sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O Casarão de Riacho Fechado




O Sertão de Cratheús foi construído como uma fabulosa epopeia, em longos e venturosos dias e outros tantos não tão esperançosos assim, de quando as secas cruéis abafavam a vida pelos povoados e, principalmente, pelo campo desamparado, parecendo não ter mais fim. O diferencial de tudo isso sempre foi o homem, foi o sertanejo de fibra que soube, com determinação e arrojo, e contra todas as vicissitudes impostas, enfincar o pé no chão, laborando, no seio da Caatinga, o pasto para o gado, o campo para aragem, um curral e um digníssimo lar.
As famílias, que vieram de Portugal, foram ocupando as terras cearenses, passando de geração em geração, num trabalho incansável, iam produzindo e fazendo o sertão crescer. Às vezes as terras mudavam de dono, como as do Bom Jesus, no Distrito de Irapuá. A localidade de Bom Jesus, onde corre o Riacho Fechado, que desemborca no Rio Tourão, pertenceu a José de Barros Melo, de Pelo Sinal, hoje, cidade de Independência.  José de Barros tramou, com o famoso cangaceiro Vicente Lopes da Caminhadeira, a execução de um dos Mourões, em plena festa de Natal, na Matriz da Serra dos Cocos, em ipueiras, mas isso é outra longa história. Bom Jesus passou para o Capitão José Francisco de Macedo, um importante ascendente do Pe. Macedo de Cratheús, até chegar às mãos do Coronel Antônio Machado, no início do Século XX.  A família Machado é uma das mais antigas de Portugal, da Casa dos Condes de Figueira, entre os Rios Douro e o Tejo, e que povoou o Nordeste Brasileiro. Pelo trabalho incansável, os Machados ganharam o apelido de “Rabo de Couro”, pois, fosse dia ou fosse noite, não tinham hora de parar uma faina, por mais dura que fosse.
O Cel. Antônio Machado, legítimo Rabo de Couro, dono de um mundo de terra e de centenas de cabeças de gado ainda morava numa taipa, por isso resolveu fazer uma casa, digo, um enorme casarão. Quem vê o sobradão, em Riacho Fechado, não acredita que em 1914 existiu arrojo para se construir aquilo, sem um pingo de concreto armado. Tijolos de 20 kg, assentados em resistente cal batido com casca de ovos, paredes da largura de um touro, linhas de aroeiras cortadas de árvores centenárias, uma alta escadaria em madeira trabalhada que leva a um belíssimo sótão e uma enorme mesa, de uns dez metros de comprimento, construída no próprio local e que nunca sairá, inteira, de lá.
O Coronel casou-se com três irmãs, as duas primeiras morreram, quando foi pedir a mão da outra, a Dona Francisca, o pai das meninas ficou assim meio receoso, mas cedeu: - Está bem coronel, eu lhe dou a mão de minha terceira filha! Mas essa é a última, em?  O rico fazendeiro andava sempre com um chiqueirador de relho cru na mão, para se fazer obedecer. Era a época em que se compravam títulos à Guarda Nacional e em consequência se adquiria um grande poder. Época dos votos de cabresto e o coronel dizia: “Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão!” Só aceitava mulheres mexendo na cozinha e quando gritavam: - Coronel, a comida está na mesa! Ai autorizava a um batalhão de gente, filhos, perfilhados e convidados a sentarem-se à mesa.
Acima de tudo, era uma boa alma, penalizava-se dos necessitados e auxiliava, indistintamente, quem lhe pedisse ajuda. Na seca do 15, os retirantes que passaram pelo terreiro da Fazenda Riacho fechado, enchiam a pança e ainda levavam víveres, rapadura e farinha, para impulsionar a longa e sofrida caminhada. Uma família com crianças, que rumava ao maranhão, ganhou até uma jumentinha para o leite dos meninos.
Em janeiro de 1926 a cidade de Cratheús viveu dias de sobressaltos, as pessoas estavam alvoroçadas, inquietas, com muito medo, pois surgiu a notícia de que os “Revoltosos”, da coluna Prestes, iriam passar pela cidade que já se preparava para recebê-los, e à bala! Muitos fugiram para as fazendas, um trem partiu na madrugada, lotado de crateuenses, mas teve que retornar de marcha ré, pois os dormentes da linha férrea tinham sido arrancados, e  muitos ganharam o mato, sem rumo. No Riacho Fechado, o fazendeiro Antônio Machado estava tranquilo, tinha um poder dado pelo título de coronel da Guarda Nacional, e montou uma tropa de 68 soldados, cada um com um papo-amarelo e munição suficiente para fazer uma guerra de dias, protegendo o Casarão dos Machados que já estava lotado de parentes e aderentes. Dizem que a Coluna teve sorte, pois passou bem longe do Casarão do Riacho Fechado.
No ano de 1929 o açude do Riacho Fechado estava seco, esturricando. A água, para os bichos brutos, era tirada de um cacimbão que já estava se esgotando, o gado morrendo e o fazendeiro se viu aperreado. E, no desespero, o coronel disse que ia comprar chuva, ou de Padre Cícero, ou de São Moises, que é o padroeiro das águas. Numa tarde de dezembro, apareceu uma nuvem carregada no nascente: - É aquela ali! Afirmou o Coronel. E se não vier logo eu vou puxar é com um cambito! Foi uma chuva bem localizada, oito horas sem parar, ouve um dilúvio no Riacho Fechado que o Rio do Tourão transbordou como nunca. O açude arrombou. Contam que os bichos, do topete dos bezerros para baixo, a enxurrada arrastou tudo. E quando serenou, viram cadáveres de criações dependuradas nas copas das árvores e esqueletos de animais nas moitas. O prejuízo na fazenda Riacho Fechado foi incalculável. As águas do Tourão desceram pelo leito do Rio Poti, assustando os ribeirinhos, levando as roupas que estavam nos quaradores.
Houve época desesperadora no sertão de Cratheús, até para o fazendeiro Antônio Machado da Ponte, como na grande seca de 32, quando ele mandou chamar a todos os moradores para um jantar no calçadão da fazenda, que estava lotado, e no final ele avisa: - Sim, eu mandei vocês virem até aqui para dizer que, estão dispensados dos serviços da fazenda. Não tenho mais condições de mantê-los, não! Procurem um meio de escapar, aconselho até a irem trabalhar na frente de serviços da linha férrea da Ibiapaba.  Nesta noite o coronel não dormiu, se revirava de um lado para outro, na cama. Na madrugada ainda, manda o mesmo negro, chamar a todos novamente, e agora para o café da manhã. Notaram uma incontida alegria e um brilho esperançoso nos olhos do coronel enquanto falava: - Desculpem, meus amigos, eu me arrependi! Vocês não vão embora mais não! Se tivermos que passar necessidade, será todo mundo junto. Olhou pra uma frase bíblica estampada no oitão da fazenda e, com reverência, rogou: Que Deus nos proteja!
O Coronel Antônio Machado foi um homem riquíssimo, além das terras e dos animais, possuía muito cobre, muita prata e muito ouro. Era um costume, na época, enterrar essas riquezas em baús revestidos de chapas de metal e muito bem escondido. E, quando o coronel se foi, deixou mistérios no chão do Casarão do Riacho Fechado. Num dos quartos só vê marcas corrosivas de muito sal vindo do mais profundo chão. Será que o coronel, como bom rabo de couro que foi, só deixou sal enterrado por ali, como símbolo da maior riqueza do homem: O sal do suor no labor das dignas fortunas ou o sal das lágrimas escorrendo pelo rosto na luta pela vida, o sal que dignifica o homem! Será?

Raimundo Cândido

sábado, 7 de janeiro de 2017

Pequeno Grande Poeta Breno Felix

A Academia de Letras de Crateús  teve a honra de receber o pequeno grande poeta Breno Felix, um talento imenso brotando na seara literária do sertão crateuense. Breno é filho de Luís e Paula Felix e agora passará a frequentar a biblioteca e o burburinho diário das nossas reuniões. SEJA BEM VINDO GRANDE POETA BRENO!

Minha mãe é angelical

À minha mãe PAULA

Minha mãe é especial, é sim,
É morena, é mulata, é sim,
Ela é, é meu anjo querubim,
Seus cabelos longos, pretos e lisos,
Ela é muito amorosa, afetiva e carinhosa.
Suas feições são redondas, bem, só o rosto,
Ela é meio baixa, tem o nariz pequeno,
Ela é meu anjo moreno.
Seu pé é trinta e seis,
Seus dedos um por vez têm tamanhos diferentes,
Igual de tanta gente
Para mim ela é mais que especial,
Minha mãe angelical.
Especial por toda vida,
Ela é muito amiga.
E não posso esquecer de seus olhos pretinhos, desejados por mim.
Breno Felix ( Grande Poeta!!!)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Humberto Paz - Um Poeta Engenhoso




Quem trafega pela CE 362, que transpassa o Distrito de Taperuaba, município de Sobral, observa um pico bem ao longe, do lado oposto à monumental Pedra da Andorinha, é a Serra da Caminhadeira. Lá viveu Vicente Lopes Vidal de Negreiros, o famigerado Vicente da Caminhadeira, um valentão chefe de um bando de cangaceiros e inimigo mortal de outro intrépido cangaceiro, o crateuense  Alexandre Mourão. As crianças de Taperuaba ouviam os mais velhos recitarem os versos que falavam da vida daquele facínora, com o famoso rifle canário na mão: “Quando o canário abre o bico / turva-se o tempo, meu bem / chore quem tem que chorar,/ que não sou pai de ninguém” 
                Por ali, um magérrimo menino, aproveitando uma enxurrada recente a escorrer no meio da rua, construía uma barragem de brinquedo, mostrando sua engenhosidade precoce, pois, de tanto ouvir os versos sobre o cangaceiro Vicente, confundia sua baladeira com um bacamarte e já se achava um destemido cangaceiro também, mas maturava mesmo era a laboriosidade e as artimanhas de um poeta Cancão, que se revelaria mais tarde.
                Mesmo com as agruras que a vida nos impõe, o jovem Humberto Paz, com sua eterna magreza, foi batalhar, foi estudar, foi subir os patamares que só os artimaniosos meninos conseguem alçar. Em Itapagé, onde viveu sua adolescência, deixou marcas nos bancos escolares e, com uma viola na mão, cantou Raul e Fagner pelas calçadas e bares da vida.  Depois de muito ralar e de muito penar, se viu com um diploma de Engenheiro na mão, carimbado pela renomada UFRN.
                E andou, e vagueou, ganhando experiências, sapiências, agudezas, enredos, ardis para a concatenação numérica e vocabular e, de tanto bater asas pelo mundo acabou pousando no sertão de Cratheús para construir a imensa Barragem do Realejo, mas isso ele já sabia fazer desde criança. Engenheiro laborioso, preciso no prumo e no olhar, foi deixando sua arte em tudo que se propunha a realizar. O Teatro Rosa Moraes foi um exemplo da exatidão métrica dos números e foi um reflexo arquitetado para que a cidade se orgulhasse de um monumento grandioso saído da mente de quem verseja os números e numera as letras.    
                E assim projetou, com carinho e afeto, a Biblioteca Norberto Ferreira, para os saborosíssimos livros que ele mesmo iria “devorar”, em honra ao avô que lhe apresentou a magia da leitura na campestre e bucólica Taperuaba. Projetou e construiu o Ginásio Poliesportivo Deromir Melo para que as crianças pudessem desenvolver suas irrequietas artimanhas com tranquilidade. Conseguiu erguer o interminável Terminal Rodoviário da cidade, e foi edificando um prédio aqui, estampando outro ali, e depois do benfazejo açude em Bom Jesus, assentou inúmeras barragens pelo sertão onde só se viam redemoinhos de poeiras, tudo isso como um caprichoso João de Barro que a tudo apura e averigua os prós e os contras, cristalizando, o que antes eram simples ideia no papel, em sólidas obras no ar.
                Um dia o destino gritou bem alto e disse: Te aquieta, Cancão! Tu tens agora outra missão! E um aneurisma na aorta apaziguou sua ânsia de concretizar os monumentos, para que ele, pacientemente, solidificasse os momentos da vida em arte e poesia. Disse-lhe um amigo, o Júnior Bonfim, também um poeta metido a bonachão: “É, meu camarada, os versos não têm idade. Alguns nascem, crescem, permanecem invisíveis, nunca perecem e, um belo dia, aparecem.”
                A poesia que vinha amadurecendo em Humberto Paz, estava engarrafada num tonel de carvalho como um bom vinho, vinha pegando textura e sabor de uma “uva” plantada lá na infância, talvez originados naqueles versos louvando o cangaceiro Caminhadeira, quem sabe.  E no seu livro intitulado “Quase Poesia” (Mas espia só!) saboreamos esse petisco: “ Dizem que o tempo não para, / porém não é bem assim! / Apesar do que parece, / Quem ama não envelhece. / O tempo lhe será leve / que nem a luz do luar, / o voar dos colibris... / Com toda sinceridade, / Sua maior felicidade / É ver o outro feliz”.
                Dizem que os bons poetas andam flutuando, percebem o mundo num ângulo de 180 graus e até parecem distraídos, mas, como o pássaro cancão do sertão, notam tudo, a tudo observem captando a essência e o cerne invisível das coisas que somente os seres iniciados em mistérios são capazes de ver. Chama-se Pareidolia, o estímulo vago e aleatório de enxergar o que não existe bem no seio na terra, no meio das nuvens, entre os galhos secos, nas pontas das pedras e foi na construção de um açude, enquanto uma máquina arrancava troncos e raízes que o construtor/poeta ordenou para o tratorista: - Para! Para! Para!  E retira do meio dos escombros um intrincado pedaço de raiz e diz que é um animal, um belíssimo teiú arborizado. O que num pensaram os coitados dos operários de uma situação daquelas! Culparam o sol quente, na certa!  E de lá pra cá nunca mais parou. Suas peças de resquícios da Caatinga, pedaços de paus e amontoados de pedras, é uma das mais belas coleções, obras de arte captadas no eito do sertão e intitulada: Natureza e Poesia.
                Um tronco de aroeira que parece um libidinoso bode bodejando, a ponta de uma estaca é um pangaré trotador e, se fosse para um bom artesão esculpir não ficaria igual, uma lasca de pau que é um peixe nadando no Rio Poti, um cipó encurvado é uma cobra pronta para dá um bote. Há uma tora de pau que é um boneco indecoroso com todos os apetrechos e penduricalhos de gente, tem um tal de cancaossauro, um tal cibitulino, um tal saciriema, um cavacopeixe, um dinoceronte todos de gravetos encurvados e os mais diversos objetos montados em pequenas pedras: Uma flor, um jogador de futebol, todas as marcas de carros já produzidos pela indústria automobilística estão lá, um fusca, o fiat, um ônibus, e diversos caros de luxo...
Bem, para explicar isso, só mesmo vivendo a vida que viveu o Dr. Humberto Paz, o famoso poeta Cancão, mas eu acho, penso eu, que foi um inútil capricho do destino, tirar um cidadão de uma vida produtiva na gloriosa engenharia, construindo obras utilíssimas, para coloca-lo no meio da sequidão dos açudes, nos leitos extenuados dos rios para procurar gravetos, raízes e pedrinhas... Sei não, esse destino é meio sem tino mesmo, eu acho!
Parabéns, poeta Cancão, engenhoso pelejador das palavras e grande artesão dos resquícios da Caatinga!

Raimundo Cândido

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

José Maria Moreira do Bonfim



Minha Homenagem ao Mestre José Maria Moreira do Bonfim, patrono da cadeira Nº 33 da Academia de Letras de Crateús, ocupada por mim (Professora Lindalva F Carvalho e Machado)

José Maria Moreira do Bonfim nasceu em Crateús, no dia 16 de novembro de 1911, filho de Manoel Moreira do Bonfim e de Maria Teodora Bonfim. Foi o primeiro crateuense ilustre nascido neste município logo após sua elevação a categoria de cidade, fato histórico que marca a data de 15 de novembro de 1911.
Desde cedo, o pequeno José Maria já demonstrava vocação para o sacerdócio, fato que não passou despercebido pelos astuciosos olhos de Dom José Tupinambá da Frota, Bispo Diocesano de Sobral que incentivou o mesmo a ingressar no seminário, fato que se realizou em julho de 1929.
No Seminário Diocesano de Sobral, José Maria fez curso preparatório para a carreira eclesiástica e em 1934 ingressou no Seminário Maior da Arquidiocese de Fortaleza, conhecido como Seminário da Prainha, ordenando-se no dia 26 de novembro de 1939. Depois que recebeu a ordem, celebrou sua primeira missa na Igreja Matriz do Senhor do Bonfim em Crateús e tornou-se Vigário Cooperador da Paróquia de Sobral durante os anos de 1940 e 1941. Em 1942 foi nomeado Vigário da Paróquia de Massapê, cargo oferecido por Dom José, como reconhecimento pelo excelente trabalho desenvolvido pelo sacerdote na organização do Congresso Eucarístico Diocesano de 29 de junho de 1941. O jovem padre permaneceu em Massapê até 1943 e no dia 1° de janeiro de 1944, assumiu as funções de Vigário de Crateús, onde atuou até 18 de abril de 1969.
Em Crateús, comprou a Escola Normal Rural; fundou o Patronato Senhor do Bonfim e o Ginásio Pio XII; construiu a Maternidade das Senhoras de Caridade e o Salão Paroquial; ampliou as instalações do Cemitério São Miguel; iniciou a construção da Igreja de São Francisco e reformou várias capelas; realizou diversas reformas na igreja Matriz fazendo-a crescer no sentido da Rua Carlos Rolim, dando ao templo o formato de cruz, depois, empenhou-se na criação e instalação da Diocese de Crateús.
Em janeiro de 1965, recebeu de Dom Fragoso o título de Monsenhor. No entanto, surgiram muitas divergências entre os conceitos conservadores do vigário e as ideias liberais do Bispo. Foram muitas as dissensões entre Dom Fragoso e o Padre Bonfim, de forma que foi deposto do sacerdócio no dia 18 de abril de 1969.
José Maria casou-se no dia 09 de dezembro de 1975 com Joaninha Azevedo do Bonfim. José Maria Moreira do Bonfim escreveu muitas páginas sobre a História de Crateús, escritos que deram origem ao livro “História da Paróquia de Crateús: uma visão de longa caminhada” que foi publicado pela Editora e Gráfica Qualygraf em 2003 como obra póstuma. Padre Bonfim faleceu no dia 16 de novembro de 1994, ao completar 83 anos de idade.
Professora/escritora  Lindalva F Carvalho e Machado

sábado, 22 de outubro de 2016

SALVE, RIO POTI!...


Da fonte à foz
Cantou-te, um dia, o poeta.
Tuas águas, tuas lendas... De amor
A alma repleta.
*
Cobra de vidro, serpenteia intrépido
Pelos estertores da caatinga.
Geraste urbes e estâncias mil
E o tesouro que em teu seio vinga.
*
Contrariando a lógica natural,
Contra a alta montanha arremeteste,
Majestoso, nessa luta desigual,
Tens a glória da batalha que venceste!
*
É que numa epopeia magistral,
Apoteose das façanhas tuas,
Rompeste, um dia, a grande cordilheira,
Partindo-a simplesmente em duas...
*
O esplendor que teu percurso encerra...
Não verás outra ribeira que se iguale...
As belezas naturais rasgando a Terra
E as riquezas do fecundo vale.
*
Desta linda princesa és pai zeloso.
Crateús é tua filha mais garrida.
E a ti deve o seu porte grandioso,
Toda a honra, toda a glória, sua pompa... sua vida!
*
Sonhaste um dia, bravo Poti,
Com tuas águas cristalinas e peixinhos aos milhares,
A jorrar por entre as pedras e sentir
Preservadas tuas matas ciliares.
*
Sonhaste um dia, bravo Poti,
Com varandas, balaustres e jardins,
A contemplar tua beleza sem igual,
Por entre rosas, bouganvilles e jasmins.
*
Mas os teus filhos te viraram as costas.
Na fluidez do tempo sofreste mil revezes.
Em vez de varandas, construíram fossas.
Em vez de flores, te ofertaram fezes!
*
Poderíamos desfrutar de teus encantos,
Nossos corpos degustando a doce brisa,
Tuas lendas, teus mistérios... E no entanto
O que vejo é o bravo rio que agoniza.
*
Poderíamos te amar como nos ama...
De um amor com que abraças Crateús.
Por desdita, só recebes lixo e lama,
Como o Cristo foi pregado numa cruz!
*
Porém espero, um belo dia, bravo Poti,
Ver a nossa consciência iluminada.
Que teu povo possa, enfim, se redimir!
Então salvar de um triste fim, tua jornada!...
***
Humberto Paz.
(Crateús-CE., 22/10/2016)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

1ª FLIACE

Festa Literária da ACE- Associação Cearense de Escritores - Benfica 3 / 4 / 5 de Novembro
Coordenação do presidente da ACE: Silas Falcão.
E o Poeta Dideus Sales será o digno representante da Academia de Letras de Cratheus- ALC.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

João Calunga – Estrela Solitária





O lugar mais bonito do mundo, atestam alguns saudosistas, é aquele que trazemos guardado no recôndito do coração. Esse belo ambiente, habitualmente, é uma colina repleta de árvores frondosas, com uma ligeira declividade para um rio que abranda o clima, que revitaliza a fauna e reaviva a flora verdejante. Todo local com essas características é, naturalmente, designado de Boa Vista. No Sertão de Cratheús existiu a fascinante Boa Vista dos Correias, que ficava no começo da  estrada carroçável e que é a continuação da Rua Frei Vidal da Penha, a antiga estrada principal de quando éramos um povoado chamado Príncipe Imperial. Um paraíso predestinado às deslumbrantes paisagens, às telúricas poesias e ao celeiro de gente da mais alta estirpe.
Ali, no patamar da Boa Vista, no inicio do Século XIX, o poeta José Coriolano, mal entrara na adolescência dos 14 anos, já ruflava asas sonhando com um longo voo ao sem fim do mundo poético. Naquele terreiro de fazenda, muitos anos depois, Cícero Marçal, o encantador de cavalos, confabulava com seus equinos machadores para que orquestrassem os passos no desfile pelas ruas da cidade, como se fosse num grande picadeiro de circo.
Ali, naquele bucólico sertão, na casa da Dona Iaiá, mãe do menino João, um radinho de pilha tocava as músicas da Jovem Guarda nos anos 60 e, aos domingos, se juntava um grupinho de rapazes, para torcer pelo Botafogo carioca, onde um tal de Mané Garrincha fazia as suas estripulias, dançando com a bola no pé, deixando os adversários tontos de tanto dribles desconcertantes.
Num campinho, entre as moitas de mufumbo e espinhentos mandacarus, um menino de 14 anos já mostrava as habilidades de Garrincha e alimentava um sonho.  Sonhava como o poeta Coriolano sonhou, em levantar um longo voo, do patamar da Boa Vista rumo ao sem fim do transitório mundo da bola de futebol.
Às vezes, inexplicavelmente, a fatalidade interrompe a fantasia das crianças. E o destino não quis que o sonho de João se materializasse. O menino driblador se viu com uma repentina dor no pé, que subia rapidamente pela perna. O Dr. Luiz Chaves e Melo e o medico do Batalhão, Dr.  Zé Fernandes, detectam paralisia infantil nas pernas e nos anseios de João. Mesmo com injeções diárias, aplicadas pelo Chico Saia Veia, um enfermeiro prático que andava impecavelmente de branco, a doença não cedeu e entorpeceu as pernas do menino, que passou a andar de muletas.
Muitos sucumbem com os reveses, mas João sobreviveu, sustentou-se nas asas de um sonho e na arte de tocar realejo, sanfona, bandolim, e o Calunga renasceu, transcendente para o futebol, jogando pelas pernas tortas de outros meninos no time que formou: O famoso Botafogo do João Calunga!
Foram tantos os meninos bons de bola: Gonçalo, Piranha, Bugre, Chico, Baião, João Henrique, Rildo, Robério, Edmar, Deoclides, Berreca, Franklin, Olavinho, todos orgulhosos de ostentarem a Estrela Solitária no peito, e davam um espetáculo digno dos melhores times de futebol dos bons tempos, corriam pelo chão duro de terra batida do Campo dos Vencedores, como se jogassem pelo verdadeiro Botafogo de Garrincha e em pleno Estádio do Maracanã.
João Calunga era instrutor, amigo e pai para aquela garotada e a concentração do time era na casa da Ponte Preta. Muitas vezes, ao término de um jogo, em particular, chamava um dos garotos e aconselhava: - Meu amiguinho, você entrou muito duro naquela jogada. Isso foi desleal! Não faça mais isso não! Um carrinho daqueles pode acabar com vida de um atleta. E ali, abraçava o protótipo do zagueiro violentão, sabendo que o futebol tem destas coisas mesmo, mas sempre preferia o jogo da compreensão e da paz, como fez questão de levar a vida, embora cheia de reveses.   
Às vezes, pelas dificuldades financeiras, ele chamava o melhor jogador da equipe, o Robério, para ajuda-lo na costura das bolas que estavam se rasgando. Chegaram a cortar couro para, eles mesmos, com agulhas e suvelão, fabricarem as redondinhas que enchiam os olhos dos pais dos meninos que iam assistir aos jogos no Campo dos Vencedores.
Convite, para jogar fora de casa, nunca faltou, desde quando o jogador Edmar Soares passou a relatar, por telefone, o dia-a-dia do Botafogo do João Calunga num programa desportivo da Rádio Educadora. Era uma multidão para assistir os meninos do João Calunga jogando nos campos do interior, no campo do Cremilândia , no campo do Cruzeiro, e nos campeonatos dos bairros onde a estrela solitária crateuense sempre brilhou. Mas era para isso mesmo, como um técnico disciplinador e exigente que até nos treinos apitava falta quando Robério, o craque do time, chutava com a perna direita, pois queria-o chutando com as duas pernas e o atleta ficou ambidestro. Imagine, e já era um perigo com uma perna só!
Como o próprio João, evoluído espiritualmente, o Botafogo também prosperou, e formou-se um time de adultos. Foi quando luziram grandes estrelas como Mazola, Pai-da-Mata, Nonatim Teixeira, Nene Pagão, Vieirão, Chico Rufino, o grande craque Nicolau Matos, mas a maioria dos jogadores era de oleiros, que saiam das fábricas de tijolos, direto para os treinos, ainda lambuzados de barro. Atletas que, verdadeiramente, tinham amor ao time e ao futebol, bem diferente da maioria de hoje, que só “suam a camisa” ouvindo o tilintar do dinheiro.
Mesmo a mais forte das árvores um dia cansa e, se desvanece em pó. João trazia a vida restrita no peito, o prazo se venceu e ele se foi. Foi para o lugar das estrelas solitárias, na certeza de que deixou uma sementinha plantada no Campo dos Vencedores, no Campo do Cruzeiro, e em todos os campinhos de futebol dos Sertões de Cratheús. E, na abobada do firmamento, uma estrela solitária olha para o sertão de Cratheús e aplaude.
Aplaude o Edvan Vieira Barros, da ASSEJOC, por continuar o seu digníssimo trabalho com os jovens atletas crateuenses, regando esperanças, acendendo sonhos, revelando talentosos e os enviando para o Ceará Sorting, para o Tiradentes e até para os grandes times do Sul do País.
Um dia João Calunga, como uma estrela solitária no firmamento, já sem muletas, aplaudiu cada lance, e até chorou de alegria pela realização da 1ª Copa João Calunga de Futebol de Base para garotos entre 15 e 17 anos. Calunga, com o coração povoado de saudades na imensidão dos Céus, aplaude os meninos, que despontam para o futebol, neste difícil e isolado sertão. E quem o conheceu sempre escorado numa moita de mufumbo na lateral do campo, dando instruções àquela meninada, também o aplaude! E aplaudimos, como tendo feito um belíssimo gol de Garrincha, porque constatamos que o seu trabalho proporcionou e continuará proporcionando o fruto da dignidade, da cidadania e da emoção.  Valeu, grande João Calunga do Botafogo, senhor absoluto do Campo dos Vencedores!
Raimundo Cândido