Este é o chão sagrado da Academia de Letras de Crateús na internet. Como um templo ecumênico, nele há espaço para todos que adoram cultuar a beleza da virtude, a simplicidade da inteligência, a singeleza do verbo, o fascínio da cultura, a liberdade da palavra, a profundidade do amor.
num envolvente ar de graça! O preito ao Geraldo Mello Mourão irmana-nos a um ipuerense cidadão.
E não mais que de repente,
afrontando toda aquela gente, indaga-nos, num ímpeto novo: - Cadê o Coriolano, meu povo?
Notara um abandono injusto,
aonde antes havia um busto, que mostra-se, flor despetalada de uma memória abandonada!
Uma cepa daqueles antigos Mourões,
irados nos descampados dos sertões brigando à ferro, implacável teimosia, isentou a estirpe no ritmo da poesia.
Época de um romantismo intenso,
veia poética fluindo tal rio imenso de um Gonçalves Dias a cantarolar, e o telúrico Coriolano a acompanhar.
Tempo de Castro Alves bradando nos ares
para que se fechem as portas dos mares é o momento do poeta das águas do Poti deixar seus primores, para mim e para ti.
Crateús, uma singela vila, Príncipe Imperial
e nosso vate magistral, um lírico cordial com versos suaves, sem um traço brusco a celebrar amores e endeusar o Touro Fusco.
Chega-nos com tanta beleza, tanto sentimento
as imagens revestidas de fé e luz, que num
alento de êxtase sorvemos, inebriados e agradecidos o consistente vinho tinto de Impressões e
Gemidos.
Raimundo Candido José Alberto de Souza disse ...
Escreve-se para quê? Para o além? Será que ainda precisam ser esquecidos
Para que sejam descobertos também Entre tantos raros livros perdidos
O CRONISTA
Após
escrever uma longa crônica, ele percebeu formigas andando pelas entrelinhas do
texto.
Por estas horas (09:40) a acadêmica Maria da Conceição (Nega) está lançando seu livro: Terra Minha, Terra Sua, na III Feira do Livro Infantil de Fortaleza!
Veja programação de hoje:
Manhã
8h30min - Contação de histórias com Júlia Barros (CE), no palco principal.
9h20min - Contação de histórias/oficina para crianças, no espaço Baú de Leitura/Coelce.
9h20min - Contação de histórias/ oficina para crianças, no espaço Endesa Fortaleza Criança.
9h20min - Roda de Leitura, no espaço Agentes de Leitura.
9h20min - Contação de histórias com Cláudia Garcia (RJ), no espaço CCBNB. 9h30min - Lançamento do Livro Terra Minha, Terra Sua da escritora Maria da Conceição Martins (CE), Ilustrações de Miguel de Paula (CE), Academia de Letras de Crateús. 10h - Palestra para professores e Lançamento do Livro Um dia de cada vez, de Marta Martins (SC), Editora Cuca Fresca.
12h - Lançamento dos Livros O preço da liberdade, de Rouxinol do Rinaré (CE) que será apresentado por alunos das escolas do Eusébio e Sete contos de Maria, do poeta Antônio Francisco (RN) que recitará seus poemas de cordel, Editora IMEPH.
José Coriolano de Souza Lima – o primeiro poeta crateuense a cantar as alvoradas iluminadas dos Sertões de Crateús. Estudou com o Poeta dos Escravos, Castro Alves, na Faculdade de Direito do Recife – Estamos lhe devendo uma estátua na Praça da Matriz! ( Os políticos, se lembrarão disso?)
A Poesia Quem é que veste de fragrantes flores O verde campo que o matiz iria? Quem é que pinta-o sem pincel e cores? - A poesia!
Quem é que torna d’esmeralda os mares? Quem é que a noite faz melhor que o dia? Quem nos consola dos cruéis azares? - A poesia!
Quem nos cantores que no ar passeiam Nota primores, divinal magia, Quando seus hinos matinais gorjeiam? - A poesia!
Quem cisma e geme, se do frágil ramo Viu a rolinha que a cismar gemia? Quem ama os infelizes como eu amo? - A poesia!
Quem descortina num olhar modesto, Que o chão afaga quase todo um dia, A maior prova de um amor honesto? - A poesia!
Quem d’entre os lábios da consorte amante Perscruta o sonho que o Senhor lhe envia Co’o fido esposo – no sorrir tão crente? - A poesia!
Quem sonda o seio de u’a mãe zelosa E afetos nota que só ela cria? Pois quem suspira, se ela está chorosa? - A poesia!
Quem no sorriso da gentil criança Descobre augúrios que ninguém sabia? Quem vê sorrindo, lh’acenar a esp’rança? - A poesia!
Quem neste peito me afervora o sangue? Depois quem fá-lo estremecer que esfria? Quem robustece-o, quem o torna exangue? - A poesia!
E quem o mundo num balanço brando Qual ama terna que o infante cria, Meigo embalança como quê ninando? - A poesia!
Harpa saudosa, que harmoniza o mundo, Íris formoso que no céu radia, Sentir sublime de um pensar profundo, - És - poesia! José Coriolano Recife, 1856 Caro Raimundo Cândido
Ivens Mourão disse...
Caro Raimundo Cândido
Obrigado pela luta para recuperar o poeta José Coriolano.
Toda poesia dele é pura inspiração.
Somente um esclarecimento. Ele e Castro Alves estudaram na mesma Faculdade. Já estava formado quando Castro Alves foi aluno. Como ele era muito admirado pelos professores, acredito que o grande Castro Alves deve ter tido conhecimento das suas poesias, pois chegaram a ser publicadas em jornais do Recife. Por isso, imagino um estudo para saber se o Coriolano influenciou-o nas poesias abolicionistas.
Um crepúsculo
vespertino se despedia, impregnado de um aviso imperceptível, aspergindo um sofrimento
silencioso, característica das tardes lacrimosas. O lúgubre entardecer ia, lentamente,
se dissipando entre a neblina do álcool misturada com fumaça cinzenta de
cigarros, tangido por uma emotiva música que sondava o vazio impreenchível dos
pertinazes corações a suplicar as ilusões de amores efêmeros.
E a noite desce
no final da Rua Dr. João Tomé, como um manso presságio a ensombrar as alegrias,
cumprir as tristezas, despertar os sonhos e ativar os remorsos.
A animação na
Casa de Maroca já se clareava, desde os últimos raios do dia.
Na vitrola o LP de Roberto Muller entoa,
harmonicamente, “Entre espumas” para deleite de um opulento comerciante, que
chegara mais cedo para ter o prazer de beber, dançar e sonhar com Pretinha, uma
jovem e circunspecta morena, de riso entristecido, mas bem contornada nas
linhas femininas a provocar desejos dos frequentadores daquele singelo lupanar:
“Uma noite sentou-se a minha mesa / E entre tragos lhe dei todo o meu amor/
Transcorreram só duas semanas / Como em sonho, minha vida se acabou...”
A moça estava
apreensiva, pois seu “dono” poderia, a qualquer hora, chegar. Na mesa, as
flores murchas de crepon, entre as garrafas de cerveja, filtrava uma tênue luz
bordô. Se existe uma lei que determina que se algo pode dar errado, então dá,
nasceu naquele fatídico dia. Um Jeep Willys risca na porta do Cabaré da Maroca.
Desce um raivoso senhor, demonstrando avançada embriaguez e já apontar um revólver
na mão. Espuma um ciúme que traduz o sentimento de uma ignorante e estúpida
propriedade:
— Pretinha!!! Prepare-se,
que hoje você vai morrer!
A
única reação da desprevenida rapariga foi agachar-se para se proteger, mas facilitou
o desfecho do criminoso “proprietário” daquele frágil corpo humano que ficou
estendido no chão, todos correram com medo das balas. Ninguém desligou a vitrola
que continuou, harmonicamente, a tocar: “Se um amor nasceu de uma cerveja / Outra
cerveja beberei para esquecer / Um amor que surge numa mesa / entre espumas
terá que terminar”.
É
pré-histórica a arte deste amor dissimulado, do amor monetariamente fingido que
cabe na cama e no colchão de amar, onde um corpo se estende com outro corpo,
mas as almas, não. Os “especialistas” dizem que nos envolvemos com as
meretrizes porque queremos uma mulher
submissa, obediente, descartável e sem conflitos. Não parei para pensar nisso, ainda!
No final da feira-livre reside o Senhor João Furtado
Ribeiro, um idoso e brincalhão duende que, enquanto aguarda o encantamento
final, vigia o portal de entrada dos antigos cabarés, a inicia-se no quarteirão
da Rua Azul. Entre um trago e outro de uma forte aguardente, ele relembra: — Fui motorista de praça e num fim de semana eu não
parava um instante de trazer os fregueses para a Raimunda da Justina, a Maroca,
a Naninha, a Alayde ou para a Casa de Diversão da Nair. Por aqui, numa
temporada boa, chegava-se a ver centenas e centenas de mulheres para abastecer toda
a região. A mais famosa delas foi a morena Cícera, na casa de Raimunda da
Justina, todos queriam estar com ela. Triste era quando a polícia chegava,
sempre às dez horas da noite, mandando todo mundo pra casa e trancavam até as
portas dos terreiros de macumba. Certo dia, os policiais mataram um valente soldadinho
do batalhão, afoito para brigar que nem lampião. Neste dia o cabaré se
transformou num inferno, o 4º Bec sitiou tudo, ninguém saía, ninguém entrava.
Enquanto nos bordéis de Roma, no desabrochar da
Floralia, as mulheres dançavam com seus vestidos floridos, em homenagem a deusa
Afrodite para principiar o sagrado festival de abril, na Raimunda da Justina o
mais puro pé de serra troava com a sanfona, o triângulo e zabumba do sanfoneiro
Vicente Pedro, fazendo com que muitos pés de valsas, exímios dançarinos,
antecipassem o ritmo quente das lambadas nos animadíssimos cabarés dos Sertões
de Crateús.
Há um hino chamado “Rancho de Amor a
Ilha” que canta as belezas sem par de Florianópolis: "Um pedacinho de
terra, perdido no mar!... Ilha da moça faceira, ternura de rosa, poema ao luar...”
por lá, Ilha do Amor, um poeta matuto admirou-se de tantos bordéis, de tantas
belíssimas gurias que aguardavam, calmamente, seus fregueses na noite de
luar... E bateu uma imensa saudade do final da Rua João Tomé, com seus cabarés
bucólicos, repletos de putas tristes...
Mas só é triste porque o amor humano sempre
se reduziu a uma torpe luta de células, num asco prazer, através da matilha
espantada dos instintos e que, em torpor, a poesia recebia a resposta sincera e honesta de uma bela meretriz:
“Quanto a esse tal de amor / Guarde-o à alguém que o mereça / Ou jogue-o fora:
esqueça, / Só nunca mais me ofereça / Algo que não me presta / Algo que eu
nunca quis.”
Raimundo Candido José Alberto de Souza disse...
Anisio Silva, Cláudia Barroso e outras
vozes do amor clandestino, quanto não alimentaram as ilusões de insensatos na
penumbra das amarguras!
Pitágoras proclamou: “Todas as Coisas são Números”. Os que se embrenham pelas florestas numéricas costumam sentir a mesma sensação dos bandeirantes: perscrutam, desbravam, descobrem e se extasiam com a novidade!
Também creio na numerologia! E foi com essa crença nos números que acolhi a incumbência, que é sempre uma deferência, emanada do nosso Presidente Seridião Correia Montenegro para lhes proferir estas singelas frases de efusão. É a nossa festa de aniversário e a mim me cabe saudar os neófitos.
Mirei no calendário nossa data de fundação: 25 de junho. Ano 2005. Se abstrairmos os dois zeros de 2005 também chegaremos a 25. Somando, 2+5 é igual a 7. Sete é o cabalístico número da perfeição.
Aristóteles dizia que todas as coisas deviam sua existência à imitação ou à representação dos números.
Os pitagóricos também assentaram que é a masculinidade um número ímpar e a feminilidade um número par. Assim, a nossa Academia, sacramentada no altar matrimonial entre o dois e o cinco, nasceu sob o signo da pluralidade feita expressão singular, da unidade fiada na diversidade.
A ciranda constitutiva da AMLEF exibe uma inaudita sintonia entre a construção rebuscada da erudição e a mais genuína inspiração popular. Em nossos convescotes literários têm desfilado, com igual relevo, a sílaba portentosa e o fonema singelo.
Os córregos que deságuam neste Sodalício transportam tanto a água quimicamente impecável como a potável água das fontes cristalinas.
E os que se abancam entre nós nesta noite memorável reforçam essa excelsa tradição. São pessoas oriundas de manjedouras distintas, porém trazem na alma as pilastras da essencialidade humanística da cidadania militante, que mesclam literatura e amor à livre criatura. Saramago já dizia que aonde vai o escritor vai também o cidadão. É com fraternal prazer que anuncio: os cidadãos José Hilton Lima Verde Montenegro e Antônio Tarcísio Carneiro passam a compor a moldura de Acadêmicos Correspondentes da AMLEF.
Da terra de Eleazar de Carvalho, Evaldo Gouveia e Humberto Teixeira, o engenheiro mecânico José Hilton, que também perambula pelos campos da filosofia e das letras, resolveu perscrutar a engenhosa mecânica da História. Produziu obras memoráveis.
Antonio Tarcisio Carneiro é músico, compositor, poeta popular, cantor, contista e dramaturgo. Marinheiro de profissão, nunca olvidou os tórridos rincões de Santana do Acaraú. Por transpiração virou o Carneiro do Sertão. Mansamente se achegou ao nosso convívio. Hoje mansamente correspondemos seu afeto.
No nosso pórtico de honra, na categoria de Acadêmico Honorário, inscrevemos com reverente dignidade os nomes de José Augusto Bezerra, José Lins de Albuquerque e Francisco Eloy Bruno Alves.
Como o próprio nome consigna, o primeiro José tem a sensibilidade do carpinteiro de Nazaré e a augusta solenidade de um imperador romano. O mestre José Augusto Bezerra exibe talento multifacetário: escritura e empresaria, cultiva a bibliofilia e irradia filantropia. Agraciado com a Sereia de Ouro, pertence às mais destacadas Academias Cearenses, inclusive a mais antiga do Brasil. Meu destino eu mesmo traço: a fraternidade me deu régua e compasso – pode ele afirmar parodiando Gilberto Gil.
Na pessoa do poeta Juarez Leitão, saúdo o meu conterrâneo José Lins de Albuquerque, um ser constelado que conserva a invariável expertise de bafejar com o incenso da competência os espaços por onde passa, poliu a mente e a alma nas montanhas das Minas Gerais. Certamente nas Alterosas apurou a visão aguçada, sedimentou o estilo sóbrio, fiou o jeito silencioso e disciplinou-se no rigor técnico. Pai de oito filhos, com 22 netos e dois bisnetos, o nonagenário, porém adolescente engenheiro, professor, poeta, contista e memorialista mergulhou nas águas plácidas da aposentadoria com a dignidade de um varão de Plutarco, dedicando-se ao culto da família e às delícias do espírito, escrevendo Contos Verdadeiros e Versos de Muito Amor & Outras Poesias.
A primeira reunião desta Arcádia em que me fiz presente ocorreu na Parangaba. Qual não foi minha surpresa quando surgiu ali a figura de um padre: Francisco Eloy Bruno Alves, hoje monsenhor da Igreja Ortodoxa. Àquela época profetizou, fazendo uso de uma parábola evangélica, que esta Academia se assemelhava ao grão de mostarda: embora a menor das sementes, lançada em solo fértil, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças. E este vôo imaginativo parece que, agora, ganha contornos de realidade. Após enfrentar problemas de saúde, Padre Eloy retorna à AMLEF.
Exibirá o Diploma de Acadêmico Emérito o jornalista Francisco Lima Freitas. Patrono do municipalismo no campo das letras, Lima Freitas preside o mais representativo sodalício de letras da Terra da Luz, a ALMECE (Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará). É um apóstolo da cultura, um missionário das letras, semeador de livros e um peregrino incansável da causa literária.
Para abrilhantar nossa bancada de Acadêmicos Efetivos oficializamos o ingresso do Padre Francisco Geovane Saraiva Costa, cadeira nº 8, Patrono Olavo Oliveira; da professora Michelly Barros Andrade Sousa, cadeira nº 15, Patrona Natércia Campos; e do doutor Francisco Régis Frota Araújo, cadeira nº 31, Patrono Antônio Bezerra de Menezes.
O Padre Geovane, que atualmente pastoreia em Fortaleza, aprendeu com dom Helder Câmara, nascido para as coisas maiores, a ser um peregrino da paz. Trabalhador incansável na messe do Senhor, o pároco da Parquelândia é também articulista, cronista e biógrafo. Adentra o nosso círculo para nos ensinar que o ódio e a paz, o simbólico e o diabólico, o céu e o inferno não são instituições alienígenas, mas forças que se debatem no universo do nosso ser. Padre Geovane bafejará este Sodalício com os fluidos da espiritualidade a fim de que nos voltemos, sempre, para os pensamentos superiores.
A professora Michelly Barros é uma heroína popular que seduziu o nosso Silogeu antes da admissão. Sua história de vida é um enredo épico. Muito mais que isso: uma indelével lição existencial. Um culto de amor à luta pela sobrevivência. Um hino à superação. Por mais de 17 anos erigiu sua trincheira nos morros de areia branca e vegetação abundante do Conjunto Santa Terezinha. Da pobreza extraiu beleza. Graduou-se pela UFC e abraçou a causa do magistério. Escritora e compositora, exalta a rica e autentica linguagem regionalista do matuto cearense. Nenhuma porta lhe foi aberta. Ela as abriu. Inclusive as desta Academia. Seu diploma foi confeccionado por uma matéria chamada merecimento. Parabéns, Michelly Barros Andrade Sousa!
“Instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social” – eis uma parte do Preâmbulo da Constituição Brasileira, a nossa Magna Carta, o principal e um dos mais belos documentos do nosso ordenamento. A terceira cadeira será ocupada por um intelectual irrequieto, amante do direito constitucional, que já percorreu meio mundo estudando essa temática. O professor Francisco Régis Frota Araújo, mestre pela UFC, doutor pela Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, Presidente da Associação Ibero-Americana de Direito Constitucional Econômico, cujas produções técnico-jurídicas aliam rigor científico e brilhantismo literário, nos honrará com sua distinta companhia.
Portanto, tomai assento entre nós, humanos livres e de saudáveis costumes!
Aqui sentireis a camaradagem que contagia um modesto sodalício de destemidos militantes em defesa dos direitos da inteligência, que presta reverência aos ditames do Espírito, que busca cumprir os deveres do coração!
Vamos formar um pelotão de mãos conjuncionais.
Vamos erigir um monumento ao belo, ao sagrado, ao essencial!
Publiquemos, juntos, o édito da paz!
A missão primeira de quem se entrega à tarefa de cunhar as sílabas oníricas é proclamar a civilização da claridade e o império do amor. Deixemos que esta Casa nos transforme em indeléveis centelhas da alegria, eternos operários das estrelas, perenes súditos da aurora!
Rotulam-nos de imortais. Não o somos. Imortal é a mensagem daquele que consegue encravar sua escritura no solene pergaminho estampado no átrio do sonho humano. Para fazê-lo, precisamos emprestar as nossas mãos às invisíveis mãos do Insondável, algo que só é possível quando nos abrimos à iluminação. Por isso o espaço em que vos acolhemos chama-se Palácio da Luz! Assim, vos desejamos êxito no cumprimento deste múnus fulgurante!
Fiat Lux!
Viva a AMLEF!
(Discurso proferido por Júnior Bonfim na sessão de ontem da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza – AMLEF – no Palácio da Luz, Fortaleza, Ceará)
Raimundo Candido disse...
Um iluminado, que se irradia em verso e prosa, mas toda essa
luz teve a chispa primeira nas brenhas dos Sertão de Crateús e no bucólico Curral
Velho! Parabéns Junior Bonfim, um orgulho dos crateuenses!
A MÃE
Olharam-se várias vezes. Em casa, ela gritou: “Era o meu filho!”.
Era um
prédio antigo que ficava na esquina da Rua Cel Zezé com a Rua Poeta José
Coriolano de Souza Lima, no coração da cidade. O amarelo desbotado das paredes
indicava um evidente desamparo e nas entradas laterais, escancaradamente
encardidas, via-se o desleixo de cada oitão. Logo cedo, o desembaraçado Teófilo
abre as portas do recinto. Alguns fregueses, sequiosos, já o aguardavam para
reiniciar mais um dia de rojão etílico, e como nos aconselha o francês
Baudelaire, bebamos para não sentir o terrível fardo do tempo que nos quebra os
ombros e nos curva ao chão.
De início,
é só pinga-pinga de desocupados cidadãos. Alguém toma um trago fiado, soltam
uma conversa mole de quem não infunde a mínima fé, e prossegue no descuido da
vida. Os pinguços inveterados esticam o olhar rumo à porta, na esperança de que
um (des)conhecido se apiede de seus nervos em frangalhos e lhes pague um trago. Na hora do
Rush, enquanto os passos da humanidade giram para destrocar uma carcomida fome,
um dos eixos móbeis do mundo, alguns agem como autômatos cumprindo uma penosa rotina,
e se dirigem aos bares para aplacar a sede que os consomem. Enquanto Teófilo
disputa uma porrinha de palitos fósforo com o Prof. Praxedes ( peculiar avis
rara social ) e despacha outra cerveja a um velho freguês no balcão, um
impaciente doutor pede um whisky na mesa. Já está habituado ao intenso
movimento sem demonstrar a mínima aperreação.Ouve-se um reclame, em estridentes berros que vem de uma sala reservada,
lá atrás. São os funcionários da Coletoria Estadual que mastigam um litro de
aguardente com um indigesto tira-gosto: — Oh, Teófilo, a panela de buchada até
que está boa, mas este cheirinho de rato é que estraga tudo! E botequeiro se
justifica: — Desculpem
pessoal! Coloquei umas vitaminas para os ratos. Mas não se assustem, pois acho
que dentro da panela, não caiu nenhum rato morto, não! Uma questão
complicada nos bares é na hora de pagar o que se deve, é só falar em acertar uma
conta que se estampa a alegria nos olhos dos donos dos botequins. Alguém pede
para somar o débito, que já vem se acumulado há dias... A amnésia de bêbado é
coisa notória e trivial: — Eu não bebi essas cervejas todas, Teófilo!Mas um brincalhão, ali por perto, sempre tira
um sarro da dúvida alcoólica:— Ora,
ora...a cerveja estava aí, geladinha, só esperando. Se você passou em frente ao
bar e não entrou para beber... O Teófilo anotou! Alguns
quarteirões dali, esquina da Rua da Pimenta, Elias Vieira, outro barmen show, atende
com distinção e gracejos aos seus fregueses. Sempre que abre uma cerveja, dá
umas embaixadinhas com a tampa da garrafa, demonstrando o talento e arte que
lhe sobraram dos salões de dança, era um carrapeta. Uma vitrola solta a voz de
antigos seresteiros para o deleite dos ébrios que regam a saudade do que nunca
tiveram ou nunca terão. Um pé de
valsa, já meio zonzo, cantarola a canção que só se efetua na veludosa voz do
cantor Jessé, a grande atração da Boate do Louro da Cruz, logo mais: “Rimas de
ventos e velas / vidas que vem e que vai / a solidão que fica e entra / me
arremessando contra o cais”, e recordo-me dos colegas, barcos ébrios, que
tentarão encher o tanque no botequim do Valmir, antes de ir ao show do Louro.
Espero que Juracy, não engorde o olho mais uma vez e faça a polícia fechar o
pobre Bar do Valmir, aonde temos direito a uma cuspidela ao pé do balcão. São
diversos os pontos onde a população etilista ingere uma abrideira, o primeiro
trago, passando pela saideira, a tangedeira até chegar a irremediável caideira.
Na bodega do Luiz do Emídio, última estação da Frei Vidal, pode-se entrar,
abrir a geladeira, escolher a loura mais gelada e apreciá-la sentado sobre o
balcão.Liberdade assim, nem na nossa
casa. Já no Bar do Tio Onésio, sócio do Lourinho, é um clube de elite, embora esteja
situado no Beco da cachaça, o pinguço de lá mostra um pedigree até nas feições
do rosto, que o diga o bancário Júlio Menezes. Das classes
de bêbados a mais desregrada é a dos poetas. Um deles ousou dizer: “O álcool é
como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo, o terceiro é
rotina. Depois dele, você tira as roupas da moça” E de todos os poetas
embriagados, o Velho Safado chamado Charles Bukowski bateu todos os recordes,
era como se tivesse um carimbo na testa: Eternamente Ébrio! Por aqui,
na terra da puríssima ou desdobrada Lagoa do Barro, um poeta tentou passar de
consumidor a produtor de aguardente, mas as circunstâncias providenciais lhes tiraram
as duas possibilidades e ele foi ser poeta-compositor-construtor. Nunca devemos lamentar que um poeta torne-se um bebedor, devemos lamentar
sim, que nem todos os bebedores sejam poetas. Um dos
mais antigos barman que se tem notícia no mundo chamava-se Eubulo, em 375 a.C.
na antiga Grécia. Ele descreveu, com detalhes, como se conduz eficazmente um
bar: As três primeiras taças de bebida são para os comedidos, a primeira é para
saúde, a segunda para o amor e o prazer e a terceira para o sono. Devemos
avisar aos consumidores que já basta e os persuadimo-los a ir para casa. Se
insistirem em ficar, é exclusiva por conta e risco. Só avisamos, amigavelmente
que a quarta dose pertence à violência, a quinta ao tumulto, a sexta, à folia,
a sétima, aos olhos roxos, a oitava ao policial, a nona, à bílis e a décima dose
à loucura e ao desespero. Sábio Eubulo! Depois que
a Presidente(a) Dilma Rousseff presenteou o poderosíssimo Barack Obama com um
litro de cana, de edição limitadíssima, no valor unitário de R$ 212. 000, 00,
cheguei a conclusão, pelo bocado que bebi (Mais que um bocado!), de que já ingeri
um rio de dinheiro. Para quem
bem sabe, até a história do Brasil foi escrita sobre os tonéis de cachaças. Os
irmãos portugueses quando caíram na besteira de proibir a nossa branquinha pela
desgostosa bagaceira deles, transformaram a cachaça no símbolo de resistência
ao Império Lusitano e vencemos, de copo na mão, mais uma guerra. Há quem
diga que a nossa aguardente, a malvada, o mé, o engasga-gato, a água que
passarinho não bebe, serve até de remédio: cura gripes, elimina os vermes, debela
frieiras, espanta as tristezas e outras mazelas... Eu acredito! E despeço-me desta
mesa de bar com mais um dito do velho vate bebedor Baudelaire: “ É preciso estar sempre embriagado. Eis aí
tudo: é a única questão. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa
maneira. Mas embriagai-vos!” Até e deixo, para não perder o costume, a
conta dependurada no prego mais alto da prateleira.
Raimundo
Candido Silas Falcão disse... Poeta Raimundinho, você me (re) conduzia aos bares
da juventude. Com os amigos ou meu pai, tomei todas no bar do Teófilo. Seu
Eliás, que tinha um filho que o chamávamos de Jerry Adrianne, foi outro bar da
minha boêmia. Tinha também o Zé Artur, no bairro dos Venâncio. Bela crônica.
José Alberto de Souza disse...
ExcluirPara o santo, o primeiro gole derramo no chão e os outros vou
distribuindo sem distinção. Agradeço esta alma caridosa que me pagar a conta.
A Escola Estadual de Educação Profissional Manoel Mano tem o prazer de convidar Vossa Excelência a um passeio pelo mundo dos clássicos da Literatura Portuguesa e Brasileira.
Data:
24-08-2012
Horário:
a partir das 19:00h
Local:
Rua Julio Lima, 2194
(SIC)
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
NA
MANSÃO
– Pai, o senhor compra uma
coleção de crianças para eu brincar?
Silas Falcão
terça-feira, 21 de agosto de 2012
UTI
“Você sabe com quem está falando?” era o seu comportamento.
Hoje o seu coração pergunta: “Você sabe com quem está falando?”.
Um poeta- cordelista-agricultor, lavrador
de Cante Lá que Eu Canto Cá, entediado com tantas homenagens e títulos que lhe
foram concedidos por diversas Instituições de Ensino Superior – cinco “Doutor
Honoris Causa” – num repente de ocasião gorjeou com saudades da roça, onde
matutava de inverno a estio afeito patativa, com foice e enxada na mão: “Chegando
o tempo do inverno, / tudo é amoroso e terno, / sentindo o Pai Eterno / sua
bondade sem fim. / O nosso sertão amado,/ estrumicado e pelado, / fica logo
transformado / no mais bonito jardim.”
Ainda é um poético
paraíso, mesmo com os apetrechos da modernidade que instalaram por lá: um amplo
estacionamento de carros, um rumoroso bar, piscina azulada, campo de futebol e um
grande salão de eventos. Mas o bonito e bucólico jardim era quando a branca casinha
da Fazenda Pereiros, rodeada de frondosas algarobas, tinha um alpendre com um
parapeito convidativo ao sossego da gente e não impedia que o olhar contemplativo,
de quem se esticava numa alada rede de algodão, se deleitasse na visão aguada e
aromal de um açudinho chamado Jaibara. Naquele lugar, dificilmente acharemos um
pé de Pereiro, árvore nativa da caatinga nordestina, pois foram quase todos
transformados em estacas de cercas, lenhas e carvão.
Os primeiros
meses de chuvas são bonitos de se ver, espontaneamente jorra um rejuvenescido sertão.
Tudo verde, tudo alegre e a vida a brotar do chão. Na arejada varanda da fazenda,
uma cena incomum já nem chama atenção dos habituais visitantes dominicais: um
manso canário-da-terra se empoleira no punho de uma rede com varanda de crochê
e trina reverenciando ao homem que ali está, majestosamente, deitado. O Senhor Júlio Facundo de Menezes, com mansa serenidade
a transbordar de um meigo olhar, demonstra infinita sabedoria que só subsiste
na humildade dos que já nasceram sabendo viver. Contempla os meninos, que
brincam inocentemente no terreiro e nota a ausência da Delite, a filha mais
velha, que está sendo esmerilada carinhosamente pelos avós maternos, o
fazendeiro João de Matos ( Pudidi) e a bondosa avó (Budidi), também sente a
ausência, pelo vago olhar, de José e Antonio Belê, mas não no soberbo coração. Chama o mais irrequieto dos meninos, que se
diverte com o irmão Wilson e pergunta, para mostrar o orgulho de pai, pela
perspicácia de um filho precoce: – Oh, Joãozito, venha aqui e me
responda, o que você vai ser quando crescer? O ingênuo menino ouvira falar que
Dédalo para fugir do Labirinto, prisão do mitológico Minotauro, inventara um
par de asas coladas com cera nas costas. E ruflaram, um sábio pai acompanhado do
filho, o imprudente Ícaro, na busca de liberdade, rumo ao encontro da
realização do sonho maior da humanidade: voar como os pássaros. E o menino
resoluto, responde: – Papai, eu quero ser piloto de avião! Admiram-se todos,
inclusive Vilebaldo Martins, um senhor careca, de riso solto, dono de um posto
de gasolina, há muito amigo da família. E com voz grave, afirma: – Amigo,
Júlio, eu tenho a impressão de que esse menino herdou toda impetuosidade dos Matos.
Não tem uma gota da paciência dos Menezes, pois mal se desprega do chão para
andar e já está é pensando em voar! Um cheiro de grão
torrado atiça as narinas, é quando Dona Maria de Matos manda trazer um cafezinho
quente que é servido com queijo coalho, acabado de sair da prensa. Com a
resolução de quem é habituada a tomar decisões e emitir opiniões, anuncia: – Ano que
vem, mandaremos os meninos para estudar em Fortaleza. As meninas vão para o
colégio de Nossa Senhora do Sagrado Coração das irmãs Dorotéias, e os meninos
vão se aplicar, para ser doutor. Já acertamos a viagem no caminhão do Sr. José
de Alencar. Com a debandada dos
filhos para o mundo, os pais padecem na expectativa dos mesmos, premeditam os
sonhos e almejam um feliz regresso ao lar. O Joãozito, como ele mesmo
profetizara, retorna como piloto da aviação comercial e avisa que chegará nas
asas de uma assustadora e metálica esperança. Os amigos e familiares o aguardam,
ansiosos, na Fazenda. Os galos das torres da
igreja nunca haviam tomado um susto tão grande como o daquele voo rasante sobre
a praça. No desfecho dos anos 40, foi o primeiro piloto crateuense a se exibir
por aqui e se dirige como ligeiro falcão para os Pereiros, num espetáculo arriscado
da arte de pilotar. Dizem que as galinhas ficaram sem nada para ciscar no
terreiro, perdendo inclusive as penas depois que o aparelho passou lambendo a
chão, onde há pouco um magricelo menino sonhava em pilotar um avião. Com a aeronave na pista
de pouso do campo velho, mal se estira na rede da varanda para agradecer os
calorosos aplausos, recebe ordens da mãe, Dona Maria, para deixar uma amiga que
está mal de saúde, em Fortaleza. Mesmo a contra gosto, vai. Quem é ele, para
desobedecer à índole rija da filha do poderoso João de Matos? Foi outra grande admiração,
quando perceberam que, mal a alquimia do temperado almoço irradiava o aroma de um
farto banquete no ar, o top gun indomável já estava de volta ao lar. Tinha a
índole de um Santos Dumont nas veias, mas o destemor mitológico de Ícaro na
alma. O mesmo inclemente sol que derreteu as asas do mitológico grego voador
presenciou o nono acidente aéreo que o vitimou, carbonizado ao bater nos fios
de alta-tensão. Um poeta português, das
múltiplas personalidades, tinha razão quando disse: o nosso viver é um morrer,
porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a
menos nela. Dona Maria de Matos, também se fora. Sabemos que para se suportar
melhor a vida devemos está pronto para, também, morrer. E a poesia da velha
Fazenda Pereiros foi se apagando aos pouco! O transporte para a
cidade era feito sobre um felpudo coxinil branco na cela de um alazão machador,
treinado por Cícero Maçal, um exímio adestrador de cavalos. O Padrim Júlio constantemente
vinha para a casa da Dona Delite, na cidade e neste sempre vir, foi ficando,
para alívio do cruel isolamento, desafogo da solidão e alegria dos netos.
Tínhamos bons momentos de recordação com as repetidas lembranças de Vovô, pois
recordar antigas venturas ainda é um puro momento de felicidade. Até num
resmungo infantil ele rezava na gente: “Cancão do bico torto do sobrecu
arrebitado...” e a dor logo se ia. O Manoel Nene Martins
Coriolano, um reservado advogado com licenciatura plena e total em História,
foi quem me confirmou: – Raimundo, o teu avô era um grande historiador-
memorialista e foi uma pena ter partido sem deixar registrado todas aquelas boas
lembranças. Fez questão de me recordar uma delas, a história do Padre Verdeixa. Seu Júlio dizia que o Pe. Verdeixa, da região
do cariri, depois de ordenado, mostrou-se ateu e sacrílego e por se meter em arrojados
litígios políticos, sempre se opondo aos sistemas de governo, ficou um indivíduo
homiziado, constantemente perseguido por Jacarandá, um alferes do Exército que
seguia seu rastro por onde andasse.Uma
vez, no distrito de Siupê, em Caucaia, bateu à porta de um camponês, a quem
pediu abrigo. A dona da casa estava em trabalho de parto, assistida por um
feiticeiro. O Padre o expulsou e rabiscou umas breves palavras num papel,
colocou o escrito dentro de um saquinho em forma de esculápio, pendurando-o,
urgido de devoção, no pescoço da parturiente e quase que instantaneamente um
novo ser veio ao mundo. A população ficou grata ao santíssimo homem. Verdeixa
seguiu em frente com os agradecimentos monetários daquele humilde povo e o
saquinho maravilhoso ficou de pescoço em pescoço realizando prodígios.De tanto andar, o medicinal e milagroso
esculápio descosturou-se. Alguém violou o segredo e leu com espanto o que
achavam ser uma valiosíssima oração-forte: “ - Vamos passando bem, eu e meu
cavalo, se quiser parir, poder parir! Se não quiser, pode morrer entupida! “ Embora gostando de contar saborosas
histórias como essa uma neta me afirma, a escritora Vera Lúcia Menezes, que
Vovô assistia a todas as missas, compenetradíssimo, e no final da solenidade ainda
beijava a mão do digníssimo padre. Um dia, como os passarinhos,
que ele gostava de alimentar na calçada da Rua Frei Vidal da Penha, como se
soubesse o último dia de sua longa vida, deita-se, vira de lado e parte, sem
dizer um adeus. De tudo resta um confidencial
silêncio que reverencio, não com o trinado do extinto canário dos Pereiros, mas
com uma composição magistral e emocionante voz do compositor Zé Ramalho: ” Um
velho cruza a soleira /de botas longas de barbas longas / de ouro o brilho de
seu colar...” Depois do instante silencioso, que por si é oração, só a música
para me manifestar o inexprimível. A
alma enternece e as lágrimas caem. É o Padrim Júlio, pai e avô, como uma
canção! “ Pares de olhos tão profundos / que amargam as pessoas / que fitar” Nos
é retirado pelos anjos, num condolente fim de tarde, amabilíssimo Avô, Pai... “Oh!
Meu velho e invisível Avôhai...“
Não precisa falar da luz pura e não mitica
que avulta de suas letras. A vida é assim. A sua mãe minha professora, a quem eu
devo tanto, admirava-se da minha redação. Dizia que eu seguia meu tio Mons.
Moraes, grande orador sacro e excelente poeta, eu sou mto pequeno diante do
vulto do velho cura. Mas a mãe que olhva longe, não enxergava no seu regaço, o
poeta maior e o cronista portentoso. Mas quando vc fala de trem, meu coração se
apressa na lentidão molhada da saudade. Pediria sua licença para incluir sua
poesia e sua bela cronica no livro que estou escrevendo pelo centenário da nossa
velha Estação, a catedral onde meu pai pontificou e,lá onde eu viverei para
sempre. Parabéns.
Raimundo Candido disse...
Ilustríssimo Dr. José Maria Bonfim, sinto-me honrado com suas palavras, já que parte de um grande literato e lhe agradeço a consideração de colocar minhas singelas escritas no seu livro. Um grande abraço.