segunda-feira, 5 de junho de 2017

Edital de Convocação.



ACADEMIA DE LETRAS DE CRATHEÚS – ALC

A Academia de Letras de Cratheús convoca todos os seus 35 membros para uma Assembleia Geral que se realizará no dia 12 de Junho de 2017, Segunda-feira, às 19 horas, para eleição da nova Diretoria e do Conselho Fiscal desta agremiação. Esperamos o comparecimento de todos, na Rua Francisco Sá S/N, Praça Gentil Cardoso, Praça da Estação - Centro.
Raimundo Cândido
Presidente.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Umburaninha – A serra dos bodes.




O portal para a Serra da Umburaninha fica na altura do Riacho do Mato, depois de percorrer 20 km no asfalto, pela BR 404, entrei numa estradinha carroçável que penetra no miolo da maior mata de sabiá que eu já vi, até chegar à localidade Saco do Punga. O sabiazal do Purga vai se acabar, e rapidinho, pois observamos montes e montes de estacas, de um lado e do outro da estrada, como se a Caatinga fosse uma grande produtora de madeira.  Os rebanhos de bodes atrapalhavam a passagem e não foi só um não, foram diversos fatos, vistos ao longo do caminho. Grupos de 300 caprinos enchiam os olhos. E haja bode!
O guia, Clementino de botas, já me esperava na casa do pai dele, o Senhor João de Botas, no Punga. Mochila nas costas, com água, um punhado de sal, barrinhas de doces e a máquina fotográfica à mão, partimos rumo a mais um morro dos Sertões de Cratheús. E foram muitos: Picôte, Mambira, Furna 47, Buritizinho,Tiririca... Agora era a vez da Serra da Umburaninha ser escalada pelo Ribeira do Poti, um aventureiro de fim de semana.
Já começou difícil, a subida: a mata muito fechada pela invernada boa e o morro íngreme, todo revestido de pedras soltas, representando perigo de se rolar serra abaixo, junto com os blocos, além de não se ver onde pisava, pois o pega-pega, o quebra-faca entrelaçado, a urtiga, o carrapicho, o mato rasteiro encobria tudo e podíamos atropelar uma cobra, de uma hora para outra. Às vezes me agarrava no tronco de angico ou de mororó para não descer mesmo. Bem, eu confesso, a maior dificuldade não foi essa, foi ter que acompanhar o guia Clementino de Botas, acostumado a subir, quase todos os dias, o morro atrás de bodes. Ele escalava muito rápido para meu pulmão alquebrado e minha destreinada resistência, pelo sedentarismo de semanas inteiras sem fazer exercícios. O guia subia a áspera rampa com tal desempenho, que mais parecia um bode!
A visão que se tem do topo da Serra da Umburanhinha é deslumbrante. Dos mirantes pétreos apreciávamos o imenso tapete verde do sertão apatacado, aqui e acola, pelo brilho metálico de um açude. Umburarinha é cercado de outros montes, mas não impede a visão panorâmica de toda aquela região, de lá das alturas: Poço da Pedra, Várzea da Palha, Curral do Meio, Palmares, Simião, Curral Velho e chega-se a avistar, bem ao longe, no zoom da Nikon, a cidade de Cratheús .
A região é propicia para a criação de bodes. Nas pedras altas a gente vê as marcas redondinhas que eles vão deixando.  E sobem a serra como se caminhassem no plano, se fartam da verdura abundante, inclusive da rama do mororó e, à tardinha, descem sozinhos, para seus respectivos apriscos, na base da serra. Os bodes de outras regiões mais afastadas, às vezes, atraídos pela visão atrativa do Umburaninha, chegam até lá. Sobem e não descem mais. Ficam selvagens.  - Esses, contou-me o guia Clementino, a gente pega é a cachorro e no laço. Pronto. Quis saber logo da história de se pegar bode no laço e em cima da serra.
- Na semana passada, Seu Ribeira, notamos que tinha um bode selvagem aqui em cima. Era do Senhor Valmir Leitão, do Riacho do Mato, na beira da pista. Primeiro a gente descobriu a pedra onde ele ficava, para dormir e, no outro dia, subimos com os cachorros. Cachorro de bode é muito treinado, Seu Ribeira. Ele não morde a criação, só faz correr atrás e acuar em cima das pedras. Mas existem cachorros viciados em pegar bode, esses não prestam não. Eu já vi inimizade grande entre vizinhos, por causa de um cachorro assim. Quando os nossos cachorros pegaram a pista do bode, no faro, partiram feito uns doidos, só se ouvia o estalar dos galhos secos. Acompanhamos na mesma pisada, subindo rápido, senão o bode escapava e ficava mais selvagem ainda. Pelos latidos e pela berraria chegamos ao enorme bloco de pedra onde ele subiu para se proteger. Estava assustado, com os olhos arregalados no rumo dos cachorros, que não paravam de latir. É nesta hora que a gente tem que ser preciso, não pode errar no laço, que ele já está na indecisão do pula num pula, para fugir novamente. É até mais difícil do que laçar um boi no curral, pois não podemos fazer o giro para dá o rumo certo. Aqui, em cima da serra, com árvores e muitos galhos, é fazer pontaria e jogar o laço no pescoço do bicho.
À medida que contava a história da pega do bode, o guia Clementino não parava de caminhar e não quebrava um pau sequer a sua frente, abaixava-se, desviava-se dos galhos espinhentos, caminhava pisando na ponta das pedras e eu o seguindo atrás, ouvindo a saborosa narração e fazendo as mesmas estripulias para não ser rasgado pelos espinhos ou não deslizar das pedras. Perguntei: - E aí, Clementino, errou o laço e o bode fugiu, foi?  Ele parou, olhou para trás e afirmou, muito sério:
- Nunca errei a laçada de um bode, ou de uma cabra aqui em cima, Seu Ribeira! E o bode que fica selvagem uma vez não tem mais jeito não, tem que ir para o abate.
Tem um confrade da Academia de Letras que sempre me insulta: - Tu estás é virando bode, Oh Raimundo. Só vive atrepado nos morros e nas pedras, qualquer dia chega aqui na ALC é berrando!
Descíamos caminhado pela encosta abrupta, vendo o precipício como que a nos puxar lá para baixo, como fazem os caprinos, sem um pingo de medo de estar no topo da famosa Umburaninha, a serra dos bodes.
Seu João já nos esperava no Saco do Punga com um café bem quentinho. Despedi-me da família De Botas, peguei a estrada pelo que ainda resta do sabiazal do Punga e, inconscientemente, como aqueles refrãos de música que não saem de nossa cabeça, enquanto dirigia ia ouvindo um bordão característico: - Béeee.... - Béeee.... - Béeee....  Olhei em volta e não vi um bode sequer, ali por perto... Então, fiquei meio preocupado...  Será?         

Raimundo Cândido.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

BELCHIOR


           Notícias há que nos abalam as colunas d’alma, fazem lacrimejar os olhos do coração, emudecem os lábios do espírito...
          A partida de Belchior foi uma delas. Melhor: Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Ou, como ele, sorridente, gostava de dizer: o maior nome da Música Popular Brasileira. Brincadeiras à parte, trata-se realmente do mais alado e elevado letrista germinado no Brasil dos últimos cinquenta anos.
          Como Robert Allen Zimmerman, o Bob Dylan, ele inseriu nas partituras da MPB um idioma diferenciado, com novos contornos de expressão poética.
          O seu amigo e contemporâneo Guilherme Arantes bem pontuou: “Belchior, que eu não canso de homenagear de todas as maneiras, foi e sempre será o melhor letrista de canções transformadoras que já existiu. Uma mente privilegiada em cultura e de talento cortante e visceral”.
          Porém, não era apenas a sua inventividade apocalíptica, a floração de versos com mensagens revolucionárias, que me impressionava. Era, sobretudo, sua capoeira de sensibilidade, sua profunda ternura para com a singeleza, sua paixão para revestir com charme e elegância as situações mais simples. Em seu primeiro grande sucesso, Mucuripe, ele já sinalizava essa capacidade extraordinária ao revelar que, mirando o paletó de linho branco, via, antes, a flor do algodão: “Calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado, lá no campo ainda era flor” ...
         O ex-seminarista, que também perambulou no campus da Faculdade de Medicina e, depois, divagou pelos pátios da Filosofia, carregava no mais íntimo de si mesmo aquela inquietude particular dos reitores do espírito, dos enamorados da sabedoria, dos garimpeiros de asas, dos mineradores de sonhos.
          Era temerário, assaz temerário imaginarmos que ele seguisse a saga dos iguais, o roteiro dos comuns, a trilha dos mortais. Eis o óbvio: um homem que imaginava serem seus os braços que se abrem no Corcovado jamais se quedaria conformado às injustiças mundanas, à engrenagem perversa desse mecanismo inexplicável do massacre de uma alma humana por outra humana alma. A barbárie das relações, o embrutecimento do cotidiano, o império da força feriram profundamente a camada mais sensível da sua pele poética. Com efeito, ‘mais angustiado que um goleiro na hora do gol’, ele constatou que ‘veio o tempo negro e, à força’, fez com ele ‘o mal que a força sempre faz’.
          Mesmo assim, resolveu ‘viver a Divina Comédia Humana, onde nada é eterno’. Para os que diziam que estava vendo estrelas, ou que perdera o senso, resolveu afirmar que ‘enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto’.
           E o menino – ‘alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais’, que ‘adoçava o pranto no bagaço de cana do engenho’, criado entre ‘galos, noites e quintais’ - resolveu nos falar não das coisas que aprendeu nos discos, mas de como viveu e tudo o que lhe aconteceu. Desiludido com os ídolos, que ainda são os mesmos, desenganado com as aparências, que não enganam mais, proclamou que ‘viver é melhor que sonhar’ e confessou sua profunda dor: ‘saber que, apesar de termos feito tudo, tudo, tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais’.
          Certamente, por tudo isso é que Belchior escolheu os últimos outubros de sua caminhada terrestre para viver como havia iniciado seus passos da juventude: enclausurado. Na aurora da vida, pensava em se entregar à clausura teológica; no crepúsculo, à clausura filosófica. Em ambas pedras pensativas se destacava o mesmo diamante, a mesma fulgurância verdadeira: o mineral da complicação, a esmeralda labiríntica, o magnetismo do surreal!
        Como Franz Kafka, o maior escritor Tcheco, que só recebeu a coroa da glória após a morte, Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi batizado para viver a sina do sucesso póstumo.
          No nosso cancioneiro alguns reis magos da composição conseguiram a façanha de nos presentear com melodias bonitas, nas quais reluzem o ouro da filosofia, o incenso da profundidade e a mirra da reflexão. São profetas que nos apontam a estrela de um outro Reino. Suas músicas se incorporaram às partituras do nosso platô mais altruísta. Da clausura, a luz de Belchior ilumina todos eles.
Júnior Bonfim, poeta e advogado.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O Martim-pescador



                                                 
Um dia, não muito distante, acordei impelido por um desejo de “busca” que me induziu a pegar a estrada que leva ao Boqueirão do Poti, depois da Ibiapaba e, irrefletido, percorri léguas e léguas para saber que necessidade premente era aquela. Repentino, parei o carro, atravessei a linha férrea que corre paralela à estrada para o Distrito de Oiticica, e me dirigi ao poço do rio chamado Pesqueiro. Era onde, outrora, a Maria Fumaça matava a sede, para ganhar fôlego e seguir viagem para o Piauí. Ao me aproximar, cautelosamente, vi um Martim-pescador macho (Peito todo ferrugíneo) saíndo de um buraco, no barranco da beira do rio e, em seguida, a fêmea também escapuliu de lá.  Ficaram revoando e cantando estridente como uma matraca: Ta-ta-ta ti-ti-ti trr-trr-trr, bem longe do orifício no barranco. Como conheço bem esses espertos Martins, notei que estavam despistando, pois ali era o ninho onde iriam reproduzir. Compreendi: os ovinhos no ninho precisavam do calor dos corpos dos pais, 24 horas por dia e eu estava atrapalhando. Saí, rapidinho, dali.  Voltei para casa, com a mesma ausência no peito que eu tinha levado!
Recentemente, a mesma “carência” incompreensível me impulsionou a voltar ao Poço Pesqueiro. Desta vez fui equipado, linha, anzol e uma cadeirinha de pescador dissimulado. Queria mesmo era ficar na tranquilidade mágica da mata-ciliar do Poço Pesqueiro.  Abanquei-me sob uma enorme Canafístula e nem sequer joguei o anzol na água, fiquei admirando o estirão de água do Pesqueiro que se emendava com o Poço da Croa, lá onde o brilho do rio faz uma curva. Via-se, quase no horizonte, a passagem cortada na Serra Grande, o Boqueirão que a milênios o Rio Poti cavou no paredão pétreo para ir de encontro ao mar. Amazonas, São Francisco, Sena , Reno, Tigre, Nilo... Não há outro rio igual ao nosso Poti!  As fogo-pagou não paravam de cantar. Um Papa-arroz voava de moita em moita procurando o que comer, o pássaro boé provocava inquietação com seu canto onomatopaico: Kiiiii kocorôoo boéeee...  Três belíssimos Martins-pescadores revoavam, em majestosas piruetas pelo espelho d’água. As algazarras dos anus-pretos era uma anarquia só e sempre considerei esses pássaros negros destituídos de quaisquer boas maneiras. Depois que passei repelente nos braços, nas mãos e até nas orelhas os mosquitos deixaram de me perturbar.
De repente meus tímpanos vibraram com um som agudo e estrepitoso: - Thiiiii thiiiii thiiiii thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrrr ....  Não caí da cadeira por pouco! Foi muito perto, pensei até que meus ouvidos iriam estourar. Olho de lado e, assustado, percebo um grande Martim-pescador pousado num galho, a dois palmos de mim. Quando vi o pontiagudo bico preto, tal qual o punhal de lampião, deu uma dor nos olhos pela proximidade do perigo, uma gola muito branca brilhava ao redor do pescoço e abaixo, pelo papo, descia uma ferruginosa e sanguinolenta gola contrastando com o manto azulado que ele trazia nas costas. Era o dândi pescador! O Martim percebeu meu medo. Então, falou: - Não se assuste, oh Ribeira do Poti. Vim lhe agradecer! Você está vendo aqueles três Martins que treinam a pesca no leito do rio? Os dois menores são meus filhos sendo instruídos por minha esposa a sobreviverem nesta difícil vida! Naquele dia que você esteve aqui, era um dia de máxima necessidade de calor para os ovinhos e você compreendeu e foi logo embora, por isso estou aqui para manifestar minha gratidão. 
Era mais uma circunstância fora do normal aquela por que passava, são situações que estou até me acostumando. Eu não sei explicar... Soa estranho dizer, mas falar com jegues, com bodes, com pássaros está virando coisa de praxe, então aceitei o diálogo... Embora não seja normal, nem ao meu juízo, nem ao senso de alguns companheiros, como o historiador Flavio Machado, que já me sugeriu uma sessão com um psicólogo. Disse-me ele: - Tu só vive em cima das pedras, tu tá é virando bode! Tu fala com jegue, fala com cabras , compreende os pássaros, é amicíssimo das mariposas... Sei não, em?
Deixa pra lá! O Martim chamava minha atenção, tinha algo importante para me dizer.  Embora a voz soasse estridente  “Thiiiii thiiiii thiiiii thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrrr” no ar, eu compreendia o que ele falava:
- Ribeira, naquele dia, que você veio aqui sem saber por que, lembra-se? Quem lhe intimou foi a Potâmide, a ninfa do rio. Ela queria lhe testar e como você obedeceu nossa lei, saído para não perturbar o equilíbrio da natureza, ela ficou lhe admirando e agora mesmo lhe observa. O olhar por entre o capim, por trás dos galhos e das folhas nem sempre é de um passarinho. Você sabe disso, não é Ribeira?
- ...
Quis responder, mas as palavras não saíam da minha boca. Acho que o Martim entendeu pelos meus olhos arregalados o que eu queria dizer. E ele continuou:
- Ribeira, você está encantado pelos mistérios do rio, sabia?  E isso é bom e é ruim. Bom porque temos um grande admirador e um protetor do nosso ambiente, mas você deve tomar cuidado, não confie muito no que vê por aqui, os mistérios da natureza são traiçoeiros. A Potâmide e a Mãe D’água são muito possesivas e podem lhe transformar num socó, ou mesmo num cari-bodó, só para que você fique com elas. Cuidado, Ribeira!
O Martim Pescador, à medida que falava comigo, subia e baixava o rabinho, olhando para os três companheiros que revoavam na flor d’água. Notei que estava apressado e, por fim, despediu-se: - Até logo, meu amigo, você será sempre bem-vindo por aqui, agora me deixe ensinar aos meus meninos a se peneirarem no ar, disparando pela cloaca uma iscazinha de cuspe para as piabas emergirem. É quando mergulhamos rápido e subimos com o peixe no bico. Hasta la vista, Ribeira!
Só deu tempo ouvi a matraca estridente novamente, Thiiiii  thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrr, e já  percebi que os quatro Martins estavam juntos deslizando pelas águas do belo poço Pesqueiro.
Agora sim, eu estava feliz. Entendi aquela “ausência” estranha que me fazia ir aos poços do rio. Estava encantado pela ninfa Potâmide e pela Mãe D’água, que legal! Mas... Matutei! E se elas me transformarem num socó? Tudo bem, viveria pescando na beira do rio. E se fosse num cari-bodó?  Aí a coisa complicaria, acho que nem o meu amigo Martins, quando estivesse pescando, saberia que era eu! Vou ficar mais esperto e deixar de andar amiúde nos poços do rio!
Raimundo Cândido

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Liberalina - Crime e Castigo




Quando escalei os 1500 metros da Chapada da Diamantina, só para ver um rio despencar lá de cima e formar a assombrosa Cachoeira da Fumaça, entre Minas e Bahia, ou quando subi os 1154 metros do Pico da Serra Branca para alcançar o ponto mais elevado do Ceará, em Monsenhor Tabosa, ou mesmo quando galguei os 645 metros da Serra do Picôte, na Ibiapaba, eu não experimentei o deslumbramento de estar no ponto mais alto do Morro da Liberalina, no Distrito de Santo Antônio dos Azevedos.
Postado no cimo daquela colina, não tão elevada como os demais, deslumbrei-me em ver trechos verdes escuros das matas preservadas entrecortados pelo verde claro dos campos cultivados. Uma beleza! Ao longe, os cilindros brancos das caixas d’água e as torres das antenas de telefonia indicavam os povoados espalhados pelo Sertão: Bonito, Ingá, Lameirão, Santo Antônio... Aqui e acolá um espelho refletia a luz do sol, anunciando um açude. Ali, fascinado por aquela visão maravilhosa, lembrei-me da história que o meizinheiro Simplício Barbosa me contara. Tudo aquilo, outrora, pertencera a uma mulher chamada Liberalina e que cometera um dos mais bárbaros crimes no sertão. E o êxtase rapidamente se transformou em indignação, ao me lembrar da perversa viúva Liberalina.
No ano de 1898, segundo consta no Livro Meus Avós, de Raimundo Raul Correia Lima, Liberalina era uma riquíssima latifundiária, uma poderosa dona de terras que se estendiam do atual Açude Carnaubal até o povoado de Santo Antônio: Barrocas, Paraíso, Bonito, Poço do Boi, Várzea, Tapera, Morro do São Francisco, dos Rodrigues, do Prudêncio, do Calixto, o Itaim e o Tombador, um mundão de terras na margem direita do Rio Poti serviam de pastos para os animais. Ouro e prata nem se contam. A famosa parteira Maria Sena, do Lameirão, falava que o grosso cordão de ouro de Liberalina tinha um pingente de meio quilo e no formato de coração, que ela colocava sobre o peito, cruzava os braços e rezava, cantando alto e com muita devoção.
A viúva tinha um filho único, que se chamava Luiz, um titã para o trabalho, mas de um acanhamento sem tamanho. Um dia Luiz arranja uma amizade com a Maria Nepomuceno, uma jovem pobre e negra, filha de um vaqueiro local. Liberalina, racista e avarenta, logo proibiu o namoro. A jovem engravidou e Luiz enfincou o pé para trazer Maria para dentro de casa ou, então, abandonaria a mãe, iria embora com a sua amada. Liberalina, a contragosto, aceita a situação. Maria ajeita o enxoval do bebê, engoma os cueiros para a criança que logo vai nascer. O preconceito fervilha na mente de Liberalina que não suportaria ver aquela criança se agitando por dentro de casa. Silente, alimentava um plano sombrio e, aos poucos, o mal dominava a alma de Liberalina. A velha intima a ingênua Maria para um serviço:
- Oh, Maria, vamos pegar uns paus de lenha, ali na mata!
Saem com as foices e as cordas na mão. Bem afastado de casa, Liberalina amontoa uns paus e pede que Maria amarre o feixe. Mesmo com o barrigão imenso, Maria se abaixa e começa a atar o molho de varas quando, súbito, sente a corda lhe apertando o pescoço. Liberalina enforca Maria até não sentir mais a respiração e a suspende no galho de uma catingueira, para simular suicídio por enforcamento.
À tardinha, Luiz chega em casa e pergunta por Maria. Liberalina não sabia do paradeiro da companheira do filho e até ajuda a procurar. O desespero do rapaz ecoa pelo sertão: - Oooh, Maria Nepomuceno!!! Mariiiia!!! Nada. Passa a noite, passa dia e vem mais uma desesperada noite e nada de Maria. Deve ter se perdido pela mata, alguém dizia. Foi embora, e você sabe o porquê, outro atiçava o coitado do Luiz.  Depois de uns dias viram um cachorro arrastando uma perna da moça, mais na frente outro com o braço de uma criancinha. E aonde iam achando um pedaço de Maria e de seu filho enterravam e enfincavam uma cruz. Então, descobriram que Liberalina enforcara Maria. A notícia do crime hediondo se espalha pelo sertão e a polícia vem prender Liberalina. Na Cadeia de Pública de Cratheús, na frente do Mercado Central, a velha rezava sem parar à medida que cantava bem alto a ponto do delegado não ter mais sossego.
Mesmo cantarolando rezas estridentes ao cumprir sua longa pena, perde o tino das coisas e enlouque de vez. Volta para o morro e não mais acha o Luiz, nem seu gado, nem suas terras que agora têm outros donos. Viver seus últimos dias como mendiga, perambulando pela mata, não é mais castigo para a velha Liberalina, pois juízo não tem mais. É provável que tenha sido sepultada ao lado do corpo da nora Maria, ou perto do ouro e da prata que em potes de barro, por ali, enterrou.
Muitas pessoas ainda vão pagar promessas na Cruz da Moça, como chamam um dos túmulos de Maria, ao lado de uma carcomida catingueira, a única testemunha da tragédia do Morro da Liberalina.
A senhora Maria Boa Hora sonhou com o local da botija da Liberalina, mas contou para outro alguém e o tesouro se encantou.
No final de certo dia, com o manto da noite encobrindo a mata do Morro, o corajoso meizinheiro Simplício Barbosa caminhava pelas terras da Tapera e quando estava debaixo de uma imensa oiticica, o mundo clareou de cima à baixo que dava para achar uma agulha no chão. Simplício se assusta e puxa da faca, pois ouvira falar que uns discos voadores estavam aparecendo com uma luz forte e jogavam uma tarrafa levando o povo para cima. Então, acalmou-se, pois se lembrou das botijas de Liberalina, assinalou bem marcado o local e foi embora. Disse-me que nunca arrancou nenhum tesouro, mas ensina o local para quem quiser ir arrancar.
 E ali, postado no alto do morro, apurei bem a audição e tive a impressão de ouvir os gritos de Luiz, procurando por Maria e seu filho, perdidos no meio da intricada mata: - Ooooh, Maria Nepomuceno!!! Mariiiia!!! Mas a resposta que realmente ouvi foi o silêncio das velhas catingueiras que nunca esqueceram o dia da grande tragédia no Morro da Liberalina.

Raimundo Cândido