quinta-feira, 30 de agosto de 2012

ALC na III Feira do Livro Infantil

Por estas horas (09:40) a acadêmica Maria da Conceição (Nega) está lançando seu livro: Terra Minha, Terra Sua, na III Feira do Livro Infantil de Fortaleza!

Veja programação de hoje:

Manhã

8h30min - Contação de histórias com Júlia Barros (CE), no palco principal.
9h20min - Contação de histórias/oficina para crianças, no espaço Baú de Leitura/Coelce.
9h20min - Contação de histórias/ oficina para crianças, no espaço Endesa Fortaleza Criança.
9h20min - Roda de Leitura, no espaço Agentes de Leitura.
9h20min - Contação de histórias com Cláudia Garcia (RJ), no espaço CCBNB.
9h30min - Lançamento do Livro Terra Minha, Terra Sua da escritora Maria da Conceição Martins (CE), Ilustrações de Miguel de Paula (CE), Academia de Letras de Crateús.
10h - Palestra para professores e Lançamento do Livro Um dia de cada vez, de Marta Martins (SC), Editora Cuca Fresca. 
12h - Lançamento dos Livros O preço da liberdade, de Rouxinol do Rinaré (CE) que será apresentado por alunos das escolas do Eusébio e Sete contos de Maria, do poeta Antônio Francisco (RN) que recitará seus poemas de cordel,  Editora IMEPH.

http://www.flivrofortaleza.com/#!vstc2=30-de-agosto/vstc0=programação

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Mandacaru

 
Punge,
turva
e não verte,
afixado ao chão.
 
 Cruciforme,
imbatível,
clemente alma
acesa na surdina.
 
 Suástica
de um verde sopro,
forma incrível,
arauto resistente.
 
 Vigília,
espinhos ao vento,
incensas  tuas flores,
matura o fruto doce.
 
 E a secular fome
de aguçado facão,
te degringola,
afeito farto pão.
 
 
Raimundo Candido
 


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Coriolano


José Coriolano de Souza Lima – o primeiro poeta crateuense a cantar as alvoradas iluminadas dos Sertões de Crateús. Estudou com o Poeta dos Escravos, Castro Alves, na Faculdade de Direito do Recife – Estamos lhe devendo uma estátua na Praça da Matriz! ( Os políticos, se lembrarão disso?)

 A Poesia

Quem é que veste de fragrantes flores
O verde campo que o matiz iria?
Quem é que pinta-o sem pincel e cores?
- A poesia!

Quem é que torna d’esmeralda os mares?
Quem é que a noite faz melhor que o dia?
Quem nos consola dos cruéis azares?
- A poesia!

Quem nos cantores que no ar passeiam
Nota primores, divinal magia,
Quando seus hinos matinais gorjeiam?
- A poesia!

Quem cisma e geme, se do frágil ramo
Viu a rolinha que a cismar gemia?
Quem ama os infelizes como eu amo?
- A poesia!

Quem descortina num olhar modesto,
Que o chão afaga quase todo um dia,
A maior prova de um amor honesto?
- A poesia!

Quem d’entre os lábios da consorte amante
Perscruta o sonho que o Senhor lhe envia
Co’o fido esposo – no sorrir tão crente?
- A poesia!

Quem sonda o seio de u’a mãe zelosa
E afetos nota que só ela cria?
Pois quem suspira, se ela está chorosa?
- A poesia!

Quem no sorriso da gentil criança
Descobre augúrios que ninguém sabia?
Quem vê sorrindo, lh’acenar a esp’rança?
- A poesia!

Quem neste peito me afervora o sangue?
Depois quem fá-lo estremecer que esfria?
Quem robustece-o, quem o torna exangue?
- A poesia!

E quem o mundo num balanço brando
Qual ama terna que o infante cria,
Meigo embalança como quê ninando?
- A poesia!

Harpa saudosa, que harmoniza o mundo,
Íris formoso que no céu radia,
Sentir sublime de um pensar profundo,
- És - poesia!
José Coriolano
Recife, 1856

Caro Raimundo Cândido

Ivens Mourão disse...
Caro Raimundo Cândido
Obrigado pela luta para recuperar o poeta José Coriolano.
Toda poesia dele é pura inspiração.
Somente um esclarecimento. Ele e Castro Alves estudaram na mesma Faculdade. Já estava formado quando Castro Alves foi aluno. Como ele era muito admirado pelos professores, acredito que o grande Castro Alves deve ter tido conhecimento das suas poesias, pois chegaram a ser publicadas em jornais do Recife. Por isso, imagino um estudo para saber se o Coriolano influenciou-o nas poesias abolicionistas.

Grande abraço

Ivens Mourão( Trineto)

domingo, 26 de agosto de 2012

Cabaré


              Um crepúsculo vespertino se despedia, impregnado de um aviso imperceptível, aspergindo um sofrimento silencioso, característica das tardes lacrimosas. O lúgubre entardecer ia, lentamente, se dissipando entre a neblina do álcool misturada com fumaça cinzenta de cigarros, tangido por uma emotiva música que sondava o vazio impreenchível dos pertinazes corações a suplicar as ilusões de amores efêmeros.  

E a noite desce no final da Rua Dr. João Tomé, como um manso presságio a ensombrar as alegrias, cumprir as tristezas, despertar os sonhos e ativar os remorsos.

A animação na Casa de Maroca já se clareava, desde os últimos raios do dia. 

 Na vitrola o LP de Roberto Muller entoa, harmonicamente, “Entre espumas” para deleite de um opulento comerciante, que chegara mais cedo para ter o prazer de beber, dançar e sonhar com Pretinha, uma jovem e circunspecta morena, de riso entristecido, mas bem contornada nas linhas femininas a provocar desejos dos frequentadores daquele singelo lupanar: “Uma noite sentou-se a minha mesa / E entre tragos lhe dei todo o meu amor/ Transcorreram só duas semanas / Como em sonho, minha vida se acabou...”

A moça estava apreensiva, pois seu “dono” poderia, a qualquer hora, chegar. Na mesa, as flores murchas de crepon, entre as garrafas de cerveja, filtrava uma tênue luz bordô. Se existe uma lei que determina que se algo pode dar errado, então dá, nasceu naquele fatídico dia. Um Jeep Willys risca na porta do Cabaré da Maroca. Desce um raivoso senhor, demonstrando avançada embriaguez e já apontar um revólver na mão. Espuma um ciúme que traduz o sentimento de uma ignorante e estúpida propriedade:

— Pretinha!!! Prepare-se, que hoje você vai morrer!

            A única reação da desprevenida rapariga foi agachar-se para se proteger, mas facilitou o desfecho do criminoso “proprietário” daquele frágil corpo humano que ficou estendido no chão, todos correram com medo das balas. Ninguém desligou a vitrola que continuou, harmonicamente, a tocar: “Se um amor nasceu de uma cerveja / Outra cerveja beberei para esquecer / Um amor que surge numa mesa / entre espumas terá que terminar”.

            É pré-histórica a arte deste amor dissimulado, do amor monetariamente fingido que cabe na cama e no colchão de amar, onde um corpo se estende com outro corpo, mas as almas, não. Os “especialistas” dizem que nos envolvemos com as meretrizes porque queremos uma mulher submissa, obediente, descartável e sem conflitos. Não parei para pensar nisso, ainda!

            No final da feira-livre reside o Senhor João Furtado Ribeiro, um idoso e brincalhão duende que, enquanto aguarda o encantamento final, vigia o portal de entrada dos antigos cabarés, a inicia-se no quarteirão da Rua Azul. Entre um trago e outro de uma forte aguardente, ele relembra: Fui motorista de praça e num fim de semana eu não parava um instante de trazer os fregueses para a Raimunda da Justina, a Maroca, a Naninha, a Alayde ou para a Casa de Diversão da Nair. Por aqui, numa temporada boa, chegava-se a ver centenas e centenas de mulheres para abastecer toda a região. A mais famosa delas foi a morena Cícera, na casa de Raimunda da Justina, todos queriam estar com ela. Triste era quando a polícia chegava, sempre às dez horas da noite, mandando todo mundo pra casa e trancavam até as portas dos terreiros de macumba. Certo dia, os policiais mataram um valente soldadinho do batalhão, afoito para brigar que nem lampião. Neste dia o cabaré se transformou num inferno, o 4º Bec sitiou tudo, ninguém saía, ninguém entrava.

            Enquanto nos bordéis de Roma, no desabrochar da Floralia, as mulheres dançavam com seus vestidos floridos, em homenagem a deusa Afrodite para principiar o sagrado festival de abril, na Raimunda da Justina o mais puro pé de serra troava com a sanfona, o triângulo e zabumba do sanfoneiro Vicente Pedro, fazendo com que muitos pés de valsas, exímios dançarinos, antecipassem o ritmo quente das lambadas nos animadíssimos cabarés dos Sertões de Crateús. 

            Há um hino chamado “Rancho de Amor a Ilha” que canta as belezas sem par de Florianópolis: "Um pedacinho de terra, perdido no mar!... Ilha da moça faceira, ternura de rosa, poema ao luar...” por lá, Ilha do Amor, um poeta matuto admirou-se de tantos bordéis, de tantas belíssimas gurias que aguardavam, calmamente, seus fregueses na noite de luar... E bateu uma imensa saudade do final da Rua João Tomé, com seus cabarés bucólicos, repletos de putas tristes...  

            Mas só é triste porque o amor humano sempre se reduziu a uma torpe luta de células, num asco prazer, através da matilha espantada dos instintos e que, em torpor, a poesia recebia a resposta sincera e honesta de uma bela meretriz: “Quanto a esse tal de amor / Guarde-o à alguém que o mereça / Ou jogue-o fora: esqueça, / Só nunca mais me ofereça / Algo que não me presta / Algo que eu nunca quis.”

 Raimundo Candido
José Alberto de Souza disse...
Anisio Silva, Cláudia Barroso e outras vozes do amor clandestino, quanto não alimentaram as ilusões de insensatos na penumbra das amarguras!

sábado, 25 de agosto de 2012

IMORTAL É A MENSAGEM!

Pitágoras proclamou: “Todas as Coisas são Números”. Os que se embrenham pelas florestas numéricas costumam sentir a mesma sensação dos bandeirantes: perscrutam, desbravam, descobrem e se extasiam com a novidade!

Também creio na numerologia! E foi com essa crença nos números que acolhi a incumbência, que é sempre uma deferência, emanada do nosso Presidente Seridião Correia Montenegro para lhes proferir estas singelas frases de efusão. É a nossa festa de aniversário e a mim me cabe saudar os neófitos.

Mirei no calendário nossa data de fundação: 25 de junho. Ano 2005. Se abstrairmos os dois zeros de 2005 também chegaremos a 25. Somando, 2+5 é igual a 7. Sete é o cabalístico número da perfeição. 

Aristóteles dizia que todas as coisas deviam sua existência à imitação ou à representação dos números.

Os pitagóricos também assentaram que é a masculinidade um número ímpar e a feminilidade um número par. Assim, a nossa Academia, sacramentada no altar matrimonial entre o dois e o cinco, nasceu sob o signo da pluralidade feita expressão singular, da unidade fiada na diversidade. 

A ciranda constitutiva da AMLEF exibe uma inaudita sintonia entre a construção rebuscada da erudição e a mais genuína inspiração popular. Em nossos convescotes literários têm desfilado, com igual relevo, a sílaba portentosa e o fonema singelo. 

Os córregos que deságuam neste Sodalício transportam tanto a água quimicamente impecável como a potável água das fontes cristalinas. 

E os que se abancam entre nós nesta noite memorável reforçam essa excelsa tradição. São pessoas oriundas de manjedouras distintas, porém trazem na alma as pilastras da essencialidade humanística da cidadania militante, que mesclam literatura e amor à livre criatura. Saramago já dizia que aonde vai o escritor vai também o cidadão.
É com fraternal prazer que anuncio: os cidadãos José Hilton Lima Verde Montenegro e Antônio Tarcísio Carneiro passam a compor a moldura de Acadêmicos Correspondentes da AMLEF. 

Da terra de Eleazar de Carvalho, Evaldo Gouveia e Humberto Teixeira, o engenheiro mecânico José Hilton, que também perambula pelos campos da filosofia e das letras, resolveu perscrutar a engenhosa mecânica da História. Produziu obras memoráveis. 

Antonio Tarcisio Carneiro é músico, compositor, poeta popular, cantor, contista e dramaturgo. Marinheiro de profissão, nunca olvidou os tórridos rincões de Santana do Acaraú. Por transpiração virou o Carneiro do Sertão. Mansamente se achegou ao nosso convívio. Hoje mansamente correspondemos seu afeto.

No nosso pórtico de honra, na categoria de Acadêmico Honorário, inscrevemos com reverente dignidade os nomes de José Augusto Bezerra, José Lins de Albuquerque e Francisco Eloy Bruno Alves.

Como o próprio nome consigna, o primeiro José tem a sensibilidade do carpinteiro de Nazaré e a augusta solenidade de um imperador romano. O mestre José Augusto Bezerra exibe talento multifacetário: escritura e empresaria, cultiva a bibliofilia e irradia filantropia. Agraciado com a Sereia de Ouro, pertence às mais destacadas Academias Cearenses, inclusive a mais antiga do Brasil. Meu destino eu mesmo traço: a fraternidade me deu régua e compasso – pode ele afirmar parodiando Gilberto Gil. 

Na pessoa do poeta Juarez Leitão, saúdo o meu conterrâneo José Lins de Albuquerque, um ser constelado que conserva a invariável expertise de bafejar com o incenso da competência os espaços por onde passa, poliu a mente e a alma nas montanhas das Minas Gerais. Certamente nas Alterosas apurou a visão aguçada, sedimentou o estilo sóbrio, fiou o jeito silencioso e disciplinou-se no rigor técnico. Pai de oito filhos, com 22 netos e dois bisnetos, o nonagenário, porém adolescente engenheiro, professor, poeta, contista e memorialista mergulhou nas águas plácidas da aposentadoria com a dignidade de um varão de Plutarco, dedicando-se ao culto da família e às delícias do espírito, escrevendo Contos Verdadeiros e Versos de Muito Amor & Outras Poesias.

A primeira reunião desta Arcádia em que me fiz presente ocorreu na Parangaba. Qual não foi minha surpresa quando surgiu ali a figura de um padre: Francisco Eloy Bruno Alves, hoje monsenhor da Igreja Ortodoxa. Àquela época profetizou, fazendo uso de uma parábola evangélica, que esta Academia se assemelhava ao grão de mostarda: embora a menor das sementes, lançada em solo fértil, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças. E este vôo imaginativo parece que, agora, ganha contornos de realidade. Após enfrentar problemas de saúde, Padre Eloy retorna à AMLEF.

Exibirá o Diploma de Acadêmico Emérito o jornalista Francisco Lima Freitas. Patrono do municipalismo no campo das letras, Lima Freitas preside o mais representativo sodalício de letras da Terra da Luz, a ALMECE (Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará). É um apóstolo da cultura, um missionário das letras, semeador de livros e um peregrino incansável da causa literária.

Para abrilhantar nossa bancada de Acadêmicos Efetivos oficializamos o ingresso do Padre Francisco Geovane Saraiva Costa, cadeira nº 8, Patrono Olavo Oliveira; da professora Michelly Barros Andrade Sousa, cadeira nº 15, Patrona Natércia Campos; e do doutor Francisco Régis Frota Araújo, cadeira nº 31, Patrono Antônio Bezerra de Menezes.

O Padre Geovane, que atualmente pastoreia em Fortaleza, aprendeu com dom Helder Câmara, nascido para as coisas maiores, a ser um peregrino da paz. Trabalhador incansável na messe do Senhor, o pároco da Parquelândia é também articulista, cronista e biógrafo. Adentra o nosso círculo para nos ensinar que o ódio e a paz, o simbólico e o diabólico, o céu e o inferno não são instituições alienígenas, mas forças que se debatem no universo do nosso ser. Padre Geovane bafejará este Sodalício com os fluidos da espiritualidade a fim de que nos voltemos, sempre, para os pensamentos superiores.

A professora Michelly Barros é uma heroína popular que seduziu o nosso Silogeu antes da admissão. Sua história de vida é um enredo épico. Muito mais que isso: uma indelével lição existencial. Um culto de amor à luta pela sobrevivência. Um hino à superação. Por mais de 17 anos erigiu sua trincheira nos morros de areia branca e vegetação abundante do Conjunto Santa Terezinha. Da pobreza extraiu beleza. Graduou-se pela UFC e abraçou a causa do magistério. Escritora e compositora, exalta a rica e autentica linguagem regionalista do matuto cearense. Nenhuma porta lhe foi aberta. Ela as abriu. Inclusive as desta Academia. Seu diploma foi confeccionado por uma matéria chamada merecimento. Parabéns, Michelly Barros Andrade Sousa! 

“Instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social” – eis uma parte do Preâmbulo da Constituição Brasileira, a nossa Magna Carta, o principal e um dos mais belos documentos do nosso ordenamento. A terceira cadeira será ocupada por um intelectual irrequieto, amante do direito constitucional, que já percorreu meio mundo estudando essa temática. O professor Francisco Régis Frota Araújo, mestre pela UFC, doutor pela Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, Presidente da Associação Ibero-Americana de Direito Constitucional Econômico, cujas produções técnico-jurídicas aliam rigor científico e brilhantismo literário, nos honrará com sua distinta companhia. 

Portanto, tomai assento entre nós, humanos livres e de saudáveis costumes! 

Aqui sentireis a camaradagem que contagia um modesto sodalício de destemidos militantes em defesa dos direitos da inteligência, que presta reverência aos ditames do Espírito, que busca cumprir os deveres do coração!

Vamos formar um pelotão de mãos conjuncionais. 

Vamos erigir um monumento ao belo, ao sagrado, ao essencial! 

Publiquemos, juntos, o édito da paz! 

A missão primeira de quem se entrega à tarefa de cunhar as sílabas oníricas é proclamar a civilização da claridade e o império do amor. Deixemos que esta Casa nos transforme em indeléveis centelhas da alegria, eternos operários das estrelas, perenes súditos da aurora! 

Rotulam-nos de imortais. Não o somos. Imortal é a mensagem daquele que consegue encravar sua escritura no solene pergaminho estampado no átrio do sonho humano. 
Para fazê-lo, precisamos emprestar as nossas mãos às invisíveis mãos do Insondável, algo que só é possível quando nos abrimos à iluminação. Por isso o espaço em que vos acolhemos chama-se Palácio da Luz! Assim, vos desejamos êxito no cumprimento deste múnus fulgurante! 

Fiat Lux! 

Viva a AMLEF!

(Discurso proferido por Júnior Bonfim na sessão de ontem da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza – AMLEF – no Palácio da Luz, Fortaleza, Ceará)

Raimundo Candido disse...

Um iluminado, que se irradia em verso e prosa, mas toda essa luz teve a chispa primeira nas brenhas dos Sertão de Crateús e no bucólico Curral Velho! Parabéns Junior Bonfim, um orgulho dos crateuenses!

                                         

                                                           A MÃE
           Olharam-se várias vezes. Em casa, ela gritou: “Era o meu filho!”.

Silas Falcão

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Botequim


              Era um prédio antigo que ficava na esquina da Rua Cel Zezé com a Rua Poeta José Coriolano de Souza Lima, no coração da cidade. O amarelo desbotado das paredes indicava um evidente desamparo e nas entradas laterais, escancaradamente encardidas, via-se o desleixo de cada oitão. Logo cedo, o desembaraçado Teófilo abre as portas do recinto. Alguns fregueses, sequiosos, já o aguardavam para reiniciar mais um dia de rojão etílico, e como nos aconselha o francês Baudelaire, bebamos para não sentir o terrível fardo do tempo que nos quebra os ombros e nos curva ao chão.
              De início, é só pinga-pinga de desocupados cidadãos. Alguém toma um trago fiado, soltam uma conversa mole de quem não infunde a mínima fé, e prossegue no descuido da vida. Os pinguços inveterados esticam o olhar rumo à porta, na esperança de que um (des)conhecido se apiede de seus nervos em frangalhos e lhes pague um trago.
                Na hora do Rush, enquanto os passos da humanidade giram para destrocar uma carcomida fome, um dos eixos móbeis do mundo, alguns agem como autômatos cumprindo uma penosa rotina, e se dirigem aos bares para aplacar a sede que os consomem.
               Enquanto Teófilo disputa uma porrinha de palitos fósforo com o Prof. Praxedes ( peculiar avis rara social ) e despacha outra cerveja a um velho freguês no balcão, um impaciente doutor pede um whisky na mesa. Já está habituado ao intenso movimento sem demonstrar a mínima aperreação.  Ouve-se um reclame, em estridentes berros que vem de uma sala reservada, lá atrás. São os funcionários da Coletoria Estadual que mastigam um litro de aguardente com um indigesto tira-gosto: — Oh, Teófilo, a panela de buchada até que está boa, mas este cheirinho de rato é que estraga tudo! E botequeiro se justifica:
               — Desculpem pessoal! Coloquei umas vitaminas para os ratos. Mas não se assustem, pois acho que dentro da panela, não caiu nenhum rato morto, não!
              Uma questão complicada nos bares é na hora de pagar o que se deve, é só falar em acertar uma conta que se estampa a alegria nos olhos dos donos dos botequins. Alguém pede para somar o débito, que já vem se acumulado há dias... A amnésia de bêbado é coisa notória e trivial: — Eu não bebi essas cervejas todas, Teófilo!  Mas um brincalhão, ali por perto, sempre tira um sarro da dúvida alcoólica:  — Ora, ora...a cerveja estava aí, geladinha, só esperando. Se você passou em frente ao bar e não entrou para beber... O Teófilo anotou!
               Alguns quarteirões dali, esquina da Rua da Pimenta, Elias Vieira, outro barmen show, atende com distinção e gracejos aos seus fregueses. Sempre que abre uma cerveja, dá umas embaixadinhas com a tampa da garrafa, demonstrando o talento e arte que lhe sobraram dos salões de dança, era um carrapeta. Uma vitrola solta a voz de antigos seresteiros para o deleite dos ébrios que regam a saudade do que nunca tiveram ou nunca terão.
              Um pé de valsa, já meio zonzo, cantarola a canção que só se efetua na veludosa voz do cantor Jessé, a grande atração da Boate do Louro da Cruz, logo mais: “Rimas de ventos e velas / vidas que vem e que vai / a solidão que fica e entra / me arremessando contra o cais”, e recordo-me dos colegas, barcos ébrios, que tentarão encher o tanque no botequim do Valmir, antes de ir ao show do Louro. Espero que Juracy, não engorde o olho mais uma vez e faça a polícia fechar o pobre Bar do Valmir, aonde temos direito a uma cuspidela ao pé do balcão.
              São diversos os pontos onde a população etilista ingere uma abrideira, o primeiro trago, passando pela saideira, a tangedeira até chegar a irremediável caideira. Na bodega do Luiz do Emídio, última estação da Frei Vidal, pode-se entrar, abrir a geladeira, escolher a loura mais gelada e apreciá-la sentado sobre o balcão.  Liberdade assim, nem na nossa casa. Já no Bar do Tio Onésio, sócio do Lourinho, é um clube de elite, embora esteja situado no Beco da cachaça, o pinguço de lá mostra um pedigree até nas feições do rosto, que o diga o bancário Júlio Menezes.
                Das classes de bêbados a mais desregrada é a dos poetas. Um deles ousou dizer: “O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico, o segundo é íntimo, o terceiro é rotina. Depois dele, você tira as roupas da moça” E de todos os poetas embriagados, o Velho Safado chamado Charles Bukowski bateu todos os recordes, era como se tivesse um carimbo na testa: Eternamente Ébrio!
              Por aqui, na terra da puríssima ou desdobrada Lagoa do Barro, um poeta tentou passar de consumidor a produtor de aguardente, mas as circunstâncias providenciais lhes tiraram as duas possibilidades e ele foi ser poeta-compositor-construtor. Nunca devemos lamentar que um poeta torne-se um bebedor, devemos lamentar sim, que nem todos os bebedores sejam poetas.
               Um dos mais antigos barman que se tem notícia no mundo chamava-se Eubulo, em 375 a.C. na antiga Grécia. Ele descreveu, com detalhes, como se conduz eficazmente um bar: As três primeiras taças de bebida são para os comedidos, a primeira é para saúde, a segunda para o amor e o prazer e a terceira para o sono. Devemos avisar aos consumidores que já basta e os persuadimo-los a ir para casa. Se insistirem em ficar, é exclusiva por conta e risco. Só avisamos, amigavelmente que a quarta dose pertence à violência, a quinta ao tumulto, a sexta, à folia, a sétima, aos olhos roxos, a oitava ao policial, a nona, à bílis e a décima dose à loucura e ao desespero. Sábio Eubulo!
               Depois que a Presidente(a) Dilma Rousseff presenteou o poderosíssimo Barack Obama com um litro de cana, de edição limitadíssima, no valor unitário de R$ 212. 000, 00, cheguei a conclusão, pelo bocado que bebi (Mais que um bocado!), de que já ingeri um rio de dinheiro.
                Para quem bem sabe, até a história do Brasil foi escrita sobre os tonéis de cachaças. Os irmãos portugueses quando caíram na besteira de proibir a nossa branquinha pela desgostosa bagaceira deles, transformaram a cachaça no símbolo de resistência ao Império Lusitano e vencemos, de copo na mão, mais uma guerra.
               Há quem diga que a nossa aguardente, a malvada, o mé, o engasga-gato, a água que passarinho não bebe, serve até de remédio: cura gripes, elimina os vermes, debela frieiras, espanta as tristezas e outras mazelas... Eu acredito! E despeço-me desta mesa de bar com mais um dito do velho vate bebedor Baudelaire: “ É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos!” Até e deixo, para não perder o costume, a conta dependurada no prego mais alto da prateleira.

Raimundo Candido
Silas Falcão disse...
Poeta Raimundinho, você me (re) conduzia aos bares da juventude. Com os amigos ou meu pai, tomei todas no bar do Teófilo. Seu Eliás, que tinha um filho que o chamávamos de Jerry Adrianne, foi outro bar da minha boêmia. Tinha também o Zé Artur, no bairro dos Venâncio. Bela crônica.

José Alberto de Souza disse...


ExcluirPara o santo, o primeiro gole derramo no chão e os outros vou distribuindo sem distinção. Agradeço esta alma caridosa que me pagar a conta.

Leitura em Noite de Gala


A Escola Estadual de Educação Profissional Manoel Mano tem o prazer de convidar Vossa Excelência a um passeio pelo mundo dos clássicos da Literatura Portuguesa e Brasileira.

 Data: 24-08-2012
Horário: a partir das 19:00h
Local: Rua Julio Lima, 2194

(SIC)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012




                                              NA MANSÃO

– Pai, o senhor compra uma coleção de crianças para eu brincar?

 
Silas Falcão

terça-feira, 21 de agosto de 2012



                                                      UTI
“Você sabe com quem está falando?” era o seu comportamento.
Hoje o seu coração pergunta: “Você sabe com quem está falando?”.
Silas Falcão

domingo, 19 de agosto de 2012

Avôhai


             Um poeta- cordelista-agricultor, lavrador de Cante Lá que Eu Canto Cá, entediado com tantas homenagens e títulos que lhe foram concedidos por diversas Instituições de Ensino Superior – cinco “Doutor Honoris Causa” – num repente de ocasião gorjeou com saudades da roça, onde matutava de inverno a estio afeito patativa, com foice e enxada na mão: “Chegando o tempo do inverno, / tudo é amoroso e terno, / sentindo o Pai Eterno / sua bondade sem fim. / O nosso sertão amado,/ estrumicado e pelado, / fica logo transformado / no mais bonito jardim.”
Ainda é um poético paraíso, mesmo com os apetrechos da modernidade que instalaram por lá: um amplo estacionamento de carros, um rumoroso bar, piscina azulada, campo de futebol e um grande salão de eventos. Mas o bonito e bucólico jardim era quando a branca casinha da Fazenda Pereiros, rodeada de frondosas algarobas, tinha um alpendre com um parapeito convidativo ao sossego da gente e não impedia que o olhar contemplativo, de quem se esticava numa alada rede de algodão, se deleitasse na visão aguada e aromal de um açudinho chamado Jaibara. Naquele lugar, dificilmente acharemos um pé de Pereiro, árvore nativa da caatinga nordestina, pois foram quase todos transformados em estacas de cercas, lenhas e carvão.
                Os primeiros meses de chuvas são bonitos de se ver, espontaneamente jorra um rejuvenescido sertão. Tudo verde, tudo alegre e a vida a brotar do chão. Na arejada varanda da fazenda, uma cena incomum já nem chama atenção dos habituais visitantes dominicais: um manso canário-da-terra se empoleira no punho de uma rede com varanda de crochê e trina reverenciando ao homem que ali está, majestosamente, deitado.  O Senhor Júlio Facundo de Menezes, com mansa serenidade a transbordar de um meigo olhar, demonstra infinita sabedoria que só subsiste na humildade dos que já nasceram sabendo viver. Contempla os meninos, que brincam inocentemente no terreiro e nota a ausência da Delite, a filha mais velha, que está sendo esmerilada carinhosamente pelos avós maternos, o fazendeiro João de Matos ( Pudidi) e a bondosa avó (Budidi), também sente a ausência, pelo vago olhar, de José e Antonio Belê, mas não no soberbo coração.
              Chama o mais irrequieto dos meninos, que se diverte com o irmão Wilson e pergunta, para mostrar o orgulho de pai, pela perspicácia de um filho precoce:
               – Oh, Joãozito, venha aqui e me responda, o que você vai ser quando crescer?
               O ingênuo menino ouvira falar que Dédalo para fugir do Labirinto, prisão do mitológico Minotauro, inventara um par de asas coladas com cera nas costas. E ruflaram, um sábio pai acompanhado do filho, o imprudente Ícaro, na busca de liberdade, rumo ao encontro da realização do sonho maior da humanidade: voar como os pássaros. E o menino resoluto, responde:
             – Papai, eu quero ser piloto de avião!
              Admiram-se todos, inclusive Vilebaldo Martins, um senhor careca, de riso solto, dono de um posto de gasolina, há muito amigo da família. E com voz grave, afirma:
             – Amigo, Júlio, eu tenho a impressão de que esse menino herdou toda impetuosidade dos Matos. Não tem uma gota da paciência dos Menezes, pois mal se desprega do chão para andar e já está é pensando em voar!
              Um cheiro de grão torrado atiça as narinas, é quando Dona Maria de Matos manda trazer um cafezinho quente que é servido com queijo coalho, acabado de sair da prensa. Com a resolução de quem é habituada a tomar decisões e emitir opiniões, anuncia:
             – Ano que vem, mandaremos os meninos para estudar em Fortaleza. As meninas vão para o colégio de Nossa Senhora do Sagrado Coração das irmãs Dorotéias, e os meninos vão se aplicar, para ser doutor. Já acertamos a viagem no caminhão do Sr. José de Alencar.
             Com a debandada dos filhos para o mundo, os pais padecem na expectativa dos mesmos, premeditam os sonhos e almejam um feliz regresso ao lar. O Joãozito, como ele mesmo profetizara, retorna como piloto da aviação comercial e avisa que chegará nas asas de uma assustadora e metálica esperança. Os amigos e familiares o aguardam, ansiosos, na Fazenda.
              Os galos das torres da igreja nunca haviam tomado um susto tão grande como o daquele voo rasante sobre a praça. No desfecho dos anos 40, foi o primeiro piloto crateuense a se exibir por aqui e se dirige como ligeiro falcão para os Pereiros, num espetáculo arriscado da arte de pilotar. Dizem que as galinhas ficaram sem nada para ciscar no terreiro, perdendo inclusive as penas depois que o aparelho passou lambendo a chão, onde há pouco um magricelo menino sonhava em pilotar um avião.
             Com a aeronave na pista de pouso do campo velho, mal se estira na rede da varanda para agradecer os calorosos aplausos, recebe ordens da mãe, Dona Maria, para deixar uma amiga que está mal de saúde, em Fortaleza. Mesmo a contra gosto, vai. Quem é ele, para desobedecer à índole rija da filha do poderoso João de Matos?
              Foi outra grande admiração, quando perceberam que, mal a alquimia do temperado almoço irradiava o aroma de um farto banquete no ar, o top gun indomável já estava de volta ao lar. Tinha a índole de um Santos Dumont nas veias, mas o destemor mitológico de Ícaro na alma. O mesmo inclemente sol que derreteu as asas do mitológico grego voador presenciou o nono acidente aéreo que o vitimou, carbonizado ao bater nos fios de alta-tensão.
              Um poeta português, das múltiplas personalidades, tinha razão quando disse: o nosso viver é um morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela. Dona Maria de Matos, também se fora. Sabemos que para se suportar melhor a vida devemos está pronto para, também, morrer. E a poesia da velha Fazenda Pereiros foi se apagando aos pouco!
              O transporte para a cidade era feito sobre um felpudo coxinil branco na cela de um alazão machador, treinado por Cícero Maçal, um exímio adestrador de cavalos. O Padrim Júlio constantemente vinha para a casa da Dona Delite, na cidade e neste sempre vir, foi ficando, para alívio do cruel isolamento, desafogo da solidão e alegria dos netos. Tínhamos bons momentos de recordação com as repetidas lembranças de Vovô, pois recordar antigas venturas ainda é um puro momento de felicidade. Até num resmungo infantil ele rezava na gente: “Cancão do bico torto do sobrecu arrebitado...” e a dor logo se ia.
             O Manoel Nene Martins Coriolano, um reservado advogado com licenciatura plena e total em História, foi quem me confirmou: – Raimundo, o teu avô era um grande historiador- memorialista e foi uma pena ter partido sem deixar registrado todas aquelas boas lembranças. Fez questão de me recordar uma delas, a história do Padre Verdeixa.
             Seu Júlio dizia que o Pe. Verdeixa, da região do cariri, depois de ordenado, mostrou-se ateu e sacrílego e por se meter em arrojados litígios políticos, sempre se opondo aos sistemas de governo, ficou um indivíduo homiziado, constantemente perseguido por Jacarandá, um alferes do Exército que seguia seu rastro por onde andasse.  Uma vez, no distrito de Siupê, em Caucaia, bateu à porta de um camponês, a quem pediu abrigo. A dona da casa estava em trabalho de parto, assistida por um feiticeiro. O Padre o expulsou e rabiscou umas breves palavras num papel, colocou o escrito dentro de um saquinho em forma de esculápio, pendurando-o, urgido de devoção, no pescoço da parturiente e quase que instantaneamente um novo ser veio ao mundo. A população ficou grata ao santíssimo homem. Verdeixa seguiu em frente com os agradecimentos monetários daquele humilde povo e o saquinho maravilhoso ficou de pescoço em pescoço realizando prodígios.  De tanto andar, o medicinal e milagroso esculápio descosturou-se. Alguém violou o segredo e leu com espanto o que achavam ser uma valiosíssima oração-forte: “ - Vamos passando bem, eu e meu cavalo, se quiser parir, poder parir! Se não quiser, pode morrer entupida! “
            Embora gostando de contar saborosas histórias como essa uma neta me afirma, a escritora Vera Lúcia Menezes, que Vovô assistia a todas as missas, compenetradíssimo, e no final da solenidade ainda beijava a mão do digníssimo padre. 
            Um dia, como os passarinhos, que ele gostava de alimentar na calçada da Rua Frei Vidal da Penha, como se soubesse o último dia de sua longa vida, deita-se, vira de lado e parte, sem dizer um adeus.
             De tudo resta um confidencial silêncio que reverencio, não com o trinado do extinto canário dos Pereiros, mas com uma composição magistral e emocionante voz do compositor Zé Ramalho: ” Um velho cruza a soleira /de botas longas de barbas longas / de ouro o brilho de seu colar...” Depois do instante silencioso, que por si é oração, só a música para me manifestar o inexprimível.  A alma enternece e as lágrimas caem. É o Padrim Júlio, pai e avô, como uma canção! “ Pares de olhos tão profundos / que amargam as pessoas / que fitar” Nos é retirado pelos anjos, num condolente fim de tarde, amabilíssimo Avô, Pai... “Oh! Meu velho e invisível Avôhai...   


 Raimundo Candido

José Alberto de Souza disse...
Que pena de mestre, varando a nossa sensibilidade com histórias emocionantes e transcendentes


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Trem

A praça se vestia de tarde
para acolher o trem,
e tudo tinha um gosto
de nublado algodão doce.
O impaciente olhar
 reduzia o horizonte,
antecipando um ritmo
que já vinha ao longe,
 veemente obra de arte
rimando com os trilhos.
A imensa cobra metálica,
sufocada na bitola,
arfava uma fumaça
asmática e branca
irada na fuligem,
 regressava à estação
                       para desafogar saudades,                     
         num magoado apito:       
- Piuuuíííí!!!

Raimundo Candido
academiadeletrasdecrateus.blogspot.com.br

Jose Maria Bonfim- medico cardiologista disse...
Não precisa falar da luz pura e não mitica que avulta de suas letras. A vida é assim. A sua mãe minha professora, a quem eu devo tanto, admirava-se da minha redação. Dizia que eu seguia meu tio Mons. Moraes, grande orador sacro e excelente poeta, eu sou mto pequeno diante do vulto do velho cura. Mas a mãe que olhva longe, não enxergava no seu regaço, o poeta maior e o cronista portentoso. Mas quando vc fala de trem, meu coração se apressa na lentidão molhada da saudade. Pediria sua licença para incluir sua poesia e sua bela cronica no livro que estou escrevendo pelo centenário da nossa velha Estação, a catedral onde meu pai pontificou e,lá onde eu viverei para sempre. Parabéns.

Raimundo Candido disse... 
Ilustríssimo Dr. José Maria Bonfim, sinto-me honrado com suas palavras, já que parte de um grande literato e lhe agradeço a consideração de colocar minhas singelas escritas no seu livro. Um grande abraço.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

DIDEUS SALES


O Poeta crateuense DIDEUS SALES participa do 4º Encontro de Cantadores Repentistas do Nordeste em Diadema, na Grande São Paulo. Hoje, dia 09/ 08/ 12, realizou uma Palestra na PUC para uma turma de Doutorando em Ciências da Oralidade. O encerramento será domingo, com um Festival de 12 Repentistas do Nordeste no Teatro Clara Nunes. Belíssimo voo, poeta Dideus, e por ser motivo de orgulho para nossa terrinha  e lhe damos os PARABÉNS!!!

Prêmio de Literatura



Revelar novos talentos e promover a literatura nacional são propósitos do 2º Prêmio Benvirá de Literatura de Ficção - 2012.
Com a finalidade de estimular a produção e divulgação das obras de escritores brasileiros, a Editora Saraiva institui o concurso, que também abre uma porta do mercado editorial aos estreantes: o livro selecionado será publicado e distribuído em todo o país.
Autores já publicados ou não, de nacionalidade brasileira, poderão participar inscrevendo uma obra inédita de ficção, de tema livre, escrita em língua portuguesa. Cada candidato poderá concorrer somente com 1 (um) original.
Caberá ao vencedor, além da publicação da obra pelo selo Benvirá, um prêmio deR$30.000,00 (trinta mil reais).
As inscrições deverão ocorrer no período de 09/08/2012 a 30/11/2012, somente através do site www.benvira.com.br

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Convite

O IDSAF apresenta a temática: 50 anos do Concílio Vaticano II e atuação de Dom Fragoso e os/as convida para participar da seguinte programação:
11 de agosto – sábado
- Apresentação da temática por estudantes de duas escolas Públicas
- Participação do Público
Local: Sede do Centro Dom Fragoso de Direitos Humanos
Horário: 19:30hs
12 de agosto – domingo
- Missa do aniversário de 6 anos na Catedral

terça-feira, 7 de agosto de 2012

S. Vicente e Sr. Pierre.


                                                                    (Jose Maria Bonfim Moraes)

Julho sempre foi o adorável mês para nós. Sem aulas. O mês de auroras mansas. De sol brando. De madrugada terna. Como era gostoso o mês de julho em Crateús. Porem um fato me marcou para sempre: a festa de S. Vicente de Paulo. A igrejinha de uma só torre, eu a descortinava da Praça da Estação. Construída com a dedicação e economias do Sr. Antonio Pierre Rocha de Aguiar, a cada julho realizava sua concorrida festa. Não sei porque,  em julho, quando a festa do santo é no mês de setembro. Hoje quanto de imenso era manter esta bela tradição. Vicente nasceu em Pouy, uma vila de Paris em 21.04.1581, falecendo em Paris em 27.09.1660. Foi presbítero aos 19 anos. Partiu para Marselha em busca de uma grande herança que herdou de uma rica viúva. Ele já se pungia pela pobreza. Na sua viagem de volta, sua embarcação foi assaltada, foi feito prisioneiro e mandado para Tunis. Foi feito escravo e martirizava-se nas terríveis galés. As galés cantadas em Navio Negreiro de Castro Alves. Retornou para Paris, como escravo. Foi livre. A sua piedade e a sua ternura pelos pobres encantou o Rei Henrique IV, que o fez capelão da rainha de Valois, Rainha Margot. Vendo a sua extremosa dedicação aos pobres, deu-lhe o Ministério da Caridade. Monsieur Vincent recebia mais verbas que o Ministério das Finanças. Enfrentou a oposição dos cardeais Mezarino e Richellieu, pela sua luta pelos pobres. Chegava a distribuir 2.500 refeições por dia. A sua vida de carisma e dedicação, o fez capelão da França. Em 1625 criou os Lazaristas ou Vicentinos, pregadores do homem do campo. Em 1633 juntamente com Frederico Ozanan criou as conferências Vicentinas. S. Francisco de Sales o chamava o santo do século.  Dom Bosco tinha  uma grande veneração por Francisco de Sales.  Dom Bosco criou sua congregação e a denominou de Salesianos. Vicente com Margarida Nesseau criou as Damas de Caridade. As senhoras de caridade. Com Luiza de Marilac as irmãs de caridade, educadoras talentosas e servidoras no mundo inteiro. Neste ano estive em Paris, na Rue Du Bac 340 onde se encontram os corpos incorruptíveis de Marilac e Cattarine de Labouré, na Casa da Medalha Milagrosa. Lá se venera um relicário com o coração bondoso de São Vicente. Leão XIII, o fez patrono de todos os movimentos caritativos da Igreja Católica. Já bem distante penso como é fantástico e dignificante o trabalho de Pierre Aguiar. Em uma cidade tão distante de Paris, um homem se dedica pela causa dos pobres. Sr Pierre merecia um olhar mais justo. Fui acólito na Igrejinha de S. Vicente, e presenciava o carinho, o denodo que aquele homem sisudo e calado, se debruçava sobre sua causa. Ele era de extremo amor aos menos felicitados da vida. No final da festa vinha Seu Pierre nos dar quantia em dinheiro para as nossas férias. Escrevamos a nossa historia. Não precisamos procurar ídolos em outros sítios, esta terra é rica em cidadãos nobres como o Sr. Pierre Aguiar.
Jose Maria Bonfim Moraes- médico cardiologista.

Perpetua Aguiar disse...
DR JOSÉ MARIA, OBRIGADA PELA LEMBRANÇA DO MEU QUERIDO AVÔ ANTONIO PIERRE ROCHA AGUIAR. A SUA HISTÓRIA DE VIDA, MUITO NOS ORGULHA!ABRAÇOS!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Goela Pagã


             É pela incompletude de minhas crenças que fico hesitante e céptico, duvidando até de que a Terra gire em torno do Sol. Desconfio que Deus ao criar a fé, em contrapartida, fez o diabo criar a religião, com indispensáveis regras e cerimônias inevitáveis.
             E é por longo silêncio, um legado da infância, que se me revelam as realidades abstratas e as concretudes incorpóreas, quando regresso de remotas eras. Como um arauto solene, o instante silencioso anuvia minhas guerras e proclama uma paz para minhas insociáveis inquietações.
             Tenho-O, por certo, como um sussurro dos ventos quando me oculto em cavernas, também nas sinfonias das águas que me chegam como um renovante dilúvio e respeito-O, intensamente, como ao fogo, guardião dos mistérios invisíveis, que me ilumina e me consome.
             Da terra, elemento primordial de que sou feito, princípio, meio e fim, acredito piamente na eternidade das pedras, como as pedras largadas da goela, num delirante estrangulamento do Itaim-assu, o rio aonde os Karatis saciavam a sede de vida e suavizavam a fadiga do imprevisível subsistir ao bacamarte dos colonos invasores.
             Karati não foi só um nome, foi uma família. Só podemos acreditar na existência daquilo que carrega um nome, como designação de linhagem. Há famílias que necessitam ainda de um complemento, um apelido para reforçar a estirpe: os taiocas, os pitombas, os macacos, os mocós, os bem-te-vis e os rabos-de-couro. Quando uma família não tem um nome leva pelo menos o apelido com insígnia, honrando a existência para gerações futuras. Cito o Domínio dos Pagãos, herdeiros dos karatis, que dominavam um tabuleiro arenoso, de vegetação rala e rasteira, com singelas casinhas de taipa ao lado de um majestoso campinho de futebol, tendo com trono as pedras esmeradas da Goela.
               Os rebentos caboclos, da nativa família, já nasciam com asas e escamas, com faro apuradíssimo do oportunista carcará e do atento socó, para a caça e para a pesca.  Herdaram, dos antigos moradores daquelas brenhas, o instinto e a perspicácia para sobrevivência, mas sempre renascendo no ressentimento de suas antigas misérias.
                Os pagãos pescavam nas pedras da goela, pescavam não, iam colhendo com as mãos na abundancia de peixes: os caris bodó, o mandis, o corrós, as piabas e pegavam somente o necessário para a subsistência diária, nos esconderijos, nas locas de pedras que ficavam imersas sob correntezas arriscadas. Sobre a confiante proteção da Mãe d’água, eles desconheciam até o medo, o maior de todos os perigos.
               Quando se matava a fome com chá de velame e pão do Zé Marques, comprados na bodega de Sr. Raimundo Fernandes, era uma beleza. O Chico Pagão em sua esperteza de alegre caçador, sempre trazia rolinhas pegue em arapucas ou uma fieira repleta de roliços preás tirados das gangorras engatilhadas nas trilhas do mato rasteiro. Era um grande dia de festa quando iam caçar pebas e quem não sabia estranhava aquele tambor que levavam, transbordando água. Cavavam o buraco até certo ponto e o inundavam com o líquido. Os coitados dos pebas saiam para tomar fôlego e, neste instante, eram feitos prisioneiros.
              Naquele fatídico dia, o irrequieto caçador Chico não imaginava que seu filho, endemoniado e furioso com uma faca na mão, tentaria matar o avô. Intromete-se para apaziguar a situação, mas recebe no corpo o desfeche de uma tragédia, apagando o sorriso nos lábios de quem achava que a vida uma eterna comédia. Os infortúnios que não suscitam terror provocam piedade, como o do Nenen Pagão, um garantido back central, zagueiro de talento que atuara nos times de futebol do Comercial, do Botafogo e do Cruzeiro, e se esquivara da morte por arma branca nas mãos de um neto, mas mergulha num copo como um velho mandrião e se entrega ao mal do século.
              A alegre Dona Fita, viúva do Nenen, aos 65 anos era uma atleta grandiosa, corria descalça pelas ruas, como a filha Olivia, uma campeã nata que ganhava todas as competições, todas as corridas promovidas pelo Lions Clube ou pelo 4º Bec e até na cidade de fortaleza. As dezenas de troféus e medalhas que enfeitam as paredes de seu quanto, comprovam uma força cromossômica que poderia elevar o nome de Crateús aos gloriosos pódios das Olimpíadas. Contabilize-se aí, mais um descaso, outro desapego dos olhos dos administradores públicos. No centenário da cidade, Emilia recebeu uma comenda municipal reconhecendo seu denodo e fibra, mas quando necessitava de um tênis para correr melhor, faltou-lhe a mão daqueles que podiam ajudar e não ajudaram, demonstrando a cegueira estúpida dos iníquos.
               Numa das últimas casas do Bairro da Ponte Preta, campo dos vencedores dos calungas, encontramos o Sr. Manoel, a se balançar despreocupado numa arejada rede e do alto dos seus 85 anos, o mais velho Pagão, afirma: “ Sou mais conhecido que cassaco”. É ele quem me esclarece o nome de Pagão na família.
              - Nosso patriarca chamava-se Francisco Magalhães, trabalhou muito tempo construindo a estrada de ferro que ia da cidade até o Distrito de Oiticica. Era época dos bolsões e muita gente escapava nas frentes de serviço devido a seca. Seu Chico resolveu casar e aproveitou a ocasião para também se batizar.
               Após a cerimônia do batismo cristão, quando o Pe. Juvêncio o aspergiu, com água benta, disse: Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém. Ali morria um nome e ressuscitou um Pagão. 
               Atroz contradição: o nome, no lugar de nascer; morre e, para uma futura família, herdeira dos primeiros habitantes das margens do Poti, fica somente um apelido sonoro a confirmar a linhagem de guerreiros, que se entrona nas lisas pedras da esplendorosa Goela, formando uma mágica e melancólica vila, o Reino dos Pagãos.
Raimundo Candido
academiadeletrasdecrateus.blogspot.com.br/

Jose Alberto de Souza disse...
Li e reli esse texto pleno de conhecimento intuitivo recolhido através de narrativas da gente simples do interior cearense, fiel às suas origens. Emblemática e oportuna a história da corredora que recebe a honraria da comenda do poder público, mas que não encontra uma mão estendida para lhe ajudar na compra de um tênis, lembra muito a situação atual de nossos atletas nessas Olímpiadas...