Este é o chão sagrado da Academia de Letras de Crateús na internet. Como um templo ecumênico, nele há espaço para todos que adoram cultuar a beleza da virtude, a simplicidade da inteligência, a singeleza do verbo, o fascínio da cultura, a liberdade da palavra, a profundidade do amor.
sábado, 11 de abril de 2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Dona Helena – Uma Potiguara crateuense.
O poeta José Coriolano começa
um dos seus versos assim: ”Há na minha província uma ribeira, / Um sertão, onde
eu vi a vez primeira / Sorrir-me da existência a doce luz: / Tem o nome da
tribo que o habitava, / Quando ao rude tapuia entregue estava, / Esse nome, sabei-o,
- Cratheús.”
Foi no grande Vale dos Sertões de Kara- thi-us
que o brutal bandeirante português Domingo Jorge Velho, no começo do século XVIII,
implantou a criação extensiva de bois, à solta, pelas imensidões sem cercas das
margens do Rio Poti, motivo pelo qual começaram os sanguíneos conflitos entre
os silvícolas e os colonos. Os coitadinhos dos índios não tinham a menor noção do
direito à propriedade. Os Tapuias eram fortes, semblantes ameaçadores, corriam
iguais a feras, indomesticáveis, irredutíveis, mas só possuíam uns simplórios
arcos e flechas contra os bacamartes cuspidores de fogo dos “conquistadores”. Ou
deixavam a condição de índio hostil, ou eram sumariamente exterminados! E
muitos preferiam à morte a serem pacificados, pois ser índio é um estado de
espírito, é um modo de ser, é algo rígido e que é invisível aos olhos.
Um dos últimos conflitos entre
os pecuaristas e os índios no Vale do Poti ficou conhecido como o Massacre da
Furna dos Caboclos e aconteceu na região do Distrito de Montenebo, no sopé da
grande Serra Azul. O fazendeiro José de Barros,
dono da propriedade Bebida Nova, notou que os seus animais estavam sumindo e
descobriu que os mesmos vinham sendo caçados pelos índios que dormiam numa
furna na vertente da Serra. Então, tramou um ardil bem perverso. Mandou um
caçador conquistar a confiança dos índios e, em determinada noite, este cortou
as tiras de todos os arcos, dando sinal para que os homens de Zé de Barros atacassem,
eles entraram na caverna exterminando homens, mulheres e crianças que ali se
encontravam e ateando fogo em tudo. Milagrosamente uma criança escapou pela boca
da furna, ganhou à Caatinga, passando a viver no meio do mato, como fera e um
dia foi pego, com ajuda dos dentes dos cachorros de caça. A criança se tornaria
a senhora Jovelina Barata, bisavó do índio potiguara Mariano Barata, que deixou
muitos descendentes no bairro da Maratoan.
Na localidade de Lagoa dos Neres,
na cidade de Novo Oriente, existe a Associação do Povo Potiguara. E é
registrada na FUNAI como a Lagoinha dos Potiguaras. Numa época, de um passado
não muito distante, o famoso Pe. da Varginha em brigas por terras com o tal de Antônio Bento, numa feroz guerra de cangaceirismo,
expulsara os potiguaras das redondezas. Antes, porém, quem tangeu os índios de
lá foi a cruel seca de 32. Procuravam escapar da dura estiagem cearense nas
terras amenas do Piauí. A Dona Nazaré, uma líder, curandeira, parteira e
possuidora de poderes espirituais, acampa a turma de retirantes, debaixo de uns juazeiros, para alimentação e descanso. E, quando
resolve prossegui, descobre que está faltando a sua filha Gonçala. A procura é
incansável, muitas rezas fortes e, depois de três dias de desespero, acham um
caçador e rastreador que os ajudam na busca. O pai da menina sobe nas árvores e
grita a todo pulmões: - Gonçaliiiiiinha!!! Em determinado momento ouvem uma vozinha,
já sem força, em resposta – Estou aqui meu pai! Ao se dirigirem para o local em
que estava a criança notam as pegadas da onça que se cruzam com o rastro da
menina, e o feroz animal, por algum motivo, não pôde encontrar a sua presa!
Nestas viagens, de desespero, alguns morreriam de fome ou de sezão braba, com
febres altas e coceiras pelo corpo.
Gonçala, sempre sob a proteção
de Nazaré, teve de fugir outras vezes para o Piauí, tangida pelas secas. E, já
mulher feita, casada, vem morar em Crateús, trazendo Helena, Nonato, Miguel e
Raimunda, seus filhos. As duras lutas pela sobrevivência e os tempos ruins os
perseguem impiedosamente. A sequência de anos: 1979 / 80 /81 / 82 e 83 mostra-se
mais perversa do que quando fugiam para o Estado vizinho. No Grito da Seca, o
ano de 1983, a Helena já com filhos para criar, alista-se no Bolsão da Santa
Fé. Tem que levar latas d’água de 18 litros na cabeça para a construção da
parede de um açude. Foi quando o Pe. Afredinho a convidou para ir à Igreja de São
Francisco.
– Esta Senhora magrinha, de touca na cabeça,
venha aqui para cima! O sacerdote a convoca para assistir à missa ao seu lado e
no altar. O Pe. Alfred Kurtz dormia oito dias seguidos na casa de um pobre sofredor
do bolsão, como pernoitara muitas vezes na casa de Dona Helena. Um dia teve que
escolher um, entre os trabalhadores que lhe hospedara, para relatar o modo de
vida e a resistência dos pobres de Cratheús num retiro em que estava nada menos
que Dom Helder Câmara. Colocam os nomes de 15 pessoas numa sacola e pedem para
retirar um, e deu o de Dona Helena. Alguém, enciumado, protesta. Isso não é justo,
essa senhora raramente vai à missa e quase nunca está ao lado dos padres, lhes
fazendo mesuras. Outro sorteio e novamente o nome da tapuia-potiguara é
escolhido. Quando não estava estudando – Alfabetizou-se pelo Mobral, concluiu o
Normal no Colégio Regina Pacis e fez um curso especial de Licenciatura para o
Magistério Indígena - estava ajudando a Dona Nazaré, na Rua Júlio Lima, em
frente a um altar de madeira, realizando curas, preparando banhos ou entoando orações:
“Meu cordão é de ouro / Minha medalha é de prata / Se eu não me engano / quem
chegou foi João da Mata / Eu baiei na mata / Na mata eu baiei / E na mata
ninguém me viu...” Via muitas vezes, a
qualquer hora do dia ou da noite, a avó cruzando os braços em frente do corpo,
balbuciava a oração secreta de Santa Margarida, a mais popular entre as
parteiras, e partia para pegar mais uma criança que nascia no mundo.
Dom Fragoso, bispo de Crateús,
oferece como prêmio pelo esforço de Dona Helena uma viagem à cidade de Tefé, na
Amazônia, para especializar-se na cultura indígena, ela preferiu conhecer os
Tremembé de Almofala, em Itarema, e a bonita luta por suas terras.
Era missão de guerreira
indígena, Dona Helena, como foi a da índia Joana em derrubar as cercas que o violento
Major Pe. da Varginha levantava, reerguer a cultura do povo Kara-thi-us, reeducar
as crianças índias crateuenses e brigar pelas terras que eram suas, desde o descobrimento do Brasil.
Foi preciso convidar alguns dos
grandes especialistas em línguas indígenas do Brasil, como Professor Pinheiro,
Dr. Gilvan Muller e a Dra. Marinalva Vieira Barbosa. Requisitaram-se, de
Portugal, as Cartas das Sesmarias e constatou-se, até linguisticamente, uma
grande herança indígena na ribeira do Poti, identificando as etnias espalhadas
por aqui, Tupinamba, Kariri, Tabajara, kalabaça e Potiguara. O caminho para o
reconhecimento e recuperação da história indígena estava iniciado.
Existem, atualmente, duas
comunidades indígenas no município de Cratheús, totalizando 5900 ha, que são as
aldeias de Nazário, no topo da Serra da Ibiapaba e a de Mambira, no sopé da
mesma serra, onde o cacique Renato Potiguara, filho de Dona Helena, é o chefe.
Na primeira escola indígena do
Brasil a educação era pautada no princípio da catequização, orientada pelos
missionários jesuítas. Hoje, na Escola Indígena Raízes de Crateús, com 380 alunos,
o resgate da cultura vem sendo feito na mente das criancinhas para que o
passado, que um dia tentaram destruir, volte a brotar novamente, vigoroso e
florido.
Dona Maria Helena Gomes circula
pelo pátio da sua Escola comprovando que as coisas andam por si e as mil
maravilhas. Os alunos que não estão na
sala de aula fazem as atividades de reforço nas Potiocas, umas cabaninhas de
palhas, outros recebem instruções na roça de milho e de feijão ou no canteiro
de hortaliças que ficam ali, ao lado. É um colégio que além de ensinar para a
vida, mostra, realmente, o significado de liberdade e felicidade!
Uma
reaprendizagem com o passado, numa rica experiência como a nos dizer: “Quando
vieram, eles tinham as fantasias, a Bíblia e nós a terra. E nos disseram, peguem
essas ilusões, fechem os olhos e rezem. Quando abrimos os olhos, nós éramos os
sonhadores com a Bíblia nas mãos e eles os donos das terras.”
A
guerreira Maria Helena muito tem feito
pelo resgate dos valores culturais e da memoria indígena, coisas que
comprovamos no pátio do Colégio em que é a diretora: os alunos alegremente
dançam o Torem, eles pulam, eles cantam em louvor à vida, agradecendo a
natureza, na antiga língua dos tapuias, como a dizer: Vocês cortaram nossos
galhos, nossos trancos, mais se esqueceram de arrancar as nossas raízes, e elas
brotaram. E aqui estamos, de pé!
A
todos os Karatis que tombaram defendendo as terras do Vale do Poti, sem se
curvarem ao vil invasor e àqueles que trazem na alma e no sangue a intrepidez índia
e o enorme valor silvícola, dedico minha admiração e meu louvor!
Raimundo Candido
quarta-feira, 8 de abril de 2015
OLIVIA BEZERRA DO BONFIM
(Crônica do escritor Flavio Machado da Academia de Letras de Crateús)
O magistério é uma das mais nobres e antigas carreiras da humanidade. É a prática do Amai-vos uns aos outros, pregado por cristo. As mais importantes personalidades do mundo, sem exceção, passaram pelo crivo de professores, que dedicados, souberam multiplicar os talentos concedidos por DEUS, através dos ensinamentos. Foi o magistério a missão recebida e desempenhada pela jovem Olivia Bezerra.
Nascida em 1912, logo nos seus primeiros anos de vida de vida conheceu o caminho do Instituto XV de novembro, escola do professor Lisboa Rodrigues. Em 1929 iniciou um trajeto de penúria, enfrentando longa viagem, a cavalo, de Crateús a Quixeramobim, a fim de tomar assento no trem e seguir para Fortaleza, onde no Colégio das Dorotéias, em regime de internato, se preparava para, o magistério. Depois fez especialização na língua Francesa, concluindo o curso da CADES.
Em 1936, na cidade do Ipu, iniciou sua vida profissional, assumindo o cargo de professora nas Escolas Reunidas. Voltou para o seu torrão natal e continuou sua missão, ensinando no Grupo Escolar Firmino Rosa, nome posteriormente mudado para Grupo Escolar Lourenço Filho. Neste estabelecimento educacional se firmou, chegando a assumir durante 10 anos o cargo de diretora.
Filha de tradicional família católica, contraiu núpcias matrimoniais com Manoel Bonfim Filho (Manelim), então viúvo, com quem teve a filha Ana Maria Bezerra Bonfim, Advogada e o Engenheiro José Maria Bonfim.
Dona Olívia nasceu no dia 08 de abril de 1912, pouco mais de quatro meses após Crateús ser elevada à categoria de cidade. Cresceu ao lado deste torrão e muito contribuiu para elevar o nome de Crateús. Não se pode falar sobre educação nesta terra sem incluir o nome de Olivia Bezerra do Bonfim, pois além de exercer a função de professora durante décadas, foi por 10 anos diretora do Grupo Escolar e contribuiu significativamente, para ajudar o Professor Luiz Bezerra na instalação da Escola Normal Rural e o seu cunhado Padre José Maria Moreira do Bonfim por ocasião da fundação do Ginásio Pio XII e do Patronato Senhor do Bonfim. Prestou significativa ajuda à nossa diocese, pois constantemente era requisitada para redigir e traduzir as inúmeras correspondências recebidas e enviadas por Dom Fragoso, em intercâmbio com a França.
Na vida de Crateús, testemunhou muitas ocorrências, retendo na memória o episódio da chegada dos revoltosos, da expectativa gerada na população, quando parte dela abandonou a cidade e temerosa escondeu jóias e pertences de valor, naquela época de medo e pavor. Testemunhou o profícuo vicariato do padre Juvêncio e do padre Bonfim. Assistiu a visita de Nossa Senhora de Fátima, ocasião em que a cidade ficou mal falada, pela falsa afirmativa de que o juiz da cidade prendeu a Santa. Dona Olivia testemunhou a chegada do 4º Batalhão Ferroviário, transformado em 4º BEC. Por certo acompanhou o desenrolar dos acontecimentos na cidade em função da ditadura militar, implantada em 31 de março de 1964. Testemunhou muitas e acirradas campanhas eleitorais.
Com seus 102 anos vividos e dedicados ao beneficio da coletividade, também viu inúmeros sofrimentos de nosso povo em decorrência de secas nordestinas e se alegrou com a fartura de água em muitos bons invernos que produziram grandes safras.
Olivia Bezerra do Bonfim por uma casualidade nasceu no dia 08 de abril de 1912 no município de Independência, quando seus pais, temporariamente, cuidavam de uma retirada de gado. Foi na fazenda Tourão, pertinho de Crateús, onde ela morou e cresceu ao lado de sua família. É Filha de João Rodrigues de Melo e Rita Ubelina de Melo. Está prestes a completar 103 anos de vida, mora em Fortaleza desde 1993, mantém-se lúcida, tem ainda boa visão e locomoção. Ler e demonstra desembaraço ao recordar as coisas do passado. Sua longa vida não se constitui em um simples existir, pois no decorrer da sua trajectória mostrou aos seus alunos e aos seus filhos a trilha dos princípios morais e éticos que norteiam a vida e precisam ser cultivados no seio da população.
Nascida em 1912, logo nos seus primeiros anos de vida de vida conheceu o caminho do Instituto XV de novembro, escola do professor Lisboa Rodrigues. Em 1929 iniciou um trajeto de penúria, enfrentando longa viagem, a cavalo, de Crateús a Quixeramobim, a fim de tomar assento no trem e seguir para Fortaleza, onde no Colégio das Dorotéias, em regime de internato, se preparava para, o magistério. Depois fez especialização na língua Francesa, concluindo o curso da CADES.
Em 1936, na cidade do Ipu, iniciou sua vida profissional, assumindo o cargo de professora nas Escolas Reunidas. Voltou para o seu torrão natal e continuou sua missão, ensinando no Grupo Escolar Firmino Rosa, nome posteriormente mudado para Grupo Escolar Lourenço Filho. Neste estabelecimento educacional se firmou, chegando a assumir durante 10 anos o cargo de diretora.
Filha de tradicional família católica, contraiu núpcias matrimoniais com Manoel Bonfim Filho (Manelim), então viúvo, com quem teve a filha Ana Maria Bezerra Bonfim, Advogada e o Engenheiro José Maria Bonfim.
Dona Olívia nasceu no dia 08 de abril de 1912, pouco mais de quatro meses após Crateús ser elevada à categoria de cidade. Cresceu ao lado deste torrão e muito contribuiu para elevar o nome de Crateús. Não se pode falar sobre educação nesta terra sem incluir o nome de Olivia Bezerra do Bonfim, pois além de exercer a função de professora durante décadas, foi por 10 anos diretora do Grupo Escolar e contribuiu significativamente, para ajudar o Professor Luiz Bezerra na instalação da Escola Normal Rural e o seu cunhado Padre José Maria Moreira do Bonfim por ocasião da fundação do Ginásio Pio XII e do Patronato Senhor do Bonfim. Prestou significativa ajuda à nossa diocese, pois constantemente era requisitada para redigir e traduzir as inúmeras correspondências recebidas e enviadas por Dom Fragoso, em intercâmbio com a França.
Na vida de Crateús, testemunhou muitas ocorrências, retendo na memória o episódio da chegada dos revoltosos, da expectativa gerada na população, quando parte dela abandonou a cidade e temerosa escondeu jóias e pertences de valor, naquela época de medo e pavor. Testemunhou o profícuo vicariato do padre Juvêncio e do padre Bonfim. Assistiu a visita de Nossa Senhora de Fátima, ocasião em que a cidade ficou mal falada, pela falsa afirmativa de que o juiz da cidade prendeu a Santa. Dona Olivia testemunhou a chegada do 4º Batalhão Ferroviário, transformado em 4º BEC. Por certo acompanhou o desenrolar dos acontecimentos na cidade em função da ditadura militar, implantada em 31 de março de 1964. Testemunhou muitas e acirradas campanhas eleitorais.
Com seus 102 anos vividos e dedicados ao beneficio da coletividade, também viu inúmeros sofrimentos de nosso povo em decorrência de secas nordestinas e se alegrou com a fartura de água em muitos bons invernos que produziram grandes safras.
Olivia Bezerra do Bonfim por uma casualidade nasceu no dia 08 de abril de 1912 no município de Independência, quando seus pais, temporariamente, cuidavam de uma retirada de gado. Foi na fazenda Tourão, pertinho de Crateús, onde ela morou e cresceu ao lado de sua família. É Filha de João Rodrigues de Melo e Rita Ubelina de Melo. Está prestes a completar 103 anos de vida, mora em Fortaleza desde 1993, mantém-se lúcida, tem ainda boa visão e locomoção. Ler e demonstra desembaraço ao recordar as coisas do passado. Sua longa vida não se constitui em um simples existir, pois no decorrer da sua trajectória mostrou aos seus alunos e aos seus filhos a trilha dos princípios morais e éticos que norteiam a vida e precisam ser cultivados no seio da população.
sábado, 4 de abril de 2015
Arribação
Uma ave pousou na minha mão!
Emplumou, exibida e ostentosa
como a seda nas flores.
Cativou-me! Tanto canto triste e doce
e até no gorjeio de Sol Maior delirei!
A avezinha medrou, o ânimo cresceu,
mas seu olhar mirava um horizonte...
Sofria na invocação dos crepúsculos!
Não trinou seu canto de despedida
e, num voo rápido, sem adeus, partiu!
Liberdade, enfim, desprendida
de minha triste e inútil mão!
Um peso enorme ficou no vazio,
com meu olhar a buscar o infinito,
e não vi chegar a hora de arribação!
Raimundo Cândido
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Poeira
Da realidade poenta:
Eu sou, tu és,
nos somos impuro pó!
Atila, os Papas,
as putas, as freiras,
as santas intensões,
as tramas do capeta,
a claridade do dia,
o breu da noite,
as lamurias, as orações,
a esperança que nos guia,
o fútil, o essencial,
e o cruento tempo
é, fundamentalmente,
impudico pó.
Toda existência, por fim!
Mas só a dor no peito,
atada ao pó que sou,
ainda não pulverizou!
Raimundo Cândido
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Tintinha, a Poetisa da Ribeira do Poti.
O Sertão de Cratheús, mesmo se
despindo do manto verde de esperanças nas raras quadras invernosas e se
revestindo de um desalento, quase sem vida, numa paisagem repleta de gravetos
secos e de brancos ossos espalhados pelo chão, ainda é um dos mais belos e
puros poemas que compõem as plagas nordestinas.
Desde a época áurea do Ciclo
do Couro que o Distrito de Curral Velho é uma terra bárbara, de estradinhas
tortuosas e tristes, esmaecida pelos raios escaldantes do sol, mas nunca cessou
de brotar poesias na alma esperançosa do rústico sertanejo. Povoados dispersos pelas
margens dos Riachos Serrote e do Meio, que desemborcam no leito Rio Poti,
sobrevivem à custa do esforço incomum do homem do campo, num heroísmo
inimaginável.
A Lagoa das Pedras dos Rodrigues,
um local cheio de pequenos lagos que ficam repletos de marrecos e patos nos
invernos abundantes, é a morada de homens e mulheres de uma estirpe sólida e obstinada.
É onde residem alguns laboriosos Bonfins, leitões e Rodrigues que plantam as sementes
de esperança em suas roças, ao som do mugido do gado, do balido dos carneiros, do
relincho dos jegues, do berro dos bodes e depois ficam aguardando as providências
divinas.
Da produtiva terra do barro, e
seus arredores, emergiram grandes poetas como Bastiãozinho, Datin Bonfim, Lucas
Boquady... E, aqui e acolá, assim de repente como quem não quer nada, outros vates
vão aparecendo: o Junior, o Luciano... Todos, gerados no seio da enorme família
Bonfim.
Habita na Lagoa das Pedras dos
Rodrigues, entre a Vaca Morta e a Ipueira Cercado, uma eficiente Palas Athena,
a deusa que rege a sabedoria, símbolo da inteligência, da educação e até da sublime
poesia! E no meio do inóspito sertão crateuense, reina a poetisa tintinha, sim
senhor! Uma pupila preparada pelas orientações da Mestra Dona Delite Menezes
para lecionar nos Sertões de Cratheús, desde a época do Mobral. Além de Professora,
é versada nas rimas e canta as coisas do chão e as lidas diárias de sobrevivência
do homem do campo. No grato poema: “ Dona Delite minha Mestra / Como posso
esquecer / Pois o pouco que sei / eu aprendi com você” percebemos a dignidade
de uma poetisa que reconhece quem lhe deu a mão. Uma prova de dignidade. E
celebra os acontecimentos de seu lugar com o lirismo simples da sua poesia de
rima popular, alegria, dor, esperança e o amor que é um tema constante de seus
versos: “Amar é coisa divina / veja que tenho razão / Se amar me faz sofrer /
Antes dá satisfação / amor para mim é tudo / Ele é a minha inspiração.” Este
“ele” é o Abdias, seu esposo há 35 anos, e fiel companheiro de vida. A poetisa
assistia aos jogos de futebol, nos campinhos do interior, só par gritar com
emoção o nome do atleta preferido: Abdias! Abdias! E aí surgiu o entusiasmado
namoro e logo marcara o grande casamento. Outro companheiro inseparável da
poetisa da margem do Riacho do Meio é um elegante e velho cachorro chamado
Leopardo. Protetor só até ali, ninguém toca em nada de Tintinha, ele diz logo o
porquê do nome, mostrando os caninos finos e as garras afiadas. Os cães aliviam
a nossa solidão e são elos com o esperado paraíso, dizem os poetas.
Francisca Leitão Rodrigues
Pereira, a doce Tintinha, ex-professora, inspirada poetisa, passa o dia sentada
numa cadeira vendo televisão, ouvindo o rádio, captando o som da natureza que o
vento joga para dentro de casa. Um velho galo que canta, as galinhas que
cacarejam, o balido das cabras, o trinado do galo campina que chega misturado
com o farfalhar das folhas nas árvores do terreiro. Tintinha está doente. A
poetisa perde aos pouco os movimentos das pernas, a visão vai diminuindo à
medida que uma ataxia degenerativa toma de conta de seu sistema nervoso. Uma
doença hereditária embutida no DNA de uma ramificação da família Bonfim que aos
pouco vai deformando seu cerebelo e a sua retina, tornando-a quase cega. Mas ela
não se entrega: “Eu queria está sadia / Para mais tempo durar / Pois viver é
muito bom / temos que aproveitar / até quando Deus quiser / Só nos resta
esperar...” A Palas Athenas crateuense tem consciência de sua situação e se
esforça para não deixar perecer o que tem de mais belo dentro de si, o dom da vida
e a vocação para a poesia: “Minha vida é um romance / Dos que todo mundo cria /
Não sou triste nem alegre / Nem vivo de fantasia...”
Sentado ao lado de Francisca
Leitão, a poetisa da Lagoa das Pedras dos Rodrigues, sob os olhares vigilantes do
cachorro Leopardo, o seu anjo leal e guardião, lia os versos de Tintinha, em
dezenas de cadernos, rabiscados com as mãos trêmulas, as palavras já
escapulindo das linhas e sobre os mais variados motes: A festa do Barro em
Curral Velho com suas olarias fabricando tijolos e telhas, o embuste da construção
do Lago de Fronteiras, os políticos descarados e sem palavras, os elogios à
Rádio Camponesa, no Assentamento Palmares, onde de vez em quando o locutor declama
um dos seus versos para os ouvintes do sertão, o desequilíbrio ecológico trazendo
seríssimas consequências para o nordeste, como a falta de água, a chegada do
terceiro bispo à Cratheús e os constantes louvores a Nossa Senhora, a quem pede
proteção para sua família, pois já tem uma das filhas molestada pela irrevogável
e perversa barreira que o destino impõe no caminho da gente e então me lembrei
do poeta Manoel Bandeira, com sua doença estigmatizante, forçado a viver na
solidão, mas nunca deixou que isso fosse o fim de seus sonhos, descobriu, como
a poetisa Tintinha, que a sua salvação era assumir o compromisso com a maravilhosa
e divina poesia.
Ganhei, de Tintinha, um verso
pela visita que lhe fiz, intitulado Surpresa: “...O Raimundinho da Dona Delite...
/ Comigo muito conversou / E mais poderia ser / pois minha voz atrapalhou /
dava pouco para entender / Mas é assim que estou / E nada se pode fazer...”
Despeço-me da poetisa da Ribeira
do Poti, prometendo outras visitas para terminar de ler o restante da montanha
de versos em seus cadernos, e volto para casa pensando que, se não podemos
mudar o nosso destino, podemos mudar nossa atitude para com a vida, para com a
outra vida que poderiam ter sido e que não foi.
O canto poético, na pouca voz
da poetisa, me arrebatou. O sorriso sincero que mostra uma fortaleza de espírito,
é como uma flor que o belíssimo Sertão de Cratheús tem a nos presentear. E
pensando na Paz, estampada no rosto tranquilo, afirmando que poesia é vida, é epifania
e salvação, silenciosamente rezei: "Concedei-me, Senhor, a serenidade
necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para
modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras".
Obrigado, doce poetisa
Tintinha, tu és uma esplendorosa flor poética que o Sertão de Cratheús me
mostrou!
Raimundo Cândido
terça-feira, 31 de março de 2015
Quimera
A ilusão, astuciosa, num rígido gesto,
interpelou-me: - O que tens, amigo?
Vãs promessas vi, nos olhos dos sonhos.
- Não tenho nada, não! Deixe-me
em paz, oh, malvada ilusão!
- Tem sim! Categórica, ela insistiu:
- Até as sombras da noite estão
irrequietas, por tua apreensão!
- Está certo, dir-te-ei, mas não
me perturbe depois, Oh danação!
E então, cochichei ao seu ouvido:
“Senti o cheiro das rosas mortas
corrompendo o ar e vi o vago tempo
orvalhando um doloroso abandono.
E no divã da irrequieta madrugada
não pude deixar minhas insanidades,
as minhas rugas, as minhas dores
e um mar de água salobra escorreu
para a imensidade do nada!
Nem a voz do divã soube
prenunciar o que sobrevêm,
ou algo além de meu destino
sequer o que restou, por hora, de mim!
Porém, ela disse-me: - O ermo é tua sina,
triste poeta da Ribeira do Poti.
E meus olhos se afogam na longa solidão.”
Estás satisfeita agora, Quimera?
A ilusão abraçou-me, meigamente,
e consolou-me: - Não acredites
neste adivinho não, poeta!
Recomece... Se puderes. E não descanse,
não se desespere nas trilhas do mundo.
Fim é só para quem não vê um recomeço.
E segui, caminhando ao lado da ilusão,
que ia borrifando, nos ímpios,
os seus predominantes caprichos!
interpelou-me: - O que tens, amigo?
Vãs promessas vi, nos olhos dos sonhos.
- Não tenho nada, não! Deixe-me
em paz, oh, malvada ilusão!
- Tem sim! Categórica, ela insistiu:
- Até as sombras da noite estão
irrequietas, por tua apreensão!
- Está certo, dir-te-ei, mas não
me perturbe depois, Oh danação!
E então, cochichei ao seu ouvido:
“Senti o cheiro das rosas mortas
corrompendo o ar e vi o vago tempo
orvalhando um doloroso abandono.
E no divã da irrequieta madrugada
não pude deixar minhas insanidades,
as minhas rugas, as minhas dores
e um mar de água salobra escorreu
para a imensidade do nada!
Nem a voz do divã soube
prenunciar o que sobrevêm,
ou algo além de meu destino
sequer o que restou, por hora, de mim!
Porém, ela disse-me: - O ermo é tua sina,
triste poeta da Ribeira do Poti.
E meus olhos se afogam na longa solidão.”
Estás satisfeita agora, Quimera?
A ilusão abraçou-me, meigamente,
e consolou-me: - Não acredites
neste adivinho não, poeta!
Recomece... Se puderes. E não descanse,
não se desespere nas trilhas do mundo.
Fim é só para quem não vê um recomeço.
E segui, caminhando ao lado da ilusão,
que ia borrifando, nos ímpios,
os seus predominantes caprichos!
Boaventura Bonfim disse...
Quanta poesia, meu Deus, haurida de um ímpeto do poeta em contato com o Divino, que os mortais denominamos de "momento de inspiração". Parabéns, Professor Raimundo Cândido. Continue plasmando seus momentos com Deus, que os poetas chamamos de instantes de "loucura". Um forte abraço do amigo Boaventura Joaquim Furtado Bonfim, velho parente e conterrâneo radicado em Fortaleza.
domingo, 29 de março de 2015
Carrapicho
Na ocasião,
como os carrapichos,
grudo-me ao vento,
e ao brilho da luz.
Pelas circunstâncias,
tal preciso velcro,
entrelaço-me às brisas
e ao silêncio das noites!
Exigência de vida,
pois apeteço seguir-te,
agarrado ao teu vulto!
Raimundo Cândido
como os carrapichos,
grudo-me ao vento,
e ao brilho da luz.
Pelas circunstâncias,
tal preciso velcro,
entrelaço-me às brisas
e ao silêncio das noites!
Exigência de vida,
pois apeteço seguir-te,
agarrado ao teu vulto!
Raimundo Cândido
sábado, 7 de março de 2015
Rio Poti – A Fonte
No principio era a Poesia. E a
poesia estava na fonte, e da fonte nasceu o córrego, e o córrego fez-se um majestoso
rio. Era o Poti, ziguezagueante, sinuoso, serpenteando como cobra de vidro
pelos descampados sertões de Cratheús. Por princípio, os rios já existiam,
sacrossantos, no plano da Divina Poesia!
Um dia, a criança que rompia as
manhãs em turvas águas fluviais, subitamente anoiteceu, perplexa e tristonha, nas
exauridas ruínas de um rio maltratado, sem o precioso líquido a escorrer no seu
mortificado leito que vai, pouco a pouco, deixando de existir. O rio que brotou
de meu peito só quis desaguar e permanecer distante, ao largo mar. Mas ele
sempre retorna, nos sonhos, trazendo a infância que rebenta da ampulheta do
tempo. Os rios não morrem, hibernam. A gente é que não sabe dos fluviais
mistérios que há! O Rio Poti, que ainda flui em mim, tem uma parte perene e
outra intermitente, com suspensão quase contínua, interpondo-se no fluxo da
existência. Concede-nos a mínima estação, cheia de benesses (E quando há!), numa
incomensurável alegria e impõe as temporadas amargas e de longas paisagens
cinzentas (Quase sempre!), e é um pesar!
Havia fortes indícios suspendendo
o porvir fluvial e se estampava como uma tragédia no ar, como agouro ameaçando
o retorno do velho Itaim-açu, como é chamado o Poti na sua nascente. Os quatro
anos seguidos (2011 - 2014) de estiagens pesadas e a profecia de retorno do
maior desastre que se tem notícias na história do sertão crateuense, a seca do
15, cem anos depois, ameaçava o regresso do estimado rio, num prenúncio
tenebroso. Como se a natureza entendesse as datas prefixadas pelo homem, e obedecesse
minunciosamente.
Tive medo, fiquei com receio
de não mais ver o Rio dos Camarões escaramuçar na sua velha calha e então,
resolvi conhecê-lo, por inteiro, desde a sua falada nascente, na Serra da
Joaninha, até a foz, no belíssimo Encontro das Águas, no Piauí, onde reina o famigerado
Cabeça de Cuia.
Munido das informações
necessárias, quase na madrugada ainda, apanhei a Topic que faz horário para a
cidade Quiterianópolis, onde fica a nascente do Poti. Passamos por Novo
Oriente, seguindo pela BR 404 e, cedo da manhã, chegamos às terras que
pertenceram a Senhora Quitéria de Lima, a antiga Vila Coutinho, a 78 km de
Cratheús. O topiqueiro me avisa: - Esteja aqui, na parada, antes de 1 hora da
tarde, senão você vai pernoitar. E apresenta-me a um Moto-taxi, dizendo: — O João
Caburé lhe levará aonde pretende ir!
Firmo contrato com o tal João,
mas não tive coragem de falar seu apelido (Encobri um leve sorriso, pois o
coitado até parecia um agouro!), mas era um guia tagarelo, que logo me comunica:
— Até a Fazenda Jatobá são 40 km de distância e cobro R$ 1,00 por cada
quilômetro rodado, mas antes saiba que a
rodagem é toda de terra batida. E na estrada, de novo! A garupa da moto pulava mais que burra
coiceira pela carroçal da CE 277, e eu já imaginava como seria inconveniente o
regresso. Além dos solavancos, dos catabis no chão esburacado, ainda tinha a
procissão de carros-pipas, que iam e vinham sem parar, com o mundo
desaparecendo no poeirão que subia no ar, mais pareciam tropas de jegues na
seca de 32, a denunciar mais uma grande crise hídrica.
De vez em quando passávamos
por um pontilhão. Perguntei: — Ó João, esses riachos que estamos passando, caem
todos no Poti? Responde-me, gritando, para superar o barulho do motor: — Que
nada, amigo! Isto que você está vendo é o próprio Poti!
E lembrei-me de um ditado antigo:
“Rio torto a gente passa é mil vezes”. Uma paisagem desolada, vegetação
desmatada, um imenso eito de abandono e solidão, até a Mata Ciliar é uma
raridade no leito do Poti, no município de Quiterianópolis.
Ao longe, uma nuvem de poeira
negra sobe em coluna, e o guia, notando meu interesse, esclarece-me: — É a Mineradora
Globest, que retira, todo mês, 80 mil toneladas de pó de ferro e manda para a
China! Perguntei: - Esse pó não polui o
Poti? Ele proferiu um longo “Huuum!” de descaso ou descredito, não sei, mas
concluiu: - A Secretária do Meio Ambiente vive brigando na justiça. Até as
crianças, que moram aí, estão com uma alergia encruada. Dá em nada!
Não sei por que, mas lembrei-me
do Livro de Exame de Admissão, onde estudei pela primeira vez a lição
intitulada: “O Brasil Colônia”. Até que achava bom quando topávamos com uma
cancela, só assim esticava as pernas. Na frente de cada residência se estampava
uma cisterna, de cimento ou de um plástico azulado, como parte do Programa Água
Para Todos. A surpresa foi quando apareceu o talhado da Serra da Joaninha, uma
asa pétrea em ramificação na Grande Serra Azul, o grandioso maciço da Ibiapaba.
— Já estamos na Fazenda Jatobá! Anunciou o moto-taxista.
Uma casinha branca, assentada quase
na fralda da serra, o reboco caindo, a calçada corroída pelo tempo, um curral
de carcomidos paus-a-pique, eram sinais de que havia vida naquele sopé de
solidão. O morador, um típico vaqueiro chamado Mazim, veio nos receber e, a
priori, já sabia o que tínhamos ido fazer. Mandou-nos aguardar, enquanto pegava
um enorme facão do mato, de umas 20 polegadas, e uma lanterna que daria para
clarear o mundo. Seguimos por uma trilha estreita e íngreme, margeada de angicos,
de aroeiras, de pau d’arcos, todos de caules finos ainda, dando sinal de
replantio. Alegro-me, pois ouço, ao longe, o belíssimo flauteado de um sabiá. Sempre
achei o Poti parecido com um pássaro, a cantar e a voar! Saindo de uma boca
pétrea, na base calcária da Serra da Joaninha, ouvi um som de uma torneira
pingando: Ping! Ping! Ping! Era o Olho d’Água do Fundão e descemos uns três
metros de rocha, numa loca, para chegar a primeira nascente do Poti, já dentro
da famosa Gruta Pinga era só escuridão e entendi o porquê da lanterna. A água
brotava do teto, pingava numa poça, caindo de uma enorme pedra côncava, no
teto, dentro de uma convexa, no chão, e a escorrer para dentro da montanha. E
em cada pingo que caia eu via as lágrimas do sertão! Mazim bebe na concha da
mão, o que me faz repetir o gesto. Ele me dirige um olhar fixo e diz: — Ó, Seu
Raimundo, neste local aí, só vi três coisas matar a sede, até hoje. — O que foi que o Senhor viu bebendo aqui,
onde eu estou, Seu Mazim? Pergunto, assustado.
— Os guaxinins, as pardas e,
agora, você!
— E o que é essa parda, Seu Mazim?
Pergunto de novo.
— É uma oncinha vermelha, a maçaroca, chamam também de suçuarana, mas elas só aparecem por aqui, quando anoitece, Seu Raimundo!
Antes de sair da gruta, pressenti,
como que a presença de Patâmide, a ninfa dos rios, mas só vi uma enorme gia,
quieta num canto, com seus olhos arregalados no meu rumo.
Fomos ver o outro manancial
que fica do lado de fora, ao pé da gigantesca gameleira que abraça as rochas
com suas grosas raízes, como que a espremê-las, para a fonte poder brotar. Era
a nascente do Poti, que hoje é escoada por canos de plásticos, direcionada para
um comprido tanque de concreto, o bebedouro das vacas da Fazenda Jatobá, que
pisoteiam o solo sagrado do início de um rio.
Recordei da lei que obriga a, pelo
menos, uns 50 metros de raio de proteção em cada insurgência de água natural,
cercada de mata nativa, mas logo me lembrei de que estava no Brasil, e no fim
do mundo, na encosta da Serra da Joaninha, que um dia foi mar, o mar que esculpiu,
poeticamente, a Gruta Pinga, com a punção das águas revoltas e o cinzel dos
ventos furiosos, e então agradeci, então roguei: “Bendito Sejais, Ó Grandíssimo
Deus! Pelo rio, obra Tua! Pela água, criatura Tua! Peço-te, Ó Onipotente, fazei
com que toda ameaça de mais sofrimento se dissipe, protegei a nascente do Poti,
fazei com o velho Itaim ganhe novamente vida e corra, como um barco ébrio, voe
como um pássaro a recitar versos aquosos pelo sertão sofrido e que encha o
Colinas, e que encha, com o líquido da vida, o Flor do Campo e estenda suas
benesses ao nosso sofrido Carnaubal. “
Despeço-me da Fazenda Jatobá,
mas levo no peito a certeza de que o Rio Poti é eterno, pois vi o seu sangue
minando das solidas rochas, e pressenti nos olhos da ninfa Potâmide que, um dia,
ele há de voltar.
Raimundo Cândido
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Procissão dos Flagelados
A água que é um bem limitado,
valiosíssimo e irresponsavelmente desperdiçado, virou motivo de piadas: -
Raimundo, você soube do caminhão de cargas que assaltaram na estrada de Novo
Oriente?
Caí, inocentemente, na
brincadeira: - Soube não! E o que levaram? O gaiato cidadão, em disfarçado deleite,
num sorriso cínico, respondeu-me: - Você me acredita que eles só quiseram levar
a água do radiador do carro!
Na crise hídrica se agravava,
cada vez mais, de 2011 até o início de 2015, o desespero era iminente! A
Barragem de Cratheús, sobre o leito do Rio Poti, a primeira grande obra feita
pelo saudoso 4º Batalhão de Engenharia e Construção, logo que por aqui chegou,
mostrava, novamente, as entranhas estripadas, num aspecto funéreo, macerada,
com cinco décadas de acúmulo de lodo e lama no seu bojo. O ano mal começava e
já trazia duas grandes ameaças para a cidade, a volta do pesadelo do Quinze,
depois de cem anos, e as derradeiras gotas de água potável, estavam sendo distribuídas
para a preocupada população. Mesmo com a moderna tecnologia sugando a seiva
aquosa dos veios subterrâneos e canos emendados para aduzir água do longínquo Açude
Araras, o povo só mostrava fé na providência divina.
A cômica piada, do amigo
brincalhão, me fez viajar por lembranças ressequidamente aquosas. No dia 17 de
Fevereiro a Igreja Católica, através da Paroquia Imaculada Conceição, planejou
a Caminhada das Águas para rogar por chuvas, e os fieis, guiados pelo Pe. Beto,
escalaram um imenso bloco de pedra, no centro da Barragem, oraram
fervorosamente e enfincaram um enorme cruzeiro na rocha, implorando águas aos
céus. No outro dia veio uma chuva copiosa que apagou a ameaça do famigerado 15
e atiçou a esperança dos devotos crateuenses. Admiro a crença do povo nos travessões que se
cruzam, no elo que liga a terra aos céus e aonde se travou o maior duelo entre
a vida e a morte. O sertanejo a reverencia: “Salve, Ó Cruz, Tu és a nossa
esperança!”
Uma seca cruel, uma cruz milagrosa
e chuvas a cair dos céus não foram, e nunca serão, eventualidades na Ribeira do
Poti, no sofrido Sertões de Cratheús. Como o protesto da Romaria das Águas, em
Novo Oriente, contra a transposição de 7 milhões de m3 de água por
uma terra ressequida, do Açude Flor do Campo para o Açude Carnaubal, com ordens
de um autoritário governador, ocasionando um enorme desperdício de água potável
e deixando, de sobra, um crime ambiental no leito do rio.
O Pe. Alfredinho já dera sinal
de uma sublime influência, quando, em 1983, logo ao encerrar um sacrifício
habitual, com a Cruz de Cristo nas mãos, e de súbito, cai um aguaceiro enorme,
depois de três anos seguidos de seca. No ano de 1884 ele tinha enfincado a
Santa Cruz dos Flagelados no canteiro de obra do Bolsão da Santa Fé, quando um rígido
comandante do Batalhão ordenou: “Se ele não tirar essa cruz daí, podem derrubar,
e a fio do machado!”
A “Procissão dos Flagelados” é
o livro do crateuense José Hortêncio de Medeiros, editado em 1953, onde ele
narra uma viagem que fez de Pau-de-Arara, em 1932, ano de outra seca braba. Ele
saiu de fortaleza para passar as férias em Cratheus e viu coisas horrorosas no
campo de concentração dos flagelados, em São Luiz do Curu, onde o Governo do
Estado acumulara dez mil pobres almas construindo a estrada de rodagem
Fortaleza-Sobral. Ele diz: “Nos acampamentos um cheiro de morte impregnava o ar.”
E, ao chegar a Cratheús, assistiu a uma
desesperada procissão de fiéis levando uma cruzeiro ao túmulo dos revoltosos. Os
crateuenses esperavam que os milagrosos guerrilheiros tivessem forças suficientes
para abrir as torneiras do céu, era a última cartada de esperança dos
sertanejos.
Ao ler o livro de José
Hortêncio, lembrei-me de uma penosa história que o Dr. José Arteiro Soares Goiano,
um confrade da ALC, me contara:
- Raimundo, minha mãe, Dona
Cotinha, sempre falava de um trágico episódio. Ela nem tinha nascido, e só ouviu
pela boca de meus avós o que se passou na Sombras, o lugar onde eu nasci, que
fica depois do povoado de Santo Antônio dos Azevedos. Era o ano de 1915, ano da grande seca, o sertão
estava num desalento só. Tudo parado, num silêncio pesado e a monótona cor de
cinza no chão era quebrada, aqui e acolá, pelos ossos brancos dos animais, só
se via carcaça espalhada pelos descampados do sertão. Às vezes, o som de um
galho quebrado na mata só aumentava a melancolia, e mais pesava na alma daquela
gente.
O Dr. Arteiro continua o
relato sobre a procissão de flagelados que passaram na Sombras, a fazenda dos
seus avós: “Água era coisa muito rara, a não ser nos locais que tinha um
cacimbão na beira do rio, e assim mesmo tendo que, constantemente, rebaixar o
seu porão para alcançar um novo veio d’água. Na Caatinga, só se sentia o bafo
de quentura, como se saísse das brasas e o único verde que havia era dos
Juazeiros e dos Mandacarus que escaparam de virar ração para o gado. Era mais
de uma família, os retirantes que chegaram na Sombras. Os velhos e as crianças estavam visivelmente exauridos, em letargia
total, num torpor de não se saber se estavam vivos ou mortos e vieram
caminhando, lá do lado da Vaca Brava, na Independência. Disseram que estavam
arranchado debaixo do Juazeiro da Lagoa Grande e ouviram um chocalho
tocar. Um deles se levantou e caminhou,
no rumo do badalo e com poucos metros viu a casa do Seu Herculano das Sombras,
onde foram todos bem recebidos.”
O Doutor prossegue: “Minha
avó, dona Genoveva, rapidamente preparou uma miraculosa Cabeça de Galo com
água, sal, pimenta, farinha, temperado na nata e bastantes ovos de galinha, que
é o alimento propício para quem está muito fraco. Eles se refestelaram e alguém
até pediu um cigarrinho de palha ao meu avô. Foi quando minha avó ouviu uma
conversa, entre eles: - A gente devia de ter trazido o coitadinho, talvez ele nem
estivesse morto! Minha avó perguntou: – Vocês deixaram alguém pelo caminho? – Deixamos um menininho, mas achamos que
estava morto. Ele ficou debaixo do Juazeiro!”
“Eles correm para chegar
depressa no Juazeiro da Lagoa Grande, que ficava ali pertinho e se assustam com
a cena de horror que viram: Os urubus arrancavam os olhos de um menino de uns
nove anos. Notam o corpo do menino ainda quente e ficaram na dúvida se não
estava vivo quando o abandonaram! E uma cruz, enfincada debaixo do juazeiro,
marca o lugar do infortúnio cruel no ano de 1915, na fazenda Sombras, de Seu
Herculano e dona Genoveva.”
Lá fora caia uma chuvinha fina
a confirmar que o 2015 não será como aquele de há cem anos e até que eu já
sabia disso, pois um profeta da Independência, na Fazenda Ipanema, o cabo
Ocelio, mandou me visar: - Raimundo, meu amigo, pode acreditar, eu vi no suor
do sovaco do peba, é muita chuva que vem aí, o inverno está para chegar!
Eu prefiro acreditar naquela
cruz debaixo do juazeiro da Sombras, na cruz dos Famintos da Santa Fé, na cruz
enfincada no pedregulho da Barragem do Batalhão , elas parecem ecoar a meiga
voz do Pe. Alfredinho, num glorioso
sermão: “- Dá cruz da Santa Fé, mais uma vez, morre e nasce a vida no sertão!”
Raimundo Cândido
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Assembleia
Assembleia Geral da Academia de Letras de Crateús - ALC
Confrades e Confreiras,
O Presidente da Academia de Letras de Crateús convida todos
os 30 sócios(as) para fazerem-se presentes à reunião que acontecerá dia 28/02/2015
às 16:00, na sua sede, Rua Francisco Sá S/N, Praça Gentil Cardoso, Praça da
Estação - Centro.
Pauta
- Eleição dos novos membros efetivos para preenchimento de
cadeiras vagas de n° 31 a 40.
- Retomada das contribuições financeira por meio de boleto
bancários, Carnê.
- E outros Assuntos a serem deliberados.
É importante a presença de todos.
Atenciosamente,
Raimundo Cândido Teixeira Filho
Presidente da ALC
sábado, 21 de fevereiro de 2015
O Tamarinheiro
De tanto perambular pelos
descampados da Ribeira do Poti, admirando os angicos, as aroeiras, os pereiros,
as canafístulas, as imburanas, os umbuzeiros, os sabiás, os juazeiros, os
mandacarus, estou ficando arbóreo, metamorfoseado num homem-árvore, arrebatado
por esses seres que vivem na mais pura e auto-suficiente solidão, contribuindo
harmonicamente para o belo, como um poema que a terra escreve aos céus.
Sinto-me em assimilação clorofiliana, sorvendo ar, e os raios do Sol, para a
fotossíntese de minha alma.
Quando a poesia deu-me a honra
de conhecer a Ilha do Amor, Florianópolis, capital de Santa Catarina, o prazer
maior que tive foi ver de perto a velha e frondosa Figueira da Praça XV de
Novembro, uma centenária árvore cantada em versos pelos poetas florianopolitanos
como a Dama Verde que esbanja glamour. Um dia, um insano com um machado na mão,
quis degringolar a gigantesca planta e a Câmara dos Vereadores, rapidinho,
criou uma lei para protegê-la, com guardas constantemente em vigília, que
trocam de posto como os empavonados soldados da Rainha da Inglaterra. Os
galhos, escorados por grossas hastes de ferro, cobrem toda praça por onde a
cidade começou e os turistas, que dão voltas em torno de seu tronco, atraem
para si, a riqueza, a sorte e o amor.
Não sei que vento trouxe
aquela lembrança arbórea, sei que foi pelas sábias palavras do amigo Francisco
Sales, o filho dileto de um paraíso chamado Olho d’Água dos Claudinos, que fica
no município de Novo Oriente. O poeta Khalil Gibran, autor do livro “O
Profeta”, preveniu sobre esse mensageiro aéreo: - Não diga nada ao vento, ele
irá contar às árvores, como, também, relata os segredos dos vegetais,
assoprando aos nossos ouvidos!
- Raimundo, você sabia que
existe um tamarinheiro em Novo Oriente que tem uns trezentos anos de
existência?
- Que história é essa, Seu
Chico? O senhor tem certeza disso?
Humberto Paz, o poeta Cancão,
que ouvia tudo de orelha em pé como a arguta ave do sertão, intrometeu-se: -
Existe sim! É uma monstruosidade sem tamanho e nem sei se já o derribaram!
Tínhamos o determinado
objetivo de ir à Novo Oriente em busca do exato local onde o cangaceiro Rosal
tombara. E o dia da viagem se apressou, marcamos logo para o próximo fim de
semana a aventura em busca da árvore mais antiga dos sertões de Cratheús.
Partimos. O Sr. Francisco
Sales era cicerone da comitiva: Eu, o especialista em Cangaço Caçula Aguar e o
poeta Cancão. Quem morou, quem reside, quem foi embora, as casas que tombaram,
as que foram erguidas e a quem pertenciam agora, aulas de geografia Física e
humana dadas pelo Seu Chico, tim-tim por tim-tim, mal passávamos pela Lagoa do
Tigre. E a estradinha de terra batida foi se desenrolando na nossa frente.
Saímos do Olho d’Água dos
Paturis, chegamos ao Olho d’Água dos Claudinos (dos Culotes) e, assim que uma
grande curva se desfez, vimos um assombro aos nossos olhos: O gigantesco
tamarinheiro com mais de três séculos de existência. Isso pela contagem dos
mais antigos, pois desde a época do patriarca João Claudino que a árvore já era
bem alta e copada. A admiração que tive pela Figueira de Florianópolis ficou do
tamanho de uma formiguinha, frente ao pasmo de minha alma, ao esplendor de
tanta beleza. Viramos crianças novamente, brincando à sombra do Tamarinheiro.
Não resisti ao ímpeto infantil, subi no tronco imenso e percorri seus longos e
largos galhos como se andasse por uma estradinha. Um casal de xexéus do sertão,
nos galhos mais altos, reclamava da invasão aos seus domínios.
Seu Chico Sales relata que ali
já foi palco de tudo, área de lazer, espaço de trabalho e uma branca capelinha
ao pé do corpulento tronco, com uma imagem de N. S. Aparecida, confirma que a
gigantesca árvore é agora um templo da fé celebrada aos céus. O cicerone
conta-nos: “O Dideus, meu irmão mais velho, rodou o mundo todo e chegou aqui
com uma sapiência que atoleimava o povo. Ele resolveu fazer um Piquenique
debaixo do Tamarinheiro que estava todo enfeitado para a noite de São João.
Estava tudo preparado: os cordões coloridos esticados debaixo da árvore e os
troncos de sabiás e juremas pretas amontoados ao lado, para a grande fogueira.
Encarregou-me de distribuir os convites pela vizinhança: Santo André, Bom
Jardim, Macaco, Cavaco, Emaús, Morro do Olho d’Água até os amigos da Lagoa
Tigre e o bilhetinho do piquenique dizia que o Raimundo Claudino iria tocar
violino. Houve gente que me escorraçou, zangado com aquilo, pensando que era
cobrança: - Diga ao seu irmão que eu nunca fiquei devendo nada a ele não, muito
menos esse negócio de penico!”
O Chico Sales aponta para um serrote ao lado, o Morro do
Olho d’Água, onde existia uma fonte que escorria para o Riacho Caldeirão e diz:
- O cangaceiro paraibano Sucupira, do bando do Tenente Rosal, soube que o olho
tinha sido entupido com algodão pelos índios Karatius, em épocas passadas, então
resolveu dinamitar para dar maior vazão à fonte. Tiraram muitos chumaços de lã
empedernida, mas a fonte sumiu, e acho que somente o gigante tamarindo é que
bebe dela agora.
Da secular árvore fomos ao
local onde Rosal tombou. Uma pedra ainda guarda as manchas de sangue como sinal
do termo do malvado cangaceiro e aonde se ouve ainda o estampido do rifle do
caboclo Cambirimba: - Paaaaa... E ao mesmo tempo escutamos um grito de alívio
no sertão: - Mataram o Rosaaal! O expert Caçula Aguar ficou esperançoso de, um
dia, ver uma cruz enfincada ali e ter o Bom Jardim como ponto de visita na rota
do Cariri Cangaço.
Determinado o local da fatal
tocaia de Rosal, voltamos para nos despedir do maravilhoso Cavalheiro Verde em
Esplendor, já que a Figueira de Floripa é a Dama Verde em glamour. E fiquei
sabendo que um cidadão do clã dos Claudinos cogitou transformar o imenso
tamarinheiro em madeira pura. Abismado fiquei com aquela insana ganância.
Seguramente, posso afirmar: O
Tamarinheiro do Olho d’Água dos Claudinos é patrimônio de todo Sertões de
Cratheús e não pode ficar abandonado, por conta própria, sem uma firme
proteção. Galhos de uns 40 cm de diâmetro e um incrível vão de 20 metros,
pendendo ao vento, sem um ponto de arrimo, uma escora, é um risco e uma
irresponsabilidade. O Tamarinheiro pertence a uma família e esta tem que
protegê-lo. O Tamarinheiro pertence, como um tesouro inestimável, a todo povo
de Novo Oriente e Secretária de Meio Ambiente daquele município deve amparar e
colocar estacas para apoiar seus galhos que tentam abraçar o imenso sertão.
Acredito, pelo bom senso do novorientense, que isso acontecerá, e voltarei para
admirá-lo e constatar que estou mesmo ficando arbóreo, comprovar que sou
Sertão, nasci sertão e vivo sertão, pois corre em minhas veias a mesma seiva
vivifica que flui nos lenhos do velho tamarinheiro do Olho d’água dos
Claudinos, ao pé da sua imensa solidão.
Raimundo Cândido
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Bodega do Valmir
Daqui a pouco, eu e os velhos
objetos que me cercam, hão de cair no porão do esquecimento. Pouquíssimas
coisas animadas, ou inanimadas da vida, resistem às ciladas do tempo. E, mesmo
assim, caminho com uma cortina de vidro, a olhar o passado.
Trilhava, absorto, pela minha
querida Rua Frei Vidal da Penha que a cada dia se renova, mais e mais. As
fachadas de minha infância modernizam-se, adquiriram um colorido vivo como se
um dia também não forem taxadas de desusadas, e abrissem espaços para as novas
aparências.
No cruzamento com a Rua
Delmiro Gouveia torna-se intensa a minha saudade: Vejo uma bodega em cada
esquina, poesias que não existem mais. Seu Raimundo Fernandes com uma
“gentileza” característica a receber os fregueses e a bodega de meu pai, Seu
Raimundo Cândido, com o rústico balcão de velha tábua enegrecida num cheiro
forte de couro curtido que irradiava no ar. O que se estampa, aos meus olhos
saudosos, não são os prédios novos que enfincaram no lugar.
Já na altura da Cel. Tobias
avisto um antigo pé de Castanhola e já era uma árvore copada quando, ainda
menino, andava por lá. A refrescante sombra dava para as portas do Bar do
Valmir. Este sim, como a heroica castanhola, resistiu. O mesmo aspecto de
prédio antigo, por décadas e décadas, como a me convidar: Entre, amigo! Entrei.
- Bom dia, Valmir! Como está?
Ele, por trás do balcão e com
surpresa no rosto, por me ver novamente ali, responde:
- Bom dia, Raimundo! Estou bem
e você?
Como que autômato, dispõe um
copo limpo para a primeira talagada. Muitas vezes saí de lá andando nas nuvens
e sem saber que rumo tomar. Agradeço e lembro que perdi o direito de provar a
forte Lagoa do Barro, por abuso do uso quando direito tinha de usar.
- Obrigado Valmir! Estou só
relembrado as nossas vidas, a minha, a sua e que o tempo logo haverá de levar.
Ele sorri, um sorriso já
consumido, a confirmar: - A minha vida é um romance, carregado de amarguras,
Raimundo!
Empresto-lhe os ouvidos, o que
ele aguardava (Acho!) e o que eu estava a procurar.
- Raimundo, eu comecei a trabalhar
neste ramo aos 16 anos, estou com 82. Faça as contas! Passei por muitas coisas,
meu amigo. Primeiro foi quando o Batalhão atrasou os pagamentos dos
funcionários por quase um ano. Vi muita gente quebrar. O Tenente Messias, o
Finado Menezes, e o que a gente podia fazer? Era fazer o que eu fiz, peguei o
caderno de fiado e rasguei tudo. E sabe, foi o melhor negócio que fiz até hoje!
Eu não ia ficar doido!
Percebi que escutaria uma
longa história, uma vida inteira destrinchada e comecei a perguntar.
- Valmir, você que vendeu
muita bebida ao povo, me diga uma coisa: você já bebeu?
- Bebi sim, e muito. A
primeira bodega que tive, eu acabei foi com a bebida e as cutruvias da Zona. O
seu irmão Júlio sabe, eu via ele sempre por lá!
- Raimundo, o sufoco grande foi
na cheia de 74. Este prédio aqui ruiu todo, até as paredes o Rio Poti levou.
Era um mar d’água, daqui até a Praça da Matriz. E soube que, lá pela rua,
quando disseram que caiu o Bar do Valmir, teve gente que chorou: - E agora meu
Deus, aonde eu vou me abastecer? Eu tinha uma família para criar, a sorte foi
que Seu Agileu me cedeu um quartinho e nas festas do Louro da Cruz a gente vendia
bastante pinga e muita caipirinha que minha mulher fazia e quando cuidávamos,
os meus meninos, o Xixico, o Leléu, o Capote e o Peru estavam com a barriga já
para estourar de tanto tomar caipirinha, escondidos, pensando que era refresco.
- Quando as águas baixaram, eu
peguei o material fiado com uns amigos comerciantes e num único domingo os
pedreiros, os serventes que bebiam no meu bar, o Manoel Jucá, o Dede Vicente,
levantaram as paredes e fizeram o teto, em tempo recorde. Mas também, quando
deu 6 horas da tarde estavam todos embriagados, mais melados que espinhaço de
pão doce.
Mesmo adoentado, sem poder
andar com uma perna quebrada, abre a bodega todos os dias, pontualmente às
cinco da manhã. O freguês já está na calçada, impacientemente, aguardando. Do
trabalhador ao desocupado, do doutor ao padre, não falta quem venha todo dia
queimar os dentes com uma caninha forte para afogar as mágoas dos dias
difíceis, para sonhar e suportar essa vida enjoada que Deus nos deu. Esse tal
de Baco, que inventou a pinga, foi um gênio!
- Os meus filhos já pediram:
“Papai, deixe esse negócio de vender cachaça! Eu lhes explico: “Vocês foram
criados com o dinheiro das bebidas, vendidas de dose em dose, então me deixem
trabalhar!”
- Muita gente boa, que se
escorava no pé deste balcão, já se foi: O Babalu, o Tiú, o Cabo Marinho, o Zé
Miolo, o Joaozinho... Foram tantos! O que ainda está vivo é o Mestre Ota, que
sempre apoiava a perna no balcão e declamava a carta de despedida de Getúlio
Vargas: “Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte...”
¬- Um dia, o Manoel Jumentinho
que gostava de cantar imitando a voz do Carlos Nobrega, azucrinou tanto o Véi
Chico Alpragata que esse sentou o pau-de-jucá na moleira do Jumento enxerido.
Ele ficou ciscando aí no chão, igual uma galinha do pescoço quebrado e foi
bater no hospital.
- São coisas da bebida, né
Raimundo. Você sabe, se exagerar, qualquer um sai da linha.
E o Valmir continua:
- E teve um dia que o Mané do
Cego estava tomando umas, tinha uma curriola danada com ele, tirando o gosto
com curimatã e ouvindo o rádio quando o carro da patrulha riscou aí, na porta.
Desceu o Capitão Camilo, que era o delegado e foi logo perguntando: - Que rádio
baile é esse? O Mané respondeu: - Num é radio baile não, Capitão! É muisica! O
delegado segurou-o pelo braço e o coitado do Mané foi preso. Depois, eu soube
que o Capitão só andava cheio de conhaque nas ideias e como aqui só tinha
cachaça ele mandou fechar o bar e até o rádio. Abri, assim que o delegado foi
embora!
- Valmir, com a sua idade,
você tem é que se cuidar mais. Mesmo com ajuda dos seus filhos é necessário
repouso, não acha?
- Qual nada, Raimundo! Quem
nasceu pra morrer peba tem mais é que viver cavando!
Despedi-me do amigo Valmir e
segui o meu caminho incerto. Inexplicavelmente senti uma tontura na mente, as
pernas trôpegas... Será? Mas não tomei nem uma talagada de São João da Barra ou
da quentíssima Lagoa d Barro! Ah, já sei! É que continuo o mesmo velho ébrio de
sempre, na lucidez do coração!
Raimundo Cândido
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Os Sapateiros
O poeta Pablo Neruda não
exagerou no lírico romantismo quando declamou para a amada: “Quando não posso
contemplar teu rosto contemplo teus pés... Amo teus pés só porque andam sobre a
terra, sobre o vento e sobre a água até me encontrarem” A queridinha do autor
de “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” devia ter um bom par de
mocassins, e de couro de búfalo, para poder andar com destreza sobre esses elementos
naturais. Os inspirados poetas bem sabem que elas, as amadas exigentes, dão
mais valor a uma coleção de pares de sapatos do que uma boa composição de devaneio
amoroso. Para serem realmente eficientes, os versos de hoje, devem vir
acompanhados de uma vistosa caixa de sapatos!
Desde que o homem
pré-histórico aprendeu a arte de curtir o couro, raspando a carne, a gordura e
os pelos, para não apodrecer, que surgiram os primeiros sapatos. O Faraó Tutancâmon
andava, elegante, com uma sandália de couro toda ornada de ouro. Na Antiga Roma,
os Cônsules desfilavam com sapatos brancos, os Senadores com uns marrons com
tiras entrançadas até a batata da perna e Legionários usavam botas de cano
curto, com os dedos a descobertos. A manufatura industrial só surgiu na
Inglaterra, e por necessidade dos exércitos que iam às guerras.
A novidade do ramo calçadista,
na cidade de Cratheús, acontecia na Sapataria União do Senhor Edmundo Pinto. As
caixas brancas de sapatos, que vinham de Sobral pelo Trem “Maria Fumaça”, ficavam
nas prateleiras das duas paredes laterais e logo se esgotavam, mas um modelo
novo era reproduzido pelos sapateiros que ficavam no fundo da loja, para
atender aos inúmeros clientes: o Chico Rodão, o Luiz Potássio, um cabra bom de
bola, o Fenelon e o esperto Cerinha, que além de sapateiro era cobrador de
aluguel das casas do comerciante Norberto Ferreira. Além disso, Cerinha ganhou
o apelido de “O Meia-Noite” por rondar as escuras esquinas da cidade, sempre
nas horas tardias, curiando as atividades dos cálidos casais de namorados.
O município, com uma pecuária
razoável, se desenvolveu pelo Ciclo do Couro e deste material fabricava-se quase
tudo que era necessário para a sobrevivência do sertanejo. Os rapazes aprendiam
a arte de celeiro e, também, de sapateiro transformando a pele curtida do gado
em gibões, celas, cordas, canecos de sola e em chinelas de currulepe. Era uma tradição,
de pai para filho, que só era interrompida pela chegada das secas intensas, que
dizimavam os rebanhos. Era quando os jovens migravam, nas estradas já marcadas
pelos seus antepassados, rumo à ilusão de São Paulo ou nas trilhas dos soldados
da borracha, para um desconhecido Amazonas.
A Dona Marica, esposa do rico
Cel. Chico Leite, das Queimadas de Novo Oriente, tinha chegado da banda do
Norte e estava precisando de um chinelo novo, as alpargatas que tinha nos pés
estavam gastas e remendadas. Aproveitou a presença do Senhor João Claudino da
Silva, que estava a trabalhar no alpendre de sua casa, e perguntou:
- Seu João, o senhor sabe
fazer chinelo de couro?
- Sei sim, Dona Marica. Vou
fazer o seu chinelo, é só terminar o serviço desta empreita com o Dr. Chico
Leite, aqui no alpendre.
O artesão João Claudino tirou
as medidas do pé de Dona Marica, 34/35, riscou o couro curtido, desenhando o
molde do pé com uma “costa” de madeira, cortou com uma faquinha bem amolada,
fez o cabresto com uma tira de couro bem mais fina, bateu as pontas das
tachinhas e desenhou no rosto umas figuras que aprendera com seu velho pai, nos
tempos de outrora.
- Está pronto Dona Marica. Aqui
está seu par de chinelos.
A senhora põe os calçados nos
pés e fica admiranda com a obra de arte.
- Corre aqui, Chiquinho, vem
ver que coisa interessante é esse chinelo que Seu João fez para mim! Olhe como
esses desenhos são iguaizinhos àqueles que o Seu Vicente Manco fazia, lá em
Manaus!
- Pois num é, Marica. É o
mesmo tipo de chinelo, até parece do mesmo molde!
O Senhor João Claudino atento
àquelas observações, arregalou bem os olhos, demonstrando um evidente contentamento
no rosto.
- Meus amigos, me digam uma
coisa, como é mesmo a aparência deste tal Vicente Manco, de quem vocês falam?
- Ele até parece muito com
você, Seu João! Respondeu a esposa do Cel. Chico Leite.
- Pois esse sapateiro é meu
irmão, dona Marica. A voz alta demonstrava uma alegria incontida. - É o meu irmão Vicente Claudino, sim, que foi
embora para o Norte fugindo da seca e da fome que por aqui dizimou quase tudo.
Eu vi quando ele caiu de um burro e ficou mancando de uma perna. E nós
aprendemos a fazer chinelas e a trabalhar com couro com o nosso pai. Aprendemos
tudo direitinho como ele nós ensinou.
As lágrimas já escorriam pelo
rosto de João Claudino que não suportara tamanha satisfação, tão grande coincidência.
Achava que seu irmão, que há décadas não mandava notícias, desde a época que arribara
para os perigos de uma Amazônia desconhecida, estava morto. Imaginava que tinha
sido devorado pelos animais, que fora abatido pelas flechas dos índios
selvagens.
- Seu João, agora o senhor
pode se comunicar com ele. Nós temos o endereço de uma bodega, de onde
comprávamos mantimentos, e seu irmão também se abastecia por lá.
E o contato entre os irmãos
Claudinos foi refeito, como que pelo cabresto de um chinelo ligando Cratheús ao
distante coração da Amazônia, a histórica cidade de Manaus!
O conhecido alerta “Sapateiro
não vá além de tuas sandálias!” uma vez transposto pelo Vicente Manco, quando,
expulso pela fome, rumara em busca de sobrevivência no distante Amazonas, até lembra
a história dos irmãos sapateiros Crispim e Crispiniano, que, mesmo separados
pelo Império Romano sempre acabavam juntos, até depois de decapitados.
As coisas de Deus são
perfeitas. Com uma simples sandália nos pés, é suficiente uma longa marchinha
para nos perdermos, e isso após a dolorosa tristeza das despedidas e basta mais
uns poucos passos, adiante, para nos abraçarmos na alegria dos reencontros. E,
depois da coincidência dos irmãos sapateiros, encontrarem-se de novo, em pleno
sertão de Novo Oriente, através de um providente par de chinelas de currulepe, o
velho lema de alerta mudou, e é assim que se deve dizê-lo agora: “Sapateiro,
algumas vezes, é necessário que se vá muito além dos nossos sapatos!”
Raimundo Cândido
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Manelinho, o Caminhoneiro
Existe uma antiga versão de
que os caminhoneiros eram pessoas desatinadas, que passavam dias perambulando pelos
caminhos, num vai e vem sem rumo, num vem e vai sem norte acompanhando as
velhas carroças que passavam. Esses caminhantes emprestaram o apelido aos
primeiros motoristas de caminhão. Desde que surgiu, e se aperfeiçoou, após a 1ª
Guerra Mundial, o caminhão tem encantado e atraído jovens para a dura profissão,
atividade nada fácil que deu motivo à série de TV: Carga Pesada. O oficio é tão
pesado que precisa de um Santo para protegê-lo. Um hercúleo, agigantado, que
atravessava as pessoas num rio perigoso. Um dia, transpunha certo menino e
sentia que, a cada passo que dava, o mesmo ficava mais pesado. Ao acabar a
travessia, exclamou: - Parece que acabo de atravessar o peso do mundo! Ao que o
menino confirmou: - Sim, você acaba de atravessar o Criador e Redentor do
Mundo! Era São Cristóvão, “aquele que carrega Cristo”, que agora ajuda aos motoristas
de caminhão em suas missões, contra o transitório tempo, com seus fretes
pesados.
Em Cratheús, na primeira
metade do século XX, os caminhões foram chegando, devagarzinho, com uma
manivela como motor de arranque. Eram os carros da Empresa Flanklin (Ceará
Transporte) que em cada para-choque se estampava um nome particular: Leão do
Norte, Cidade Maravilhosa ou o Campeão do Nordeste.
O jovem Manoel de Sousa Melo
foi seduzido pela profissão de caminhoneiro e bem cedo. Ao retornar, com o pai,
de uma viagem ao Piauí, Manelinho tira a carteira de motorista e passa a trabalhar
para os comerciantes crateuenses que tinham caminhões: O Sr. Raimundo Resende,
Sr. Antônio Bezerra do Nascimento e na Empresa Moreira & Camerino de Zequinha
Moreira e José de Oliveira Camerino, levando oiticica e mamona para os armazéns
da Brasil Oiticica e da CIDAL, em Fortaleza.
Ganha tanta fama como bom
motorista que foi escolhido, em 1953, para conduzir o carro andor que
transportou a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, do velho campo de
aviação até a Igreja da Matriz. Seguiam, ao jipe
de Manelinho, uma multidão de carros, de motocicletas, bicicletas e de pedestres. Houve uma revoada de pássaros e um intenso foguetório até o momento em que avisaram que a imagem passaria pouquíssimo tempo na cidade, fato que revoltou o povo e as autoridades presentes exigiram um pernoite de N. Senhora. Foi uma festa apoteótica, essa que “prendeu” a Santa!
Manelinho já possuía o próprio
caminhão quando Juscelino Kubistchek decidiu construir Brasília. O imenso
canteiro de obras necessitava de trabalhadores, urgentemente. Nas várias
viagens que realizou no caminhão adaptado, o Pau-de-Arara, Manelinho levava 60
futuros construtores da nova capital, com suas latas de farofa, algumas
rapaduras como alimento nos fatigados dias do longo percurso, para chegar ao
formigamento de máquinas e gente, com o Presidente Nonô caminhando entre os
candangos.
O caminhãozinho trabalhou
tanto, mas tanto, rumo à Brasília, que depois só serviu para transportar água
do Açude do Governo, na malvada seca de 1958. Cratheús não tinha água encanada,
e o agora carro-pipa de Manelinho enchia o tanque de refrigeração do Motor da
Luz, no barrocão, aos cuidados do Sr. José Benoni e também completava a velha caixa
do Posto Esso. Por toda a Rua Cel. Giló ele ia parando e quatro homens, com
duas latas nas mãos, vendiam uma água “boa danada” nas casas para, por fim, no
final da rua, encher o pipa de madeira do Irismar, com dois mil litros, onde o
mesmo colocava uma lata de álcool puro e batizava com umas bisnagas de Jofrina, para aumentar a acidez e disfarçar um gosto aguado. Os biriteiros
engoliam o venenoso, em sequiosos tragos, e diziam: - Oh, Lagoa do Barro boa!
A viagem, que o caminhoneiro
recorda com certo carinho, foi de quando foi buscar o 1º Bispo que havia sido
nomeado por Roma, para Cratheús, Dom Fragoso, na cidade de Senador Pompeu, onde
o sacerdote já aguardava, com sua família. Era um domingo bem claro, o 9 de agosto de
1964.
O Pe. Bonfim insistiu, o
motorista tinha que ser o senhor Manelinho: - Eu só confio nele, que dirige com
muito cuidado e bem devagarzinho!
Foram duas “Rurais” cedidas
por José Cardoso Rosa e Manoel Sales Filho. Acompanhou, também, a comitiva o
irmão do Pe. Bonfim, o Senhor Raimundo Moreira do Bonfim.
Uma comissão do 4º BEC foi
recepcioná-lo na cidade de Independência. Nunca se viu festa maior na região, o
piloto José Rosa Filho soltava flores de um avião sobre a Rural conduzida por Manelinho.
Foi um cortejo pomposo até a Praça da
Matriz. E o povo só não imaginava que, o Bispo que chegava, era um cidadão mais
ligado às causas sociais do que as pompas que lhes preparavam a sociedade
crateuense e que iria enfrentar, de peito aberto, uma terrível e covarde fera
chamada Ditadura Militar.
De todos os eventos históricos
em que o motorista Manelinho participou, o que mais abateu a sua serenidade
característica, foi a notícia do assassinato de seu sogro na cidade de
Ipaporanga, em 1988. Na madrugada, batem
à porta do candidato a prefeito Gonçalinho de Paula, era alguém necessitando de
ajuda para levar uma mulher, que estava em serviço de parto, para o hospital,
coisas que ele não sabia negar. Um crime premeditado pela oposição desesperada por
saber perdida a eleição. E o corpo de Seu Gonçalinho fica estendido no chão da
calçada por uma bala traiçoeira. O trajeto entre Crateús e a antiga Águas Bela,
que ele sempre fazia com muita alegria, na companhia da esposa Luzanira, foi
feito com um pesar imenso, que nem São Cristovão, o seu protetor, poderia
suportar.
Hoje, quando passamos à
tardinha pela Rua Carlos Rolim 236, vemos Seu Manelinho, e a esposa, sentados
nas cadeiras sobre a calçada, e temos a impressão que um caminhoneiro guia seu
velho caminhão, rumo a um destino que ele sabe o caminho de cor, mas percebemos
que, como Monsenhor Bonfim predizia, não há a mínima pressa de chegar.
Raimundo Cândido
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Crateús - Um berço de Talentos
CRATEÚS - UM BERÇO DE TALENTOS
a Cidade de Crateús-Ce.,
destaca-se primorosamente como um grande berço de talentos em matéria das artes
plásticas e esculturas e xilogravuras.
Nessa ótica podemos destacar o Mestre Joviniano – Mestre da Cultura - com uma vasta obra em escultura de santos em
madeira. João Batista, Rosa Moraes,
Almeidinha, Miguel de Paula, Guido Dàrezzo, Hilda Cristina, dentre outros,
também fazem parte deste seleto e
privilegiado grupo. No ano passado, na casa da minha mãe, tive o privilégio de
conhecer um outro grande artista crateuense nessa área. Trata-se de Raimundo
Soares de Sousa – Raimundo Alcanfor – na sua carteira de artista no PRODAST –
Programa de Desenvolvimento do Artesanato Piauiense. Nascido no dia 19 de
setembro de 1973, filho de Raimundo
Soares Leitão e de D. Sebastiana Sobrinho de Sousa, Alcanfor, segundo ele
“inspirou-se na obra de Aleijadinho ao ver suas belíssimas peças estampadas em
uma edição da extinta revista O Cruzeiro” e passou a moldar peças em argila colhida
próximo a feira livre, sob o olhar atento e seguindo as orientações de seu tio
Emidio Alcanfor, que trabalhava com esculturas em bronze. Raimundo foi aluno e
discípulo da Professora D. Rosa Moraes, com quem aprendeu a dar os primeiros
traços na pintura em tela, rabiscar desenhos, restaurar peças além de receber
dela o cognome ALCANFOR. Em março de 1993, mudou-se para Teresina, capital do
Piauí, onde conheceu o artista Piauiense Nonato Oliveira, com quem desenvolveu
seus conhecimentos e habilidades e aprendeu a trabalhar com fibras de vidro e a
talhar madeira, o que fez com que várias portas lhes fossem abertas. Mesmo com
muitos compromissos profissionais na capital piauiense, Alcanfor tem se deslocado para Crateús desde o ano
passado, segundo ele “para honrar um antigo compromisso com seu amigo Albino
Costa” - na época em que juntos, sob às
orientações de D. Ritinha fizeram a Crisma - que seria esculpir uma nova imagem
do Sr. Do Bonfim para a Igreja Matriz. Portanto, compromisso assumido,
compromisso cumprido. Numa oficina improvisada na Rua Carlos Rolim, 203,
Alcanfor, juntamente com Albino e os
discípulos Leonardo e Bruno, concluíram a obra, a nova imagem do Sr. Do Bonfim,
esculpida em madeira. Não satisfeitos ainda, Restauraram a antiga imagem do Sr.
Do Bonfim, esculpiram o São Tarcísio em madeira para o Grupo de Acólitos, e
que vai ficar também na Igreja Matriz e
restauraram a imagem de São Sebastião. O talento de ALCANFOR é bastante
diversificado: pinturas e esculturas em argila, cimento, pedra, vidro, ferro,
metal, madeira, pintura em tela, além de restauração em peças de madeira e
louças antigas. Há mais de 15 anos ALCANFOR presta serviço profissionais e de alta
qualidade aos irmãos Ferraz, colecionadores de artes em Teresina. Contratado a
mais de três anos pela Sra. Dilma Ferraz, teve que estudar marchetaria -
técnica medieval - para trabalhar, juntamente com sua equipe, a decoração do seu apartamento. Suas obras em
Crateús, além dessas são: o painel com o Soldado Sentinela, em cimento, em
frente ao 40º BI, feito no ano de 2.000, na época do Cel. Amaral e uma NINFA,
na piscina da casa da Nádia Melo, também em cimento. Os devotos e a população
crateuense agradecem a esse conterrâneo que muito nos honra e orgulha.
Francisco Aldo
Academia de Letras de Crateús
CNPJ - 11.881.060/0001-87
EDITAL DE
SELEÇÃO
A Academia de Letras
de Crateús (ALC), de acordo com o art. 6º de seu Estatuto, declara, por
intermédio de sua Diretoria, vagas as cadeiras de números 31 até a de número 40.
O preenchimento destas 10(dez) vagas visa completar o quadro dos 40 membros
efetivos da sociedade literária crateuense.
O interessado, na
admissão de uma vaga, deverá num prazo de 30 dias a partir da data de publicação
deste edital, 13 de Janeiro de 2015, apresentar exemplar(es) de sua(s) obra(s)
literária(s), publicada(s) ou não, e um pequeno currículo, das 8 às 11 horas da
manhã, de segunda à sábado, na sede da Academia de Letras de Crateús, Rua
Francisco Sá S/N, Praça Gentil Cardoso
no Prédio da Estação Ferroviária (Praça da Estação).
Os candidatos
apresentados passarão pelo visto da Comissão Permanente de Análises de
Candidatos e aprovados em Assembleia Geral. O resultado, com a lista dos respectivos
aprovados, será divulgado num prazo de até 40 (Quarenta) dias, após o parecer
favorável da Comissão de Análise.
Aguardamos sua
participação.
Crateús, 13 de Janeiro de 2015
Raimundo Cândido T. Filho Flavio Machado e Silva
Presidente
Vice-presidente
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