segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Rio Poti – O Fluxo



                                                   
O Poti é um rio desaguado, um raquítico rio que pende capenga, desanimado, combalido desde as cabeceiras e que, por vezes, a piedade divina o avigora com providentes águas que despencam dos céus. O Poti é um rio exaurido, sem convicção das fluências que determinam aos rios a correrem para mar. O Poti é de um curso humildemente piegas, de um acanhado e transitório percurso impelido a orações, impulsionado por rezas, empurrado pela força de insistentes rogos, desde a época em que os supersticiosos tapuias Karatis ululavam nas danças de chuvas nas margens ressequidas, implorando a compaixão de tupã, mas temendo aos raios ferozes e tremendo com pavor dos trovões. Porém, o desmilinguido Rio Poti sempre escorreu, afoito e afável, para a foz do meu coração! Sim, eu sou o Poti. O Poti que sofre, o Poti que padece e aflige aos que dele precisam. Mas, antes de ser o Poti, eu sou o rio de Heráclito, o rio que nunca é permanente e que sempre muda, só não muda a esperança!
Nunca desejei que as águas do meu rio fossem súplicas atendidas, ou fossem lágrimas das velas a queimar as mãos dos fiéis, ou ânsias das procissões que se arrastam pelas ruas poeirentas da cidade, porém, como sofrido sertanejo, também orei pelas deferidas bem-aventuranças das torneiras abertas dos céus. E, pelas milenares angústias sofridas, o Poti tornou-se um rio que facilmente se engana com promessas vãs, traduzindo-se num rio irrefletidamente ludibriado pelos políticos desavergonhados que enchem a sua ressequida alma com cegos devaneios. O Poti, um efêmero fluxo pelos Sertões de Cratheús, é um rio de muitas fantasias! Porém, é a intermitência do meu sangue e, por isso mesmo, nunca passou de uma mera fábula infantil, de um engodo aquoso que arrefece o coração!
Mas, engano maior do que a promessa da construção do Lago de Fronteiras, nas proximidades do povoado da Ibiapaba, para transformar o eito do sertão num imenso mar de água doce, foi a insensata jura, ordinariamente vil, em perenizá-lo, e logo na conta do mentiroso, construindo-se sete barragens até o boqueirão da Ibiapaba. E assim, o Poti foi dando ouvido às tapeações dos patifes e às lorotas dos ordinários que só queriam, e continuam querendo, usufruir da inocência dos submissos ribeirinhos.
E na pertinácia de um velho rio iludido, toma aqui acola, atitude de rio prevenido. Pelos 450 km de tortuosa extensão, da nascente à foz, vai deixando centenas de poços que remediam a vida, nas mais variadas formas acostadas às suas margens. Açudes se dispensam por toda imensa bacia, captando pequenas grotas, represando riachos, inclusive na sua calha principal, como o Açude Colinas (3 milhões de m3  de líquida veemência), o Açude Flor do Campo (111 milhões de m3 de vigoroso ânimo), o Açude Carnaubal (86 milhões de m3 de puro deleite no sertão) e a Barragem do Batalhão (1,5 milhões de m3 de esperanças que nutrem a sede de vida crateuense).
Contudo, uma prolongada estiagem é suficiente para mostrar a fragilidade hídrica do debilitado Poti. De 2011 a 2017 as chuvas foram tão escassas que se caracterizou um incrível quadro de perversa seca, completado por um irresponsável desperdício de água pela população. A construção civil e o desleixo do povo contribuíram para um susto sem tamanho na Ribeira do Poti. Afigurava-se, lentamente, uma tragédia anunciada. Em junho de 2013, a cidade de Cratheús entra em crise, não caía uma gotinha de água nas torneiras. Somente o Açude Flor do Campo, na vizinha cidade de Novo Oriente, acumulava, em seu bojo, uns 14 milhões de m3, a única solução, em curto prazo, para o difícil dilema. E a divisão das águas, que seria uma fácil operação matemática, foi uma drástica atitude política e uma estupida estratégia de guerra.
Houve um movimento de resistência contra a transferência das águas para o Açude Carnaubal, correndo a céu aberto, pelo leito do rio, para socorrer a cidade de Cratheús. Procissões, missas na parede do açude celebradas pelo Pe. Alexandre e por Dom Odeli José Magri, Bispo de Sobral, também presentes o representante da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, do Ministério público, na pessoa do Dr. José Arteiro Goiano e quase toda a população de Novo Oriente, que temia ficar sem água. Resolvem falar pessoalmente com o intrépido Governador do Estado. O “Comitê pela Liberação da Água do Açude Flor do Campo Através de Adutora” foi recebido pelo prepotente e arrogante Gestor Estadual com indelicadeza característica e as pobres freiras levaram a primeira chicotada, quando afirmaram na presença do chefão:
- Governador, nós estamos rezando o Cerco de Jericó, pela adutora e contra o desperdício de água!
O Administrador Estadual, Cid Gomes, retruca, com firmeza:
- Porra de reza! Em pleno século 21 e esse povo fica perdendo tempo com resmungos e rezas!!!
O comitê do Açude Flor do Campo ameaçou, em alto e bom tom: “Se o governador mandar abrir as comportas nós a taparemos e é com seres humanos!” Não houve trombetas de Jericó, nem muralha humana que desse jeito, quando na madrugada do dia 29 de Junho de 2013, dezenas de viaturas da polícia ostensiva do Estado, numa operação de guerra, assegurou a liberação das comportas e as águas do rio correram, fluíram como os políticos sempre prometeram. Era a perenizarão do velho e alquebrado Poti, embora só tenham durado 29 dias. Um desperdício de mais da metade dos 7 milhões de m3 de água potável, para a alegria dos socós, das garças, dos jacarés, dos cagados, dos sapos, das gias e dos carões que resplandecem nas margens dos poços, um punhado de Oásis no sertão, entre o Carnaubal e o Flor do Campo. O Pe. Alexandre, indignado, declarou nos microfones das rádios: - Eles foram velhacos! Só esperaram dar a hora de ladrão roubar galinha, quando o povo está no sono pesado, para soltar a nossa preciosa água.
No Distrito de Santo Antônio dos Azevedos há um poço milagroso que nunca secou, chama-se Poço da Confusão, e é belíssimo, com sua mata ciliar ainda preservada. Nas piores secas, mesmo as mais prolongadas, ele forneceu àquele povo santo-antoniense a salvadora água potável das suas cacimbas. O Confusão transbordou e mandou as águas do Flor do Campo para o extenso Poço dos Mocós e este derramou-se noutro poço e deste para outro e outros e foram, assim, tecendo novamente o velho Poti, que há anos não fluía. Até a alma da escrava Bernaldina, que um dia se enforcou nas árvores copadas da Mata Ciliar do Poço Confusão, levantou-se de seu túmulo caiado e ficou a admirar o Poti a correr e a murmurar novamente no leito poeirento, onde só um vento seco por muito tempo cantava.
Quem viu o Açude Carnaubal sangrar, despejando um Poti a todo volume, de uma queda d’água de uns trinta metros, cavada na rocha bruta de seu belíssimo sangradouro, sentiu uma saudade dolorida ao ver, no inicio de 2015, o fosso do Carnaubal todo furado, mais esburacado que tábua de pirulito, pelos técnicos da Cogerh, para encontrar outro Poti subterrâneo, no lençol freático, e poder salvar acidade de Crateús de uma sede eminente.
Receio que, da nascente até os blocos de concreto que delimitam a invisível barreira do Lago de Fronteiras, antes do povoado da Ibiapaba e pelo longo fluxo nos Sertões de Cratheús, o combalido Poti, exaurido, desmilinguido, sonambule sem ter hora de acordar. E até a astuta Mãe D’água hiberna, nas pedras da Goela!
Espero que, quando acordarem, vençam todas as barreiras, triunfem sobre todas as “barragens” e até sobre as imposições perversas do tempo!
Infelizmente, as previsões meteorológicas nem sempre são complacentes com o nosso querido rio e já se falam em mais dias difíceis para os anos vindouros. Mais um ano de seca? Assim não há Poti que aguente! Ah, os tapuias karatis aqui, para novamente ulularem à Tupã!

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Cine Poti


 

Na década de 60, quando o cronista e professor Luiz Bezerra, num de seus passeios vespertinos pelos arredores de Cratheús, deu, ingenuamente, carona ao capeta, o dissimulado satã pediu-lhe para que arranjasse um emprego como fiscal do Mercado Público da cidade, pois estava a fim de mudar de vida e que fizesse o favor de levar um recado para o Dedé do Cinema: - Diga a ele que a sala 195, no inferno, é mais fresca que o cinema dele.  Ele não estranhará muito, quando estiver hospedado no meu hotel!   
O Cine Poti, do Dedé do Cinema na Rua Dom Pedro II, foi um marco e por muito tempo proporcionou lazer na cidade.  Embora as fitas, na sua maioria, fossem recheadas de pólvoras dos violentos faroestes, das estripulias de kung Fu ou do mais (im)puro e picante sexo explicito, aqui e acolá exibia um choroso melodrama como “Dio, come ti amo”, em preto e branco e um sucesso estrondoso de bilheteria. Assisti, logo na estreia, acompanhado da Eva Neide, no final do salão e em pé, pois a fila de entrada dobrava quarteirão e ficamos sem cadeira para sentar. Quando Gigliola Cinquetti cantou: Deus como te amo / Não é possível / Ter entre os braço / Tanta felicidade..  olhei, de soslaio, para minha querida namorada e  vi lágrimas escorrendo no seu rosto! O calor naquele salão era insuportavelmente agoniante, e acho que o capeta tinha razão em separar uma sala no inferno  só para o Dedé!
Na “Belle Époque” do Cine Poti foi quando assisti aos filmes do Tarzan, com a Jane e a macaca chita sempre ao lado, gritando como se tivesse uma caixa de ressonância no peito: - Oooooooohhh Oooooh Ooh! E há quem diga que foi o único triângulo amoroso do cinema que deu certo!
Quando o cinema era a principal diversão do crateuense, o Cine Poti vivia de casa cheia, todas as noites. Em 1974 o Dedé alugou um Kong Fu de sucesso, Shaolim vence Dragão, em dois rolos de filme de 16 mm. Foi quando o inverno isolou a cidade do resto do mundo, cortou todas as estradas. Depois de uma semana de pancadaria, de socos, de golpes, chutes e rasteiras entre os dois lutadores a bilheteria caiu e sem a possibilidade de pedir um filme novo. Dedé teve, então, uma feliz ideia, inverteu os rolos, colocou o segundo no lugar do primeiro e mudou o título do filme: “Dragão vence Saolim”. Foi outro grande sucesso, mas teve gente que saiu do cinema comentando: - Hai vai, eles fizeram um filme parecido que aquele que nós já assistimos!
Infelizmente o cine Poti fechou. Fatores diversos provocaram o seu fim, bilheterias fracas, exigências descabidas dos empresários que alugavam as fitas. Não havia lucro que suportasse as despesas! Foram mais de dez anos de portas cerradas.  As cadeiras empoeiradas foram as únicas espectadoras de um filme de abandono e solidão!
Mas, em toda cidade há um grande empreendedor com uma visão de oportunidade aguçada e, em Cratheús, esse honrado cidadão chama-se Osvaldo Melo, que além de empreendedor é um cinéfilo apaixonado e resolveu dar vida ao Cine Poti. Adquire o direito de usar o velho prédio com toda “infraestrutura”. 
O projetor de 35 mm com geração de luz a bastão de carvão, grafite coberto com cobre, manipulado pelo carequinha Zé Antônio que aproximava a barra positiva da negativa, gerando um potente arco voltaico, incidindo uma luz fortíssima num espelho côncavo refletida para a película, dando a impressão que uma leve fumacinha levava a imagem para o telão.
Foram diversos títulos de sucesso no novo Cine Poti: Dio, come ti amo, Lua de Cristal com a Xuxa, O Dia Seguinte, mas o povo continuava gostando era de Faroeste, kong Fu e sexo explicito.
Houve espectador que chamou mais atenção que os atores na tela, como o Louro da Ilha, ninguém sentava perto dele com medo de suas reações ao imitar os golpes dos lutadores, grita alto “Uuuuiiaá! Hiiiihá!” em cada acrobacia, pulo ou voo dos lutadores. Num determinado filme um chinês, de um salto só, atingiu o topo da árvore e o Louro se levantou da cadeira e gritau: Huuuura!!! Oh fela da gaita escrrroto!
O Seu Artagnan gostava era dos Faroestes, sentia-se um Bat Marteson com pistola no coldre, carabina winchester pendendo no ombro e, na volta para casa, cantarolava “No velho oeste ele nasceu e entre bravos se criou e uma lenda se tornou: Bat Marteson! Bat Marteson!
Mas, sem dúvida alguma, quem marcou época nas duras cadeiras da sala quente do Cine Poti foi Seu Doura.  Só assistia sexo explicito e do puro.  Era ele quem sugeria os títulos dos filmes que queria assistir: Moças com creme 1, 2 e 3, A mulher e o cavalo e os filmes com as atrizes Vera Fischer e Nicole Puzzi. Quando a fita tinha uma história comprida, uns falatórios sem fim, sem ir logo para os finalmente, Seu Doura ficava impaciente na cadeira e resolvia reclamar do dono do cinema, batia com o cabo do guarda-chuva na escadinha de ferro e gritava alto, chamando Osvaldinho pelo apelido: - Oh, Somalinha!!! Isso é filme para baitola!
Seu Doura gostava de sentar na sétima cadeira da sétima fila e chegava bem cedo para pegá-la desocupada. Algumas vezes encontrava um gaitinho sentado na sua cadeira e pedia para que saísse, mas se fosse o Lulu Melo a briga estava feita: - Saio daqui não, ora, ora! Tá pensando que aqui é um trem, que tem bilhete marcado? Naquele dia as cenas de pornô não satisfaziam a libido cinematográfica de Seu Doura. Na exibição de Moças com creme 3, Seu Doura se antecipou, foi bater na Loja Só Malha de Osvaldinho e exigiu: - Hoje quem vai abrir o cinema sou eu, quero ver se aquele cachorro se senta na minha cadeira. Lulu fica sabendo e vai antes ocupar a cadeira sete do Cine Poti. Seu Doura entra contente no cinema, pensando nas moças com creme e enxerga um vulto na sua cadeira predileta. O sangue sobe-lhe nas veias e arremessa o guarda-chuva no rumo do elemento que sempre perturbava a libido sexualmente cinematográfica de Seu Doura, que foi embora e nunca mais voltou.
Um dia encontrei um “estranho amigo” no Portão da Feira que me pediu para levar um recado para o Osvaldinho.  Fui logo cumprir a encardida missão.
Encontrei o Somalinha na sala de cinema particular da casa dele, ar condicionado, 52 cadeiras acolchoadas, projetor moderno como um belo título na entrada: Sala Charles Chapim. – Bom dia, mestre Osvaldo, que estás a pensar, tão solitário nesta sala?
- Bom dia, Professor. Estava rebobinando na memória os protestos de Seu Dora: -Somalinha, isso é filme pra baitola!
Depois de muitas gaitadas entreguei o árduo recado que estava incumbido de dar: - Você sabe, né Osvaldinho, quem só leva o recado não merece malho, mas o capeta mandou-lhe um convite  e disse que é sem direito a recusa, você fará companhia ao Dedé do Cinema na Sala 195 do hotel dele.
Tenho a impressão de que os dois empresários crateuense da sétima arte vão ter muito que relembrar, quando estiverem por lá!
Raimundo Cândido

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O desencanto das sereias




Um canto encantador ecoa dos paredões
Das entranhas do mar,
Cardumes em volúpia deixam de procriar.
O sussurro das correntezas marinhas
São as trilhas das sereias em volitação.

Elas vêm famintas e sedentas,
A sedução mágica atrai os homens
Para o amor letal. 
Ah! Homens do meu tempo,
Não se apaixonai pelas suas formas encantadoras,
Colhei a lágrima de seus olhos,
E desencantai seus encantos e seus cantos,
Não ficai à sombra dela,
Pois sua sombra é como o raio de sol
Tal como faísca de ouro
Para guarnecer sua cauda
Dos poderes dos homens.

E muitas sereias vieram
E ergueram suas vozes
E dedilhavam as cordas de suas harpas
E cantavam um canto enternecedor,
Mas os homens estavam surdos,
Pois um herói de outrora
Contara-lhe da voz gritante
Daquelas feiticeiras marinhas.
E os homens do mar
Tomados de súbita emoção
Fecharam os ouvidos com algas
Mágicas do fundo do mar de Poseidon.

Então elas cantaram.
E cantaram muito mais alto que o ruído das águas,
Que o som da canção e os suaves acordes das harpas
Reverberavam nas paredes dos penhascos
E multiplicavam-se e propagavam-se
Nas colinas envoltas no manto da noite
Que o mar deserto se encheu de melodia sob as estrelas.

Quando a música morreu
No horizonte das colinhas e do mar,
Em meio às estrelas brilhantes à margem do mundo,
Então se fez silêncio,
E no meio do silêncio,
Um grito desesperado se ouviu.

As lágrimas das sereias
Escorreram pelos seus seios humanos,
E se impregnaram nas escamas de suas caudas
E mulheres humanas se tornaram.
Elas não encantavam mais os homens,
E fizeram reverência ao mundo terreno,
E cada uma desprendeu a última escama molhada de lágrima,
Oferecendo aos homens,
Depois se apaixonaram
E se tornaram mortais.

O sol nascia
E mergulhava em uma grande nuvem branca
Que se erguia na extremidade do mar.
Fazia frio e o mar estava revolto
Uma tempestade se anunciava.

O vento estava pleno de açoites e gritos naquela manhã gelada.


Prof. André – 19/07/2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Edital de Convocação.



ACADEMIA DE LETRAS DE CRATHEÚS – ALC

A Academia de Letras de Cratheús convoca todos os seus 35 membros para uma Assembleia Geral que se realizará no dia 12 de Junho de 2017, Segunda-feira, às 19 horas, para eleição da nova Diretoria e do Conselho Fiscal desta agremiação. Esperamos o comparecimento de todos, na Rua Francisco Sá S/N, Praça Gentil Cardoso, Praça da Estação - Centro.
Raimundo Cândido
Presidente.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Umburaninha – A serra dos bodes.




O portal para a Serra da Umburaninha fica na altura do Riacho do Mato, depois de percorrer 20 km no asfalto, pela BR 404, entrei numa estradinha carroçável que penetra no miolo da maior mata de sabiá que eu já vi, até chegar à localidade Saco do Punga. O sabiazal do Purga vai se acabar, e rapidinho, pois observamos montes e montes de estacas, de um lado e do outro da estrada, como se a Caatinga fosse uma grande produtora de madeira.  Os rebanhos de bodes atrapalhavam a passagem e não foi só um não, foram diversos fatos, vistos ao longo do caminho. Grupos de 300 caprinos enchiam os olhos. E haja bode!
O guia, Clementino de botas, já me esperava na casa do pai dele, o Senhor João de Botas, no Punga. Mochila nas costas, com água, um punhado de sal, barrinhas de doces e a máquina fotográfica à mão, partimos rumo a mais um morro dos Sertões de Cratheús. E foram muitos: Picôte, Mambira, Furna 47, Buritizinho,Tiririca... Agora era a vez da Serra da Umburaninha ser escalada pelo Ribeira do Poti, um aventureiro de fim de semana.
Já começou difícil, a subida: a mata muito fechada pela invernada boa e o morro íngreme, todo revestido de pedras soltas, representando perigo de se rolar serra abaixo, junto com os blocos, além de não se ver onde pisava, pois o pega-pega, o quebra-faca entrelaçado, a urtiga, o carrapicho, o mato rasteiro encobria tudo e podíamos atropelar uma cobra, de uma hora para outra. Às vezes me agarrava no tronco de angico ou de mororó para não descer mesmo. Bem, eu confesso, a maior dificuldade não foi essa, foi ter que acompanhar o guia Clementino de Botas, acostumado a subir, quase todos os dias, o morro atrás de bodes. Ele escalava muito rápido para meu pulmão alquebrado e minha destreinada resistência, pelo sedentarismo de semanas inteiras sem fazer exercícios. O guia subia a áspera rampa com tal desempenho, que mais parecia um bode!
A visão que se tem do topo da Serra da Umburanhinha é deslumbrante. Dos mirantes pétreos apreciávamos o imenso tapete verde do sertão apatacado, aqui e acola, pelo brilho metálico de um açude. Umburarinha é cercado de outros montes, mas não impede a visão panorâmica de toda aquela região, de lá das alturas: Poço da Pedra, Várzea da Palha, Curral do Meio, Palmares, Simião, Curral Velho e chega-se a avistar, bem ao longe, no zoom da Nikon, a cidade de Cratheús .
A região é propicia para a criação de bodes. Nas pedras altas a gente vê as marcas redondinhas que eles vão deixando.  E sobem a serra como se caminhassem no plano, se fartam da verdura abundante, inclusive da rama do mororó e, à tardinha, descem sozinhos, para seus respectivos apriscos, na base da serra. Os bodes de outras regiões mais afastadas, às vezes, atraídos pela visão atrativa do Umburaninha, chegam até lá. Sobem e não descem mais. Ficam selvagens.  - Esses, contou-me o guia Clementino, a gente pega é a cachorro e no laço. Pronto. Quis saber logo da história de se pegar bode no laço e em cima da serra.
- Na semana passada, Seu Ribeira, notamos que tinha um bode selvagem aqui em cima. Era do Senhor Valmir Leitão, do Riacho do Mato, na beira da pista. Primeiro a gente descobriu a pedra onde ele ficava, para dormir e, no outro dia, subimos com os cachorros. Cachorro de bode é muito treinado, Seu Ribeira. Ele não morde a criação, só faz correr atrás e acuar em cima das pedras. Mas existem cachorros viciados em pegar bode, esses não prestam não. Eu já vi inimizade grande entre vizinhos, por causa de um cachorro assim. Quando os nossos cachorros pegaram a pista do bode, no faro, partiram feito uns doidos, só se ouvia o estalar dos galhos secos. Acompanhamos na mesma pisada, subindo rápido, senão o bode escapava e ficava mais selvagem ainda. Pelos latidos e pela berraria chegamos ao enorme bloco de pedra onde ele subiu para se proteger. Estava assustado, com os olhos arregalados no rumo dos cachorros, que não paravam de latir. É nesta hora que a gente tem que ser preciso, não pode errar no laço, que ele já está na indecisão do pula num pula, para fugir novamente. É até mais difícil do que laçar um boi no curral, pois não podemos fazer o giro para dá o rumo certo. Aqui, em cima da serra, com árvores e muitos galhos, é fazer pontaria e jogar o laço no pescoço do bicho.
À medida que contava a história da pega do bode, o guia Clementino não parava de caminhar e não quebrava um pau sequer a sua frente, abaixava-se, desviava-se dos galhos espinhentos, caminhava pisando na ponta das pedras e eu o seguindo atrás, ouvindo a saborosa narração e fazendo as mesmas estripulias para não ser rasgado pelos espinhos ou não deslizar das pedras. Perguntei: - E aí, Clementino, errou o laço e o bode fugiu, foi?  Ele parou, olhou para trás e afirmou, muito sério:
- Nunca errei a laçada de um bode, ou de uma cabra aqui em cima, Seu Ribeira! E o bode que fica selvagem uma vez não tem mais jeito não, tem que ir para o abate.
Tem um confrade da Academia de Letras que sempre me insulta: - Tu estás é virando bode, Oh Raimundo. Só vive atrepado nos morros e nas pedras, qualquer dia chega aqui na ALC é berrando!
Descíamos caminhado pela encosta abrupta, vendo o precipício como que a nos puxar lá para baixo, como fazem os caprinos, sem um pingo de medo de estar no topo da famosa Umburaninha, a serra dos bodes.
Seu João já nos esperava no Saco do Punga com um café bem quentinho. Despedi-me da família De Botas, peguei a estrada pelo que ainda resta do sabiazal do Punga e, inconscientemente, como aqueles refrãos de música que não saem de nossa cabeça, enquanto dirigia ia ouvindo um bordão característico: - Béeee.... - Béeee.... - Béeee....  Olhei em volta e não vi um bode sequer, ali por perto... Então, fiquei meio preocupado...  Será?         

Raimundo Cândido.