Este é o chão sagrado da Academia de Letras de Crateús na internet. Como um templo ecumênico, nele há espaço para todos que adoram cultuar a beleza da virtude, a simplicidade da inteligência, a singeleza do verbo, o fascínio da cultura, a liberdade da palavra, a profundidade do amor.
O crateuense Chico Pascoal, nascido na Ibiapaba, poeta, cronista
premiadíssimo que trabalha na área das telecomunicações residente atualmente em
São Paulo, ganha mais um Concurso Literário. Desta vez foi o Prêmio Henry
Evaristo de Literatura Fantástica que será publicado num ebook digital, com
todos os 10 contos classificados, veja a relação
abaixo:
1º - Profanadores -Chico Pascoal
2º - Anátema -Rafael
Peres
3º - O Passado volta -Verônica
S. Freitas
4º - O Caminho de volta –André
Soares Silva
5º - Almas Mortas -Sofia
Geboorte
6º - Entre amigas -Eni
Allgayer
7º - O Diabo mora nesta casa -Jorge
E. Machado
8º - Manequim -Reginaldo
Costa de Albuquerque
9º - Lágrimas de criança -Pedro
Viana
10º - Caminhos Perigosos -Hélio
Sena
terça-feira, 18 de setembro de 2012
A DATA
Constantemente Vicki afronta o calendário desejando que os dias parassem, mas eles renascem. E a data assinalada se aproxima com o seu cortejo de horrores.
Silas Falcão
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
CESSI (DEDICATÓRIA DO AUTOR)
Encontro Cessi balançando seus poucos pensamentos. “Cessi, como vai a senhora?” De dentro da rede os seus olhos antigos me contemplam tristemente: “Vou aqui sofrendo este resto de vida, meu filho”. Afetei carinhos a Madrinha Cessi, festejando os conselhos que ela me deu quando eu era menino.
O vento da madrugada traz um princípio
de luminosa plenitude que será preenchida com afazeres imprescindíveis do dia,
a começar pelo canto do galo, o chilrear dos pássaros, o coachar dos sapos e o
latido dos cães que acompanham os denotados vaqueiros em reflexos imutáveis de
uma eterna marcha rumo ao currais.
A vida
sertaneja sempre traspôs as tramelas das velhas porteiras langorosas, tangida
pelo ecoar dos aboios e pelo mugido do gado difundido no ar. O forte aroma de
estrume é o perfume que assinala as fazendas de gado, onde um denotado homem foi
se arraigando no rude solo de um arrebatado agreste, desfrutando as horas generosamente
paternas ou instantes impiedosamente insensíveis de um tempo padrasto.
Sempre que vejo a peleja diária destes
“Antigos Guerreiros Exaustos da Refrega” como os intitulava Euclides da Cunha,
no livro Os Sertões, declamo no pensamento um trecho do verso decassílabo do
repentista pernambucano Dimas Batista, ao cantar um belo galope à beira-mar,
obsequiando os vaqueiros “... é no braço, é na mão, é na carne, é no osso, / é
no osso, é na carne, é na mão, é no braço. / É o vaqueiro, é o boi, é a corda,
é o laço, / quando ele persegue e sabe laçar...”.
Tenho uma autentica e sanguínea admiração
pela lida de gado. Não à inquietação monetária dos ricos fazendeiros, impassíveis
às agruras diárias dos animais e do homem, mas ao heróico condutor de um processo
histórico chamado Civilização do Couro, relatado por um historiador cearense, o
mordaz Capistrano de Abreu.
Numa das mais antigas propriedades
rural dos Sertões de Crateús, a fazenda Boa Vista (época da Vila Príncipe
Imperial), quando a criação de gado era feita na forma mais primitiva, com os
animais livres, rodeando sem cercas, soltos na imensidão de uma caatinga, o vaqueiro
e vate maior crateuense cantou um valente boi num belíssimo épico bucólico, um
poemeto romanceado ao cachaçudo Touro Fusco, preso num curral de pau-a-pique
feito a troncos de aroeiras: “Em tanto, o touro-fusco, escavacando, / A lama para os lados espargia, /
Tão intensa que, a tudo enlameando, / De lama tudo em roda ele cobria; / E,
gemendo e a cabeça maneando, / Contra os fortes mourões, arremetia, /E os robustos mourões, estremecendo, / Às
cornadas do touro iam cedendo.” O intrépido vaqueiro, além de
incansável trabalhador, é um homem que crê. Crê, ao seu jeito, na vida simples que
leva, isolando-se, desconfiando de uma nova vida, pois vaqueiro nunca muda de
hábito. Crê nos duendes, crê nas rezadeiras que combatem o mal olhado, debelam a
coisa feita e até curam as bicheiras dos animais, infestadas de repulsivas moscas.
Na fazenda Pereiros, há um vaqueiro que,
pelas feições sempre serena, não demonstra o titã aguerrido no trabalho
incansável dentro de um coração valente e enrijecido na labuta diária com o
gado. O senhor Manoel Joaninha chama todas as vacas leiteiras pelo nome – já
ordenhara quase todas – a última é a valente mimosinha, com os chifres laçados
no cambão, as patas traseiras peadas e o forte bezerro colado na pata dianteira
se contorcendo na laçada, louco para mamar. A pressa em terminar a ordenha bem cedo
se justifica: levará o gado solteiro para escapar do pesado verão no clima
agradável da Serra. Uma caminhada longa e difícil de subir, passando pelas
veredas íngremes do Buritizinho até chegar ao aprazível São Luis, onde já
começaram as agitações alegres das farinhadas, que faz seu Manoel se lembrar do
baião de Luiz Gonzaga: ”Tava na peneira eu tava peneirando / Eu tava num namoro
eu tava namorando. / Na farinhada lá da Serra do Teixeira / Namorei uma cabôca
nunca vi tão feiticeira”. Admiração maior é ver na dura labuta, a
tanger os animais brutos, uma sensível efeminina mulher.A preta
Ernestina já nasceu respirando os currais e tornou-se a vaqueira destemida e
preferida do Senhor Euclides Maravilha. Tangia dezenas de gado, a pé, só com um
cacetete na mão, desde as margens norte do Rio Poti até os aprazíveis climas
dos Tucuns. Como Diadorim, filho(a) de Zeca Ramiro, no agreste de Guimarães, a
Preta Ernestina foi a heroína de nossos sertões. O Senhor Manoel Pereira Alves , o Joaninha
é só por insistência de família materna, estava semprecom um par esporas nos pés e chibata de couro
nas mãos como a dizer, se não estou montado em minha burra baia agora, a
qualquer momento posso estar, deixou a arte de guiar uma boiada com o canto
monótono e triste de um aboio para todos os seus filhos que conferiram as
honras de vaqueiro, como uma grande herança. E a todos os intrépidos vaqueiros,
desde o pernambucano Raimundo Jacó, assassinado por um companheiro, até à heróica Família
dos Joaninhas, trajando gibão, peitoral,
perneiras, luvas, esporas, chapéu e chibata na mão, que para arrebanhar uma rês
desgarrada, enfrentam os maiores perigos, um poeta menor cantou assim uma pega
de boi na caatinga:Flecham-se!
/ Estica-se na sela / feito um guerreiro medieval. / Uma trincheira de juremas
pretas / é um estorvo traiçoeiro e cruel! / Sombras e réstias de luz mesclam-se
/ na inextricável mata de espinhos acesos. / Arrematam-se pelo sem fim da
caatinga / insensível, a tanto heroísmo, a tanta destreza!
Raimundo Candido
José Alberto de Souza disse...
Observador arguto das lides sertanejas, Nada escapa ao cronista atento
Desde a dureza da vida do vaqueano Até o conformismo dessa alimária.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
A BEATA
As contas corroídas do rosário giram nas mãos estranhas duma beata em pé na torre da Igreja.
HOMENAGEM A
NELSON RODRIGUES, JORGE AMADO E LUIZ GONZAGA
Dideus Sales
Nelson Rodrigues, cronista,
Dramaturgo iluminado; O genial Jorge Amado, Fulgurante romancista; Luiz Gonzaga, um artista Da sanfona e da canção, Três notáveis na invenção, Três gigantes, três arcanos. Três gênios fazem cem anos Nelson Jorge e Gonzagão.
Três símbolos deste país
Deixaram enorme lacuna: Amado, de Itabuna, Do Exu, o rei Luiz, Nelson deixou seu matiz Na robusta produção. Os três com certeza não São sagrados nem profanos. Três gênios fazem cem anos Nelson, Jorge e Gonzagão.
Três corcéis soltos sem rédea
Nos campos férteis das artes, Três cetros, três estandartes Três estros além da média Nelson deu alma à comédia, Luiz criou o baião, Jorge leu com emoção Os sentimentos baianos. Três gênios fazem cem anos Nelson, Jorge e Gonzagão.
Três bússolas, três timoneiros
Três videntes, três estetas Três sonhadores poetas Três autênticos brasileiros Três mágicos, três feiticeiros Três luzes na amplidão Três sementes de emoção Lançadas em solos planos. Três gênios fazem cem anos Nelson, Jorge e Gonzagão.
Três cascatas, três rochedos
Três rapsodos etéreos Três enigmas, três mistérios Três boêmios, três aedos Três decifráveis segredos Três bombas numa explosão Três invernos no sertão Três destinos, três ciganos. Três gênios fazem cem anos Nelson, Jorge e Gonzagão.
Três plantadores de sonhos
Três jardineiros, três lagos Três caminheiros, três magos Três vencedores medonhos Três estafetas risonhos Três aves de arribação Três faróis na escuridão Três naus em três oceanos. Três gênios fazem cem anos Nelson, Jorge e Gonzagão.
Três geniais nordestinos
Três astros incandescentes Três jazidas, três torrentes Três lentes, três paladinos Três artistas genuínos Três monstros da criação Três mundos de inspiração Três deuses, três soberanos. Três gênios fazem cem anos Nelson, Jorge e Gonzagão.
Jorge Amado absoluto
Em seu ideal político; Nelson Rodrigues um crítico Controverso e muito astuto; Luiz Gonzaga um matuto De apurada aptidão, Os três legaram à nação Feitos quase sobre-humanos. Três gênios fazem cem anos Nelson, Jorge e Gonzagão.
num envolvente ar de graça! O preito ao Geraldo Mello Mourão irmana-nos a um ipuerense cidadão.
E não mais que de repente,
afrontando toda aquela gente, indaga-nos, num ímpeto novo: - Cadê o Coriolano, meu povo?
Notara um abandono injusto,
aonde antes havia um busto, que mostra-se, flor despetalada de uma memória abandonada!
Uma cepa daqueles antigos Mourões,
irados nos descampados dos sertões brigando à ferro, implacável teimosia, isentou a estirpe no ritmo da poesia.
Época de um romantismo intenso,
veia poética fluindo tal rio imenso de um Gonçalves Dias a cantarolar, e o telúrico Coriolano a acompanhar.
Tempo de Castro Alves bradando nos ares
para que se fechem as portas dos mares é o momento do poeta das águas do Poti deixar seus primores, para mim e para ti.
Crateús, uma singela vila, Príncipe Imperial
e nosso vate magistral, um lírico cordial com versos suaves, sem um traço brusco a celebrar amores e endeusar o Touro Fusco.
Chega-nos com tanta beleza, tanto sentimento
as imagens revestidas de fé e luz, que num
alento de êxtase sorvemos, inebriados e agradecidos o consistente vinho tinto de Impressões e
Gemidos.
Raimundo Candido José Alberto de Souza disse ...
Escreve-se para quê? Para o além? Será que ainda precisam ser esquecidos
Para que sejam descobertos também Entre tantos raros livros perdidos
O CRONISTA
Após
escrever uma longa crônica, ele percebeu formigas andando pelas entrelinhas do
texto.
Por estas horas (09:40) a acadêmica Maria da Conceição (Nega) está lançando seu livro: Terra Minha, Terra Sua, na III Feira do Livro Infantil de Fortaleza!
Veja programação de hoje:
Manhã
8h30min - Contação de histórias com Júlia Barros (CE), no palco principal.
9h20min - Contação de histórias/oficina para crianças, no espaço Baú de Leitura/Coelce.
9h20min - Contação de histórias/ oficina para crianças, no espaço Endesa Fortaleza Criança.
9h20min - Roda de Leitura, no espaço Agentes de Leitura.
9h20min - Contação de histórias com Cláudia Garcia (RJ), no espaço CCBNB. 9h30min - Lançamento do Livro Terra Minha, Terra Sua da escritora Maria da Conceição Martins (CE), Ilustrações de Miguel de Paula (CE), Academia de Letras de Crateús. 10h - Palestra para professores e Lançamento do Livro Um dia de cada vez, de Marta Martins (SC), Editora Cuca Fresca.
12h - Lançamento dos Livros O preço da liberdade, de Rouxinol do Rinaré (CE) que será apresentado por alunos das escolas do Eusébio e Sete contos de Maria, do poeta Antônio Francisco (RN) que recitará seus poemas de cordel, Editora IMEPH.
José Coriolano de Souza Lima – o primeiro poeta crateuense a cantar as alvoradas iluminadas dos Sertões de Crateús. Estudou com o Poeta dos Escravos, Castro Alves, na Faculdade de Direito do Recife – Estamos lhe devendo uma estátua na Praça da Matriz! ( Os políticos, se lembrarão disso?)
A Poesia Quem é que veste de fragrantes flores O verde campo que o matiz iria? Quem é que pinta-o sem pincel e cores? - A poesia!
Quem é que torna d’esmeralda os mares? Quem é que a noite faz melhor que o dia? Quem nos consola dos cruéis azares? - A poesia!
Quem nos cantores que no ar passeiam Nota primores, divinal magia, Quando seus hinos matinais gorjeiam? - A poesia!
Quem cisma e geme, se do frágil ramo Viu a rolinha que a cismar gemia? Quem ama os infelizes como eu amo? - A poesia!
Quem descortina num olhar modesto, Que o chão afaga quase todo um dia, A maior prova de um amor honesto? - A poesia!
Quem d’entre os lábios da consorte amante Perscruta o sonho que o Senhor lhe envia Co’o fido esposo – no sorrir tão crente? - A poesia!
Quem sonda o seio de u’a mãe zelosa E afetos nota que só ela cria? Pois quem suspira, se ela está chorosa? - A poesia!
Quem no sorriso da gentil criança Descobre augúrios que ninguém sabia? Quem vê sorrindo, lh’acenar a esp’rança? - A poesia!
Quem neste peito me afervora o sangue? Depois quem fá-lo estremecer que esfria? Quem robustece-o, quem o torna exangue? - A poesia!
E quem o mundo num balanço brando Qual ama terna que o infante cria, Meigo embalança como quê ninando? - A poesia!
Harpa saudosa, que harmoniza o mundo, Íris formoso que no céu radia, Sentir sublime de um pensar profundo, - És - poesia! José Coriolano Recife, 1856 Caro Raimundo Cândido
Ivens Mourão disse...
Caro Raimundo Cândido
Obrigado pela luta para recuperar o poeta José Coriolano.
Toda poesia dele é pura inspiração.
Somente um esclarecimento. Ele e Castro Alves estudaram na mesma Faculdade. Já estava formado quando Castro Alves foi aluno. Como ele era muito admirado pelos professores, acredito que o grande Castro Alves deve ter tido conhecimento das suas poesias, pois chegaram a ser publicadas em jornais do Recife. Por isso, imagino um estudo para saber se o Coriolano influenciou-o nas poesias abolicionistas.
Um crepúsculo
vespertino se despedia, impregnado de um aviso imperceptível, aspergindo um sofrimento
silencioso, característica das tardes lacrimosas. O lúgubre entardecer ia, lentamente,
se dissipando entre a neblina do álcool misturada com fumaça cinzenta de
cigarros, tangido por uma emotiva música que sondava o vazio impreenchível dos
pertinazes corações a suplicar as ilusões de amores efêmeros.
E a noite desce
no final da Rua Dr. João Tomé, como um manso presságio a ensombrar as alegrias,
cumprir as tristezas, despertar os sonhos e ativar os remorsos.
A animação na
Casa de Maroca já se clareava, desde os últimos raios do dia.
Na vitrola o LP de Roberto Muller entoa,
harmonicamente, “Entre espumas” para deleite de um opulento comerciante, que
chegara mais cedo para ter o prazer de beber, dançar e sonhar com Pretinha, uma
jovem e circunspecta morena, de riso entristecido, mas bem contornada nas
linhas femininas a provocar desejos dos frequentadores daquele singelo lupanar:
“Uma noite sentou-se a minha mesa / E entre tragos lhe dei todo o meu amor/
Transcorreram só duas semanas / Como em sonho, minha vida se acabou...”
A moça estava
apreensiva, pois seu “dono” poderia, a qualquer hora, chegar. Na mesa, as
flores murchas de crepon, entre as garrafas de cerveja, filtrava uma tênue luz
bordô. Se existe uma lei que determina que se algo pode dar errado, então dá,
nasceu naquele fatídico dia. Um Jeep Willys risca na porta do Cabaré da Maroca.
Desce um raivoso senhor, demonstrando avançada embriaguez e já apontar um revólver
na mão. Espuma um ciúme que traduz o sentimento de uma ignorante e estúpida
propriedade:
— Pretinha!!! Prepare-se,
que hoje você vai morrer!
A
única reação da desprevenida rapariga foi agachar-se para se proteger, mas facilitou
o desfecho do criminoso “proprietário” daquele frágil corpo humano que ficou
estendido no chão, todos correram com medo das balas. Ninguém desligou a vitrola
que continuou, harmonicamente, a tocar: “Se um amor nasceu de uma cerveja / Outra
cerveja beberei para esquecer / Um amor que surge numa mesa / entre espumas
terá que terminar”.
É
pré-histórica a arte deste amor dissimulado, do amor monetariamente fingido que
cabe na cama e no colchão de amar, onde um corpo se estende com outro corpo,
mas as almas, não. Os “especialistas” dizem que nos envolvemos com as
meretrizes porque queremos uma mulher
submissa, obediente, descartável e sem conflitos. Não parei para pensar nisso, ainda!
No final da feira-livre reside o Senhor João Furtado
Ribeiro, um idoso e brincalhão duende que, enquanto aguarda o encantamento
final, vigia o portal de entrada dos antigos cabarés, a inicia-se no quarteirão
da Rua Azul. Entre um trago e outro de uma forte aguardente, ele relembra: — Fui motorista de praça e num fim de semana eu não
parava um instante de trazer os fregueses para a Raimunda da Justina, a Maroca,
a Naninha, a Alayde ou para a Casa de Diversão da Nair. Por aqui, numa
temporada boa, chegava-se a ver centenas e centenas de mulheres para abastecer toda
a região. A mais famosa delas foi a morena Cícera, na casa de Raimunda da
Justina, todos queriam estar com ela. Triste era quando a polícia chegava,
sempre às dez horas da noite, mandando todo mundo pra casa e trancavam até as
portas dos terreiros de macumba. Certo dia, os policiais mataram um valente soldadinho
do batalhão, afoito para brigar que nem lampião. Neste dia o cabaré se
transformou num inferno, o 4º Bec sitiou tudo, ninguém saía, ninguém entrava.
Enquanto nos bordéis de Roma, no desabrochar da
Floralia, as mulheres dançavam com seus vestidos floridos, em homenagem a deusa
Afrodite para principiar o sagrado festival de abril, na Raimunda da Justina o
mais puro pé de serra troava com a sanfona, o triângulo e zabumba do sanfoneiro
Vicente Pedro, fazendo com que muitos pés de valsas, exímios dançarinos,
antecipassem o ritmo quente das lambadas nos animadíssimos cabarés dos Sertões
de Crateús.
Há um hino chamado “Rancho de Amor a
Ilha” que canta as belezas sem par de Florianópolis: "Um pedacinho de
terra, perdido no mar!... Ilha da moça faceira, ternura de rosa, poema ao luar...”
por lá, Ilha do Amor, um poeta matuto admirou-se de tantos bordéis, de tantas
belíssimas gurias que aguardavam, calmamente, seus fregueses na noite de
luar... E bateu uma imensa saudade do final da Rua João Tomé, com seus cabarés
bucólicos, repletos de putas tristes...
Mas só é triste porque o amor humano sempre
se reduziu a uma torpe luta de células, num asco prazer, através da matilha
espantada dos instintos e que, em torpor, a poesia recebia a resposta sincera e honesta de uma bela meretriz:
“Quanto a esse tal de amor / Guarde-o à alguém que o mereça / Ou jogue-o fora:
esqueça, / Só nunca mais me ofereça / Algo que não me presta / Algo que eu
nunca quis.”
Raimundo Candido José Alberto de Souza disse...
Anisio Silva, Cláudia Barroso e outras
vozes do amor clandestino, quanto não alimentaram as ilusões de insensatos na
penumbra das amarguras!
Pitágoras proclamou: “Todas as Coisas são Números”. Os que se embrenham pelas florestas numéricas costumam sentir a mesma sensação dos bandeirantes: perscrutam, desbravam, descobrem e se extasiam com a novidade!
Também creio na numerologia! E foi com essa crença nos números que acolhi a incumbência, que é sempre uma deferência, emanada do nosso Presidente Seridião Correia Montenegro para lhes proferir estas singelas frases de efusão. É a nossa festa de aniversário e a mim me cabe saudar os neófitos.
Mirei no calendário nossa data de fundação: 25 de junho. Ano 2005. Se abstrairmos os dois zeros de 2005 também chegaremos a 25. Somando, 2+5 é igual a 7. Sete é o cabalístico número da perfeição.
Aristóteles dizia que todas as coisas deviam sua existência à imitação ou à representação dos números.
Os pitagóricos também assentaram que é a masculinidade um número ímpar e a feminilidade um número par. Assim, a nossa Academia, sacramentada no altar matrimonial entre o dois e o cinco, nasceu sob o signo da pluralidade feita expressão singular, da unidade fiada na diversidade.
A ciranda constitutiva da AMLEF exibe uma inaudita sintonia entre a construção rebuscada da erudição e a mais genuína inspiração popular. Em nossos convescotes literários têm desfilado, com igual relevo, a sílaba portentosa e o fonema singelo.
Os córregos que deságuam neste Sodalício transportam tanto a água quimicamente impecável como a potável água das fontes cristalinas.
E os que se abancam entre nós nesta noite memorável reforçam essa excelsa tradição. São pessoas oriundas de manjedouras distintas, porém trazem na alma as pilastras da essencialidade humanística da cidadania militante, que mesclam literatura e amor à livre criatura. Saramago já dizia que aonde vai o escritor vai também o cidadão. É com fraternal prazer que anuncio: os cidadãos José Hilton Lima Verde Montenegro e Antônio Tarcísio Carneiro passam a compor a moldura de Acadêmicos Correspondentes da AMLEF.
Da terra de Eleazar de Carvalho, Evaldo Gouveia e Humberto Teixeira, o engenheiro mecânico José Hilton, que também perambula pelos campos da filosofia e das letras, resolveu perscrutar a engenhosa mecânica da História. Produziu obras memoráveis.
Antonio Tarcisio Carneiro é músico, compositor, poeta popular, cantor, contista e dramaturgo. Marinheiro de profissão, nunca olvidou os tórridos rincões de Santana do Acaraú. Por transpiração virou o Carneiro do Sertão. Mansamente se achegou ao nosso convívio. Hoje mansamente correspondemos seu afeto.
No nosso pórtico de honra, na categoria de Acadêmico Honorário, inscrevemos com reverente dignidade os nomes de José Augusto Bezerra, José Lins de Albuquerque e Francisco Eloy Bruno Alves.
Como o próprio nome consigna, o primeiro José tem a sensibilidade do carpinteiro de Nazaré e a augusta solenidade de um imperador romano. O mestre José Augusto Bezerra exibe talento multifacetário: escritura e empresaria, cultiva a bibliofilia e irradia filantropia. Agraciado com a Sereia de Ouro, pertence às mais destacadas Academias Cearenses, inclusive a mais antiga do Brasil. Meu destino eu mesmo traço: a fraternidade me deu régua e compasso – pode ele afirmar parodiando Gilberto Gil.
Na pessoa do poeta Juarez Leitão, saúdo o meu conterrâneo José Lins de Albuquerque, um ser constelado que conserva a invariável expertise de bafejar com o incenso da competência os espaços por onde passa, poliu a mente e a alma nas montanhas das Minas Gerais. Certamente nas Alterosas apurou a visão aguçada, sedimentou o estilo sóbrio, fiou o jeito silencioso e disciplinou-se no rigor técnico. Pai de oito filhos, com 22 netos e dois bisnetos, o nonagenário, porém adolescente engenheiro, professor, poeta, contista e memorialista mergulhou nas águas plácidas da aposentadoria com a dignidade de um varão de Plutarco, dedicando-se ao culto da família e às delícias do espírito, escrevendo Contos Verdadeiros e Versos de Muito Amor & Outras Poesias.
A primeira reunião desta Arcádia em que me fiz presente ocorreu na Parangaba. Qual não foi minha surpresa quando surgiu ali a figura de um padre: Francisco Eloy Bruno Alves, hoje monsenhor da Igreja Ortodoxa. Àquela época profetizou, fazendo uso de uma parábola evangélica, que esta Academia se assemelhava ao grão de mostarda: embora a menor das sementes, lançada em solo fértil, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças. E este vôo imaginativo parece que, agora, ganha contornos de realidade. Após enfrentar problemas de saúde, Padre Eloy retorna à AMLEF.
Exibirá o Diploma de Acadêmico Emérito o jornalista Francisco Lima Freitas. Patrono do municipalismo no campo das letras, Lima Freitas preside o mais representativo sodalício de letras da Terra da Luz, a ALMECE (Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará). É um apóstolo da cultura, um missionário das letras, semeador de livros e um peregrino incansável da causa literária.
Para abrilhantar nossa bancada de Acadêmicos Efetivos oficializamos o ingresso do Padre Francisco Geovane Saraiva Costa, cadeira nº 8, Patrono Olavo Oliveira; da professora Michelly Barros Andrade Sousa, cadeira nº 15, Patrona Natércia Campos; e do doutor Francisco Régis Frota Araújo, cadeira nº 31, Patrono Antônio Bezerra de Menezes.
O Padre Geovane, que atualmente pastoreia em Fortaleza, aprendeu com dom Helder Câmara, nascido para as coisas maiores, a ser um peregrino da paz. Trabalhador incansável na messe do Senhor, o pároco da Parquelândia é também articulista, cronista e biógrafo. Adentra o nosso círculo para nos ensinar que o ódio e a paz, o simbólico e o diabólico, o céu e o inferno não são instituições alienígenas, mas forças que se debatem no universo do nosso ser. Padre Geovane bafejará este Sodalício com os fluidos da espiritualidade a fim de que nos voltemos, sempre, para os pensamentos superiores.
A professora Michelly Barros é uma heroína popular que seduziu o nosso Silogeu antes da admissão. Sua história de vida é um enredo épico. Muito mais que isso: uma indelével lição existencial. Um culto de amor à luta pela sobrevivência. Um hino à superação. Por mais de 17 anos erigiu sua trincheira nos morros de areia branca e vegetação abundante do Conjunto Santa Terezinha. Da pobreza extraiu beleza. Graduou-se pela UFC e abraçou a causa do magistério. Escritora e compositora, exalta a rica e autentica linguagem regionalista do matuto cearense. Nenhuma porta lhe foi aberta. Ela as abriu. Inclusive as desta Academia. Seu diploma foi confeccionado por uma matéria chamada merecimento. Parabéns, Michelly Barros Andrade Sousa!
“Instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social” – eis uma parte do Preâmbulo da Constituição Brasileira, a nossa Magna Carta, o principal e um dos mais belos documentos do nosso ordenamento. A terceira cadeira será ocupada por um intelectual irrequieto, amante do direito constitucional, que já percorreu meio mundo estudando essa temática. O professor Francisco Régis Frota Araújo, mestre pela UFC, doutor pela Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, Presidente da Associação Ibero-Americana de Direito Constitucional Econômico, cujas produções técnico-jurídicas aliam rigor científico e brilhantismo literário, nos honrará com sua distinta companhia.
Portanto, tomai assento entre nós, humanos livres e de saudáveis costumes!
Aqui sentireis a camaradagem que contagia um modesto sodalício de destemidos militantes em defesa dos direitos da inteligência, que presta reverência aos ditames do Espírito, que busca cumprir os deveres do coração!
Vamos formar um pelotão de mãos conjuncionais.
Vamos erigir um monumento ao belo, ao sagrado, ao essencial!
Publiquemos, juntos, o édito da paz!
A missão primeira de quem se entrega à tarefa de cunhar as sílabas oníricas é proclamar a civilização da claridade e o império do amor. Deixemos que esta Casa nos transforme em indeléveis centelhas da alegria, eternos operários das estrelas, perenes súditos da aurora!
Rotulam-nos de imortais. Não o somos. Imortal é a mensagem daquele que consegue encravar sua escritura no solene pergaminho estampado no átrio do sonho humano. Para fazê-lo, precisamos emprestar as nossas mãos às invisíveis mãos do Insondável, algo que só é possível quando nos abrimos à iluminação. Por isso o espaço em que vos acolhemos chama-se Palácio da Luz! Assim, vos desejamos êxito no cumprimento deste múnus fulgurante!
Fiat Lux!
Viva a AMLEF!
(Discurso proferido por Júnior Bonfim na sessão de ontem da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza – AMLEF – no Palácio da Luz, Fortaleza, Ceará)
Raimundo Candido disse...
Um iluminado, que se irradia em verso e prosa, mas toda essa
luz teve a chispa primeira nas brenhas dos Sertão de Crateús e no bucólico Curral
Velho! Parabéns Junior Bonfim, um orgulho dos crateuenses!