sexta-feira, 6 de julho de 2018

Casa de vó, fogão de lenha


              Num canto já enegrecido da acolhedora cozinha, o fogão de lenha era estrela. A impressão era a de que o dia só começava mesmo depois que minha avó empurrava-lhe alguns paus de lenha seca boca adentro, fazia um amontoado de gravetos embebidos em querosene e... zás! em pouco tempo o fogo surgia, enchendo, num primeiro momento, a cozinha com toda aquela fumaça, depois a casa inteira de vida. Alimento é vida.
             Não demoraria muito, sob o vigor do abano de palha, as chamas, bailando em cores vibrantes e calor intenso virariam brasas. Ainda podia se ver por algum tempo a fumaça, agora mais dissimulada. Permanecia por ali apenas denunciada pelas brechas do telhado que deixavam passar pontos de luz do sol. Vindas do teto em direção ao chão, as frestas de sol se acinzentavam, um sinal claro do respirar das chamas.
             Fogo feito, lenha estalando, chapa quente, hora das panelas. Buscava dentre aquelas emborcadas sobre o girau do lado de fora da janela. Fosse dia de galinha, escolheria a maior. O ritual era o mesmo, no fundo uma demão de cinza de borralho misturada a sabão. Vovó dizia que assim elas não empretejavam quando em contato com o fogo. Sabedoria popular. Pra mim, uma criança de pouco mais de oito anos, uma mágica.
              Eram panelas vividas, assenhoradas, cheias de cicatrizes, tampas tortas, mas incrivelmente brilhantes, areadas à exaustão. Sinal de zelo. Mesmo na simplicidade, toda dona de casa que se prezasse tinha sua bateria de panelas impecável e um conjunto de copos de alumínio enfileirados no banco de potes à espera das visitas. O de “aseia” era sempre o que tibungava em busca da água fresquinha que o pote abrigava. Mas esta é outra história.
             Tudo pronto... hora do velho fogão de lenha trabalhar. O alho pisado com a pimenta do reino, a verdura fresquinha colhida Do canteiro que se avistava no terreiro, o borbulhar do torresmo pururucando na gordura, o feijão na primeira água de cozimento, o ovo estralando na frigideira, o café coado no saco de pano, o leite que fervia e formava um véu ao transbordar, a pipoca do milho-gordura colhido na última safra, o mingau de puba... tantos cheiros, tantos sabores, fosse o que fosse, tudo convidativo, inebriante, feito ali, sob as rústicas “trempes” do fogão. Sabores nobres, sabores de casa da avó.
               Comida feita, bocas saciadas, todos descansam e o fogão também. Lá fora, no alpendre, uma rodada de café. O ruge-ruge se mudou pra lá. A cozinha, enfim, celebra a solidão. Não se ouve passos, tilintar de pratos, bater de colheres, vozes altas intercaladas com o mastigar prazeroso do almoço. Todos se foram deixando apenas o cheiro encorpado do café. Nenhum sinal de vida ou quase isso. Sob o fogão de lenha já limpinho, asseado, ronrona o bichano da casa à procura de um lugar quentinho. Assim finda o labor da estrela da cozinha, das chamas ao chamego.
              Li, certa vez, um texto de Rubem Alves que dizia: “O fogão de lenha é lugar de saudade. Porque os fogões de lenha, eles mesmos, são fantasmas de um mundo que não mais existe.” Verdade. Infelizmente, verdade.
              Para minha vovó, de quem guardo lembranças, uma delas, a que escrevi agora.
                Lidiana Imani
(Escritora  crateuense, Professora de Português do Colégio Vitória)

domingo, 1 de julho de 2018

Novo Oriente de Vida e de Morte.



(Na garganta o grito ensanguentado, / no corpo / as janelas da tragédia /
                                                 escancaradas para soltar a vida.)   Juarez Leitão                                 
                                                                                                                                                                                                                                                                       
           O povoado que brota como uma semente, que cresce e se desenvolve à medida que as pessoas vão chegando, quando cidade, sofre do estigma das sociedades incivilizadas.  A Lagoa do Tigre foi o gérmen primordial da cidade de Novo Oriente. O grande lago perdido no meio da mata, encontrado por vaqueiros que seguiam rastros de erados marruás, era dominado por uma incivil onça pintada da pata quebrada, diz uma lenda.  A urbanidade que desabrochou por ali foi o embrião da cidade conhecida como a terra do feijão e do milho.  
O vale, ao lado da Lagoa, pertencia ao donatário Rodrigo Alves da Silva, o Capitão Rodrigues, que doou um pedaço de terra para que se construísse a Capela de São Francisco. O Pe. Afonso Gouveia veio de Pelo Sinal, hoje Independência, para celebrar a primeira missa e também para catequisar a disposição ferina que aflorava por aquelas margens. O pároco achou aquele pé de serra muito parecido com o Oriente Médio e o rebatizou de Novo Oriente, que progrediu pela pecuária e pela agricultura de terra fértil.    
No Distrito de Emaús, sopé da Serra da Ibiapaba, fica o povoado de Bom Jardim. Ali, como na velha carta de confirmação a Dom Manoel, em se plantando tudo dá! As safras de milho e feijão batem recorde em cada boa quadra invernosa. Às vezes, nos baixios, bem no miolo de uma vazante de capim, encontramos umas moitinhas de folhas alongadas chamada de erva, a famosa cannabis sativa que ajuda na renda dos pequenos agricultores.  E, mesmo numa terra fértil, a luta daquele povo sempre foi dura, tentando sobreviver!
No final da década de 50, nas terras do Sr. Clarindo Lúcio, em Bom Jardim, além do milho e do feijão, havia o cultivo do fumo. Era uma pequena roça de tabaco, com as folhas verdinhas e ovais, para produzir fumo de rolo.  Na calçada alta da casa da fazenda, ele ficava tecendo as folhas amadurecidas, e já destaladas, para fazer as grosas cordas enroladas numa estaca, que tinha que ser revirada constantemente para que a negra calda se espalhasse por todo rolo do fumo. Da calçada eles viam a pedra onde o facínora Aristides Rosal caiu com um tiro no peito, depois de uma histórica emboscada. Nas conversas Clarindo afirmava: —Lembro-me como se fosse hoje daquele sábado, era o inverno do mês de Maio de 1939, quando atocaiaram o Rosal. Lá na frente, depois daquela pedra, tinha um canto de cerca, coberto de um mato verde, onde o tocaieiro ficou por três dias e três noites, amoitado, só esperando, pois o cangaceiro tinha que passar por aqui. O tiro foi certeiro, atravessou o peito do infeliz e a bala veio ricochetear aqui na minha parede. Dizem que foi o caboclo Cambirimba quem fez o serviço, mas não foi. Eu sei que foi o negro Abel, o mais certeiro pistoleiro do Padre da Varzinha. Teve gente que o viu pegando água numa cacimba, por isso eu afirmo que foi ele. E constata o que todos já sabiam: “Nosso pé de serra é muito violento!”
Tarde da noite, com ajuda do filho Toinho que segurava uma lamparina, retirava as folhas de fumo que estavam estendidas numa cerca quando ouviu os gritos de um homem que caminhava apressado, vindo do lado de Novo Oriente: — Matam o João Belo! — Matam o João Belo! Foi o Raimundo Aurélio com uma facada e à traição, numa mesa de jogo, lá no Mercado Velho! E o mensageiro seguiu rumo à fazenda Barro Vermelho, para avisar que tinham assassinado o patrão deles.
Clarindo chama a esposa e seguem para Novo Oriente, agora na categoria de cidade, para o velório do amigo João. À medida que caminha o grupo vai aumentando, pois o falecido era estimado por todos naquela região. E confabulam sobre as causas, os motivos de tal tragédia. Clarindo falava dos que já haviam tombado dentro do Mercado: - Lá, mataram o Mimoso. Mataram o Moreira cujo rifle estava quente de tanto atirar na polícia. O José Preto, o Leonel e o Antônio Medeiros também tombaram lá dentro e é só olhar os quatro portões, estão todos furados de bala. E agora foi meu amigo João Belo! Alguém pergunta: — É verdade que ele vinha sofrendo ameaças de morte? Clarindo responde: - É verdade sim! Ele foi jurado de morte e foi até Fortaleza pedir proteção ao secretário de polícia.
Percorrerem, a pé, duas léguas e, por fim, chegam a Novo Oriente. Mesmo na madrugada, a casa de João Belo já estava apinhada de gente, até nos altos batentes da calçada do Mercado, bem em frente do velório.  Em cada grupinho uma parte da vida do finado era relembrada, alguns levavam para o lado político: - O João, como chefe político e coletor da região, fez muitos inimigos e, como a UDN do Virgílio Távora foi derrotada, ele tinha que ter tomado mais cuidado. Outro se indignava: - Como é que pode! Desligaram, propositalmente, o motor da luz e a polícia ajudou segurando o João para que o Raimundo Aurélio o esfaqueasse. Atento ao jogo de baralho nem notou a trama, a primeira facada foi nas costas e a da barriga fez o intestino dele cair. O covarde do assassino ainda voltou para dá uma última facada na garganta. Quem diria que o irmão do St. Hermínio, um herói nacional, fosse tão covarde assim!
Clarindo se achegava mais, para ouvir os comentários. Uma pessoa alertava, querendo asseverar a causa do homicídio: — A Maria Luiza, filha do Abdias Ximenes, tinha uma inimizade com ele, e o Raimundo é cunhado dela! E outro lembra: — Ele tinha feito um acordo com os Clarindos, o Zé Clarindo será o nosso primeiro prefeito eleito e ele seria o segundo, mas com essas juras de morte já estava preparando sua mudança para Cratheús.
E não faltou quem se apiedasse do momento mais triste: — Quando levaram o João Belo pra casa, ele tentou falar e o filho pequeno viu quando espirou foi sangue no lugar da voz. Até a dona Maria, sua esposa, foi alertada que nunca se deve deixar a rede de alguém armada enquanto este sai para jogar!
O menino, que viu o pai nos estertores da morte, era o grande escritor Juarez Leitão, que tempos depois transformou a dolorida visão em versos: “E me lembro de ti, / cavaleiro de fêmeas e de anseios, / nas noites e nos dias da saudade / que me guardam menino espantado. / O espanto / de teus olhos me agarrando com súplica / e acenando molhados, / Na garganta o grito ensanguentado, / no corpo / as janelas da tragédia / escancaradas para soltar a vida. / E tua vida era rubra. / Eu vi.”
Na terra do feijão e do milho onde reina a vida e a morte, de vez em quando, ainda sobressai um medo que se espalha pelas ruas do Mercado Central como um silencioso esturro da onça pintada da pata quebrada da Lagoa do Tigre. É quanto tudo escurece e só se vê o povo fechando as portas das casas, pelo temor de outra feroz incivilidade de algum homem/tigre da região.
Raimundo Cândido

domingo, 4 de março de 2018

Antônio Vieira da Vitória – Um seleiro contador de História



             Acompanhei e só no olhar, naquele domingo ensolarado do dia 9 de Julho de 2017, a passagem da 9ª Cavalgada dos Sertões de Cratheús, que vai até o Distrito do Realejo. A coluna de animais, que desta vez bateu recorde, eram de uns 500 belíssimos cavalos, alazões, tordilhos, castanhos, rosilhos, pretos e até pangarés que iriam percorrer os 21 km de marcha equina trotando pela estrada com sons característicos: topok, topok, topok, pa ta ti pa ta tá e que chagavam aos meus ouvidos e me encantavam. Percebi, no meio dos elegantes equus caballus, um menino montado num jegue, o que me deu o direito de também sonhar, como versejou o poeta Pablo Neruda: “O vento é um cavalo / Ouça como ele corre / Pelo sertão, pelo céu. / Quer me levar: escuta / como recorre ao mundo / para me levar para longe.” E vi-me, um centauro, tal homo caballus, todo orgulhoso trotando na concorrida cavalgada promovida pelo Dr. Wagner Claudino Sales, idealizador e organizador do evento.
Hoje, a Cavalgada de Cratheús, é o acontecimento mais tradicional da cidade. A valorização dos animais foi grande, um incremento de cinco vezes seu o valor nestes nove anos em que essa belíssima cena hípica ocorre. Dava gosto ver os cavaleiros e amazonas com suas selas luxuosas e peitorais vermelhos, azuis ou amarelos na frente dos cavalos.
E, só de ver tantas selas bonitas, deu vontade de saber como elas são feitas, então chamei o amigo Rogério Bonfim e fomos à Vitória, lá no Curral Velho, visitar Antônio Vieira, um grande seleiro e afamado contador de histórias, com seus 80 janeiros de vida.
De longe avistamos a casinha branca e um pequeno alpendre improvisado na calçada alta, local onde o mais famoso seleiro de Cratheús exerce sua arte.
Um sorriso tímido, mas de sincera alegria, é o cartão de visitas do sertanejo quando chegamos a sua porta: - O que trás os meus amigos a minha casa? Contamos o nosso propósito e ele não se fez de rogado, explicou-nos tudo e ainda mostrando cada uma das peças: - Primeiro a gente faz a armação, de raiz de oiticica. A parte dianteira, a lua, é de um pau chamado João Mole. Com tudo pronto, vamos enervar, que é cobrir com couro cru e costurado com tiras de couro de bode.  Depois vêm as gualdrapas, já tratadas, grosadas, ligadas às sobrecapas costuradas na máquina. Então encho o suadouro e vou fazer as guardas. Com os arreios prontos, o loro preso aos estribos, a cabeçada com as rédeas e está tudo pronto, é só colocar em cima do cavalo. Antigamente eu fazia duas selas por semana, hoje é uma em duas semanas.
Ouvindo falar assim até me pareceu fácil, mas olhando os detalhes de tudo e a beleza da arte final, percebemos o enorme talento que a profissão exige. Ele continua, pois tem a palavra fácil na mente, como grande contador de histórias: - Aprendi com meu pai, seu Clinio Vieira, que era seleiro e carpinteiro dos bons e dava gosto a gente ouvi-lo contar a vida de todos os Presidentes do Brasil.
Quando Rogério pediu para que o seleiro contasse uma história, ele, então, começou:
- Minhas histórias são do outro tempo, na época que existiam homens duros. Uma vez colocaram uma junta de dez bois de engenho da serra para comer nos pastos do Saco do Punga. Um deles, o grande boi crioulo, de chifres curtos, ficou bravo e ninguém pegava. Era um boi corredor. O Manelzim leitão tinha um cavalo bom, chamado Anu, e mesmo assim não conseguiu pegar o bicho. Então ele propôs ao seu irmão, Zequinha Leitão, que tratasse do Anu no decorrer de um mês, e que ele conseguiria pegá-lo.
 Assim foi feito, tratou do cavalo e foi atrás do animal, mas logo voltou. Manelzim perguntou: - Cadê o boi, Zequinha? Ele respondeu: - O cavalo não deu! Manelzim olhou para os vazios do animal e não vendo uma gota de sangue, falou: - José, cavalo bom também precisa apanhar!  Zequinha baixou a cabeça, se amofinou num canto e não falou mais nada. Manelzim teve um pressentimento que o boi, agora, estava pegue. De manhã cedo saíram e manelzim pensava: “Hoje ele pega, pois vai com muita raiva”. Avistaram o bicho comendo na lagoa do Pau Barriga e se aproximaram por trás de uma grande pedra. Quando o Anu disparou, parecia uma flecha rente com o chão e o boi entrou na mata levando tudo que era moita pela frente. O crioulo era ligeiro demais, a quebradeira de paus parecia o trovão do fim do mundo! Só se ouvia a estaladeira de galhos que caíam e até um eito de cerca de faxina eles derrubaram. Com pouco notou que tudo ficou quieto e, ao chegar ao local, viu o touro amarrado e o Zequinha sentado no chão, estático e sufocado. Colocou um pouco de rapé no nariz dele para que voltasse a respirar e trouxeram o boi crioulo puxado na corda.
O mestre Antônio Vieira, que é um dos últimos artífices do couro e um dos últimos contadores, nato, das histórias do sertão, ao pressentir o nosso interesse por mais relatos, continuou: - Vou contar para vocês  uma história do maior mentiroso destas bandas, o Antônio Leitão. Ele mentia era com arte, dizia que fazia as coisas, mas não fazia, não! Disse que o pai dele, Seu Manoel leitão, falou assim: - Antônio, nesta semana você vai pegar a vaca que está de bezerra nova na serra da Uburaninha e estão brabos. Vá lá, leve seus irmãos e traga a que você pegar primeiro. Ele disse: - Eu vou é só mesmo! Meteu-se no gibão e quando chegou na mata viu um bicho vermelho passar e imaginou, é a bezerra! Passou o cavalo para ela, pegou e amarrou no tronco de uma árvore e nem deu fé que estava com as mãos arranhadas.  Foi para casa avisar que tinha pegue a bezerra e que o pai mandasse busca-la, que estava amarrada em tal lugar. O pai dele até perguntou: - E o que foi isso em suas mãos?  - Eu não sei, pai! Respondeu. – É bom o senhor mandar buscar a bezerra, que eu vou atrás da vaca! Foram ao caminho indicado e logo voltaram.  O senhor Manoel perguntou: - Porque não trouxeram a bezerra? No que responderam: - Não, seu Manoel, lá tem é uma onça vermelha amarrada!
O seleiro Antônio Vieira da Vitória é um valoroso livro cheio de saborosas histórias e, se passássemos o dia por lá, ouviríamos dezenas de relatos que fazem do sertão um local cheio de lendas e repleto de aventuras.
Como um centauro, metade cavalo, metade homem que se encantou com a 9ª Cavalgada de Crathéus, fico torcendo que a nova tradição criada pelo Dr. Wagner ajude a resgatar essas belas histórias dos rincões do nosso sertão.

Raimundo Cândido

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

SIMPLÓRIOS OLHARES


***
Poemas líricos e épicos
Deslizam felizes pelos ares
Em graciosas revoadas
E rodopios fantásticos,
Onde simplórios olhares vêem
Apenas pássaros...
*
Monumentais esculturas pétreas
Que encimam montanhas,
E suas alcantiladas faces.
Lá, onde somente o cardo medra...
E olhares simplórios vêem
Apenas pedra...
*
Belas estruturas em galhos retorcidos,
Às vezes desnudos, às vezes revestidos
De densa folhagem... às vezes floridos,
Abrigando ninhos, perfumando os ares...
Onde simplórios olhares vêem
Apenas árvores...
*
Quando o sol se despedaça
Em milhões de planetas, estrelas e luas
No esplendor do cálice celestial
Bordando a noite de um bordado mágico,
Onde simplórios olhares vêem
Apenas astros...
*
Harmônicas pétalas desabrocham
Nas ramagens verdejantes das campinas,
Nos jardins das praças e dos lares,
Espargindo perfumes e cores,
Onde simplórios olhares vêem
Apenas flores...
*
Pois quando pássaros ou pedras,
E astros, e árvores, e flores
Revestem a fina flor dos meus sentidos,
De um cenário que encanta e que fascina
O que ver o meu singelo olhar sedento
É o Jardim de Deus!... É Poesia Divina!...
***
( Humberto Paz)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A Pedra do Negro




Vi-me, recentemente, cismando com as respostas para uma difícil pergunta: O que é um Milagre? O farfalhar das folhas no afago do vento, o brilho da luz descortinando a escuridão, a Terra girando no vazio do firmamento, uma flor brotando no asfalto, os avanços da ciência em prol da vida, o sorriso gratuito de uma criança...  Iluminei-me, ainda mais, quando me lembrei dos prodígios de Jesus de Nazaré, uma pessoa extraordinária e de pele negra com cabelo crespo, segundo a própria Bíblia e que deu luz aos cegos, voz aos mudos, o caminhar aos aleijados, saúde aos enfermos, vida aos mortos! Negro??? Há de me perguntar. Sim, Negro! Jesus nasceu na África e é descendente da linhagem de Caim, com uma sequência genealógica de pessoas de pele escura, como Tamar, Raabe, Rute, Betsabá e a própria Maria, sua mãe.
Os milagres, que me avivam os neurônios, são as inexplicáveis interferências dos escravos, que falecerem nos sertões de Cratheus e se mostram milagreiros pelo poder da fé do sertanejo, esperançoso nas forças misteriosas dos céus. Será que por serem da cor de Jesus e pelo sofrimento por que passaram, adquiriram esse poder de interceder por aqueles que lhes pedem auxilio? Eu creio que sim!
E foram muitos: Felícia, da localidade de Poti, escrava da perversa senhora Joana Mereré, que a castigava, diariamente, com chicotadas nas costas e com queimaduras que nunca saravam. Felícia morreu no local em que imaginava ser enterrada, transformando-se num santuário de pagamento de promessas. Uma negra santa, na voz do Povo, sim! A Maria dos Milagres é uma escrava milagrosa que intercede pelos devotos de Éden, Valente, Lagoa de Manoel Costa, Grota Verde, Bonito, Arvoredo e Canto dos Pintos. Muitos a veneram na fé, pois são atendidos em suas promessas. Uma negra santa, na voz do Povo, sim! A escrava Bernaldina, que se enforcou no Poço da Confusão em Sto Antonio dos Azevedos, era despertada com um pontiagudo esporão com que lhe cutucavam o fundo da rede para uma eterna luta de sofrimento e dor. Uma negra santa, na voz do Povo, sim! A negra Nazara que, ao fugir de um cativeiro, morreu de fome e sede nos limites de Novo Oriente e Independência. O túmulo de Nazara atende aos romeiros de Porcos, Belém de Campos, Timbaúba, Assentamento Cantinho e Lagoa dos Patos. Também uma negra santa, na voz do povo, sim!
Um mapa estatístico da Província do Piauí (1854) mostra a Vila Príncipe Imperial, Cratheús atual, com 9707 cidadãos livres e 1028 escravos. Mesmo com a “libertadora” Lei Áurea, de 1888, foram poucos os escravos que sobreviveram ao padecimento de um dolorido existir e nunca souberam que estavam libertos. No lombo da Serra da Ibiapaba, no final do século XIX, era uma riqueza só, em Jatobá, Uruçu, Cafundó e Palmeiras se produziam cachaça, rapadura, farinha, manzape e beijú com ajuda destes explorados trabalhadores negros. Tudo, dádiva do Riacho Oitis que corre pelo dorso da Serra Azul, de Palmeiras na Ipaporanga até desaguar no Poço Pesqueiro, do Rio Poti, no Distrito de Ibiapaba.
Na localidade de Palmeiras, bem acima da ladeira do Humaitá e num produtível sitio, a casa de farinha e o engenho funcionavam a todo vapor. Descascar a mandioca, ralar no caititu, levar ao cocho para pubar, depois ao tipiri para a retirada da venenosa manipueira e, por fim, torrar ao forno, era uma grande festa. Mas, o negro mostrava mesmo seu valor, era no engenho, no corte da cana, na moagem, na fervura do caldo nos tachos, na massadeira para bater, dá o ponto e colocar nas formas para fazer as gostosas rapaduras.
 E havia Benedito, entre os “libertos”, um jovem, atlético e simpático negro que crescera unido aos filhos de Sinhozinho.  Desde crianças que brincavam juntos e, entre eles, sinhazinha, a filha única do dono do sítio. Já haviam notado certas intimidades entre o negro e a moça, mas tomavam como mesura de um servo a sua dona.
 Às vezes o amor, perigosamente, se apresenta cego e com asas. Cego para não ver os obstáculos e com asas para transpô-los. E assim se fez. O coração de sinhazinha pulsava ao ritmo do olhar de Benedito que, louco de paixão, se arriscava, mostrava intimidade demais.
Sabiam da impossibilidade daquele amor, tinham consciência do risco da união de um escravo e uma sinhazinha e isso era como pedir uma cruel punição.  O amor total é a sabedoria dos tolos. Benedito e Sinhazinha consumam uma tolice louca, resolvem fugir.
Madrugada sem lua, mal se via a trilha da descida da serra, rumo ao Humaitá, lá embaixo, no sertão.  Benedito já descera muitas vezes os sem fins de ladeira para entregar as cargas de rapadura e os sacos de farinha nos povoado de Assis e Águas Belas. Mas agora, com sinhazinha ao lado, a rampa ficava mais pesada e mais penosa, mesmo tangidos pela pressa e pelo medo. Não demora, em Palmeiras, a notarem a ausência de sinhá e logo descobrem a fuga dos enamorados. O raivoso senhor, cercado de capatazes, se prepara como se fosse a uma guerra, armas brancas e paus de fogo de prontidão, e cavalgam rápido para interceder a fuga.
 O folego de sinhazinha pedia um descanso e, ao se afastarem do sopé da serra, se abrigam debaixo de uma árvore, sobre uma convidativa pedra.  Um bom rastreador usa uma visão apurada, um faro aguçado e o espírito em total alerta para os rastros no ar e no chão. Chegam de surpresa e cercam o local. Sinhazinha dormia com a cabeça pousada no colo de Benedito. Foi quando opai ordenou que a moça voltasse para casa e deixou que seus capangas “tomassem de conta” de Benedito. Depois de muito rogos pelo amado, Sinhá,  sem alternativa, volta para casa na garupa da montaria do pai.
 Os assassinos esperam que se afastem para dar inicio à barbárie. Somente a mata ouviu os gritos do negro, esfaqueado, impiedosamente, até a morte.  E ali, ao lado da pedra, hoje a Lagoa dos Limas, enterraram Benedito.   Alguém, que por ali passava, ouviu a consciência gritar: - Tu que passas, descobre-te! Aqui dorme um forte que morreu! E colocou uma cruz, em honra a um nobre escravo e ao imortal amor! Outro rezou uma oração em louvor. Houve quem fizesse uma promessa por paz e saúde e foi prontamente atendido.  Um dia, o Raimundo Louro, comerciante do Mercado Central, ia para um forró por ali e, ao passar pela Cruz do Negro, um vulto tomou-lhe a frente e ele logo entendeu, voltou para casa. No outro dia soube que ouve uma grande confusão na festa e alguém procurava um Mereré para matar.
Hoje, na lagoa dos Limas, perto da trilha do Humaitá, entre Cratheús e Ipaporanga, há um negro santo atendendo aos rogos do povoado de Assis, Flores, Chora, Coroa, Rosário e Cajá dos Jeorges, pois sabem que na sepultura da Pedra do Negro, como na Cruz de Cristo, o Cristo Negro, um escravo santo sempre atenderá as súplicas de quem o implora! E do meu cismar inicial, chego à conclusão: O fruto da fé é que é o verdadeiro milagre, então!
 P.S. Soube-se que a sinhazinha fora dada em casamento a um rico viúvo, um fazendeiro para o lado de Oeiras, no Piauí, e que nascera um simpático negrinho por lá!
Raimundo Cândido