terça-feira, 31 de julho de 2012

O Ipê e Colibri


Palmilhava, no desfecho da tarde - a moda dos poetas, passos leves, silhueta cabisbaixa - uma trilha poeirenta de minha rejuvenescida caminhada, quando, num súbito alento, percebo ao longe uma árvore toda desfolhada com um banquinho de madeira ao lado.


Mais de perto, inspeciono melhor aquele monumento solitário na beira da estrada.


Não tenho uma boa capacidade de identificar plantas, mas logo reconheço aquele esgalhado vegetal sobre um grosso tronco escurecido, era um velho e majestoso pau-d’arco que agora hibernava.


Embora sem folhas, sem flores, havia um doce perfume de pétalas de rosas e um colorido beija-flor que por entre os galhos secos revoava. Um vento suave soprava sobre o meu rosto suado, mas não remexia com as folhas secas que jaziam no chão.


Percebi que sentados no rústico banco de madeira enegrecida, em conversa animada, dois simpáticos velhinhos, indiferentes a quem por ali passava. Um senhor de fronte calva, cabelos brancos escorridos sobre os ombros, alva barba bem cuidada e um grande óculos de aro fino sobre um olhar profundo explicava, em didática explanação, como se fizesse uma avaliação de uma obra efetuada no mundo:


- Pois é, minha senhora, de tanto tentarmos educar os outros, agora nós é que nos educamos, para uma nova missão.


Percebi então uma idosa senhora, também de cabelos brancos e um olhar cansado, mas com feição firme de implacável rigor e coragem. Replica a declaração do ancião:


 - Com certeza! Deixamos as sementes plantadas, e mais do que nunca percebemos o valor daquela sua proposição máxima: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Lembra-se!


Enquanto caminho, percebo que o frondoso Ipê, subitamente, desabrocha em flores brancas como a neve, para êxtase do alegre beija-flor, que em rejubilo festeja.  


- Senhora, eu confesso que me emocionei quando disse em tom de despedida: “ Dei tudo de mim pela educação”.  A senhora criou um belo amanhã nas cartilhas amareladas do ontem!            


- Sinto-me lisonjeada por sua opinião. E revelo minha admiração, por um intelectual ser tão amoroso. Aquela sua explicação do amor incondicional, muito me emocionou: “E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade”.


Eu não sabia em qual espetáculo me concentrar se no diálogo dos afetuosos velhinhos ou na copa amarelada das flores do mágico Ipê, para delírio do beija-flor.


Prossigo no meu caminhar da saudade, deixando pegadas no fim de trilha, e escuto, já distante, a voz da terna senhora ainda a falar: “... não só ensinei as crianças a ler ‘Eu vi a uva’, mas abri um olhar essencial para a janela da alma daqueles pequeninos que começavam a decolar para à vida...”


Minha surda audição capta os últimos sons de um distinto senhor a asseverar:


- Minha senhora, seu educar foi um ato de amor!


Viro-me, naquele exato momento, como que compelido e vejo o frondoso Ipê – que não me é estranho – com os galhos, repletos de flores arroxeadas, revolteando como a me dar um abençoado adeus. Só não entendi porque aquele simpatico colibri insistiu em me acompanhar.


Raimundo Candido

José Alberto de Souza disse...
Extraordinária poética, ternura no mais alto grau, cada vez admiro mais suas crônicas, sempre impregnadas do mais puro sentimento.

segunda-feira, 30 de julho de 2012


                                                       A FILHA

Abely detesta o seu nome de batismo. Numa fria manhã de raiva abrasiva, ela pede explicação aos pais. A mãe: “O seu nome é o da sua filha que você matou em outra vida”.

Silas Falcão

domingo, 29 de julho de 2012

Zé do Povo



 Enquanto a professora e cantora Fatinha Marques passa na rua, em seu carrão, como um cintilante pássaro a gorjear melodias, lembro-me dos meteoritos errantes. Ela dá uma lição de como alcançar sucesso: trabalho insistente, sem nunca perder o entusiasmo. Essa estrela ascendente exibe-se em programas de televisão, na internet e até mesmo em jornais e revistas. Seus videoclipes, no Youtube, superaram a faixa de 500.000 acessos servindo como efetivo termômetro da repentina fama, a descontentamento de invejosos.
Pensando na ascensão dessa incontestável estrela musical, é inevitável que me venha à mente os astrólitos catastróficos e os meteoritos apocalípticos. De acordo com a NASA, a chance de um asteróide atingir a Terra é de 1 para 625, e vai diminuindo a medida que o tempo passa. As bolas de fogo, que riscam o céu, são uma ameaça constante sobre as nossas cabeças mesmo que a imaginação os transforme em momentos de crendices para solicitar que desejos sejam realizados. A grande ameaça anunciada é um asteróide de 137 metros de diâmetro catalogado como 2011 AG5, que passará bem próximo do nosso planeta em 5 de fevereiro de 2040, com remota probabilidade de choque.
E, por estranho que pareça aos crateuenses, já estamos acostumados. Em 1909, numa caatinga de inóspito carrascal arbustivo, com ramos duros e esguios, repleto de seixos roliços, um atento sertanejo vê uma pedrinha de uns 350 gramas, bem diferente, avermelhada como ferrugem e como se alguém tivesse deixado marcas de dedos impregnadas. Guarda-a, na algibeira. Nem imagina que vale uma fortuna. Mas já havia caído outra, bem maior. Foi achada em 1914, riscou o céu da cidade como uma enorme bola de fogo e foi se consumindo pelo atrito atmosférico, até restar somente um bólido de uns 27 quilos e meio quando estrondou nas margens do Poti, assustando a tudo e a todos que por ali passavam, como uma explosão de mil dinamites. Os dois tesouros fazem parte, agora, da Relação de Meteoritos Brasileiros que estão no Museu Nacional de Meteorologia do Rio de Janeiro, catalogados como Meteoritos Crateús.
Já nem mais se ouve a cadência musical retumbando no ar e fico a relembrar de outros meteoritos humanos que brotaram da mágica Rua Frei Vidal da Penha. Quando a virtuosa Dona Saluzinha, criando sua prole numerosa com duro labor e muita oração, reclamava carinhosamente da danação das crianças: – Ó Tadeuzinho de Nossa Senhora, você quer uma pisa ou um pedacinho de rapadura? Daquela abençoada família surgiu um meteorito reluzente que se dignificou pelo trabalho e enfrentou os ardis da arte política. Chama-se José Marques de Alcântara, vulgo Zé Maria Pedreiro, tio do meteorito Fatinha.
A necessidade é uma das grande lei da natureza, mesmo que a Organização Internacional do Trabalho homologue o contrário. A privação é mestra e guia, inspira e obriga. E um guerreiro-menino, aos 7 anos de idade com a barra do tempo por sobre os ombros, pega um caixote de bombons com tira perpassada no pescoço e vai trabalhar no Trem encantado chamado Maria Fumaça, num divertido vai e vem, entre Crateús e Oiticica. Mesmo tendo acreditado que, naquele dia, o mundo iria se acabar com a visão inesperada de aviões que soltavam fumaça pelo rabo em assustador sobrevoo rasante e com a população de Oiticica que correu desesperada. O sobressaltado menino sentiu uma súbita necessidade de comer os pães que levara da Padaria do Sr Ferreirinha, com a proximidade do fim do mundo. Pensou “é melhor morrer de barriga cheia” e desde aquele dia que uma coragem brotou no coração de um menino-homem temperado com a doçura de criança que sobrevivia vendendo pão e guloseimas.
Zé Maria é uma dessas poucas pessoas que pode afirmar literalmente: ”Meu nome é trabalho e o sobrenome é hora extra”, pois biblicamente come o pão com o suor do rosto. Trabalhou no Cartório Eleitoral com o Dr. Desembargador Olavo Frota. Estava na turma de cassacos que construía a estrada de ferro Crateús-Independência, época de grande seca e renhida clemência por bom inverno. Vem as chuvas e o sertanejo larga tudo e corre para lavrar as roças e a incompleta estrada de ferro vira um fantasma. Já exímio nas obras de pedra e cal, vai trabalhar no Distrito de Poti onde conheceu a digníssima amada e se soubesse de Fernando Pessoa teria dito, no auge da paixão: Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo? Mas havia o enérgico pai da noiva.  Com uma boa talagada de pinga lagoa do barro todo frouxo cria coragem. Ele criou e foi pedir a mão da eleita:
– Seu Zé, o que me trouxe aqui foi pedir...
– Pedir o quê?! O corpulento pai da donzela já estava com a mão sobre um revolver que repousava, manso, sobre a mesa.
– ... pedir um jumento emprestado para tirar uma carga de lenha.
Quem pediu mesmo a mão de dona Maria de Lurdes foram as cordas de um violão, quando o Zé Maria Pedreiro dissimulava-se em fino seresteiro das madrugadas.
Em Crateús houve uma briga muito estranha. Diz, um desses tolos poetastro de imaginação fértil, que os galos da torre da Matriz têm nomes, o da esquerda é o Macedo, o da direita é o Bonfim que conspirou com uma rabugenta coruja cara de beata, e degringolam o coitado do Macedo que cai do alto da torre. O único a ter coragem de entronar novamente o velho e caduco galo é o pau para toda obra, o pedreiro Zé Maria.
Segundo o filósofo grego Aristóteles, o homem é por natureza um ser político. E para quem vivia sintonizado nas ondas de rádios, procurando informações de Cuba, de Moscou ou ouvindo com fervilhante ânsia as notícias de Heron Domingues, a testemunha ocular da história, no Repórter Esso, a única vereda possível era a política mesmo. O brio e a fascinação que se depreendem espontaneamente da alma deste pedreiro mostra uma simplicidade ímpar e uma habilidade social acima da média, qualidades que o indicaram com candidato ideal a prefeito tremulando mais uma vez a bandeira das esquerdas (dizem os entendidos que houve a mão do Marcos Melo, filho do Luiz Mano, um corajoso socialista de utopia cabocla). A primeira disputa para prefeito, onde adquiriu experiência, foi contra uma máquina governamental em época da cruel ditadura. O Zé conseguiu vencer Dona Leonete Camerino por 138 votos na zona urbana, mas os sufrágios interioranos chegaram, tangidos como o estouro de uma boiada, esmagando o Pedreiro da esperança, seu slogan político. Sentiu o primeiro revés financeiro, mas nada que trabalho duro e honesto não pudesse refazer.
                A política é uma guerra sem derramamento de sangue. E nas boas guerras tem-se que agir como os tigres: mostrando eficiência e muita lábia astuciosa, como na campanha de 1996 contra Paulo Nazareno. O Candidato do Povo encontra o Dr. Paulo em rota de campanha e o cumprimenta cordialmente. Diz: – Doutor, já é coisa líquida e certa, eu vou ganhar esta eleição e quero que seja o senhor seja o meu secretário de Saúde. Paulo descerra um sorriso sincero nos lábios, pois sabe de suas reais possibilidade, e arremata: – Meu amigo Zé do Povo, você está iludido, mesmo assim eu estou lhe convidando para ser meu Secretário de Obras, aceita?
                Com certa antecedência, o PMDB decide fazer o comício de encerramento da campanha. A Praça da Matriz estava lotada que nem sardinha em lata. Foram discursando: os vereadores, com muitos sonhos e promessas vãs estampadas no ar, depois o vice, João Aguiar, que soltou o verbo alado revoando sobre as cabeças dos milhares de eleitores conscientes do que estavam fazendo ali. Um microfone, vigorosamente, anuncia: – Agora, com vocês, ele, o nosso querido prefeito, Zé do Povo!!! O inesperado, o inacreditável, é bom que se diga, aconteceu. Escuridão total em plena praça. Supõe-se, conjecturam-se e esperam, pois a esperança é o sonho do sertanejo que vive sonhando acordado. Há um rumor quase que silencioso e lá no final da multidão alguém acende um isqueiro e bem alto, quebrando o silêncio sepulcral, iniciando um refrão como um doce hino: – Zé do Povo!!! – Zé do Povo!!! Numa emoção que instantaneamente contagiou, um a um, de repente a multidão clareia a praça com fósforos, velas, isqueiros e esperanças em suas almas como pequenos asteróides uníssonos e em coro a bradar:  – Zé do Povo!!! – Zé do Povo!!! – Zé do Povo!!! Por vinte longos minutos, sem parar, até que o sol da consciência voltasse a brilhar na praça.  Então o povo ou(viu) um cintilante meteorito no fim da escuridão, ele fala: – Olhem, eu sei que eles detêm o poder nas mãos e por isso fazem o que querem! Eu sei que eles trouxeram ministro, governador, senador e deputados para ajudar na campanha. Agora, só falta trazer o Papa. Mas que tragam, pois o Santo Padre vai é rezar por esse proletário que vive derramando suor pelo bem do povo. Ele vai é dizer assim: – Levanta Zé, a pobreza de Crateús precisa de tua proteção e de teu trabalho!
E o Pedreiro Zé Maria é levado nos ombros de uma multidão ensandecida, dando voltas olímpicas na praça, com o mundo todo a gritar: Já ganhou!!! Já ganhou!!!
                É bom saber que o cidadão Zé Maria é novamente candidato nestas eleições, agora a vereador (12222) pelo PDT do carismático e saudoso Leonel Brizola. É bom também que se tome conhecimento de que continua uma pessoa aguerrida e que as asperezas de um homem, lapidado na luta, não amargaram a doçura do menino que vendia bombom na saudosa Maria Fumaça.
Zé Povo!!! Zé Povo!!! Zé Povo!!! É o que ainda ouço, sempre que vejo este meteorito passar!

Raimundo Candido
Jose Alberto de Souza disse...
O universo de Crateús brilha no firmamento das letras com essa comovente crônica de uma comunidade que se projeta no cenário estelar qual um cometa a perder-se no infinito.
 
João Silas Falcão Soares disse...
Poeta Raimundinho, as suas crônicas são leituras de lugares comuns a muitos leitores. Você sempre resgata um passado que nos pertence. Zé Maria Pedreiro é outra lembrança de minha adolescência na rua da Cruz. É inesquecível o momento em que meu pai, Pedro Severino, contratou a competência profissional do pedreiro Zé Maria para fazer a “puxada”, como se definiu a época, da cozinha e sala de jantar da nossa casa. Minha mãe queria ambos os espaços mais amplos e arejados. E em outras contratações ele executava com muita responsabilidade o seu ofício de Mestre de Obra muito conhecido e respeitado. O Zé Maria tem o andar do povo. Simplicidade do povo. Palavras do povo. Expressões corporais do povo. Trabalhador como o povo. Zé Maria Pedreiro é o povo. Há muito tempo ele devia estar dinamizando uma vaga na câmara municipal ou prefeitura. Ele merece por ser um batalhador incansável. Sendo eleito, tenho certeza que o Zé do Povo, mesmo sendo vereador e não prefeito, construirá novos caminhos para Crateús. Espero que Crateús não esqueça dois candidatos que pertencem ao dia a dia do povo: Zé do Povo e o Louro da Cruz.

terça-feira, 24 de julho de 2012

CONSIDERAI MIRAR O SOL



O carrossel da vida, o encarrilhamento das obrigações diárias, o acorrentamento à necessidade de cumprir prazos, o imperativo dos compromissos profissionais, a inafastabilidade da peleja permanente pela sobrevivência – constituem invariavelmente óbice à imprescindível abertura das asas da alma à liberdade do voo.

Por óbvio, isso nos impede de mirar seres, coisas, objetos e pessoas sem as peles artificiais que as revestem. O tsunami das convenções grupais é tão violento que faz submergir qualquer ilha de resistência ao roldão do lugar comum. Somos todos arrastados pelas caudalosas ondas que lavam o cérebro da coletividade. Pensamos conforme nos orienta a cartilha do grupo ao qual estamos filiados. Agimos segundo seu fascículo conceitual. Rezamos em sintonia com aquele catecismo imposto pelo núcleo religioso cujo fio de fé professamos. 

Nesses tempos de campanha eleitoral aflora a convicção de que a política é uma das arenas em que mais veementemente explode esse ímpeto gladiador alimentado pela passionalidade. Tornamo-nos instrumentos desse combustível fóssil extraído do poço tubular raso dos interesses. 

Deixamos de observar valores simplesmente porque quem os exibe não está na arquibancada do nosso time. Olvidamos de resaltar virtudes em razão dos protagonistas utilizarem carteiras de filiação diferenciadas da nossa. Descuramos reconhecer méritos em razão da origem ideológica de quem os ostenta. 

Ninguém imagina quão grato fico quando recebo um telefonema cobrando a escritura desta Crônica. É que essa doce e solitária faina laboral no roçado germinal das letras me obriga a pensar, silenciar, meditar e sopesar. Impulsiona-me a deixar a caverna do cotidiano embaçador e perscrutar o vagalume do sonho. Força-me a mirar de frente o sol! 

E, mirando a clareza solar, sentir o aroma inebriante do arco-íris da liberdade! Mergulhar entre os balseiros da essencialidade!
O fato é que, desse espaço introspectivo, às vezes fico impressionado com a fúria descomunal, a acidez verbal, o hálito de fogo que alguns costumam exalar no movimento de um prélio urnístico. Por que tanta dificuldade em controlar o tigre interior? 

Nessa esteira, vez por outra, quando o nosso terreiro é iluminado por um relâmpago de lucidez, nos indagamos: temos mesmo que nos deixar levar pela correnteza do mundo? É inevitável sermos alcançado por esse redemoinho? 

Consideremos que a resposta seja NÃO!

Consideremos a possibilidade de retirarmos a blusa. Caminharmos, cabelo ao vento, embalados pela sinfonia da natureza, sem chapéu, sem óculos, sem metal e sem enfeites. Contemplarmos a gratuidade mágica de pisar na terra nua, molhar os pés no primeiro pingo d’água encontrado. 

Consideremos a alternativa de nos abstermos de pronunciar palavras vãs. Fazermos uma pausa na batalha. Contermos o espírito de contenda e apenas esparramarmos o átomo da admiração para festejar a querida presença da generosidade no nosso entorno. 

Consideremos a abertura de uma concessão à benevolência. Consideremos compartilhar uma refeição temperada com os ingredientes da tolerância.

Consideremos, por fim, um gesto de afeto ao despojamento total, a busca de uma maior intimidade com o desapego. Consideremos uma inflexão rumo à sensibilidade, o ato heroico de admitir a ternura em nosso dia a dia.Consideremos mirar o Sol!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

domingo, 22 de julho de 2012

Lascívia

   
É lúbrica a isenta noite
na claridade de um poste,
pois um silêncio desarranja-se 
ladrando na insônia tediosa.

E uma donzela espia
da janela, um brotar de um cio.

Um atraente feromônio
é um perfume solto na rua,
qual assanhada borboleta
despetalando uma libido a latejar.

E uma donzela sente
da janela, um rebuliço começar.

Ensandecidos cães
alvoroçam-se em alarido:
— Sou eu!  — Sai, é meu!
Latidos de um apetite ensurdecedor!

E uma donzela se excita
na janela, tal qual a jovem cadela!

O coito noturno é um luar
despudorado a se realizar
pela libertinagem em delírio
de um ensanguentado amor canídeo.

E uma donzela geme
da janela, ciente que é com ela!

Raimundo Candido

José Alberto de Souza disse...
Clássico e parnasiano,
transcende ao tempo presente.
Mergulha no subconsciente
e acha vocabulário arcano
ainda remanescente.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

“Ombora Pessoal! ‘Bora cuidar! ‘Bora se virar!”


(Tributo aos heróis crateuenses
que combateram na Guerra da Borracha)

O extenso e profundo Piau, o derradeiro poço do Poti antes de passar pelo desfiladeiro da Serra Grande e chegar ao vizinho estado do Piauí, nunca secara em toda sua milenar história de intermitente e valoroso rio. Só na Seca do Quinze foi que se falou em tanto abandono e solidão. Até as cacimbas d’águas mostravam uma dura resistência em desenraizar o precioso líquido para saciar a sede da povoação. O aglomerado de casinhas que formava a aldeia da Ibiapaba sofria com uma feroz seca, no distante ano de 1942, obrigando o digno sertanejo a se metamorfosear, mais uma vez, num grotesco retirante. Um vento quente que incomoda, até a sombra de um desbotado juazeiro, bafeja nos rostos fantasmagóricos de seres semi-vivos que, de enxada na mão, ciscam um duro chão e remoem a desmedida fome com o último pão de macambira que havia no sertão.
Há léguas e léguas dali, na Cidade Maravilhosa, Capital do País, em plena 2ª Guerra Mundial, um Getúlio Vargas que comandava ditatorialmente um sistema de governo bem próximo a um nazi-fascismo, mas com o rabo preso aos americanos por uma dívida estratosférica recebia, hesitante, as ordens do presidente americano Franklin Delano Roosevelt: — Vamos Precisar de borracha para vencer a guerra! Já que os japoneses tomaram a Floresta de Seringais, na Malásia, plantada pelos ingleses com as sementes que levam daqui. A Amazônia será a nossa salvação!
Com uma prontidão de perdigueiro, rapidamente duas frentes se formaram: um front militar de guerra, para onde o Brasil mandou suas tropas de juvenis soldados, reforçando os aliados, e a outra para uma invencível floresta, numa invisível guerra, composta de uma tropa de desengonçados sertanejos arregimentados militarmente pela força circunstancial e cruel de um ingrato tempo, a famigerada seca. Foram todos iludidos por uma enganosa propaganda governamental e formaram o EXÉRCITO DA BORRACHA, como determinava o acordo de Washington, de 22 de dezembro de 1942, data em que, dizem, marcou-se o inicio da entrega da Amazônia.
No ano em que a cidade se prepara para comemorar o Jubileu Sacerdotal Áureo do eminente Padre José Juvêncio de Andrade, por todo Sertão de Crateús a caatinga se revestia de um pesado manto cinzento. O cidadão da bucólica Ibiapaba vivia num cruel dilema: Morrer esperando viver ou viver esperando morrer!
Pelas esquinas do povoado a conversa era a mesma: — Compadre tome cuidado! O americano está pegando toda a nossa rapaziada. O Exército está alistando tudo. Vão para a Amazônia produzir borracha ou vão lutar nos campos de uma sangrenta guerra, lá para as bandas da Europa.
Seu Magalhães estende o plangente olhar rumo à linha do horizonte, era um homem acostumado às vicissitudes da vida, e diz: — Obrigado pelo aviso, meu amigo, mas não posso fazer nada. Entre sofrer as agruras desta cruel seca e ir à guerra, meu filho Francisco Pinto de Magalhães, escolheu essa honrosa briga, pelo menos é a da borracha e não a do fuzil e do canhão. Está iludido com o El dourado da propaganda, da terra da fartura, do dinheiro e da felicidade. É um Paraíso, eles dizem. Mas minha velha alma sabe que tudo isso é ilusão!
Todas as circunstâncias que aflora em nosso subsistir, fortuitas ou não, servem apenas para gerar pontos de partidas. E naquela bela tarde de domingo a Praça da Estação já estava abarrotada de saudades dos familiares que se despedem de seus corajosos soldados: os Franciscos Pinto, os Franciscos de Sousa, os Raimundos Nonato, os Waldomiros da Silva... Eram dezenas e dezenas de jovens audazes que embarcavam na espalhafatosa Maria Fumaça para engrossar as fileiras do Batalhão da Borracha, com sede no SEMTA em Fortaleza, de onde se mobilizava os trabalhadores para ir à Amazônia e que partiriam do Porto de Mucuripe.
Muitos viam o mar pela primeira vez e corajosamente o enfrentaram, mesmo sabendo-o cheio de procelas tempestuosas a sugar vidas e espumar uma líquida morte. Antes de zarpar, um rude poeta sertanejo que, talvez, inspirado pelos versos de Fernando Pessoa — Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu soltou seu canto num grito de despedida: “Adeus terra da minha infância querida / adeus terra onde eu me criei / adeus pai, adeus mãe, adeus tudo. / Eu não sei quando mais voltarei”.
Com uma lei chamada áurea pensou-se em abolir a escravidão, mas um cativeiro volta a atingir seu ponto culminante, sempre que o trabalho assalariado não efetiva uma dignidade humana. Os brabos, com eram conhecidos os sertanejos, os arigós, já em terras amazônicas logo sentiram a diferença do livre descampado de um sertão quando se viram presos dentro de um sufocante inferno verde. E recebem seus utensílios de trabalho, tigelas, facas para tirar o látex, machados e uma potente carabina Winchester com duzentas certeiras balas. Era um decreto de escravidão financeira, o começo de uma dívida que nunca iriam pagar.
Anoitece na floresta. Sobem para os seus Tapiris, uma maloca de palha encima das árvores. Derribam a escada, presa numa corda, para evitar que os felinos, as cobras e os espíritos da floresta que trazem paludismo, escorbuto e barriga d’água subam para a rústica choupana. Numa surrada tipoia sonham com a época das faturas invernosas no distante Ceará, ao som de terríveis esturros: Ruuummm! Ruuuuuuuummm! Os urros de esfomeadas feras de olhos encarnados que parecem rubis no escuro e cada vez mais perto.
Acordar cedo já é um saudável costume, só estranhavam era aquela dura e apressada ordem militar, dos capatazes: Ombora Pessoal! ‘Bora cuidar! ‘Bora se virar!
Mal o dia amanhece já caminham por uma esteita alameda, deixando tigelas coladas nos troncos das serringeuiras, bebendo o precioso suco leitoso. Iam descalços sobre estivas de grossos troncos e finos palmitos, se escorregassem na lama levavam uma alta descarga voltaica dos cilíndricos puraquês. No fim da trilha, ao meio dia, almoçavam o que tinham para comer, pois logo voltaviam recolhendo as vasilhas lotadas de latêx, se os perigosos e traquinas silvicolas não as tivessem derramado. A noite ficava reservada para a defumação, onde eram feitas as enormes bolas de borracha, as pélas. De segunda a segunda, nesta imutável rotina, induzia as boas lembranças ou a torturosas saudades, da vida de um sertanejo, cada vez mais distante do longínquo Ceará.
Quando o crateuense Francisco de Sousa ouviu, pela BBC de londres, a auspiciosa notícia de que a alemanha caíra, percebeu que tudo tinha chagado ao fim. Soube, também, que o Governo Federal os abandonara e para sua terra natal não mais podia voltar. Amargurado desabafa: — Quero voltar mais não! Tenho sofrido tanto que se eu morrer por essas bandas só minha alma não terá vergonha de voltar para o Ceará!
A Guerra da Borracha se impôs pela vontade férrea do rude sertanejo, “retirado” de seu torrão aonde já era acostumados as lutas inglórias. Mas esta foi pior. No fim de tudo, dos que escaparam, restou somente seres silenciosos e taciturnos, uns brabos que se tornam mansos e profundos como como os rios da região, e como o último pão de macambira do sertão degustam agora um flagelo, uma terrível injustiça, um genocídio. Pois, mais da metade dos 30 mil nordestinos, os mocorongos, morreram a míngua, na penúria do paraiso prometido pelo indiferente Governo Federal. Tudo isso recorda-me Euclides da Cunha, descrevendo os últimos instantes de Canudos quando um velho, uma criança e dois sertanejos ficaram, honrosamente, de pé na frente de 5 mil soldados que rugiam como as onças dos serringais. Tudo isso relembra-me um coronel Luís Alves de Lima e Silva, a receber o título de Duque por ter assasinado com requinte 12 mil pobres sertanejos e escravos na revolta da Balaiada, em Caxias no Maranhão. É o nosso Brasil, das ensanguentadas injustiças!
Mas resta um recompensado consolo, todo dia 15 de junho, a data mais importante do Estado do Acre, num patriótico pavilhão sobem três bandeiras auriverdes, a brasileira no mastro central, a direita a flâmula do Acre e a esquerda, lembrando a grande épopeia dos crateuenses, dos cearenses, o pendão dos bravos sertanejos, a bandeira do Ceará. E os acreanos, nossos diretos descendentes, orgulhosamente entoam: Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...

Raimundo Candido
José Alberto de Souza disse...
Tudo isto é pesquisa, é resgate, é registro de uma grandiosa epopéia para que as gerações futuras não releguem ao esquecimento esses importantes fatos da História escrita "a ferro e fogo" (Josué Guimarães) pelos seus antepassados. Esplêndida e comovente a figura "num patriótico pavilhão sobem três bandeiras auriverdes"!

UM LIVRO PARA TODO CRATEUENSE TER NA CABECEIRA!


FATOS MARCANTES DE NOSSA CIDADE RESGATADOS PELA PERSPICÁCIA HISTÓRICA DE FLÁVIO MACHADO
Flávio Machado e Silva, escritor, historiador crateuense, membro da Academia de Letras de Crateús, lança CRATEUS, LEMBRANÇAS QUE MARCARAM A HISTÓRIA. Noite de autógrafos ocorrerá no CEJA Professor Luiz Bezerra de Crateús, no dia 21 de julho próximo. Sintam-se convidados todos que gostam de livros, apreciam uma boa leitura e amam a cultura. Sejam todos muito bem vindos.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A ÚLTIMA ESTAÇÃO


A nossa Praça da Estação era o nosso mundo. A nossa Pátria. Lá fermentavam os nossos sonhos.  Os nossos projetos futuros. As nossas audácias pela vida.  Era uma tenda simples. Iluminada por estrelas miúdas e tímidas. Os pés se arrastavam no próprio solo sagrado. Era uma praça. Mas nem praça era.  Era um pais minúsculo, daqueles que são felizes, pois não constam no mapa. Se o calor vermelho do dia, fazia,  a praça arder, na boquinha da noite, uma brisa fina e macia, salpicava de ternura e amplexo a nossa pátria. Era o nosso Santuário de justeza e paz. Todos eram nobres. Ninguém vislumbrava o poente. Todos tinham o sagrado direito de beijar o sol. Ali não havia crepúsculo. Ali não se entardecia. Bebia o leite morno das melódicas manhãs.  Pois naquela teluricidade, mourejavam as nossas saudades. Semeávamos as nossas recordações. E em cada matinata um grão de recordações morria naquele chão de ventre fértil de felicidades. Éramos felizes, e nós sabíamos. E hoje o queimor das lagrimas vão nos lavando em conta gotas, revirando a poeira do tempo, e o tinto pó do passado.  Lá fizemos os nossos ninhos, como as felizes andorinhas. E como na canção do Padre Leo, nas pátrias por onde andei, eu não me acostumei, para a minha pátria eu retornei. E volvo meu olhar sombrio e fosco, e com os olhos pálidos em lagrimas mergulhados, vejo uma neblina espessa de saudade e de dor no coração da minha tão querida praça. Se foi a ultima das estações daquela nação. Se foi a querida amiga Magda Portela Machado. Um exemplo de superação. Um diploma de resiliência. Sem queixumes. Sem lamentos. Com um ponto de saudade no seu sorriso, conduzia um inútil balão de oxigênio. Uma alma oxigenada de  grandeza. Com as mãos abundantes de servir. Os seus caminhos luminosos de compromisso com o próximo, ela singrava a todo o momento. Melquiades, seu irmão, meu colega medico foi para São Paulo. Sua irmã Naide mora em Fortaleza. Seus pais se foram. E Magda era a jardineira que cuidava com docilidade do nosso jardim de felicidade. Se o tempo para nós era este contraste doloroso entre o construir e destruir, a incoerência entre o futuro e passado, para ela o tempo era mansidão. Era deitava um olhar religioso sobre o tempo. Para ela o tempo tinha ação própria. O tempo era o da graça. Era Kairós. E ainda Magda que é uma nação pequenina e bíblica, era kairocidade, como cita Fabio de Melo. E diria como Álvares de Azevedo, “ e então acordarei ao sol mais puro, cheirosa a fronte às auras da esperança.” Ao partir Magda deixa-nos este legado de enternecimento e de doce esperança. A última estação não morrerá. Viverá  de esperança e arrimada de saudade. 

Fortaleza, julho de 2012

Jose maria bonfim Moraes- medico cardiologista

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Louro da Cruz



Mesmo a Quinta Avenida da Big Apple, cidade de New York, magnífica e badalada com um redemoinho de ianques margeados por imponentes prédios de aço e vidro, ou a majestosa Avenue des Champs Élysées, na cidade luz chamada Paris, com o Arco do Triunfo bonapartiano grudado ao Museu do Louvre onde se esparrama um sorriso enigmático da Mona Lisa, e até mesmo a curitibana Rua das Flores, enfeitada de girassóis e de curiosos turistas que assistem diariamente ao encontro dos Cavaleiros da Boca Maldita, não valem o meio fio das calçadas da Avenida Frei Vidal da Penha.
Desde a época em que nas bodegas, uma em cada esquina, os fregueses chegavam fiando açúcar e farinha em raquíticas cadernetas, até o dia em que um nigérrimo tapete cobriu a poeira do tropel dos cavalos que passavam rumo ao centro, a Rua da Cruz foi, e sempre será, uma consonante artéria do meu coração.
A meninada se divertia urdindo travessuras. Éramos pássaros sem plumas aprendendo a voar. Curumins alumbrados entre duendes, magos, mães-d’água e ilusões diluídas no ar. Um duende-menino, disfarçado de gente, ia à escola. A professora, Dona Delite, já o preferira como a um eleito, pela perspicácia e impetuosidade em aprender. Sabatinava-o no 3º  ano primário, como exemplo para o restante da turma: — Juracy, responda bem rápido, Sete vezes oito? Ele nem pestaneja: — Cinquenta e seis! Oito vezes sete? Nove vezes quatro? Metralhava-o. Às vezes respondia quase antes da mestra formular uma pergunta. (Eu era um bom aluno... Um bom aluno! Recorda-me saudoso, o próprio Louro da Cruz, dentro de um corpo sofrido pela demolição acrimoniosa do tempo.)
O magricelo vivaz, que apontava para um futuro promissor de uma meninice esperta, tinha um sonho: ser padre. Esteve no seminário de Baturité, dando textura e forma a esse desejo, mas como disse o p(r)o(f)eta Augusto dos Anjos: Vão-se os sonhos nas asas da descrença e voltam nas asas da esperança. Um vírus lhe enche o corpo de contagiantes erupções que se espalham por toda escola eclesiástica. O sarampo diluiu uma aspiração e a transformou em revolta. Foram longos os dias em que vivia da raiva de viver, de não poder mais voltar ao seminário. Deixou de estudar, desentendeu-se com a incompreensível família e foi dormir no mato, como um triste Gmono das árvores. Da mesma forma que o mundo enferma, o tempo também cura. Logo um rebelde e cabeludo Juracy estava vendendo o apetitoso Bauru, o primeiro sanduiche peculiar da cidade, para uma seleta clientela, na Lanchonete Jovem Guarda: vinham os doutores, os ricos comerciantes, os oficiais do 4º batalhão e quando chegava um cidadão comum, tinha que trazer uma boa porção de moedas para saboreá-lo e com direito a ouvir o Louro cantar, “ E que tudo mais vá pro inferno” ou “Olha o brucutu, bru-cu-tu!”, tudo proveniente de uma caixa de bananas verdes, herança de um bodegueiro falido chamado Luizinho Filó, onde o Louro costumava dormir, no chão frio forrado com palhas de bananeiras.
Juracy prospera, pois os ventos da boa sorte o bafejava. Ele sempre soube acautelar-se e pensa em todos os pormenores. Adquire um imenso terreno onde pretende construir uma Casa de Shows e trazer nada mais, nada menos, que o Rei da Juventude, Roberto Carlos. O 4º Batalhão, de partida para Barreiras, na Bahia, o presenteia com abundante material de construção. O único obstáculo, como pedra no meio do caminho, era um imenso e antiguíssimo cruzeiro de aroeira assentado sobre um grosso pedestal de bentos tijolos de 27 quilos, e o único jeito era a demolição. Rapidamente, alavancas e picaretas o degringola. Uma multidão se aglomera no final da Frei Vidal, descrente no que via. O Vigário da cidade, Pe. Bonfim, chega no seu motorzinho e constata o grande perigo: — Mas seu Juracy, como pôde fazer isso? Este cruzeiro foi enfincado na entrada da cidade pelo santo Pe. Juvêncio para nos proteger e nos livrar da tentação do demônio e você o derruba! Pois está amaldiçoado!
O verde Jeep da polícia, um willys 51, leva-o para a cadeia publica, mas logo é solto. O delegado não ver legalidade naquela despropositada prisão. Juracy tomou o devido cuidado de enterrar os mastros de aroeira no chão da boate encoberto pelos trilhos de ferro do batalhão, para que a maldição daquele dia nunca viesse à tona. Foi uma indispensável prudência do conhecidíssimo Louro da Cruz, como passou a ser chamar, a partir de então.
O Rei da Jovem Guarda nunca deu o seu ar da graça por aqui, mas o empresário Juracy trouxe, entre outros, para soltar suas veludosas vozes a cantora e musa pornô Gretchen, o cigano Sidney Magal ameaçando "Se Te Agarro Com Outro Te Mato", o axé music de Chiclete com Banana, Roberta Miranda cantando que nem A Magestade o Sabiá, a voz potente de Gessé, Biafra celebrando o Sonho de Ícaro e Martinho da Vila que desfilou pelas ruas da cidade com um grupo de mulheres a festejar a Rainha de Iemanjá.
Comprovando sua predisposta felicidade para a sorte, na véspera de uma das piores agressões ao cidadão brasileiro, quando as pessoas perderam dinheiro em contas bancárias pelo famigerado Plano Collor, Louro da Cruz retira todo seu money da poupança e compra a sede da AABB, onde hoje guarda a sua novíssima galinha dos Ovos de Ouro, o animadíssimo Trenzinho da Alegria. 
Ali, naquele valorizado prédio que é hoje a sua casa, Louro passou por uma das mais horríveis experiências humana. Devido a um aperto financeiro, entra em crise de depressão. Isolado, achando-se no abandono total, aprofunda-se cada vez mais numa imaginária toca. A ajuda de repente chega e o levam para Fortaleza em busca de cura. Na sala de um psiquiatra, subitamente dois seguranças o agarram e jogam no bojo de um horrível manicômio. Amarga o desespero dos desesperos, entre dementes de todas as espécies, mas o susto trás sua sanidade de volta e um dos guardas percebe que aquele paciente, de conversa equilibrada, não é louco, e faz tudo para tirá-lo daquela situação. (O cidadão Louro da cruz, com os olhos lagrimejando, disse-me: ”— Raimundo, hoje eu sei que só o inimigo é que nunca nos trai.” Ali, em sincera confissão, eu vi uma longa dor e uma grande mágoa escoarem da alma de um incansável e honrado trabalhador). Matutando seriamente no que me disse Juracy, lembrei-me de um velho amigo que nunca me traiu, meu inseparável silêncio.
Aproveito a ocasião e faço uma pergunta para matar uma curiosidade: — Juracy, o povo diz que você, quando não mais existir, deixará todo seu patrimônio para a Igreja, é verdade?
Solta um disfarçado sorriso que lhe escapole da face e me esclarece:
- Não, eu nunca disse isso, mas quando eu morrer pretendo deixar tudo que tenho numa organização para promover o bem-estar e a alegria das crianças pobres da minha cidade!
Despeço-me deste grande promotor da felicidade e antes que parta, ele ainda me diz:
 — Raimundo, eu sou candidato a vereador nessa eleição, pelo Partido Verde, e conto com seu voto!
Afirmo como seria bom termos um vereador daquela qualidade nos representando no legislativo municipal, ele que já faz muito pelo povo, fomentando alegria. E me vem à mente a criança sonhadora que ia à escola da dona Delite, mostrando agora uma serenidade de padre, mesmo sendo um animador de festas, de danças e de músicas. Sempre acreditei no significado dos nomes próprios que corroboram nossa existência, pois Juracy que dizer aquele que faz o bem e mesmo assim eu lhe acrescentaria um Duney, o Duende da alegria. Que a Consciência Eleitoral de Crateús te coloque sentando numa cadeira da câmara dos vereadores, Juracy Duney do Partido Verde, uma associação de duendes, propícia aos espíritos fortes, honestos e trabalhadores como convém ao Mago da Alegria, chamado Louro da Cruz.

Raimundo Candido

José Alberto de Souza disse...
Vê só ai o olho clínico deste extraordinário vate que tudo enxerga desde as mais diminutas proporções, resgatando do ostracismo, para seu merecido destaque, mais uma das figuras importantes da comunidade em que vive. Obrigado por compartilhar ao pé da pipa deste bom vinho!

Silas Falcão disse...
Poeta Raimundinho, que memórias você resgatou. A minha infância acompanhou o inicio da vida empresarial do Louro da Cruz, batizado Juracy Melo Nunes. A Rua da Cruz foi o palco dos shows que ele realizou a época da jovem guarda. Haroldo, jovem cabeludo com voz de rock, sobrinho do Louro, era um dos artistas que enlouquecia as adolescentes naquelas tardes de domingo. Inúmeras vezes segui os passos curtos da imagem baixa e gorda do Dr. Olavo boemando na Lanchonete Jovem Guarda. Era um empreendimento criativo para a época. A sua crônica revelou muitas realidades juracinianas que desconhecíamos. Sempre li nas atitudes do Louro da Cruz uma pessoa incansavelmente trabalhadora, criativa e sempre ousando. Varias festas dancei na então Boate do Louro da Cruz. Guardo dela a lembrança dos perfumes, abraços e amassos nas namoradas. O Louro da Cruz é memória superior nas histórias boemias de centenas dos cinquentões de hoje. Ele merece um reconhecimento digno, uma aprovação coletiva por tudo que realizou em mais de meio século de trabalho que muito contribuiu e contribui para a felicidade e os sorrisos dos crateuenses. E o momento é este: elegê-lo vereador.
Parabéns, poeta. Belíssima crônica. Já guardei nos meus arquivos.

Silas Falcão, membro da Academia de Letras de Crateús.

sábado, 7 de julho de 2012

PARABÉNS, CRATEÚS!


 Seis de julho. Aniversário de Crateús. Cento e oitenta anos...

Minha tarefa, hoje, é prazerosa e desafiadora! Ao invés de lapidar uma crônica, devo compor uma canção. Sim! Badalar o sino da aurora, entoar um hino de luz, concatenar as partituras de uma música de vida. Da mesma fonte em que brota a modesta prosa, há que germinar a genuína poesia. É festa. É o natalício da cidade!

Mas... O que cantar? Os paupérrimos lares que povoam as entradas da nossa zona urbana ou a beleza das mulheres que caminham como que desfilando sobre uma passarela? A sensação de amplidão que as nossas largas ruas despertam ou a comoção no peito que os pequenos mendigos de mãos estendidas provocam? A paisagem exuberante preservada na Serra das Almas ou o leito desfalecido do rio Poty?

Crateús, lâmpada referencial, que foste ‘orgulho do Ceará, terra da luz’, neste aniversário em particular, devemos ao mesmo tempo acender a vela da tristeza e repartir o bolo da alegria, pois sob a força da luz e a hesitação das trevas se forjou a nossa história.

Pulsante terra dos índios Karatius – comemoravam tudo e celebravam com regozijo todos os passos da linha histórica, desde nascimento à morte – que nos legou a compulsão festiva. A diversão está impregnada em nossa alma e deita raízes em nossos primórdios!

Bucólica fazenda Piranhas no século XVIII, quando os índios rareavam e a ganância se alastrava, ocasião em que foste abiscoitada por uma baiana descendente da Casa da Torre, Luiza Coelho da Rocha Passos, que assumiu o comando destas paragens e enviou um administrador, João Ribeiro Lima (posteriormente homenageado com o nome de uma rua no bairro Fátima I), construtor da capela que abrigou a imagem do nosso Padroeiro, Senhor do Bonfim, vinda da Bahia nos ombros de escravos.

Vila Príncipe Imperial, pertencente ao município de Marvão, estado do Piauí, que no dia 22 de outubro de 1880 protagonizou uma cena de nobreza e abnegação: a fim de que o Piauí tivesse acesso ao ilimitado espaço do mar, aceitaste que o teu limitado território passasse a pertencer ao Ceará.

Cidade de Crateús desde 1911, imperscrutável pátria de afeto, dolorida caldeira de desejos, espelhado cômodo de sonhos – foste capaz de portentosas atitudes de grandeza e gestos quase imperdoáveis de mesquinhez. Pelos trilhos da tua ferrovia, inaugurada em 1912, correu o trem como único transporte que levava e trazia os mantimentos essenciais para os corpos famintos e para os espíritos sedentos.

É claro que deves pedir perdão, senhora reverente, permanentemente ajoelhada ante o altar da Serra da Ibiapaba, por teus equívocos mais evidentes, como o percalço durante a passagem da Coluna Prestes, que, esperando a calorosa mão estendida da hospitalidade, recebeu o fogo ardente das balas, disparadas das torres da Catedral.

Impossível não relembrar, ‘Crateús, terra querida’, o provocado ataque de amnésia sofrido durante a ditadura Vargas, quando a ação criminosa de alguns soldados levou à fogueira documentos históricos da mais alta relevância, atas e livros importantes, gerando uma perda parcial da nossa memória.

Perdeste um pouco ‘do teu porte real de fidalguia, majestosa princesa do oeste’, quando aceitaste essa escura e quente vestimenta asfáltica, que encobriu a beleza do teu charmoso paralelepípedo e tornou atual a exclamação de Cícero na primeira Catilinária: O tempora! O mores! (Ó tempos! Ó costumes!). Se bem que a pedra da resistência permanece irremovível, impermeável e reluzente. E as águas da nossa principal artéria, a via liquida onde ‘a pequenina cidade surgiu um dia’, o rio Poty, nossa veia vital, envolto em lama, clama zelo pelo leito, reclama uma atitude de respeito.

Nestes 180 anos, despertemos para a imensa tarefa que nos convoca a dura realidade, de tornar melhor esta terra, para o bem de todos! Parabéns gerais!

(Júnior Bonfim)

terça-feira, 3 de julho de 2012

EXTREMOS

 


 Rogerlando Gomes

Há ali ilhas acorrentadas a múmias.
E zumbis ao que tine sobre mármore
Acordam: se é mais de si se merca o ouro
Vivo das ideias livres e não se vende
Ideologias que se nutrem de sangue
E crolofila. Melhor nutrir-se
Aí de lixo e viver que ser lixo
Que nutre carniceiros *melhor, sei,
Seria zerar o lixo, mas sem o
O que se tem não é gente, tem-se o bicho,
O único com valores que, se eleva
Preservação também desce à perversão.
Não, sem extremos não se estende mão.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Bacamarte Intrépido


Tornou-se um persistente hábito, ao passar em frente à Catedral do Senhor do Bonfim, olhar displicentemente para o lado esquerdo da Igreja da Matriz e enxergar um vistoso busto no meio da praça. Nós somos aquilo que fazemos, repetidamente, de um raro uso a um costume, do hábito ao vício, há muito sei disso. Mas ao vê-la, a singela praça, me sinto um simples ser metálico atraído por um poderoso imã. Apuro mais a vista e o busto de um poeta não mais vejo, mas enxergo ao longe, uma líquida resignação como um lago descansando no fim de tarde assombreada, sereno, sentado numa cadeira disposta na calçada, um monumento vivo. Convido-me e vou prosear com o longevo historiador Ferreirinha, um patrimônio cultural da cidade, assim, sorvo mais um pouco a Praça José Coriolano e desfaço minhas inquietações, lendo nas folhinhas amareladas de quem guardou na mente privilegiada o conhecimento, a sabedoria e as experiências obtidas no livro do tempo.
A praça foi um dos arrebatados assuntos de nossa conversa e com uma lembrança autêntica, ele me disse:
- Professor, quando o meu amigo e poeta Gerardo Melo Mourão esteve recebendo o título de cidadão crateuense na Câmara dos Vereadores, neste prédio aqui ao lado, ele olhou longamente para a praça e notei que o seu semblante mudou. Súbito, dirigiu-se aos políticos, ali presentes, demonstrando uma reflexiva decepção. Ergueu os braços, em desespero, rumo ao espaço e bradou firme: “Meu povo, cadê o José Coriolano!?”
Sempre que proseio assim, com os mais velhos, com meus olhos de sofreguidão, os meus ouvidos de aprendiz e um amplo desejo de revivência, saio com uma cidade antiga renovada no peito e a nova cordialmente amadurecida.
Ao chegar em casa, ainda ruminando o poeta Melo Mourão, que além de ter sido amigo de Pablo Neruda era também parente de José Coriolano e do “Coronel” José de Barros Mello, mais conhecido por “O Cascavel”, que morreu ao lado do seu intrépido bacamarte, passo direto para os livros da estante, e estão todos lá: O País dos Mourões, Peripécia de Geraldo, Rastro de Apolo e A invenção do Mar, todos do poeta Gerardo que passara parte da infância em Crateús, guardando na pueril memória a violenta beleza dos rifles papo-amarelo, nas últimas estripulias sangrentas de um clã, o tropel dos cangaceiros e a aventura da coluna Miguel – Prestes, quando sob as chuvas de balas, recolhia com sua mãe, os revolucionários mortos na calçada. No País dos Mourões delicio-me, mentalmente: “Apalpa, meu amor, meu rosto apalpa, / não tombei: / sou eu. / Como venho dos mortos nem eu sei, / mas sei que na partilha me tocou / a herança de sobreviver.”
Obrigo-me a reler outros trechos, de mais três livros, ali ao alcance da mão: Meus Avós de Raimundo Raul Correia, Geneagrafia dos Melos de Irismar de Melo Torres e o esclarecedor Bacamarte dos Mourões de Nertan Macêdo, que foi um dos ocupantes da cadeira Nº 7 da Academia Cearense de Letras, cujo patrono é Clovis Bevilaqua.
Sinto um avermelhado cheiro de sangue, saído daquelas páginas amarelas, a saturar minhas narinas alérgicas. No começo do Século XIX, quando as cidades ainda surgiam ao redor das fábricas fervilhando de trabalhadores, nos sertões de Crateús ebulia o ímpeto guerreiro dos Melos Mourões e no inclemente agreste dos Inhamuns, se excitavam impacientes por lutas, os Feitosas.  Constituíam um único clã familiar que se disseminou por boa parte do Ceará e Piauí, formando o país dos Mourões. Povoaram uma imensidão, todos denodadamente valentes e violentos, todos intrépidos, lavrando a terra, criando gado, matando e morrendo, em lutas que se tornaram memoráveis. Alexandre da Silva Mourão (IV), num dia de inclemente sol, subiu a Serra dos Tucuns no meio de 200 praças para abafar a Balaiada, a primeira revolta genuína, uma façanha de pobres contra os ricos, no estado do maranhão.
No livro, Meus Avós, leio: 1847 a 1851 – enfrentam-se Mourões e Melos nos sertões de Crateús. Estas famílias se uniam e depois se intrigavam. O destemido Alexandre Mourão, um homenzarrão habituado a rijeza do sertão, de quem emanava uma crueldade pelos olhos azuis,  foi perseguido implacavelmente com sanha e fúria, pelo Pe. Martiniano de Alencar, pai de José de Alencar.  Alexandre bateu pernas, em desesperada fuga, pelo sertão a semear Mourões nas raparigas em cio, ao som dos trovejantes bacamartes e dos famigerados papo-amarelo, dando murro em ponta da faca, como ele dizia, fugindo do padre benze-cacête, o mão-de-ferro, o filho da primeira mulher heroína do Brasil, Bárbara de Alencar, que ousou proclamar a República do Crato, no Ceará.
Numa época agitada e impetuosa, repleta de falsas patentes de coronéis e tenentes, compradas por fazendeiros e pistoleiros, um caso curioso foi o assassinato do Pe. Inácio Ribeiro de Melo. Na comarca Príncipe Imperial (no Piauí) onde duas famílias se revezavam no poder, uma chefiada pelo Padre colado (nomeado) da Freguesia do Senhor do Bonfim, Francisco Ferreira Santiago, do Partido Conservador (Os Muquecas) e a outra era do Partido Liberal, Os Melos, liderados pelo Pe. Inácio, homem inteligente e destemido. Viviam em constantes lutas mortais, por vinganças pessoais e prestações de contas. O Cascavel, irmão do Pe. Inácio, pistoleiro audacioso e turbulento, atacava a ferro e fogo, sem dar folga aos adversários.
Após as eleições gerais, em 1849, os Muquecas contra-atacam visando exterminar o malévolo Mourão, que escapa alertado pelo estrondo de um espalhafatoso bacamarte boca de sino, pois o disparo, num tiro frande carregado com grosso chumbo e pregos, errara o alvo. Mas para um verdadeiro Mourão, vingança não é prato que se come frio. O revide acontece no povoado de Pelo Sinal (cidade de Independência), José de Barros aniquila um subdelegado, um capitão e o sobrinho do Vigário adversário. Uma das testemunhas, assim disse: O Cascavel trajava uma sobrecasaca parda, chapéu de couro na cabeça, com um brilhante clavinote na mão e ainda deu uma descarga em frente a igreja, com vivas à Senhora de Santana.
No poder na Vila Príncipe Imperial, os Muquecas, controlam até a justiça. Instauram um processo contra os autores do crime de Pelo Sinal, incluindo Pe. Inácio, para liquidá-lo politicamente. Para escapar da emboscada, intencionalmente armado pelos Muquecas, o padre viaja para a província da Paraíba, a procura do Juiz de Direito de Piacó (lugar onde tombou o corpo do bandeirante/sertanista Domingos Jorge Velho, um grande aniquilador de índios, me confirma o padre historiador Geraldinho), que vinha dar um jeito na anarquia dominante, na região. Munidos de uma precatória para efeito de prisão, os inimigos do Pe. Inácio, saem determinados e respirando ódio e sangue, em sua perseguição e o alcançam em Pedregulho, a meia légua de Souza, na Paraíba.
Quando é para ser até os ventos contrários perdem as forças, e no enfadonho cansaço os viajantes consentem um descanso à sombra de frondosas oiticicas convidativas, na margem de um riacho. Esquecera o padre que a hora do sim é o descuido do não. A comitiva os alcança.
Os assassinatos foram com requinte de muita perversidade humana, que se pode ler com os mínimos detalhes, na página 100 do livro do Centenário de Crateús, um artigo do acadêmico historiador Flávio Machado. Só escapou daquele horroroso e cruel morticínio um menor, de nome José, sobrinho bastardo do Pe. Inácio e filho legítimo do famigerado Cascavel.
A comemoração da chacina foi com um memorável banquete, na casa do Pe. Muqueca, Francisco Ferreira Santiago, que deve ter sido celebrada assim: Tiveste sede de sangue, eu de sangue te encho! Como uma conclusão para um clã que horrorizou uma longa época nos sertões de Crateús, e para que saibam que, de todas as lutas do patriarca Alexandre, ele perdeu todos os filhos e o próprio velho caiu assassinado, tendo o direito de, agora, descansar em paz.
Foi uma época que, em Crateús, se fazia política sem promessas, sem discursos, sem festas populares, ela era feita no sangue e ferro e, por incrível que pareça, por homens de fé.
Alguém uma vez me disse que: “Não há uma ideia nascida do espírito humano que não tenha feito correr sangue sobre a Terra.” Meu Deus!
Para encerra essa (in)conveniente e sanguinolenta crônica, só faço uma perguntinha: Se toda história nos traz lições que devem ser copiadas ou um passado que não deve e não pode ser repetido, como o horrível holocausto dos judeus, por que a nossa história, mesmo ensanguentada, não estão nos livros didáticos de nossas crianças?

Raimundo Candido
José Alberto se Souza disse...
Conversando a gente se entende e você vai beber na fonte do "longevo historiador Ferreirinha... o conhecimento, a sabedoria e as experiências obtidas no livro do tempo". Arrependo-me de não ter usufruido e minorado a solidão de muitos idosos que lá estavam à espera de alguém para contar suas histórias e hoje quando os procuro não os encontro e passo a ser aquele procurado ainda vivo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O precioso Matos


Um dia Matos, foi ao meu consultório. Mais do que queixumes, dele brotava enternecimento. Palavras doces. Saudades brandas de nossa terra. Incentivo e mesuras para com todos. Prudente sem ser dúbio. Silente, sem ser ausente. Em 1987, estivemos juntos nas festas do cinquentenário sacerdotal de Mons. Moraes. As luzes cintilantes, nãoofuscavam o seu manso olhar. A mesma sinceridade. Depois fui vê-lo no seu apartamento de Fortaleza, com complicações da Diabetes Mellitus. O mesmo. Depois quando  se aposentou, nunca mais me procurou. O via furtivamente em alguns acontecimentos. Recolhido nas suas casas de campo, dedicava-se febrilmente ao seu querido lar. Na antiga Grécia, Diógenes (Sinope412 A.C.-323A.C.) usava uma lanterna para procurar a decência nos homens.Raquel de Queiroz(1910-2003) fala de uma réstia de luz, vindo de uma telha de vidro. Jesus foi pescar nas praias da Galileia, os seus apóstolos. Michelangelo ia a Carrara procurar pedra bruta, para fazer brotar os seus milagres eternos.Esculpindo e cinzelando, dava vida a Pieta, David e Moisés, da Igreja de São Pedro das cadeias(S. Pietro in Vincoli) Nos garimpos, um árduo trabalho  para achar uma pepita de ouro. Nas abissais profundezas do mar, as pérolas se escondem. Mas Francisco Matos Melo era esta pedra preciosa rutilante. Bem próximo a nós. Fruindo   a luz do sol, como se o amanhã nunca se findasse. Dos pequenos frascos surgem as melhores essências. A pequenina Ibiapaba, nos doou esta joia burilada, esmerada e perfeita. Ver o Matos, parecia uma prece. Um salmo. Uma absolvição da nossa pequenez, diante de um ser humano tão maior. Ao vê-lo nos seus momentos finais com o seu cérebro afogado em sangue, vi que Deus foi bom para uma criatura que era um oceano de bondade. Deus tinha que tira-lo desta maneira, com Stroke. Stroke é uma palavra inglesa para AVC. Stroke traduz-se por corte. Decepar. Amputar. Uma noite bela e lírica somente se apagaria de uma maneira abrupta. Um jarro de alabastro nãose quebra. Matos diante do seu inconfundível brilho, não suportaria o sombrio fenecer dos hospitais. Tinha de ser sacado. Matos é o servo bom e fiel, de misericórdia de gestos de bondade e de leveza. Como reza Eclo 44, 1. Uma joia não se quebra. Se doa. Se leva. Deus levou-a de nós. Não poderia ir-se aos pedaços, tinha que ser por inteiro. Pleno.


Jose Maria Bonfim de Moraes- medico cardiologista.

João Silas Soares Falcão disse...
José Maria, a morte é uma amputação. Também do convívio físico. Conheci e olhei inúmeras vezes para a bondade e a ternura do Matos. Namorei uma sobrinha dele, a Bernadete. Ela morava no Rio de Janeiro. Em férias em Crateús, hospedava seu belo sorriso na residência do Matos. Pois bem. Foi numa dessas visitas de namora a bela morena Bernadete que a minha admiração pelo Matos rompeu fronteiras. Eu olhava com intensidade para a sua bondade. Para sua presença humana diante das pessoas. Para o seu respeito ao próximo. Matos sempre foi um digno. Uma alvura de caráter. No carnaval de 1976, estávamos na casa dele gemendo ressaca da primeira noite de carnaval. Silencioso, manso em seus passos, Matos saiu. Minutos passados, a sua mão afagante retornava abastecida de engove e ouros santos remédios exterminadores da ressaca pesada. O tempo passou. Matos traz o seu coração bondoso para morar em Fortaleza. Nunca mais nos reencontramos. Sempre o recordava e a sua simpaticíssima esposa. Sempre desejei o dia encontrá-lo. Não aconteceu. Infelizmente.

CONVITE: LANÇAMENTO LIVRO FLÁVIO MACHADO

Flávio Machado e Silva, escritor, historiador crateuense, membro da Academia de Letras de Crateús, lança CRATEUS, LEMBRANÇAS QUE MARCARAM A HISTÓRIA. Noite de autógrafos ocorrerá no CEJA Professor Luiz Bezerra de Crateús, no dia 21 de julho próximo. Sintam-se convidados todos que gostam de livros, apreciam uma boa leitura e amam a cultura. Sejam todos muito bem vindos.

terça-feira, 26 de junho de 2012

PITACOS SOBRE A CIDADE



Amanheci com vontade de dar pitacos. Diversamente do que muitos possam imaginar, pitaco não é um palpite sem fundamento. É uma opinião. Em se tratando da coisa pública, ou sobre os rumos de uma cidade, a opinião pode ser emitida independente de solicitação.

Obviamente, estou pensando em uma urbe específica, mas pode servir para outras.

Dirijo estas palavras aos que se lançam à nobre tarefa de interpretar sonhos: os candidatos. Sim, candidato a cargo eletivo, representante do povo, líder popular não é senão um intérprete de sonhos, dos sonhos da coletividade.

Enquanto escrevo me vem à mente um personagem bíblico do Antigo Testamento: José, o filho de Jacó e Raquel, que ficou para a posteridade como José do Egito. Certamente um emblema em se tratando de revelação da essência daquilo que é só aparência.

Uma noite, o Faraó sonhou. Naquele transe onírico viu que sete vacas magras comiam sete vacas gordas e mesmo assim continuavam magras. Em busca de uma explicação, convocou todos os sacerdotes do Egito. Nenhum conseguiu. Apenas José, que estava preso, ofereceu uma interpretação convincente ao Faraó: o Egito passaria por sete anos de fartura e sete anos de seca, consecutivos.

Empolgado com a sua desenvoltura, o Faraó presenteia José com um anel de seu próprio dedo e o nomeia Adon do Egito, um cargo de expressão, tipo chanceler ou governador.

José, então, ordena que se construam celeiros para guardar a produção do Egito durante os anos de fartura. Nos sete anos de seca, José passou a vender os cereais dos celeiros reais a preço de ouro e conseguiu comprar para o Faraó quase a totalidade das terras do Alto Egito. O nome José significa “aquele que acrescenta”.

Bem representa os seus concidadãos aquele que, além de interpretar os signos das aspirações populares, se lhes acrescenta alguma coisa. E age. Semeia. Planta. Cuida. Colhe. E reparte. Como lembra Thiago de Mello, “é sonhar, mas cavalgando/ o sonho e inventando o chão/ para o sonho florescer”.

A primeira tarefa de um líder, preferencialmente um prefeito, é despertar a coletividade do seu município para a alteração cultural. Mudar a forma de raciocínio, transformar os nossos esquemas mentais. Libertarmo-nos dos grilhões que acorrentam a massa encefálica. A diferença que separa um município pobre de um rico, ou um estado ou um país, não é a idade, muito menos a quantidade de recursos naturais. A Índia é um país milenar e possui uma pobreza vultosa e aviltante. A Nova Zelândia é novíssima. E riquíssima também. A Suíça não produz um grão de cacau, mas vende o melhor chocolate do mundo.

Estudiosos revelam: a fronteira que separa países ricos e pobres se resume à observância de algumas formas de conduta essenciais: 1. A ética como principio básico. 2. A integridade. 3. A responsabilidade. 4. O respeito às leis. 5. O respeito pelos direitos dos demais cidadãos. 6. O amor pelo trabalho. 7. O esforço para economizar e investir. 8. O desejo de superar. 9. A pontualidade.

A ética pode ser resumida em tratarmos os outros como desejamos ser tratados. Para isso, basta nos colocarmos no lugar do outro. Será que eu gostaria de ser tratado como estou tratando um servidor, um contribuinte, um cidadão comum? Estou sendo íntegro, responsável, respeitador das leis e dos direitos alheios?

Valorizo o amor ao trabalho ou premio apenas o meu grupo independente do mérito dos que o compõem? Combato a mendicância e o clientelismo? Priorizo projetos que incentivam a independência financeira? Ao invés de festejar a quantidade de pessoas recebendo bolsa-família, deveríamos comemorar sua diminuição. Quanto mais pessoas deixassem os programas de transferência de renda e adquirissem sua própria renda por meio de empreendimentos montados e gerenciados por elas, melhor. (Outro dia um amigo me perguntou: - Você já viu um japonês pedindo esmola?Não, respondi. Ele completou: - Pois é porque eles desenvolveram a cultura do trabalho, essencial para o progresso.)

Se uma Prefeitura deliberar para gastar menos do que arrecada e for pontual no cumprimento dos compromissos já eliminará mais da metade dos seus problemas. O resto se resolve com o firme propósito da permanente superação.

Entendo que a campanha política é o espaço para se divulgar ideias; não intrigas. Planejar o futuro; não propagar futricas. Dissecar projetos; não denegrir pessoas. Sonho com isso. E esse sonho, convenhamos, de tão nítido dispensa interpretações.
Júnior Bonfim