quinta-feira, 18 de agosto de 2011


                                     Dr. Luiz, além de tudo, humano!
            Nunca achei decente começar uma narrativa parafraseando uma citação de efeito de algum outro escriba, principalmente quando nem se sabe que admirável índole a produziu. Louvo quem a gerou e alço-me de uma coragem, como a de quem furta, mas peço desculpas por descerrá-la, adulterada assim: “Se quiseres fazer alguma coisa para durar uma estação, plante flores.  Se quiseres fazer alguma coisa para durar uma vida, plante árvores. Se quiseres fazer alguma coisa para durar uma eternidade, se propale, você mesmo, como uma semente do bem, no coração do um povo e sua obra será ressoada nos ecos do tempo, como uma agradável recordação, num perfumado hálito benfazejo em todas as dobras ferruginosas das longínquas eras!”
            Na comunidade em que vivemos, não somos obrigados a ser médico, a ser professor, político, mestre de obra, ou exercer qualquer outra atividade vantajosa, mas somos obrigados, sim, a ser cidadão! E antes de nos tornamos cidadão, a natureza nos faz homens, e antes de sermos feitos homens, já éramos, como somos e seremos, sempre, espíritos à luz de uma Força Maior!
            Hoje, nesta diminuta área delimitada por uma simples e branca folha de papel, numa tarefa demasiadamente difícil, tento derramar algumas singelas palavras, de modo fiel e convincente, na esperança de que elas sejam suficientes para traduzir numa linguagem cordial e real uma figura ímpar na história de Crateús, que carregava a autêntica humildade sobre uma grandiosa capacidade humana e espiritual. 
            No final década de 30, o mundo se agitava num período de intranquilidade e violência. Na Europa, tinha começado o horrendo genocídio chamado holocausto e iniciava-se a sangrenta Segunda Grande Guerra Mundial. Nesta época, assim conturbada, se um casual forasteiro, displicentemente caminhasse pela rua Cel. Zezé e chegasse na esquina da João Tomé, seria compelido a olhar, inevitavelmente, para um imenso casarão amarelado, com uma larga alameda na frente e um tapete pavimentado, margeado por terrenos ajardinados que dava para um imponente alpendre de grossas colunas, como a dizer: Isto aqui é uma fortaleza, tome cuidado! Mas o viajante estranharia aquele vai-e-vem, num entra e sai diuturno de gente com uma felicidade estampada no rosto e para sua surpresa perceberia que aquele castelo, com fama de mal-assombrado, era a casa da humildade, a senhorial residência da bondade. Um edifício com altas e largas portas abertas para atender o que quer que fosse de necessidade. Era o lar de um cidadão formado em medicina pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, uma aventura impensável para a época, mas o que ele realmente ostentava era um título de Nobreza de Espírito. Também dependurado na parede de sua sala, como se já não bastasse o de doutor, outro Diploma de Farmacêutico, pela antiga Escola de Farmácia do Estado do Pará, mas a honraria principal surgia de sua alma como um invisível sustentáculo de benevolência, confirmando a asserção de Alan Kardec “Fora da caridade não há salvação!”
             Quantas vezes Dona Sancha, sua esposa, ia buscá-lo, na linha do trem, depois que ele tinha distribuído para uma enfileirada pobreza, quase todo o dinheiro apurado com suas receitas, quando recebia por estas consultas, pois na realidade, a maioria dos pacientes levava até os remédios, de graça. Dizia: - Não reclame não, minha querida, o nosso ficou lá! Vamos para casa, baixinha! A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros. Repetia esta frase como base para os dois livros espíritas que logo viria a escrever.
            Numa certa tarde, em que lia um de seus livros favoritos, sentado numa cadeira de balanço, entra um molecote com um anzol enfiado na perna, e ele logo o tranquiliza: - Não chore não, Prego Dourado, não vai doer nada, não! Era o Elias Vieira, um menino traquina, que chegou chorando da pescaria do rio, mas logo saiu contente e ainda com umas moedas de tostões no Bolso. Hoje, Elias relembra quando sua mãe, Dona Maria Vieira, gravemente enferma, procurou Dr. Luiz. Este apertou firmemente sua barriga com as mãos e detectou uma criança que estava lá, há mais de 10 anos, por causa de um trabalho mal feito por uma parteira. Sua influência com o Dr. Cesar Cals , presidente do Centro Médico Cearense, foi primordial para que conseguisse uma das primeiras cirurgias para extração deste esqueleto fetal no Ceará, a qual o Jornal fortalezense Gazeta de Noticias , do dia 4 de abril de 1939, estampava em primeira página esta notícia fenomenal.   
            De outra feita, atendendo ao clamor do povo, se candidata a prefeito, pelo Partido Social Democrático para fazer frente ao forte udenista João Afonso. Não o elegeram, mas se divertiram muito cantando pelas ruas: Eu vou votar é no Dr. Luiz/ é o que o povo diz/ ele é um médico popular/ ele receita o rico e o pobre/ e o remédio ainda dá.
            Do casarão amarelo só um cacimbão restou, um poço como a sabedoria do Dr. e que nunca esgotou, nem na seca de 42, quando uma sequidão invadiu o mundo. O povo chegava com suas latas na cabeça para retirar água de lá, e ainda tinha o direito a tomar um cafezinho com pão que ficavam expostos numa grande mesa. Um de seus herdeiros, material e moral, o bonachão Elpídio ou o moderado Cornélio, ia comprar o saco grande de pão na padaria de seu Norberto, pai de nosso querido Ferreirinha que já trabalhava por lá, no balcão.
            Quem passa por aquela esquina, agora ouve um longo silêncio. É o som mais doce que há, pois é o som da alma, no limiar da grandiosidade entre a vida e morte, neste universo que é obra de Deus... ou será o próprio Deus? Com certeza o Dr. Luiz Chaves e Mello, nos diria! Ou nos dirá?

Raimundo Candido


Luiz Bomfim disse...
Raimundo, O Dr. Luiz foi também escritor, teve ter ainda nos meus arquivos dois livros da autoria do mesmo.
Catecismo Esperita
O TELVIDEO
O primeiro foi o Elpidio que me presenteou e o segundo, o nosso querido Norberto Ferreira Filho.
Quinta-feira, 18 Agosto, 2011

Paulo Nazareno disse...

Primoroso o seu texto; realmente têm personagens que necessitam deste resgate, e dados a conhecer às novas gerações. Esta aí um filão a ser trabalhdo pela cultura (memória) em nossa urbe.
Sexta-feira, 19 Agosto, 2011

Silas Falcão disse...

Esclarecedor texto, Raimundinho. Lembro-me do seu Elpídio atendendo os clientes. Inúmeras vezes saí da Rua da Cruz para comprar remédios na farmácia ao lado do casarão. Nessas horas não perdoamos o tempo que criou esse longo e triste silêncio. Parabéns pela bela crônica que resgata importante memória de Crateús.



Sexta-feira, 19 Agosto, 2011

Junior Bonfim disse...

Caro Raimundinho:

Fiquei encantado com o seu pergaminho telúrico e tomei a liberdade de postá-lo no meu blog.
Quando comecei a escrever crônicas exaltando pessoas que, no seu micro ou macro universo, salpicaram luz na nossa urbe, fui às vezes incompreendido. Por isso, fico feliz em ver essa cultura da difusão das sílabas do bem ganhar força e vigor. Parabéns!
Fraternalmente, faço apenas uma ponderação em relação ao juízo emitido no parágrafo inicial. Jamais se melindre de citar outros lavradores da escrita. Começar uma narrativa citando outro escriba é bom sinal, de sabedoria, de agregação e de humildade, qualidades que você mansamente ostenta.

Paz!
Júnior Bonfim



Sexta-feira, 19 Agosto, 2011

4 comentários:

  1. Raimundo, O Dr. Luiz foi também escritor, teve ter ainda nos meus arquivos dois livros da autoria do mesmo.

    Catecismo Esperita
    O TELVIDEO

    O primeiro foi o Elpidio que me presenteou e o segundo, o nosso querido Norberto Ferreira Filho.

    ResponderExcluir
  2. Primoroso o seu texto; realmente têm personagens que necessitam deste resgate, e dados a conhecer às novas gerações. Esta aí um filão a ser trabalhdo pela cultura (memória) em nossa urbe.

    ResponderExcluir
  3. Esclarecedor texto, Raimundinho. Lembro-me do seu Elpídio atendendo os clientes. Inúmeras vezes saí da Rua da Cruz para comprar remédios na farmácia ao lado do casarão. Nessas horas não perdoamos o tempo que criou esse longo e triste silêncio. Parabéns pela bela crônica que resgata importante memória de Crateús.

    ResponderExcluir
  4. Caro Raimundinho:

    Fiquei encantado com o seu pergaminho telúrico e tomei a liberdade de postá-lo no meu blog.

    Quando comecei a escrever crônicas exaltando pessoas que, no seu micro ou macro universo, salpicaram luz na nossa urbe, fui às vezes incompreendido. Por isso, fico feliz em ver essa cultura da difusão das sílabas do bem ganhar força e vigor. Parabéns!

    Fraternalmente, faço apenas uma ponderação em relação ao juízo emitido no parágrafo inicial. Jamais se melindre de citar outros lavradores da escrita. Começar uma narrativa citando outro escriba é bom sinal, de sabedoria, de agregação e de humildade, qualidades que você mansamente ostenta.

    Paz!

    Júnior Bonfim

    ResponderExcluir