, 26 de junho de 2012

PITACOS SOBRE A CIDADE



Amanheci com vontade de dar pitacos. Diversamente do que muitos possam imaginar, pitaco não é um palpite sem fundamento. É uma opinião. Em se tratando da coisa pública, ou sobre os rumos de uma cidade, a opinião pode ser emitida independente de solicitação.

Obviamente, estou pensando em uma urbe específica, mas pode servir para outras.

Dirijo estas palavras aos que se lançam à nobre tarefa de interpretar sonhos: os candidatos. Sim, candidato a cargo eletivo, representante do povo, líder popular não é senão um intérprete de sonhos, dos sonhos da coletividade.

Enquanto escrevo me vem à mente um personagem bíblico do Antigo Testamento: José, o filho de Jacó e Raquel, que ficou para a posteridade como José do Egito. Certamente um emblema em se tratando de revelação da essência daquilo que é só aparência.

Uma noite, o Faraó sonhou. Naquele transe onírico viu que sete vacas magras comiam sete vacas gordas e mesmo assim continuavam magras. Em busca de uma explicação, convocou todos os sacerdotes do Egito. Nenhum conseguiu. Apenas José, que estava preso, ofereceu uma interpretação convincente ao Faraó: o Egito passaria por sete anos de fartura e sete anos de seca, consecutivos.

Empolgado com a sua desenvoltura, o Faraó presenteia José com um anel de seu próprio dedo e o nomeia Adon do Egito, um cargo de expressão, tipo chanceler ou governador.

José, então, ordena que se construam celeiros para guardar a produção do Egito durante os anos de fartura. Nos sete anos de seca, José passou a vender os cereais dos celeiros reais a preço de ouro e conseguiu comprar para o Faraó quase a totalidade das terras do Alto Egito. O nome José significa “aquele que acrescenta”.

Bem representa os seus concidadãos aquele que, além de interpretar os signos das aspirações populares, se lhes acrescenta alguma coisa. E age. Semeia. Planta. Cuida. Colhe. E reparte. Como lembra Thiago de Mello, “é sonhar, mas cavalgando/ o sonho e inventando o chão/ para o sonho florescer”.

A primeira tarefa de um líder, preferencialmente um prefeito, é despertar a coletividade do seu município para a alteração cultural. Mudar a forma de raciocínio, transformar os nossos esquemas mentais. Libertarmo-nos dos grilhões que acorrentam a massa encefálica. A diferença que separa um município pobre de um rico, ou um estado ou um país, não é a idade, muito menos a quantidade de recursos naturais. A Índia é um país milenar e possui uma pobreza vultosa e aviltante. A Nova Zelândia é novíssima. E riquíssima também. A Suíça não produz um grão de cacau, mas vende o melhor chocolate do mundo.

Estudiosos revelam: a fronteira que separa países ricos e pobres se resume à observância de algumas formas de conduta essenciais: 1. A ética como principio básico. 2. A integridade. 3. A responsabilidade. 4. O respeito às leis. 5. O respeito pelos direitos dos demais cidadãos. 6. O amor pelo trabalho. 7. O esforço para economizar e investir. 8. O desejo de superar. 9. A pontualidade.

A ética pode ser resumida em tratarmos os outros como desejamos ser tratados. Para isso, basta nos colocarmos no lugar do outro. Será que eu gostaria de ser tratado como estou tratando um servidor, um contribuinte, um cidadão comum? Estou sendo íntegro, responsável, respeitador das leis e dos direitos alheios?

Valorizo o amor ao trabalho ou premio apenas o meu grupo independente do mérito dos que o compõem? Combato a mendicância e o clientelismo? Priorizo projetos que incentivam a independência financeira? Ao invés de festejar a quantidade de pessoas recebendo bolsa-família, deveríamos comemorar sua diminuição. Quanto mais pessoas deixassem os programas de transferência de renda e adquirissem sua própria renda por meio de empreendimentos montados e gerenciados por elas, melhor. (Outro dia um amigo me perguntou: - Você já viu um japonês pedindo esmola?Não, respondi. Ele completou: - Pois é porque eles desenvolveram a cultura do trabalho, essencial para o progresso.)

Se uma Prefeitura deliberar para gastar menos do que arrecada e for pontual no cumprimento dos compromissos já eliminará mais da metade dos seus problemas. O resto se resolve com o firme propósito da permanente superação.

Entendo que a campanha política é o espaço para se divulgar ideias; não intrigas. Planejar o futuro; não propagar futricas. Dissecar projetos; não denegrir pessoas. Sonho com isso. E esse sonho, convenhamos, de tão nítido dispensa interpretações.
Júnior Bonfim

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Utopia Cabocla




Fazer amigos é um atributo indispensável a todo ser humano. É uma tendência própria que depende unicamente do caráter e do temperamento de cada um. Alguns já nascem com um manual embutido na pele e fazem amizades instintivamente, pela água, pela terra e pelo ar.
O Luiz Bonfim – um esclarecido e erudito cidadão de vida boa – pertence a essa espécie, e não passa muito tempo sem regar suas afeições e suas estimas, mesmo quando um companheiro querido já foi recompensado com o merecido descanso da fatigante faina terrestre. Veio da cidade de Fortaleza, com inoportuna urgência, prestar as últimas homenagens ao amigo e colega aposentado do Banco do Brasil, Francisco de Matos Melo, a quem chamavam de capelão, pela atenção e imensa cordialidade com que atendia às pessoas, indistintamente.
Nos momentos tristes de um funeral, em que se velam as últimas horas de um falecido com o pesar familiar e as cordiais despedidas dos amigos, uma melancolia desabrocha nas almas ali presentes, trazendo à tona as mais diversas recordações da vida que se transmutou em outra enigmática vida.
Acompanhávamos, na marcha penosa, o cortejo fúnebre relembrando o exemplar servidor que representava a figura emblemática do “Matos”, pensando que o País seria bem mais “Brasil” se houvessem muitos, como ele, empenhados com denodo, dentro das repartições públicas.
Um clarão nos surgiu rápido, quando passamos em frente ao Externato N. S de Fátima, na Frei Vidal, relembrando um inusitado encontro revestido de mistério, quando o profeta capuchinho Frei Vidal, o Pe. Juvêncio, o ilustríssimo Dom Fragoso e o bondoso Alfredinho vieram ao encontro deste propenso poeta para confabular e alertar sobre alguns sigilos, mas nada muito sobrenatural.
O séquito, após a encomenda do corpo na Igreja da Matriz, atravessa a Praça José Coriolano e desce o “Beco do Seu Raimundo Bezerra”, na Rua Carlos Rolim, rumo à última morada, o acolhedor cemitério São Miguel. O triste repique do sino, em despedida, me fez recordar um singelo verso de minha larva: “E na memória do Sino / plena em presságio, / cabem todas as almas / dos desvanecidos corpos.” Já ao pé do túmulo, alguém se pronúncia florejando os atos de um benfeitor e a confirmar a benquerença ao amigo que parte.
Em voz baixa, confidencio: – Amigo Luiz, este momento de despedida me lembra o discurso de Marcos Antonio no funeral de Júlio Cesar “Amigos, romanos, meus concidadãos, deem-me ouvidos. Vim para enterrar César, não para louvá-lo. O bem que se faz é enterrado com os nossos ossos, que seja assim com César.” O Luiz, um espírito perspicaz, já refletia sobre outra observação que lhe incidia sobre o olhar, perplexo:
– Raimundo, observe aonde o amigo Matos vai ser enterrado! É o túmulo do Luiz de Araujo Melo, o sogro, conhecido como Luiz Mano. E me testando, pergunta: – Você sabe quem foi ele?
Já tinha algumas referências sobre aquele crateuense que fora Diretor da Escola Técnica de Comércio e o orador oficial da primeira turma de contadores em 1948, época em que formatura, além de requerer uma grande festa, era um ritual de passagem para uma vida digna de trabalho e responsabilidades, familiar e social. Sabia que tinha sido um homem honrado e bondoso e que ajudava até os carreteiros do mercado, quando para estes, trabalho não havia. Soube que a sua morte, por um apêndice supurado, causou uma enorme comoção na cidade, abalo igual só na morte do Dr. Olavo Cardoso, pois eram cidadãos amados pelo povo.
O rejuvenescido Gravatinha, carinhosa alcunha do Bonfim, professoralmente continua na sua explanação sobre o Luiz Mano, um cidadão que Cratéus não podia e nem deve esquecer.
            – Professor Raimundinho, fora essas informações que você já sabe, o Luiz Mano foi um ativo vereador de nossa cidade, numa época de UDNs, PSDs, curais eleitorais, votos comprados, políticos vendidos e outros vis crimes eleitorais. Ele exercia sua atividade política com consciência, com a mais limpa honestidade, voltada para uma benfazeja cidadania. Era simpatizante de um socialismo inofensivo e sentimental, que podemos até chamar de utopia cabocla. Na época, pelo rádio, se ouvia falar nas greves dos trabalhadores, lá em São Paulo, em luta por melhores salários, por uma vida digna e melhor, citavam as convenções de um Partido que conclamava a batalha pela reforma agrária, à luta pelo “Petróleo é Nosso”, pela concentração de esforços contra o imperialismo americano. Por aqui, em 1943, onde até a Câmara Municipal vivia momentos conturbados, pois havia duas assembleias constituintes, uma verdadeira e outra falsa, dividindo os vereadores, uma terrível mão invisível chegou. A perigosa concepção de um senador iaque, Mccarthy, para combater e perseguir todos aqueles que tivessem alguma relação com o comunismo de um mundo bipolar, era uma imperceptível garra feroz e destruidora, que por aqui também sobreveio. Uma simples imagem na alma de um povo ignorante e ingênuo logo vira um fato concreto, e num instante os comunistas estavam em todo canto, devorando criancinhas. Os soldados aliciados para uma guerra invisível são os piores soldados, não sabem por que lutam, por que matam ou morrem! As unhas afiadas do mecartismo ganhavam adeptos. E o Luiz continua a falar, se empolgando cada vez mais, como se revivesse aqueles instantes:
– Aquele foi um momento perigoso, Raimundo! O Luiz Mano tramou um comício, planejou uma assembléia popular, na Praça da Estação, e convidou seus inúmeros amigos e os muitos simpatizantes de suas ideias, já que nem a câmara municipal se entendia. Mas, às vezes, entre os amigos existe a dissimulação, e o fingimento correu a gritar nos ouvidos da incivil estupidez. 
O zelo mais excessivo do capitalismo achava-se alojado na igreja, encoberto, inconscientemente, pelas batinas. O diligente Pe. Bonfim, já não se entendia bem com o professor Luiz Mano, um sujeito de ideias estranhas e chegado a esse comunismo de Karl Marx que ousava afirmar: “A religião é o ópio do povo”. Com uma propícia ajuda, convocou a milícia de Sobral, que chega disfarçada no intuito de impedir a abertura de uma Loja Maçônica, o braço direito do diabo, a filial do império das trevas, como dizia a igreja católica na época. E logo na véspera da chegada da Santa Peregrina, acontecer esse primeiro comício de esquerda nos Sertões de Crateús, era inadmissível.
– O comício já iniciara quando, de repente, chega o Pe. Bonfim, colérico, conduzindo a polícia e uma multidão de fieis, todos propensos a uma guerra santa: “Viemos, em nome de Deus, acabar essa pouca vergonha, de quem não tem fé e quer enganar o povo, com esse comunismo diabólico que veio para destruir a religião e a democracia.”
– Raimundo, não houve um tiro. Somente o trabalhador Luiz Mano, em serena calma, enfrentou as chispas e os raios desferidos pelo Pe. Bonfim. Como um cidadão íntegro pediu para que os correligionários fossem para casa, evitando prisões e derramamentos de sangue, mas consciente de que, aquela ira toda não vinha da voz de um sacerdote ali presente, e sim das garras do capitalismo ganancioso que ganhava vida e voz, e vencia mais uma batalha, mas não a guerra.
A cerimônia fúnebre chegará ao fim, e fiquei a imaginar que o lacre que colocaram naquela lápide não encerrou uma vida, como disse Marcos Antonio no funeral de Júlio Cesar, o bem que se faz não é enterrado com os nossos ossos, ele fica como um exemplo para outras vidas que merecem ser vividas com denodo e coragem de um heróico Luiz Mano ou como a obsequiosa humildade de um prestativo Matos Melo.
Despeço-me do amigo Luiz, que resolve voltar para seus urgentes afazeres na capital e sigo no caminho de casa a cantarolar, involuntariamente, a bela música utopia, do cantor e agente pastoral Zé Vicente (Quando o dia da paz renascer / Quando o Sol da esperança brilhar / Eu vou cantar // Vai ser tão bonito se ouvir a canção / Cantada de novo / no olhar da gente a certeza de irmãos / reinado do povo) fascinado com aquela história de um herói real e crateuense que pretendo mostrar para meus filhos, que sonham com os imaginários guerreiros de uma distante literatura.

Raimundo Candido
José Alberto de Souza disse...
Suas crônicas, seus artigos, transpiram transcendência. É impressionante como você consegue fixar no espaço e no tempo um fato banal através de reminiscências que não deixam de interessar a quem quer que seja, tal a sua capacidade de prender atenção e conquistar o leitor pela sua invejável cultura e escrita fluente e moderna.
Karla Gomes disse...
Ei, Raimundo!
Quando me contou no sábado a história do Sr. Luiz Mano fiquei imaginando como você iria fazer pra colocar todas aquelas informações no papel. Com simetria de matemático, perspicácia de cronista e sensibilidade de poeta conseguiste mais uma vez contar uma bela história

quinta-feira, 21 de junho de 2012

DA ARTE DE DOMAR JUMENTOS



 Sim, senhor
Eu sabia da neve de Salzeburgo
Nos cumes da Ibiapaba
Quando eu era menos que um Mozart Infante
Tirando um acorde de Asa Branca
Do piano do peito mirrado.

Talvez porque colecionasse selos austríacos
Em Crateús
Como meu pai colecionava selas
Arreios
Arroubos
Estribos
&Esporas.

Anus mangavam da margem
Que a areia do Poty era a arena

Meu pai não me ensinou a domar o asno
Nem o asco ou a asma
Só o medo de errar, de cair.

E quando eu parti
já não mais aprendiz mas doublê com louvor e distinção
Ele sorriu com a certeza de ter feito a sua parte
O seu melhor.
(Chico Pascoal, Professor Universitário, poeta crateuense premiadíssimo, residente em São Paulo)
 
Chico Miguel ( Da Academia Piauiense de Letras cujo patrono é o poeta José Coriolano) disse...
Bom poema, gostei
http://ranciscomigueldemoura.blogspot.com
Por favor visite meu blog

terça-feira, 19 de junho de 2012

SESC
                                             Unidade
Crato

                             RESULTADO DO IV CONCURSO DE CONTOS

                                                 OS DEZ GANHADORES:     
Lorena Kelly Alves Pereira.  Natural de Acopiara.  Conto: AS PUPILAS DE SAFO      
João Silas Falcão Soares.  Natural de Crateús.  Conto: A PASTA AZUL      
Francisco Alves Rocha.  Natural de Crato.  Conto: O CARRASCO      
Sibéria de Menezes Carvalho.  Natural de Juazeiro do Norte.  Conto: IRRETOCÁVEL      
Paula Izabela de Alcântara Alves. Natural de Juazeiro do Norte. Conto: PROFUNDAMENTE
Ricardo da Costa Campos.  Natural de Juazeiro do Norte.  Conto: SEU DÉ      
Cícero Eduardo de Matos Cassiano. Natural de Juazeiro do Norte. Conto: O TESTAMENTO      
Raphael Barros Alves.  Natural de Fortaleza. Conto: BOCA SUJA OU O ESCRITOR DE GUARDANAPO      
Geórgia Gardênia Brito Cavalcante.  Natural de Fortaleza. Conto: CATEDRAL      
Nataly Pinho Chaves.  Natural de Fortaleza. Conto: RAMIREZ     

                                         Comissão julgadora:
Francisco de Freitas Leite- Professor Doutorando em Linguística
Maria Lúcia de Souza Agra- Professora Mestre em Literatura Brasileira
Paulo Henrique Rodrigues de Souza - Jornalista 

Organização:
Ana Cristina Dias Borges
Assistente de Biblioteca

Karla Gomes disse: Quarta-feira, 20 Junho, 2012

Silas Falcão!

Parabéns!!!!!!!!

Elias de França disse...
Caro Silas Falcão, nossas congratulações pelo talento e o reconhecimento em outras Terras. Seu prêmio premia também a cidade de Crateús e é orgulho para todos nós. Grande Abraço!

terça-feira, 12 de junho de 2012

15 ANOS DA GAZETA

O biógrafo Lira Neto, na acurada pesquisa que realizou sobre o escritor e político cearense José de Alencar, relata com detalhes a intimidade dos jornais com a produção literária no período imperial.

Os periódicos de uma maneira geral se constituíam no principal estuário da efervescência cultural daquelas distantes eras.

O estilo literário do cearense de Messejana, também conhecido como romance de costumes, em que se destacam livros como Diva, Lucíola e A Viuvinha, passando pelos romances regionalistas tipo O Sertanejo e O Tronco do Ipê, incursionando pelos históricos As Minas de Prata e A Guerra dos Mascates, até chegar ao mundo indianista por meio de Iracema e O Guarani, foi sempre inicialmente festejado na imprensa. Os jornais da época publicavam, em primeiríssima mão, capítulos de suas obras.

Mais do que pergaminhos noticiosos, os jornais cumpriram ao longo da história a solene missão de fornecer aos apreciadores da leitura a porção estrelada dos fonemas, o delicado perfume da crônica, o fermento sedutor da poesia.

Nesta edição o Jornal Gazeta do Centro Oeste finca o mourão dos quinze anos de existência, saúda a alegria vital e estende à retina de todos a faixa de feliz aniversário!

Há uma década e meia João Aguiar idealizou este quinzenário. Convidou amigos e autoridades, preparou uma grande festa e exibiu o recém nascido à luneta da comunidade sob paternal emoção.

Depois de algum tempo passou a tocha para César Vale, que o pôs no topo do console: é o mais longevo forno de formação e informação escrita da nossa centenária cidade. Poucos sabem ou imaginam ou têm ciência ou se dão conta de quão meticulosa ou árdua ou exigente é a tarefa de organizar um Jornal. Hercúlea função.

Sei que o seu editor às vezes encetou campanhas em que recebeu pedradas de incompreensão. Polemista arrojado, já levantou bandeiras fulgurantes, como aquelas bordadas com as cores da nossa flora, exibindo as palavras de ordem de defesa do meio ambiente. Em outros momentos, esposou posicionamentos políticos que geraram reações adversas. Não quero aqui entrar nesse terreno. Não quero por na mesa de hoje o cálice amargo ou derramar o líquido ácido, apesar de sabê-los indispensáveis ao ofício jornalístico.

Quero, em especial, reconhecer o contributo saudável. Valorizar o mérito prazeroso. Enaltecer a dignificante edificação.

O Jornal Gazeta do Centro é responsável por grande parte do banquete cultural que a cidade de Crateús hoje experimenta.

Como o periodismo dos tempos do Império, aqui tivemos a oportunidade de conhecer em primeira mão a fluência literária de bons mestres das letras.

Algumas pessoas se revelaram luminares da escrita, talentosos manejadores das palavras através da incubadora deste periódico. A cidade hoje festeja nomes que se revelaram exímios cronistas pelas colunas da Gazeta. Flávio Machado é um exemplo desse movimento de fecundidade literária.

O nosso Silogeu, a Academia de Letras de Crateús, teve seu primeiro estalo levado aos tímpanos da população por estas páginas. Quantos e quantos movimentos outros de emoção e sensibilidade, de alegria e cidadania emergiram do leito deste Jornal?

Aqui se ouviu o primeiro grito contra a algazarra, o barulho ensurdecedor, a perturbação do sossego alheio. Daqui explodiu uma luta renhida contra a poluição e em favor do equilíbrio sonoro.

Só para citar outro exemplo: quem não lembra de ter lido as garrafais letras que denunciavam a crueldade ante o tombamento injustificado de árvores centenárias? Foi por estas páginas que escorreram as primeiras lágrimas oriundas daquelas caudalosas raízes...

Por dever de justiça impõe-se que reconheçamos a dedicação obstinada, a tenacidade guerreira do editor destas páginas. Este tem sido um Jornal forjado por múltiplos colaboradores, mas que se sustenta em uma só coluna: César Vale. Sei que não raro o concreto do tempo o açoita. Espero que não o desestimule.

Nesta edição desejo, de coração, que o único veículo de comunicação local com capilaridade nacional continue a ser um elo integrador da conterraneidade. Mas que, sobretudo, sobre tudo, continue sendo um semeador de letras que fortaleçam o espírito, animem a esperança e alimentem o altruísmo humano. 

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, de Crateús, Ceará)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Trem de Fogo




O tema me veio à baila quando o Hilário (do latim hílare, alegre, contente, gracejador) Ferreira Azevedo — um jovem crateuense que numa seriedade brincalhona se intitula o “PARA SEMPRE” na página do CRATEÚS: FUTURA CAPITAL DO ESTADO mantida no Facebook — postou uma foto com uma afirmação que comprova o adequado uso de seu nome: ”Vejam que esta placa fala da construção do Metrô de Sobral, vamos ver quando sairá o de Crateús!”. Comentei, reforçando sua zombaria: “Eh, eh, eh! Esperaremos PARA SEMPRE. Esta inquietação é hilariante, Hilálio!
A brincadeira é também uma forma de dizer a verdade e, sobretudo, revestida de uma fina ironia como um entretenimento para o coração, a emanar de uma sensibilidade espirituosa que o diga o pai da Capitu, o bruxo do Cosme velho, Machado de Assis.
Algumas recordações me chegaram, inesperadamente, com a gratuita distração daquele momento. A primeira, foi na forma de uma consequente indagação: O que seria hoje daquela pessoa que fora batizada, inadequadamente, com o nome de Um Dois Três de Oliveira Quatro ou de outra chamada de Naida Navinda Navolta Pereira, estariam bem resolvidas, como o nosso querido Hilário?
A outra reminiscência foi a que me apertou, dolorosamente, o dissolvido peito, pois não posso ouvir alguém falar em ferrovia sem que eu viaje para uma época remota de minha infância, quando ia esperar o trem de ferro dando sinal com um longo piuííííí quando vinha se aproximando, sempre acolhido calorosamente pelo povo.  
Nas ferrugens a corroer os vagões dos velhos trens que por aqui ainda passam, se vão as lembranças de Titonho, um eficiente agente da RFFSA cujo nome era Antonio Cândido, meu tio, com um sorriso sincero e carinhoso, a cuidar de um inevitável progresso que chegava, lentamente, à estação e nos passou o legado genético desta imensa paixão ferroviária.
                Foi uma data marcante aquele distante 12/12/12 quando o trem, pela primeira vez, aqui chegou. A Praça da Estação até já se acostumou com o barulho dos vagões que se acomodam uns nos outros, com inoportunos estrondos em plena madrugada e sem atrapalhar o sono dos cidadãos que candidamente sonham. Os mais velhos contam que bem antes da chegada do trem á cidade, um destes sertanejos, bem amatutado, uma vez, viu um trenzinho de brinquedo num ferrorama e correu para cima com um pau na mão, assustado e gritando: — Mata! Mata! Mata! Que esse bichinho quando crescer vai virar um grande monstro que soltam fogo pelas ventas!
                Imagino quantas belas histórias o trem nos trouxe ou levou em seus vagões, com a esperança atrelada na fé em busca de saúde, de uma provável cura na cidade de Sobral ou em Fortaleza, a saudade apartada dos que iam, a expectativa dos que vinham, o lucro dos comerciantes que trafegavam com suas mercadorias e a alegria intraduzível daqueles que viajavam nos vagões de passageiros, o Sonho Azul ou bebericavam indiferentes num agradável restaurante, até nos duros bancos de madeira da 3ª Classe reinava uma satisfação imensa em correr sobre os trilhos lisos, onde, às vezes, perigosamente brincávamos, antes do trem passar.
                Incrédulos, ouvíamos histórias de que o trem pegou uma pessoa que estava na linha ou que por descuido alguém caiu do batente da estação, mesmo esses acidentes casuais nunca tiraram a magia e a beleza de uma viagem de trem.
                Soube, recentemente, que um grande trem-teatro percorreu a Europa inteira, com uma parada obrigatória em Auschwitz, para relembrar os campos de concentração e extermínio, pois ele é um dolorido símbolo para os judeus, que iam chegando em intermináveis vagões, na II Guerra Mundial, para última estação. Mesmo assim, meu espírito aventureiro ainda sonha em colocar uma mochila nas costas e pegar o Trem da Morte, em Quijarro, próximo a Corumbá, Mato Grosso do Sul, com destino à Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia passando pelo encantamento da cidade perdida dos Incas, Machu Picchu, no Peru.
                O elemento mais importante da revolução industrial, que foi apelidado de Cavalo de Aço pelos os índios americanos, sempre enfrentou as mais diversas agruras, cruzando os locais mais desolados da Terra, desde o infinito deserto de Saara ao vigoroso Trem Transiberiano, cortando a ofuscante brancura de gelo sobre os trilhos, entre a Rússia, a Mongólia e a china.
                 Nestes cem anos em que as rodas de ferro cruzaram os Sertões de Crateús, margeando o interino Rio Poti, edificaram-se as mais belas histórias sobre os trilhos, muitas delas ainda por contar. Um trem cargueiro, destes que diariamente interrompe o trânsito das ruas da cidade leva, em media, trinta vagões tracionados por duas ou três hercúleas locomotivas, rumo ao porto de Mucuripe ou em sentido contrario, chegando a Teresina, a capital do Piauí.
                Era um destes grandes cargueiros com vagões lotados de combustíveis altamente inflamáveis, óleo e gasolina, que o Marcos Goiano recebeu na missão de conduzi-lo até Castelo, no Piauí, quando um pulmão, o revezamento no jargão ferroviário, por lá se efetuaria. A professora Marta Áurea, sua esposa, o acompanhava numa viagem tranquila de fim de tarde.
                É um habito dos maquinistas, em sua retilínea solidão, remoer o passado. Enquanto o trem cortava o caminho monótono pelas caatingas do Quirino, marcos relembrava do dia em que pedras enormes interromperam seu caminho, num desfiladeiro íngreme que fica depois da desolada Oiticica. Tiveram um trabalho enorme de quebrar blocos imensos de pedras para o comboio pudesse passar.
                Como cantou um poeta, os meses quentes do verão são os mais cruéis, sempre deixam um tom acinzento pelo capim alto e seco e cheirando a pólvora, na terra morta. Uma roda ia desencarquilhada, delineando o chão como um giz risca a lousa e a oportuna fagulha ciscou em busca do estopim, como sempre faz. O fogo avivou rápido, excitado, em cintilante revolta. Em poucos segundos estavam mais alto que os dourados vagões de óleo sob uma lua cheia. Quem viu ao longe, enxergou uma serpente de fogo correndo entre as touceiras de capim e se apresentou em socorro, pois o rude sertanejo é predisposto nestas horas.
O maquinista e sua esposa já tinham parado o trem, fracionado os pesados vagões e já descarregavam todo o pó químico dos extintores nas ígneas línguas de fogo, mas nada adiantou. Um extintor é como certos remédios, só tem eficácia na labareda de início, se a coisa já é adiantada é trabalho de Sísifo. Melhor teriam feito se tivessem apagado o fogo com o abundante suor que derramaram. O Corpo de Bombeiro chegou no exato momento em que as últimas fráguas de um calor intenso estavam sendo apagadas, com areia, pelo povo.
A população do distrito de Ibiapaba por muito tempo comentou aquele divino milagre, um trem de fogo que foi pacificado na areia que o povo rapidamente ia borrifando na mata e nos abrasados vagões, todos na iminência de explodir. Mas só Deus e a Professora Martha Áurea sabem o que representa o poder da oração. Enquanto ajudava, desesperadamente a extinguir o fogo com as delicadas mãos de mestra, seus lábios insaciavelmente rezavam, sem tréguas: um Padre-nosso, uma Ave-Maria e um Glória ao Padre, oferecidos ao anjo Custódio que é o poderoso em apagar fogo, repetia e repetia, incansavelmente, pois logo o fogo fora debelado.
E com a avultada lua já bem alta na abobada do firmamento, o trem fora liberado para partir, rumo a um dos seus destinos, o majestoso Castelo do Piauí: - Piuuííí!!!

Raimundo Candido

José Alberto de Souza disse:
Sabe, "Mundinho", que só andei de trem, mas trem mesmo, umas duas vezes em toda minha vida, que me deixaram recordações inolvidáveis.
Na primeira delas, vinha eu de Bagé, quando o cavalo de ferro parou na estação de Cerro Chato para o café da manhã, que me serviram na hora.
Afobado, sorvi um gole quente do café-com-leite, incendiando-me as entranhas e me traumatizando pelo resto de minha existência.
Acontece que a parada era rápida e os atendentes não tinham tempo de servir a bebida para cada passageiro, os quais já eram aguardados com as xícaras cheias dentro do forno do fogão para não esfriar...

           Nirton Venancio disse...
Caro  Raimundo Candido, gostei muito do seu texto. Os trens me dão prazerosamente um sentimento de saudade, de nostagia, de bons momentos na infância. É um cenário da minha vida em Crateús. Essa foto é como se eu estivesse ali. Você também está ali, claro. Gostei da imagem poética "é um hábito dos maquinistas, em sua retilínea solidão, remoer o passado.

Antonio Edmilson de Sousa Lopes disse ...
Eu estava neste trem.................................. o trem da saudade.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Caçadores de Tesouros




Nunca o implacável tempo deu um mero sinal de cansaço na função de arrastar o mundo em redemoinho voraz, consumindo tudo, devorando a todos e deixando escassas imagens estampadas no ar, como vulto de um passado.
Ele sempre transpassou borrifando um ácido corrosivo na pele das coisas que se alteram, impreterivelmente, compondo aparêcias sombreadas decorrentes de um lento processo de metamorfose.
 É quando a nossa atenção se volta para outro rumo, para o que é mais ostentoso aos olhos, sempre sequiosos por uma novidade, sedentos por mudanças.
E assim, as essências das épocas caem num esquecimento impiedoso, sem data prevista para acabar. É como se bebesse a água de um dos rios de Hades na Grécia antiga, o célebre e lamacento Lete, que cruza a morada dos mortos com seu fluido aquoso a provocar um demente olvidamento.  A realidade transitória das coisas, como os homens, está sujeita a esta maresia, mesmo que esteja bem longe do mar. É necessária uma compleição forte para burlar o zelo profano do tempo em nos repostar como poeira da eternidade, e só conseguem este grande feito os tesouros verdadeiramente determinados, os que já deixaram em seu pretérito a feição da imortalidade.
A estes, que brilham mesmo na escuridão momentânea do esquecimento, o destino sempre dará um jeito para que voltem a cintilar, fazendo com que alguns devolutos cidadãos se transformem em caçadores de talentos perdidos, incumbindo-se da nobre missão de procurá-los: — Oh, doce brisa do norte, avistaste algum disperso poeta por aí? Saímos a revirar as entranhas abissais da terra, investigando nas fendas do tempo, auscultando seu tíbio sopro e até pomo-nos a catar nos entulhos abandonados pelos desleixados entes queridos, tudo para redescobri-los e salvá-los, e a isso nos dispomos.
Como os três mosqueteiros de Alexandre Dumas, Athos, Porthos e Aramis, partimos, eu e meus intrépidos companheiros: Edmilson Providência, um cabra bem oh xente, que veste o manto da composição poética, e o nobre historiador Flávio Machado, rumo à aventura, numa atitude que já se tornou bem habitual.
Havia começado “a busca”, casualmente, numa pesquisa de campo nos distritos de Crateús para o Livro dos 100 Anos, quando admirado soube da existência do poeta de Monte Nebo, Nelson Sabóia Barros, nascido no sopé da Serra Grande e de lá partiu, maturado e afeito ave migrante, para se revelar na distante cidade de Sobral, sob os olhares do poderoso Dom José Tupinambá da Frota.
 A esse, Monte Nebo com certeza lhe dará mérito, e louvará a sua gloria como se deve exaltar a um filho querido que transporta nos ombros e nos versos a história de seu lugar.
Era como se levássemos uma quartinha com as águas do rio Mnemósine, a contraparte do Lete, e ao chegarmos no Curral Velho dos Bonfim aspergimos a água benta da memória e pululou poetas de todo canto, como se estivessem em sortilégio por muito tempo e agora vicejam e versejam ao vento. O Curral Velho é um grande celeiro de poetas. Só tivemos que separar direitinho, com ajuda do vate Dideus Sales, o enganoso joio do essencial trigo.
O Bastiãozinho, debaixo de uma velha casa alpendrada, observava-nos com um olhar penetrante e com certeza já sabia o que fazíamos por ali, pois nada disse e nada perguntou. Devia refletir sobre o destino de outro vate, seu amigo, que fora morar na cidade aos cuidados da família, o ativo e falante Datim Bonfim que gosta de recitar: “Tem quatro coisas no mundo/ Que faz eu trocer o camim/ Uma rodia de cascavel/ Uma briga de guaxinim/ Dos bebos do Curral Velho/ Ser morador dos Bonfim”.
 O poeta Junior Bonfim, essência e pó do extremado nectário do Curral Velho, foi quem nos lembrou, no Livro do Centenário: “Foi um fidalgo das letras que teve a graça de alcançar os píncaros da glória!”. E saímos à procura dele - José Coriolano de Souza Lima, o Príncipe dos Poetas - um grande crateuense.
O pesquisador incansável, inquiridor metódico, um perfeito historiógrafo, Flávio Machado, liga-me dizendo que no Livro “Meus Avos” de Raimundo Raul Correia Lima, na página 247,  poderia encontrar os dados exatos do poeta.
E vi entre as páginas amareladas deste livro, que conta a história da família correia Lima, a grande festa em homenagem ao vate crateuense.
A missa solene, no dia 30 de novembro de 1947, um ensolarado domingo, já havia acabado e o Pe. José Maria Moreira do Bonfim abençoou a lápide em que se encontram os restos mortais do poeta, quando todos foram convidados a se dirigir ao largo, no lado esquerdo da matriz, onde um pano encobria, como surpresa, um monumento.
O prefeito, Dr. Afonso de Almeida Vale, depois de descerrar o busto revelando um rosto fino sob um cabelo ondulado, o nariz afilado e um brônzeo olhar de poeta perscrutador, foi primeiro a falar. Advogado, de palavra fácil, exímio orador, encantou a plateia que se aglomeravam em círculo apurando a audição para ouvi-lo melhor. O doutor aproveitou a ocasião e mostrou seus dotes de excelente declamador, recitando o poema Crateús: “..... terra, onde a alvorada/ Primeira pra mim raiou!/ Onde a primeira morada/ Meu pai querido assentou! // Onde o galo, à madrugada/ Cantando me despertou!/ Onde à primeira alvorada/ Ouvi-lhe o có-corô-cô!”
Uma salva de palmas ecoou infundindo inveja aos badalos dos sinos que assistiam do alto das duas torres da matriz. Os vereadores presentes, Leônidas Bezerra de Melo, Chico Gomes, Tobias Soares Resende entre outros, olhavam sentindo vontade de ter sido deles aquele momento de exaltação ao digníssimo poeta. Encerrada a festa, todos se dirigiram a suas casas, buscando repousar para mais uma semana de trabalho.
A quem afirme que a vida é uma lousa e o destino quando quer escrever um novo caso precisa apagar o anterior, só para confirmar que esquecer é uma necessidade. Mas isso é  para as lembranças imediatas e passageiras. O que se viveu intensamente nas cordas do coração, não se pode desprezar; as pegadas marcadas na alma são indestrutíveis.
Mas o implacável tempo que nunca deu um mero sinal de cansaço na função de arrastar o mundo em redemoinho voraz, fez o busto sumir, desaparecendo, levando até a lembrança do poeta.
                Dizem que a família o retirou pelo descaso e abandono com que se encontrava em plena praça, comprovando que a ingratidão tem memória curta.
Foi quando os três mosqueteiros, como uma infalível cavalaria, entraram em ação numa descomedida busca pelo torso do poeta. Conjecturava-se: — Um busto tão pesado não pode ter saído a andar por ai, ou criado asas imitando a imaginação de poeta Coriolano! Por fim, alguém afirmou: — Tenho certeza de que o busto foi derretido! Uma tristeza enorme apossou-se dos animados caçadores de poetas, deixando-os em desalento profundo e, com olha incrédulo, perguntávamos ao vazio: — Como pode um líquido brônzeo que representa nossa poesia, escoar pelo ralo da ingratidão e desaparecer nas coxias da ignorância?
Como Aramis, um racionalista, detalhista e corajoso, o poeta Edmilson Lopes logo arranjou novas soluções e mobilizou a família inteira do poeta, espalhada pelos lugares por onde ele palmilhou o seu encantamento e seu valor. Premedita-se uma nova festa como aquela do domingo batido de sol, no ano 47, quando um novo busto resplandecerá na Praça José Coriolano, provando que o coração do poeta ainda pulsa e sua mente ainda vive.
E sinto-me um pouco o Athos, desacreditado e desiludido com os tristes fatos da vida, mas já mandei fazer uma roupa nova, como aquela de primoroso brim que minha mãe sempre me presenteava no natal para ir à praça. Tomara que na festa do retorno do Poeta José Coriolano, tenha o saboroso bolo de milho e o delicioso aluá feito com água do memorável Poti, para reviver alguns momentos felicidade. E antes que me esqueça, meu(minha) querido(a) amigo(a), você também está convidado.

Raimundo Candido

Antonio Edmilson de Sousa Lopes  disse...
Caro amigo Raimundo,  confesso que fiquei sensibilizado com seu texto, você conseguiu passar uma emoção muito grande e um desejo de cada vez mais mergulhar neste resgate cultural que , sem dúvidas,  vai ser de grande importância pra nossa cidade e com certeza vai abrir a possibilidade de muitos outros resgates.    Parabéns.

José Alberto de Souza disse...
Lembra aquela história da Taça Jules Rimet, conquistada em definitivo pelo Brasil em 1970.
Enquanto a original era exposta ao público, guardava-se a sete chaves a réplica.
Deu no que deu, quando a mesma desapareceu bem diante de nossos olhos, sabe-se lá se foi derretida ou não.
Por via das dúvidas, ainda guardo uma garrafa de cachaça no formato "Campeã do Mundo"...

terça-feira, 29 de maio de 2012

SOBRE CALMA E PACIÊNCIA



Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário. 

Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama. 

Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se. 

Desapontados pelo fato do mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram: 

"Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?" 

"Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?" - perguntou o Samurai. 

"A quem tentou entregá-lo" - respondeu um dos discípulos. 

"O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos" - disse o mestre."Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de você. As pessoas não podem lhe tirar a calma, só se você permitir..." 

A autoria da estória ou História acima me é desconhecida. No entanto, a reflexão que suscita é inquestionável. Ela saltou na prateleira da minha memória quando vi reações irascíveis em redes sociais a colocações que fiz no espaço deste periódico.

Primeiro quero pontuar que considero a internet uma das mais extraordinárias criações da moenda humana. É inimaginável como seria o complexo das relações entre as pessoas, ante os desafios das modernas gerações, se não existisse essa aldeia virtual que nos coloca de mãos dadas sob a mesma tenda global. 

Porém, esse instrumento fantástico de massificação da produção científica, esse fascinante armazém do conhecimento acumulado, essa fonte inesgotável de recursos – que deveria ser a ecumênica e sagrada montanha da fraternidade universal – ás vezes é transformado em uma verdadeira arena grega. Internautas viram gladiadores. Transformam-se em ferozes animais. Substituem a sociabilidade pela selvageria. Ao invés do debate, optam pelo deboche. No lugar da racional discussão, preferem a irracional agressão. Devemos procurar nos abster de dar reflexo a esse tipo de postura. 

É nessas horas que vejo mais nitidamente a relevância da calma e da paciência. Calma e paciência! Ou... paciência e calma! Palavras que se completam. 

A calma, que nasceu do Latim tardio (vejam a coincidência!), vem de cauma“o calor do meio-dia (quando tudo fica quieto)”. Ou, do Grego kauma“calor (principalmente o do sol)”, de kaiein“queimar”.

Por sua vez, a palavra paciência –do Latim patientia“resistência, paciência”, do verbo pati“agüentar, sofrer”, derivada de addurare, oudurare“durar, resistir, perseverar”, alterando-se depois o sentido para“suportar, agüentar”. E, aqui, vale lembrar que agüentar vem do Italiano agguantare“segurar firme”.

No grego bíblico a paciência é conhecida como makrothumia, traduzida como “tardio em vinganças incorretas”. É uma palavra composta, consistindo em makros (longo ou grande) e thumia (temperamento). Assim, literalmente significa ter um "fusível longo" ao contrário de ser curto/rápido, temperamental. Daí o motivo de chamarmos as pessoas explosivas e que têm dificuldade de regular as próprias emoções de “pavio curto”...

Quando a intolerância bate à nossa porta, devemos aguentar firme, resistir, pois devolver de bate pronto é fácil. Deixar saltar o nosso urso interior é simples. Difícil, complexo, exigente e delicado é domar os ímpetos, resistir à imprudência, manter longo o fusível dos sentimentos. 

Certamente foi nessa esteira que o duque de La Rochefoucauld elaborou o pensamento de que “a moderação das pessoas felizes deriva da calma que a boa fortuna dá ao seu temperamento”.

Paciência e calma. A paciência – ou o ato de suportar as adversidades e aguentar firme ante os solavancos da existência - pode ser vista como a ciência da paz; a calma – essa quietude que é produto da queima das gorduras temperamentais - é viver em concordância com a alma. 

William Shakespeare dizia que “as águas correm mansamente onde o leito é mais profundo”. Ao contrário do que sugere a superfície do mundo, os calmos e pacientes são muito mais profundos!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)