segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Cine Poti


 

Na década de 60, quando o cronista e professor Luiz Bezerra, num de seus passeios vespertinos pelos arredores de Cratheús, deu, ingenuamente, carona ao capeta, o dissimulado satã pediu-lhe para que arranjasse um emprego como fiscal do Mercado Público da cidade, pois estava a fim de mudar de vida e que fizesse o favor de levar um recado para o Dedé do Cinema: - Diga a ele que a sala 195, no inferno, é mais fresca que o cinema dele.  Ele não estranhará muito, quando estiver hospedado no meu hotel!   
O Cine Poti, do Dedé do Cinema na Rua Dom Pedro II, foi um marco e por muito tempo proporcionou lazer na cidade.  Embora as fitas, na sua maioria, fossem recheadas de pólvoras dos violentos faroestes, das estripulias de kung Fu ou do mais (im)puro e picante sexo explicito, aqui e acolá exibia um choroso melodrama como “Dio, come ti amo”, em preto e branco e um sucesso estrondoso de bilheteria. Assisti, logo na estreia, acompanhado da Eva Neide, no final do salão e em pé, pois a fila de entrada dobrava quarteirão e ficamos sem cadeira para sentar. Quando Gigliola Cinquetti cantou: Deus como te amo / Não é possível / Ter entre os braço / Tanta felicidade..  olhei, de soslaio, para minha querida namorada e  vi lágrimas escorrendo no seu rosto! O calor naquele salão era insuportavelmente agoniante, e acho que o capeta tinha razão em separar uma sala no inferno  só para o Dedé!
Na “Belle Époque” do Cine Poti foi quando assisti aos filmes do Tarzan, com a Jane e a macaca chita sempre ao lado, gritando como se tivesse uma caixa de ressonância no peito: - Oooooooohhh Oooooh Ooh! E há quem diga que foi o único triângulo amoroso do cinema que deu certo!
Quando o cinema era a principal diversão do crateuense, o Cine Poti vivia de casa cheia, todas as noites. Em 1974 o Dedé alugou um Kong Fu de sucesso, Shaolim vence Dragão, em dois rolos de filme de 16 mm. Foi quando o inverno isolou a cidade do resto do mundo, cortou todas as estradas. Depois de uma semana de pancadaria, de socos, de golpes, chutes e rasteiras entre os dois lutadores a bilheteria caiu e sem a possibilidade de pedir um filme novo. Dedé teve, então, uma feliz ideia, inverteu os rolos, colocou o segundo no lugar do primeiro e mudou o título do filme: “Dragão vence Saolim”. Foi outro grande sucesso, mas teve gente que saiu do cinema comentando: - Hai vai, eles fizeram um filme parecido que aquele que nós já assistimos!
Infelizmente o cine Poti fechou. Fatores diversos provocaram o seu fim, bilheterias fracas, exigências descabidas dos empresários que alugavam as fitas. Não havia lucro que suportasse as despesas! Foram mais de dez anos de portas cerradas.  As cadeiras empoeiradas foram as únicas espectadoras de um filme de abandono e solidão!
Mas, em toda cidade há um grande empreendedor com uma visão de oportunidade aguçada e, em Cratheús, esse honrado cidadão chama-se Osvaldo Melo, que além de empreendedor é um cinéfilo apaixonado e resolveu dar vida ao Cine Poti. Adquire o direito de usar o velho prédio com toda “infraestrutura”. 
O projetor de 35 mm com geração de luz a bastão de carvão, grafite coberto com cobre, manipulado pelo carequinha Zé Antônio que aproximava a barra positiva da negativa, gerando um potente arco voltaico, incidindo uma luz fortíssima num espelho côncavo refletida para a película, dando a impressão que uma leve fumacinha levava a imagem para o telão.
Foram diversos títulos de sucesso no novo Cine Poti: Dio, come ti amo, Lua de Cristal com a Xuxa, O Dia Seguinte, mas o povo continuava gostando era de Faroeste, kong Fu e sexo explicito.
Houve espectador que chamou mais atenção que os atores na tela, como o Louro da Ilha, ninguém sentava perto dele com medo de suas reações ao imitar os golpes dos lutadores, grita alto “Uuuuiiaá! Hiiiihá!” em cada acrobacia, pulo ou voo dos lutadores. Num determinado filme um chinês, de um salto só, atingiu o topo da árvore e o Louro se levantou da cadeira e gritau: Huuuura!!! Oh fela da gaita escrrroto!
O Seu Artagnan gostava era dos Faroestes, sentia-se um Bat Marteson com pistola no coldre, carabina winchester pendendo no ombro e, na volta para casa, cantarolava “No velho oeste ele nasceu e entre bravos se criou e uma lenda se tornou: Bat Marteson! Bat Marteson!
Mas, sem dúvida alguma, quem marcou época nas duras cadeiras da sala quente do Cine Poti foi Seu Doura.  Só assistia sexo explicito e do puro.  Era ele quem sugeria os títulos dos filmes que queria assistir: Moças com creme 1, 2 e 3, A mulher e o cavalo e os filmes com as atrizes Vera Fischer e Nicole Puzzi. Quando a fita tinha uma história comprida, uns falatórios sem fim, sem ir logo para os finalmente, Seu Doura ficava impaciente na cadeira e resolvia reclamar do dono do cinema, batia com o cabo do guarda-chuva na escadinha de ferro e gritava alto, chamando Osvaldinho pelo apelido: - Oh, Somalinha!!! Isso é filme para baitola!
Seu Doura gostava de sentar na sétima cadeira da sétima fila e chegava bem cedo para pegá-la desocupada. Algumas vezes encontrava um gaitinho sentado na sua cadeira e pedia para que saísse, mas se fosse o Lulu Melo a briga estava feita: - Saio daqui não, ora, ora! Tá pensando que aqui é um trem, que tem bilhete marcado? Naquele dia as cenas de pornô não satisfaziam a libido cinematográfica de Seu Doura. Na exibição de Moças com creme 3, Seu Doura se antecipou, foi bater na Loja Só Malha de Osvaldinho e exigiu: - Hoje quem vai abrir o cinema sou eu, quero ver se aquele cachorro se senta na minha cadeira. Lulu fica sabendo e vai antes ocupar a cadeira sete do Cine Poti. Seu Doura entra contente no cinema, pensando nas moças com creme e enxerga um vulto na sua cadeira predileta. O sangue sobe-lhe nas veias e arremessa o guarda-chuva no rumo do elemento que sempre perturbava a libido sexualmente cinematográfica de Seu Doura, que foi embora e nunca mais voltou.
Um dia encontrei um “estranho amigo” no Portão da Feira que me pediu para levar um recado para o Osvaldinho.  Fui logo cumprir a encardida missão.
Encontrei o Somalinha na sala de cinema particular da casa dele, ar condicionado, 52 cadeiras acolchoadas, projetor moderno como um belo título na entrada: Sala Charles Chapim. – Bom dia, mestre Osvaldo, que estás a pensar, tão solitário nesta sala?
- Bom dia, Professor. Estava rebobinando na memória os protestos de Seu Dora: -Somalinha, isso é filme pra baitola!
Depois de muitas gaitadas entreguei o árduo recado que estava incumbido de dar: - Você sabe, né Osvaldinho, quem só leva o recado não merece malho, mas o capeta mandou-lhe um convite  e disse que é sem direito a recusa, você fará companhia ao Dedé do Cinema na Sala 195 do hotel dele.
Tenho a impressão de que os dois empresários crateuense da sétima arte vão ter muito que relembrar, quando estiverem por lá!
Raimundo Cândido

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O desencanto das sereias




Um canto encantador ecoa dos paredões
Das entranhas do mar,
Cardumes em volúpia deixam de procriar.
O sussurro das correntezas marinhas
São as trilhas das sereias em volitação.

Elas vêm famintas e sedentas,
A sedução mágica atrai os homens
Para o amor letal. 
Ah! Homens do meu tempo,
Não se apaixonai pelas suas formas encantadoras,
Colhei a lágrima de seus olhos,
E desencantai seus encantos e seus cantos,
Não ficai à sombra dela,
Pois sua sombra é como o raio de sol
Tal como faísca de ouro
Para guarnecer sua cauda
Dos poderes dos homens.

E muitas sereias vieram
E ergueram suas vozes
E dedilhavam as cordas de suas harpas
E cantavam um canto enternecedor,
Mas os homens estavam surdos,
Pois um herói de outrora
Contara-lhe da voz gritante
Daquelas feiticeiras marinhas.
E os homens do mar
Tomados de súbita emoção
Fecharam os ouvidos com algas
Mágicas do fundo do mar de Poseidon.

Então elas cantaram.
E cantaram muito mais alto que o ruído das águas,
Que o som da canção e os suaves acordes das harpas
Reverberavam nas paredes dos penhascos
E multiplicavam-se e propagavam-se
Nas colinas envoltas no manto da noite
Que o mar deserto se encheu de melodia sob as estrelas.

Quando a música morreu
No horizonte das colinhas e do mar,
Em meio às estrelas brilhantes à margem do mundo,
Então se fez silêncio,
E no meio do silêncio,
Um grito desesperado se ouviu.

As lágrimas das sereias
Escorreram pelos seus seios humanos,
E se impregnaram nas escamas de suas caudas
E mulheres humanas se tornaram.
Elas não encantavam mais os homens,
E fizeram reverência ao mundo terreno,
E cada uma desprendeu a última escama molhada de lágrima,
Oferecendo aos homens,
Depois se apaixonaram
E se tornaram mortais.

O sol nascia
E mergulhava em uma grande nuvem branca
Que se erguia na extremidade do mar.
Fazia frio e o mar estava revolto
Uma tempestade se anunciava.

O vento estava pleno de açoites e gritos naquela manhã gelada.


Prof. André – 19/07/2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Edital de Convocação.



ACADEMIA DE LETRAS DE CRATHEÚS – ALC

A Academia de Letras de Cratheús convoca todos os seus 35 membros para uma Assembleia Geral que se realizará no dia 12 de Junho de 2017, Segunda-feira, às 19 horas, para eleição da nova Diretoria e do Conselho Fiscal desta agremiação. Esperamos o comparecimento de todos, na Rua Francisco Sá S/N, Praça Gentil Cardoso, Praça da Estação - Centro.
Raimundo Cândido
Presidente.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Umburaninha – A serra dos bodes.




O portal para a Serra da Umburaninha fica na altura do Riacho do Mato, depois de percorrer 20 km no asfalto, pela BR 404, entrei numa estradinha carroçável que penetra no miolo da maior mata de sabiá que eu já vi, até chegar à localidade Saco do Punga. O sabiazal do Purga vai se acabar, e rapidinho, pois observamos montes e montes de estacas, de um lado e do outro da estrada, como se a Caatinga fosse uma grande produtora de madeira.  Os rebanhos de bodes atrapalhavam a passagem e não foi só um não, foram diversos fatos, vistos ao longo do caminho. Grupos de 300 caprinos enchiam os olhos. E haja bode!
O guia, Clementino de botas, já me esperava na casa do pai dele, o Senhor João de Botas, no Punga. Mochila nas costas, com água, um punhado de sal, barrinhas de doces e a máquina fotográfica à mão, partimos rumo a mais um morro dos Sertões de Cratheús. E foram muitos: Picôte, Mambira, Furna 47, Buritizinho,Tiririca... Agora era a vez da Serra da Umburaninha ser escalada pelo Ribeira do Poti, um aventureiro de fim de semana.
Já começou difícil, a subida: a mata muito fechada pela invernada boa e o morro íngreme, todo revestido de pedras soltas, representando perigo de se rolar serra abaixo, junto com os blocos, além de não se ver onde pisava, pois o pega-pega, o quebra-faca entrelaçado, a urtiga, o carrapicho, o mato rasteiro encobria tudo e podíamos atropelar uma cobra, de uma hora para outra. Às vezes me agarrava no tronco de angico ou de mororó para não descer mesmo. Bem, eu confesso, a maior dificuldade não foi essa, foi ter que acompanhar o guia Clementino de Botas, acostumado a subir, quase todos os dias, o morro atrás de bodes. Ele escalava muito rápido para meu pulmão alquebrado e minha destreinada resistência, pelo sedentarismo de semanas inteiras sem fazer exercícios. O guia subia a áspera rampa com tal desempenho, que mais parecia um bode!
A visão que se tem do topo da Serra da Umburanhinha é deslumbrante. Dos mirantes pétreos apreciávamos o imenso tapete verde do sertão apatacado, aqui e acola, pelo brilho metálico de um açude. Umburarinha é cercado de outros montes, mas não impede a visão panorâmica de toda aquela região, de lá das alturas: Poço da Pedra, Várzea da Palha, Curral do Meio, Palmares, Simião, Curral Velho e chega-se a avistar, bem ao longe, no zoom da Nikon, a cidade de Cratheús .
A região é propicia para a criação de bodes. Nas pedras altas a gente vê as marcas redondinhas que eles vão deixando.  E sobem a serra como se caminhassem no plano, se fartam da verdura abundante, inclusive da rama do mororó e, à tardinha, descem sozinhos, para seus respectivos apriscos, na base da serra. Os bodes de outras regiões mais afastadas, às vezes, atraídos pela visão atrativa do Umburaninha, chegam até lá. Sobem e não descem mais. Ficam selvagens.  - Esses, contou-me o guia Clementino, a gente pega é a cachorro e no laço. Pronto. Quis saber logo da história de se pegar bode no laço e em cima da serra.
- Na semana passada, Seu Ribeira, notamos que tinha um bode selvagem aqui em cima. Era do Senhor Valmir Leitão, do Riacho do Mato, na beira da pista. Primeiro a gente descobriu a pedra onde ele ficava, para dormir e, no outro dia, subimos com os cachorros. Cachorro de bode é muito treinado, Seu Ribeira. Ele não morde a criação, só faz correr atrás e acuar em cima das pedras. Mas existem cachorros viciados em pegar bode, esses não prestam não. Eu já vi inimizade grande entre vizinhos, por causa de um cachorro assim. Quando os nossos cachorros pegaram a pista do bode, no faro, partiram feito uns doidos, só se ouvia o estalar dos galhos secos. Acompanhamos na mesma pisada, subindo rápido, senão o bode escapava e ficava mais selvagem ainda. Pelos latidos e pela berraria chegamos ao enorme bloco de pedra onde ele subiu para se proteger. Estava assustado, com os olhos arregalados no rumo dos cachorros, que não paravam de latir. É nesta hora que a gente tem que ser preciso, não pode errar no laço, que ele já está na indecisão do pula num pula, para fugir novamente. É até mais difícil do que laçar um boi no curral, pois não podemos fazer o giro para dá o rumo certo. Aqui, em cima da serra, com árvores e muitos galhos, é fazer pontaria e jogar o laço no pescoço do bicho.
À medida que contava a história da pega do bode, o guia Clementino não parava de caminhar e não quebrava um pau sequer a sua frente, abaixava-se, desviava-se dos galhos espinhentos, caminhava pisando na ponta das pedras e eu o seguindo atrás, ouvindo a saborosa narração e fazendo as mesmas estripulias para não ser rasgado pelos espinhos ou não deslizar das pedras. Perguntei: - E aí, Clementino, errou o laço e o bode fugiu, foi?  Ele parou, olhou para trás e afirmou, muito sério:
- Nunca errei a laçada de um bode, ou de uma cabra aqui em cima, Seu Ribeira! E o bode que fica selvagem uma vez não tem mais jeito não, tem que ir para o abate.
Tem um confrade da Academia de Letras que sempre me insulta: - Tu estás é virando bode, Oh Raimundo. Só vive atrepado nos morros e nas pedras, qualquer dia chega aqui na ALC é berrando!
Descíamos caminhado pela encosta abrupta, vendo o precipício como que a nos puxar lá para baixo, como fazem os caprinos, sem um pingo de medo de estar no topo da famosa Umburaninha, a serra dos bodes.
Seu João já nos esperava no Saco do Punga com um café bem quentinho. Despedi-me da família De Botas, peguei a estrada pelo que ainda resta do sabiazal do Punga e, inconscientemente, como aqueles refrãos de música que não saem de nossa cabeça, enquanto dirigia ia ouvindo um bordão característico: - Béeee.... - Béeee.... - Béeee....  Olhei em volta e não vi um bode sequer, ali por perto... Então, fiquei meio preocupado...  Será?         

Raimundo Cândido.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

BELCHIOR


           Notícias há que nos abalam as colunas d’alma, fazem lacrimejar os olhos do coração, emudecem os lábios do espírito...
          A partida de Belchior foi uma delas. Melhor: Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Ou, como ele, sorridente, gostava de dizer: o maior nome da Música Popular Brasileira. Brincadeiras à parte, trata-se realmente do mais alado e elevado letrista germinado no Brasil dos últimos cinquenta anos.
          Como Robert Allen Zimmerman, o Bob Dylan, ele inseriu nas partituras da MPB um idioma diferenciado, com novos contornos de expressão poética.
          O seu amigo e contemporâneo Guilherme Arantes bem pontuou: “Belchior, que eu não canso de homenagear de todas as maneiras, foi e sempre será o melhor letrista de canções transformadoras que já existiu. Uma mente privilegiada em cultura e de talento cortante e visceral”.
          Porém, não era apenas a sua inventividade apocalíptica, a floração de versos com mensagens revolucionárias, que me impressionava. Era, sobretudo, sua capoeira de sensibilidade, sua profunda ternura para com a singeleza, sua paixão para revestir com charme e elegância as situações mais simples. Em seu primeiro grande sucesso, Mucuripe, ele já sinalizava essa capacidade extraordinária ao revelar que, mirando o paletó de linho branco, via, antes, a flor do algodão: “Calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado, lá no campo ainda era flor” ...
         O ex-seminarista, que também perambulou no campus da Faculdade de Medicina e, depois, divagou pelos pátios da Filosofia, carregava no mais íntimo de si mesmo aquela inquietude particular dos reitores do espírito, dos enamorados da sabedoria, dos garimpeiros de asas, dos mineradores de sonhos.
          Era temerário, assaz temerário imaginarmos que ele seguisse a saga dos iguais, o roteiro dos comuns, a trilha dos mortais. Eis o óbvio: um homem que imaginava serem seus os braços que se abrem no Corcovado jamais se quedaria conformado às injustiças mundanas, à engrenagem perversa desse mecanismo inexplicável do massacre de uma alma humana por outra humana alma. A barbárie das relações, o embrutecimento do cotidiano, o império da força feriram profundamente a camada mais sensível da sua pele poética. Com efeito, ‘mais angustiado que um goleiro na hora do gol’, ele constatou que ‘veio o tempo negro e, à força’, fez com ele ‘o mal que a força sempre faz’.
          Mesmo assim, resolveu ‘viver a Divina Comédia Humana, onde nada é eterno’. Para os que diziam que estava vendo estrelas, ou que perdera o senso, resolveu afirmar que ‘enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto’.
           E o menino – ‘alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais’, que ‘adoçava o pranto no bagaço de cana do engenho’, criado entre ‘galos, noites e quintais’ - resolveu nos falar não das coisas que aprendeu nos discos, mas de como viveu e tudo o que lhe aconteceu. Desiludido com os ídolos, que ainda são os mesmos, desenganado com as aparências, que não enganam mais, proclamou que ‘viver é melhor que sonhar’ e confessou sua profunda dor: ‘saber que, apesar de termos feito tudo, tudo, tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais’.
          Certamente, por tudo isso é que Belchior escolheu os últimos outubros de sua caminhada terrestre para viver como havia iniciado seus passos da juventude: enclausurado. Na aurora da vida, pensava em se entregar à clausura teológica; no crepúsculo, à clausura filosófica. Em ambas pedras pensativas se destacava o mesmo diamante, a mesma fulgurância verdadeira: o mineral da complicação, a esmeralda labiríntica, o magnetismo do surreal!
        Como Franz Kafka, o maior escritor Tcheco, que só recebeu a coroa da glória após a morte, Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi batizado para viver a sina do sucesso póstumo.
          No nosso cancioneiro alguns reis magos da composição conseguiram a façanha de nos presentear com melodias bonitas, nas quais reluzem o ouro da filosofia, o incenso da profundidade e a mirra da reflexão. São profetas que nos apontam a estrela de um outro Reino. Suas músicas se incorporaram às partituras do nosso platô mais altruísta. Da clausura, a luz de Belchior ilumina todos eles.
Júnior Bonfim, poeta e advogado.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O Martim-pescador



                                                 
Um dia, não muito distante, acordei impelido por um desejo de “busca” que me induziu a pegar a estrada que leva ao Boqueirão do Poti, depois da Ibiapaba e, irrefletido, percorri léguas e léguas para saber que necessidade premente era aquela. Repentino, parei o carro, atravessei a linha férrea que corre paralela à estrada para o Distrito de Oiticica, e me dirigi ao poço do rio chamado Pesqueiro. Era onde, outrora, a Maria Fumaça matava a sede, para ganhar fôlego e seguir viagem para o Piauí. Ao me aproximar, cautelosamente, vi um Martim-pescador macho (Peito todo ferrugíneo) saíndo de um buraco, no barranco da beira do rio e, em seguida, a fêmea também escapuliu de lá.  Ficaram revoando e cantando estridente como uma matraca: Ta-ta-ta ti-ti-ti trr-trr-trr, bem longe do orifício no barranco. Como conheço bem esses espertos Martins, notei que estavam despistando, pois ali era o ninho onde iriam reproduzir. Compreendi: os ovinhos no ninho precisavam do calor dos corpos dos pais, 24 horas por dia e eu estava atrapalhando. Saí, rapidinho, dali.  Voltei para casa, com a mesma ausência no peito que eu tinha levado!
Recentemente, a mesma “carência” incompreensível me impulsionou a voltar ao Poço Pesqueiro. Desta vez fui equipado, linha, anzol e uma cadeirinha de pescador dissimulado. Queria mesmo era ficar na tranquilidade mágica da mata-ciliar do Poço Pesqueiro.  Abanquei-me sob uma enorme Canafístula e nem sequer joguei o anzol na água, fiquei admirando o estirão de água do Pesqueiro que se emendava com o Poço da Croa, lá onde o brilho do rio faz uma curva. Via-se, quase no horizonte, a passagem cortada na Serra Grande, o Boqueirão que a milênios o Rio Poti cavou no paredão pétreo para ir de encontro ao mar. Amazonas, São Francisco, Sena , Reno, Tigre, Nilo... Não há outro rio igual ao nosso Poti!  As fogo-pagou não paravam de cantar. Um Papa-arroz voava de moita em moita procurando o que comer, o pássaro boé provocava inquietação com seu canto onomatopaico: Kiiiii kocorôoo boéeee...  Três belíssimos Martins-pescadores revoavam, em majestosas piruetas pelo espelho d’água. As algazarras dos anus-pretos era uma anarquia só e sempre considerei esses pássaros negros destituídos de quaisquer boas maneiras. Depois que passei repelente nos braços, nas mãos e até nas orelhas os mosquitos deixaram de me perturbar.
De repente meus tímpanos vibraram com um som agudo e estrepitoso: - Thiiiii thiiiii thiiiii thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrrr ....  Não caí da cadeira por pouco! Foi muito perto, pensei até que meus ouvidos iriam estourar. Olho de lado e, assustado, percebo um grande Martim-pescador pousado num galho, a dois palmos de mim. Quando vi o pontiagudo bico preto, tal qual o punhal de lampião, deu uma dor nos olhos pela proximidade do perigo, uma gola muito branca brilhava ao redor do pescoço e abaixo, pelo papo, descia uma ferruginosa e sanguinolenta gola contrastando com o manto azulado que ele trazia nas costas. Era o dândi pescador! O Martim percebeu meu medo. Então, falou: - Não se assuste, oh Ribeira do Poti. Vim lhe agradecer! Você está vendo aqueles três Martins que treinam a pesca no leito do rio? Os dois menores são meus filhos sendo instruídos por minha esposa a sobreviverem nesta difícil vida! Naquele dia que você esteve aqui, era um dia de máxima necessidade de calor para os ovinhos e você compreendeu e foi logo embora, por isso estou aqui para manifestar minha gratidão. 
Era mais uma circunstância fora do normal aquela por que passava, são situações que estou até me acostumando. Eu não sei explicar... Soa estranho dizer, mas falar com jegues, com bodes, com pássaros está virando coisa de praxe, então aceitei o diálogo... Embora não seja normal, nem ao meu juízo, nem ao senso de alguns companheiros, como o historiador Flavio Machado, que já me sugeriu uma sessão com um psicólogo. Disse-me ele: - Tu só vive em cima das pedras, tu tá é virando bode! Tu fala com jegue, fala com cabras , compreende os pássaros, é amicíssimo das mariposas... Sei não, em?
Deixa pra lá! O Martim chamava minha atenção, tinha algo importante para me dizer.  Embora a voz soasse estridente  “Thiiiii thiiiii thiiiii thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrrr” no ar, eu compreendia o que ele falava:
- Ribeira, naquele dia, que você veio aqui sem saber por que, lembra-se? Quem lhe intimou foi a Potâmide, a ninfa do rio. Ela queria lhe testar e como você obedeceu nossa lei, saído para não perturbar o equilíbrio da natureza, ela ficou lhe admirando e agora mesmo lhe observa. O olhar por entre o capim, por trás dos galhos e das folhas nem sempre é de um passarinho. Você sabe disso, não é Ribeira?
- ...
Quis responder, mas as palavras não saíam da minha boca. Acho que o Martim entendeu pelos meus olhos arregalados o que eu queria dizer. E ele continuou:
- Ribeira, você está encantado pelos mistérios do rio, sabia?  E isso é bom e é ruim. Bom porque temos um grande admirador e um protetor do nosso ambiente, mas você deve tomar cuidado, não confie muito no que vê por aqui, os mistérios da natureza são traiçoeiros. A Potâmide e a Mãe D’água são muito possesivas e podem lhe transformar num socó, ou mesmo num cari-bodó, só para que você fique com elas. Cuidado, Ribeira!
O Martim Pescador, à medida que falava comigo, subia e baixava o rabinho, olhando para os três companheiros que revoavam na flor d’água. Notei que estava apressado e, por fim, despediu-se: - Até logo, meu amigo, você será sempre bem-vindo por aqui, agora me deixe ensinar aos meus meninos a se peneirarem no ar, disparando pela cloaca uma iscazinha de cuspe para as piabas emergirem. É quando mergulhamos rápido e subimos com o peixe no bico. Hasta la vista, Ribeira!
Só deu tempo ouvi a matraca estridente novamente, Thiiiii  thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrr, e já  percebi que os quatro Martins estavam juntos deslizando pelas águas do belo poço Pesqueiro.
Agora sim, eu estava feliz. Entendi aquela “ausência” estranha que me fazia ir aos poços do rio. Estava encantado pela ninfa Potâmide e pela Mãe D’água, que legal! Mas... Matutei! E se elas me transformarem num socó? Tudo bem, viveria pescando na beira do rio. E se fosse num cari-bodó?  Aí a coisa complicaria, acho que nem o meu amigo Martins, quando estivesse pescando, saberia que era eu! Vou ficar mais esperto e deixar de andar amiúde nos poços do rio!
Raimundo Cândido