sexta-feira, 10 de abril de 2015

Dona Helena – Uma Potiguara crateuense.

                                          

O poeta José Coriolano começa um dos seus versos assim: ”Há na minha província uma ribeira, / Um sertão, onde eu vi a vez primeira / Sorrir-me da existência a doce luz: / Tem o nome da tribo que o habitava, / Quando ao rude tapuia entregue estava, / Esse nome, sabei-o, - Cratheús.”
 Foi no grande Vale dos Sertões de Kara- thi-us que o brutal bandeirante português Domingo Jorge Velho, no começo do século XVIII, implantou a criação extensiva de bois, à solta, pelas imensidões sem cercas das margens do Rio Poti, motivo pelo qual começaram os sanguíneos conflitos entre os silvícolas e os colonos. Os coitadinhos dos índios não tinham a menor noção do direito à propriedade. Os Tapuias eram fortes, semblantes ameaçadores, corriam iguais a feras, indomesticáveis, irredutíveis, mas só possuíam uns simplórios arcos e flechas contra os bacamartes cuspidores de fogo dos “conquistadores”. Ou deixavam a condição de índio hostil, ou eram sumariamente exterminados! E muitos preferiam à morte a serem pacificados, pois ser índio é um estado de espírito, é um modo de ser, é algo rígido e que é invisível aos olhos.
Um dos últimos conflitos entre os pecuaristas e os índios no Vale do Poti ficou conhecido como o Massacre da Furna dos Caboclos e aconteceu na região do Distrito de Montenebo, no sopé da grande Serra Azul.  O fazendeiro José de Barros, dono da propriedade Bebida Nova, notou que os seus animais estavam sumindo e descobriu que os mesmos vinham sendo caçados pelos índios que dormiam numa furna na vertente da Serra. Então, tramou um ardil bem perverso. Mandou um caçador conquistar a confiança dos índios e, em determinada noite, este cortou as tiras de todos os arcos, dando sinal para que os homens de Zé de Barros atacassem, eles entraram na caverna exterminando homens, mulheres e crianças que ali se encontravam e ateando fogo em tudo. Milagrosamente uma criança escapou pela boca da furna, ganhou à Caatinga, passando a viver no meio do mato, como fera e um dia foi pego, com ajuda dos dentes dos cachorros de caça. A criança se tornaria a senhora Jovelina Barata, bisavó do índio potiguara Mariano Barata, que deixou muitos descendentes no bairro da Maratoan.
Na localidade de Lagoa dos Neres, na cidade de Novo Oriente, existe a Associação do Povo Potiguara. E é registrada na FUNAI como a Lagoinha dos Potiguaras. Numa época, de um passado não muito distante, o famoso Pe. da Varginha em brigas por terras com o tal de  Antônio Bento, numa feroz guerra de cangaceirismo, expulsara os potiguaras das redondezas. Antes, porém, quem tangeu os índios de lá foi a cruel seca de 32. Procuravam escapar da dura estiagem cearense nas terras amenas do Piauí. A Dona Nazaré, uma líder, curandeira, parteira e possuidora de poderes espirituais, acampa a turma de retirantes, debaixo de uns juazeiros, para alimentação e descanso. E, quando resolve prossegui, descobre que está faltando a sua filha Gonçala. A procura é incansável, muitas rezas fortes e, depois de três dias de desespero, acham um caçador e rastreador que os ajudam na busca. O pai da menina sobe nas árvores e grita a todo pulmões: - Gonçaliiiiiinha!!! Em determinado momento ouvem uma vozinha, já sem força, em resposta – Estou aqui meu pai! Ao se dirigirem para o local em que estava a criança notam as pegadas da onça que se cruzam com o rastro da menina, e o feroz animal, por algum motivo, não pôde encontrar a sua presa! Nestas viagens, de desespero, alguns morreriam de fome ou de sezão braba, com febres altas e coceiras pelo corpo.
Gonçala, sempre sob a proteção de Nazaré, teve de fugir outras vezes para o Piauí, tangida pelas secas. E, já mulher feita, casada, vem morar em Crateús, trazendo Helena, Nonato, Miguel e Raimunda, seus filhos. As duras lutas pela sobrevivência e os tempos ruins os perseguem impiedosamente. A sequência de anos: 1979 / 80 /81 / 82 e 83 mostra-se mais perversa do que quando fugiam para o Estado vizinho. No Grito da Seca, o ano de 1983, a Helena já com filhos para criar, alista-se no Bolsão da Santa Fé. Tem que levar latas d’água de 18 litros na cabeça para a construção da parede de um açude. Foi quando o Pe. Afredinho a convidou para ir à Igreja de São Francisco.
 – Esta Senhora magrinha, de touca na cabeça, venha aqui para cima! O sacerdote a convoca para assistir à missa ao seu lado e no altar. O Pe. Alfred Kurtz dormia oito dias seguidos na casa de um pobre sofredor do bolsão, como pernoitara muitas vezes na casa de Dona Helena. Um dia teve que escolher um, entre os trabalhadores que lhe hospedara, para relatar o modo de vida e a resistência dos pobres de Cratheús num retiro em que estava nada menos que Dom Helder Câmara. Colocam os nomes de 15 pessoas numa sacola e pedem para retirar um, e deu o de Dona Helena.  Alguém, enciumado, protesta. Isso não é justo, essa senhora raramente vai à missa e quase nunca está ao lado dos padres, lhes fazendo mesuras. Outro sorteio e novamente o nome da tapuia-potiguara é escolhido. Quando não estava estudando – Alfabetizou-se pelo Mobral, concluiu o Normal no Colégio Regina Pacis e fez um curso especial de Licenciatura para o Magistério Indígena - estava ajudando a Dona Nazaré, na Rua Júlio Lima, em frente a um altar de madeira, realizando curas, preparando banhos ou entoando orações: “Meu cordão é de ouro / Minha medalha é de prata / Se eu não me engano / quem chegou foi João da Mata / Eu baiei na mata / Na mata eu baiei / E na mata ninguém me viu...”  Via muitas vezes, a qualquer hora do dia ou da noite, a avó cruzando os braços em frente do corpo, balbuciava a oração secreta de Santa Margarida, a mais popular entre as parteiras, e partia para pegar mais uma criança que nascia no mundo.
Dom Fragoso, bispo de Crateús, oferece como prêmio pelo esforço de Dona Helena uma viagem à cidade de Tefé, na Amazônia, para especializar-se na cultura indígena, ela preferiu conhecer os Tremembé de Almofala, em Itarema, e a bonita luta por suas terras.
Era missão de guerreira indígena, Dona Helena, como foi a da índia Joana em derrubar as cercas que o violento Major Pe. da Varginha levantava, reerguer a cultura do povo Kara-thi-us, reeducar as crianças índias crateuenses e brigar pelas terras que  eram suas, desde o descobrimento do Brasil.
Foi preciso convidar alguns dos grandes especialistas em línguas indígenas do Brasil, como Professor Pinheiro, Dr. Gilvan Muller e a Dra. Marinalva Vieira Barbosa. Requisitaram-se, de Portugal, as Cartas das Sesmarias e constatou-se, até linguisticamente, uma grande herança indígena na ribeira do Poti, identificando as etnias espalhadas por aqui, Tupinamba, Kariri, Tabajara, kalabaça e Potiguara. O caminho para o reconhecimento e recuperação da história indígena estava iniciado.
Existem, atualmente, duas comunidades indígenas no município de Cratheús, totalizando 5900 ha, que são as aldeias de Nazário, no topo da Serra da Ibiapaba e a de Mambira, no sopé da mesma serra, onde o cacique Renato Potiguara, filho de Dona Helena, é o chefe.
Na primeira escola indígena do Brasil a educação era pautada no princípio da catequização, orientada pelos missionários jesuítas. Hoje, na Escola Indígena Raízes de Crateús, com 380 alunos, o resgate da cultura vem sendo feito na mente das criancinhas para que o passado, que um dia tentaram destruir, volte a brotar novamente, vigoroso e florido.
Dona Maria Helena Gomes circula pelo pátio da sua Escola comprovando que as coisas andam por si e as mil maravilhas.  Os alunos que não estão na sala de aula fazem as atividades de reforço nas Potiocas, umas cabaninhas de palhas, outros recebem instruções na roça de milho e de feijão ou no canteiro de hortaliças que ficam ali, ao lado. É um colégio que além de ensinar para a vida, mostra, realmente, o significado de liberdade e felicidade!
                Uma reaprendizagem com o passado, numa rica experiência como a nos dizer: “Quando vieram, eles tinham as fantasias, a Bíblia e nós a terra. E nos disseram, peguem essas ilusões, fechem os olhos e rezem. Quando abrimos os olhos, nós éramos os sonhadores com a Bíblia nas mãos e eles os donos das terras.”
                A guerreira Maria Helena  muito tem feito pelo resgate dos valores culturais e da memoria indígena, coisas que comprovamos no pátio do Colégio em que é a diretora: os alunos alegremente dançam o Torem, eles pulam, eles cantam em louvor à vida, agradecendo a natureza, na antiga língua dos tapuias, como a dizer: Vocês cortaram nossos galhos, nossos trancos, mais se esqueceram de arrancar as nossas raízes, e elas brotaram. E aqui estamos, de pé!
                A todos os Karatis que tombaram defendendo as terras do Vale do Poti, sem se curvarem ao vil invasor e àqueles que trazem na alma e no sangue a intrepidez índia e o enorme valor silvícola, dedico minha admiração e meu louvor!    

Raimundo Candido

     

quarta-feira, 8 de abril de 2015

OLIVIA BEZERRA DO BONFIM


(Crônica do escritor Flavio Machado da Academia de Letras de Crateús)
                  O magistério é uma das mais nobres e antigas carreiras da humanidade. É a prática do Amai-vos uns aos outros, pregado por cristo. As mais importantes personalidades do mundo, sem exceção, passaram pelo crivo de professores, que dedicados, souberam multiplicar os talentos concedidos por DEUS, através dos ensinamentos. Foi o magistério a missão recebida e desempenhada pela jovem Olivia Bezerra.
Nascida em 1912, logo nos seus primeiros anos de vida de vida conheceu o caminho do Instituto XV de novembro, escola do professor Lisboa Rodrigues. Em 1929 iniciou um trajeto de penúria, enfrentando longa viagem, a cavalo, de Crateús a Quixeramobim, a fim de tomar assento no trem e seguir para Fortaleza, onde no Colégio das Dorotéias, em regime de internato, se preparava para, o magistério. Depois fez especialização na língua Francesa, concluindo o curso da CADES.
                 Em 1936, na cidade do Ipu, iniciou sua vida profissional, assumindo o cargo de professora nas Escolas Reunidas. Voltou para o seu torrão natal e continuou sua missão, ensinando no Grupo Escolar Firmino Rosa, nome posteriormente mudado para Grupo Escolar Lourenço Filho. Neste estabelecimento educacional se firmou, chegando a assumir durante 10 anos o cargo de diretora.
                 Filha de tradicional família católica, contraiu núpcias matrimoniais com Manoel Bonfim Filho (Manelim), então viúvo, com quem teve a filha Ana Maria Bezerra Bonfim, Advogada e o Engenheiro José Maria Bonfim.
Dona Olívia nasceu no dia 08 de abril de 1912, pouco mais de quatro meses após Crateús ser elevada à categoria de cidade. Cresceu ao lado deste torrão e muito contribuiu para elevar o nome de Crateús. Não se pode falar sobre educação nesta terra sem incluir o nome de Olivia Bezerra do Bonfim, pois além de exercer a função de professora durante décadas, foi por 10 anos diretora do Grupo Escolar e contribuiu significativamente, para ajudar o Professor Luiz Bezerra na instalação da Escola Normal Rural e o seu cunhado Padre José Maria Moreira do Bonfim por ocasião da fundação do Ginásio Pio XII e do Patronato Senhor do Bonfim. Prestou significativa ajuda à nossa diocese, pois constantemente era requisitada para redigir e traduzir as inúmeras correspondências recebidas e enviadas por Dom Fragoso, em intercâmbio com a França.
                   Na vida de Crateús, testemunhou muitas ocorrências, retendo na memória o episódio da chegada dos revoltosos, da expectativa gerada na população, quando parte dela abandonou a cidade e temerosa escondeu jóias e pertences de valor, naquela época de medo e pavor. Testemunhou o profícuo vicariato do padre Juvêncio e do padre Bonfim. Assistiu a visita de Nossa Senhora de Fátima, ocasião em que a cidade ficou mal falada, pela falsa afirmativa de que o juiz da cidade prendeu a Santa. Dona Olivia testemunhou a chegada do 4º Batalhão Ferroviário, transformado em 4º BEC. Por certo acompanhou o desenrolar dos acontecimentos na cidade em função da ditadura militar, implantada em 31 de março de 1964. Testemunhou muitas e acirradas campanhas eleitorais.
                Com seus 102 anos vividos e dedicados ao beneficio da coletividade, também viu inúmeros sofrimentos de nosso povo em decorrência de secas nordestinas e se alegrou com a fartura de água em muitos bons invernos que produziram grandes safras.
               Olivia Bezerra do Bonfim por uma casualidade nasceu no dia 08 de abril de 1912 no município de Independência, quando seus pais, temporariamente, cuidavam de uma retirada de gado. Foi na fazenda Tourão, pertinho de Crateús, onde ela morou e cresceu ao lado de sua família. É Filha de João Rodrigues de Melo e Rita Ubelina de Melo. Está prestes a completar 103 anos de vida, mora em Fortaleza desde 1993, mantém-se lúcida, tem ainda boa visão e locomoção. Ler e demonstra desembaraço ao recordar as coisas do passado. Sua longa vida não se constitui em um simples existir, pois no decorrer da sua trajectória mostrou aos seus alunos e aos seus filhos a trilha dos princípios morais e éticos que norteiam a vida e precisam ser cultivados no seio da população.

sábado, 4 de abril de 2015

Arribação



Uma ave pousou na minha mão!
     Emplumou, exibida e ostentosa
          como a seda nas flores.
               Cativou-me! Tanto canto triste e doce
                    e até no gorjeio de Sol Maior delirei!
                         A avezinha medrou, o ânimo cresceu,
                              mas seu olhar mirava um horizonte...
                                   Sofria na invocação dos crepúsculos!
                             Não trinou seu canto de despedida
                        e, num voo rápido, sem adeus, partiu!
                  Liberdade, enfim, desprendida
             de minha triste e inútil mão!
       Um peso enorme ficou no vazio,
   com meu olhar a buscar o  infinito,
e não vi chegar a hora de arribação!

Raimundo Cândido

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Poeira



Da realidade poenta:
  Eu sou, tu és,
    nos somos impuro pó!
      Atila, os Papas,
        as putas, as freiras,
          as santas intensões,
as tramas do capeta,
a claridade do dia,
o breu da noite,
as lamurias, as orações,
a esperança que nos guia,
o fútil, o essencial,
                          e o cruento tempo
                          é, fundamentalmente,  
                          impudico pó.
Toda existência, por fim!
Mas só a dor no peito,
atada ao pó que sou,
ainda não pulverizou!


                   Raimundo Cândido

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Tintinha, a Poetisa da Ribeira do Poti.

                                                                                                              
O Sertão de Cratheús, mesmo se despindo do manto verde de esperanças nas raras quadras invernosas e se revestindo de um desalento, quase sem vida, numa paisagem repleta de gravetos secos e de brancos ossos espalhados pelo chão, ainda é um dos mais belos e puros poemas que compõem as plagas nordestinas.
Desde a época áurea do Ciclo do Couro que o Distrito de Curral Velho é uma terra bárbara, de estradinhas tortuosas e tristes, esmaecida pelos raios escaldantes do sol, mas nunca cessou de brotar poesias na alma esperançosa do rústico sertanejo. Povoados dispersos pelas margens dos Riachos Serrote e do Meio, que desemborcam no leito Rio Poti, sobrevivem à custa do esforço incomum do homem do campo, num heroísmo inimaginável.
A Lagoa das Pedras dos Rodrigues, um local cheio de pequenos lagos que ficam repletos de marrecos e patos nos invernos abundantes, é a morada de homens e mulheres de uma estirpe sólida e obstinada. É onde residem alguns laboriosos Bonfins, leitões e Rodrigues que plantam as sementes de esperança em suas roças, ao som do mugido do gado, do balido dos carneiros, do relincho dos jegues, do berro dos bodes e depois ficam aguardando as providências divinas.
Da produtiva terra do barro, e seus arredores, emergiram grandes poetas como Bastiãozinho, Datin Bonfim, Lucas Boquady... E, aqui e acolá, assim de repente como quem não quer nada, outros vates vão aparecendo: o Junior, o Luciano... Todos, gerados no seio da enorme família Bonfim.  
Habita na Lagoa das Pedras dos Rodrigues, entre a Vaca Morta e a Ipueira Cercado, uma eficiente Palas Athena, a deusa que rege a sabedoria, símbolo da inteligência, da educação e até da sublime poesia! E no meio do inóspito sertão crateuense, reina a poetisa tintinha, sim senhor! Uma pupila preparada pelas orientações da Mestra Dona Delite Menezes para lecionar nos Sertões de Cratheús, desde a época do Mobral. Além de Professora, é versada nas rimas e canta as coisas do chão e as lidas diárias de sobrevivência do homem do campo. No grato poema: “ Dona Delite minha Mestra / Como posso esquecer / Pois o pouco que sei / eu aprendi com você” percebemos a dignidade de uma poetisa que reconhece quem lhe deu a mão. Uma prova de dignidade. E celebra os acontecimentos de seu lugar com o lirismo simples da sua poesia de rima popular, alegria, dor, esperança e o amor que é um tema constante de seus versos: “Amar é coisa divina / veja que tenho razão / Se amar me faz sofrer / Antes dá satisfação / amor para mim é tudo / Ele é a minha inspiração.” Este “ele” é o Abdias, seu esposo há 35 anos, e fiel companheiro de vida. A poetisa assistia aos jogos de futebol, nos campinhos do interior, só par gritar com emoção o nome do atleta preferido: Abdias! Abdias! E aí surgiu o entusiasmado namoro e logo marcara o grande casamento. Outro companheiro inseparável da poetisa da margem do Riacho do Meio é um elegante e velho cachorro chamado Leopardo. Protetor só até ali, ninguém toca em nada de Tintinha, ele diz logo o porquê do nome, mostrando os caninos finos e as garras afiadas. Os cães aliviam a nossa solidão e são elos com o esperado paraíso, dizem os poetas.
Francisca Leitão Rodrigues Pereira, a doce Tintinha, ex-professora, inspirada poetisa, passa o dia sentada numa cadeira vendo televisão, ouvindo o rádio, captando o som da natureza que o vento joga para dentro de casa. Um velho galo que canta, as galinhas que cacarejam, o balido das cabras, o trinado do galo campina que chega misturado com o farfalhar das folhas nas árvores do terreiro. Tintinha está doente. A poetisa perde aos pouco os movimentos das pernas, a visão vai diminuindo à medida que uma ataxia degenerativa toma de conta de seu sistema nervoso. Uma doença hereditária embutida no DNA de uma ramificação da família Bonfim que aos pouco vai deformando seu cerebelo e a sua retina, tornando-a quase cega. Mas ela não se entrega: “Eu queria está sadia / Para mais tempo durar / Pois viver é muito bom / temos que aproveitar / até quando Deus quiser / Só nos resta esperar...” A Palas Athenas crateuense tem consciência de sua situação e se esforça para não deixar perecer o que tem de mais belo dentro de si, o dom da vida e a vocação para a poesia: “Minha vida é um romance / Dos que todo mundo cria / Não sou triste nem alegre / Nem vivo de fantasia...”  
Sentado ao lado de Francisca Leitão, a poetisa da Lagoa das Pedras dos Rodrigues, sob os olhares vigilantes do cachorro Leopardo, o seu anjo leal e guardião, lia os versos de Tintinha, em dezenas de cadernos, rabiscados com as mãos trêmulas, as palavras já escapulindo das linhas e sobre os mais variados motes: A festa do Barro em Curral Velho com suas olarias fabricando tijolos e telhas, o embuste da construção do Lago de Fronteiras, os políticos descarados e sem palavras, os elogios à Rádio Camponesa, no Assentamento Palmares, onde de vez em quando o locutor declama um dos seus versos para os ouvintes do sertão, o desequilíbrio ecológico trazendo seríssimas consequências para o nordeste, como a falta de água, a chegada do terceiro bispo à Cratheús e os constantes louvores a Nossa Senhora, a quem pede proteção para sua família, pois já tem uma das filhas molestada pela irrevogável e perversa barreira que o destino impõe no caminho da gente e então me lembrei do poeta Manoel Bandeira, com sua doença estigmatizante, forçado a viver na solidão, mas nunca deixou que isso fosse o fim de seus sonhos, descobriu, como a poetisa Tintinha, que a sua salvação era assumir o compromisso com a maravilhosa e divina poesia.
Ganhei, de Tintinha, um verso pela visita que lhe fiz, intitulado Surpresa: “...O Raimundinho da Dona Delite... / Comigo muito conversou / E mais poderia ser / pois minha voz atrapalhou / dava pouco para entender / Mas é assim que estou / E nada se pode fazer...”
Despeço-me da poetisa da Ribeira do Poti, prometendo outras visitas para terminar de ler o restante da montanha de versos em seus cadernos, e volto para casa pensando que, se não podemos mudar o nosso destino, podemos mudar nossa atitude para com a vida, para com a outra vida que poderiam ter sido e que não foi.
O canto poético, na pouca voz da poetisa, me arrebatou. O sorriso sincero que mostra uma fortaleza de espírito, é como uma flor que o belíssimo Sertão de Cratheús tem a nos presentear. E pensando na Paz, estampada no rosto tranquilo, afirmando que poesia é vida, é epifania e salvação, silenciosamente rezei: "Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras".
Obrigado, doce poetisa Tintinha, tu és uma esplendorosa flor poética que o Sertão de Cratheús me mostrou!


Raimundo Cândido

terça-feira, 31 de março de 2015

Quimera



A ilusão, astuciosa, num rígido gesto,
interpelou-me: - O que tens, amigo?
Vãs promessas vi, nos olhos dos sonhos.
- Não tenho nada, não! Deixe-me

em paz, oh, malvada ilusão!
- Tem sim! Categórica, ela insistiu:
- Até as sombras da noite estão
irrequietas, por tua apreensão!
- Está certo, dir-te-ei, mas não
me perturbe depois, Oh danação!
E então, cochichei ao seu ouvido:
“Senti o cheiro das rosas mortas
corrompendo o ar e vi o vago tempo
orvalhando um doloroso abandono.
E no divã da irrequieta madrugada
não pude deixar minhas insanidades,
as minhas rugas, as minhas dores
e um mar de água salobra escorreu
para a imensidade do nada!
Nem a voz do divã soube
prenunciar o que sobrevêm,
ou algo além de meu destino
sequer o que restou, por hora, de mim!
Porém, ela disse-me: - O ermo é tua sina,
triste poeta da Ribeira do Poti.
E meus olhos se afogam na longa solidão.”
Estás satisfeita agora, Quimera?
A ilusão abraçou-me, meigamente,
e consolou-me: - Não acredites
neste adivinho não, poeta!
Recomece... Se puderes. E não descanse,
não se desespere nas trilhas do mundo.
Fim é só para quem não vê um recomeço.
E segui, caminhando ao lado da ilusão,
que ia borrifando, nos ímpios,
os seus predominantes capricho
s!

Raimundo Cândido

Boaventura Bonfim disse...
Quanta poesia, meu Deus, haurida de um ímpeto do poeta em contato com o Divino, que os mortais denominamos de "momento de inspiração". Parabéns, Professor Raimundo Cândido. Continue plasmando seus momentos com Deus, que os poetas chamamos de instantes de "loucura". Um forte abraço do amigo Boaventura Joaquim Furtado Bonfim, velho parente e conterrâneo radicado em Fortaleza.

domingo, 29 de março de 2015

Carrapicho

Na ocasião,
como os carrapichos,
grudo-me ao vento,
e ao brilho da luz.
Pelas circunstâncias,
tal preciso velcro,
entrelaço-me às brisas
e ao silêncio das noites!
Exigência de vida,
pois apeteço seguir-te,
agarrado ao teu vulto!

Raimundo Cândido

sábado, 7 de março de 2015

Rio Poti – A Fonte

                                                             

No principio era a Poesia. E a poesia estava na fonte, e da fonte nasceu o córrego, e o córrego fez-se um majestoso rio. Era o Poti, ziguezagueante, sinuoso, serpenteando como cobra de vidro pelos descampados sertões de Cratheús. Por princípio, os rios já existiam, sacrossantos, no plano da Divina Poesia!
Um dia, a criança que rompia as manhãs em turvas águas fluviais, subitamente anoiteceu, perplexa e tristonha, nas exauridas ruínas de um rio maltratado, sem o precioso líquido a escorrer no seu mortificado leito que vai, pouco a pouco, deixando de existir. O rio que brotou de meu peito só quis desaguar e permanecer distante, ao largo mar. Mas ele sempre retorna, nos sonhos, trazendo a infância que rebenta da ampulheta do tempo. Os rios não morrem, hibernam. A gente é que não sabe dos fluviais mistérios que há! O Rio Poti, que ainda flui em mim, tem uma parte perene e outra intermitente, com suspensão quase contínua, interpondo-se no fluxo da existência. Concede-nos a mínima estação, cheia de benesses (E quando há!), numa incomensurável alegria e impõe as temporadas amargas e de longas paisagens cinzentas (Quase sempre!), e é um pesar!
Havia fortes indícios suspendendo o porvir fluvial e se estampava como uma tragédia no ar, como agouro ameaçando o retorno do velho Itaim-açu, como é chamado o Poti na sua nascente. Os quatro anos seguidos (2011 - 2014) de estiagens pesadas e a profecia de retorno do maior desastre que se tem notícias na história do sertão crateuense, a seca do 15, cem anos depois, ameaçava o regresso do estimado rio, num prenúncio tenebroso. Como se a natureza entendesse as datas prefixadas pelo homem, e obedecesse minunciosamente.
Tive medo, fiquei com receio de não mais ver o Rio dos Camarões escaramuçar na sua velha calha e então, resolvi conhecê-lo, por inteiro, desde a sua falada nascente, na Serra da Joaninha, até a foz, no belíssimo Encontro das Águas, no Piauí, onde reina o famigerado Cabeça de Cuia.
Munido das informações necessárias, quase na madrugada ainda, apanhei a Topic que faz horário para a cidade Quiterianópolis, onde fica a nascente do Poti. Passamos por Novo Oriente, seguindo pela BR 404 e, cedo da manhã, chegamos às terras que pertenceram a Senhora Quitéria de Lima, a antiga Vila Coutinho, a 78 km de Cratheús. O topiqueiro me avisa: - Esteja aqui, na parada, antes de 1 hora da tarde, senão você vai pernoitar. E apresenta-me a um Moto-taxi, dizendo: — O João Caburé lhe levará aonde pretende ir!    
Firmo contrato com o tal João, mas não tive coragem de falar seu apelido (Encobri um leve sorriso, pois o coitado até parecia um agouro!), mas era um guia tagarelo, que logo me comunica: — Até a Fazenda Jatobá são 40 km de distância e cobro R$ 1,00 por cada quilômetro rodado, mas antes  saiba que a rodagem é toda de terra batida. E na estrada, de novo!  A garupa da moto pulava mais que burra coiceira pela carroçal da CE 277, e eu já imaginava como seria inconveniente o regresso. Além dos solavancos, dos catabis no chão esburacado, ainda tinha a procissão de carros-pipas, que iam e vinham sem parar, com o mundo desaparecendo no poeirão que subia no ar, mais pareciam tropas de jegues na seca de 32, a denunciar mais uma grande crise hídrica.
De vez em quando passávamos por um pontilhão. Perguntei: — Ó João, esses riachos que estamos passando, caem todos no Poti? Responde-me, gritando, para superar o barulho do motor: — Que nada, amigo! Isto que você está vendo é o próprio Poti!
E lembrei-me de um ditado antigo: “Rio torto a gente passa é mil vezes”. Uma paisagem desolada, vegetação desmatada, um imenso eito de abandono e solidão, até a Mata Ciliar é uma raridade no leito do Poti, no município de Quiterianópolis.
Ao longe, uma nuvem de poeira negra sobe em coluna, e o guia, notando meu interesse, esclarece-me: — É a Mineradora Globest, que retira, todo mês, 80 mil toneladas de pó de ferro e manda para a China!  Perguntei: - Esse pó não polui o Poti? Ele proferiu um longo “Huuum!” de descaso ou descredito, não sei, mas concluiu: - A Secretária do Meio Ambiente vive brigando na justiça. Até as crianças, que moram aí, estão com uma alergia encruada. Dá em nada!
Não sei por que, mas lembrei-me do Livro de Exame de Admissão, onde estudei pela primeira vez a lição intitulada: “O Brasil Colônia”. Até que achava bom quando topávamos com uma cancela, só assim esticava as pernas. Na frente de cada residência se estampava uma cisterna, de cimento ou de um plástico azulado, como parte do Programa Água Para Todos. A surpresa foi quando apareceu o talhado da Serra da Joaninha, uma asa pétrea em ramificação na Grande Serra Azul, o grandioso maciço da Ibiapaba. — Já estamos na Fazenda Jatobá! Anunciou o moto-taxista.
Uma casinha branca, assentada quase na fralda da serra, o reboco caindo, a calçada corroída pelo tempo, um curral de carcomidos paus-a-pique, eram sinais de que havia vida naquele sopé de solidão. O morador, um típico vaqueiro chamado Mazim, veio nos receber e, a priori, já sabia o que tínhamos ido fazer. Mandou-nos aguardar, enquanto pegava um enorme facão do mato, de umas 20 polegadas, e uma lanterna que daria para clarear o mundo. Seguimos por uma trilha estreita e íngreme, margeada de angicos, de aroeiras, de pau d’arcos, todos de caules finos ainda, dando sinal de replantio. Alegro-me, pois ouço, ao longe, o belíssimo flauteado de um sabiá. Sempre achei o Poti parecido com um pássaro, a cantar e a voar! Saindo de uma boca pétrea, na base calcária da Serra da Joaninha, ouvi um som de uma torneira pingando: Ping! Ping! Ping! Era o Olho d’Água do Fundão e descemos uns três metros de rocha, numa loca, para chegar a primeira nascente do Poti, já dentro da famosa Gruta Pinga era só escuridão e entendi o porquê da lanterna. A água brotava do teto, pingava numa poça, caindo de uma enorme pedra côncava, no teto, dentro de uma convexa, no chão, e a escorrer para dentro da montanha. E em cada pingo que caia eu via as lágrimas do sertão! Mazim bebe na concha da mão, o que me faz repetir o gesto. Ele me dirige um olhar fixo e diz: — Ó, Seu Raimundo, neste local aí, só vi três coisas matar a sede, até hoje.  — O que foi que o Senhor viu bebendo aqui, onde eu estou, Seu Mazim? Pergunto, assustado.
— Os guaxinins, as pardas e, agora, você!
— E o que é essa parda, Seu Mazim? Pergunto de novo.
— É uma oncinha vermelha, a maçaroca, chamam também de suçuarana, mas elas só aparecem por aqui, quando anoitece, Seu Raimundo!
Antes de sair da gruta, pressenti, como que a presença de Patâmide, a ninfa dos rios, mas só vi uma enorme gia, quieta num canto, com seus olhos arregalados no meu rumo.
Fomos ver o outro manancial que fica do lado de fora, ao pé da gigantesca gameleira que abraça as rochas com suas grosas raízes, como que a espremê-las, para a fonte poder brotar. Era a nascente do Poti, que hoje é escoada por canos de plásticos, direcionada para um comprido tanque de concreto, o bebedouro das vacas da Fazenda Jatobá, que pisoteiam o solo sagrado do início de um rio.
Recordei da lei que obriga a, pelo menos, uns 50 metros de raio de proteção em cada insurgência de água natural, cercada de mata nativa, mas logo me lembrei de que estava no Brasil, e no fim do mundo, na encosta da Serra da Joaninha, que um dia foi mar, o mar que esculpiu, poeticamente, a Gruta Pinga, com a punção das águas revoltas e o cinzel dos ventos furiosos, e então agradeci, então roguei: “Bendito Sejais, Ó Grandíssimo Deus! Pelo rio, obra Tua! Pela água, criatura Tua! Peço-te, Ó Onipotente, fazei com que toda ameaça de mais sofrimento se dissipe, protegei a nascente do Poti, fazei com o velho Itaim ganhe novamente vida e corra, como um barco ébrio, voe como um pássaro a recitar versos aquosos pelo sertão sofrido e que encha o Colinas, e que encha, com o líquido da vida, o Flor do Campo e estenda suas benesses ao nosso sofrido Carnaubal. “
Despeço-me da Fazenda Jatobá, mas levo no peito a certeza de que o Rio Poti é eterno, pois vi o seu sangue minando das solidas rochas, e pressenti nos olhos da ninfa Potâmide que, um dia, ele há de voltar.


Raimundo Cândido

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Procissão dos Flagelados

                                                        

A água que é um bem limitado, valiosíssimo e irresponsavelmente desperdiçado, virou motivo de piadas: - Raimundo, você soube do caminhão de cargas que assaltaram na estrada de Novo Oriente?
Caí, inocentemente, na brincadeira: - Soube não! E o que levaram? O gaiato cidadão, em disfarçado deleite, num sorriso cínico, respondeu-me: - Você me acredita que eles só quiseram levar a água do radiador do carro!
Na crise hídrica se agravava, cada vez mais, de 2011 até o início de 2015, o desespero era iminente! A Barragem de Cratheús, sobre o leito do Rio Poti, a primeira grande obra feita pelo saudoso 4º Batalhão de Engenharia e Construção, logo que por aqui chegou, mostrava, novamente, as entranhas estripadas, num aspecto funéreo, macerada, com cinco décadas de acúmulo de lodo e lama no seu bojo. O ano mal começava e já trazia duas grandes ameaças para a cidade, a volta do pesadelo do Quinze, depois de cem anos, e as derradeiras gotas de água potável, estavam sendo distribuídas para a preocupada população. Mesmo com a moderna tecnologia sugando a seiva aquosa dos veios subterrâneos e canos emendados para aduzir água do longínquo Açude Araras, o povo só mostrava fé na providência divina.
A cômica piada, do amigo brincalhão, me fez viajar por lembranças ressequidamente aquosas. No dia 17 de Fevereiro a Igreja Católica, através da Paroquia Imaculada Conceição, planejou a Caminhada das Águas para rogar por chuvas, e os fieis, guiados pelo Pe. Beto, escalaram um imenso bloco de pedra, no centro da Barragem, oraram fervorosamente e enfincaram um enorme cruzeiro na rocha, implorando águas aos céus. No outro dia veio uma chuva copiosa que apagou a ameaça do famigerado 15 e atiçou a esperança dos devotos crateuenses.  Admiro a crença do povo nos travessões que se cruzam, no elo que liga a terra aos céus e aonde se travou o maior duelo entre a vida e a morte. O sertanejo a reverencia: “Salve, Ó Cruz, Tu és a nossa esperança!”
Uma seca cruel, uma cruz milagrosa e chuvas a cair dos céus não foram, e nunca serão, eventualidades na Ribeira do Poti, no sofrido Sertões de Cratheús. Como o protesto da Romaria das Águas, em Novo Oriente, contra a transposição de 7 milhões de m3 de água por uma terra ressequida, do Açude Flor do Campo para o Açude Carnaubal, com ordens de um autoritário governador, ocasionando um enorme desperdício de água potável e deixando, de sobra, um crime ambiental no leito do rio.
O Pe. Alfredinho já dera sinal de uma sublime influência, quando, em 1983, logo ao encerrar um sacrifício habitual, com a Cruz de Cristo nas mãos, e de súbito, cai um aguaceiro enorme, depois de três anos seguidos de seca. No ano de 1884 ele tinha enfincado a Santa Cruz dos Flagelados no canteiro de obra do Bolsão da Santa Fé, quando um rígido comandante do Batalhão ordenou: “Se ele não tirar essa cruz daí, podem derrubar, e a fio do machado!”
A “Procissão dos Flagelados” é o livro do crateuense José Hortêncio de Medeiros, editado em 1953, onde ele narra uma viagem que fez de Pau-de-Arara, em 1932, ano de outra seca braba. Ele saiu de fortaleza para passar as férias em Cratheus e viu coisas horrorosas no campo de concentração dos flagelados, em São Luiz do Curu, onde o Governo do Estado acumulara dez mil pobres almas construindo a estrada de rodagem Fortaleza-Sobral. Ele diz: “Nos acampamentos um cheiro de morte impregnava o ar.” E, ao chegar a Cratheús,  assistiu a uma desesperada procissão de fiéis levando uma cruzeiro ao túmulo dos revoltosos. Os crateuenses esperavam que os milagrosos guerrilheiros tivessem forças suficientes para abrir as torneiras do céu, era a última cartada de esperança dos sertanejos.
Ao ler o livro de José Hortêncio, lembrei-me de uma penosa história que o Dr. José Arteiro Soares Goiano, um confrade da ALC, me contara:
- Raimundo, minha mãe, Dona Cotinha, sempre falava de um trágico episódio. Ela nem tinha nascido, e só ouviu pela boca de meus avós o que se passou na Sombras, o lugar onde eu nasci, que fica depois do povoado de Santo Antônio dos Azevedos.  Era o ano de 1915, ano da grande seca, o sertão estava num desalento só. Tudo parado, num silêncio pesado e a monótona cor de cinza no chão era quebrada, aqui e acolá, pelos ossos brancos dos animais, só se via carcaça espalhada pelos descampados do sertão. Às vezes, o som de um galho quebrado na mata só aumentava a melancolia, e mais pesava na alma daquela gente.
O Dr. Arteiro continua o relato sobre a procissão de flagelados que passaram na Sombras, a fazenda dos seus avós: “Água era coisa muito rara, a não ser nos locais que tinha um cacimbão na beira do rio, e assim mesmo tendo que, constantemente, rebaixar o seu porão para alcançar um novo veio d’água. Na Caatinga, só se sentia o bafo de quentura, como se saísse das brasas e o único verde que havia era dos Juazeiros e dos Mandacarus que escaparam de virar ração para o gado. Era mais de uma família, os retirantes que chegaram na Sombras.  Os velhos e as crianças  estavam visivelmente exauridos, em letargia total, num torpor de não se saber se estavam vivos ou mortos e vieram caminhando, lá do lado da Vaca Brava, na Independência. Disseram que estavam arranchado debaixo do Juazeiro da Lagoa Grande e ouviram um chocalho tocar.  Um deles se levantou e caminhou, no rumo do badalo e com poucos metros viu a casa do Seu Herculano das Sombras, onde foram todos bem recebidos.”
O Doutor prossegue: “Minha avó, dona Genoveva, rapidamente preparou uma miraculosa Cabeça de Galo com água, sal, pimenta, farinha, temperado na nata e bastantes ovos de galinha, que é o alimento propício para quem está muito fraco. Eles se refestelaram e alguém até pediu um cigarrinho de palha ao meu avô. Foi quando minha avó ouviu uma conversa, entre eles: - A gente devia de ter trazido o coitadinho, talvez ele nem estivesse morto! Minha avó perguntou: – Vocês deixaram alguém pelo caminho?  – Deixamos um menininho, mas achamos que estava morto. Ele ficou debaixo do Juazeiro!”
“Eles correm para chegar depressa no Juazeiro da Lagoa Grande, que ficava ali pertinho e se assustam com a cena de horror que viram: Os urubus arrancavam os olhos de um menino de uns nove anos. Notam o corpo do menino ainda quente e ficaram na dúvida se não estava vivo quando o abandonaram! E uma cruz, enfincada debaixo do juazeiro, marca o lugar do infortúnio cruel no ano de 1915, na fazenda Sombras, de Seu Herculano e dona Genoveva.”
Lá fora caia uma chuvinha fina a confirmar que o 2015 não será como aquele de há cem anos e até que eu já sabia disso, pois um profeta da Independência, na Fazenda Ipanema, o cabo Ocelio, mandou me visar: - Raimundo, meu amigo, pode acreditar, eu vi no suor do sovaco do peba, é muita chuva que vem aí, o inverno está para chegar!
Eu prefiro acreditar naquela cruz debaixo do juazeiro da Sombras, na cruz dos Famintos da Santa Fé, na cruz enfincada no pedregulho da Barragem do Batalhão , elas parecem ecoar a meiga voz do Pe.  Alfredinho, num glorioso sermão: “- Dá cruz da Santa Fé, mais uma vez, morre e nasce a vida no sertão!”

Raimundo Cândido

  

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Assembleia


Assembleia Geral da Academia de Letras de Crateús - ALC

Confrades e Confreiras,

O Presidente da Academia de Letras de Crateús convida todos os 30 sócios(as) para fazerem-se presentes à reunião que acontecerá dia 28/02/2015 às 16:00, na sua sede, Rua Francisco Sá S/N, Praça Gentil Cardoso, Praça da Estação - Centro.

Pauta

- Eleição dos novos membros efetivos para preenchimento de cadeiras vagas de n° 31 a 40.
- Retomada das contribuições financeira por meio de boleto bancários, Carnê.
- E outros Assuntos a serem deliberados.

É importante a presença de todos.

Atenciosamente,

Raimundo Cândido Teixeira Filho
Presidente da ALC


sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Tamarinheiro

De tanto perambular pelos descampados da Ribeira do Poti, admirando os angicos, as aroeiras, os pereiros, as canafístulas, as imburanas, os umbuzeiros, os sabiás, os juazeiros, os mandacarus, estou ficando arbóreo, metamorfoseado num homem-árvore, arrebatado por esses seres que vivem na mais pura e auto-suficiente solidão, contribuindo harmonicamente para o belo, como um poema que a terra escreve aos céus. Sinto-me em assimilação clorofiliana, sorvendo ar, e os raios do Sol, para a fotossíntese de minha alma.
Quando a poesia deu-me a honra de conhecer a Ilha do Amor, Florianópolis, capital de Santa Catarina, o prazer maior que tive foi ver de perto a velha e frondosa Figueira da Praça XV de Novembro, uma centenária árvore cantada em versos pelos poetas florianopolitanos como a Dama Verde que esbanja glamour. Um dia, um insano com um machado na mão, quis degringolar a gigantesca planta e a Câmara dos Vereadores, rapidinho, criou uma lei para protegê-la, com guardas constantemente em vigília, que trocam de posto como os empavonados soldados da Rainha da Inglaterra. Os galhos, escorados por grossas hastes de ferro, cobrem toda praça por onde a cidade começou e os turistas, que dão voltas em torno de seu tronco, atraem para si, a riqueza, a sorte e o amor.
Não sei que vento trouxe aquela lembrança arbórea, sei que foi pelas sábias palavras do amigo Francisco Sales, o filho dileto de um paraíso chamado Olho d’Água dos Claudinos, que fica no município de Novo Oriente. O poeta Khalil Gibran, autor do livro “O Profeta”, preveniu sobre esse mensageiro aéreo: - Não diga nada ao vento, ele irá contar às árvores, como, também, relata os segredos dos vegetais, assoprando aos nossos ouvidos!
- Raimundo, você sabia que existe um tamarinheiro em Novo Oriente que tem uns trezentos anos de existência?
- Que história é essa, Seu Chico? O senhor tem certeza disso?
Humberto Paz, o poeta Cancão, que ouvia tudo de orelha em pé como a arguta ave do sertão, intrometeu-se: - Existe sim! É uma monstruosidade sem tamanho e nem sei se já o derribaram!
Tínhamos o determinado objetivo de ir à Novo Oriente em busca do exato local onde o cangaceiro Rosal tombara. E o dia da viagem se apressou, marcamos logo para o próximo fim de semana a aventura em busca da árvore mais antiga dos sertões de Cratheús.
Partimos. O Sr. Francisco Sales era cicerone da comitiva: Eu, o especialista em Cangaço Caçula Aguar e o poeta Cancão. Quem morou, quem reside, quem foi embora, as casas que tombaram, as que foram erguidas e a quem pertenciam agora, aulas de geografia Física e humana dadas pelo Seu Chico, tim-tim por tim-tim, mal passávamos pela Lagoa do Tigre. E a estradinha de terra batida foi se desenrolando na nossa frente.
Saímos do Olho d’Água dos Paturis, chegamos ao Olho d’Água dos Claudinos (dos Culotes) e, assim que uma grande curva se desfez, vimos um assombro aos nossos olhos: O gigantesco tamarinheiro com mais de três séculos de existência. Isso pela contagem dos mais antigos, pois desde a época do patriarca João Claudino que a árvore já era bem alta e copada. A admiração que tive pela Figueira de Florianópolis ficou do tamanho de uma formiguinha, frente ao pasmo de minha alma, ao esplendor de tanta beleza. Viramos crianças novamente, brincando à sombra do Tamarinheiro. Não resisti ao ímpeto infantil, subi no tronco imenso e percorri seus longos e largos galhos como se andasse por uma estradinha. Um casal de xexéus do sertão, nos galhos mais altos, reclamava da invasão aos seus domínios.
Seu Chico Sales relata que ali já foi palco de tudo, área de lazer, espaço de trabalho e uma branca capelinha ao pé do corpulento tronco, com uma imagem de N. S. Aparecida, confirma que a gigantesca árvore é agora um templo da fé celebrada aos céus. O cicerone conta-nos: “O Dideus, meu irmão mais velho, rodou o mundo todo e chegou aqui com uma sapiência que atoleimava o povo. Ele resolveu fazer um Piquenique debaixo do Tamarinheiro que estava todo enfeitado para a noite de São João. Estava tudo preparado: os cordões coloridos esticados debaixo da árvore e os troncos de sabiás e juremas pretas amontoados ao lado, para a grande fogueira. Encarregou-me de distribuir os convites pela vizinhança: Santo André, Bom Jardim, Macaco, Cavaco, Emaús, Morro do Olho d’Água até os amigos da Lagoa Tigre e o bilhetinho do piquenique dizia que o Raimundo Claudino iria tocar violino. Houve gente que me escorraçou, zangado com aquilo, pensando que era cobrança: - Diga ao seu irmão que eu nunca fiquei devendo nada a ele não, muito menos esse negócio de penico!”
           O Chico Sales aponta para um serrote ao lado, o Morro do Olho d’Água, onde existia uma fonte que escorria para o Riacho Caldeirão e diz: - O cangaceiro paraibano Sucupira, do bando do Tenente Rosal, soube que o olho tinha sido entupido com algodão pelos índios Karatius, em épocas passadas, então resolveu dinamitar para dar maior vazão à fonte. Tiraram muitos chumaços de lã empedernida, mas a fonte sumiu, e acho que somente o gigante tamarindo é que bebe dela agora.
Da secular árvore fomos ao local onde Rosal tombou. Uma pedra ainda guarda as manchas de sangue como sinal do termo do malvado cangaceiro e aonde se ouve ainda o estampido do rifle do caboclo Cambirimba: - Paaaaa... E ao mesmo tempo escutamos um grito de alívio no sertão: - Mataram o Rosaaal! O expert Caçula Aguar ficou esperançoso de, um dia, ver uma cruz enfincada ali e ter o Bom Jardim como ponto de visita na rota do Cariri Cangaço.
Determinado o local da fatal tocaia de Rosal, voltamos para nos despedir do maravilhoso Cavalheiro Verde em Esplendor, já que a Figueira de Floripa é a Dama Verde em glamour. E fiquei sabendo que um cidadão do clã dos Claudinos cogitou transformar o imenso tamarinheiro em madeira pura. Abismado fiquei com aquela insana ganância.
Seguramente, posso afirmar: O Tamarinheiro do Olho d’Água dos Claudinos é patrimônio de todo Sertões de Cratheús e não pode ficar abandonado, por conta própria, sem uma firme proteção. Galhos de uns 40 cm de diâmetro e um incrível vão de 20 metros, pendendo ao vento, sem um ponto de arrimo, uma escora, é um risco e uma irresponsabilidade. O Tamarinheiro pertence a uma família e esta tem que protegê-lo. O Tamarinheiro pertence, como um tesouro inestimável, a todo povo de Novo Oriente e Secretária de Meio Ambiente daquele município deve amparar e colocar estacas para apoiar seus galhos que tentam abraçar o imenso sertão. Acredito, pelo bom senso do novorientense, que isso acontecerá, e voltarei para admirá-lo e constatar que estou mesmo ficando arbóreo, comprovar que sou Sertão, nasci sertão e vivo sertão, pois corre em minhas veias a mesma seiva vivifica que flui nos lenhos do velho tamarinheiro do Olho d’água dos Claudinos, ao pé da sua imensa solidão.

Raimundo Cândido

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Bodega do Valmir

                                           

Daqui a pouco, eu e os velhos objetos que me cercam, hão de cair no porão do esquecimento. Pouquíssimas coisas animadas, ou inanimadas da vida, resistem às ciladas do tempo. E, mesmo assim, caminho com uma cortina de vidro, a olhar o passado.
Trilhava, absorto, pela minha querida Rua Frei Vidal da Penha que a cada dia se renova, mais e mais. As fachadas de minha infância modernizam-se, adquiriram um colorido vivo como se um dia também não forem taxadas de desusadas, e abrissem espaços para as novas aparências.
No cruzamento com a Rua Delmiro Gouveia torna-se intensa a minha saudade: Vejo uma bodega em cada esquina, poesias que não existem mais. Seu Raimundo Fernandes com uma “gentileza” característica a receber os fregueses e a bodega de meu pai, Seu Raimundo Cândido, com o rústico balcão de velha tábua enegrecida num cheiro forte de couro curtido que irradiava no ar. O que se estampa, aos meus olhos saudosos, não são os prédios novos que enfincaram no lugar.
Já na altura da Cel. Tobias avisto um antigo pé de Castanhola e já era uma árvore copada quando, ainda menino, andava por lá. A refrescante sombra dava para as portas do Bar do Valmir. Este sim, como a heroica castanhola, resistiu. O mesmo aspecto de prédio antigo, por décadas e décadas, como a me convidar: Entre, amigo! Entrei.
- Bom dia, Valmir! Como está?
Ele, por trás do balcão e com surpresa no rosto, por me ver novamente ali, responde:
- Bom dia, Raimundo! Estou bem e você?
Como que autômato, dispõe um copo limpo para a primeira talagada. Muitas vezes saí de lá andando nas nuvens e sem saber que rumo tomar. Agradeço e lembro que perdi o direito de provar a forte Lagoa do Barro, por abuso do uso quando direito tinha de usar.
- Obrigado Valmir! Estou só relembrado as nossas vidas, a minha, a sua e que o tempo logo haverá de levar.
Ele sorri, um sorriso já consumido, a confirmar: - A minha vida é um romance, carregado de amarguras, Raimundo!
Empresto-lhe os ouvidos, o que ele aguardava (Acho!) e o que eu estava a procurar.
- Raimundo, eu comecei a trabalhar neste ramo aos 16 anos, estou com 82. Faça as contas! Passei por muitas coisas, meu amigo. Primeiro foi quando o Batalhão atrasou os pagamentos dos funcionários por quase um ano. Vi muita gente quebrar. O Tenente Messias, o Finado Menezes, e o que a gente podia fazer? Era fazer o que eu fiz, peguei o caderno de fiado e rasguei tudo. E sabe, foi o melhor negócio que fiz até hoje! Eu não ia ficar doido!
Percebi que escutaria uma longa história, uma vida inteira destrinchada e comecei a perguntar.
- Valmir, você que vendeu muita bebida ao povo, me diga uma coisa: você já bebeu?
- Bebi sim, e muito. A primeira bodega que tive, eu acabei foi com a bebida e as cutruvias da Zona. O seu irmão Júlio sabe, eu via ele sempre por lá!
- Raimundo, o sufoco grande foi na cheia de 74. Este prédio aqui ruiu todo, até as paredes o Rio Poti levou. Era um mar d’água, daqui até a Praça da Matriz. E soube que, lá pela rua, quando disseram que caiu o Bar do Valmir, teve gente que chorou: - E agora meu Deus, aonde eu vou me abastecer? Eu tinha uma família para criar, a sorte foi que Seu Agileu me cedeu um quartinho e nas festas do Louro da Cruz a gente vendia bastante pinga e muita caipirinha que minha mulher fazia e quando cuidávamos, os meus meninos, o Xixico, o Leléu, o Capote e o Peru estavam com a barriga já para estourar de tanto tomar caipirinha, escondidos, pensando que era refresco.
- Quando as águas baixaram, eu peguei o material fiado com uns amigos comerciantes e num único domingo os pedreiros, os serventes que bebiam no meu bar, o Manoel Jucá, o Dede Vicente, levantaram as paredes e fizeram o teto, em tempo recorde. Mas também, quando deu 6 horas da tarde estavam todos embriagados, mais melados que espinhaço de pão doce.
Mesmo adoentado, sem poder andar com uma perna quebrada, abre a bodega todos os dias, pontualmente às cinco da manhã. O freguês já está na calçada, impacientemente, aguardando. Do trabalhador ao desocupado, do doutor ao padre, não falta quem venha todo dia queimar os dentes com uma caninha forte para afogar as mágoas dos dias difíceis, para sonhar e suportar essa vida enjoada que Deus nos deu. Esse tal de Baco, que inventou a pinga, foi um gênio!
- Os meus filhos já pediram: “Papai, deixe esse negócio de vender cachaça! Eu lhes explico: “Vocês foram criados com o dinheiro das bebidas, vendidas de dose em dose, então me deixem trabalhar!”
- Muita gente boa, que se escorava no pé deste balcão, já se foi: O Babalu, o Tiú, o Cabo Marinho, o Zé Miolo, o Joaozinho... Foram tantos! O que ainda está vivo é o Mestre Ota, que sempre apoiava a perna no balcão e declamava a carta de despedida de Getúlio Vargas: “Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte...”
¬- Um dia, o Manoel Jumentinho que gostava de cantar imitando a voz do Carlos Nobrega, azucrinou tanto o Véi Chico Alpragata que esse sentou o pau-de-jucá na moleira do Jumento enxerido. Ele ficou ciscando aí no chão, igual uma galinha do pescoço quebrado e foi bater no hospital.
- São coisas da bebida, né Raimundo. Você sabe, se exagerar, qualquer um sai da linha.
E o Valmir continua:
- E teve um dia que o Mané do Cego estava tomando umas, tinha uma curriola danada com ele, tirando o gosto com curimatã e ouvindo o rádio quando o carro da patrulha riscou aí, na porta. Desceu o Capitão Camilo, que era o delegado e foi logo perguntando: - Que rádio baile é esse? O Mané respondeu: - Num é radio baile não, Capitão! É muisica! O delegado segurou-o pelo braço e o coitado do Mané foi preso. Depois, eu soube que o Capitão só andava cheio de conhaque nas ideias e como aqui só tinha cachaça ele mandou fechar o bar e até o rádio. Abri, assim que o delegado foi embora!
- Valmir, com a sua idade, você tem é que se cuidar mais. Mesmo com ajuda dos seus filhos é necessário repouso, não acha?
- Qual nada, Raimundo! Quem nasceu pra morrer peba tem mais é que viver cavando!
Despedi-me do amigo Valmir e segui o meu caminho incerto. Inexplicavelmente senti uma tontura na mente, as pernas trôpegas... Será? Mas não tomei nem uma talagada de São João da Barra ou da quentíssima Lagoa d Barro! Ah, já sei! É que continuo o mesmo velho ébrio de sempre, na lucidez do coração!


Raimundo Cândido

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Os Sapateiros


O poeta Pablo Neruda não exagerou no lírico romantismo quando declamou para a amada: “Quando não posso contemplar teu rosto contemplo teus pés... Amo teus pés só porque andam sobre a terra, sobre o vento e sobre a água até me encontrarem” A queridinha do autor de “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” devia ter um bom par de mocassins, e de couro de búfalo, para poder andar com destreza sobre esses elementos naturais. Os inspirados poetas bem sabem que elas, as amadas exigentes, dão mais valor a uma coleção de pares de sapatos do que uma boa composição de devaneio amoroso. Para serem realmente eficientes, os versos de hoje, devem vir acompanhados de uma vistosa caixa de sapatos!
Desde que o homem pré-histórico aprendeu a arte de curtir o couro, raspando a carne, a gordura e os pelos, para não apodrecer, que surgiram os primeiros sapatos. O Faraó Tutancâmon andava, elegante, com uma sandália de couro toda ornada de ouro. Na Antiga Roma, os Cônsules desfilavam com sapatos brancos, os Senadores com uns marrons com tiras entrançadas até a batata da perna e Legionários usavam botas de cano curto, com os dedos a descobertos. A manufatura industrial só surgiu na Inglaterra, e por necessidade dos exércitos que iam às guerras.
A novidade do ramo calçadista, na cidade de Cratheús, acontecia na Sapataria União do Senhor Edmundo Pinto. As caixas brancas de sapatos, que vinham de Sobral pelo Trem “Maria Fumaça”, ficavam nas prateleiras das duas paredes laterais e logo se esgotavam, mas um modelo novo era reproduzido pelos sapateiros que ficavam no fundo da loja, para atender aos inúmeros clientes: o Chico Rodão, o Luiz Potássio, um cabra bom de bola, o Fenelon e o esperto Cerinha, que além de sapateiro era cobrador de aluguel das casas do comerciante Norberto Ferreira. Além disso, Cerinha ganhou o apelido de “O Meia-Noite” por rondar as escuras esquinas da cidade, sempre nas horas tardias, curiando as atividades dos cálidos casais de namorados.
O município, com uma pecuária razoável, se desenvolveu pelo Ciclo do Couro e deste material fabricava-se quase tudo que era necessário para a sobrevivência do sertanejo. Os rapazes aprendiam a arte de celeiro e, também, de sapateiro transformando a pele curtida do gado em gibões, celas, cordas, canecos de sola e em chinelas de currulepe. Era uma tradição, de pai para filho, que só era interrompida pela chegada das secas intensas, que dizimavam os rebanhos. Era quando os jovens migravam, nas estradas já marcadas pelos seus antepassados, rumo à ilusão de São Paulo ou nas trilhas dos soldados da borracha, para um desconhecido Amazonas.
A Dona Marica, esposa do rico Cel. Chico Leite, das Queimadas de Novo Oriente, tinha chegado da banda do Norte e estava precisando de um chinelo novo, as alpargatas que tinha nos pés estavam gastas e remendadas. Aproveitou a presença do Senhor João Claudino da Silva, que estava a trabalhar no alpendre de sua casa, e perguntou:
- Seu João, o senhor sabe fazer chinelo de couro?
- Sei sim, Dona Marica. Vou fazer o seu chinelo, é só terminar o serviço desta empreita com o Dr. Chico Leite, aqui no alpendre.
O artesão João Claudino tirou as medidas do pé de Dona Marica, 34/35, riscou o couro curtido, desenhando o molde do pé com uma “costa” de madeira, cortou com uma faquinha bem amolada, fez o cabresto com uma tira de couro bem mais fina, bateu as pontas das tachinhas e desenhou no rosto umas figuras que aprendera com seu velho pai, nos tempos de outrora.
- Está pronto Dona Marica. Aqui está seu par de chinelos.
A senhora põe os calçados nos pés e fica admiranda com a obra de arte.
- Corre aqui, Chiquinho, vem ver que coisa interessante é esse chinelo que Seu João fez para mim! Olhe como esses desenhos são iguaizinhos àqueles que o Seu Vicente Manco fazia, lá em Manaus!
- Pois num é, Marica. É o mesmo tipo de chinelo, até parece do mesmo molde!
O Senhor João Claudino atento àquelas observações, arregalou bem os olhos, demonstrando um evidente contentamento no rosto.
- Meus amigos, me digam uma coisa, como é mesmo a aparência deste tal Vicente Manco, de quem vocês falam?
- Ele até parece muito com você, Seu João! Respondeu a esposa do Cel. Chico Leite.
- Pois esse sapateiro é meu irmão, dona Marica. A voz alta demonstrava uma alegria incontida.    - É o meu irmão Vicente Claudino, sim, que foi embora para o Norte fugindo da seca e da fome que por aqui dizimou quase tudo. Eu vi quando ele caiu de um burro e ficou mancando de uma perna. E nós aprendemos a fazer chinelas e a trabalhar com couro com o nosso pai. Aprendemos tudo direitinho como ele nós ensinou.
As lágrimas já escorriam pelo rosto de João Claudino que não suportara tamanha satisfação, tão grande coincidência. Achava que seu irmão, que há décadas não mandava notícias, desde a época que arribara para os perigos de uma Amazônia desconhecida, estava morto. Imaginava que tinha sido devorado pelos animais, que fora abatido pelas flechas dos índios selvagens.
- Seu João, agora o senhor pode se comunicar com ele. Nós temos o endereço de uma bodega, de onde comprávamos mantimentos, e seu irmão também se abastecia por lá.
E o contato entre os irmãos Claudinos foi refeito, como que pelo cabresto de um chinelo ligando Cratheús ao distante coração da Amazônia, a histórica cidade de Manaus!
O conhecido alerta “Sapateiro não vá além de tuas sandálias!” uma vez transposto pelo Vicente Manco, quando, expulso pela fome, rumara em busca de sobrevivência no distante Amazonas, até lembra a história dos irmãos sapateiros Crispim e Crispiniano, que, mesmo separados pelo Império Romano sempre acabavam juntos, até depois de decapitados.
As coisas de Deus são perfeitas. Com uma simples sandália nos pés, é suficiente uma longa marchinha para nos perdermos, e isso após a dolorosa tristeza das despedidas e basta mais uns poucos passos, adiante, para nos abraçarmos na alegria dos reencontros. E, depois da coincidência dos irmãos sapateiros, encontrarem-se de novo, em pleno sertão de Novo Oriente, através de um providente par de chinelas de currulepe, o velho lema de alerta mudou, e é assim que se deve dizê-lo agora: “Sapateiro, algumas vezes, é necessário que se vá muito além dos nossos sapatos!”


Raimundo Cândido

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Manelinho, o Caminhoneiro



Existe uma antiga versão de que os caminhoneiros eram pessoas desatinadas, que passavam dias perambulando pelos caminhos, num vai e vem sem rumo, num vem e vai sem norte acompanhando as velhas carroças que passavam. Esses caminhantes emprestaram o apelido aos primeiros motoristas de caminhão. Desde que surgiu, e se aperfeiçoou, após a 1ª Guerra Mundial, o caminhão tem encantado e atraído jovens para a dura profissão, atividade nada fácil que deu motivo à série de TV: Carga Pesada. O oficio é tão pesado que precisa de um Santo para protegê-lo. Um hercúleo, agigantado, que atravessava as pessoas num rio perigoso. Um dia, transpunha certo menino e sentia que, a cada passo que dava, o mesmo ficava mais pesado. Ao acabar a travessia, exclamou: - Parece que acabo de atravessar o peso do mundo! Ao que o menino confirmou: - Sim, você acaba de atravessar o Criador e Redentor do Mundo! Era São Cristóvão, “aquele que carrega Cristo”, que agora ajuda aos motoristas de caminhão em suas missões, contra o transitório tempo, com seus fretes pesados.
Em Cratheús, na primeira metade do século XX, os caminhões foram chegando, devagarzinho, com uma manivela como motor de arranque. Eram os carros da Empresa Flanklin (Ceará Transporte) que em cada para-choque se estampava um nome particular: Leão do Norte, Cidade Maravilhosa ou o Campeão do Nordeste.
O jovem Manoel de Sousa Melo foi seduzido pela profissão de caminhoneiro e bem cedo. Ao retornar, com o pai, de uma viagem ao Piauí, Manelinho tira a carteira de motorista e passa a trabalhar para os comerciantes crateuenses que tinham caminhões: O Sr. Raimundo Resende, Sr. Antônio Bezerra do Nascimento e na Empresa Moreira & Camerino de Zequinha Moreira e José de Oliveira Camerino, levando oiticica e mamona para os armazéns da Brasil Oiticica e da CIDAL, em Fortaleza.
Ganha tanta fama como bom motorista que foi escolhido, em 1953, para conduzir o carro andor que transportou a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, do velho campo de aviação até a Igreja da Matriz. Seguiam, ao jipe de Manelinho, uma multidão de carros, de motocicletas, bicicletas e de pedestres. Houve uma revoada de pássaros e um intenso foguetório até o momento em que avisaram que a imagem passaria pouquíssimo tempo na cidade, fato que revoltou o povo e as autoridades presentes exigiram um pernoite de N. Senhora. Foi uma festa apoteótica, essa que “prendeu” a Santa!
Manelinho já possuía o próprio caminhão quando Juscelino Kubistchek decidiu construir Brasília. O imenso canteiro de obras necessitava de trabalhadores, urgentemente. Nas várias viagens que realizou no caminhão adaptado, o Pau-de-Arara, Manelinho levava 60 futuros construtores da nova capital, com suas latas de farofa, algumas rapaduras como alimento nos fatigados dias do longo percurso, para chegar ao formigamento de máquinas e gente, com o Presidente Nonô caminhando entre os candangos.
O caminhãozinho trabalhou tanto, mas tanto, rumo à Brasília, que depois só serviu para transportar água do Açude do Governo, na malvada seca de 1958. Cratheús não tinha água encanada, e o agora carro-pipa de Manelinho enchia o tanque de refrigeração do Motor da Luz, no barrocão, aos cuidados do Sr. José Benoni e também completava a velha caixa do Posto Esso. Por toda a Rua Cel. Giló ele ia parando e quatro homens, com duas latas nas mãos, vendiam uma água “boa danada” nas casas para, por fim, no final da rua, encher o pipa de madeira do Irismar, com dois mil litros, onde o mesmo colocava uma lata de álcool puro e batizava com  umas bisnagas de Jofrina, para aumentar a acidez  e disfarçar um gosto aguado. Os biriteiros engoliam o venenoso, em sequiosos tragos, e diziam: - Oh, Lagoa do Barro boa!
A viagem, que o caminhoneiro recorda com certo carinho, foi de quando foi buscar o 1º Bispo que havia sido nomeado por Roma, para Cratheús, Dom Fragoso, na cidade de Senador Pompeu, onde o sacerdote já aguardava, com sua família.  Era um domingo bem claro, o 9 de agosto de 1964.
O Pe. Bonfim insistiu, o motorista tinha que ser o senhor Manelinho: - Eu só confio nele, que dirige com muito cuidado e bem devagarzinho!
Foram duas “Rurais” cedidas por José Cardoso Rosa e Manoel Sales Filho. Acompanhou, também, a comitiva o irmão do Pe. Bonfim, o Senhor Raimundo Moreira do Bonfim.
Uma comissão do 4º BEC foi recepcioná-lo na cidade de Independência. Nunca se viu festa maior na região, o piloto José Rosa Filho soltava flores de um avião sobre a Rural conduzida por Manelinho.  Foi um cortejo pomposo até a Praça da Matriz. E o povo só não imaginava que, o Bispo que chegava, era um cidadão mais ligado às causas sociais do que as pompas que lhes preparavam a sociedade crateuense e que iria enfrentar, de peito aberto, uma terrível e covarde fera chamada Ditadura Militar.
De todos os eventos históricos em que o motorista Manelinho participou, o que mais abateu a sua serenidade característica, foi a notícia do assassinato de seu sogro na cidade de Ipaporanga, em 1988.  Na madrugada, batem à porta do candidato a prefeito Gonçalinho de Paula, era alguém necessitando de ajuda para levar uma mulher, que estava em serviço de parto, para o hospital, coisas que ele não sabia negar. Um crime premeditado pela oposição desesperada por saber perdida a eleição. E o corpo de Seu Gonçalinho fica estendido no chão da calçada por uma bala traiçoeira. O trajeto entre Crateús e a antiga Águas Bela, que ele sempre fazia com muita alegria, na companhia da esposa Luzanira, foi feito com um pesar imenso, que nem São Cristovão, o seu protetor, poderia suportar.
Hoje, quando passamos à tardinha pela Rua Carlos Rolim 236, vemos Seu Manelinho, e a esposa, sentados nas cadeiras sobre a calçada, e temos a impressão que um caminhoneiro guia seu velho caminhão, rumo a um destino que ele sabe o caminho de cor, mas percebemos que, como Monsenhor Bonfim predizia, não há a mínima pressa de chegar.


Raimundo Cândido

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Crateús - Um berço de Talentos



CRATEÚS - UM BERÇO DE TALENTOS



                        a Cidade de Crateús-Ce., destaca-se primorosamente como um grande berço de talentos em matéria das artes plásticas e   esculturas e xilogravuras. Nessa ótica podemos destacar o Mestre Joviniano – Mestre da Cultura -  com uma vasta obra em escultura de santos em madeira.  João Batista, Rosa Moraes, Almeidinha, Miguel de Paula, Guido Dàrezzo, Hilda Cristina, dentre outros, também  fazem parte deste seleto e privilegiado grupo. No ano passado, na casa da minha mãe, tive o privilégio de conhecer um outro grande artista crateuense nessa área. Trata-se de Raimundo Soares de Sousa – Raimundo Alcanfor – na sua carteira de artista no PRODAST – Programa de Desenvolvimento do Artesanato Piauiense. Nascido no dia 19 de setembro de   1973, filho de Raimundo Soares Leitão e de D. Sebastiana Sobrinho de Sousa, Alcanfor, segundo ele “inspirou-se na obra de Aleijadinho ao ver suas belíssimas peças estampadas em uma edição da extinta revista O Cruzeiro” e passou a moldar peças em argila colhida próximo a feira livre, sob o olhar atento e seguindo as orientações de seu tio Emidio Alcanfor, que trabalhava com esculturas em bronze. Raimundo foi aluno e discípulo da Professora D. Rosa Moraes, com quem aprendeu a dar os primeiros traços na pintura em tela, rabiscar desenhos, restaurar peças além de receber dela o cognome ALCANFOR. Em março de 1993, mudou-se para Teresina, capital do Piauí, onde conheceu o artista Piauiense Nonato Oliveira, com quem desenvolveu seus conhecimentos e habilidades e aprendeu a trabalhar com fibras de vidro e a talhar madeira, o que fez com que várias portas lhes fossem abertas. Mesmo com muitos compromissos profissionais na capital piauiense, Alcanfor  tem se deslocado para Crateús desde o ano passado, segundo ele “para honrar um antigo compromisso com seu amigo Albino Costa” -  na época em que juntos, sob às orientações de D. Ritinha fizeram a Crisma - que seria esculpir uma nova imagem do Sr. Do Bonfim para a Igreja Matriz. Portanto, compromisso assumido, compromisso cumprido. Numa oficina improvisada na Rua Carlos Rolim, 203, Alcanfor,  juntamente com Albino e os discípulos Leonardo e Bruno, concluíram a obra, a nova imagem do Sr. Do Bonfim, esculpida em madeira. Não satisfeitos ainda, Restauraram a antiga imagem do Sr. Do Bonfim, esculpiram o São Tarcísio em madeira para o Grupo de Acólitos, e que  vai ficar também na Igreja Matriz e restauraram a imagem de São Sebastião. O talento de ALCANFOR é bastante diversificado: pinturas e esculturas em argila, cimento, pedra, vidro, ferro, metal, madeira, pintura em tela, além de restauração em peças de madeira e louças antigas. Há mais de 15 anos ALCANFOR presta serviço profissionais e de alta qualidade aos irmãos Ferraz, colecionadores de artes em Teresina. Contratado a mais de três anos pela Sra. Dilma Ferraz, teve que estudar marchetaria - técnica medieval - para trabalhar, juntamente com sua equipe,  a decoração do seu apartamento. Suas obras em Crateús, além dessas são: o painel com o Soldado Sentinela, em cimento, em frente ao 40º BI, feito no ano de 2.000, na época do Cel. Amaral e uma NINFA, na piscina da casa da Nádia Melo, também em cimento. Os devotos e a população crateuense agradecem a esse conterrâneo que muito nos honra e orgulha.

Francisco Aldo



Academia de Letras de Crateús
CNPJ - 11.881.060/0001-87


                                     EDITAL DE SELEÇÃO





A Academia de Letras de Crateús (ALC), de acordo com o art. 6º de seu Estatuto, declara, por intermédio de sua Diretoria, vagas as cadeiras de números 31 até a de número 40. O preenchimento destas 10(dez) vagas visa completar o quadro dos 40 membros efetivos da sociedade literária crateuense.
O interessado, na admissão de uma vaga, deverá num prazo de 30 dias a partir da data de publicação deste edital, 13 de Janeiro de 2015, apresentar exemplar(es) de sua(s) obra(s) literária(s), publicada(s) ou não, e um pequeno currículo, das 8 às 11 horas da manhã, de segunda à sábado, na sede da Academia de Letras de Crateús, Rua Francisco Sá  S/N, Praça Gentil Cardoso no Prédio da Estação Ferroviária (Praça da Estação).
Os candidatos apresentados passarão pelo visto da Comissão Permanente de Análises de Candidatos e aprovados em Assembleia Geral. O resultado, com a lista dos respectivos aprovados, será divulgado num prazo de até 40 (Quarenta) dias, após o parecer favorável da Comissão de Análise.
Aguardamos sua participação.



   Crateús, 13 de Janeiro de 2015




                Raimundo Cândido T. Filho                                        Flavio Machado e Silva

                              Presidente                                                                    Vice-presidente