terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Poeta Alucinado

                                                 
                A poesia brune e luz o enigmático amor e, inapropriadamente, instiga um desapego na alma do versejador. A poesia altiva e clareia a lucidez e, inexplicavelmente, salienta insensatez no espírito do incauto obreiro das inspirações. Acredite, às vezes, os poetas alucinam. É quando perdem as ilusões e se afogam nas arriscadas correntezas da realidade. Ser poeta é perigoso! Creia-me!
                Há um limite de tênues sinais na área da insana sanidade do porão da linguagem. É lá onde a dubiedade, das emoções e dos sentimentos, embriaga a alma. Entende? Quem corre atrás do vento compreende. Os poetas! Eles sabem que o redemoinho das palavras sempre os engole, arrasta-os para o reino da solidão, para um deserto densamente povoado.  Os poetas só não percebem quando seus pés estão se afundando, lentamente, nos pesadelos da realidade, na irreflexão. Efeito da narcose do limo que escorre das palavras. A pele da alma sangra, um fogo jorra da rubra íris a distribuir estrelas luminosas por aí... Pelas intransitáveis esquinas. Tudo decorrente da árdua luta com as palavras. Um exército de Lexemas secos, de vocábulos pegajosos, de palavras enigmáticas e escorregadias que nunca param de inquerir a volúvel senha do baú das sintaxes: - Trouxestes a “Chave”?
É um aceso sinal quando as marcas do tempo sulcam o rosto de um grande vate e este fica impossibilitado de se contemplar, até no brilho metálico do espelho. Foi o que aconteceu com o grande poeta alemão Friedrich Hölderlin, ele caiu, quase por opção, no labiríntico porão das palavras e transcendeu, ficando sem coragem de olhar a sua imagem na superfície refletora, o lugar sem lugar. Preferiu tornar-se uma demente árvore, nas bordas de uma floresta: “Ai de mim! Onde vou ver / flores no inverno, e onde / o brilho do Sol, / e sombras da Terra? / Os muros estão postos / mudos e frios, ao vento / tilintam as flâmulas.”
De tanta ficção macabra, histórias sinistras, poemas perturbadores e de uma paixão irrefreável por bebidas fortes, Edgard Allan Poe enlouqueceu! E ao ser chamado de louco redarguiu: — “Doido, eu? Resta saber se a loucura não representa, talvez, a forma mais elevada de inteligência." Poe, desde menino, tinha medo do escuro e, na sua derradeira coma alcoólica, já hospitalizado, pedia aos médicos que explodissem seu cérebro: — Senhor, socorra a minha pobre alma! Na certa se lembrava de um corvo a lhe responder: — Neve more.
Sim, amigo, os poetas, às vezes, perdem o siso, arruínam as faculdades, ficam privados do juízo. Mas não é motivo para ter pena deles. É o resultado de uma busca inesgotável de sentidos. Pagam o preço!
Está pagando o preço o senhor Mario Gomes, perambulando pelas ruas de Fortaleza, como um mendigo sem dono, um cão pulguento abandonado para morrer no meio da rua. Na realidade é um grande poeta, um andarilho por opção caminhando nos desertos da cidade, na sua solidão povoada. Uma fotógrafa vendo a figura ímpar e assombrosa de Mario na mesa de um bar, clica-o e manda a foto para um concurso cultural na revista National Geographic, além de premiada, chama atenção para demência de um Poeta Alucinado, que nos diz: - Não estou abandonado. Abandonei o vício de viver obedientemente a esta sociedade. E completa, poeticamente: — Eu, pela manhã, como lagartas e, no crepúsculo, defeco borboletas.
O fundador da Academia de Letras de Crateús, poeta Júnior Bonfim, ainda bem lúcido em sua verve poética, a definiu assim: É um Templo Ecumênico para quem cultua a liberdade da palavra. Recebemos, diariamente, como numa igreja, a visita de escritores, poetas e admiradores da nossa cultura. Um dia, subitamente, como aparição espontânea, surge por aqui um grande poeta, tal qual um beija-flor atraído pelo pólen do Templo da Poesia. O poeta crateuense Zezinho retornava à terra natal depois de 64 anos perambulando pelo mundo a distribuir estrelas com a rubra íris de versejador. Todas as quintas-feiras, ele chegava bem cedo, com uma arroxeada flor na mão, para homenagear a ALC. Recitava seus versos maravilhosos sobre a natureza, sobre amor e sobre a fé. Pediu até que mandássemos, pela internet, um soneto para uma de suas musas prediletas, a apresentadora do programa Mais Você, Ana Maria Braga. Ficamos, impacientes, a aguardar resposta.
Mas a Insensatez já corroía o espírito do incauto obreiro das inspirações e só notamos quando o vimos perdido no labirinto cruel das palavras. Da calma, para o irrequieto distúrbio, foi só um pulo da cadeira: — Êpa!!! Tem alguém de plantão aqui, Seu Raimundo!
Lembrei-me de Allan Poe, assustado com um corvo. Perguntei: — Como? O que você falou mesmo, poeta? Ele aproveitou e do seu deserto de insanidade total, disparou: — Eles estão usando telepatia para me perseguirem! Deve ser o capiroto fantasiado de homem. Acham que sou o herdeiro do Rei da França. Minha cabeça está para estourar, não aguento mais! Estou em petição de miséria.
Continuou, por um bom tempo, com um  rosário confuso de insanidades súbitas: — O tio Duda, ele mesmo, passou três meses estudando entre os monges do Tibet. Trouxe uma droga poderosa para ligar a alma ao corpo. Ele dá uma de morto! É a droga da imortalidade. Sabido, ele, não? É mentira! Ele está morto como eu estou!  A vida inteira com essa criatura me perseguindo. Meu Deus, que horror!
O poeta sumiu, como os beija-flores que chegam e se vão. Preocupados, procuramos por toda cidade e nada. Desceu na correnteza do rio da ilusão, fugindo das suas perseguições imaginarias.
O perturbado amigo Zezinho, em sua rápida passagem pelo Templo da ALC, deixou-me com uma grande preocupação. Como o poeta, Friedrich Hölderlin, estou a imaginar as penúrias do porão das palavras e fico com meus botões a dizer: — Ai de mim! Como será quando o verão da insensatez florir, sem o aroma das poesias, na Ribeira do Poti?


Raimundo Cândido

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Canudos



Quando Canudos caiu,
uma epopeia de loucura
num cordão de fanatismo,
eram 20 mil almas penadas
engolindo hóstias e balas
afeito cascavéis chocalhando
fome e sede no sertão.

Quando canudos fraquejou,
seus jagunços esquálidos
vomitaram rezas de fogo
na ira do corta-cabeças
que não indultou um pecador:
velhos, mulheres, crianças
arderam nas caieiras no sertão.

Por fim, Canudos calou:
abafou-se o gemido,
silenciou-se o lamento
de angustia e dor
e só se ouviu um choro santo
rogando luz nas trevas
das veredas do sertão.


Raimundo Cândido

Hildo Regis disse...
Até onde e quando você vai deixar de se superar. O poema é fantástico. Na primeira estrofe o problema é apresentado: como temática, Canudos; e como formato poético, a Epopeia. A segunda estrofe nos faz viver o conflito e pisotear no sangue da chacina. O último nos conduz à reflexão, através do silêncio, do gemido quase ladainho, uma espécie de conúbio entre homem que jaz e natureza que estremece. Sei lá, é tudo muito surreal. Parabéns! 

José Alberto de Souza disse...
E lá se foi Antonio Conselheiro 
conduzindo toda sua gente 
a um sacrifício inglório 
em busca duma esperança 
perdida nos confins do sertão.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Beco da Cachaça

                                           

Era um entardecer pesado de ilusões naquele sábado, 13 de Setembro de 2014. O começo do fim da semana é o mais generoso dos dias, pois desata liberalidades no ar. Pela Rua Cel Zezé, entre as ruas Francisco Sá e do Instituto Santa Inês, caminhava pasmo, incrédulo com o que não via.  Nenhum bêbado, com suas pernas trôpegas, trafegavam pelo velho Beco da Cachaça e exclamei, como se os ébrios de outrora pudessem me ouvir: “Não é possível, meu Deus! O mundo está mesmo mudado!”
 13 de Setembro, o dia oficial da cachaça, e o velho Beco que tanto acolheu os sequiosos ébrios da cidade era um longo e dolorido silêncio estampado nas minhas retinas.
O clima taciturno da tarde trouxe-me as velhas e frondosas algarobas que despejavam sombras de alívio pelo canteiro central, onde vi caírem honrados cidadãos pelo peso da ebriedade, ofertado no teor alcoólico da impiedosa Lagoa do Barro. Como a famosa Jeritiba, quente e forte, que foi proibida pelos portugueses, no século XVI, para proteger a fraquíssima bagaceira lusitana. Chegaram a destruir todos os alambiques da Colônia. A Revolta da Cachaça foi tremenda, um luta feroz no Período Colonial até à vitória da aguardente brasileira, que por fim estava liberada, no dia 13 de Setembro de 1661. E ficou sendo o dia da cachaça. Dizem que Dom Pedro I comemorou a Independência do Brasil com um porre homérico, saboreando a mais pura pinga da terra.
  Com a chegada do Trem, em 1912, aquele frequentado quarteirão, como as famosas ruas 24 horas do mundo, passou a se chamar Beco da Estação, a porta de estrada da cidade. E o beco da cachaça, como surgiu? Pergunto aos mais velhos. E eles respondem-me: “– O Beco da Cachaça é do tempo que o cão era menino e o diabo era rapaz”. “ – Beco da Cachaça é aqui, ó!!!” Um frequentador espirituoso explica-me, apontando com o dedo para a garganta. Gracejam, mas sabem da importância do célebre quarteirão, como uma sala de espera, para a chegada da Maria Fumaça e para afogar as mágoas dos crateuenses que inventavam qualquer desculpa para “meter os burros n’água”. Os nomes das ruas, dos locais típicos da cidade vêm mesmo é da inteligência criativa do povo, que vive a se divertir: Rua da Pimenta, Rua do Xique-Xique, Rua da Cruz, Rua do Beiju, Beco do Pecado, Beco do Crime, Beco da Galinha Morta, Beco da Cachaça...
Aos domingos, à noite, quando o trem retornava do povoado de Oiticica, da calçada da Estação até o Botequim, “A fonte dos Passarinhos”, de Seu Jaime, ficava lotado de gente, a maioria bebericando uma cachacinha, que ninguém é de ferro e se necessita afogar as doloridas mágoas. Quando a sanfona de Antônio Pedro e o pandeiro do Manoel Picolé, que animaram a viagem no trem da Ibiapaba, resolvem dá uma palhinha, o Beco virava o verdadeiro paraíso. O trem, que saía para Fortaleza às 4 da manhã, foi o grande propulsor da vida, e também da morte, no Beco da Cachaça.
O comerciante Belmiro, rapidinho vendia cinco mil litros de pinga Lagoa do Barro, e em cada dose uma história, e em cada gole uma tragédia.  Na realidade, o Beco começava no Bar do Tio Onésimo, que tinha uma clientela bem selecionada de whiskys e cervejas. Bancários, médicos, professores, uma classe mais abastada da cidade que não deixava de ter a fina sujeição de corpo e alma com o copo. Um leque de botequins mais rústicos se abria nos dois lados da rua para uma freguesia menos favorecida, e eram esses frequentadores que movimentava o ânimo do Beco. A polícia cansou de levar bêbados, bonequeiros, arruaceiros que perturbavam a embriaguez dos outros. Quantas vezes os gumes das armas brancas brilharam no escuro em represália a um desafeto e ali mesmo ficava um corpo estendido no chão poeirento do velho Beco: um carreteiro, um sapateiro, um alcoólatra, um cidadão.
De longe, sentia-se o cheiro forte de panelada requentada, no Botequim do Tio Nande ou fervendo numa enegrecida lata de querosene sobre pedras no chão, no Quiosque de madeira do Chico Soldado.
- Tio Nande traga uma panelada com gosto de merda! O estalo do tabefe no pé do ouvido do bêbado desaforado tinia, por um bom tempo, para ele aprender a respeitar um ambiente familiar.
O Juramar Bonfim tirava era reisado por todos os bares, como um pagador de promessas. Já tinha passado no Tio Onésimo, pela mercearia do Seu Raimundo Carlos para tomar uns “biotônicos” e ouvir os disparates do desmedido comerciante que vendia de um a tudo: casca de angico, de aroeira, mel de abelha, pavio para lamparina, tamanco, chinelo, pião, bilas, guizo de cascavel e a bendita cachacinha para queimar os dentes. Dirigiu-se para o hotel-bodega do Seu Geraldão e o achou meio triste.
– Que houve Geraldão, parece um pouco abatido? Que tristeza é essa? Pergunta Juramar, um velho freguês da casa.
– É que eu acho que os ratos estão bebendo a minha cachaça!
– Mas não pode ser, Geraldo! Que história é essa? Como que um rato pode beber cachaça de dentro do litro?
– Estes safados são espertos! Eles derrubam o litro, tiram a rolha com os dentes e metem a cauda dentro, depois só ficam lambendo o rabo.  Hoje pela manhã achei dois litros secos no chão e uma ruma de ratos bêbados! Você me acredita, amigo Juramar?
O experiente Jura, já com a mente enevoada e que nunca duvidara de nenhuma estória do Beco, achou que era hora de ir para casa. O velho Beco da Cachaça iria continuar por muito tempo ofertando ilusões e delírios aos fregueses crateueses. Juramar sabia, e sabe, que a cachaça nos dá liberdade de pensar e sonhar. Mas ele sempre soube a hora de parar, antes que “ In vino veritas”: antes que, no vinho esteja a nossa única verdade!
 
Raimundo Cândido

    

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Cancão


                                                          Travesso a fuçar,
                                                          intrometido de enleio,
                                                          um arruaceiro na mata,
                                                          de galho em galho
                                                          bisbilhotando o alheio.
                                                          Tudo devora, onívoro!
                                                          Engole fogo, ignívoro,
                                                          e não se admire não,
                                                          do espinho de mandacaru
                                                          ao miolo de xique-xique
                                                          come, mastigando beiju!
                                                          Enxerido, mas prevenido,
                                                          anda aos magotes,
                                                          se agrupam nas estripulias,
                                                          acuando assombros e cobras
                                                          e não temem nem gavião.
                                                          Um aguçado sentinela,
                                                          e se lhe vê, galgando a caatinga,
                                                          alardeia: aguda sirene no sertão!
                                                          – Cancão! – Cancão!

                                                          Raimundo Cândido

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Dona Iracema, a Cancionista do Sertão.

                                     

Mal despertada a noite das tempestades, na Revolução de 64, pelo medo dos rastros de fumaças subvertidos que se alastravam por toda América Latina, e o militarismo brasileiro dissolve os partidos políticos e impõe uma férrea censura prévia, fazendo com que as canções, de magoa e dor, fossem as únicas flores a brotar no solo desta aridez imposta. A crise impulsionou uma inventividade musical como nunca se viu antes: proferir sem dizer, protestar pelo grito abafado na garganta que feriria os ouvidos infames, como incisiva faca amolada. Do cantor-poeta Chico Buarque jorrou “Apesar de você” afrontando os brios autoritários de um tirano chamado Médici e do poeta-cantor Geraldo Vandré brotou “Pra não dizer que não falei das flores” o hino de resistência do movimento civil e estudantil contra a ditadura militar.
Em Cratheús, um pouco antes de se deflagrar “O último dia de lua cheia” como ficou conhecido o 30 de março de 1964, que deu inicio às trevas brasileiras, no ano de 1958, a poeira das ruas subia pelos redemoinhos dos dias secos, de mais uma grande estiagem que assolava o sertão. A cidade estava quente pelo clima e pela alma do sertanejo, que nunca se entregou, nunca perdeu o ânimo. A administração municipal, do prefeito Raimundo Resende, ficava a desejar, com um velho motor a óleo iluminando insuficientemente as ruas, sem o auxilio necessário para os agricultores que sofriam os efeitos da seca. E o partido da situação, UDN, se desgastava.
 Das situações difíceis sempre surge a criatividade dos bons artistas, dos poetas sensíveis aos momentos, como Chico Buarque, como Geraldo Vandré ou como Dona Iracema Martins, uma poetisa crateuense que, inspirada na corda do seu violão, criava repentes e grudentas vinhetas sobre os personagens folclóricos e políticos da região, para suas campanhas politicas. Sua casa era frequentada por pessoas que vinham encomendar jingles sobre candidatos das cidades vizinhas. A fama de cancionista já se espalhara, pela eficiência dos humorados versos, que causavam ímpetos rancorosos na oposição.
Um amigo, o Samuel Lins, fundador da Escola Técnica, afirmava:
- Oh, Iracema cabeçuda! Porque fazes essas cantigas, se só dão em confusão? Se tiver que fazer, faça, mas cobre, pelo menos!
No dia em que o Dr. Antônio Catunda retornou, jovem recém-formado, as moças casamenteiras da sociedade ficaram em alvoroço e na expectativa. Um médico nos cafundós do sertão, solteiro, metido a bonitão e todo pintoso...  A festa seria no Crateús Clube e as colegas avisaram para dançarina Iracema, que já estava de vestido novo: - Oh, Iracema, não te metes no meio não! O diabo atentou (São palavras de Dona Iracema!) e a primeira que ele tirou para dançar foi a poetisa. As outras ficaram só roendo! Mas o escolhido de seu coração foi o Antônio Coriolano, com quem teve 13 filhos.  
Iracema sempre foi uma jovem vivaz, de espirito aceso, que contagiava os ânimos daqueles que a rodeavam. E aos 96 anos não perdeu esta nobre característica.
A campanha politica do ano de 1958 foi um fogo aceso, com sopros em brasas de lado a lado.  A UDN, mesmo desgastada, mas com a máquina administrativa a seu favor, apresentou o Dr. Gonçalo Claudino Sales como candidato oficial. A coligação PSD, PTB, PSP candidatou, novamente, o Sr. Raimundo Bezerra de Melo, o Patriota de respeito. O Prof. Luiz Bezerra assim escreveu sobre essa disputa: “Foi uma campanha violenta de parte a parte e a opinião pública se dividiu. O povo sentia a força da coligação galvanizada por José Bezerra de Melo, que incontestavelmente foi a alma da vitória dos coligados.”
Dona Iracema havia feito algumas vinhetas, que eram cantadas pela irmã do Zé Bezerra, a Maroquinha Mano, nos palanques e repetida pelo povão, que puxa cordão: “O Encarnado correu com medo / Da grande festa que vai haver / Agora viva o Partido Azul / E o Encarnado é que vai roer!”
O povo lotava a grande quadra do Barrocão para ouvir o discurso do candidato a prefeito, mas principalmente a oratória inflamada de Zé Bezerra que tinha o dom mágico da palavra fácil. Ali perto, pela Rua Poti, o Dr. João Afonso já dera ordens para soltar um touro bravo e que fosse tangido para o meio do povo. Enfezado, o animal correu e abrindo caminho entre os eleitores, dispensando todos para suas casas. Só ficou uns corajosos afoitos para descobrirem de quem era o Touro raivoso que acabara com o comício.
  Dona Iracema não se deu por rogada. No outro dia uma vinheta já estava na boca dos eleitores, sendo cantada em cada esquina da cidade: “Façam outra passeata, meu povo / Samuel tornou a voltar/ Mas se soltarem o touro de novo / Sei que nós vamos matar!”
No novo comício, na mesma Praça do Barrocão que estava mais lotada que antes, só se via o povo olhando para os cantos, esperando o touro meter os chifres na esquina, para abatê-lo à bala, como abateriam o candidato da velha e viciada UDN, mas no voto.
Os políticos e cabos eleitorais da UDN, sentindo o braço da derrota, lhe aberturando o pescoço, tentaram viciar as urnas depositadas na sede dos Correios e Telégrafos. O 4º Batalhão de Engenharia garantiu a fiel e legal apuração. Mesmo se detectando uma das urnas totalmente viciada, a comissão apuradora deu o resultado, estava eleito o Sr. Raimundo Bezerra de Melo, o Patriota de Respeito.
No dia 25 de março de 1959 toma posse o novo gestor da administração municipal. O Prof. Luiz Bezerra, narra novamente: “Foi uma coisa triste a entrega dos despojos da prefeitura. Era como se ali houvesse passado um tufão sujando, quebrando e carregando tudo. Não houve prestação de contas, não existiam arquivos, não apareceram os livros contábeis. Os Udenistas haviam sumido.”
  No dia seguinte o bancário Edson Martins, que era também um afamado locutor, iria ler a crônica do escritor Luiz Bezerra, nos potentes altos falantes da Rádio Educadora. O professor lhe dissera que a crônica daquele dia seria assombrosa e o povo poderia entrar em alvoroço, pois falaria sobre o satanás que esteve, recentemente, visitando a cidade de Cratheús! Edson não se conteve, foi buscar pessoalmente a crônica na Tipografia Central, uma das empresas do professor.
              Vai logo cumprimentando o tipógrafo e lhe pergunta: - Oh Nene Coriolano, o seu patrão, Prego dourado, está?
               - O Professor está sim. Entre aí no escritório dele!
O locutor entra cantarolando uma animada marchinha: “Soluçando vou deixar minha prefeitura / Adeus amigos para nunca mais ver / Adeus minha mamatinha / Sou obrigado a ti entregar ao PSD / Adeus, adeus minha prefeitura / Isto é sina de um ordinário prefeito / Adeus, adeus minha mamatinha / Adeus amigo para nunca mais eu ver / O amigo que encontrar minha caveira / peço que leve e entregue a outro alguém / Diga a ele que eu morri foi de desgosto / envergonhado porque nunca paguei a ninguém...”
Luiz Bezerra cai na gargalhada e pergunta de quem é aquela preciosidade.
Edson responde: - Ora, professor, de quem poderia ser? Só pode ser de Dona Iracema Martins, a mãe de seu funcionário Manoel Nene Coriolano! Não é ela quem sempre faz as marchinhas politicas de nossa querida Cratheús!
- A veia poética de Dona Iracema não deixa passar nada! Conclui o professor.
Findou-se o ano de 1959 e as noites horrorosas das tempestades se foram, para alívio nas nossas esperanças, mas sinto a falta de uma canção que profira o meu grito, ainda abafado na garganta, e que faça com uma musical faca amolada ferindo os ouvidos dos incautos de agora.  Acho que eu vou à casa de Dona Iracema ver o que ela tem a me dizer. Vambora?   
 

Raimundo Cândido

domingo, 24 de agosto de 2014

Resignação



O dia,
luz leviana gotejando
dos beirais da longa demora,
tal penitente resignação,
anuvia o viver.

A noite,
fingida nodoa,
desdouro de ausências
e esperança ressuscitada,
apazigua o morrer.

Raimundo Cândido

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Pescador

                                          

Dizem que, quem muito crê, nunca mente e quem muito confia, nunca engana. Ouvi, de um destes especialistas em psique, que as mentiras quase sempre se apresentam em duas cores distintas: nos momentos em que tingidas pelo negrume das trevas são perversas, são desastrosas ou quando inócuas lorotas alvacentas, tal flocos de neve, são leves e ingênuas como um cabritinho tentando ludibriar um lobo voraz. Escutei, deste mesmo perito em embuste, que cada ser humano mente, pelo menos, seis vezes ao dia. Emite enuviadas estorinhas comprovando que o ato de mentir vem construindo a humanidade desde o surgimento do homo sapiens, há 200 mil anos. Mentir aumentava-lhes a autoestima e continua exacerbando o nosso amor-próprio, até hoje! É, ou não é?
Bem, esse ensejo, sobre verdades e mentiras, veio à baila num dos encontros diários dos confrades da Academia de Letras de Crateús, quando o poeta Lucas Evangelista lembrou-se da época de pescador, período em que os versos trovadorescos não lhe davam, ainda, a necessária guarida, imagine o peixe. E como que numa irrefreável compulsão, relatou:
—Professor, já se dissipavam os últimos raios de sol no horizonte e eu ali, na ponta da parede do açude, concentrado na linha amarrada na ponta da vara de marmeleiro. Já havia pego algumas traíras e percebi, pelas beliscadas na isca, que aquela era bem grande. Por sobre minha cabeça passava bandos de marrecos e patos. Eu só ouvia o ti ti ti deles. A traíra fisgou e eu soqueei o anzol de uma vez. Quando o peixe voava sobre minha cabeça ouvi um barulho diferente, assim como um rrei... rrum... zuuumm... de algo girando. Foi tão forte que tomou a vara da minha mão e tudo foi cair lá atrás da parede. Assustado, eu disse: — Que foi isso, meu Deus? E corri para ver. Mas professor, a linha do anzol estava toda enrolada no pescoço do pato que se debatia junto à traíra, como se fosse cachorro e gato brigando. Se quiser acreditar, acredite, mas você sabe que nunca fui homem de mentir.
O poeta Cancão até perdeu sua discreta fidalguia e, pasmo, olhou-me como a dizer: “Raimundo, aqui está ficando igual aos discursos dos políticos quando nos comícios! ”
Participei de boas pescarias, mas dizem, por aí, que eu só pegava peixe enlitrado. O que gostava mesmo era de ouvir as estórias de pescadores. No momento em que fervilha no sangue uma incontrolável mitomania de beira de açude, ou das margens do rio, comendo pirão quente de curimatã, os relatos vão borbotando, livres, inquietos, cada um mais esmerado que o outro. Foi num destes momentos aquáticos que conheci o melhor pescador da Ribeira do Poti.
Antes de perder o afã fluvial, o Rio Poti vai deixando piscinas repletas de peixes por toda interrupta extensão. A mais piscosa delas é o Poço Piau, e é quase um sagrado estuário no Distrito da Ibiapaba. Nele, o menino Luiz dissipou sua infância, e agora sazona a vida adulta, modelada, dissolvida no líquido palco da vida. De tanto mergulhar nas águas do Piau seu corpo passou por uma mutação interna, para adaptar-se no âmago das águas, provando que somos obra-prima em evolução. Mostrou-me as mãos calejadas, mordidas de piranhas, e um dos braços com uma bocanhada dos dentes de um jacaré. No causticante sol do meio dia apresenta-se como se tivesse saído de uma geleira. Ali, nas areias do rio, aprendeu a arte da paciência com a candura das garças, que armam o pescoço como flecha tensa para um disparo fatal. Copiou as artimanhas do socó, que suspenso no vazio, como que pousado nas plumas do ar, dispara um mergulho certeiro e sobe com o peixe no bico. E as experiências destes pescadores passam, de geração em geração, ao decifrarem os segredos do rio, nos murmúrios das correntezas.
— Eu sempre peço permissão a Jesus Cristo, com o sinal-da-cruz, quando vou entrar na água. Depois é só mergulhar, sem nada, e trago o peixe que quero!  Afirmou-me Luizão, na simplicidade da certeza absoluta e senti que, naquela consideração, por um simples poço e por uma profissão, está um elo poderoso e sagrado que o torna excepcional pescador dos barrancos do Poti. É um exímio pescador e com as mãos. Continuei explorando as técnicas do aquaman crateuense. E ele prosseguiu:
— Presto bem atenção no feitio da água. Chego à beira e vejo a maneira do peixe se mexer. Pode ser a lapada do Cari, ou da curumatã, são quase do mesmo jeito. Quando são os corós a flor da água vai ficando ondulada. Mas tem que ter um olhar preciso, para poder ver, senão você vai achar que é o vento a correr. Quando ocorrem uns beijinhos na lâmina d’água, são as piabas brincando ou branquinhas dançando, mas com certeza os grandes estão por ali. Para pegar traíras, você tem que ouvir aonde elas estão a comer, aí e é só armar um espinhel por lá.
Ousei fazer um desafio ao grande pescador: — Luizão me tire agora, com as mãos, um peixe das águas do Piau! Ele olhou para o sol a pino, não para sentir os causticantes raios no rosto, mas para constatar que não era a hora do peixe. E os banhistas estavam em total algazarra, mas foi! Atravessou a nado o velho poço até as pedras altas da margem oposta e começou a mergulhar. Submergido, tateando nas locas da pedra, enxergando com as mãos numa impossível visão aquática.
Sei que uma pessoa normal pode suportar até dois minutos sem respirar. Em certo momento tive receio de que o pescador não voltasse à tona, pois extrapolará, e muito, o limite sem respiração. Luizão nada de volta e trás só um cari bodó na mão. Justifica: — O poço já foi muito pescado, meu amigo, e o peixe não gostam de barulho não!
Mesmo com os quatro anos cruéis de estiagem, todos os açudes esturricados de secos, o milagre do peixe ocorrem nos Sertões de Crateús, como há 2 mil anos no Mar da Galileia: “—Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para a pesca.”  E Pedro pescou o que nunca havia pescado antes.
E recordo-me de outro distinto Luiz, outro bom pescador. Sempre que a professora Maria Delite queria saborear um pirão de piau chamava o Luiz Junior, um parente pescador. — Luiz peça permissão ao Milton Menezes e vá pescar uns piaus no açude dos Pereiros. Ela pedia.
E lá estava o Luiz na beira d’água, já colocara o galão paralelo a uma velha cerca submersa, encostara a câmara de ar e se deitara numa rede armada em duas estacas enfincadas no chão. Pitava um cigarro de palha, olhado o céu estrelado, quando notou um claro, caminhando pelo cercado. Era um vermelho que se azulava vindo ao seu rumo. Senta-se na rede e espera que a pessoa chegue, para saber o que quer, pois ele tinha permissão para pescar. A cena se repete diversas vezes e o corajoso Luiz fica a imaginar que marmota era aquela. Grita alto: — Quem pode mais do que Deus? Mas percebeu que aquela visagem era surda. Não esperou os primeiros raios de sol, no escuro mesmo retira a rede cheia de peixes e deixa para despescar depois, pois o seguro morreu de velho e o medo só se acaba no caminho de casa.
Quantas vezes eu estive, resignado, com um anzol na água e com o peixe a me ignorar, mas via no reflexo do rio a doce poesia das estrelas a cantar, como o poeta Lucas Evangelista que vende seu peixe de ilusão nas feiras, com todas as mentiras do mundo, de Deus ou do diabo, pois aprendemos com os pescadores, e bem antes da Física Quântica, que o universo é nada mais nada menos que ilusão. Então eu lhes convido meu caro amigo leitor, vamos pescar: poesias e mentiras, antes que as velhas verdades virem piabas a nadar.
               

Raimundo Cândido

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Quarar



                                                         No ardor aguado
                                                         do hálito do rio,
                                                         a purificar os dias,
                                                         incidem claridades.
                                                         E a vida maltrapilha
                                                         estende-se no quarador!
                                                         Enodoada e rota
                                                         das pelejas escuras,
                                                         um princípio e fim,
                                                         tingido de brisa
                                                         na insolação da dor,
                                                         exime-se da poeta vastidão,
                                                         e, suavemente, asseia-se,
                                                         úmido de tristezas,
                                                         enxugando a solidão.


                                                                    Raimundo Cândido
                                           (FOTO:  Poço Piau - no poético Distrito de Ibiapaba)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Camaleão



Leviano...
Convenientemente vão,
inconstante e volúvel
na firme necessidade.
Em galhos secos
dissimulada sequidão!
E desvia a minha opinião
no cambiar do calor
da precisão!
Na rama verde
se estampa
em ardente verdume!
O giroscópico olhar,
a impulsionar,
o bote da língua,
a sorver dos céus, o fulgor,
e dos arco-íris, o esplendor!


Raimundo Cândido

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Sertão



                                          No ardor da luz
                                           vinha o sobressalto,
                                             mas nada brusco,
                                              súbito ou agudo.
                                                Essencial e sereno, 
                                                  apropriado e tosco,
                                                    como se o imutável
                                                      espanto do dia
                                                        se eternizasse por lá! 

                                                                                       Na incisão do sol
                                                                                 abria-se as páginas
                                                                           de onde se entoavam,
                                                                           no ermo da solidão,
                                                                 a isenção, o desamparo
                                                                 no panorama soberbo
                                                           de uma ilusão absoluta
                                                      que arrebata o coração!

                                                                                   Raimundo Cândido

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Posteridade

Foi ontem!
Persisti...
Com um hoje atravessado
no caminho.
O mesmo ar.
As mesmas circunstâncias
de lembranças
inalteráveis
que me retornam...
Um lance alegre,
um ensejo triste,
vicioso.
Eu sei...
A minha sina é persistir.
Raimundo Cândido

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Touradas de Raquel


As antigas ruas do centro de Fortaleza impregnam os pés dos transeuntes de uma doce amargura poética, fazendo com que voltemos, fatalmente, a lhes revisitar. Penso que é uma espécie de magia, feito imã, da Fortitudine que nos diz o seu velho brasão, desrespeitosamente, alterado pelos seguidos gestores que se empoleiram no poder.
Pela Rua Floriano Peixoto dobro à direita, na Rua São Paulo, e sigo para a Rua Gal Bezerril da velha praça do herói viçosense da Guerra do Paraguai, Gal Tibúrcio. Tenho fascínio pela Praça dos Leões, pelo Museu do Ceará, guardião do Bode Ioiô, pelo Palácio da Luz, sede da ACL, pela histórica Igreja de N. S. do Rosário com uma fila de moradores de rua, recebendo uma reles merendinha distribuída por padres para enganar a fome diária e conseguirem dormir, mais uma vez, ao relento na cidade de N. S. de Assunção. Meu coração se alegra, imensamente, quando avisto uma velha amiga sentada no mesmo banco da praça, a escritora Raquel de Queiroz.
Percebo que um cidadão lhe faz companhia, com orgulhosa “poses” para uma cessão de fotos. Ainda bem que ele se retira com a minha aproximação e aproveito para uma afirmativa fortuita, dando sinal da minha chegada.
— Vejo que esteve em boa companhia, amiga Raquel de Queiroz.
Serena estava e tranquila continuou com as pernas cruzadas, as mãos pousadas no colo, quando me respondeu:
— Bom dia, amigo Raimundo. Que bom lhe ver mais uma vez por aqui. Você bem sabe que eu gosto da vida, que simpatizo com as pessoas felizes. Sinto um enorme prazer em viver acompanhada, embora sabendo que a gente nasça e morra só!
Não esperou que eu me sentasse ao seu lado, para perguntar:
— E como está a cálida terra do nosso grande poeta José Coriolano?
Ela percebe, pelo brilho dos meus olhos, a surpresa que me causou aquela interrogação e responde-me, antes que possa reagir, numa óbvia pergunta:
— Sim amigo, é verdade. Li Impressões e Gemidos de José Coriolano, um dos bons livros da estante de meu velho pai. Vim de uma família de intelectuais, Raimundo! E Raquel continua, deleitando-se nas recordações que ela mesma ia tecendo.
— O Touro-fusco, cantado magistralmente em oitavas rimadas pelo poeta da Ribeira do Poti, me trás boas lembranças. Enquanto Coriolano verseja o urro retumbante, qual um trovão, do touro cachaçudo da Fazenda Boa Vista de Cratheús, fazendo estremecer a terra e tremer o mato, lembra-me os touros da minha infância, na terra dos Monólitos. Você está com tempo de me ouvir, Raimundo?
— Mas é claro, amiga Raquel, hoje eu tenho todo o tempo do mundo!
Ela ri e continua: — Recordo do Touro Carnaúba, da fazenda Junco. Era um boi muito bravo, de aspa aguda, olhos de fogo, venta chamejante e preto como o cão que brigava três dias e três noites seguidas, se assim lhe desse tempo de beber água. Já o touro Xuíte, onde no lugar do pescoço tinha um tronco, era de um gênio ruim. Um dia ele atacou o trem. O maquinista diminuía a marcha para entrar nas agulhas e ria, pensando que o touro velho ia se estrepar todo ao se chocar com a máquina. Soltou um jato de vapor quente para espantá-lo. Que nada! O Xuíte mais se enfezou, meteu os chifres naqueles canos de cobres que correm pela barriga da locomotiva, arrancou tudo como quem arranca serpentina num carro de carnaval. A máquina roncou um pouco e logo parou, em cima das agulhas. Então quem teve medo foi o maquinista vendo o touro bravo em redor, ciscando, furioso.
Tão atento estava a cada saborosa palavra pronunciada pela escritora, que meus olhos nem piscavam. Ela continuou:
- Tem a história de outro touro valente chamado Cabeça-Rosilha. Foi na Fazenda Califórnia, que pertenceu a minha avó. Cabeça-Rosilha era o soberano total do curral. Apareceu um tourinho novo, azeitão-escuro de lombo branco, chamado de Caçote. Caçote se botou para o velho touro como se fosse um veterano, igual aqueles garnizés que tiram uma coragem imensa que ninguém sabe de onde. Tenho certeza, Raimundo, que se o Cabeça-Rosilha fosse o mesmo, teria dado cabo do tourinho naquela noite mesmo. Amanheceu o dia e a briga ainda estava rendendo. De tarde, as vacas voltaram, e os dois brigando. O chão já estava todo riscado de regos fundos só deles cavarem a terra e havia tanto mato acamado por onde pisavam que era um balseiro só, como se ali houvesse passado uma grande enchente. Davam um tempo, como se ouvissem um gongo, e logo voltavam a entrelaçarem os chifres. Ouviu-se um estalo, como de pau quebrado. O cabeça-Rosilha recuou. Estava com um chifre arrancado, ficou só o sabugo no lugar.  O tourinho quis continuar a briga e o velho touro recuou, e recuou mais e mais. Desceu a procura do riacho do sangradouro e sumiu no meio da mata fechada. Foi se esconder com a sua vergonha. O Caçote era o novo dono do curral. Passou-se o inverno, chegou o verão e todos tinham dado o Cabeça-Rosilha como morto. Um dia, ouve-se um urro bem conhecido. Ninguém acreditou, até pensou-se em assombração de touro velho. Depois de um ano, abandonado no meio da mata fechada, voltava o velho touro com as duas espadas reluzentes na cabeça. Inacreditável, não é amigo Raimundo! Pois bem, o bruto não esperou que ninguém abrisse a porteira, meteu os ombros e voou pau para tudo que era lado. A briga foi ali, no meio do curral e desta vez foi rápida. Ouviu-se um longo esturro de touro apanhado. O Cabeça-Rosilha tinha levantado o Caçote pelos chifres, como quem levanta um gato. Ergueu nos ares quarenta arroubas de touro vivo e arremessou por cima da cerca. Desta vez foi o Caçote quem sumiu de mata adentro, no breu da noite escura. 
Raquel de Queiroz estava mesmo com vontade de me encantar com um passado bovídeo e confesso que no meio de suas deliciosas histórias viajei, de volta ao meu querido sertão, em lapsos de memória, para as histórias de touros na Ribeira do Poti. Regressei à Fazenda Pereiros, de Seu Júlio Menezes, o meu avô. Lá, nas margens do Rio Poti, um touro pintadão chamado Capote, era tal qual elefante velho, mas não podia ouvir bramido que não fosse o dele, saía derrubando cercas até peitar o atrevido do vizinho, que ousou lhe afrontar.
Enquanto Raquel narrava as aventuras de Cabeça-Rosilha, eu senti as velhas emoções do Circo de Touros, onde uma surrada empanada guardava as arquibancadas de madeira que circundavam a arena protegida por uma forte cerca de ferro, ao lado do clube 7 de Setembro, na Praça da Cadeia. Ouvi os mesmos gritos (Olé! Olé!) da famosa Plaza de Toros de Madrid, vindos do poleiro de tábuas corridas, onde o Senhor Milton e  Edmilson Menezes avolumavam a multidão  sob o olhar indiferente de um avultado pé de mulungu. O indomável Touro Preto de Seu Chico Rodrigues mostrava-se como um Bos Taurus Ibericus, o verdadeiro touro selvagem. O toureiro Curió, vencido e humilhado, pedira socorro ao toureiro Bola Sete, um gaúcho negro, alto e experiente. Um carro de propaganda percorrera as ruas da cidade, chamando público para a Volta do Touro Preto que enfrentaria agora o invencível gaúcho Bola Sete.
Quando o músico Expedito Paiva soou o trombone (Como as cornetas que derrubaram os murros de Jericó!) o Touro Preto entrou furioso na arena, ciscava o chão com as pesadas patas dianteiras, soltando chispas de fogo pelos olhos,  mirando à plateia. Os dois destemidos toureiros já o esperavam com uma capa vermelha na mão e a refrega começa. Eles driblam as investidas do animal, só com movimentos de pernas, e os afiados chifres riscam o ar atrás do capote de pano. Súbito, todos prendem a respiração, só se ouvia o fole de ar quente das narinas do Touro Preto soprando no rosto de Bola Sete que se ajoelhara na frente de animal. ( - É um doido! Alguém gritou quebrando o silêncio.) Como uma cascavel o toureiro dá o bote e se atraca na cabeçorra do touro que o sacoleja como a um chicote. Estava tudo planejado. Curió também se abraça nas costas de Bola Sete e aos pouco contém a força do indomável Touro Preto.    De repente ouvi um chamado, distante:
 - Raimundo! Oh, Raimundo!!!
 - Desculpe, Raquel! Distraí-me um pouco! Pode continuar a sua história...
 - Já relatei tudo, meu amigo! Mas não tem nada não, sei que você estava na sua terra, nas suas lembranças... Somos assim, presos ao passado! E eu não sei se lhe parabenizo por isso ou dou os pêsames. Despeço-me, lembrando que menti para minha amiga Raquel. Não tinha todo tempo do mundo, pois estava na hora de voltar para Cratheús, mesmo já tendo regressado espiritualmente. E descubro mais uma vez que o tempo presente não faz parte do meu ser. Sou um vulto do passado, eu e Raquel. E para que melhor companhia!    


Raimundo Cândido

terça-feira, 3 de junho de 2014



TOQUE DE ACOLHER

Antes de dormir, o Fidalgo de rua apaga a lua.


O VENDEDOR DE TEXTOS

A luz do sol atravessa suavemente a transparência do rosto esquerdo de Vnoy


OS CABELOS

Gira a chave da porta às dez da manhã. Na bolsa, o espelho e escova. No destino, senta sua beleza na cadeira que a aguarda e penteia amorosamente os longos cabelos dourados. Por horas. Ela repete essa leveza há décadas. No cemitério.



Micro contos do livro O colecionador de dedos, de Silas Falcão




DECÁLAGO DO CONTISTA


Horacio Quiroga



Creia em um mestre — Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov — como em Deus mesmo.

II 
Creia que sua arte é um cume inacessível. Não sonhe em domá-la. Quando puder fazê-lo, você o conseguirá sem mesmo sabê-lo.

III 
Resista o quanto puder à imitação, mas imite se o influxo for ­forte demais. Mais do que qualquer outra coisa, o desenvolvimento da ­personalidade é uma grandepaciência.

IV 
Tenha fé cega não em sua capacidade para o triunfo, senão no ­ardor com que o deseja. Ame a sua arte como à sua namorada, ­dando-lhe todo seu coração.


Não comece a escrever sem saber desde a primeira palavra aonde vai. Em um conto bem realizado, as três primeiras linhas têm quase a importância das três últimas.

VI 
Se quer expressar com exatidão esta circunstância: “Do rio soprava o vento frio”, não há em língua humana mais palavras do que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de suas palavras, não se preocupe em observar se são consoantes ou assonantes entre si.

VII 
Não adjetive sem necessidade. Inúteis serão quantas notas de cor adicionar a um substantivo débil. Se achar aquele que é necessário, apenas ele terá uma cor incomparável. Mas tem de achá-lo.
VIII 
Tome seus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o final, sem ver outra coisa além do caminho que lhes traçou. Não se distraia vendo o que eles podem ou não lhes importa ver. Não abuse do leitor. Um conto é um romance depurado de cascalho. Tenha isto como uma verdade absoluta, mesmo que não seja.

IX 
Não escreva sob o império da emoção. Deixe-a morrer, e evoque-a depois. Se for capaz então de revivê-la tal qual foi, terá chegado à metade do caminho na arte.


Não pense em seus amigos ao escrever, nem na impressão que causará sua história. Conte como se seu relato não tivesse mais importância do que para o pequeno ambiente de seus personagens, dos quais você poderia ter sido um.
De nenhum outro modo se obtém a vida do conto.


Horacio Quiroga

Horacio Silvestre ­Quiroga (Salto, 31 de dezembro de 1879 - Buenos Aires, 31 de dezembro de 1937) foi um escritor uruguaio famoso por seus contos, que geralmente tratavam de eventos fantásticos e macabros na linha de Edgar Allan Poe e de temas relacionados à selva, sobretudo da região de Misiones, na Argentina, onde Quiroga passou parte da vida. Sua obra mais famosa são os Cuentos de amor de locura y de muerte (1917; título sem vírgula no original), na qual se encontra o célebre conto A Galinha Degolada. Em 1937, após ter sido diagnosticado com câncer, Quiroga cometeu suicídio, ingerindo uma dose letal de cianureto.



Postagem: Silas Falcão