quarta-feira, 21 de setembro de 2016

João Calunga – Estrela Solitária





O lugar mais bonito do mundo, atestam alguns saudosistas, é aquele que trazemos guardado no recôndito do coração. Esse belo ambiente, habitualmente, é uma colina repleta de árvores frondosas, com uma ligeira declividade para um rio que abranda o clima, que revitaliza a fauna e reaviva a flora verdejante. Todo local com essas características é, naturalmente, designado de Boa Vista. No Sertão de Cratheús existiu a fascinante Boa Vista dos Correias, que ficava no começo da  estrada carroçável e que é a continuação da Rua Frei Vidal da Penha, a antiga estrada principal de quando éramos um povoado chamado Príncipe Imperial. Um paraíso predestinado às deslumbrantes paisagens, às telúricas poesias e ao celeiro de gente da mais alta estirpe.
Ali, no patamar da Boa Vista, no inicio do Século XIX, o poeta José Coriolano, mal entrara na adolescência dos 14 anos, já ruflava asas sonhando com um longo voo ao sem fim do mundo poético. Naquele terreiro de fazenda, muitos anos depois, Cícero Marçal, o encantador de cavalos, confabulava com seus equinos machadores para que orquestrassem os passos no desfile pelas ruas da cidade, como se fosse num grande picadeiro de circo.
Ali, naquele bucólico sertão, na casa da Dona Iaiá, mãe do menino João, um radinho de pilha tocava as músicas da Jovem Guarda nos anos 60 e, aos domingos, se juntava um grupinho de rapazes, para torcer pelo Botafogo carioca, onde um tal de Mané Garrincha fazia as suas estripulias, dançando com a bola no pé, deixando os adversários tontos de tanto dribles desconcertantes.
Num campinho, entre as moitas de mufumbo e espinhentos mandacarus, um menino de 14 anos já mostrava as habilidades de Garrincha e alimentava um sonho.  Sonhava como o poeta Coriolano sonhou, em levantar um longo voo, do patamar da Boa Vista rumo ao sem fim do transitório mundo da bola de futebol.
Às vezes, inexplicavelmente, a fatalidade interrompe a fantasia das crianças. E o destino não quis que o sonho de João se materializasse. O menino driblador se viu com uma repentina dor no pé, que subia rapidamente pela perna. O Dr. Luiz Chaves e Melo e o medico do Batalhão, Dr.  Zé Fernandes, detectam paralisia infantil nas pernas e nos anseios de João. Mesmo com injeções diárias, aplicadas pelo Chico Saia Veia, um enfermeiro prático que andava impecavelmente de branco, a doença não cedeu e entorpeceu as pernas do menino, que passou a andar de muletas.
Muitos sucumbem com os reveses, mas João sobreviveu, sustentou-se nas asas de um sonho e na arte de tocar realejo, sanfona, bandolim, e o Calunga renasceu, transcendente para o futebol, jogando pelas pernas tortas de outros meninos no time que formou: O famoso Botafogo do João Calunga!
Foram tantos os meninos bons de bola: Gonçalo, Piranha, Bugre, Chico, Baião, João Henrique, Rildo, Robério, Edmar, Deoclides, Berreca, Franklin, Olavinho, todos orgulhosos de ostentarem a Estrela Solitária no peito, e davam um espetáculo digno dos melhores times de futebol dos bons tempos, corriam pelo chão duro de terra batida do Campo dos Vencedores, como se jogassem pelo verdadeiro Botafogo de Garrincha e em pleno Estádio do Maracanã.
João Calunga era instrutor, amigo e pai para aquela garotada e a concentração do time era na casa da Ponte Preta. Muitas vezes, ao término de um jogo, em particular, chamava um dos garotos e aconselhava: - Meu amiguinho, você entrou muito duro naquela jogada. Isso foi desleal! Não faça mais isso não! Um carrinho daqueles pode acabar com vida de um atleta. E ali, abraçava o protótipo do zagueiro violentão, sabendo que o futebol tem destas coisas mesmo, mas sempre preferia o jogo da compreensão e da paz, como fez questão de levar a vida, embora cheia de reveses.   
Às vezes, pelas dificuldades financeiras, ele chamava o melhor jogador da equipe, o Robério, para ajuda-lo na costura das bolas que estavam se rasgando. Chegaram a cortar couro para, eles mesmos, com agulhas e suvelão, fabricarem as redondinhas que enchiam os olhos dos pais dos meninos que iam assistir aos jogos no Campo dos Vencedores.
Convite, para jogar fora de casa, nunca faltou, desde quando o jogador Edmar Soares passou a relatar, por telefone, o dia-a-dia do Botafogo do João Calunga num programa desportivo da Rádio Educadora. Era uma multidão para assistir os meninos do João Calunga jogando nos campos do interior, no campo do Cremilândia , no campo do Cruzeiro, e nos campeonatos dos bairros onde a estrela solitária crateuense sempre brilhou. Mas era para isso mesmo, como um técnico disciplinador e exigente que até nos treinos apitava falta quando Robério, o craque do time, chutava com a perna direita, pois queria-o chutando com as duas pernas e o atleta ficou ambidestro. Imagine, e já era um perigo com uma perna só!
Como o próprio João, evoluído espiritualmente, o Botafogo também prosperou, e formou-se um time de adultos. Foi quando luziram grandes estrelas como Mazola, Pai-da-Mata, Nonatim Teixeira, Nene Pagão, Vieirão, Chico Rufino, o grande craque Nicolau Matos, mas a maioria dos jogadores era de oleiros, que saiam das fábricas de tijolos, direto para os treinos, ainda lambuzados de barro. Atletas que, verdadeiramente, tinham amor ao time e ao futebol, bem diferente da maioria de hoje, que só “suam a camisa” ouvindo o tilintar do dinheiro.
Mesmo a mais forte das árvores um dia cansa e, se desvanece em pó. João trazia a vida restrita no peito, o prazo se venceu e ele se foi. Foi para o lugar das estrelas solitárias, na certeza de que deixou uma sementinha plantada no Campo dos Vencedores, no Campo do Cruzeiro, e em todos os campinhos de futebol dos Sertões de Cratheús. E, na abobada do firmamento, uma estrela solitária olha para o sertão de Cratheús e aplaude.
Aplaude o Edvan Vieira Barros, da ASSEJOC, por continuar o seu digníssimo trabalho com os jovens atletas crateuenses, regando esperanças, acendendo sonhos, revelando talentosos e os enviando para o Ceará Sorting, para o Tiradentes e até para os grandes times do Sul do País.
Um dia João Calunga, como uma estrela solitária no firmamento, já sem muletas, aplaudiu cada lance, e até chorou de alegria pela realização da 1ª Copa João Calunga de Futebol de Base para garotos entre 15 e 17 anos. Calunga, com o coração povoado de saudades na imensidão dos Céus, aplaude os meninos, que despontam para o futebol, neste difícil e isolado sertão. E quem o conheceu sempre escorado numa moita de mufumbo na lateral do campo, dando instruções àquela meninada, também o aplaude! E aplaudimos, como tendo feito um belíssimo gol de Garrincha, porque constatamos que o seu trabalho proporcionou e continuará proporcionando o fruto da dignidade, da cidadania e da emoção.  Valeu, grande João Calunga do Botafogo, senhor absoluto do Campo dos Vencedores!
Raimundo Cândido

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Maria Bonita



 ( Um conto do professor/poeta André)

Acordara por volta das 6:30, minha mãe já estava com o café que fora torrado em casa, na panela de ferro, pronto no bule de águida, azul. Aquele cheiro de café donzelo invadiu minha alma e as salas, corredores, alcovas e cozinhas das casas vizinhas. A tapioca, fiel companheira, completou a minha primeira refeição simples como a minha vida de criança de 12 anos.

Peguei meu saco de plástico que servia de embalagem de leite em pó oriundo da Aliança para o Progresso, uma espécie acordo que nos anos 60, o Brasil e os Estados Unidos mantinham, entre si.
Aquele saco era o espaço onde eu guardava meus materiais da escola. Peguei o livro de geografia, não me lembro mais quem era o autor. Era um livro que apresentava conceitos e definições de aspectos e acidentes geográficos, como rios, lagos, golfo, cabo, ilha, montanha, depressão, planície, entre outros.

Lá estou eu estudando, estudando não, decorando. Ora, em 1966 a pedagogia praticada nas escolas era a tradicional, onde o aluno era apenas um banco para serem depositadas informações sem questionamentos. Aluno inteligente era aquele que conseguia decorar o ponto, ou seja, a lição delineada pelo professor.

Tinha chovido muito na noite anterior e o sol resolveu dar as caras, talvez com o propósito de sofisticar a embrejada rua Baturité, hoje, Gustavo Barroso, onde vivi minha infância, adolescência e iniciado na vida adulta.

Pois bem, naquela manhã de inverno e de sol o tal livro de geografia foi meu companheiro. Era dia de arguição na escola a temida aprova oral.  Li, estudei, decorei. Especializei-me no rio Amazonas a partir de sua nascente e em seus afluentes da margem esquerda e da direita até sua rota de colisão com Atlântico.

Por volta das 9:30 fui tomar banho no rio Poty. Naquele tempo era um rio piscoso. Bom para o banho e em suas margens surgiam cacimbas de águas cristalinas e um pouco azulada que abastecia a cidade de Crateús, transportadas em lombos de jumentos, em pequenas âncoras denominadas também de canecas feitas em madeira. Pelos caminhos que nasciam das margens do rio, mulheres desfilavam com latas de água na cabeça, adolescentes e homens diversos conduziam a água pura em baldes e distante de coliformes, em carrinhos ou em pedaços de varas grossas, tendo como base o ombro, cantando canções da época.

Onze horas eu já estava a caminho da escola. Da Rua Baturité até o externato Nossa Senhora de Fátima, era uma viagem. Uns dois quilômetros e meio. Venci a Central, estrada construída pelo 4º Batalhão de Engenharia e Construção, que terminava na via férrea, hoje, Avenida Sargento Hermínio. Segui Pela Rua Coronel Zezé, conhecida como Beco da cachaça, toda pavimentada de perfeitos paralelepípedos, cruzei a praça da matriz codinominada de Avenida, vislumbrei o palácio do bispo, uma bela arquitetura, O Dom Fragoso tinha chegado há pouco tempo em Crateús.

Já próximo da escola, sentei-me na calçada do capitão Eduardo, farmacêutico e bioquímico do 4º BEC e fui acolhido com uma deliciosa sombra de um pé de castanholas. Retirei da sacola o livro de geografia, fiz uma revisão da lição, estava tudo na minha cabeça de adolescente.

Às doze horas, eu já estava na sala de aula, sentado, apertado no banco de madeira comprido, próprio para acomodar cinco alunos. Entretanto, a demanda por vagas para o Externato era tamanha que de sete a oito alunos se acotovelavam  naquele assento, tendo como apoio de escrita, na sala de aula, mesas de madeira maciça já rotas de tanto uso e o castigo do tempo. Todos os alunos ainda davam aquela olhada final no descritivo livro de geografia.

A mestra entra na sala. Todos se levantam. A professora era a saudosa Dona Delite. A sua escola era, também, o seu lar doce lar dividido entre seus filhos que a ajudava no exercício da docência. O Júlio, era o professor de matemática. Tanto dava aula como fumava. Um excelente professor. Nunca tive muita efetividade com a disciplina de matemática.

Sempre antes do início da aula, Dona Delite invocava fluídos positivos aos Deuses do conhecimento, através de Pai Nosso e Ave-Marias. Mas parece que naquele dia os deuses não estavam muito a favor de muitos alunos. Como meu nome é José, não fui um dos primeiros a ser chamado e, assistia o desenvolvimento daquela prova oral como também a alegria dos que respondia corretamente às questões que não eram muitos e a tristeza e dor dos que erravam. O silêncio na sala era tão profundo que nenhum ruído externo era capaz de quebrar tal quietude.

Finalmente, chegou a minha vez. Na minha caminhada para o palco da arguição unilateral com a cabeça  cheia de acidentes geográficos vieram as fatídicas perguntas: “Descreva o rio Amazonas com todos os seus afluentes da margem esquerda e direita a partir de sua nascente?” Fiz bonito. Dona  Delite olhou-me com seus olhos mansos e cheios de satisfação com minha resposta. Ela ainda não tinha realizada esta questão completa para os outros. A segunda pergunta, talvez como prêmio por ter sido brilhante na primeira, fez uma com resposta curta: “O que é um Cabo?” A minha resposta foi imediata: “uma porção muito grande de mar que avança sobre a terra”.

Naquele momento, aquele mesmo olhar sereno e manso pega minha direita como se fosse cumprimentar-me por tal feito. Olha para alguém perto e pede a Maria Bonita. A Maria Bonita veio em minha direção, com a cor vermelha da aroeira, rígida, forte, com o corpo bem trabalhado, talvez por um perfeito escultor. A sua cabeça redonda, parecida com uma abóbada geometricamente bem distribuída e bem torneada, pairou no ar. Desceu vertiginosamente em queda livre como se fosse um foguete a aterrisar no seu alvo bem calculado: A minha mão. Confundira os aspectos definidores de golfo com cabo  que são acidentes geográficos contrários.

A princípio em não entendera o motivo daquela dor que tomou conta de minha mão de adolescente em formação, ante o olhar da turma entumecida pelas minhas lágrimas que não caíram na minha alma nem regaram o chão das minhas caminhadas. Apenas ouvi da grande mestra que a minha resposta estaria correta se tivesse indagado a definição de golfo. Aquele foi o meu primeiro último bolo construído com os ingredientes dolorosos da Maria bonita.

Com o passar do tempo os conceitos de pedagogia foram se transformando e a Maria Bonita, aos  poucos, foi sendo esquecida pelos seus mais diversos namorados.

Reza a lenda que a Maria Bonita ainda vive guardada a expiar seus pecados em algum lugar do Externato Nossa Senhora de Fátima em função das transformações educacionais que envolveram o século XX e permeiam o XXI.



Conto produzido por José Soares André (prof. André)
22 de julho de 2016




Vocabulário.
Cabo – Porção de terra que entra pelo mar
Golfo – Porção muito grande do mar que avança sobre a terra.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Aventuras na Ribeira do Poti



                                                    
Como James Bond, um fictício herói do cinema, quando indagam meu nome, digo: Meu nome é Raimundo, mas pode me chamar de Ribeira, Ribeira do Poti. Na realidade, Ribeira do Poti é o codinome de um grupo de corajosos aventureiros que, aos finais de semana, saem à procura de “riquezas” pelos locais mais recônditos dos Sertões de Cratheús. Nos diversos distritos do município, de Monte Nebo ao Curral Velho, de Irapuá à Oiticica e até nas cidades vizinhas, Novo Oriente, Independência, Tamboril, Ipaporanga, Ararendá, Poranga, inclusive nos limites do Estado do Piauí, o grupo se arisca em busca de “tesouros perdidos”. Registram, em fotos, em textos e divulgam as belezas naturais que o sertão nos apresenta: Formações rochosas invulgares, carrascais inóspitos e quentes, a Caatinga aparentemente morta, mas repleta de vida, a fauna e a flora, as furnas com vestígios históricos dos paleoíndios, as grutas selvagens, as gargantas pedregosas e perigosas de rios e riachos espalhadas pelo imenso vale do intermitente Rio Poti.
A fama já se espalhou por aí. Constantemente recebemos convites, dos mais diversos locais, para fazer uma visitinha, pois a divulgação de um lugarejo perdido no tempo, lá nos cafundós do Judas, é uma forma de reavivá-lo na lembrança das “esquecidas” autoridades administrativas. Procuram-nos até para fazer denúncias sobre as depredações da natureza: - Oh, Seu Ribeira, continuam tirando areia da nossa prainha, aqui no Poço do Piau, na Ibiapaba. O Meio Ambiente veio por aqui, mas não deu jeito!
                Virou hábito. Há, sempre, um local para se visitar. Era a vez do Saco da Cruz, na extrema da chapada do Ininga com o Estado do Piauí, atendendo o convite de um ex-caçador que nos confirmara: - Andei no Saco da Cruz há uns vinte anos, e lá existe uma gruta repleta de riscos avermelhados no teto. A trilha de início é bonita e acolhedora, mas, de repente, a mata se fecha e começamos a íngreme subida da serra, abrindo, no gume do facão, uma nova vereda entre as aroeiras, os paus-d’arco, as imburanas, os pereiros, os angicos e, para dificultando nossos passos, as invisíveis urtigas, o temido cansanção e os teimosos pega-pintos se agarram em nossas pernas. O perfume de velame do campo e de canela brava se impregna o nosso olfato. Súbito, a floresta se abre para um carrascal repleto de belíssimos mandacarus, xique-xiques, coroas de frade, macambiras e croatas. Foi quando, do guia, lá na frente, partiu um alarmante grito: - Opaaa! Curiosos, mas com receio, fomos ver o que era aquele “opa”. Uma jiboia, de metro e meio, interrompia o caminho pela frente. O Ribeira, como iniciado nos segredos e nos mistérios da Caatinga, “dialogou” com a serpente que consentiu a passagem do grupo, e até tiraram fotos abraçados, como velhos amigos de outrora.  Aventuras por cima de aventuras, é o que ocorre com a Turma do Ribeira, nos Sertões de Cratheús!
                E compensa, sim! Enfrentar uma dura viagem na caçamba de um pau-de-arara, por estradas onde não se transita nem carroça, só para se deleitar com as belezas do sertão. Fomos ao Curral de Pedras, lar de uma família apelidada de Pixôcas, uma gente corajosa por viver, isolados, no extremo com o Piauí. O Curral de Pedras é o Portal do Cânion do Rio Poti, na Oiticica. Uma profunda, estreita e compridíssima garganta pétrea, quilômetros de negros blocos de pedras por onde o Poti flui nas épocas invernosas e nos verões se formam poços que nunca secam, pois ali ficamos, um domingo inteiro, remando nos caiaques e nas canoas, até a hora de partir. Na volta, ao anoitecer, resolvemos seguir por um caminho mais curto, mas pegamos uma estrada errada, abandonada há muitos anos. Topamos com um corte no caminho, devido a uma grota, impossível os pneus passarem por ali, a não ser que se reconstruisse a estrada, com as pedras do rio e foi o que fizemos. Um milagre a Picape passar sobre a trilha de pedras pontiagudas, no escuro, como equilibrista de circo.  Nossa alegria durou pouco quando topamos com a linha férrea, pois a passagem de nível não mais existia. O corajoso motorista enfrentou mais um desafio, confiando no velho motor da D20, a frente logo passou, mas o carro entalou nos trilhos. Agora, nem para frente, nem para trás. A providência divina, mais uma vez nos socorreu, quando um grupo de pescadores, ouvindo o ronco do motor, por ali chegou. Um deles logo avisou: - Está na hora do trem passar! Se não tirarem o carro daí, o monstro de fero leva tudo nos peitos. O alvoroço foi grande. Forças surgiram nos braços de quem já estava exausto. Alguém viu o facho de luz da cobra de ferro serpenteando ao longe, mas o que nos salvou foram dezenas de braços dos pescadores funcionando como um motor. E já na estrada, ouvimos o apito ameaçante: Piiiiiiii...
                Outro dia fomos, pela subida do Alto Bonito, na Ibiapaba, até Ipaporanga, só para confirmar a lenda da Cobra Teotonio, num longínquo povoado que existe por lá. Dizem que o sertanejo ouve o choro de uma criança perdida, bem ao longe, lá no ermo da Caatinga. O piedoso cidadão sai procurando, chamando (Ei, menino, onde você está?) e, desprevenido, assim de repente, cai num buraco aberto num lajeiro, no meio da mata. É o fosso fundo que se liga ao Rio Poti, as suas entranhas vão sair no meio do Poço Surubim, que nunca seca, por mais que sejam as estiagens prolongadas. O coitado não escuta mais o choro da criança, ouve é um silêncio sepulcral que vem de dentro da fria caverna, já sem luz e sem ar. As misteriosas testemunhas da mata, com receio, abandonam o local quando um chocalho sibila na escuridão, pois vem vindo as duas bilas de fogo rastejando pelo chão: É a Cobra Teotonio que vem buscar mais uma presa da sua armadilha e a leva para o Poço Surubim, que não tem fundo e não tem fim. Somos testemunhas deste fosso, em Teotonio, sim! O buraco está lá, uma abertura na lájea pétrea do chão do sertão e lá embaixo, o rastro, largo e comprido, da esfomeada Cobra Teotonio.
                Um conselho: “Não deixem suas pernas se viciarem em aventuras não!” Quando menos se espera estamos no meio das trilhas, sem perceber para onde vamos.
                Foi o que aconteceu comigo. Se programei, não sei, se planejei, não me lembro. Sempre que ia aos Tucuns via o Mirante da Ponta da Serra, um lajão suspenso, lá no alto da Serra da Ibiapaba e sonhava: - Ah, se...  Pois, sem perceber eu estava lá, num sábado, à tardinha e para acampar. Armei a Barraca, bem amarrada numa raízes de uns arbustos, acendi umas lamparinas e liguei as lanternas, para ser corretamente ecológico e me deitei numa rede, armada entre as árvores. As estrelas brilhavam como nunca, umas até dançaram pelo espaço, correndo, brincando como crianças travessas, mas vigiadas por Eósforos, o deus dos corpos celestes. Madrugada alta, entrei para dormir na barraca, acompanhado da Mariposa, uma fada mágica que me acompanha nas aventuras. Mas, Éolos também resolveu brincar, e assoprou sobre o platô dos Tucuns, um vento muito, muito forte mesmo. O ímpeto da ventania logo apagou as lamparinas e as lanternas que, amarradas nos galhos de árvores, giravam no ar como espadas dos fogos de São João. O chão da barraca subia com nosso peso, como a querer voar.
A friíssima ventania, com uns 100 Km/h, persistiu, por horas, a brincar como o medo que nos prendeu dentro da tenda de plástico, que só faltou se rasgar de baixo para cima. O temor, como sempre, nos fez rezar e rogamos às plêiades dos deuses da natureza, como faziam os homens primitivos nestes momentos perigosamente arriscados: “Oh desmedida força do sol, oh resplendor do fogo, oh brilho sereno da lua, oh firmeza das rochas, oh imensidades profundas do mar, imploramos proteção da piedosa mãe Terra! Assim seja!” Passado o susto do violento furacão na madrugada, o deus sol apareceu para nos brindar com mais um lindo dia e os raios de luz pincelaram uma paisagem magnifica na nossa frente. Com absoluta certeza, é uma dádiva diária de Deus para amenizar as agruras dos Sertões de Crathéus. E agradecemos, lá do alto, olhando a imenso Vale do Poti: Obrigado Sol, obrigado Terra por nos deixar participar deste grande espetáculo: A vida!
Não vou programar o retorno ao Mirante da Ponta da Serra porque são minhas irrequietas pernas de aventureiro que determinam, se vou ou se não vou! Mas, antecipadamente, lhes convido: - Vambora!

Raimundo Cândido

terça-feira, 24 de maio de 2016

O Trem da ALC



                              

Os “imortais” da Academia de Letras de Cratheús, por não terem onde caírem mortos, se alojaram sobre os trilhos do trem, literalmente. A sede da ALC acoplou-se aos barulhentos vagões dos cargueiros, que passam roçando nos prédios da centenária Estação Ferroviária e rumam ao sem fim das férreas linhas paralelas.
                Talvez pelo tom poético, talvez pela saudosa lembrança ferroviária contemplamos e ouvimos as rodas do trem vibrarem, diariamente, em retilíneos versos, enquanto passam pela nossa porta: - Vup vup vup tchuc tchc tchc piuiiiiiiiiii...
Um encantamento pelas ferrovias enfeitiçou, fervorosamente, diversos poetas brasileiros: Como o bardo Manoel Bandeira “Vou depressa, Vou correndo, Vou na toda, Que só levo, Pouca gente, Pouca gente, Pouca gente...”  ou o Bituca Milton Nascimento “O trem que chega / É o mesmo trem da partida / A hora do encontro é também despedida / A plataforma dessa estação / É a vida desse meu lugar...” ou o poeta Raul Maluco Beleza Seixas com o trem das sete “Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem. Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho aeon Ói, já é vem, fumegando pitando, chamando os que sabem do trem...”  Ou, então, Luiz Gonzaga, o Lua, na música De Teresina a São Luís “O trem danou-se naquelas brenhas / Soltando brasa, comendo lenha / Comendo lenha e soltando brasa / Tanto queima como atrasa / Tanto queima como atrasa” Mas, quem verdadeiramente poetizou o trem foi o grandioso maestro Heitor Villa Lobos que colocou, numa composição magistral, uma orquestra inteira imitando o barulho e o rebolado do trem sobre os trilhos, repleta das alegrias e dos choros das despedidas nas estaçõezinhas deste imenso Brasil.  Trompas, tímpanos e uma formação de instrumentos de cordas como violinos, violas, violoncelos e contrabaixos em harmonioso transe poético a reproduzir o som das rodas nos trilhos. E, para completar a belíssima obra, Ferreira Gullar colocou a letra de seu poema: “Lá vai o trem com o menino / Lá vai a vida a rodar / Lá vai ciranda e destino / Cidade e noite a girar / Lá vai o trem sem destino...”
É muita saudade! É muita dor! É muito fervor! E só entende quem é como o Padre Luizinho Ximenes, que no Livro Paixão Ferroviária, escreveu um belíssimo soneto sobre o trem, Recuerdo: “ Recordo... e, na lembrança colorida /  de meus dez anos, a saudade tem / não sei por que, a forma parecida / com um trem cargueiro na distância, além...”  
Quando, em 1988, o ultimo trem de passageiros circulou pela Estação de Cratheús, o calçadão da Estação, antes repleto de alegrias, ficou transbordante de saudades. Hoje, os velhos funcionários da antiga RFFSA, de vez em quando, passam pela porta da ALC como a procura de algo que o tempo insiste em apagar. E o passado os desbota junto com as suas lembranças doloridas de uma era gloriosa. Um dos que deixou de vir beber estas lembranças que emanam dos trilhos da Estação foi o Senhor Antônio Goró, hoje nonagenário, o último maquinista da velha Maria Fumaça. Seu Antônio conduzia a locomotiva com 12 pranchas de passageiros até a cidade de Teresina, no Piauí, e sem nunca acontecer um acidentezinho sequer. Parava o trem até para tirar os animais que estavam repousando dentro dos perigosos cortes, mesmo atrasando o comboio e correndo o risco de ser punido pelos incompreensíveis fiscais da Rede Ferroviária Cearense.
Festa grande era quando Seu Antonio Goró precisava fazer a manobra da locomotiva, no Viradouro, um belíssimo monumento que se encontra preservado que dentro do Clube do Censório de Cratheús. A multidão ficava observando a maquina entrar, lentamente, no grande circulo e soltava uma réstia de nuvem branca para aliviar a pressão dos pistões, fazendo um barulhinho característico. Os funcionários giravam, manualmente, o gigante de ferro sob os olhar vidrado da criançada, espiando por baixo das penas dos adultos curiosos.
Não faz muito tempo recebi, da Professora Luzia Neide Coriolano, um convite para conhecer Minas dos pães de queijo e das mineiras, Ôoo trem bão, sô! E a terra dos trens, também. Em BH nos juntamos com um primo cordato e gente muito boa, como todo mineiro que nunca perdeu o trem, o Eudes Albuquerque, que nos ciceroneou até a cidade histórica de Tiradentes.  Pagamos a velha Maria Fumaça e fizemos um passeio mágico, uma volta no tempo, pelas paisagens mineiras e dentro de um vagão todo de madeira, percorrendo 13 km num trilho de bitola estreita, até São João Del Rey, a terra de Tancredo Neves. Voltei à época em que o Trem Azul levava e trazia passageiros de Ipueiras, Ipu, Sobral, Fortaleza para os Sertões de Cratheús. O trem foi um forte elemento que impulsionou o progresso da nossa pacata cidade. Como os navios que trouxeram os portugueses para o Brasil, a Maria Fumaça trouxe um tesouro humano para a Princesa do Oeste e a cidade se encheu de gente empreendedora, mas aqui acolá vinha um maluco também.
A Academia de Letras de Cratheús tem o privilegio e a honra de estar assentada num riquíssimo monumento histórico e com isso vem a obrigação de resgatar e resguardar a história de nossos primeiros passos para o progresso. O erro dos governantes em abandonar completamente o transporte ferroviário é como a ferrugem que vai corroendo os ferros velhos, com o passar do tempo não tem mais jeito. Nevermore!!! Nunca mais veremos o trem de passageiro circulando por essas bandas, infelizmente. Mas, em compensação, a ALC é, hoje, um inspirado trem, o trem da memória, o trem da saudade. Temos um grande quadro da Maria Fumaça na parede e umas réplicas das locomotivas à óleo e a carvão, a nós doadas pelo generoso ferroviário aposentado Luiz Quiba, peças que chamam atenção para aquela época áurea do sertão.
Uma afamada poetisa da cidade Ipueiras e integrante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, a Dalinha Catunda, que sempre vinha de trem para Cratheús, por aqui esteve, novamente, e desta vez só para matar a saudade dos trens e nos deixou uma belíssima poesia, que é a forma dos vates petrificar, na alma e no ar, as lembranças que se foram: “Como não sentir saudades/ Da vida no interior / Do trem que ia e voltava / Levando e trazendo amor / Do choro na despedida / Que havia em cada partida / Na face do sonhador.”
E, se você sofre do mal crônico da saudade dos trens de passageiros, venha para a sede da ALC, é com andar novamente dentro dos velhos vagões de madeira, rumo ao destino que você quiser ir, olhado a mata de mufumbo passar rapidamente pela janela de madeira onde entra uma chispa de fuligemzinha da queima de lenha e se ouve um alegre apito de despedida: Piuiiiiiiiii.... Venha!
Raimundo Cândido