sexta-feira, 18 de maio de 2012


                                 Dia 21 de maio (segunda-feira)
Abertura - Sr. Luiz Gastão Bittencourt da Silva, Presidente do Sistema Fecomércio
Biografia Afetiva: O Sr. Verso - Silas Falcão (Escritor, pesquisador da obra literária de Milton Dias, Diretor de Eventos da Associação Cearense dos Escritores (ACE), Membro da Academia de Letras de Crateús (ALC) e do Abraço Literário, do SESC. 
A Pastoral Poética de Francisco Carvalho - Batista de Lima (Escritor, membro da Academia Cearense de Letras (ACL), Professor da UECE e da UNIFOR, Mestre em Literatura pela UFC).
Momento Poético - Grupo Converso

Dia 22 de maio (terça-feira)
Abertura – Ana Néo (cerimonialista)
Os Diálogos Poéticos de Francisco Carvalho – Carlos Vazconcelos (Escritor, graduado em Letras pela UECE, Mestrando em Literatura pela UFC, Membro da Ceia Literária, do Abraço Literário e da Associação Cearense dos Escritores (ACE)
Esquete: A Ciência não gosta de rir – Airton Soares e Eudismar Mendes
Momento Poético - Ricardo Guilherme

Coquetel


quarta-feira, 16 de maio de 2012

SOBRE A IGREJA E O ESTADO

O Ministério Público Federal de São Paulo ajuizou ação pedindo a retirada dos símbolos religiosas das repartições publicas. Pois bem, veja o que diz o Frade Demetrius dos Santos Silva.
"Sou Padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São Paulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas…
Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A Cruz deve ser retirada!
Aliás, nunca gostei de ver a Cruz em Tribunais, onde os pobres têm menos direitos que os ricos e onde sentenças são barganhadas, vendidas e compradas.
Não quero mais ver a Cruz nas Câmaras legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte.
Não quero ver, também, a Cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados.
Não quero ver, muito menos, a Cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas pobres morrem sem atendimento.
É preciso retirar a Cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa das desgraças, das misérias e sofrimentos dos pequenos, dos pobres e dos menos favorecidos."
Frade Demetrius dos Santos Silva - São Paulo/SP

terça-feira, 15 de maio de 2012

MANOEL MELO CAVALCANTE



Sábado passado, apresentando mais um livro do poeta Dideus Sales, ensaiei uma resposta sobre a tarefa de um poeta. Relembrei aquele episódio ocorrido com o poeta Olavo Bilac. O dono de um pequeno comércio, amigo, abordou-o na rua: - Sr. Bilac, estou precisando vender o meu sítio, que o senhor tão bem conhece. Poderá redigir o anúncio para o jornal? Olavo Bilac apanhou um papel e escreveu: "Vende-se uma encantadora propriedade, onde os pássaros cantam ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalinas e mareantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda." Meses depois se reencontraram. O poeta perguntou se o amigo havia vendido o sítio. - Nem pense mais nisso, disse o homem. Quando li o anúncio foi que percebi a maravilha que tinha.
Eis a tarefa de um poeta: revelar a beleza escondida nas coisas, nos lugares e nas pessoas!
Semelhante missão têm aqueles que abraçaram a apaixonante e sacerdotal causa do magistério. Ser educador é deslizar na correnteza da sabedoria, perscrutar talentos, retirar poeira de diamante. Não é entregar a isca e o anzol, mas desenvolver o gosto pela pesca. Não é oferecer a faca e o queijo, mas despertar a vontade de comer. Educar não é lançar, mas extrair, retirar de dentro.
Dos meus tempos de aluno do então “Ginásio Pio XII”, em Crateús, lembro da silhueta de um amante do magistério. Alto e sereno, reservado e narigudo, aristocrático e silencioso. Era inimaginável que aquele corpo esguio escondesse um glutão compulsivo, incorrigível devorador de letras, voraz consumidor de livros. Pois Manoel Melo Cavalcante, nos anos do decênio iniciado em 1970, já havia engolido mais de mil livros. Aprendera com um mestre Taoista que passar três ou quatro dias sem ler causava debilidade nas palavras, fraqueza na memória, deficiência no cérebro.
Hoje, exilado em Fortaleza, revisita as páginas que protagonizou no álbum da própria existência. Recompila o capítulo em que, com asas de sonho, pousou na Capital para estudar no Colégio Cearense. A alimentação irregular, em hotéis e restaurantes, provocou a abertura de uma ferida no estômago e forçou o retorno à terra natal no início da década de 1960.
Foi quando resolveu descer do berço da própria solidão e espalhar sobre o chão de giz o óleo do amor à leitura. Lecionou inicialmente na Escola Técnica de Comércio Padre Juvêncio, onde foi Vice-Diretor de 1968 a 1975.
Em 1976, por influência do Deputado Antonio dos Santos – na época, líder absoluto no município – vira Vice-Prefeito da chapa encabeçada pela primeira mulher a chefiar o Executivo Municipal, Lionete Camerino. Aceitou a missão com a alma fervilhando de projetos. Imaginava que, em algum momento, seria instado a colaborar ativamente no comando da cidade. Aquele mar de sonhos, no entanto, virou um martírio. Se pudesse, eliminaria as páginas que tratam dessa estação...
Após esse período, se deixou embalar pelas ondas do rádio, dirigiu o Colégio Regina Pácis e prestou serviços na Delegacia Regional de Educação. A bandeira da educação empunhou até o dia em que recebeu a carta de aposentadoria.
Atualmente reside em um dos pontos mais altos de Fortaleza, próximo das principais torres de TV da cidade, no cosmopolita bairro Dionísio Torres. Ali, entrega-se a uma tarefa cada vez mais rara: recuperar molduras factuais sob a precisão das datas. Por isso esquadrinha o tabuleiro da história e recompõe a cronologia da ribeira em que nasceu, que pretende exibir em formato de livro.
No mais, nota-se uma invisível trava de melancolia nas cercanias de sua alma. Diz que a aposentadoria equivale a ser um vagabundo mal remunerado. Sente-se só. E, sobre os ombros, o peso das barras de ferro do abandono. Porém, quando o indago se ainda é capaz de sentir o silvestre perfume do original torrão, desaparece a lamentação e faz irromper uma canção. Rejuvenesce o poeta, que abre o coração:
Crateús, oh! Terra boa,
E prá que seja sempre assim
Protege minha pessoa
Nosso Senhor do Bonfim!


(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

  1. José Bonfim de Almeida Jr., caríssimo Júnior Bonfim, parabéns pelo texto, palavras precisas e encantadoras - fiquei[estou]comovido, confesso!
    Luciano Bonfim.

  1. Meu caro júnior Bonfim, parabéns pela excelente crônica. Bem escrita. Excelente desenvolvimento. Fui aluno do prof. Manoel Mano, no colégio Pe. Juvêncio. Vez e outra encontro nosso velho mestre no centro da nossa capital ou nas ruas do consumo das lojas do Pão de Açúcar, Av. Antônio Sales.
    Gostei do anúncio feito por Olavo Bilac para a venda do sítio do amigo. Pesquei esta preciosidade e intertextualizei em um trabalho que apresentarei no IV Seminário Revelando a Literatura Cearense, com o tema Vozes e Silêncios de Francisco Carvalho. Este seminário é outra rica ideia literária do SESC. Obrigado pela oportunidade.
    Abraços, poeta.

Confabulações entre Ivens Mourão (Trineto do poeta José Coriolano) e Raimundo Candido



1-
Caro Raimundo Cândido
Muito obrigado pelo belo texto sobre José Coriolano. Fico feliz que a  cidade que ele tanto admirou está resgatando a sua obra.
Pela foto percebo que o busto já existia desde a década de 40. Sei que o meu pai providenciou a feitura do busto, quando morávamos em Crato.
A Academia tem tudo para ser o ambiente para o estudo da obra do poeta. No google coloquei todas as poesias dele, inclusive as inéditas, salvas pelo meu pai.
Fico à disposição

Ivens Roberto de Araújo Mourão

2-
Meu caro Ivens Mourão, Saudações!


É um prazer e uma intraduzível honra me dirigir ao trineto de José Coriolano. Seu email me chaga trazendo uma energia tremenda e um inesperado susto, pois é como se viesse do próprio poeta, se me entende.
 Há uns dois anos, li (e ainda não parei de ler) o Blog onde você postou Impressões e Gemidos, e não entendia como uma obra grandiosa pode ficar na poeira do esquecimento por todo esse tempo. Não compreendia porque uma cidade inteira (quase!) com um filho ilustre, chamado de o PRINCIPEDOS POETAS no estado vizinho, não o valorizava como deve ser e merece. (Podemos considerá-lo bicidadão: cearense e piauiense)
 A Academia de Letras de Crateús o citou num artigo, no livro sobre o Centenário de Crateús, através de acadêmico Juarez Leitão, mas não foi o suficiente. Descobri aquelas fotos antigas que lhe mandei– as duas crianças que aparecem ao lado do monumento são meus irmãos – e escrevi aquela singela crônica que lhe enviei e a partir daí tem surgido algum movimento que nos anima a acreditar que Crateús logo saberá quem foi e o que representa para nosso torrão ter um herói, um literato comparado aos grandes do romantismo nacional.
O acadêmico Edmilson Providência, que me repassou seu email, não poupa esforços na procura do Busto do Poeta. Estamos formando uma equipe para cumprir esse objetivo: repor o busto, seja como for, para o mesmo local e nomear a Praça da Matriz com o nome de José Coriolano.
Meu caro, Ivens Roberto de Araújo Mourão, não imagina o prazer e a satisfação que nos dá com esse contato. Não quero mais tomar seu precioso tempo, mas fique na expectativa, pois em breve terás noticias sobre o que temos por obrigação de fazer quanto a retomada da valorização do NOSSO Poeta José Coriolano. Foi um imenso prazer e um grande abraço.

Raimundo Candido

3-
Caro Raimundo Cândido Teixeira Filho



Foi com grande satisfação que recebi o seu email. Há anos que tento fazer com que a obra literária do poeta José Coriolano tenha o seu devido reconhecimento. Estou convencido de que,agora, encontrou o ambiente propício para tanto. E não poderia ser melhor do que a Academia de Letras da sua cidade natal.
Por vinte anos morei fora do Ceará. Ao retornar (1996), procurei marcar presença junto aos meus pais, em idades avançadas. Para manter a mente do meu pai ativa, sempre procurei conversar com ele sobre os assuntos da sua predileção. Um deles as poesias do seu bisavô, José Coriolano. Sempre guardou, como relíquia, o que restou dos originais de Impressões e Gemidos, redigidos de próprio punho pelo poeta.
Comparando os originais com o que havia sido publicado em 1870 e 1973, eu e ele constatamos que existiam 49 poesias inéditas. Todas de grande valor poético.
Tentei sensibilizar o prefeito da cidade, à época (2001), de criar um memorial para o estudo da obra do filho ilustre. Não recebi retorno.
Poucos dias antes do seu falecimento (outubro de 2001), o meu pai, após declamar parte do poema Crateús,entregou-me a responsabilidade de guardar os originais e fotos do poeta.
Passei a desenvolver um trabalho de digitação, tanto do livro de 1870 com os acréscimos feitos na edição de 1973e, principalmente dos poemas inéditos. Para este trabalho foi imprescindível a ajuda da minha esposa, Edméia Teixeira Mourão profunda conhecedora da poesia e dos poetas da língua portuguesa. Na tentativa de deslindar certas grafias, achávamos que o poeta havia se equivocado. Ao compulsar o dicionário estava escrito que a palavra existia, era adequada ou própria de uso poético no século XIX. Convenci-me da sua grande cultura humanística.
Em outras ocasiões, a traça havia feito desaparecer certas letras. Graças ao esforço e conhecimento da minha esposa sobre métrica, musicalidade da poesia e o tema, ela reconstituía apalavra. Às vezes parecia-nos que o poeta havia “ditado” no ouvido dela.
Procurei, então, com o meu irmão Raimundo Nonato Mourão, residente em Teresina, sensibilizar a Academia Piauiense de Letras para publicar as poesias completas. Conseguiu excelentes contatos tendo em vista o seu bom relacionamento com diversos intelectuais. Porém, não houve continuidade com o seu falecimento precoce (julho de 2007).
Ao ver o blog da minha filha Ivna Teixeira Mourão, artista plástica, no qual ela divulga a sua arte, perguntei como se “fazia” um blog. Ela deu-me uma “receita de bolo” e coloquei a obra completa na Internet. Deu-me o grande prazer de que as poesias estavam salvas e disponíveis para o mundo inteiro. Mas, faltava alguém para interessar-se pelo estudo delas e incluí-las no local que merecem: a literatura nacional.
Desde então, vez ou outra, alguém entra em contato comigo. Geralmente literatos do MA e PI que solicitavam permissão para incluir Impressões e Gemidos nos seus blogs.
Recentemente, um estudante de letras da Universidade Federal do Piauí interessou-se pela obra. Alguns professores entraram em contato, mas não passou disso.
A minha sugestão é que a Academia crie um memorial. Havendo essa formalização, terei o máximo prazer em colaborar naquilo que estiver ao meu alcance.
Por fim, indago se os restos mortais do poeta ainda estão na Igreja Matriz. Há tempos um primo informou que o Bispo (não o atual) havia mandado retirá-los, alegando que a Igreja não é o local adequado. Lembro-me de ter visto a lápide que a esposa (Maria Cisalpina) havia mandado colocar na Igreja em homenagem ao marido. Localizava-se em uma das colunas, no lado esquerdo, voltado para a praça onde existiu o busto.
Fico sempre à disposição.

Grande abraço
Ivens Roberto de Araújo Mourão

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Galo do Tourão


                                                         
Há quem diga que sempre é tempo de travessias solto a voz nas estradas, já não quero parar, meu caminho é de pedras, como posso sonha — como diz a letra de uma música, e se não transpormos as arriscadas correntezas ficaremos sempre às margens de nós mesmos. Não importa como, ou porque, um vento norteador, continuamente, nos impulsionará.
 O Rio Poti, apressado em cumprir-se em largo apetite oceânico, era como uma 5ª Sinfonia de Beethoven quando as margens se iam estreitando. Às vezes, se expandia como uma clássica melodia ressoada a violino, aparentando uma sutil calmaria e nesse ponto, na passagem do Bairro dos Venâncios, os canoeiros aproveitavam para atravessar os viajantes, que vinham apressados com seus indispensáveis afazeres ou regressavam resolutos de suas obrigações para o sossego da Ilha, para o campestre Tourão ou o distante Pastos Bons.
O Zé Regino, excelente tocador de violão, também entendia das artes de canoagem, juntamente com seu amigo, o experiente remador Dão Aleixo, o único concorrente. Quando um ia firme e determinado, o outro vinha com intensa coragem, cortando na proa a força bruta das águas onde esta era menos intensa e sem o perigo de ir ao encontro das pedras traiçoeiras.
A clientela que ia chegando logo ajustava o preço da arriscada travessia que nunca passava de um reles cruzado. Um jovem elegante que se aproxima, num gingado matreiro, já é bem conhecido da dupla de canoeiro, e chama-se Antonio Xavier Mota do Nascimento, o Galo do Tourão, possuidor de um ilustradíssimo discurso.
                Com seriedade que lhe é própria, pergunta:
                — Canoífero, quanto queres de remuneração pecuniária para me transportar deste pólo ao outro hemisfério?
                O canoeiro também querendo se exibir, graceja espirituoso:
                — Seu Antônio, o senhor está me perguntando quanto cobro para lhe deixar lá no cemitério?
                Indignado com a réplica rimada do canoeiro, o Galo responde na bucha:
                — Caboclo, se fores por ignorância te perdoarei, mas se fores zombando de minha alta prosopopéia caniancra, dar-te-ei um murro no alto da sinagoga que cairás chorando aos meus pés como uma mulher perdida.      
                 Toda lenda começa assim, de uma simples e maravilhosa narração oral que cai no repertório popular como fato sucedido e que é repetido pela imaginação poética, virando tradição.  Isso se deu, também, com Águia de Haia, o ilustradíssimo Rui Barbosa.  Um relato diz que, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus amados patos, disse-lhe:
              — Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
                E o ladrão, confuso, diz:
               — Dotô, eu levo ou deixo os pato?
                Todo homem rude, que chama atenção pelo feitio quixotesco, mas sendo dotado de uma rara inteligência, aprimora-se pela escola da vida, pela lida na roça e sempre se sobressairá no manejo das palavras ou no dom da arte, feito um Patativa ( Se um doto me perguntá / Se o verso sem rima presta, / Calado eu não vou ficá / A minha resposta é essa: / — Sem rima, a poesia / perde alguma simpatia / e uma parte do primô / não merece munta Parma / é como corpo sem arma / E como coração sem amô). No improviso das palavras, utilizadas pelo Galo do Tourão está a mais pura prosa que brota da emoção, como ao chegar ao mercado para comprar um cambo de peixes:
                — Moco, quanto queres por um cambo desses nadantes que vivem a explorar as águas do Poti que nasce na Serra da Joaninha, atinge o Atlântico e vai até mesmo ao Pacifico?
                Ou mesmo quando viajava de saudosa Maria Fumaça para a cidade de Ipu, e replica ao fiscal do vagão após a terceira abordagem sobre uma passagem:
                — Bilheteiro, queres ter a equiessência de não incrementar a picotação desta minha autorização de viagem a qual me conduzirá à terra de Iracema, a vigem dos lábios de mel que a plebe apela para a ignorância e chama de a loira desposada do sol.
                Um homem não é só um “ter” ou um “ser” de um instante presente, é também o que ele profere e o que ele edifica sobre o torrão em que nasceu como um patrimônio cultural e humano para que as ascendências se perpetuem nas gerações futuras e fujam de um obscuro anonimato. Os discursos empolados e veementes do Sr. Antonio Xavier é um dos nossos bens imateriais que devem ser tombados. 
                Trabalhador incansável, não media esforços para sustentar uma prole numerosa, e sempre necessita da ajuda dos filhos para a árdua terefa:
                — Marclô, oh filho meu, érguide deste leito e vai aquele aglomerado público que os imbéceis chama de mercado e compra duas massas côncavas e convexas que servirão de alimento vitais e que a peble apela para a ignorância e chamam de cuscuz.
                Por motivos diversos corremos o risco de perder tudo que temos até mesmo a nossa preciosa liberdade, pois um agir não é só determinado por um constrangimento exterior mas também de acordo com nossas necessidades interiores. De uma feita, na prisão, o Galo chama seu filho:
                — Marclô, oh filho meu, vai a tua casa e diz a tua mãe, que é a minha legitima esposa, que eu não estou preso, estou apenas détido, que os imbécieis apelam para a ignorância e chamam de detido.
Suas refutações espirituosas sempre provocam um riso espontâneo nos lábios de quem o ler, como o que ocorre agora com você, meu amigo leitor, e é de se esperar que, lá de onde esteja, com seu agastamento peculiar, ele nos responda:
 - Sujeito inculto, se ris de minha prosopopéia por tua estúpida ignorância, eu te perdoo, mas se zombas com desdém por tua alma tosca, dar-te-ei um cocorote no alto da tua sinagoga que ficarás a ver estrelas.
Mas isso não acontece, e ele permanece calado, na sua maneira elegante, no seu garbo de um fino dândi, a nos mostrar que o silêncio, às vezes, é a melhor resposta...

Raimundo Candido

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Lenitivo

Lenitivo

Já viu... a sede no mar
e na fartura a fome?

Já viu... no claro dia um olhar
... tateando sem luz?

Já viu... um sangue pulsar
fermentando saudade?

Já viu... uma alma gritar
implorando por ti?

Se não, olhe aqui:
- a minha fome...
- a minha sede...
- o meu vago dia
diluído em lágrimas
em desespero
suplicando lenitivo
a tua lembrança...

Raimundo Candido ( Letra musicada por Ernesto )

terça-feira, 8 de maio de 2012

Balanço da alma



                                                                                                                                  Maria Nega Martins


Desejo a eternidade da infância onde a política é o brinquedo

No bom do faz-de-conta vê o stress virar pipoca

O derreter da tristeza, sorvete que amargou

Lamber o pirulito da alegria

No gosto que não acaba, na doce doçura do sabor

Homens, em especial os machistas

Elogiando o rosa do algodão doce

Assim o amor terá mais prestígio

Casando côco com chocolate

Meninos e meninas brincando de frescobol

Jogo que não se perde, jogo que não se ganha

Sob um céu de todas as pipas

Mil cores coloridas

Lá na minha rua

Ciranda, cirandeiro

Cantigas de roda que tiram as crianças da lata do lixo

Brincando da bandeira, passar o anel e do berrô

A barata voou voou

Caindo sempre na boca de quem mentir

Tentar-se em cair no poço ou do tamanco de lata

Bem-me-quer mal-me-quer

Trinta e um na mancha

Até onde as bilas do olho alcança

Rodopiando o pião, o coração vira peteca


Na saudade do balanço, brinquedo da infância

Lembranças que vão e que voltam

Vão e voltam

Vão e voltam...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Encontro




                Eu sempre desconfiei das coisas do mundo. Não acredito na estabilidade das formas sólidas, na espontaneidade líquida do que fluí com feitio brando e que me arrasta rio abaixo, com uma bravia carranca. Até da fingida desordem de um aéreo caos que se me apresenta, determinando o que vejo, eu duvido. Fizeram-me acreditar em muitas coisas bobas, como no invisível átomo carregado de partículas e que sou uma mera poeira de um imenso Big Bang a caminhar inexoravelmente para o decantado Big Crash. Incutiram-me a crer até nas mágicas fórmulas de felicidade, mas, no íntimo, eu sei que é necessário acreditar em algo bem maior, se não o viver fica desonesto.
                Há muitas razões para se duvidar dessas coisas mundanas, mas eu possuía uma forte intuição, tinha uma clara visão de que poderia haver uma interação entre a minha determinante vontade e um mundo paralelo que se reflete no espelho da minha alma, uma tábua de salvação, a existência do aprazível Éden onde posso rever a todos que um dia se foram. Para confirmar esta minha visão, um encontro me fora marcado. Agora poderia desvendar esse impenetrável mistério.
Os encontros mais importantes que se tem notícia na história da humanidade foram combinados pelas almas antes mesmo dos corpos se avistarem na casualidade. É como a confluência dos rios, somos predeterminados com bastante antecedência a entrechocarmo-nos em convergência divina, num afluxo que há muito emana de nossas mentes num curso caudaloso e propício a um novo renascer.
                Aquele fadado encontro e que há muito já estava agendado, me fora despertado numa mensagem eletrônica pelo ilustríssimo Luiz Bonfim, um aposentado de vida boa, por intermédio das ondas de uma rede social assombrosamente moderna. Certas pessoas virtuosas aproveitam estes espaços inusitados para enviarem seus sopros de esperança, como a benevolente Vera Lúcia Teixeira e o poeta-compositor Ocelio Camelo, afeitos anjos benfazejos. Na missiva virtual, o amigo Luiz, me dizia assim:
— Vá, chegue bem cedo e fique aguardando... porque eles, com certeza chegarão.
                Confesso que senti certa objeção, pois um verso de um memoroso poeta, exímio driblador da morte e apelidado de São João Batista do Modernismo, o libérrimo Manoel Bandeira, não me saía do espírito: ”Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus — ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Só os corpos se entendem, mas as almas não”. 
                Enchi-me de coragem e fui. Já escorado na esquina da Fábrica de sonhos, no prédio do velho Externato N. S. de Fátima, esperava assim meio inseguro naquela situação, mas sem a aflição desesperadora de quem não sabe aguardar. Sentia uma pontinha de impaciência, o que não deixa de ser uma fração de um pecado, pois foi a falta desta virtude que nos fez ser expulsos do paraíso.
                Repetidas vezes estendo a longa vista pelos cruzamentos das ruas em busca de algo enquanto o tempo, propositalmente, demora a transpor o umbral da tarde. De repente, meus olhos que tantas vezes viram o ocaso, extasiam-se no crepúsculo do fim da rua, foi como se alguém descesse dos últimos raios que se despediam, num vulto vagaroso, encurvado sobre um bastão e a caminhar lentamente, me pareceu que estava só aguardando o fim do dia. Foi inacreditável o êxtase e ainda duvido do que vi. Pela mesma rua que outrora fora conduzido numa rede estirada no longo varal de aroeira, o velho frade capuchinho, chamado Frei Vidal da Penha de Frescarolo, vinha ao meu encontro, os pés descalço, vestido num habito preto, e só se via a longa barba branca saindo debaixo de um negro capuz pontiagudo.  Já bem perto, com um olhar cansado, mas penetrante, me dispara uma pergunta a queima roupa, numa voz fatigada e trêmula, característica dos anciões:
— Quem é você?
Atordoado estava e mais pálido fiquei, sem forças para responder aquela urgentíssima pergunta.
— Este é o poeta Raimundinho, meu Frei, que nasceu nesta esquina e cresceu brincando neste sacrossanto espaço que agora pisamos.
O medo aumentou desproporcionalmente, pois aquela resposta, com um som tão seguro, não saíra de minha boca. Vinha da outra esquina, uma figura esbelta num caminhar firme e elegante, rosto fino, mas com uma voz que me pareceu emitida por um trovão. Só podia ter-se sublimado das partículas do ar, pois acabara de olhar naquela direção e não vira nada.
— Que prazer lhe encontrar por aqui, digníssimo Pe. Juvêncio! Viu como está a nossa rua, agora é uma Avenida bem moderna, com esse tapete preto a lhe cobrir a poeira, nem parece mais aquela estradinha dos anos de 1800. Ainda bem que não afirmei que esta terra seria uma cama de baleia e nem cresceria como o rabo de minha besta.
— Não foi digníssimo, ainda bem! Pois todas suas profecias se realizaram como estava previsto.  Eu sinto é uma imensa saudade das águas doces dos Tucuns, se os crateuenses  tivessem continuado a beber daquela divina nascente, a situação municipal estaria bem melhor, e alguns cidadãos não teriam ido, com tanta sede, beber em outras fontes, como temos notado ultimamente.
Com os nervos já se acalmando, o temor e o tremor sumindo, ouço um “Boa Noite!”  educadíssimo com uma voz doce e suave. Eu tenho a firme sensação de conhecê-la. Viro-me rápido na direção da voz e vejo o inacreditável para meus olhos, mas que alegrou meu coração, uma dupla inesperada caminhava ao nosso encontro, era Dom Fragoso, com aquele sorriso largo e sincero acompanhado de perto pelo Pe. Alfredinho, que me pareceu ter um círculo brilhante sobre a cabeça, mas foi só impressão, pois me lembrei que ele não gostava que lhe atribuísse essas coisas.
— Está tudo bem, Raimundinho?
— Tu... tu...  Minha voz estava presa e meus olhos deviam perecer umas bilas de gude de tão arregalados. Ele mesmo continuou a falar.
— Fiz uma visitinha aos meus velhos aposentos já que o governo espiritual desta diocese está se mudando. Transmita aos nossos amigos que desejo que o novo Presbítero nem seja tão carne nem tão peixe e cuide bem do nosso rebanho.
Aproveitando a ocasião, tentei balbuciar uma pergunta importantíssima sobre uma questão de saudade, e percebi um disfarçado sorrir afirmativo na sua face, entes mesmo de ouvir a minha pergunta, quando uns estampidos de fogos pipocaram no ar.
Despertei assustado, os estrondos deviam ser os fogos da Igreja convidando os fiéis para alguma festa religiosa ou alguém avisado aos incautos da chegada de algo muito bem aguardado.
Mesmo acordado, tive a impressão de ter ouvido um quarteto se despedir em coro, anunciando ao longe:
— Não dê crédito aos artificiosos sussurros que existem por aí, Raimundo, nem se importe com as ilusões da matéria, siga o único caminho da fé que você chegará a Deus e poderá viver plenamente. Até o nosso próximo encontro!
E um agradável silêncio, como um amém bradado dentro de uma Catedral, ainda ecoa no imenso espaço vazio da minha mente.

Raimundo Candido


sábado, 5 de maio de 2012

Mais um escritor de Crateús selecionado em concurso do PAIC

 
O Programa Alfabetização na Idade Certa divulga o resultado do 3º Concurso Literário do PAIC que selecionou 36 textos de escritores cearenses para comporem as próximas coleções PAIC, PROSA e POESIA de Literatura Infantil. São 12 textos por categoria: Categoria 1 para crianças de 04 a 06 anos, Categoria 2 destinada às crianças de 07 e 08 anos e Categoria 3 para crianças de 09 a 10 anos.
Seguindo os passos já trilhados por Elias de França, que tem dois livros nas Coleções anteriores do PAIC, Lourival Mourão Veras, membro da Sociedade Amigos da Biblioteca Norberto Ferreira Filho (SABI) e da Academia de Letras de Crateús (ALC), foi um dos escritores escolhidos para compor a próxima Coleção. Seu texto foi inscrito na Categoria 2, destinado a crianças de 07 a 08 anos, e leva o título de Matilde viu o Maracatu.
A Seduc parabeniza os candidatos selecionados e comunica que entrará em contato para dar prosseguimento à ação de publicação das coleções.


Veja: RESULTADO

Fonte:

sexta-feira, 4 de maio de 2012



                                              AMIGO DO HOMEM

Uma corda se alonga do teto. Dentro dela, na crepuscular solidão, a cabeça emite um comando. O cão empurra a cadeira.

Silas Falcão