quinta-feira, 5 de abril de 2012


                                                                             Felicidade
Alguém disse, insciente e precipitadamente, que a recordação da felicidade não é mais felicidade, somente a lembrança da dor, ainda é dor, uma assertiva dura para um saudosista que teima em viver de um feliz aroma do passado. Outra vez me pego acomodado numa confortável rede-divã, revendo algumas desbotadas fotografias, mas não tão velhas assim, e percebo que delas ainda irrompem algumas gotas de felicidades, contradizendo a assertiva daquele indolente e excêntrico autor.
                De um pálido retrato saltam três ingênuos sorrisos a revelar cristalinas almas nas primeiras revoadas da vida. Sinto as palpitações dos ardentes coraçõezinhos impulsionando seus passos a uma longa jornada. Será a procura da felicidade? Acho que sim! Pois ser feliz é provavelmente a maior busca, o maior desejo da humanidade, por uma ventura que ninguém sabe o que é, mas todo mundo compreende o que significa.
                É como aquela noção física de calor, lá da termologia que tortura os estudantes nos exames de vestibulares, definida como uma quentura que nunca se tem, mas carrega todas as circunstâncias para sua cálida existência a transitar de um abrasador corpo a outro enclausurado numa tíbia frieza.
                É uma condição que sempre intrigou a humanidade e tem tirado o sono de muitos psicólogos, neurocientistas, filósofos e aluados poetas fascinados pelo brilho momentâneo e transitório deste momento de contentamento. Dizem que, por baixo de sua complexa aparência carregada de dificuldades, há uma trilha simples e fácil de seguir: é só ter alguns amigos sinceros, praticar atividades que exijam concentração e dedicação completa, exercer controle sobre a própria vida, ter um sentimento de gratidão para com as coisas e as pessoas de índoles boas que aportam em nossas vidas, cuidar bem da saúde e, principalmente, amar e ser amado, muito simples não! Nada de sair ganhando em Mega-Senas, se exibindo em potentes carrões, viajar em magníficos iates ou festejar a vida em grandiosas mansões. Não se preocupe com as coisas que estão além do poder da sua vontade, dizem, ensinando o caminho. Ela, essa tal de felicidade, também não é uma questão de intensidade, mas de equilíbrio e ordem, ritmo e harmonia.
                Atualmente é um assunto tão seriíssimo, que obrigou a Organização das Nações Unidas a legitimar mais uma taxa para medir o desempenho e desenvolvimento Humano: O Índice de Felicidade para aferir o bem-estar dos povos nos mesmo molde que o produto interno bruto (PIB) que determina quem é rico ou é pobre. Este padrão holístico que vai ser discutido nas areias quentes de Copacabana no Rio+20, em junho 2012, na Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável, certamente não será comensurado como um taxa de glicemia para diabéticos ou de triglicerídeos para os cardíacos.
                  A felicidade terrena, que deve ser uma pontinha daquela eterna bem-aventurança que nos aguarda como recompensa lá no céu, faz com que mesmo estando tristes fiquemos felizes, pois a verdadeira felicidade é uma calma, é uma consciência, é um talento para aturar o inevitável e ficar debochadamente admirado consigo mesmo, só por está surpreendentemente vivo. Esta boa e serena felicidade está conosco o tempo todo, nós é que muitas vezes não damos a menor bola pra ela...
Pelo melancólico olhar continuo aspirando a luz diafana da desbotada fotografia que conserva uma alegria infantil de um trio pueril, com seus cândidos sorrisos a me aquecer o coração. São meus filhos que partiram em revoada, mas sinto aquela felicidade sem motivo como uma pluma que o vento leva pelo ar e que também me transporta, visto que passei a acreditar, sinceramente, naquilo que não se ver e não se pode tocar. Hoje, deixo-me ir, e sigo feliz não me importando a que porto tenho que chegar.

Raimundo Candido

Karla Gomes (Kafka) disse...

Amigo Raimundo,
muitas são as receitas para encontrar, viver, alcançar esta tal felicidade, mas o poetinha disse lindamente:
"A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor"

Maravilhosa crônica!

José Alberto de Souza disse...

Nestas idas e voltas, as nossas vidas
são como caravelas em revolto mar,
mastros quebrados, rasgadas velas,
cascos maltratados nas tormentas,
mesmo assim elas seguem paralelas,
tentando sempre manter o rumo,
à procura de um porto aonde chegar...



Luzia Neide Coriolano disse...

Nem é mais so poesia, e emoção e essencia. Pita, Cândida e Kid então fechou a beleza e pureza a infância desses lindos! Amei, valeu, mano do coração.

Pitágoras Teixeira disse...

A felicidade de ter um pai grandioso, que nos faz ter orgulho de ser seu filho. Eu agradeço a Deus por ele ter nos dado um poeta, professor, mas acima de tudo um grande pai, que me deixa super orgulhoso em vários aspectos, e digo que hoje e sempre vou te amar.



                                        O FUNDO FALSO DA VERDADE

De longe ele o vigiava. Felino nos movimentos seguiu os passos do outro. Olhou em volta. Rua deserta. Avançou.
– Passa a sacola.
– Mas não tem nada de valor.
– Tem. Vi o que você guardou dentro dela. Passa a sacola ou atiro.
O velho de andar de ave obedeceu.
Rapidamente conferiu o conteúdo da sacola. Sorriu guardando a reluzente pistola na pasta executiva em couro legitimo e saiu veloz.
Só em casa é que percebeu que o dinheiro era falsificado.

Silas Falcão

quarta-feira, 4 de abril de 2012


O FELINO
 De manhã, antes do sol despontar no horizonte,  Irisbela saiu do sono, levantou-se,desarmou a rede de fios brancos entrelaçados, a pouca distância das outras, na oca  ,recolheu-a e se encaminhou para o rio. Ao tomar banho, imergindo com vagar o corpo na água,volveu à aldeia,comeu peixe moqueado com beiju, de cócoras, e saiu.
Irisbela deixou a taba, habitação do pai Pajaci, da mãe Liraquim, e caminhou para o interno da mata, endereçando-se à serra, lugar constantemente úmido, com permanente estação fria. Fora coletar frutos, destinados a ela, à mãe, ao pai, aos irmãos, aos primos e às primas.
Irisbela coletou bastante frutas, arrumou-as numa espécie de cesto, decidiu regressou à aldeia. Já trilhava o caminho de retorno, olhando para frente e para os lados, quando avistou um filhote de jaguar, gemendo, estendido no chão coberto de folhas secas, ao  lado de uma árvore. Parou, saiu da sua rota, aproximou-se dele, percebeu que estava ferido. Havia sofrido um tiro na pata direita, perdia muito sangue.
Ao lado da cria, a poucos metros, achava-se a mãe, onça pintada, espichada no solo da floresta, sem vida. Vários tiros, vindos  de diversas direções, haviam atravessado o pescoço do animal que tombou,morta. Irisbela inferiu que foram os caçadores brancos, filhos de terras estrangeiras, os matadores da fera. Mataram-na para se livrarem do ataque mortífero. Praticaram um grande mal. Deixaram o filhote ferido, privado de mãe, não sobreviverá na floresta. Será uma presa indefesa na mata referta depredadores.
1
Irisbela, filha de Pajaci, condoeu-se do felídeo, filho da onça pintada. Não era bruta, era humana, tinha sentimentos. Não podia abandoná-lo. Se o deixasse ali, só e desprotegido, não escaparia à sanha dos predadores da fauna. Logo,logo, faria parte da dieta deles. Resolveu salvá-lo.
A silvícola pôs o cesto com frutos no chão, tomou o filhote nos braços, mimou-o como se fosse um filho. Acariciou-o, beijou-o, com lágrimas caindo dos olhos. Julgou-o bonito e imaginou que, se fosse possível, queria gerar num venturoso dia, após amar seu esposo póstero, um rebento tão formoso quanto o felino órfão. Depois olhou atenta para todos os lados da flora e, percebendo que ninguém a via, rumou para um lugar seguro.
Dirigiu-se à gruta onde costumava brincar com crianças aborígines, suas amigas, filhas da aldeia. Entrou, apanhou todas as pedras dispersas, depositou-as num canto. Fez, no fundo da gruta, uma cama de folhas e varas, nela depositou o felídeo. Limpou seu pelo mosqueado, manchado de sangue, tratou-lhe os ferimentos, deu-lhe comida para recuperar-se e crescer robusto.
Feito isto, tornou ao cesto de frutos, ergueu-o, depositou-o na cabeça, endereçou-se à aldeia. Chegou com atraso demais de uma hora. Não contou à mãe, ao pai, às amigas, sobre o filhote encontrado ferido. Receava que eles, se informados, fossem à gruta para maltratá-lo ou matá-lo, sem um motivo capital. Era um segredo, e só ela, o céu, a terra e os espíritos, seus protetores, sabiam.
Todo dia, pela manhã, Irisbela despertava antes dos outros autóctones, dirigia-se aos animais domésticos que alimentavam os filhos, fazia a ordenha, recolhia o leite  numa cuia, levava-o para o felino. Abria-lhe a bocarra, introduzia nela o leite através de um cipó oco que servia de canudo. O animal sugava o cipó com satisfação. Depois, ao chegar à idade de rejeitar o leite, ela levava carne para ele, patas, vísceras  e cabeças de caças abatidas pelos aborígines. Bem alimentada, a fera cresceu saudável, fez-se vigorosa, pronta para enfrentar os perigos postos pela natureza.
Ao fazer-se adulto, Irisbela descerrou a bocada gruta, tirando a pedra para soltá-lo. Ele havia ficado enorme e precisava de mais carne do que a encontrada ao alcance da boca. A selvagem compreendeu que não podia suprir as necessidades do animal crescido; resolveu libertá-lo. Livre, o felídeo embrenhou na flora, procurando a sobrevivência  nos pontos onde houvesse as maiores quantidades de mamíferos grandes e gordos.
2
O jaguar adentrou a mata, sabendo que ele e sua dona, irisbela, eram amigos para sempre. Devia a sua vida à generosidade da silvícola e prometeu, a si mesmo, defendê-la do perigo em todo o tempo.

Raimundo Candido disse...
Primeiro capítulo de um dos quatro romances inéditos do escritor Gilberto Pereira Santos (Professor do Ceja-Crateús). Este é num estilo alencariano, os outros romances são machadianos puros, confirmando o que tenho dito: - Aqui é um grande celeiro. E aí de quem duvidar!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

                                E A FRANÇA DEPORTARIA PICASSO?

Há algumas semanas li um livro sobre um dos momentos mais interessantes do século XX: as aventuras da arte moderna de 1900 a 1930 em Paris. Nós conhecemos muito ou pouco desse momento (quem assistiu ao filme “Meia-noite em Paris” de Woody Allen sabe do fascínio que esse período, especialmente os anos 20, exerce sobre nós): quem não queria beber e conversar com Modigliani, Picasso, Apollinaire, Hemingway, Soutine, enquanto se explorava os bares de Montmartre e  Montparnasse? Muito da aura poética de Paris surgiu desse período. Paris do surrealismo, da arte abstrata, Paris dos bares, cabarets e cafés, das galerias, Paris berço da boemia. Mas uma coisa é interessante de se observar: a maior parte desses artistas que ajudaram a construir o mito de Paris como destino inultrapassável das artes eram estrangeiros.
O autor desse livro tem uma tese sobre o que aconteceria com esses artistas estrangeiros na Paris atual: “Eles escolheram viver em Paris, cidade fraternal, generosa, que soube oferecer a liberdade a esses povos vindos de fora. Hoje, Picasso, Apollinaire, Modigliani, Cendrars e Soutine não estariam mais aqui. Eles teriam sido rejeitados para longe do Sena. O espanhol por uso de drogas, o ítalo-polonês por dissimulação, o italiano por escândalo na via pública, o suíço por roubos na estalagem, o russo por miséria crônica e mendicância disfarçável à duras penas”. Essa tese parece ser muito dura: Paris (e, claro, a França) se tornou rígida demais e, sobretudo, intolerante com os estrangeiros. Mas isso é o que nos dizem os debates políticos daqui, enormemente dominados pelo tema da imigração. Virulências que não partem apenas da extrema-direita xenófoba do Front National, mas escondidas na plataforma do Partido Socialista.
As festas épicas organizadas em Paris pelos artistas do começo do século seriam hoje consideradas casos de polícia. Quando os boêmios de Montmartre declararam sua independência, quando os artistas em peso se fantasiaram com as roupas do exército francês da época da comuna de Paris e desfilaram pelas ruas levando garrafas de vinho (o objetivo era fazer uma barricada no apartamento que Poulbot alugava para impedir que o proprietário colocasse o pobre pintor na rua), eles não sofreram repressão. Mas hoje as coisas seriam radicalmente diferentes: declarar uma parte de Paris independente, mesmo que num mero ato estético de distinguir esse bairro de artistas dos outros da burguesia afetada, seria considerado um insulto à Pátria, talvez até uma questão de segurança nacional.
            (Em sentido horário, Fitzgerald, Gertrude Stein, Hemingway e Picasso)
Esses artistas estrangeiros não teriam mais a liberdade dessa época: em primeiro lugar, eles não poderiam mais vir morar em Paris sem que antes especificassem qual o objetivo de sua estadia e por quanto tempo permaneceriam. E deles seriam exigidas a comprovação de condições financeiras, um endereço fixo (coisa que quase nenhum deles tinham) e outras coisas que permitissem que o estado os pudesse rastrear mais facilmente. Vir à Paris para escrever e pintar? Só através das cada vez mais parcas concessões de bolsas de estudo. E mesmo se conseguissem, que escrevessem à la Beat generation, rapidamente, pois o tempo é curto. Se quisessem festejar a vida, que o fizessem com menos barulho possível, pois em Paris os decibéis são rigorosamente controlados. Morar em Montmartre e Montparnasse? Esqueça, esses são dois dos bairros mais caros, com o valor do aluguel de um ateliê (leia-se kitnet) ao redor de 1000 euros. Muito provavelmente esses artistas estariam morando nas periferias mais distantes, onde os estrangeiros pobres são engavetados (e onde a vida noturna é praticamente inexistente). Morar em pensões, pagas quando podiam e das maneiras mais inusitadas? Sinto muito, elas não existem mais: tornaram-se hotéis. Fazer bicos para comprar o vinho diário e ocasionalmente uma refeição quente, como a maior parte deles fazia? Só se tiverem a sorte de ter impresso no visto uma pequena autorização de trabalho. Vender as pinturas nas ruas, como fazia Utrillo nos momentos em que a fome apertava? Dirija-se à prefeitura para conseguir a autorização (e comprove que você não está na França ilegalmente, o que era o caso do Utrillo).

(Pintura de Utrillo “Rue Custine a Montmartre)
São tantas as diferenças entre a França daquela época e a de hoje… Talvez alguém pudesse dizer que essa França do começo do século XX é precisamente isso, uma França de outros tempos. Mas o fato é que ela mudou para pior. E as coisas estarão cada vez mais sombrias num futuro muito próximo: se hoje o único caminho para algum escritor ou artista vir à Paris é através de bolsas de estudo, em breve essa porta se tornará uma janela. A circular Guéant, idealizada por um ministro abertamente xenófobo (que declarou há alguns meses que a civilização ocidental é superior às outras), vai reduzir drasticamente a entrada de estrangeiros que pretendam estudar na França. A desculpa: a França não quer contribuir para a pilhagem de cérebros estrangeiros.
As pesquisas eleitorais nesse mês que antecede as eleições presidenciais mostram que a direita vencerá. E, mais assustador ainda, a extrema-direita receberá milhões de votos. A França de hoje é mais intolerante, fechada. E o governo já declarou sua intenção de sair do tratado de livre-circulação da Europa. Esses artistas de países vizinhos seriam barrados ou deportados, e os de países distantes receberiam apenas o visto de turistas (se mostrassem condições financeiras para tal). Imaginam Picasso deportado?


                                                               Yuri Falcão

Raimundo Candido disse...



Que pena! Aquela glamourosa e poética Paris não mais existe, e que santa ingenuidade a minha! Uma Europa inteira morre aos pouco, como um ovo podre, corroída pelo medo do mundo e implode sobre com sua desumana soberba. Obrigado Yuri, por nos mandar notícias deste velho mundo cada vez mais antiquado e mais distante.
Raimundo Candido

sábado, 31 de março de 2012




            Hoje: 48 anos do golpe militar no Brasil. Não há motivos para comemorar. Pelo menos do lado de cá. Os reacionários, conservadores, ultra-direitistas, fundamentalistas de idéias conservadores devem estar saudosos.
        Foram 20 anos de trevas sobre o país até os primeiros raios de luz das Diretas Já. Da "ditadura técnica" do abjeto Collor até a esperança de Lula chegamos a uma democracia. Não é a democracia que queremos, que sonhamos, mas é uma democracia, e mesmo com os defeitos, que precisamos combatê-los, o país é uma república federativa presidencialista.
        Vivemos duas décadas de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de "suicídios", de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar. Há mais de quarenta anos que pais não têm seus filhos de volta, que filhos não conhecem seus pais, que brasileiros perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos. A tortura como instrumento do Estado, e não da lei, foi uma marca registrada do governo militar.
         Em 1998 realizei um filme curta-metragem, "O último dia de sol", ambientado nesse período. Com roteiro a partir de lembranças minhas sobre o meu pai e histórias que ouvia, o filme se passa na madrugada de 1º de abril de 1964, quando um militante político foge com a mulher e o filho pequeno numa pequena cidade do interior cearense. Filmei em preto-e-branco, em película 35mm, com atores e técnicos de Brasília, Fortaleza e Rio, na pequena cidade de Baturité, a 100 quilômetros de Fortaleza, reconstituindo a época e revisitando as emoções. Foram dois anos entre filmagem e montagem, e junto a alegria de fazer cinema, de ouvir o toque da claquete e gritar "ação!", as dificuldades inerentes, principalmente de orçamento.
         Neste 31 de março, a minha homenagem aos que lutaram contra a ditadura escancarada.


(NIRTON VENÂNCIO, escritor, poeta, cineasta crateuense radicado em Brasília, autor de Um cotidiano perdido no tempo, curta, ficção, 1988 - http://www.youtube.com/watch?v=zJei8g7I50g)
Lançamentos fazem parte das comemorações dos 50 anos de existência do poeta e compositor
Fortaleza. O CD "Entre amigos, poemas e canções" e a reapresentação do livro "Nos Cafundós do Sertão", do poeta e compositor Dideus Sales, foram lançados, ontem, no Museu Jaguaribano, em Aracati. O evento integra as festividades dos 50 anos de vida do artista cearense.
Ambas as obras têm como temática o regionalismo e forte inspiração no cordel, especialmente o livro "Nos Canfundós do Sertão", que teve o lançamento de sua 13ª edição, revista e ampliada. A publicação é composta por um só poema, feito em homenagem ao também poeta Patativa do Assaré em vida, e cada estrofe recebe ilustrações do artista Audifax Rios.
Já o CD é composto por 12 poemas, que foram musicados por Rogério Franco, Claudio Ferreira e Tião Simpatia. Também assimilam a temática regional, à exceção de Estação Perdida, cantado por Lorena Nunes, que aborda o mundo existencialista vivido pelo autor.
Segundo Dideus, a homenagem que aconteceu no Museu Jaguaribano foi uma forma de comemorar o meio século de existência e ainda difundir mais a poesia e a música nordestina. Na ocasião, a apresentação coube ao membro da Academia Cearense de Retórica, Barros Alves.
"Para mim, é uma alegria imensa essa iniciativa cultural, porque estou expandindo minha produção criativa e tornando-a mais próxima do povo", disse o poeta.
Inspiração
Dideus nasceu em Crateús, no sertão dos Inhamuns, e vive há 16 anos em Aracati. Desde cedo, teve grande inclinação para a manifestação artística.
"Tive uma convivência muito próxima com Patativa, em sua casa em Assaré. E viajávamos juntos, aumentando ainda mais sua influência sobre meu trabalho", disse.
Além de Patativa, outros autores que influenciaram Dideus foram Ivanildo Vila Nova, Pedro Bandeira e Hernandes Pereira. Para o autor, cada um desses poetas contribuíram para sedimentar sua vocação e persistir numa carreira, onde sempre foi permeada pela observação, contemplação e exaltação dos temas sertanejos.
Dificuldades
O autor reconhece que há um certo mito quando se fala em dificuldade para se prosseguir na carreira artística, especialmente como poeta popular.
Lembra que é autor de 13 livros, todos com edições esgotadas. Além disso, salienta que sua obra tem um reconhecimento que lhe é muito caro pela relevância cultura, que é fazer parte da Academia Brasileira de Literatura de Cordel. "Acredito que quando um artista tem uma obra consiste, ele não deve se preocupar com o fracasso. No meu caso, sou feliz pelo êxito obtido", afirmou o escritor.
Tanto o CD quanto o livro foram vendidos por R$ 30,00, durante a noite de lançamento no Museu Jaguaribano.
Hoje, haverá ainda o lançamento de mais uma edição da revista Gente de Ação, também como parte das festividades do aniversário de Dideus. Para ele, é um tempo de muita alegria e satisfação, que compartilha com amigos e com os amantes da poesia popular.
Mais informações:
Contatos com o autor dideussales@bol.com.br
Telefones: (88) 9612.7384 e (88) 8802.7595
                                                

                                          III DIMENSÃO

Ela, na praça do centro da cidade, ao lado da filha. Menina loura, olhos azuis, sorriso inflexível.
Todo dia, o dia todo, ela senta ao lado da filha de 6 anos, desaparecida há quinze anos.

quinta-feira, 29 de março de 2012


Harley, o Palhaço Cara-Melada

Desde quando a feiticeira Circe, a filha do sol, transformou os companheiros do herói Ulisses em porcos saltitantes, ao desembarcarem nas areias quentes da Ilha de Eana, que já se falava em circo, pois foi quem cedeu o nome a este anfiteatro de delírio e encantamento.
A partir dos monumentais espetáculos de arenas no Circus Maximus, em Roma, onde as multidões se juntavam para assistir as corridas de bigas, os duelos de gladiadores e os estrondosos rugidos de animais selvagens, onde os atônitos espectadores se impressionavam com os engolidores de fogo, foi que se provou que a humanidade necessitava, desesperadamente, de panem et circenses.
Hoje, as organizações teatrais modernas iniciam um espetáculo com um mantra que invoca à deusa da alegria, Eufrosina, a quem chamamos Oxum, para presidir todo evento de diversão e arte: Alegria! Como um raio de vida...  Alegria! Como um palhaço a gritar... Alegria! Como uma faísca de vida brilhando...
Tudo em nome de um sublime e medicinal sorrir, essa fina flor que vai brotando em nosso rosto, regada pelas lágrimas de um refulgente palhaço e que o iluminado poeta um dia sentenciou: Sim, vale a pena sorrir, pois o mundo é um espelho, se sorrires para ele, ele sorrirá pra ti.
Quando os saltimbancos passaram a viajar, de cidade em cidade, levando suas pilhérias cômicas, suas surpreendentes pirofagias, seus inacreditáveis malabarismos e os comoventes teatros, foi que o circo começou a viver os seus dias de glória, capaz de unir crianças e adultos, nobres e plebeus, neste grande momento universal.
Mas o mundo do show business, girava apressadamente, explorando com gulosas pedras mós as performances criadoras e só para lhes arrancar uns cobiçados tostões, numa indústria que visa unicamente o vil metal. O que não sangra como borbulhante lucro, cedo morre. Como o maior espetáculo da Terra, com seus anfiteatros de malabaristas, de contorcionistas, de equilibristas, de mágicos, dos maravilhosos palhaços, este encantador circo, que hoje exala seus últimos suspiros.
Se o circo é alegria, o palhaço é o verdadeiro mágico deste espetáculo, arrancando risos de uma imensa platéia como fizeram os Carequinhas, os Arrelias, os Torresmos, os Piolins e o nosso queridíssimo Cara-Melada, o acrobata da alegria que, mesmo sem mascara no rosto, ainda sorria e seguia mentindo a sua dor...
Naquele remoto dia, o jovem Harley, encantado com um grupo de hippies “paz e amor” que passavam pela cidade, resolveu partir. Deliberadamente abandona os livros no colégio e de lá os segue numa fuga em busca de um tesouro perdido. E como ocorre com os velhos sábios, dentro de si mesmo o encontra: o divertidíssimo Palhaço Cara-Melada!
Quando alguém desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, até o universo conspira a seu favor, como dizem, e foi o que ocorreu com o amigo Harley que depois de perambular como peão de diversos circos importantes deste imenso País, volta a sua terra natal para montar o Retalho Show Circo, lentamente erguido de pedaços de madeiras, retalhos de lonas, diversos materiais reciclados, mostrando que tudo que é feito de coração a luz do amor o reveste.
O palhaço Cara-Melada, como o eterno Carlitos, foi um comediante nato, espontâneo, de alta criatividade cômica e um imenso repertório clownesco ( Você pensa que eu sou besta? Eu sou muito é otário! O publico delirava com suas tiradas). Quando entrava no picadeiro com uma bicicleta dançante, as crianças davam o primeiro tiro de gargalhadas. Além de artista completo, fazia todos os serviços do circo, desde enfincar as estacas e montar a lona retalhada, até a apresentações de números perigosíssimos, quando uma daquelas vibrantes música, a moda power, preenchia o ar anunciando o “Hércules” para entortar grossos vergalhoes de ferro no peito descoberto e rasgar pratos de ágata nas calejadas mãos de um fino artífice.
 Já o cidadão Francisco Harley, como o Charles Chaplin, era o produtor, o diretor, o humorista, o comediante, o roteirista, o pai e a mãe como ele dizia, um simplório de uma versatilidade e uma naturalidade que chagava a dormir no chão ou dentro de um lenhoso féretro que havia no circo, idêntico ao Zé do Caixão.
Eram duas personalidades fortíssimas, ambas muito talentosas, mas o palhaço Cara-Melada saía facilmente, com água e sabão.
                No relacionamento amoroso também seguiu os passos do gênio do cinema mudo, que dizia: O amor perfeito é a mais bela das frustrações, pois está acima do que se pode exprimir. Muitas mulheres passaram pela vida do Mister Harley e os frutos destes imperfeitos amores, foi brotando, um a um.
Um dia, Harley pede ao Professor Acácio, seu cunhado, um nome artístico para um filho e vem o incomum Sunshine, o brilho do sol ou o palhaço Caramelo, depois o LettheSunshine, deixe o sol brilhar, em seguida StarofTheTime, estrela do tempo e finalmente o Skylight, luz do céu, formando de um simples elenco familiar uma habilidosa trupe de circo.
O vate Fernando Pessoa, além de indispensável poeta(s), tinha lá seus dotes de palhaço, pois quando pronunciou o verso: Tenho em mim todos os sonhos do mundo, se referia também aos palhaços que riem, choram e sonham. E um dos desejos de Cara-Melada era deixar de remendar a lona do circo, já toda retalhada, e dispor de uma lona nova era seu grande sonho. 
Com o Prêmio Funarte/Petrobrás Carequinha de Estímulo ao Circo, o arteiro Harley vislumbrou a felicidade de uma reestréia debaixo de uma nova lona, mas o destino não quis, pois nem sempre a insensata sina está de acordo com nossos méritos.
Às vezes de uma simples banalidade gera-se uma grande fatalidade. Um idiota que surrupiara o filhotinho da baleia, a cachorrinha que só obedecia a comandos em inglês, ainda volta despejando infortúnio no fio da navalha. O poeta Edilson Macedo assim resumiu a tragédia no Último Ato: Harley Harley, o palhaço/ Morreu/ Após ser chicoteado,/ Com uma facada/ No abdômen   //  Na platéia/ O filho Let The Sunshine/ (o palhaço Lengo Lengo)/ Como único/ espectador .
Morrer é somente uma imprevista curva na estrada e na próxima esquina haverá sempre um novo reencontro. Por isso, a família Cara-Melada tem a satisfação de convidá-los para a reestréia do Circo de Retalho, agora num novo show feito um Circo Escola, tão logo chegue a nova lona para confirmar que o que é belo não morre, sempre se transformará em outra beleza e os aplausos atribuídos à trupe de Cara-Meladas abra os nossos corações e os risos a brotarem debaixo da coberta nova, sejam como as estrelas, iluminando a nossa intimidante escuridão.  

Raimundo Candido

José Alberto de Souza disse...

Eta, Grande Cronista do Sertão de Crateús:
De tanto acarinhar - "mundinho, mundinho" - esse crânio privilegiado, Dª. Delite deve ter preparado a sua glândula pineal para que por ali se adentrasse um espírito de luz que o guia e conduz ao pináculo da extrema sabedoria: você está a um passo da genialidade!
João Silas Falcão disse...
Bela crônica, Poeta Raymundinho. Assisti ao vídeo Harley, o Palhaço Cara-Melada. Senti saudades. Muitas. Eu e você fomos amigos de infância do Harley. Crianças, nós percebíamos a desenvoltura jocosa do menino Harley em nossas brincadeiras, como se a Rua da Cruz fosse o seu primeiro picadeiro. Não tenho memórias de tristezas em Harley. Sempre o recordo com seu sorriso ininterrupto. Muitas vezes ficamos à sombra dos fícus vizinho à casa do meu avô Severino Dias, vivendo nosso mundo infantil quando Harley arrematava qualquer assunto com uma “palhaçada”. Um dos últimos momentos de nossa infância foi a inauguração de um “circo” no quintal da casa de dona Estelinha, mãe do Luizito e José Artêmio, que eram do nosso grupo. Advinha de quem foi a ideia do circo? Poeta, esta crônica merece um arquivo especial: o do coração. Parabéns!

quarta-feira, 28 de março de 2012

Saldo da vaidade e da politicagem: decepção

 
Fim da segundona 2011: tudo era festa. O Crateús surpreendentemente ascendera à elite do futebol cearense. Ali não se viram adversidades políticas, divergências entre gestores. Parecia um todo harmônico, como uma orquestra de anjos. Loas de todos os lados para os “verdadeiros desportistas” que galgaram a façanha.
Início do campeonato cearense 2012: novamente festa: o Crateús se revela forte e guerreiro. Empata com o Guaraju em 2X2 e perde para o poderoso Horizonte de 3X2 fora de casa. No Jumelão parece imbatível: ganha do Ferroviário, do Icasa, do Trairiense... Recebe da grande mídia a alcunha de “caçulinha abusado”. Comentaristas da Verdes Mares vieram conferir se o “o bicho papão” era realmente feio, no empate com o Ceará. Dorme no G-4 por duas noites, chama à atenção da Imprensa até mesmo nos Estados vizinhos...
Aí tudo começou a mudar: oportunistas politiqueiros que nunca haviam pisado no Juvenal Melo viraram porteiros. Neodesportistas de ocasião querendo tomar os microfones dos dirigentes e posar como interlocutores dos “Guerreiros do Poti”. Até que enfim veio o recado dos “home”: ou saem os três indesejados, ou não tem mais o repasse dos R$ 45.000,00. E mandam um dos prepostos dar uma desculpa qualquer à opinião pública.
Vem a primeira goleada: 4X0 para o Fortaleza e a queda para a sétima posição, derrota para o Icasa, cedida nos últimos minutos. O alívio em três vitórias, no sufoco, inclusive contra o lanterna Itapipoca, que se não fosse o Véi... e por fim, a goleada em casa para o Guaraju de 4X1e a volta à sétima posição, de onde não sobe mais.
Pois que restam ao Crateús cinco jogos, três dos quais fora de casa; quatro dos quais contra as equipes do G-4. Se jogar bravamente, consegue, na melhor das hipóteses, dois ou três pontinhos, dos 15 a disputar. Com dez pontos apenas à frente da zona de degola, podendo ser ainda alcançado por Icasa, Guarassol e Trairiense. Não fosse a fragilidade dos adversários da parte de baixo da tabela, decairia mais ainda na classificação.
A campanha já não inspira o mesmo entusiasmo do início e a presença de público no Estádio mingua. A renda, que já ultrapassou os 40 mil, cai para cerca de 10 mil, nos jogos comuns. Correm boatos de que, com as novas contratações (Fabio Saci para que?), a folha teria ficado muito pesada e transcorre alto endividamento do clube. Tomara que verdade não seja.
Tudo por causa da exclusão dos três dirigentes? Provavelmente não. O Crateús tem um elenco modesto e recursos parcos, se comparados aos da maioria dos demais clubes do Cearense. Os resultados positivos até então são, de fato, heroicos. E heroísmo em futebol, sabe-se bem, se consegue com motivação e harmonia do grupo.
Motivação e harmonia, porém, somente verdadeiros desportistas podem proporcionar a um elenco. Neste aspecto, os três que foram “tirados”, por certo, ajudariam muito. Têm eles envolvimento político-partidário? Sim, mas quem não o tem? Retornemos ao passado deles e os veremos presença marcante nas principais conquistas do esporte de Crateús, seja nas boas campanhas do futsal, inclusive um terceiro lugar no campeonato cearense; seja nos títulos da terceirona do Cearense de campo.
Que agora os politiqueiros, oportunistas e neodesportistas de ocasião tenham a hombridade de tomarem para si a responsabilidade, não diria pelo fracasso – pois poder permanecer na elite do futebol cearense é um grande feito – mas por frustrarem a expectativa que os próprios dirigentes e treinador plantaram de levar a equipe ao quadrangular decisivo do Campeonato. Era muito? Talvez. Mas o torcedor acreditou, eu também acreditei.
Elias de França - Escritor
 

segunda-feira, 26 de março de 2012


Em Memória do velho meu pai, Chico Pinto, cearense de Ibiapaba 
( *Crateús, Ceará , 1923-  +Barreiras, Bahia 2009)

 CEGO DOS ÓIO

"Sabe quem sou eu?", ousou desafiar meu pai.”Então diga lá!”

O cego inclinou levemente a cabeça branca para a esquerda, descansou a velha sanfona num tamborete, enxugou o suor do rosto de feições fortes com um lenço de flanela, e pediu a meu pai que se aproximasse um pouco mais. Com suas mãos grandes de dedos mágicos ele apalpou os sulcos da face do meu pai, percorreu toda a extensão da fronte larga, passeou pelo nariz afilado de onde pendia o bigode cheio, se estendeu pelo queixo, seguiu a barba rala até as orelhas; e sentiu o volume do crânio como se fosse um oleiro a modelar um pote em argila.

"É Chico Pinto, não é?"

Era. acertou de primeira.

"Conheci pela cabeça, num sabe? Pelo formato. Pois é. Cabeça de cearense é diferente. Eliminei oito estados duma vez. Depois tem essa cicatriz no pé do ouvido... Foi coice de jegue, não foi? Foi estripulia de menino, não foi?"

Ambos acharam graça e folgaram. E eu fiquei ali, sorrindo, sem entender muito bem aquela conversa.

O cego, que se chamava Dantas, meu pai me contou depois, era uma lenda viva do Nordeste. Prosearam: Dantas falou das suas andanças tocando pelas feiras do sertão, e meu pai contou como fomos parar naquele fim de mundo. Então Dantas lhe disse: " Olha, Chico, eu não dou de me queixar não, mas estou ficando velho; e é de velho mesmo reclamar. Antes, era só ouvir a voz, o sotaque,  para eu identificar o cabra. Agora, tenho que assuntar bem, seguir o tato, passar a mão, descobrir as marcas, o sinais, que nem quem compra cavalo de cigano. Fosse moça nova, meu amigo, eu não me avexava. Fazia inté questão."

Riram de novo, com gosto.

Satisfeito pelo reencontro, meu pai se despediu deixando uma nota de dez na cuia do cego que o agradeceu dizendo até logo. Lembro ainda que aquele dia, de qualquer ponto da feira em que estivéssemos, podíamos ouvir o solo triste do "Assum preto cego dos óio" que o sanfoneiro cego extraia do fole. Meu pai, que o conhecia desde bem antes de eu nascer, disse-me que, assim como o pássaro da música do Gonzagão, o seu Dantas, cego dos olhos, tocava cada vez melhor.
  Raimundo Candido disse...
Chico Pascoal é um escritor cearense, crateuense em formação, com contos publicados em antologias e sites mundo afora. E leitor apaixonado. (Segundo ele, mas sabemos que é um dos crateuenses mais premiados literariamente neste mesmo mundo afora!)

sábado, 24 de março de 2012


                           
                                                    DEPRESSÃO

                                   O que poderia não ter sido e que foi.

                                  Silas Falcão

sexta-feira, 23 de março de 2012


                                                                          Pesca

Os contadores de histórias – alguns até diplomados pela SABI-Crateús e respaldados pela exímia instrutora e consagrada atriz Karla Kafka – dizem que quem conta um conto...aumenta um ponto!
Fui frequentador amiúde, até recentemente, de uma Bodega em cuja porta principal havia uma placa com os dizeres: CONVÍVIO PARA CAÇADORES, PESCADORES, CONTADORES DE HISTORIAS, POETAS E OUTROS MENTIROSOS. Foi lá que colhi incríveis ficções, todas recheadas de espetaculosas fábulas, felizmente não desenvolvi este terrível hábito de faltar com a verdade.
Passei a entender essa despudorada habilidade examinando alguns pescadores e sei que não existe essa de mentir pouco ou mentir muito, quem mente, mente, é uma consequência  patológica heteronímica de Pessoa, o poeta, que diz que o principiante mentiroso logo se converterá num profissional da lorota. Mesmo assim sinto-me bastante inseguro, pois o  grande filósofo Sócrates, se não me falha a memória, uma vez falou: Quem mais conhece a verdade é quem mais é capaz de mentir. Eita, me vem mais este increspo, já daquela época.
                Ora, se até uma complexa teoria científica respaldada pelos cabelos grisalhos do bioquímico Oparin, afirmando peremptóriamente que todas as formas de vida que perambulam por aí, descendem diretamente de uma molécula primordial que, de uma hora para outra, resolveu sair pulando das águas lodosas de um rio, fazendo com que este inconsequente biólogo russo perdesse o direito de caminhar livremente pelas ruas da sua própria cidade, ao apresentar-se com um ar todo darwiniano a medida que sua lorota ia ganhando autoridade.
Ora, ora... muitas vezes eu vi, com esses dois olhos lamurientos, saírem das águas serenas do Poço da Roça, no intermitente Poti, uns acanhados reptéis, umas lúbricas sereias que lavavam roupa nas pedras baixas, uns mirrados piaus, algumas dentuças traíras ou um roliço cangati ovado sendo puxado pelo anzol de um paciente pescador e nada mais. Mas acho que tenho o direito de coibir esse tal de Oparin de especular sobre a origem da vida.
Quem teve a felicidade de encantar-se nas margens do Poti, aprendendo com as graciosas garças, com os pacientes socós a fina arte da pescaria, passa a entender o porquê da água ser a origem da vida e é o princípio de todas as coisas, sem precisar de nenhuma teoria.
Somente quando percebemos que um poço tem seus caprichos e um rio transporta um mundo de fantasias é que revelamos as habilidades peculiares de grande arremessador de tarrafa. Como o Martin Pescador, do poeta pantaneiro Manoel de Barros, “quando, de repente, do alto da água, arregaça o cuzinho e solta sua isca de guspe. Peixe vai ver o que foi aquele guspe: antepara! De veloz arrojo Martim-pescador frecha na água, e num átimo sobe O peixe atravessado no bico! As águas remansam e rezam. Esse martim-pescador é fela.”
Um povoamento que começou com uma denominação de peixe, Piranhas, é para ser mesmo bem desenvolvido na arte da pesca. Naturalmente, pelo seu imenso rio, a espinha dorsal da região, que desce da Serra da Joaninha como um fiozinho d'água e cresce impetuoso e rouco, um Itaimanssu que vai se revestindo no serpenteado Poti, sedento, a ingerir as águas dos inúmeros riachos e deixa, aqui e acolá, alguns poços repletos de peixes pelo sertão ou se desenvolvendo artificialmente, pelos inúmeros criatórios de piscicultura que se propalam pelos açudes da região.
Quando o açude da Água Branca foi abastecido com milhares e milhares de alevinos de tambaquis, um escamoso e arredondado peixe da Amazônia que adora comer frutas, rapidamente a semente transformou-se em fruto maduro e a partir daí foi uma festa para os pescadores. Uma linha grossa, de meio milímetro, equipada com um anzol do tamanho de um dedo médio era o suficiente para fisgá-lo. A goiaba, partida ao meio, era um petisco para o colossal pacu vermelho. Mas algo estava errado, todos com a mesma linha, o mesmo anzol, a mesma isca e somente Seu Felício, o filho do Compadre Caboclo, conseguia apanhar o peixe do tamanho de um bode e arrastá-lo para fora d’água. Alguém, sorrateiramente, se aproxima do felizardo pescador, descobre seu segredo e sai alardeando: O Felício está é para morrer de fome, morde a metade da goiaba e coloca o resto como isca. Os outros pescadores matam a charada, observam que a faca que usavam ia deixando um azinhavre na fruta e o peixe a rejeitava. Em pouco tempo estavam todos comendo goiabas e pegando tambaquis à vontade.
Ali, por perto, havia outro convidativo açude, também semeado de peixes em abundância: tilápias, carpas, tambaqui, afora a gostosa curimatã de meio quilo cada, um lugar adequado para se pescar. O problema era que o dono sempre vigiava, madrugada adentro, numa oscilante canoa ancorada bem no meio do açude, equipado com colchonete de dormir, uma boa lanterna e um potente papo-amarelo do lado, quem se atreveria a ir pescar!  O Fanhanhã foi! 
Um exímio pescador, conhecedor de todos os mistérios da pesca. Aprendera com o paciente Socó-boi e o preciso Martim-pescador, dizem até que era filho de Ártemis, a deusa da caça e da pesca, e que era bem afeiçoado de São Pedro, o protetor dos pescadores. 
A água do açude estava fria e serena por aquelas horas da madrugada, e como um aquático quelônio vagarosamente, sem muita pressa, para não perturbar a paz do ambiente, desliza sobre a superfície distribuindo dezenas de metros de fio de náilon em rede de pescar. Um pescador vive grande parte de seus dias numa individual solidão, aprendendo a esperar, e a melhor hora de pescar é do pôr-do-sol ao amanhecer, nem tão cedo que não haja luz bastante para a transparência da água nem tão tarde que a viração do dia abale a serenidade do aquático santuário. A despesca de um galão deve ser feita na tranquilidade do lar, tomando um gostoso cafezinho quente, tendo a visão exata do que se pescou. O finório pescador ainda deixou uma mediana tilápia, dentro da canoa, para o desenjum do raivoso papo-amarelo.
Agora vocês me dão licença, já chega de tanta lorota por hoje,  que vou colocar a minhoca n’água, na beira do rio Poti, pois toda pesca também se assemelha à poesia e, como o fanfarrão Fanhanhã, também nasci pescador.

Raimundo Candido

José Alberto de Souza disse...
A glória de todo mentiroso é quando duvidam do que conta como aquele sujeito que tinha um pesqueiro abundante e os outros ao redor não pegavam nada. Até que um dia descobriram o seu segredo: ele molhava miolo de pão na cachaça e atirava n'água, os peixes se embebedavam e ficavam por ali mesmo, abandonando a tocaia dos outros pescadores... "Mas eu juro que é verdade!"

César Vale disse...
Por que você não envia este primoroso conto ao senador Crivela, que também é o ministro da Pesca? Talvez, ele que só entende da pescaria de dízimos para a Igreja Universal, possa tomar boas lições de como fazer uma boa pescaria. E você, querendo, pode tornar-se seu principal assessor para assuntos do Rio Poty e trazer logo a verba integral para a construção do Lago de Fronteiras. Aí,vamos ter também surubim, pintado, tucunaré, pacu vermelho e outros tantos. Com o lago, poderemos fazer um criatório de cavala, garoupa, pargo e cioba, bastando para tanto, trazer sal de Mossoró para salgar parte das águas da barragem, se4m prejudicar a produção de mandi, corró, piau e cará, peixinhos para a panela do pobre. Faz isso! César Vale

quinta-feira, 22 de março de 2012

Três escritores de Crateús lançam livros amanhã em Fortaleza


Elias de França (Presidente da Academia de Letras de Crateús), Lucas Evangelista (Tesouro Vivo da Cultura Cearense) e Lourival Veras (membro da SABI) estão entre os escritores cearenses que terão suas obras lançadas amanhã, pela Secult, na Praça do Ferreira, em Fortaleza.

Produção literária do Estado aquecida por novos títulos 

Em breve, 100 novos autores cearenses devem ter seus nomes arrumados em estantes de bibliotecas, livrarias e outros espaços dedicados à leitura no Estado, a partir do lançamento coletivo das obras financiadas pelo Prêmio Literário para Autor Cearense, cujo resultado foi divulgado recentemente.

O prêmio representa o maior investimento em produção literária já realizado pelo governo estadual, e o maior oferecido no Brasil em valor global - ao todo, R$ 2 milhões. De 317 inscritos, 110 proponentes foram selecionados e desenvolveram suas obras ao longo de 2011. Amanhã, o resultado poderá ser conferido de perto pelo público, em um espaço de exposição e de manuseio montado, na Praça do Ferreira, a partir das 15 horas. A cerimônia de lançamento, com presença do secretário da Cultura, Francisco Pinheiro, e demais autoridades, acontece em seguida, às 17 horas.

"Os outros dez contemplados ainda estão finalizando seus trabalhos, que devem ser disponibilizados em breve. Mas como já tínhamos marcado a data, fechamos o lançamento sem eles", explica o coordenador editorial da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) e responsável pela elaboração do edital, Raymundo Netto.

Idealizado pela Secult ainda na gestão do então secretário Auto Filho, em 2010, o prêmio tinha por objetivo estimular a produção e valorização dos autores e editores radicados no Ceará, promover a circulação do livro, preservar o patrimônio literário e incrementar a produção editorial estadual. Tratou-se de uma ação pontual do órgão, ainda sem previsão de se repetir.

"O valor investido foi muito grande, especialmente se comparada àqueles normalmente destinados à produção literária. Felizmente, também conseguimos contemplar um número grande de pessoas, o que revela o potencial do Ceará na área. É preciso dar visibilidade a esses resultados, pois eles justificam a realização de novas edições da ação", avalia Netto. Segundo o coordenador, foi a primeira vez que os contemplados receberam prêmio em dinheiro, além da verba para publicarem os trabalhos (que variou entre R$ 2 mil, para folhetos de cordel, e R$ 100 mil, para livros ou álbuns de arte).

Outra diferença importante foi a contemplação de gêneros até então ignorados pelos editais de literatura, como quadrinhos, revistas literárias, álbum ou livro de arte e selos editoriais. Além dessas, mais 10 categorias constaram no edital: poesia, conto, romance, crônica, reedição, cordel, ensaio sobre tema cultural, ensaio ou crítica literária, literatura infanto-juvenil e dramaturgia.

Todas receberam nomes de autores e personalidades cearenses de relevância, a exemplo de Moreira Campos (conto), Jáder de Carvalho (romance), Milton Dias (crônica), entre outros. "A diversidade de categorias permitiu oferecer uma gama muito maior de oportunidades. Gostaríamos que isso se repetisse", ressalta Netto.



Impacto

O edital inovou ainda ao exigir a edição e impressão das obras em editoras e gráficas do Ceará, garantindo o investimento no mercado local, e ao destinar recursos para se planejar a distribuição dos títulos, além da reedição daqueles de interesse geral. Também foi exigida a contemplação nas propostas orçamentárias concorrentes de todos os serviços editoriais necessários (revisores, ilustradores, designers etc), o que resultou em projetos gráficos mais audaciosos e elaborados.

No sentido de reduzir ao máximo a burocracia inerente a seleções públicas por edital, foram realizadas oficinas de preenchimento de formulários e de planos de trabalho.

No caso de proponentes do Interior, destacaram-se a comunicação por e-mail e o envio de manuais de apoio. Dos 110 projetos contemplados, 24 (quase um quarto do resultado) vieram de fora da capital, distribuídos entre 19 municípios, como Limoeiro do Norte, Juazeiro do Norte, Crato, Iguatu, entre outros.

Segundo Netto, todos os segmentos da cadeia criativa e produtiva do livro foram beneficiados pelo prêmio. "Por se mais amplo, o edital valorizou os segmentos do mercado. Muitos autores foram publicados pela primeira vez. A inclusão da categoria de selo editorial, por exemplo, favoreceu a criação de selos por parte das editoras e gráficas. Algumas inclusive já nos perguntaram quando acontecerá a próxima edição", observa Netto.

"A categoria de ensaio sobre tema cultural, por sua vez, favoreceu a pesquisa, ao contemplar acadêmicos que não tinham onde publicar seus trabalhos", complementa. A lista de selecionados está disponível em secult.ce.gov.br



Mais informações

Exposição e lançamento coletivo das obras do Prêmio Literário Para Autor Cearense. Amanhã, das 15 às 20 horas (solenidade às 17 horas), na Praça do Ferreira (Centro). Contato: (85) 3101.6794



ADRIANA MARTINS
REPÓRTER 

quarta-feira, 21 de março de 2012

NENEN FRANCELINO

Se tivéssemos que extrair, do imenso e singular painel da vegetação nordestina, uma bandeira para homenagear a radiosa teimosia, a valente esperança, a gratuita hospitalidade, o horizontal sorriso do homem sertanejo, certamente esse estandarte atenderia por uma sagrada madeira chamada Juazeiro

O nome Juazeiro, fruto de um matrimônio silábico do Tupi com o Português - "juá" ou "iu-á" (fruto de espinho) e o sufixo "eiro" – bem traduz o efeito da nossa “Invenção do Mar”, o achamento brasileiro e sua conseqüente miscigenação. 

A mais voluptuosa mancha de solo do município de Crateús repousa no distrito de Monte Nebo, no calcanhar da Serra da Ibiapaba, que limita o Ceará com o Piauí. Nesse distrito pujante há uma localidade chamada Juazeiro. Ali nasceu, em 12 de fevereiro de 1932, um cidadão encomendado para se aparentar com a nossa árvore símbolo: Francisco Fernandes Sales, o Nenen Francelino, filho de José Francelino Sales e Maria Fernandes de Oliveira.

O Nenen Francelino, que recentemente recebeu os amigos para celebrar as oito décadas de vida, é um permanente som de viola tinindo um louvor à simplicidade da vida. Lembra um autêntico mourão voltado, aquela forma de cantoria tradicional apreciada pelo homem do campo nas noites enluaradas. Sua história é uma chuva de estrofes concatenadas com o povo que apreciou e representou. Fez da lida um verso dialogado, sempre obedecendo à rima que o outro escolheu. 

Ao lado da esposa, Maria de Fátima Moreira Sales, dos filhos James Moreira Sales, Jane Moreira Sales e José Fernandes Sales Moreira Neto, Nenen Francelino se mantém renovado como o solo que o gerou ao receber os primeiros fios celestes. 

Fiel às origens, deitou raízes na região em que nasceu. Como agricultor aprendeu que nossa passagem pelo roçado da vida é sempre uma prosa entre plantar e colher. E invariavelmente colhemos o que plantamos. Por isso optou por espalhar sementes de bem-aventuranças, caroços de ajuda, grãos de doação ao semelhante. Trabalhou com tranqüilidade a fecundação do óvulo da pacificação. Exerceu, durante trinta anos, a missão de Juiz de Paz na região. 

A gente humilde da sua terra, identificando nele um apóstolo da causa pública, alguém capaz de “ver” a “dor” dos eleitores camponeses, o elegeu Vereador por quatro legislaturas. 

Na primeira vez em que tomou assento no Parlamento Mirim de Crateús não recebia remuneração. Aqueles eram bons tempos. Tempos de políticos vocacionados. Tempos em que a fama de um homem público era construída por sobre a rocha da coerência. Com a argamassa da capacidade de ser firme e leal. De honrar a palavra empenhada. De ser inquebrantável no cumprimento dos compromissos. Duro como os troncos das velhas árvores. Bons tempos aqueles...

Tua biografia, Nenen, é um convite à reflexão. Para que estamos em cima deste chão? Certamente, para no alimento por o sal, servir o próximo de coração, acorrentar o mau e espalhar gratidão. Eis o teu recado. Isso é que é mourão voltado. Isso é que é voltar mourão!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste e na Revista Gente de Ação)

segunda-feira, 19 de março de 2012



                                                           GPS
 
                             Encontro o seu amor onde você estiver

Silas Falcão
                                 IMPORTANTE !
   Se lampião não veio à Crateús, Crateús vai ao Lampião!

             Uma belíssima música do Acadêmico Edmilson Providência acaba de ser selecionada para o II FESTIVAL DE MÚSICA em Serra Talhada/PE. É a cidade de Crateús que será representada, e mui dignamente, na Terra de Lampião. Parabéns Edmilson Providência, leve o Ernesto muito bem caracterizado de Virgulino e mostre na Terra do Xaxado que por aqui também temos talentos.