sexta-feira, 17 de março de 2017

Pássaro/árvore



Pairavam no ar,
as verdes asas
de um pássaro-árvore  
que sonhava  
em águas pousar,
na contramão de Ícaro,  
e como peixe nadar...  
Na essência aquosa,  
de um etéreo refletido,  
amerissou,
como fantasia caótica  
embevecida por um devaneio.
E o verde barco naufragou,
foi se esvaecendo,
lentamente, e se diluiu
na translucida ilusão aquática.

Raimundo Cândido

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Lagoa do Manoel Costa



             
A história do sertão é feita de retalhos de memórias. Retalhos desbotados no tempo, relatos despedaçados que um bisavô narrou, repetidas vezes, ao avô e este, insistentemente, deu a conhecer ao pai que, esperançoso, repassou imagens fragmentadas ao filho distraído, que não tinha tempo de ouvir histórias.  A lembrança do sertão foi negligenciada pela última geração que só recorda da uma pontinha do fio da meada de uma mal contada historia.
Quando o entardecer desce sobre as terras exasperadas pelo sol, arrefece a paisagem rústica e ameniza a aridez do clima. Mas naquele ano, de 1984, as chuvas vieram mesmo para compensar a sequência de anos perversos que os céus enviaram ao Sertão de Cratheús. Ali, ao lado da imensa Lagoa, no alto de um morrote, onde fica um casarão de fachada rósea, com uma calçada alta, é lar do Senhor Manoel Costa e tudo estava um belíssimo Éden. As localidades que circundam o grande lago: Bela Vista, Graciosa, Grota Verde, Bonito, Arvoredo, Canto dos Pintos e, inclusive, o povoado de Éden, era uma verdejante alegria e aquiescente esperança. E, enquanto a tarde se dispersava no horizonte, o Senhor Manoel Costa mandara chamar o Antônio Adelino, um amigo e trabalhador das suas terras, para um costumeiro dedo de prosa. As marrecas, os patos selvagens revoavam pelo espelho da lagoa, de onde vinha uma suavizante brisa lacustre.
- Compadre Manoel, olhe quem vai passando na estrada, braiando na burra faceira. É o seu compadre Baltazar Elias e me parece que vai com muita pressa.
- Sim, amigo Adelino, neste tempo chuvoso todo mundo se apressa. Mas saiba, compadre, que o Baltazar Elias é o guardião de todas as histórias que aconteceram, e que ainda acontecem, ao redor da nossa lagoa.
- Já que você tocou no assunto, compadre, me diga se é verdade que ele arrancou mesmo uma botija lá do Alto da Véia Luiza? O povo acha que sim, pois ele, além de muito sabido, é um fino curador, um quase médico e nem raio, nem cobra, nem peste o derruba e até fala com quem já morreu.
- O Povo, como sempre, espalha histórias mal contadas, compadre. Nem o compadre Baltazar arrancou botija, nem a Véia Luzia da Rocha, que viveu por aqui, é aquela baiana Luzia Coelho da Rocha Passos que foi a dona de toda região de Cratheús. Foi tudo quase na mesma época, de mil setecentos e tanto, mas eram duas pessoas totalmente diferentes.
O senhor Manoel notando a curiosa perplexidade de Adelino, fez o favor de continuar a história: - O compadre Baltazar me contou toda a história da lagoa. A velha Luiza da Rocha era uma coronela muito rica. Tinha muitas terras, muito gado, muito ouro, muita prata e até uma senzala ela tinha. Como não havia banco naquela época distante, as fortunas eram enterradas em baús, ou em potes de barro, para se prevenirem contra os ladrões. A Véia Luiza possuía um escravo de confiança, um negro forte e destemido, que lhe obedecia na risca. Quando iam enterrar uma botija, levavam outro negro para ajudar na empreitada. O coitado ficava lá, enterrado junto com o tesouro, senão iria contar o local da botija. As assombrações da lagoa, que você disse que viu, são as almas destes pobres coitados, que foram enganados pela viúva velha. Ela era viúva de muitos maridos e matava os coitados por qualquer desobediência. O cruel negro, sempre ao lado dela, executava-os sem pena e sem dó! A Luiza da Lagoa era uma viúva negra das mais perversas. Um dia chegou um cidadão querendo se casar com ela. Ela aceitou, mas avisou que ele tinha que obedecer em tudo que ele mandasse, senão, senão. No inicio estava tudo as mil maravilhas, mas o cabra, disfarçadamente, estudava o ambiente. No dia em que Luzia se ausentou com o desalmado negro, o marido chamou um escravo e mandou que esse pegasse o famoso animal de sela da sinhá. Colocaram as cangalhas no burro de estimação e encheram de pedras, propositalmente, até o coitado quebrar o espinhaço de tanto peso. Quando a Véia Luiza chegou e soube do ocorrido, partiu com o capanga para matar mais um marido. O cabra já estava prevenido, matou o negrão a paulada, pegou a viúva negra, deu-lhe uma grande pisa de cipó e amarrou numa árvore em frente a fazenda, despida e só enrolada no couro do burro que ela tanto estimava. Aguentou uns dias, sem comer e sem beber, com o couro do animal secando no seu corpo. Algumas botijas já foram desenterradas, como você sabe, mas deve de ter mais por aí, pois as assombrações ainda perambulam pela Várzea da Lagoa, não é compadre Adelino?
- Sim. Sim compadre. Eu mesmo vi, umas três vezes, elas andando pelo ar, vi até a noiva de branco, perdida no meio do mato. Nunca me disseram onde tinha uma botija. Vi o buraco, onde tiraram uma, e num é que eu passava por ali, todos santos os dias. Até com a Maria dos Milagres, a escrava vaqueira da Véia Luzia que caiu de um cavalo e foi arrastada até morrer, eu me peguei, para que ela me mostrar o local de um tesouro enterrado no casco da lagoa.
- Pois é compadre, essa aí também é outra história mal contada. Eu cheguei a ver a cruz desta escrava que caiu do cavalo ao lado do poço do curtume, mas nunca foi milagrosa. A Maria dos Milagres, que é milagrosa mesmo, foi outra escrava que chegou por aqui, talvez fugindo do antigo dono, e estava muito doente. Amoitou-se, fez uma latada na beira da estrada e ficou por lá muito tempo. A senhora Francisca Soares de Moraes, sogra do compadre Baltazar, foi quem deu apoio a ela, levava alimento todo dia. Quando morreu, lá mesmo foi enterrada, e virou uma alma milagrosa, onde muitos se apegam e depois vêm acertar a paga dos milagres.
Os dois amigos, balançando-se nas cadeiras da calçada da casa rósea, miravam o extenso lagamar, com o dia já escurecendo, ouvindo o grasnar dos patos, vendo a revoada das marrecas e uma pálida luzinha que brilhava no espelho d’água da lagoa os fazia matutar: “O que será aquilo, em compadre?!”
Num entardecer, deste que descia sobre a terra exasperada pelo sol, arrefecendo a paisagem rústica e amenizando a aridez do clima, eu fui conhecer a famosa Lagoa do Manoel Costa. Estava esturricada de tão seca e caminhei até o Alto da Véia Luzia. De longe se via, no meio da Caatinga repleta de xique-xiques e mandacarus, um velho prédio abandonado onde funcionou uma escolinha municipal e um estranho jegue que perambulava por ali. Notei que ele não gostou muito da minha presença, ficou como que reclamando, andando impaciente, pra lá e pra cá. Vi os troncos dos mourões de aroeira, carcomidos pelo tempo, onde funcionou o antiquíssimo curral da velha fazenda da viúva negra. E o Jegue ali, uma marmota impaciente, incomodado com a minha presença.  Algo me prevenia que aquele quadrúpede estava era com lundu, e foi quando me lembrei do negro perverso da Viúva Negra. Apressei o passo e sai rapidinho dali, pois para coisas assim, as misteriosas assombrações da Lagoa, somente o mediúnico e corajoso Baltazar Elias é que sabia, e muito bem, como se livrar.

Raimundo Cândido

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O Casarão de Riacho Fechado




O Sertão de Cratheús foi construído como uma fabulosa epopeia, em longos e venturosos dias e outros tantos não tão esperançosos assim, de quando as secas cruéis abafavam a vida pelos povoados e, principalmente, pelo campo desamparado, parecendo não ter mais fim. O diferencial de tudo isso sempre foi o homem, foi o sertanejo de fibra que soube, com determinação e arrojo, e contra todas as vicissitudes impostas, enfincar o pé no chão, laborando, no seio da Caatinga, o pasto para o gado, o campo para aragem, um curral e um digníssimo lar.
As famílias, que vieram de Portugal, foram ocupando as terras cearenses, passando de geração em geração, num trabalho incansável, iam produzindo e fazendo o sertão crescer. Às vezes as terras mudavam de dono, como as do Bom Jesus, no Distrito de Irapuá. A localidade de Bom Jesus, onde corre o Riacho Fechado, que desemborca no Rio Tourão, pertenceu a José de Barros Melo, de Pelo Sinal, hoje, cidade de Independência.  José de Barros tramou, com o famoso cangaceiro Vicente Lopes da Caminhadeira, a execução de um dos Mourões, em plena festa de Natal, na Matriz da Serra dos Cocos, em ipueiras, mas isso é outra longa história. Bom Jesus passou para o Capitão José Francisco de Macedo, um importante ascendente do Pe. Macedo de Cratheús, até chegar às mãos do Coronel Antônio Machado, no início do Século XX.  A família Machado é uma das mais antigas de Portugal, da Casa dos Condes de Figueira, entre os Rios Douro e o Tejo, e que povoou o Nordeste Brasileiro. Pelo trabalho incansável, os Machados ganharam o apelido de “Rabo de Couro”, pois, fosse dia ou fosse noite, não tinham hora de parar uma faina, por mais dura que fosse.
O Cel. Antônio Machado, legítimo Rabo de Couro, dono de um mundo de terra e de centenas de cabeças de gado ainda morava numa taipa, por isso resolveu fazer uma casa, digo, um enorme casarão. Quem vê o sobradão, em Riacho Fechado, não acredita que em 1914 existiu arrojo para se construir aquilo, sem um pingo de concreto armado. Tijolos de 20 kg, assentados em resistente cal batido com casca de ovos, paredes da largura de um touro, linhas de aroeiras cortadas de árvores centenárias, uma alta escadaria em madeira trabalhada que leva a um belíssimo sótão e uma enorme mesa, de uns dez metros de comprimento, construída no próprio local e que nunca sairá, inteira, de lá.
O Coronel casou-se com três irmãs, as duas primeiras morreram, quando foi pedir a mão da outra, a Dona Francisca, o pai das meninas ficou assim meio receoso, mas cedeu: - Está bem coronel, eu lhe dou a mão de minha terceira filha! Mas essa é a última, em?  O rico fazendeiro andava sempre com um chiqueirador de relho cru na mão, para se fazer obedecer. Era a época em que se compravam títulos à Guarda Nacional e em consequência se adquiria um grande poder. Época dos votos de cabresto e o coronel dizia: “Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão!” Só aceitava mulheres mexendo na cozinha e quando gritavam: - Coronel, a comida está na mesa! Ai autorizava a um batalhão de gente, filhos, perfilhados e convidados a sentarem-se à mesa.
Acima de tudo, era uma boa alma, penalizava-se dos necessitados e auxiliava, indistintamente, quem lhe pedisse ajuda. Na seca do 15, os retirantes que passaram pelo terreiro da Fazenda Riacho fechado, enchiam a pança e ainda levavam víveres, rapadura e farinha, para impulsionar a longa e sofrida caminhada. Uma família com crianças, que rumava ao maranhão, ganhou até uma jumentinha para o leite dos meninos.
Em janeiro de 1926 a cidade de Cratheús viveu dias de sobressaltos, as pessoas estavam alvoroçadas, inquietas, com muito medo, pois surgiu a notícia de que os “Revoltosos”, da coluna Prestes, iriam passar pela cidade que já se preparava para recebê-los, e à bala! Muitos fugiram para as fazendas, um trem partiu na madrugada, lotado de crateuenses, mas teve que retornar de marcha ré, pois os dormentes da linha férrea tinham sido arrancados, e  muitos ganharam o mato, sem rumo. No Riacho Fechado, o fazendeiro Antônio Machado estava tranquilo, tinha um poder dado pelo título de coronel da Guarda Nacional, e montou uma tropa de 68 soldados, cada um com um papo-amarelo e munição suficiente para fazer uma guerra de dias, protegendo o Casarão dos Machados que já estava lotado de parentes e aderentes. Dizem que a Coluna teve sorte, pois passou bem longe do Casarão do Riacho Fechado.
No ano de 1929 o açude do Riacho Fechado estava seco, esturricando. A água, para os bichos brutos, era tirada de um cacimbão que já estava se esgotando, o gado morrendo e o fazendeiro se viu aperreado. E, no desespero, o coronel disse que ia comprar chuva, ou de Padre Cícero, ou de São Moises, que é o padroeiro das águas. Numa tarde de dezembro, apareceu uma nuvem carregada no nascente: - É aquela ali! Afirmou o Coronel. E se não vier logo eu vou puxar é com um cambito! Foi uma chuva bem localizada, oito horas sem parar, ouve um dilúvio no Riacho Fechado que o Rio do Tourão transbordou como nunca. O açude arrombou. Contam que os bichos, do topete dos bezerros para baixo, a enxurrada arrastou tudo. E quando serenou, viram cadáveres de criações dependuradas nas copas das árvores e esqueletos de animais nas moitas. O prejuízo na fazenda Riacho Fechado foi incalculável. As águas do Tourão desceram pelo leito do Rio Poti, assustando os ribeirinhos, levando as roupas que estavam nos quaradores.
Houve época desesperadora no sertão de Cratheús, até para o fazendeiro Antônio Machado da Ponte, como na grande seca de 32, quando ele mandou chamar a todos os moradores para um jantar no calçadão da fazenda, que estava lotado, e no final ele avisa: - Sim, eu mandei vocês virem até aqui para dizer que, estão dispensados dos serviços da fazenda. Não tenho mais condições de mantê-los, não! Procurem um meio de escapar, aconselho até a irem trabalhar na frente de serviços da linha férrea da Ibiapaba.  Nesta noite o coronel não dormiu, se revirava de um lado para outro, na cama. Na madrugada ainda, manda o mesmo negro, chamar a todos novamente, e agora para o café da manhã. Notaram uma incontida alegria e um brilho esperançoso nos olhos do coronel enquanto falava: - Desculpem, meus amigos, eu me arrependi! Vocês não vão embora mais não! Se tivermos que passar necessidade, será todo mundo junto. Olhou pra uma frase bíblica estampada no oitão da fazenda e, com reverência, rogou: Que Deus nos proteja!
O Coronel Antônio Machado foi um homem riquíssimo, além das terras e dos animais, possuía muito cobre, muita prata e muito ouro. Era um costume, na época, enterrar essas riquezas em baús revestidos de chapas de metal e muito bem escondido. E, quando o coronel se foi, deixou mistérios no chão do Casarão do Riacho Fechado. Num dos quartos só vê marcas corrosivas de muito sal vindo do mais profundo chão. Será que o coronel, como bom rabo de couro que foi, só deixou sal enterrado por ali, como símbolo da maior riqueza do homem: O sal do suor no labor das dignas fortunas ou o sal das lágrimas escorrendo pelo rosto na luta pela vida, o sal que dignifica o homem! Será?

Raimundo Cândido

sábado, 7 de janeiro de 2017

Pequeno Grande Poeta Breno Felix

A Academia de Letras de Crateús  teve a honra de receber o pequeno grande poeta Breno Felix, um talento imenso brotando na seara literária do sertão crateuense. Breno é filho de Luís e Paula Felix e agora passará a frequentar a biblioteca e o burburinho diário das nossas reuniões. SEJA BEM VINDO GRANDE POETA BRENO!

Minha mãe é angelical

À minha mãe PAULA

Minha mãe é especial, é sim,
É morena, é mulata, é sim,
Ela é, é meu anjo querubim,
Seus cabelos longos, pretos e lisos,
Ela é muito amorosa, afetiva e carinhosa.
Suas feições são redondas, bem, só o rosto,
Ela é meio baixa, tem o nariz pequeno,
Ela é meu anjo moreno.
Seu pé é trinta e seis,
Seus dedos um por vez têm tamanhos diferentes,
Igual de tanta gente
Para mim ela é mais que especial,
Minha mãe angelical.
Especial por toda vida,
Ela é muito amiga.
E não posso esquecer de seus olhos pretinhos, desejados por mim.
Breno Felix ( Grande Poeta!!!)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Humberto Paz - Um Poeta Engenhoso




Quem trafega pela CE 362, que transpassa o Distrito de Taperuaba, município de Sobral, observa um pico bem ao longe, do lado oposto à monumental Pedra da Andorinha, é a Serra da Caminhadeira. Lá viveu Vicente Lopes Vidal de Negreiros, o famigerado Vicente da Caminhadeira, um valentão chefe de um bando de cangaceiros e inimigo mortal de outro intrépido cangaceiro, o crateuense  Alexandre Mourão. As crianças de Taperuaba ouviam os mais velhos recitarem os versos que falavam da vida daquele facínora, com o famoso rifle canário na mão: “Quando o canário abre o bico / turva-se o tempo, meu bem / chore quem tem que chorar,/ que não sou pai de ninguém” 
                Por ali, um magérrimo menino, aproveitando uma enxurrada recente a escorrer no meio da rua, construía uma barragem de brinquedo, mostrando sua engenhosidade precoce, pois, de tanto ouvir os versos sobre o cangaceiro Vicente, confundia sua baladeira com um bacamarte e já se achava um destemido cangaceiro também, mas maturava mesmo era a laboriosidade e as artimanhas de um poeta Cancão, que se revelaria mais tarde.
                Mesmo com as agruras que a vida nos impõe, o jovem Humberto Paz, com sua eterna magreza, foi batalhar, foi estudar, foi subir os patamares que só os artimaniosos meninos conseguem alçar. Em Itapagé, onde viveu sua adolescência, deixou marcas nos bancos escolares e, com uma viola na mão, cantou Raul e Fagner pelas calçadas e bares da vida.  Depois de muito ralar e de muito penar, se viu com um diploma de Engenheiro na mão, carimbado pela renomada UFRN.
                E andou, e vagueou, ganhando experiências, sapiências, agudezas, enredos, ardis para a concatenação numérica e vocabular e, de tanto bater asas pelo mundo acabou pousando no sertão de Cratheús para construir a imensa Barragem do Realejo, mas isso ele já sabia fazer desde criança. Engenheiro laborioso, preciso no prumo e no olhar, foi deixando sua arte em tudo que se propunha a realizar. O Teatro Rosa Moraes foi um exemplo da exatidão métrica dos números e foi um reflexo arquitetado para que a cidade se orgulhasse de um monumento grandioso saído da mente de quem verseja os números e numera as letras.    
                E assim projetou, com carinho e afeto, a Biblioteca Norberto Ferreira, para os saborosíssimos livros que ele mesmo iria “devorar”, em honra ao avô que lhe apresentou a magia da leitura na campestre e bucólica Taperuaba. Projetou e construiu o Ginásio Poliesportivo Deromir Melo para que as crianças pudessem desenvolver suas irrequietas artimanhas com tranquilidade. Conseguiu erguer o interminável Terminal Rodoviário da cidade, e foi edificando um prédio aqui, estampando outro ali, e depois do benfazejo açude em Bom Jesus, assentou inúmeras barragens pelo sertão onde só se viam redemoinhos de poeiras, tudo isso como um caprichoso João de Barro que a tudo apura e averigua os prós e os contras, cristalizando, o que antes eram simples ideia no papel, em sólidas obras no ar.
                Um dia o destino gritou bem alto e disse: Te aquieta, Cancão! Tu tens agora outra missão! E um aneurisma na aorta apaziguou sua ânsia de concretizar os monumentos, para que ele, pacientemente, solidificasse os momentos da vida em arte e poesia. Disse-lhe um amigo, o Júnior Bonfim, também um poeta metido a bonachão: “É, meu camarada, os versos não têm idade. Alguns nascem, crescem, permanecem invisíveis, nunca perecem e, um belo dia, aparecem.”
                A poesia que vinha amadurecendo em Humberto Paz, estava engarrafada num tonel de carvalho como um bom vinho, vinha pegando textura e sabor de uma “uva” plantada lá na infância, talvez originados naqueles versos louvando o cangaceiro Caminhadeira, quem sabe.  E no seu livro intitulado “Quase Poesia” (Mas espia só!) saboreamos esse petisco: “ Dizem que o tempo não para, / porém não é bem assim! / Apesar do que parece, / Quem ama não envelhece. / O tempo lhe será leve / que nem a luz do luar, / o voar dos colibris... / Com toda sinceridade, / Sua maior felicidade / É ver o outro feliz”.
                Dizem que os bons poetas andam flutuando, percebem o mundo num ângulo de 180 graus e até parecem distraídos, mas, como o pássaro cancão do sertão, notam tudo, a tudo observem captando a essência e o cerne invisível das coisas que somente os seres iniciados em mistérios são capazes de ver. Chama-se Pareidolia, o estímulo vago e aleatório de enxergar o que não existe bem no seio na terra, no meio das nuvens, entre os galhos secos, nas pontas das pedras e foi na construção de um açude, enquanto uma máquina arrancava troncos e raízes que o construtor/poeta ordenou para o tratorista: - Para! Para! Para!  E retira do meio dos escombros um intrincado pedaço de raiz e diz que é um animal, um belíssimo teiú arborizado. O que num pensaram os coitados dos operários de uma situação daquelas! Culparam o sol quente, na certa!  E de lá pra cá nunca mais parou. Suas peças de resquícios da Caatinga, pedaços de paus e amontoados de pedras, é uma das mais belas coleções, obras de arte captadas no eito do sertão e intitulada: Natureza e Poesia.
                Um tronco de aroeira que parece um libidinoso bode bodejando, a ponta de uma estaca é um pangaré trotador e, se fosse para um bom artesão esculpir não ficaria igual, uma lasca de pau que é um peixe nadando no Rio Poti, um cipó encurvado é uma cobra pronta para dá um bote. Há uma tora de pau que é um boneco indecoroso com todos os apetrechos e penduricalhos de gente, tem um tal de cancaossauro, um tal cibitulino, um tal saciriema, um cavacopeixe, um dinoceronte todos de gravetos encurvados e os mais diversos objetos montados em pequenas pedras: Uma flor, um jogador de futebol, todas as marcas de carros já produzidos pela indústria automobilística estão lá, um fusca, o fiat, um ônibus, e diversos caros de luxo...
Bem, para explicar isso, só mesmo vivendo a vida que viveu o Dr. Humberto Paz, o famoso poeta Cancão, mas eu acho, penso eu, que foi um inútil capricho do destino, tirar um cidadão de uma vida produtiva na gloriosa engenharia, construindo obras utilíssimas, para coloca-lo no meio da sequidão dos açudes, nos leitos extenuados dos rios para procurar gravetos, raízes e pedrinhas... Sei não, esse destino é meio sem tino mesmo, eu acho!
Parabéns, poeta Cancão, engenhoso pelejador das palavras e grande artesão dos resquícios da Caatinga!

Raimundo Cândido