sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Os Sapateiros


O poeta Pablo Neruda não exagerou no lírico romantismo quando declamou para a amada: “Quando não posso contemplar teu rosto contemplo teus pés... Amo teus pés só porque andam sobre a terra, sobre o vento e sobre a água até me encontrarem” A queridinha do autor de “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” devia ter um bom par de mocassins, e de couro de búfalo, para poder andar com destreza sobre esses elementos naturais. Os inspirados poetas bem sabem que elas, as amadas exigentes, dão mais valor a uma coleção de pares de sapatos do que uma boa composição de devaneio amoroso. Para serem realmente eficientes, os versos de hoje, devem vir acompanhados de uma vistosa caixa de sapatos!
Desde que o homem pré-histórico aprendeu a arte de curtir o couro, raspando a carne, a gordura e os pelos, para não apodrecer, que surgiram os primeiros sapatos. O Faraó Tutancâmon andava, elegante, com uma sandália de couro toda ornada de ouro. Na Antiga Roma, os Cônsules desfilavam com sapatos brancos, os Senadores com uns marrons com tiras entrançadas até a batata da perna e Legionários usavam botas de cano curto, com os dedos a descobertos. A manufatura industrial só surgiu na Inglaterra, e por necessidade dos exércitos que iam às guerras.
A novidade do ramo calçadista, na cidade de Cratheús, acontecia na Sapataria União do Senhor Edmundo Pinto. As caixas brancas de sapatos, que vinham de Sobral pelo Trem “Maria Fumaça”, ficavam nas prateleiras das duas paredes laterais e logo se esgotavam, mas um modelo novo era reproduzido pelos sapateiros que ficavam no fundo da loja, para atender aos inúmeros clientes: o Chico Rodão, o Luiz Potássio, um cabra bom de bola, o Fenelon e o esperto Cerinha, que além de sapateiro era cobrador de aluguel das casas do comerciante Norberto Ferreira. Além disso, Cerinha ganhou o apelido de “O Meia-Noite” por rondar as escuras esquinas da cidade, sempre nas horas tardias, curiando as atividades dos cálidos casais de namorados.
O município, com uma pecuária razoável, se desenvolveu pelo Ciclo do Couro e deste material fabricava-se quase tudo que era necessário para a sobrevivência do sertanejo. Os rapazes aprendiam a arte de celeiro e, também, de sapateiro transformando a pele curtida do gado em gibões, celas, cordas, canecos de sola e em chinelas de currulepe. Era uma tradição, de pai para filho, que só era interrompida pela chegada das secas intensas, que dizimavam os rebanhos. Era quando os jovens migravam, nas estradas já marcadas pelos seus antepassados, rumo à ilusão de São Paulo ou nas trilhas dos soldados da borracha, para um desconhecido Amazonas.
A Dona Marica, esposa do rico Cel. Chico Leite, das Queimadas de Novo Oriente, tinha chegado da banda do Norte e estava precisando de um chinelo novo, as alpargatas que tinha nos pés estavam gastas e remendadas. Aproveitou a presença do Senhor João Claudino da Silva, que estava a trabalhar no alpendre de sua casa, e perguntou:
- Seu João, o senhor sabe fazer chinelo de couro?
- Sei sim, Dona Marica. Vou fazer o seu chinelo, é só terminar o serviço desta empreita com o Dr. Chico Leite, aqui no alpendre.
O artesão João Claudino tirou as medidas do pé de Dona Marica, 34/35, riscou o couro curtido, desenhando o molde do pé com uma “costa” de madeira, cortou com uma faquinha bem amolada, fez o cabresto com uma tira de couro bem mais fina, bateu as pontas das tachinhas e desenhou no rosto umas figuras que aprendera com seu velho pai, nos tempos de outrora.
- Está pronto Dona Marica. Aqui está seu par de chinelos.
A senhora põe os calçados nos pés e fica admiranda com a obra de arte.
- Corre aqui, Chiquinho, vem ver que coisa interessante é esse chinelo que Seu João fez para mim! Olhe como esses desenhos são iguaizinhos àqueles que o Seu Vicente Manco fazia, lá em Manaus!
- Pois num é, Marica. É o mesmo tipo de chinelo, até parece do mesmo molde!
O Senhor João Claudino atento àquelas observações, arregalou bem os olhos, demonstrando um evidente contentamento no rosto.
- Meus amigos, me digam uma coisa, como é mesmo a aparência deste tal Vicente Manco, de quem vocês falam?
- Ele até parece muito com você, Seu João! Respondeu a esposa do Cel. Chico Leite.
- Pois esse sapateiro é meu irmão, dona Marica. A voz alta demonstrava uma alegria incontida.    - É o meu irmão Vicente Claudino, sim, que foi embora para o Norte fugindo da seca e da fome que por aqui dizimou quase tudo. Eu vi quando ele caiu de um burro e ficou mancando de uma perna. E nós aprendemos a fazer chinelas e a trabalhar com couro com o nosso pai. Aprendemos tudo direitinho como ele nós ensinou.
As lágrimas já escorriam pelo rosto de João Claudino que não suportara tamanha satisfação, tão grande coincidência. Achava que seu irmão, que há décadas não mandava notícias, desde a época que arribara para os perigos de uma Amazônia desconhecida, estava morto. Imaginava que tinha sido devorado pelos animais, que fora abatido pelas flechas dos índios selvagens.
- Seu João, agora o senhor pode se comunicar com ele. Nós temos o endereço de uma bodega, de onde comprávamos mantimentos, e seu irmão também se abastecia por lá.
E o contato entre os irmãos Claudinos foi refeito, como que pelo cabresto de um chinelo ligando Cratheús ao distante coração da Amazônia, a histórica cidade de Manaus!
O conhecido alerta “Sapateiro não vá além de tuas sandálias!” uma vez transposto pelo Vicente Manco, quando, expulso pela fome, rumara em busca de sobrevivência no distante Amazonas, até lembra a história dos irmãos sapateiros Crispim e Crispiniano, que, mesmo separados pelo Império Romano sempre acabavam juntos, até depois de decapitados.
As coisas de Deus são perfeitas. Com uma simples sandália nos pés, é suficiente uma longa marchinha para nos perdermos, e isso após a dolorosa tristeza das despedidas e basta mais uns poucos passos, adiante, para nos abraçarmos na alegria dos reencontros. E, depois da coincidência dos irmãos sapateiros, encontrarem-se de novo, em pleno sertão de Novo Oriente, através de um providente par de chinelas de currulepe, o velho lema de alerta mudou, e é assim que se deve dizê-lo agora: “Sapateiro, algumas vezes, é necessário que se vá muito além dos nossos sapatos!”


Raimundo Cândido

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Manelinho, o Caminhoneiro



Existe uma antiga versão de que os caminhoneiros eram pessoas desatinadas, que passavam dias perambulando pelos caminhos, num vai e vem sem rumo, num vem e vai sem norte acompanhando as velhas carroças que passavam. Esses caminhantes emprestaram o apelido aos primeiros motoristas de caminhão. Desde que surgiu, e se aperfeiçoou, após a 1ª Guerra Mundial, o caminhão tem encantado e atraído jovens para a dura profissão, atividade nada fácil que deu motivo à série de TV: Carga Pesada. O oficio é tão pesado que precisa de um Santo para protegê-lo. Um hercúleo, agigantado, que atravessava as pessoas num rio perigoso. Um dia, transpunha certo menino e sentia que, a cada passo que dava, o mesmo ficava mais pesado. Ao acabar a travessia, exclamou: - Parece que acabo de atravessar o peso do mundo! Ao que o menino confirmou: - Sim, você acaba de atravessar o Criador e Redentor do Mundo! Era São Cristóvão, “aquele que carrega Cristo”, que agora ajuda aos motoristas de caminhão em suas missões, contra o transitório tempo, com seus fretes pesados.
Em Cratheús, na primeira metade do século XX, os caminhões foram chegando, devagarzinho, com uma manivela como motor de arranque. Eram os carros da Empresa Flanklin (Ceará Transporte) que em cada para-choque se estampava um nome particular: Leão do Norte, Cidade Maravilhosa ou o Campeão do Nordeste.
O jovem Manoel de Sousa Melo foi seduzido pela profissão de caminhoneiro e bem cedo. Ao retornar, com o pai, de uma viagem ao Piauí, Manelinho tira a carteira de motorista e passa a trabalhar para os comerciantes crateuenses que tinham caminhões: O Sr. Raimundo Resende, Sr. Antônio Bezerra do Nascimento e na Empresa Moreira & Camerino de Zequinha Moreira e José de Oliveira Camerino, levando oiticica e mamona para os armazéns da Brasil Oiticica e da CIDAL, em Fortaleza.
Ganha tanta fama como bom motorista que foi escolhido, em 1953, para conduzir o carro andor que transportou a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, do velho campo de aviação até a Igreja da Matriz. Seguiam, ao jipe de Manelinho, uma multidão de carros, de motocicletas, bicicletas e de pedestres. Houve uma revoada de pássaros e um intenso foguetório até o momento em que avisaram que a imagem passaria pouquíssimo tempo na cidade, fato que revoltou o povo e as autoridades presentes exigiram um pernoite de N. Senhora. Foi uma festa apoteótica, essa que “prendeu” a Santa!
Manelinho já possuía o próprio caminhão quando Juscelino Kubistchek decidiu construir Brasília. O imenso canteiro de obras necessitava de trabalhadores, urgentemente. Nas várias viagens que realizou no caminhão adaptado, o Pau-de-Arara, Manelinho levava 60 futuros construtores da nova capital, com suas latas de farofa, algumas rapaduras como alimento nos fatigados dias do longo percurso, para chegar ao formigamento de máquinas e gente, com o Presidente Nonô caminhando entre os candangos.
O caminhãozinho trabalhou tanto, mas tanto, rumo à Brasília, que depois só serviu para transportar água do Açude do Governo, na malvada seca de 1958. Cratheús não tinha água encanada, e o agora carro-pipa de Manelinho enchia o tanque de refrigeração do Motor da Luz, no barrocão, aos cuidados do Sr. José Benoni e também completava a velha caixa do Posto Esso. Por toda a Rua Cel. Giló ele ia parando e quatro homens, com duas latas nas mãos, vendiam uma água “boa danada” nas casas para, por fim, no final da rua, encher o pipa de madeira do Irismar, com dois mil litros, onde o mesmo colocava uma lata de álcool puro e batizava com  umas bisnagas de Jofrina, para aumentar a acidez  e disfarçar um gosto aguado. Os biriteiros engoliam o venenoso, em sequiosos tragos, e diziam: - Oh, Lagoa do Barro boa!
A viagem, que o caminhoneiro recorda com certo carinho, foi de quando foi buscar o 1º Bispo que havia sido nomeado por Roma, para Cratheús, Dom Fragoso, na cidade de Senador Pompeu, onde o sacerdote já aguardava, com sua família.  Era um domingo bem claro, o 9 de agosto de 1964.
O Pe. Bonfim insistiu, o motorista tinha que ser o senhor Manelinho: - Eu só confio nele, que dirige com muito cuidado e bem devagarzinho!
Foram duas “Rurais” cedidas por José Cardoso Rosa e Manoel Sales Filho. Acompanhou, também, a comitiva o irmão do Pe. Bonfim, o Senhor Raimundo Moreira do Bonfim.
Uma comissão do 4º BEC foi recepcioná-lo na cidade de Independência. Nunca se viu festa maior na região, o piloto José Rosa Filho soltava flores de um avião sobre a Rural conduzida por Manelinho.  Foi um cortejo pomposo até a Praça da Matriz. E o povo só não imaginava que, o Bispo que chegava, era um cidadão mais ligado às causas sociais do que as pompas que lhes preparavam a sociedade crateuense e que iria enfrentar, de peito aberto, uma terrível e covarde fera chamada Ditadura Militar.
De todos os eventos históricos em que o motorista Manelinho participou, o que mais abateu a sua serenidade característica, foi a notícia do assassinato de seu sogro na cidade de Ipaporanga, em 1988.  Na madrugada, batem à porta do candidato a prefeito Gonçalinho de Paula, era alguém necessitando de ajuda para levar uma mulher, que estava em serviço de parto, para o hospital, coisas que ele não sabia negar. Um crime premeditado pela oposição desesperada por saber perdida a eleição. E o corpo de Seu Gonçalinho fica estendido no chão da calçada por uma bala traiçoeira. O trajeto entre Crateús e a antiga Águas Bela, que ele sempre fazia com muita alegria, na companhia da esposa Luzanira, foi feito com um pesar imenso, que nem São Cristovão, o seu protetor, poderia suportar.
Hoje, quando passamos à tardinha pela Rua Carlos Rolim 236, vemos Seu Manelinho, e a esposa, sentados nas cadeiras sobre a calçada, e temos a impressão que um caminhoneiro guia seu velho caminhão, rumo a um destino que ele sabe o caminho de cor, mas percebemos que, como Monsenhor Bonfim predizia, não há a mínima pressa de chegar.


Raimundo Cândido

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Crateús - Um berço de Talentos



CRATEÚS - UM BERÇO DE TALENTOS



                        a Cidade de Crateús-Ce., destaca-se primorosamente como um grande berço de talentos em matéria das artes plásticas e   esculturas e xilogravuras. Nessa ótica podemos destacar o Mestre Joviniano – Mestre da Cultura -  com uma vasta obra em escultura de santos em madeira.  João Batista, Rosa Moraes, Almeidinha, Miguel de Paula, Guido Dàrezzo, Hilda Cristina, dentre outros, também  fazem parte deste seleto e privilegiado grupo. No ano passado, na casa da minha mãe, tive o privilégio de conhecer um outro grande artista crateuense nessa área. Trata-se de Raimundo Soares de Sousa – Raimundo Alcanfor – na sua carteira de artista no PRODAST – Programa de Desenvolvimento do Artesanato Piauiense. Nascido no dia 19 de setembro de   1973, filho de Raimundo Soares Leitão e de D. Sebastiana Sobrinho de Sousa, Alcanfor, segundo ele “inspirou-se na obra de Aleijadinho ao ver suas belíssimas peças estampadas em uma edição da extinta revista O Cruzeiro” e passou a moldar peças em argila colhida próximo a feira livre, sob o olhar atento e seguindo as orientações de seu tio Emidio Alcanfor, que trabalhava com esculturas em bronze. Raimundo foi aluno e discípulo da Professora D. Rosa Moraes, com quem aprendeu a dar os primeiros traços na pintura em tela, rabiscar desenhos, restaurar peças além de receber dela o cognome ALCANFOR. Em março de 1993, mudou-se para Teresina, capital do Piauí, onde conheceu o artista Piauiense Nonato Oliveira, com quem desenvolveu seus conhecimentos e habilidades e aprendeu a trabalhar com fibras de vidro e a talhar madeira, o que fez com que várias portas lhes fossem abertas. Mesmo com muitos compromissos profissionais na capital piauiense, Alcanfor  tem se deslocado para Crateús desde o ano passado, segundo ele “para honrar um antigo compromisso com seu amigo Albino Costa” -  na época em que juntos, sob às orientações de D. Ritinha fizeram a Crisma - que seria esculpir uma nova imagem do Sr. Do Bonfim para a Igreja Matriz. Portanto, compromisso assumido, compromisso cumprido. Numa oficina improvisada na Rua Carlos Rolim, 203, Alcanfor,  juntamente com Albino e os discípulos Leonardo e Bruno, concluíram a obra, a nova imagem do Sr. Do Bonfim, esculpida em madeira. Não satisfeitos ainda, Restauraram a antiga imagem do Sr. Do Bonfim, esculpiram o São Tarcísio em madeira para o Grupo de Acólitos, e que  vai ficar também na Igreja Matriz e restauraram a imagem de São Sebastião. O talento de ALCANFOR é bastante diversificado: pinturas e esculturas em argila, cimento, pedra, vidro, ferro, metal, madeira, pintura em tela, além de restauração em peças de madeira e louças antigas. Há mais de 15 anos ALCANFOR presta serviço profissionais e de alta qualidade aos irmãos Ferraz, colecionadores de artes em Teresina. Contratado a mais de três anos pela Sra. Dilma Ferraz, teve que estudar marchetaria - técnica medieval - para trabalhar, juntamente com sua equipe,  a decoração do seu apartamento. Suas obras em Crateús, além dessas são: o painel com o Soldado Sentinela, em cimento, em frente ao 40º BI, feito no ano de 2.000, na época do Cel. Amaral e uma NINFA, na piscina da casa da Nádia Melo, também em cimento. Os devotos e a população crateuense agradecem a esse conterrâneo que muito nos honra e orgulha.

Francisco Aldo



Academia de Letras de Crateús
CNPJ - 11.881.060/0001-87


                                     EDITAL DE SELEÇÃO





A Academia de Letras de Crateús (ALC), de acordo com o art. 6º de seu Estatuto, declara, por intermédio de sua Diretoria, vagas as cadeiras de números 31 até a de número 40. O preenchimento destas 10(dez) vagas visa completar o quadro dos 40 membros efetivos da sociedade literária crateuense.
O interessado, na admissão de uma vaga, deverá num prazo de 30 dias a partir da data de publicação deste edital, 13 de Janeiro de 2015, apresentar exemplar(es) de sua(s) obra(s) literária(s), publicada(s) ou não, e um pequeno currículo, das 8 às 11 horas da manhã, de segunda à sábado, na sede da Academia de Letras de Crateús, Rua Francisco Sá  S/N, Praça Gentil Cardoso no Prédio da Estação Ferroviária (Praça da Estação).
Os candidatos apresentados passarão pelo visto da Comissão Permanente de Análises de Candidatos e aprovados em Assembleia Geral. O resultado, com a lista dos respectivos aprovados, será divulgado num prazo de até 40 (Quarenta) dias, após o parecer favorável da Comissão de Análise.
Aguardamos sua participação.



   Crateús, 13 de Janeiro de 2015




                Raimundo Cândido T. Filho                                        Flavio Machado e Silva

                              Presidente                                                                    Vice-presidente

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Quilombo


                                                                (À Rua Calabar­)

Se foi herói ou traidor,
não sei, não me importa!
Interessa-me o povo
que vive na Rua Calabar,
em Santo Antônio de Jesus!
O Calabar é uma rosa negra,
avermelhada de sangue,
estampada no asfalto.
Param na porta da baiana Dona Maria,
e a reverenciam:
- Bom dia, minha Preta Veia!
É o respeito mútuo de um povo sofrido!
Traídos? Sim!
Desde que acorrentados
nos tumbeiros infectos,
desde a dádiva da ilusória liberdade,
que lágrimas vêm vazando dos olhos,
e o escuro brilho honra a pele da raça.
Aqui, ali, acolá um desgarrado
lembra os velhos Quilombos:
um Canga Zumba, um Zumbi dos Palmares
com o cassetete da polícia
queimando nos lombos.
Subsistem os que aprenderam
a alegria, o labor e o lundu das mães pretas
e desfilam com glória no chão enfadonho
da Rua Calabar, como numa nova senzala,
de um Brasil Negro ainda pregado na cruz!


Raimundo Cândido

sábado, 27 de dezembro de 2014

A Cachoeira da Fumaça

                                        

Da cachoeira da Lembrada, na Floresta Pétrea do Cânion do Rio Poti, vertia um filete tão reduzido, mas tão minguado que me fez imaginar de como seria o espetáculo daquela queda d’água com o Rio dos Camarões em seus dias de grandes cheias. Não foi bem uma decepção, pois fiquei extasiado com a visão dos colossais paredões de 60 metros de altura, numa gigantesca garganta que há milhares de anos vem sendo esculpida em rochas graníticas. E, meio desapontado, fiz uma promessa ao meu eu aventureiro: “Iria conhecer a maior cachoeira do Brasil na Chapada Diamantina, a grandiosa Fumaça, tão logo tivesse uma oportunidade.” Seria uma espécie compensação pela desilusão sofrida.
Quando falei deste compromisso para minha companheira de aventuras e vida, os seus olhos brilharam numa conclusão decisiva: “- A nossa ventura é controlada pelas circunstâncias, e não vamos deixar passar essa oportunidade. Vamos à Bahia, sim!” Penso que ela já tinha tramado a promessa e bem antes de mim. Esperta, essa Isabelle Saraiva!
 Partimos! Mal chegávamos à rodoviária de Santo Antônio de Jesus, na Bahia, soube que tinha que ir primeiro para a cidade de Itaberaba, a 153 km de distância, e de lá percorrer mais 142 km até chegar à turística cidade de Lençóis, o portal de entrada para o Parque Nacional da Chapada Diamantina. Eu pensei que seria tudo mais fácil!  A vendedora de passagens foi logo me avisando: - O último ônibus da Viação Camurujipe, para Itaberaba, parte agora! Quis desistir, mas um impulso fez com que entrasse no ônibus. Na viagem, eu tive a impressão de ter embarcado no poeirão do Seu Zé Padre, rumo ao Distrito de Assis.  Isabelle ficou em Santo Antônio para resolver uns probleminhas familiares, como já era de meu conhecimento.
Em Lençóis um guia foi logo me esclarecendo acerca das pousadas com preços “módicos” e sobre a longa trilha para a Cachoeira da Fumaça. Eu tinha que entrar num grupo de aventureiros e percorrer, numa Van da Associação dos guias, uns 50 km até o pé do morro, numa depressão alongada chamada Vale do Capão. Marcamos a saída para o dia seguinte, bem cedo.
Aproveitei e fui conhecer a exuberante vida noturna de Lençóis, num desassossego sossegado de boêmia culta. Mesas espalhadas pelas estreitas ruas, turistas dos quatro cantos do mundo e de vez em quando passava um duende flautista soprando uma doce sonoridade para enternecer a lua, que tanto alumiou as trilhas para os garimpeiros na época da corrida do diamante. Lençóis foi considerada a Capital das Lavras e a terra do Coronel Horácio de Matos, o maior potentado das Lavras Diamantíferas, que comandava um enorme bando de jagunços, chagando a assustar o Governo Federal e a própria Coluna Prestes.
Acordei cedo e descobri que às 7 da manhã ainda é madrugada em Lençóis. A Van chegou às 8 horas, embarquei e fomos pegar o restante dos aventureiros: americanos, franceses e alemães. Da terrinha tupiniquim só tinha eu, os dois guias e a namorada tagarela de um alemão. Pelo caminho ouvi o alemão falar: “-Das Brasilien ist das sehr Mutter Natur.” A namorada, como um tradutor online, converteu: - Sim, o Brasil é própria mãe natureza!
Imediatamente lembrei-me dos 7 x 1 na Copa da Corrupção e completei a frase: - Sim, é a mãe natureza e, também, a mãe dos alemães! Mentalmente, claro. O alemão parecia a porta de um armário! Chegamos à cidade de Palmeiras, onde as valorosas pedras de diamantes passaram contrabandeadas pelos tropeiros, para apaziguar a ganância dos europeus. A exploração diamantífera deixou um prejuízo enorme ao meio ambiente e, hoje, só resta o ecoturismo para salvar a imensa Chapada. Vi um triste idoso, sentado numa cadeira na calçada, na certa ele participou do apogeu das jazidas, e da sua decadência também, quando se findou o último veio.
Contam que, das valiosas pedras, nem com um leve brilho ilusório o Brasil ficou. Sugado, explorado desde os tempos Coloniais e continuamos na mesma atrapalhação, no mesmo desastre. Roubaram, roubam e ficamos como aquele senhor palmeirense, na calçada do tempo, a recordar um passado de glória. Oh, sina triste!
Chegamos ao ponto de apoio da Associação dos Condutores de Visitantes à Cachoeira da Fumaça. Normas e regras esclarecidas, partimos em fila indiana. Antes, avisaram: os dois primeiros quilômetros de rampa são pesados, os 4 km restantes são num platô quase plano. Não atinei para a palavra “pesado” do instrutor, mas via a imensidão mágica da Serra do Sincorá, ostentosamente íngreme na minha frente.
Escalados os primeiros 500 metros e o fôlego começou a falhar, o coração a disparar, as pernas a reclamar da falta de energia. Confesso: foi a minha via dolorosa ir ao topo da Chapada Diamantina. Na subida, eu sucumbi três vezes e três vezes revelações eu discerni. Na 1º queda: — Que estou fazendo aqui, meu Deus? Só um longo silêncio, de volta, eu ouvi.  No 2º tombo: — Não aguento mais, eu vou desistir! Inexplicavelmente resolvi resistir e segui avante. Na terceira vez que caí, o último guia perguntou-me: — A máquina está ruim, meu velho?  Lembrei-me do motor do Del Rey que possuía e que, quase na minha idade (57), não respeitava subida íngreme. Levantei-me e parti, lento como uma tartaruga, mas venci!
No platô, olhando o amplo Vale do Capão, estendido lá embaixo, entendi o porquê de as procissões, de calvários, bem vencidas, despertarem “algo sagrado” existente nas trilhas da gente.
Caminhamos o restante da sinuosa vereda folgados e contemplando a beleza da mistura de Caatinga com Serrado no clima agradável da montanha. O alemão apontou os dois dedos indicadores para o rosto e gritou: - Wind!!! – Wind!!! A babylon tradutora trabalhou: - Sim, é o vento fresco! Para mim, ficou meio ambíguo o que ela disse.
Alguém ouviu o barulho de água caindo. Apurei a audição e ouvi o belíssimo canto da cachoeira que foi se intensificando à medida que chegávamos mais perto.
Avistamos um sovaco de serra de uns 400 metros de profundidade com o Vale do Paty, lá embaixo. Tinha um bloco extenso de pedra se sobressaindo no precipício e arrastamo-nos sobre ele, para colocar a cabeça para fora e ver a Cachoeira da Fumaça, por cima. O imenso vazio abaixo do bloco pétreo e o espetáculo do rio despencando de uma abertura no paredão disparou a adrenalina no corpo e um medo, que nunca sentira, na minha alma.
A Cachoeira da Fumaça dançava ao desejo do vento que remoinha entre os paredões fazendo com que o volumoso rio sublimasse, em gotículas dispersas no ar, chegando a molhar nosso rosto. É uma maravilha indescritível para meras palavras, só estampada no olhar podemos sentir essa magnífica obra divina. Caminhamos para outro ponto de observação e contemplamos, quase de frente, os 340 metros da cachoeira e mesmo calados, extasiados e embevecidos, oramos na presença daquele templo sagrado.
Olhava para a maior queda d’água do Brasil e me recordava da Cachoeira da Lembrada, raquítica e desnutrida nos Sertões de Cratheús, e rogava para que, ao visita-la novamente, as circunstâncias sejam outras e aquele filete finíssimo de água tenha se avolumado o suficiente para fazer me recordar da maravilhosa Cachoeira da Fumaça.
Espiritualmente ainda estou lá, no topo do imenso paredão da Serra do Sincorá, comtemplando, embevecido, o resplendor da maravilhosa Cachoeira da Fumaça.

Raimundo Cândido




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Suçuarana


A mira crava,
o frio instinto,
o ardente olhar,
na vítima a pulsar.
Tal bala no pente,
feito autômato.
O gatilho saliva
a se deleitar,
já separando
a carne do osso
no fio de navalha
cortando no ar...
Dispara!
Feito faca,
feito ânsia,
feito a fome,
pois a mesa,
em bandeja posta,
convida ao jantar!

Raimundo Cândido

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Corrupião



O tom negro das notas
é um rebuliços no sertão,
pela ação das ventanias,
furtando o ninho alheio
se fingido de politico,
astuto, que desdenha
na falsa disposição.
O amarelo da canção
denuncia a aparência
de um ser brejeiro,
larápio que nem fia
e só imita a melodia
que se ouve das matas
e mesmo assim,  fingido,
melodiosamente assovia,
isento, o hino  da nação!


Raimundo Cândido

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Fazenda Ponciano

                                               Fazenda Ponciano

Uma robusta aroeira revestida de casca cinzenta e escamosa, com nós no tronco a mostrar o cerne incorruptível de uma madeira imputrescível, resistiu aos vendavais do tempo, ao crestar de raios impiedosos e ao perverso machado da mão dos homens. Escapou de ser uma mera estaca, uma singela viga ou um roliço mourão de cerca nas fazendas dos Sertões de Crateús.  Hoje é um longevo ser, indivíduo lenhoso, leal e centenário que, firme e de pé, guarda as histórias e os segredos que se passaram nos terreiros da Fazenda Ponciano.  Sente a ausência dos antigos companheiros, uns velhos mulungus copados que degringolaram, não resistiram à corrosão das eras, e eram aonde se amarravam os animais que chegavam às terras do rico fazendeiro João de Melo Matos.
Em frente ao conservado casarão, e olhando aquele honrado tronco de aroeira, fiquei a captar suas histórias, como que absorvendo por uma estranha e vegetal osmose. Sussurro de vento foi o que me pareceu a voz daquela árvore anciã, relatando-me o passado. Ouço, atentamente, aquelas confissões arbóreas e me dispus a transpô-las para um papel, como me solicitou a velha guardiã do Ponciano.
“Houve um tempo de muita fartura, uma época de abundância por aqui. E o que faltava, era só o que não era necessário!”. Bem atencioso fiquei, do começo ao fim, àquela história! E a falante planta prossegue, relatando-me as suas memórias:
“A Fazenda Ponciano foi assentada no topete deste pequeno morro para fugir das cheias do Rio Poti. Nas chuvas torrenciais, aquela vigorosa grota que tem o mesmo nome do local, ajudava o inconstante rio a isolar o casarão do resto do mundo. Bem aí, onde você está parado, estendia-se uma movimentada trilha por onde passavam os transeuntes, a pé ou a cavalo, rumo ao longínquo Curral Velho. Quem passasse, fosse quem fosse, em frente ao casarão do Ponciano de Seu João de Matos, tinha direito a uma tora de rapadura e a saborear um naco de queijo, expostos num cepo de madeira, enfincado perto do calçadão.”
“Olhe ali, para o alpendre da fazenda, naqueles armadores ficavam descansando os arreios, as peias, as cordas, os cabrestos, as rédeas, os brides, as esporas, os baldes, as esteiras, os gibões, as celas, as cangalhas e tudo que um vaqueiro precisa para começar o traquejo do dia, bem cedo, ainda no escuro da manhã.”
“Sob as ordens do Senhor João de Matos, que participava de tudo, desde a ordenha matinal das vacas no curral, até o tanger de ovelhas no entardecer e todas as atividades agrícolas eram realizadas por um batalhão de pessoas que residiam no Ponciano. Quando se deitava numa rede estirada na varanda, para fazer o balancete do dia, a Dona Maria Rezende de Matos Melo, sua esposa, vinha lhe servir uma xicara de café quente.”
Eu via somente os ressequidos galhos da aroeira contrastando com o céu azul, e ficava a imaginar de onde poderia vir aquela voz: Seria dos rombudos nódulos do tronco?
“O quintal era enorme e fazia gosto de se ver: Os perus, os capotes ariscos, as gordas galinhas e até os exibidos pavões desfilavam, ciscando no terreiro. Mais afastado, devido ao aroma característico, havia o chiqueiro de  sujismundos porcos. No curral de gado, construído com caules das carnaúbas, que ficava ao lado direito da casa, estava a vacaria que produzia a principal mercadoria da fazenda e ainda sobrava leite para a gostosa coalhada e para tantos queijos, que chegavam a petrificar na tábua da dispensa. Vi um queijo de quilos, já pedrento, servir de escora para uma porta. Mesmo com Seu João de Matos, cutucando com um gravetinho de madeira o vão entre dois tijolos do piso, só para tirar um carocinho de feijão perdido e retorná-lo aos tambores da despensa, ali era a casa da fartura.”
A velha aroeira, percebendo minha admiração por suas histórias, continuou: “Quem sabia contar realmente historias, e das boas, era o negro João Mariano que vinha do Quirino de Cima para cá, em época de matutagem.”
Incrível, mas aquela velha árvore estava mesmo lendo meus pensamentos, captando meus sentimentos, sem que eu perguntasse, e como que debochando de minha ignorância, explica-me:
“Matutagem é como se chama a matança de gado nas fazendas do sertão. Toda semana se matava um boi no Ponciano. Vinha gente dos outros locais, que também eram propriedades do senhor João de Matos: das Melancias, da Grota, do Quirino de Cima, do Lago, da Cana Brava e da Taboa. A animação durava o dia inteiro, e o melhor era ver a lua prateada no céu estrelado, ouvindo o negro João Mariano, sentado num tamborete, contando as suas assombrosas histórias, até a meia noite.”
“Uma multidão, o Seu Júlio, o Milton, o Wilson, o Manoel Joaninha, o Antônio Filó, a Janoca, o Vicente Damião, o Manoel e o João Palhano, o Cosmo Viana e alguns fazendeiros que moravam por perto, faziam um círculo ao redor do negro contador de lorotas. Alguém, lembrando-se das suas gabolices anteriores, ia logo perguntando: — Mariano e aquele marruá preto, ainda tem aparecido no Quirino? O negro, um individuo alto, que pela aparência se dizia logo que era um pelejador de roça, mas o vivo olhar denunciava a inteligência fina, respondeu: — Nem me pergunte por aquela assombração desgarrada, meu amigo. Quando eu vinha andando pra cá, estranhei o silêncio da mata. Parei e fiquei atento aos vultos nas veredas. Nada! Mas meus cabelos continuaram de pé, eriçados! Quando olhei pra trás, vi as duas tochas de fogo no breu do escuro. Era ele me farejando. Eu corri, da beira do rio até aqui, mais rápido que um mocó em loca de pedra. Outro dia, o touro endiabrado, acompanhou o Trem de cargas que passa na madrugada, até tangê-lo para fora das suas pastagens, a gente só ouvia os cascos dele pisando o chão duro, misturado com o som do mastigado das rodas de ferro nos trilhos.”
Quis perguntar algo a mais sobre o negro Mariano, mas lembrei-me que a aroeira usava da telepatia, tinha poderes extra-sensoriais. Respondeu-me:
“O Negro Mariano morava, com duas irmãs, na propriedade do Senhor João de Matos, chamada Quirino de Cima. Era uma época em que não existiam esses aparelhos mágicos que relatam fatos para as pessoas. E no Ponciano, o contador de história, deu um espetáculo de fabulação. Disse que foi pescar de linha, já tarde da noite, no poço assombrado na beira do Rio Poti. Já estava irrequieto, pela ausência do peixe. E na impaciência gritou, assim: — Tomara que eu pegue um peixe, nem que seja pelas artes do diabo! Neste instante algo começou a fisgar no anzol. Morde firme. Ele dá um puxarão pra fora d’água e o bicho se estatala no chão. Quando olha, vê um tiçãozinho de gente, mais parecido com um macaco, dando umas rasteiras na areia e convidando o Mariano: — Vamos Jogar capoeira, meu negro!”
“As histórias de João Mariano continuariam pela noite adentro, se a plateia não lembrasse que no Ponciano não havia dias de folgas. Logo de manhã cedo estão todos no batente, na labuta novamente. Os arreios, as rédeas, a cangalha e as esporas trabalham de domingo a domingo”
Já estava me sentido como um daqueles velhos mulungus, nos seus dias de fim, com suas raízes aparecendo no ar pela erosão das águas e do vento, quando olho para o casarão e não mais vejo aquilo que existia outrora, o bucólico Ponciano do Senhor João de Matos, o Pudidi, avô da Dona Delite. Tudo agora é outro tempo, outro lugar, outra vida. E a velha aroeira que me pareceu mais triste, mais desiludida, ainda consegue me dizer, num choro implorado: “Amigo, escreva no papel que o meu passado não quer se calar!”


Raimundo Cândido

domingo, 16 de novembro de 2014

O Mulungu



Sorvi, uma a uma,
eras agridoces
da amplidão:
e vi o  teu caminhar,
enleado ao do teu bisavô,
velejando no ar
desta longa solidão
que nuca findou,
e verei, no mesmo ermo,
rijo, de um sem fim, 
o teu assombro aceso,
a me avistar, com anseio,
no contemplar incrédulo
do súbito espanto  
dos que ainda virão
com um olhar idêntico
ao teu avoengo enleio.


Raimundo Cândido

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Da fonte à foz



A gameleira expele o rio,
cobra viva a correr,
brilhando em risos
e vertido  em lágrimas.
O olhar de Gia,
mágica fonte,
vigia o ventre que pare
um líquido potro,
de salientes galopes
e nutre-se no ubre,
suor e sangue,
deslizando na face da terra...
Desce pelo seio
o veio encorpando,
vidro serpenteado,
transpondo imensidões,
portando  acasos e sortes.
Concessor e algoz,
da lama do mundo,
das esperanças nossas.
Desde o alfa ao ômega
flui, de um olhar onde,
a vida trás a morte.


Raimundo Cândido

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Quirimba, o milagreiro.

                                              

Quando o irascível Rio Poti escaramuça pelo sertão, vira um potro indomável, transforma-se num touro de ímpeto buliçoso.  Não perdoa, logo retoma as margens ribeirinhas que são suas e sem precisar dos princípios jurídicos do direito. Na madrugada, quase sempre, vê-se a correria do povo fugindo da língua d’água que entra por baixo das portas, sem pedir licença, e se avolumava dentro das casas que ocuparam as terras baixas da cidade de Cratheús. As asas líquidas do Poti se espraiam, com satisfação. É uma grande tristeza e a mais certa das tragédias anunciadas!
 O volume aquoso vai engrossando à medida que recebe as diversas grotas, os numerosos riachos nas duas margens e vai serpenteando, rumo ao boqueirão da Serra Grande.  Espetáculo bonito de se ver! Um dos afluentes que mais injeta ímpeto, no já petulante Poti, é o Riacho Serrote, que vem acelerado pelas profusas águas do Riacho do Mato, desde o Curral Velho dos Bomfim. Ao chegar à foz, na Barra do Rio, forma-se o encontro do apocalipse com o caos. As águas barrentas invadem as várzeas opostas de um local chamado Quirino, cujos moradores mais antigos já perderam o significado deste nome na memória. Não sabem quem trouxe a designação para um lugar tão abençoado. Ouviram, de um padre, que um Imperador Romano mandou o Governador da Síria, chamado Quirino, fazer um recenseamento na época da infância de Jesus Cristo, daí tiraram o nome. Outro cidadão, metido a sabido, disse que o primeiro Quirino que chegou ao local, fugia de uma guerra dos lados de Pernambuco, numa história que está bem contada no romance “A Pedra do Reino” de um escritor engraçado chamado Ariano Suassuna.  Não faz diferença de como surgiu a nomeação, o que importa é que, ali, onde mora o Chico Guda com sua esposa, Dona Maria das Dores, e o seu filhinho Zé Guda, o gudinha, é o bendito Quirino.
— Ei, compadre Chico, a irrigação na várzea para a plantação de arroz, este ano, vai ser muito boa! Afirmava o amigo mais chegado de Guda. E ele, puxando a rédea da burra estradeira, mas arredia, respondia já com um sorriso de satisfação no rosto: — Meu compadre eu já estou preocupado é com o prejuízo que os pássaros vão me dar. Você viu como a várzea já está apinhada de papa-arrozes e de sibites de toda espécie? Mas preparei uma boa para eles. Vamos lá em casa, para você ver o boneco que fiz, compadre!
Chico Guda (Apelido do tempo de pirralho: —Vamos jogar bola de guda! Convidava os amiguinhos quando teve tempo de brincar de bila) era um fino artífice, caprichara no espantalho feito de tronco de imburana de cheiro, os olhos, o nariz e a boca estavam uma perfeição e até os braços se erguiam aos céus para melhor espantar os pássaros. Digna das obras dos santeiros que faziam imagens para as festas religiosas. O compadre aprovou tanto, mas tanto, que, pasmo, enalteceu aquilo que viu: — Mas Chico Guda... Tu devias trabalhar era nas festanças de Padim Padre Ciço de Juazeiro. Tu ias era morrer de ficar rico, homem!
Uma plantação de arroz dá trabalho. É uma planta delicada. Requer terreno bem preparado, com circulação de água e tem que ser tudo muito bem planejado.
Tinha gente que dizia: — O Chico Guda é um cabra muito afoito! Outro remendava: — Que nada, ele é teimoso, quem já viu plantar arroz num sertão brabo deste!
A várzea alagada, depois da inundação, ficou uma beleza com o arrozal crescendo, já mostrando as espiguetas amareladas para alegria dos papa-arrozes. O espantalho de imburana já estava lá no meio, tentando desempenhar sua missão de afugentar a passarada. Não dava conta. Os bandos de pássaros já se acostumaram com a boniteza da obra de Chico Guda.
A meninada passava o dia com a baladeira esticada, afugentando as aves teimosas. O bando levanta voo e logo volta para terminar de encher o papo. O Gudinha mirava o estilingue até no tronco do espantalho, onde as aves, sem medo, sentavam. Colhem algumas sacas de grãos que deu para a subsistência da família e apurar um dinheirinho na venda.
Os agricultores, no cansaço do solo e nas invernadas fracas, de ano pra ano, alternam as culturas, saindo do arroz para milho, do milho para o feijão e as coisas vão ficando mais fáceis de semear, colher e sobreviver. E o velho espantalho, esquecido, foi ao chão, arrastado pelas enxurradas dos anos vindouros, sumiu da Várzea do Quirino.
O Zé Guda, meninote já mais forte, cumprindo ordens do pai, tinha ido dar águas aos animais no Poço da Barra, quando a arisca burra, em que estava montado, volta e chega sozinha em disparada! Correm e encontram o Gudinha gemendo de dor, sobre uns pedregulhos da beira do rio. Não fraturara nenhum osso, mas o joelho logo incha como um balão. Nem sebo de bode capado, nem banha de tejo gordo ou da venenosa cascavel resolve. O menino caminha como um Sacy Pererê, pulando numa perna só!
Alguém sugere ao Chico fazer uma promessa: — Se os remédios da terra não resolvem, Seu Chico, o remédio do céu é tiro e queda! Faça uma promessa que o menino fica bom na hora! Até diz que existe um santo milagreiro num povoadozinho chamado Lapa, que fica antes de chegar no Castelo do Piauí. Uma imagem de Santo Antônio do rio que os pescadores acharam enganchada nas moitas.  Você sabe né, Seu Chico, ele é o santo dos amputados, dos pescadores, dos caçadores, dos agricultores, dos cavalos, dos jegues, dos burros, dos pobres e dos oprimidos. Faça a promessa e vá pagar na Lapa. Dito e feito. O menino ficou bom do joelho, que permitiu montar, pai e filho, numa parelha de animais e foram em busca de expiar o compromisso com o milagreiro achado nas moitas do rio.
Pelo caminho vão se inteirando dos poderes do santo e dos prodígios alcançados pelos peregrinos, que já voltam das promessas realizadas e pagas. Chegando na Lapa, um lugarejo de casinhas esparsas,  perguntam pelo Santo Antônio.  Informam-lhes que agora ele não está mais no paiol de milho de quando foi encontrado, construíram uma capelinha num elevado, com uma escadaria de tijolos para pagarem as promessas, os penitentes subindo cada um dos degraus e de joelhos.
Alguns rezam, a oração que sabem, em cada degrau que sobem. Outros, no silêncio de cada joelho que transpõe um batente, está a própria oração. Assim vão, pai e filho, ajoelhados, concentrados, agradecidos. Quando, de repente, o Zé Guda levanta-se, espantado, os olhos arregalados olhando a imagem do Santo Antônio do rio, como se visse uma assombração.  O pai o repreende: — Se ajoelha Zé! Respeita o santo que te curou! E o menino, ainda espantado, responde gritando: — Mas é o Quirimba, pai!!! É o espantalho da roça de arroz que o senhor plantou!!! Chico Guda olha, com mais atenção, e reconhece os olhos redondos, o nariz afilado, a boca larga e ainda tem os braços abertos, agora rogando milagres aos céus! Levanta-se também, muito assustado! 
A multidão de fiéis censura o comportamento dos dois. Chico ouve alguém dizer: — Mas que falta de respeito grande é essa? Chamar o nosso Santo Antônio da Beira do rio de espantalho! Quem pensa que são, esses dois, para chegar aqui deste jeito?
Chico Guda pressente que pode haver uma revolta e procura sair rápido do povoado antes que aquela gente se indigne de vez. E na volta vai cismando, ruminando com seus irrequietos botões: “Como foi possível um espantalho sair de suas humildes e calejadas mãos e se transformar no santo milagreiro daqueles? A prova estava ali, ao seu lado, havia curado o seu filho, o gudinha!” E até chegar à abençoada várzea do Quirino rezou... Rezou com todo o puro e reverenciado silêncio que sabia.


Raimundo Cândido

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Bola de gude



As bilas dos olhos,
esferas de fogo,
ardiam escoltando
a bola de gude
que rolava no chão.
Bilava à infância
no tempo infinito...
Chocavam-se luas
nas vidas de vidro
pelos sem fins das ruas.
Com os pés-no-chão,
deslizava amplidão
da irrequieta meninice,
pois uma pequena bila
era meu mágico mundo.
Hoje, é uma tormenta,             
sem o brinquedo fecundo,
e só me resta a saudade
de uma bola vidrenta!


Raimundo Cândido                 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A corrida


Ímpeto de vapor
exalado das narinas.
Uma iminência bruta
segura nas rédeas,
a sofreguidão dos cascos
obstruída nas baias.
No disparo da porteira
a propulsão titânica,
retesada nos músculos,
risca o vazio das raias
como foguetes de poeiras.
Agitam-se os ânimos,
alinhados, lado-a-lado,
mãos como bandeirolas!
Atravessam olhares,
raios de esplendor,
corcéis de luz e ligeireza...
E até o vento aplaude o vencedor!
Raimundo Cândido

José Alberto de Souza disse...
Se viero, carajo! 
A la pucha, pego o malacara e dou-lhe luz... 
E não adianta gritar 
que esta parada já está ganha 
e ai se alguém m’enfrenar!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Manurrim, o Galinho da Ribeira do Poti



O time das palavras disputa uma partida. Ao apito da Sintaxe, árbitro da contenda, começa o embate no campo da linguagem. Eis a narrativa do jogo: “O verbo, volante-regente, passa a bola (Ideia cilíndrica!) ao hábil pronome que aplica um finge-que-vai-e-vai, no enigmático adversário. O adjetivo, eficaz bailarino, domina a esfera arisca e traça oponentes, entregando o artefato vivo ao oportunista substantivo, um centroavante rompedor, e pimba na gorduchinha, a pelota vai esticar o filó de náilon, num belíssimo gol de letra”.
Divirto-me com as distintas palavras batendo bola, porque nunca aprendi a brincar, decentemente, com a arte mágica do futebol. Mas a pelota enfeitiça-me, como me encantam as palavras concentradas nos dicionários, para os incansáveis jogos do dia- a- dia.
Ainda retinem nos tímpanos a ovação entusiástica de três mil torcedores, para a Seleção de Futsal de Crateús dentro do Ginásio Deromir Melo, no dia 12 de Abril de 2014. O jogo era na final da Copa Brasil, entre a Seleção crateuense e o fortíssimo time do Krona/Joinville (SC), 4 x 4 e já na prorrogação, quando, no último segundo,  o nosso goleiro Lambão arremessa a gorducha numa incrível curva geométrica que vai esticar o filó de náilon na trave adversaria. Decide a partida, garantido ao time de Crateús o direito de representar o Brasil no Sul-Americano de Futsal, onde a COMEBOL reúne os melhores times da América do Sul! A disputa acirrada foi um grande sufoco para todos aqueles ribeirinhos corações!
Vendo aquela aguerrida seleção, mesmo com alegria estampada nos olhos, deu-me uma tristeza na alma. Um escrete que era, quase na totalidade, formado por Pratas de fora. Por pouco não havia sangue da terra correndo nas veias daquela canarinha, como tantas vezes senti vibrar nas seleções que tinham por base o dream team do Palmeiras, do Dr. Almir, e o imbatível União de Deromir Melo.  Os talentos de casa: Chico Rufino, Ferrin, Marconi, Edir Pinto, Wagner, Ivan, Coloca, Coan, Chôcho, Manurrim, Antônio Henrique, Zé Puim, Sebastião Rufino, Pombinha, Lacuxia e tantos outros que jogavam por amor à amarelinha, nos presenteavam com a fina arte do futebol de salão, na Ribeira do Poti.
Tive o privilégio de assistir a uma disputa entre dois gigantes do futsal brasileiro: O mago Manurrim  de Crateús e o excepcional Ferreirinha do time do Ipu. Das mãos de Chico Rufino a bola chega rápida e rasteira no bico do Bamba de Manurrim e toma um impulso mágico para cobrir o primeiro incauto, a esfera nem quica no chão e é direcionada a um novo chapéu no segundo afoito ipuense. Pelé se vangloria de um gol assim! Mas o ala crateuense não era fominha, tinha por missão servir aos companheiros melhores colocados, para que realizassem o gol. Ouvíamos os gritos desesperados dos torcedores: – Chuuuta, Manurrim!!! O que fazer? Ele nasceu para a magia do drible e ser um eficiente garçom nas quadras!
Desde criança que, com a pelota nos pés, era um exibido malabarista. Nos rachas do entardecer, pelos terrenos baldios da cidade, a primeira providência era formar os times. Depois da disputa de um par ou ímpar, o jogador vencedor escolhia o melhor atleta: – Eu tiro aquele que está com as mãos nos rins. E apontava para um garotinho franzino que se pensava nem poder com a bola. – Quem? O outro perguntava. – Aquele menino com a mão no rim, ali!!! O apelido pegou. Ficou sendo Manurrim, o galinho da Ribeira do Poti, para lembrar outra criança raquítica que também despontava lá para o lado da Cidade Maravilhosa.
A fama do craque, de Antônio Vieira Amâncio, rápido cresceu. Todos queriam ter o Manurrim no seu time. Ele jogou futebol de campo pelo Fortaleza e pelos Urubus, um time todo de preto que foi o protótipo do imbatível União. No invicto Palmeiras foi sempre a alma do time. Um dos clássicos da cidade era o duelo de futsal entre o time dos estudantes, que chegavam de férias da capital, e o todo poderoso time do 4º BEC, em plena ditadura militar, 1966. Os Estudantes, comandados pelo futuro deputado Antônio dos Santos, levavam o Manurrim como arma principal. Era um perigo ganhar dos militares, numa época de incerteza como aquela. O jogo estava 4 x 3 para o Batalhão, quando Manurrim resolve driblar todos os soldados e empata o jogo. A torcida, inflamada por Deglaucir, passa dos limites na comemoração. O Comandante do Batalhão só deixa o povo sair depois de passar uma lição de moral em todos, pois os torcedores haviam abusado da hospitalidade no quartel. Soube-se depois que não foi a alegria dos torcedores que irritou os militares, foi a humilhação imposta pelos dribles de Manurrim, em cima da soldadesca.
Era um jogador difícil de marcar. Raciocínio rápido. Raça. Construía e destruía jogadas num piscar de olhos.  Antecipação tremenda, quando perdia a bola, logo recuperava dando um carrinho, sem faltas e trazia a bola de volta para o seu domínio. Usava da malandragem, ao ver o goleiro adversário muito aperreado, pedia a bola: Dá! Veloz como um beija-flor passeando num jardim, driblando para a esquerda, para direita, por cima e por baixo!  
Um crateuense que jogou no mesmo nível dos grandes medalhões do futsal brasileiro: Manoel Tobias, Leonel, Branquinho, Falcão...
No final do Intermunicipal de 1972, na cidade de Orós, começamos o jogo perdendo: 1 x 0. Pombinha iguala o placar e jogávamos pelo empate. Uma falta a nosso favor, quase na linha da área. Manurrim prepara-se para a cobrança, mas fica de costa para a baliza, do lado da bola. O arqueiro corre para ajudar fechar a barreira, pressentindo um foguete disparado com a manhosa rolando para trás, para algum crateuense bater. Que nada! Um duende tem sempre mil artimanhas preparada para a calada das horas. Ele só vira o pé num ângulo de 90° e o bico do tênis toca no ânimo da pesada bola que sobe como uma nambu assustada, levantando voo. Cobre a barreira e passa pelo boquiaberto goleiro que não acredita na impossível trajetória da cobrança de falta de Manurrim. Viramos o jogo e, mesmo ocorrendo empate novamente, Crateús sagrou-se campeão. Neste feliz dia, Manurrim recebeu das mãos do Governador Virgílio Távora a medalha de melhor jogador de Futsal do Estado do Ceará.
Numa época em que não se valorizavam os talentos do futebol, como se consideram nos dias de hoje, Manurrim foi levado para jogar em Belo Horizonte, onde passou um ano na equipe de futebol de salão da Mendes Junior.  E, quando vejo o cidadão Antônio Vieira, pelas esquinas em bate papo alegre com os amigos, lembro-me daqueles grandes talentos crateuenses que faziam do esporte uma obra de arte, para alegria dos que só sabem bater bola com as palavras, na quadra branca da folha de papel. E sei que, nenhum adjetivo bailarino do meu pobre vocabulário chegará à altura do mágico menino com as mãos nos rins, esperando a bola chegar aos seus pés. Ouça, Manurrim, o verbo, o adjetivo, o substantivo, e todas as palavras da língua portuguesa, te elogiam pelo que você significou e representa para futsal crateuense. Oh, Galinho da Ribeira do Poti!


Raimundo Cândido

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Dideus, o Poeta Andarilho.


                                             
Existe um tipo de humanidade que nunca se basta. Vive continuamente insatisfeita consigo mesma, com o mundo e, por descontente, na incompletude em si, alimenta uma infinda busca. Enigmático, misterioso, incompreensível: eis o poeta! Por isso só devia proferir uma opinião sobre ele, outro ser de mesmo naipe. O ipueirense Gerardo Mello Mourão, apropriadamente adotado como crateuense, a priori, já profetizando ser Patrono da Cadeira 22 da Academia de Letras de Crateús, assim definiu seu afilhado: ”... risca, riscaste, riscará roteiros de pássaros no ar... Os tempos ouvem, ouviram, ouvirão os passos de pedras que pisam, pisaram , pisarão rosas, lírios e jasmins ... Piloto de naufrágios, governador dos tempos, tetrarca dos milênios, tabelião das eras, só os dias e as noites te conhecem, sabem o teu nome e nenhum outro nome.” Sem ser da mesma categoria dos eleitos, ouso enunciar este nome: Antônio Dideus Pereira Sales, o Poeta Andarilho.
As teorias literárias são cientes : quem melhor capta a poesia do ar, das paisagens, das cores e dos sons são as crianças. Pouquíssimos meninos têm a felicidade de crescer sem perder o dom de ver, sentir e vibrar com as emoções da vida, para depois desenhá-las com os pinceis das palavras.
Dideus preservou esse privilégio, desde que andava com uma baladeira dependurada no pescoço pelas matas secas da Várzea do Canto, no município de Independência, atirando em desprevenidos passarinhos, correndo em cima de um cavalinho de pau, com os bolsos cheios de bilas, para mais tarde brincar com outros molecotes no Distrito de Tranqueiras.
O Senhor José Pereira, ao resolver morar na cidade de Crateús, traz umas vaquinhas para ajudar no sustento da numerosa família. E o menino-poeta teve que aprender as rijezas do labor bem antes de maturar os artifícios poéticos do louvor. Com uma cesta na cabeça sai, ainda de madrugada, vendendo pães pelas ruas da cidade, e quando não é com um isopor oferecendo picolés para aliviar o calor dos transeuntes no burburinho do centro comercial. Já estava bem adiantado no colégio quando, com uma caderneta na mão, angariava uns trocadinhos com o jogo do bicho e dando palpite para o viciado cidadão, que arriscasse na dezena do carneiro, pois o mesmo havia tido um sonho, brigara com o vizinho resmungão.
  Quando fazia o curso de contabilidade, na Escola de Comércio, o irreverente professor Dedé Loiola lança um desafio. Escreve um probleminha de matemática no quadro e propõe: Quem resolver esta complicada questão, ganha um dez na próxima prova, mas se errar tem um zero, bem redondinho, no boletim. Dideus olha para um assustado colega e diz: - Eu vou arriscar um olho! E responde. Acerta na bucha, garantindo o dez na ciência dos números, mesmo tendo o pendor acentuado para fino artífice das palavras, e por isso graduou-se em Letras pela Faculdade do Vale do Jaguaribe.
O oficio de poeta foi estimulado pelo cunhado, poeta Hernandes Pereira, que o leva para ser apresentador de um programa sertanejo “Quando as Violas se encontram”, na Radio Educadora, e o Embaixador do Sertão balançava um chocalho estridente para começar o programa. Da recitação dos belos poemas, das cantorias de viola nordestinas e da contação dos causos engraçados tornou-se um fino mestre na arte lírica do sertão.
 Geraldo Mello Mourão já o profetizara, então teve que riscar os roteiros de pássaros como ave de arribação, levando a sequidão nordestina para conhecimento do mundo, pela única maneira que sabia explicar as coisas, a poesia, e do velho patuá de menino escapam os gritos de alerta: “ No Sertão ressequido sem pastagem / não se ouve o trinar de um passarinho...”
O tempo, que tudo ouve, tudo revela e tudo realiza, confirma o filho de dona Cordeira, o vendedor de picolé, a se transformar no radialista, no folclorista, no produtor cultural e no poeta telúrico que assim cantou o chão onde está enfincada a sua raiz, um hino de amor à Crateús: “Eu conheço o teu intimo, tua senda, / teus detalhes, teu chão, tua poeira, / o silêncio, o reclamo e cada lenda, / despejada no colo da ribeira...”
A Academia de Letras de Crateús tem a honra de guardar um tesouro em imagens, uma copia de um vídeo em que o Dideus Sales trás o poeta de Assaré para receber o título de cidadão crateuense, como parte da programão dos inúmeros Festivais de Violeiros que promoveu na cidade. É emocionante ver o velho Patativa sendo levado pela mão do poeta andarilho, como um filho conduz a um pai.
Honrarias não lhe faltaram nesta vida corrida, a prateleira da memória já está repleta, fora as que estão reservadas na morada do deus Pan: cidadão crateuense, tauaense, aracatiense. Magnífico Trovador e Comendador da Cultura popular pela Ordem Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel – em Salvador, Troféu Centenário, outorgado pelo programa Gonzagão da Rádio Cidade, do radialista Pedro Sampaio, Comenda pelo Dia Literatura Cearense pela Assembleia Legislativa do estado do Ceará. É membro da União Brasileira de Escritores (SP), Casa do Poeta Lampião de Gás (SP), União Brasileira de Trovadores (RJ), Academia de letras de Crateús, Academia Camocinense de Letras, Academia Tauaense de Letras, Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza e por ai vai...       
E hoje, nem só os dias, e as noites, sabem o teu nome. O Brasil inteiro sabe e se alegra ao ler os versos sublimes e espontâneos que representam, legitimamente, a nossa cultura popular. Se membro da arcádia máxima da literatura do sertão, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, não é para qualquer mortal não, mas ele não se vangloria disso: “... escultor de versos simples / sem pedantismo e laurel / para afugentar martírios / os meus poemas são lírios / orvalhados no vergel”.
Contemplei, com esses olhos de apreciar poetas, a uma espetacular aula sobre versos e rimas, ministrada por Dideus aos alunos de um colégio crateuense, no apertado salão da Academia de letras de Crateús. E com certeza o poeta Geraldo Mello Mourão viu, como eu vi, a poesia resplandecer no ar e despertar poetinhas adormecidos.
Ouvi, com minha audição de atentar harmonias, os mais belos versos do poeta Dideus musicado pelo duende Genildo Costa, entoado no templo sagrado da AlC: “ A Canção da Liberdade eu aprendi com os passarinhos e a estrada dos sonhos tem muitas pedras e espinhos...” E Vi, de relance, no umbral da porta uma avezinha sorrindo em confirmação. Achei aquele pequeno pássaro, bem parecido com o poeta Geraldo Mello Mourão!  


Raimundo Cândido




A CARTA

Há décadas que o velhinho senta a cadeira na calçada e pacientemente espera o carteiro.

Do livro de micro contos O colecionador de dedos

Silas Falcão


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Beija-flor



                                                                                                       De súbito...
                                                                                                  Memorável
                                                                                   encanto, admirável,
                                                                                   em plumas e asas,
                                                                         nas fráguas invisíveis
                                                                         de afeição multicor!
                                                                           A sugar o fulgor,
                                                                      o néctar e o amor
                                                                  das pétalas doces,
                                                                      até das lábias
                                                                 de galho seco,
                                                                  já sem flor.
                                              Esquiva-se, repentino,
                                          como raio de luz no ar!
                                                     Ser insaciável
                                            a buscar afeições,
                                         onde possa achar:
                                no incomum espanto
                            de meus olhos duros
                                     e no silêncio 
                  invulgar do esplendor!


                                                     Raimundo Cândido