terça-feira, 25 de abril de 2017

O Martim-pescador



                                                 
Um dia, não muito distante, acordei impelido por um desejo de “busca” que me induziu a pegar a estrada que leva ao Boqueirão do Poti, depois da Ibiapaba e, irrefletido, percorri léguas e léguas para saber que necessidade premente era aquela. Repentino, parei o carro, atravessei a linha férrea que corre paralela à estrada para o Distrito de Oiticica, e me dirigi ao poço do rio chamado Pesqueiro. Era onde, outrora, a Maria Fumaça matava a sede, para ganhar fôlego e seguir viagem para o Piauí. Ao me aproximar, cautelosamente, vi um Martim-pescador macho (Peito todo ferrugíneo) saíndo de um buraco, no barranco da beira do rio e, em seguida, a fêmea também escapuliu de lá.  Ficaram revoando e cantando estridente como uma matraca: Ta-ta-ta ti-ti-ti trr-trr-trr, bem longe do orifício no barranco. Como conheço bem esses espertos Martins, notei que estavam despistando, pois ali era o ninho onde iriam reproduzir. Compreendi: os ovinhos no ninho precisavam do calor dos corpos dos pais, 24 horas por dia e eu estava atrapalhando. Saí, rapidinho, dali.  Voltei para casa, com a mesma ausência no peito que eu tinha levado!
Recentemente, a mesma “carência” incompreensível me impulsionou a voltar ao Poço Pesqueiro. Desta vez fui equipado, linha, anzol e uma cadeirinha de pescador dissimulado. Queria mesmo era ficar na tranquilidade mágica da mata-ciliar do Poço Pesqueiro.  Abanquei-me sob uma enorme Canafístula e nem sequer joguei o anzol na água, fiquei admirando o estirão de água do Pesqueiro que se emendava com o Poço da Croa, lá onde o brilho do rio faz uma curva. Via-se, quase no horizonte, a passagem cortada na Serra Grande, o Boqueirão que a milênios o Rio Poti cavou no paredão pétreo para ir de encontro ao mar. Amazonas, São Francisco, Sena , Reno, Tigre, Nilo... Não há outro rio igual ao nosso Poti!  As fogo-pagou não paravam de cantar. Um Papa-arroz voava de moita em moita procurando o que comer, o pássaro boé provocava inquietação com seu canto onomatopaico: Kiiiii kocorôoo boéeee...  Três belíssimos Martins-pescadores revoavam, em majestosas piruetas pelo espelho d’água. As algazarras dos anus-pretos era uma anarquia só e sempre considerei esses pássaros negros destituídos de quaisquer boas maneiras. Depois que passei repelente nos braços, nas mãos e até nas orelhas os mosquitos deixaram de me perturbar.
De repente meus tímpanos vibraram com um som agudo e estrepitoso: - Thiiiii thiiiii thiiiii thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrrr ....  Não caí da cadeira por pouco! Foi muito perto, pensei até que meus ouvidos iriam estourar. Olho de lado e, assustado, percebo um grande Martim-pescador pousado num galho, a dois palmos de mim. Quando vi o pontiagudo bico preto, tal qual o punhal de lampião, deu uma dor nos olhos pela proximidade do perigo, uma gola muito branca brilhava ao redor do pescoço e abaixo, pelo papo, descia uma ferruginosa e sanguinolenta gola contrastando com o manto azulado que ele trazia nas costas. Era o dândi pescador! O Martim percebeu meu medo. Então, falou: - Não se assuste, oh Ribeira do Poti. Vim lhe agradecer! Você está vendo aqueles três Martins que treinam a pesca no leito do rio? Os dois menores são meus filhos sendo instruídos por minha esposa a sobreviverem nesta difícil vida! Naquele dia que você esteve aqui, era um dia de máxima necessidade de calor para os ovinhos e você compreendeu e foi logo embora, por isso estou aqui para manifestar minha gratidão. 
Era mais uma circunstância fora do normal aquela por que passava, são situações que estou até me acostumando. Eu não sei explicar... Soa estranho dizer, mas falar com jegues, com bodes, com pássaros está virando coisa de praxe, então aceitei o diálogo... Embora não seja normal, nem ao meu juízo, nem ao senso de alguns companheiros, como o historiador Flavio Machado, que já me sugeriu uma sessão com um psicólogo. Disse-me ele: - Tu só vive em cima das pedras, tu tá é virando bode! Tu fala com jegue, fala com cabras , compreende os pássaros, é amicíssimo das mariposas... Sei não, em?
Deixa pra lá! O Martim chamava minha atenção, tinha algo importante para me dizer.  Embora a voz soasse estridente  “Thiiiii thiiiii thiiiii thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrrr” no ar, eu compreendia o que ele falava:
- Ribeira, naquele dia, que você veio aqui sem saber por que, lembra-se? Quem lhe intimou foi a Potâmide, a ninfa do rio. Ela queria lhe testar e como você obedeceu nossa lei, saído para não perturbar o equilíbrio da natureza, ela ficou lhe admirando e agora mesmo lhe observa. O olhar por entre o capim, por trás dos galhos e das folhas nem sempre é de um passarinho. Você sabe disso, não é Ribeira?
- ...
Quis responder, mas as palavras não saíam da minha boca. Acho que o Martim entendeu pelos meus olhos arregalados o que eu queria dizer. E ele continuou:
- Ribeira, você está encantado pelos mistérios do rio, sabia?  E isso é bom e é ruim. Bom porque temos um grande admirador e um protetor do nosso ambiente, mas você deve tomar cuidado, não confie muito no que vê por aqui, os mistérios da natureza são traiçoeiros. A Potâmide e a Mãe D’água são muito possesivas e podem lhe transformar num socó, ou mesmo num cari-bodó, só para que você fique com elas. Cuidado, Ribeira!
O Martim Pescador, à medida que falava comigo, subia e baixava o rabinho, olhando para os três companheiros que revoavam na flor d’água. Notei que estava apressado e, por fim, despediu-se: - Até logo, meu amigo, você será sempre bem-vindo por aqui, agora me deixe ensinar aos meus meninos a se peneirarem no ar, disparando pela cloaca uma iscazinha de cuspe para as piabas emergirem. É quando mergulhamos rápido e subimos com o peixe no bico. Hasta la vista, Ribeira!
Só deu tempo ouvi a matraca estridente novamente, Thiiiii  thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrr, e já  percebi que os quatro Martins estavam juntos deslizando pelas águas do belo poço Pesqueiro.
Agora sim, eu estava feliz. Entendi aquela “ausência” estranha que me fazia ir aos poços do rio. Estava encantado pela ninfa Potâmide e pela Mãe D’água, que legal! Mas... Matutei! E se elas me transformarem num socó? Tudo bem, viveria pescando na beira do rio. E se fosse num cari-bodó?  Aí a coisa complicaria, acho que nem o meu amigo Martins, quando estivesse pescando, saberia que era eu! Vou ficar mais esperto e deixar de andar amiúde nos poços do rio!
Raimundo Cândido

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Liberalina - Crime e Castigo




Quando escalei os 1500 metros da Chapada da Diamantina, só para ver um rio despencar lá de cima e formar a assombrosa Cachoeira da Fumaça, entre Minas e Bahia, ou quando subi os 1154 metros do Pico da Serra Branca para alcançar o ponto mais elevado do Ceará, em Monsenhor Tabosa, ou mesmo quando galguei os 645 metros da Serra do Picôte, na Ibiapaba, eu não experimentei o deslumbramento de estar no ponto mais alto do Morro da Liberalina, no Distrito de Santo Antônio dos Azevedos.
Postado no cimo daquela colina, não tão elevada como os demais, deslumbrei-me em ver trechos verdes escuros das matas preservadas entrecortados pelo verde claro dos campos cultivados. Uma beleza! Ao longe, os cilindros brancos das caixas d’água e as torres das antenas de telefonia indicavam os povoados espalhados pelo Sertão: Bonito, Ingá, Lameirão, Santo Antônio... Aqui e acolá um espelho refletia a luz do sol, anunciando um açude. Ali, fascinado por aquela visão maravilhosa, lembrei-me da história que o meizinheiro Simplício Barbosa me contara. Tudo aquilo, outrora, pertencera a uma mulher chamada Liberalina e que cometera um dos mais bárbaros crimes no sertão. E o êxtase rapidamente se transformou em indignação, ao me lembrar da perversa viúva Liberalina.
No ano de 1898, segundo consta no Livro Meus Avós, de Raimundo Raul Correia Lima, Liberalina era uma riquíssima latifundiária, uma poderosa dona de terras que se estendiam do atual Açude Carnaubal até o povoado de Santo Antônio: Barrocas, Paraíso, Bonito, Poço do Boi, Várzea, Tapera, Morro do São Francisco, dos Rodrigues, do Prudêncio, do Calixto, o Itaim e o Tombador, um mundão de terras na margem direita do Rio Poti serviam de pastos para os animais. Ouro e prata nem se contam. A famosa parteira Maria Sena, do Lameirão, falava que o grosso cordão de ouro de Liberalina tinha um pingente de meio quilo e no formato de coração, que ela colocava sobre o peito, cruzava os braços e rezava, cantando alto e com muita devoção.
A viúva tinha um filho único, que se chamava Luiz, um titã para o trabalho, mas de um acanhamento sem tamanho. Um dia Luiz arranja uma amizade com a Maria Nepomuceno, uma jovem pobre e negra, filha de um vaqueiro local. Liberalina, racista e avarenta, logo proibiu o namoro. A jovem engravidou e Luiz enfincou o pé para trazer Maria para dentro de casa ou, então, abandonaria a mãe, iria embora com a sua amada. Liberalina, a contragosto, aceita a situação. Maria ajeita o enxoval do bebê, engoma os cueiros para a criança que logo vai nascer. O preconceito fervilha na mente de Liberalina que não suportaria ver aquela criança se agitando por dentro de casa. Silente, alimentava um plano sombrio e, aos poucos, o mal dominava a alma de Liberalina. A velha intima a ingênua Maria para um serviço:
- Oh, Maria, vamos pegar uns paus de lenha, ali na mata!
Saem com as foices e as cordas na mão. Bem afastado de casa, Liberalina amontoa uns paus e pede que Maria amarre o feixe. Mesmo com o barrigão imenso, Maria se abaixa e começa a atar o molho de varas quando, súbito, sente a corda lhe apertando o pescoço. Liberalina enforca Maria até não sentir mais a respiração e a suspende no galho de uma catingueira, para simular suicídio por enforcamento.
À tardinha, Luiz chega em casa e pergunta por Maria. Liberalina não sabia do paradeiro da companheira do filho e até ajuda a procurar. O desespero do rapaz ecoa pelo sertão: - Oooh, Maria Nepomuceno!!! Mariiiia!!! Nada. Passa a noite, passa dia e vem mais uma desesperada noite e nada de Maria. Deve ter se perdido pela mata, alguém dizia. Foi embora, e você sabe o porquê, outro atiçava o coitado do Luiz.  Depois de uns dias viram um cachorro arrastando uma perna da moça, mais na frente outro com o braço de uma criancinha. E aonde iam achando um pedaço de Maria e de seu filho enterravam e enfincavam uma cruz. Então, descobriram que Liberalina enforcara Maria. A notícia do crime hediondo se espalha pelo sertão e a polícia vem prender Liberalina. Na Cadeia de Pública de Cratheús, na frente do Mercado Central, a velha rezava sem parar à medida que cantava bem alto a ponto do delegado não ter mais sossego.
Mesmo cantarolando rezas estridentes ao cumprir sua longa pena, perde o tino das coisas e enlouque de vez. Volta para o morro e não mais acha o Luiz, nem seu gado, nem suas terras que agora têm outros donos. Viver seus últimos dias como mendiga, perambulando pela mata, não é mais castigo para a velha Liberalina, pois juízo não tem mais. É provável que tenha sido sepultada ao lado do corpo da nora Maria, ou perto do ouro e da prata que em potes de barro, por ali, enterrou.
Muitas pessoas ainda vão pagar promessas na Cruz da Moça, como chamam um dos túmulos de Maria, ao lado de uma carcomida catingueira, a única testemunha da tragédia do Morro da Liberalina.
A senhora Maria Boa Hora sonhou com o local da botija da Liberalina, mas contou para outro alguém e o tesouro se encantou.
No final de certo dia, com o manto da noite encobrindo a mata do Morro, o corajoso meizinheiro Simplício Barbosa caminhava pelas terras da Tapera e quando estava debaixo de uma imensa oiticica, o mundo clareou de cima à baixo que dava para achar uma agulha no chão. Simplício se assusta e puxa da faca, pois ouvira falar que uns discos voadores estavam aparecendo com uma luz forte e jogavam uma tarrafa levando o povo para cima. Então, acalmou-se, pois se lembrou das botijas de Liberalina, assinalou bem marcado o local e foi embora. Disse-me que nunca arrancou nenhum tesouro, mas ensina o local para quem quiser ir arrancar.
 E ali, postado no alto do morro, apurei bem a audição e tive a impressão de ouvir os gritos de Luiz, procurando por Maria e seu filho, perdidos no meio da intricada mata: - Ooooh, Maria Nepomuceno!!! Mariiiia!!! Mas a resposta que realmente ouvi foi o silêncio das velhas catingueiras que nunca esqueceram o dia da grande tragédia no Morro da Liberalina.

Raimundo Cândido

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Epopeia de José Coriolano.




Um cidadão destes que gostam de provocar o que está quieto com indagações inusitadas, interpelou-me: Professor, diga-me, como é que nasce um poeta? Passado o atordoamento que a insólita pergunta me causou, tentei responder: - Bem, meu amigo, depois de nove meses de gestação surge um ser quase que normal, como todos nós, porém dotado de estranhas mutações, no íntimo da alma: eles possuem olhos que ouvem, ouvidos que enxergam, sofrem de uma eterna febre no enternecer e, contrariando a ordem natural das coisas, crescem, se desenvolvem e nunca morrem! O cidadão ficou boquiaberto com minha afirmativa, mas respondi convicto, pois estava pautado na vida e na obra do primeiro vate crateuense: O grande poeta José Coriolano de Souza Lima.
Na fazenda Boa Vista, propriedade do Sr. Gonçalo Correia Lima, descendente dos aguerridos Mourões, corria o ano de 1851 e a existência era uma eterna lida com o gado nas mãos calejadas pela enxada e no espanto de ver a Caatinga, ora abatida num cinza semimorto, ora pintada de uma verdejante vida. Dona Ana Bezerra, católica fervorosa, em época de quaresma, vai à Vila Príncipe Imperial para as desobrigas, quando os padres vinham do São Raimundo Nonato, celebrando pelos sertões abandonados. Desta vez o sacerdote era seu filho primogênito, o Cônego Sebastião Ribeiro Lima, que, ainda criança, acompanhara os padres para seguir a Cristo. O coração de mãe estava, mais uma vez, apertado, pois o filho caçula, o José Coriolano, acompanharia o irmão padre para estudar na cidade que um dia fora a fazenda de Domingos Afonso Mafrense, terras doadas aos jesuítas, após a morte do famoso bandeirante matador de índios. O Jovem Coriolano, de 16 anos, já demonstrara uma inteligência extraordinária, lia todos os livros que o irmão padre lhe trazia: os poetas portugueses Luiz de Camões, Gil Vicente, Almeida Garret, inclusive os versos picantes de Manoel Maria Barbosa du Bocage.    
Se no rude sertão da época existia uma criança com olhos que ouviam, ouvidos que enxergavam, a padecer febres no corpo raquítico e asmático e ardência poética na alma causando admiração no sertanejo rude, é logico que tinha que bater asas e arribar seguindo a trilha do irmão mais velho, numa longa e penosa viagem de centenas de quilômetros, em lombos de animais.
São Raimundo Nonato também se mostrou ínfimo aos sonhos do menino que desenvolvia um estro literário ao sabor dos ventos e, saudoso, cantava o Rio Poti, as aves, a mata e o homem da terra e os pintava em versos telúricos. E lá, entre tantos, escreve mudanças, um dos mais belos poemas da nossa literatura: “... Já balouça o vento as verdes copas / As flores não dispersam mais perfumes! / Quem uma tal mudança produzira, / Eu bem saber quisera! // Mas, ah! nada mudou-se – eu só me iludo! / Meus olhos, sim, mudaram-se de tristes: / Tudo existe no estado primitivo: / Eu somente mudei!” E segue com seus protetores, os bonachões padres, rumo a ilha de São Luís do Maranhão.
Na ilha continua compondo belos versos e a crescer espiritual e literariamente. Poeta romântico, modernista, social, abolicionista e a cantar a natureza e a Deus de forma magistral.  E da saudade da amada, Cisalpina, a musa que lhe fora prometido como esposa quando ainda criança, brotam os versos liricamente românticos: “Eu careço de ti, ó minha amada, / Como da rotação carece a terra, / Como d’alma carece o corpo imbele.  / Como o mundo – de tudo quanto encerra...”
As notícias do mundo circulavam no vai e vem das batinas dos padres e de Olinda, mais precisamente do Mosteiro de São Bento, em Pernambuco, chegam notícias da primeira Faculdade de Direito a funcionar no Brasil. Alvissaras que atiçam, ainda mais, os sonhos do poeta crateuense. Com a benevolência dos padres, Coriolano embarca num navio rumo a Marim dos Caetés, numa viagem perigosíssima para a época, pois quem embarcava ao mar nunca sabia se voltava. Mas Coriolano levava, além de uma carta de recomendação, a coragem sertaneja e aquelas mutações determinantes com que nascem os poetas. E Olinda mostrou-se arrebatadora aos olhos do primeiro poeta crateuense. A inspiração jorrou como lavras de um vulcão, tornou-se um incansável cultor das ciências e das letras.  Como Orfeu que, quando sua lira vibrava, os pássaros paravam de cantar e até as árvores se curvavam para pegar seus versos dispersos aos ventos. Antes da Faculdade de Direito de Olinda mudar-se para Recife, o poeta vai buscar sua amada nos sertões de Cratheús e retorna para terminar o curso na afamada Escola de Recife, onde estudaram nada mais nada menos que Tobias Barreto, Joaquim Nabuco, Clovis Bevilaqua, Sílvio Romero, Capistrano de Abreu, Graça Aranha,  Araripe Júnior e muitos outros intelectuais, entre eles o poeta Castro Alves, e há quem afirme, após ler Coriolano, que nos versos de Navio Negreiro estão embutidas as influências do poeta crateuense. Escreveu centenas de poemas e inúmeras prosas ficaram impressos no jornal Ateneu Pernambucano e nas revistas literárias: Revista Acadêmica, Ensaio Filosófico, Arena e Iris. Coriolano foi senhor do seu tempo e é considerado, por muitos, como o fundador da literatura piauiense.
Ainda em Olinda concebera um épico magistral em homenagem a um touro da fazenda de seu pai: “No belo Crateús, sertão formoso, / Obra sublime do Supremo Artista, / Num terreno coberto de mimoso, / Está sita a Fazenda Boa Vista”; / Do Príncipe Imperial, pravo e rixoso, / Vila do Piauí, seis léguas dista: / Aí, num massapê torrado e brusco,  / Nasceu o valoroso “touro-fusco”.” Cantou também sua terra natal: “Lindo sertão meus amores, / Cratheús, onde nasci, / Que saudade, que rigores, / Sofre meu peito por ti! / São amargos dissabores / Que em funda taça bebi! / Que saudade, ó meus amores, Cratheús, onde nasci!”
Terminado o Curso de Direito volta ao Piauí, exercendo diversos cargos públicos em várias cidades: Deputado Provincial, Promotor Público e até Juiz. Aos 40 anos, a asma crônica e uma congestão cerebral o fazem voltar à Cratheús, terra onde nasceu e onde haveria de... Não, morrer, não! Um poeta nunca morre! José Coriolano de Souza Lima encantou-se no Sertão de Cratheús onde, um dia, reinou o Touro Fusco!
(Os poemas de José Coriolano podem ser lidos no Blog: Impressões e Gemidos, postados por Ivens Mourão, trineto do poeta. O escritor Saulo Barreto Lima, bisneto de Amâncio Correia Lima, tem feito um belíssimo trabalho de resgate do nosso primeiro poeta, poesia inéditas e suas prosas, e conseguiu publicar dois volumes de poemas do Coriolano em São Luís do Maranhão.)

Raimundo Cândido

sexta-feira, 17 de março de 2017

Pássaro/árvore



Pairavam no ar,
as verdes asas
de um pássaro-árvore  
que sonhava  
em águas pousar,
na contramão de Ícaro,  
e como peixe nadar...  
Na essência aquosa,  
de um etéreo refletido,  
amerissou,
como fantasia caótica  
embevecida por um devaneio.
E o verde barco naufragou,
foi se esvaecendo,
lentamente, e se diluiu
na translucida ilusão aquática.

Raimundo Cândido

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Lagoa do Manoel Costa



             
A história do sertão é feita de retalhos de memórias. Retalhos desbotados no tempo, relatos despedaçados que um bisavô narrou, repetidas vezes, ao avô e este, insistentemente, deu a conhecer ao pai que, esperançoso, repassou imagens fragmentadas ao filho distraído, que não tinha tempo de ouvir histórias.  A lembrança do sertão foi negligenciada pela última geração que só recorda da uma pontinha do fio da meada de uma mal contada historia.
Quando o entardecer desce sobre as terras exasperadas pelo sol, arrefece a paisagem rústica e ameniza a aridez do clima. Mas naquele ano, de 1984, as chuvas vieram mesmo para compensar a sequência de anos perversos que os céus enviaram ao Sertão de Cratheús. Ali, ao lado da imensa Lagoa, no alto de um morrote, onde fica um casarão de fachada rósea, com uma calçada alta, é lar do Senhor Manoel Costa e tudo estava um belíssimo Éden. As localidades que circundam o grande lago: Bela Vista, Graciosa, Grota Verde, Bonito, Arvoredo, Canto dos Pintos e, inclusive, o povoado de Éden, era uma verdejante alegria e aquiescente esperança. E, enquanto a tarde se dispersava no horizonte, o Senhor Manoel Costa mandara chamar o Antônio Adelino, um amigo e trabalhador das suas terras, para um costumeiro dedo de prosa. As marrecas, os patos selvagens revoavam pelo espelho da lagoa, de onde vinha uma suavizante brisa lacustre.
- Compadre Manoel, olhe quem vai passando na estrada, braiando na burra faceira. É o seu compadre Baltazar Elias e me parece que vai com muita pressa.
- Sim, amigo Adelino, neste tempo chuvoso todo mundo se apressa. Mas saiba, compadre, que o Baltazar Elias é o guardião de todas as histórias que aconteceram, e que ainda acontecem, ao redor da nossa lagoa.
- Já que você tocou no assunto, compadre, me diga se é verdade que ele arrancou mesmo uma botija lá do Alto da Véia Luiza? O povo acha que sim, pois ele, além de muito sabido, é um fino curador, um quase médico e nem raio, nem cobra, nem peste o derruba e até fala com quem já morreu.
- O Povo, como sempre, espalha histórias mal contadas, compadre. Nem o compadre Baltazar arrancou botija, nem a Véia Luzia da Rocha, que viveu por aqui, é aquela baiana Luzia Coelho da Rocha Passos que foi a dona de toda região de Cratheús. Foi tudo quase na mesma época, de mil setecentos e tanto, mas eram duas pessoas totalmente diferentes.
O senhor Manoel notando a curiosa perplexidade de Adelino, fez o favor de continuar a história: - O compadre Baltazar me contou toda a história da lagoa. A velha Luiza da Rocha era uma coronela muito rica. Tinha muitas terras, muito gado, muito ouro, muita prata e até uma senzala ela tinha. Como não havia banco naquela época distante, as fortunas eram enterradas em baús, ou em potes de barro, para se prevenirem contra os ladrões. A Véia Luiza possuía um escravo de confiança, um negro forte e destemido, que lhe obedecia na risca. Quando iam enterrar uma botija, levavam outro negro para ajudar na empreitada. O coitado ficava lá, enterrado junto com o tesouro, senão iria contar o local da botija. As assombrações da lagoa, que você disse que viu, são as almas destes pobres coitados, que foram enganados pela viúva velha. Ela era viúva de muitos maridos e matava os coitados por qualquer desobediência. O cruel negro, sempre ao lado dela, executava-os sem pena e sem dó! A Luiza da Lagoa era uma viúva negra das mais perversas. Um dia chegou um cidadão querendo se casar com ela. Ela aceitou, mas avisou que ele tinha que obedecer em tudo que ele mandasse, senão, senão. No inicio estava tudo as mil maravilhas, mas o cabra, disfarçadamente, estudava o ambiente. No dia em que Luzia se ausentou com o desalmado negro, o marido chamou um escravo e mandou que esse pegasse o famoso animal de sela da sinhá. Colocaram as cangalhas no burro de estimação e encheram de pedras, propositalmente, até o coitado quebrar o espinhaço de tanto peso. Quando a Véia Luiza chegou e soube do ocorrido, partiu com o capanga para matar mais um marido. O cabra já estava prevenido, matou o negrão a paulada, pegou a viúva negra, deu-lhe uma grande pisa de cipó e amarrou numa árvore em frente a fazenda, despida e só enrolada no couro do burro que ela tanto estimava. Aguentou uns dias, sem comer e sem beber, com o couro do animal secando no seu corpo. Algumas botijas já foram desenterradas, como você sabe, mas deve de ter mais por aí, pois as assombrações ainda perambulam pela Várzea da Lagoa, não é compadre Adelino?
- Sim. Sim compadre. Eu mesmo vi, umas três vezes, elas andando pelo ar, vi até a noiva de branco, perdida no meio do mato. Nunca me disseram onde tinha uma botija. Vi o buraco, onde tiraram uma, e num é que eu passava por ali, todos santos os dias. Até com a Maria dos Milagres, a escrava vaqueira da Véia Luzia que caiu de um cavalo e foi arrastada até morrer, eu me peguei, para que ela me mostrar o local de um tesouro enterrado no casco da lagoa.
- Pois é compadre, essa aí também é outra história mal contada. Eu cheguei a ver a cruz desta escrava que caiu do cavalo ao lado do poço do curtume, mas nunca foi milagrosa. A Maria dos Milagres, que é milagrosa mesmo, foi outra escrava que chegou por aqui, talvez fugindo do antigo dono, e estava muito doente. Amoitou-se, fez uma latada na beira da estrada e ficou por lá muito tempo. A senhora Francisca Soares de Moraes, sogra do compadre Baltazar, foi quem deu apoio a ela, levava alimento todo dia. Quando morreu, lá mesmo foi enterrada, e virou uma alma milagrosa, onde muitos se apegam e depois vêm acertar a paga dos milagres.
Os dois amigos, balançando-se nas cadeiras da calçada da casa rósea, miravam o extenso lagamar, com o dia já escurecendo, ouvindo o grasnar dos patos, vendo a revoada das marrecas e uma pálida luzinha que brilhava no espelho d’água da lagoa os fazia matutar: “O que será aquilo, em compadre?!”
Num entardecer, deste que descia sobre a terra exasperada pelo sol, arrefecendo a paisagem rústica e amenizando a aridez do clima, eu fui conhecer a famosa Lagoa do Manoel Costa. Estava esturricada de tão seca e caminhei até o Alto da Véia Luzia. De longe se via, no meio da Caatinga repleta de xique-xiques e mandacarus, um velho prédio abandonado onde funcionou uma escolinha municipal e um estranho jegue que perambulava por ali. Notei que ele não gostou muito da minha presença, ficou como que reclamando, andando impaciente, pra lá e pra cá. Vi os troncos dos mourões de aroeira, carcomidos pelo tempo, onde funcionou o antiquíssimo curral da velha fazenda da viúva negra. E o Jegue ali, uma marmota impaciente, incomodado com a minha presença.  Algo me prevenia que aquele quadrúpede estava era com lundu, e foi quando me lembrei do negro perverso da Viúva Negra. Apressei o passo e sai rapidinho dali, pois para coisas assim, as misteriosas assombrações da Lagoa, somente o mediúnico e corajoso Baltazar Elias é que sabia, e muito bem, como se livrar.

Raimundo Cândido