quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Rápido Crateús- Um marco apagado.


 
            Depois da violenta 2ª guerra mundial, o bairro mais apropriado pra mudar de nome, na esbelta cidade de Fortaleza, era o Pirocaia - do tupi, aldeia dos pele queimada - que parecia um povoadozinho característico do interior: umas singelas casinhas, currais de gado e o choro penoso dos carros de bois na labuta campestre. Por ali, o que mais se viam, eram as tropas de jegues em trote rápido nas veredas sinuosas rumo ao centro da cidade, levando a melhor água potável da região nos canecos de madeiras dependurados em estrepitosas cangalhas, para matar a sede do arguto cearense da capital. Hoje, o local se chama Montese, em honra a uma batalha ganha pelos brasileiros da FEB, um populoso bairro de vida própria e um intensificado comércio. Lá também fica a Garagem da Empresa Rápido Crateús, um marco histórico da nossa cidade.

Na Rua Desembarcador Praxedes, nº 370, num grande muro branco, há um portão largo e alto com um escritoriozinho ao lado, é a garagem da Rápido Crateús. Um senhor de meia idade, perfil atarracado e pançudo, sai do escritório e caminha vagaroso, inspecionando os mínimos detalhes da sua organização de transporte de passageiro.

Sempre que ele se manifesta com uma das pernas da calça arregaçada, como agora, é sinal que está para poucos amigos. Um funcionário logo diz: - Vou dá o fora daqui!  O outro, evitando um encontro, cochicha: - Vou me esconder no almoxarifado!

Zé arteiro pára, apoiando as mãos na meia-parede de um grande tanque e olhando para a água, que é utilizada tanto na oficina mecânica como na borracharia, grita alto e desesperado: - Socorro! Depressa, acudam aqui!  Os funcionários correm ao local e apuram a vista para o fundo do Tanque. Ele, ainda sério, diz: - Rápido, tirem daí o coitado do trocador que morreu afogado! Todos veem, surpresos, um enorme rato que estufa, no fundo do tanque.

A disposição para o trabalho aprendera com o pai, um exímio ferreiro no município de Tamboril, o temperamento sério e rígido, também. De um caminhãozinho que pegava fretes, um aqui e outro ali, fazer brotar uma grandiosa frota de 82 ônibus, não tem muito segredo, não: é só regar cada quilômetro percorrido pelas estradas deste mundão de Deus com abundante suor do rosto e adubar, diariamente, os sonhos com um contínuo esforço. Esta vitória, o José Arteiro conseguiu!

Teve ajuda de muitos amigos que labutavam diuturnamente ao seu lado, como o comandante Jabá, Francisco Pereira da Costa, que recebeu um troféu da TVE e uma jangada de prata da TV Ceará, das mãos do famoso Jornalista João Ramos, como um dos melhores motoristas do Estado do Ceará.

Conduziu o ônibus da empresa na primeira viagem entre Fortaleza e Crateús com um único e privilegiado viajante, Dr. Gentil Barreira, o sogro do empreendedor Zé Arteiro. Dona Leonor Rosa, irmã de Zé, conseguiu formar uma lista de passageiros para que fosse possível a volta do ônibus pioneiro.

Já era um veículo bem mais moderno, aquele que saiu da Agência que ficava ao lado da Rádio Educadora de Crateús para chegar ao outro ponto de parada,  Rua Castro e Silva na Praça da Estação, em Fortaleza, e um dos ilustres passageiros era a Professora Maria Delite com a sua filharada. Mal saímos do Distrito de Capuan, em Caucaia, Jabá passa por um carro lotado de banhistas que vinham da praia e em poucos minutos o mesmo automóvel ultrapassa novamente o ônibus, páram e dessem todos, altamente embriagados e de armas em punho.  O nosso comandante já estava era na cozinha, pois esperar por tempo ruim, ficou foi para trouxas. O desespero dos passageiros fez com que os alcoolizados praieiros desistissem de algum intento.

Uma imensa frota precisa de um grande quadro de funcionários para conduzi-la, ao pé da letra mesmo! Na garagem, os olhos do chefe orientam com firmeza e determinação ao exigir a máxima perfeição em cada serviço. Demorava a empregar um sujeito, mas também o desempregava rapidinho!  O motorista chegou só com a cara e a coragem e se dirige ao dono da empresa: - Seu Zé Arteiro, eu gostaria que o senhor me arranjasse um emprego de motorista. A resposta foi rápida: - Tem não, meu amigo! Eu nem lhe conheço!!!

No outro dia estava o coitado do motorista escorado na parede, esperando. O José faz de conta que não o ver. No dia seguinte, novamente escorando o muro. Zé Arteiro se aproxima e diz: - Rapaz, você de novo, o que está esperando? Ingenuamente, responde: - Seu Zé, eu estou esperando que o senhor me conheça! Deu sorte, pois naquele dia a perna da calça não estava arregaçada: - Está bem, o emprego é seu!

 Outro amigo que o ajudou na construção da fama da empresa foi o Vicente Bacorim, era o motorista de maior confiança do patrão! Os crateuenses mais antigos dizem: O Vicente me transportou, transportou meu filho e agora transporta meus netos! Desde que desistiu de ficar com o 4º BEC em Barreiras e, após fazer o translado de toda aquela unidade tática, escolheu trabalhar para a Rápido Crateús e não se arrependeu! 

Pioneirismo é uma questão de fibra e coragem, em 1982, num grandioso coquetel nos salões da Apavel, a revendedora dos luxuosos ônibus Volvo, em fortaleza, José Arteiro recebe uma placa de prata por ser o primeiro empresário na linha de transportes a entrar na nova era, no Ceará. E o comandante do confortável ônibus é nada menos que o Vicente

Mas nem sempre foi assim, houve muitas reclamações. Uma nota do Jornal O Povo do dia 22/01/2001 dizia: “Andar em certos ônibus intermunicipais é um desconto de pecado ou até um martírio. A empresa Rápido Crateús, por exemplo, tem uma frota que deixa muito a desejar, por não existir nenhum conforto, principalmente os que fazem o percurso Crateús-Fortaleza. De dia, seus passageiros tem que suportar uma temperatura até 40 graus, em uma viagem de quase oito horas, uns por cima dos outros.”

Já na nota do dia 11/03/1998: “Quatro homens armados, um deles de escopeta calibre 12, assaltaram, ontem, em Quiterianópolis, um ônibus da Rápido Crateús que seguia com destino a Novo Oriente. Os ladrões fugiram num Ômega levando um malote com R$ 18 mil.“

Sempre tentou melhorar a qualidade dos ônibus, chegando a adquirir um Marcopolo Volvo de dois pavimentos que foi intimado a transportar o Presidente José Sarney, quando o mesmo esteve em Juazeiro do Norte, e o comandante Vicente foi logo avisando: - Esta viagem é de exceção, pois Seu Zé falou que esse ônibus é para atender ao pessoal dele, de Crateús. Alugou sim, para uma tradicional família crateuense, os Gomes, que numa turnê de trinta dias pelo Uruguai, Argentina e Paraguai onde Jabá e Vivente se revezavam e se divertiam ao ouvirem o nome de Crateús sendo soletrado de todas as formas possíveis, por aqueles povos sulistas. Na viagem de volta passaram por Brasília e, do hotel em que estavam hospedados admiram-se ao ver um velinho mostrando, vaidoso, o ônibus para a netinha. Aproxima-se para indagar o nome do cidadão e surpreendido, ouvem: - Eu sou o Coronel Souto Maior! E orgulho-me de bater continência, com minha neta, para esse grande nome de minha região: Crateús!

Nada é para sempre! Mas toda obra que é grandiosa fica na memória de um povo, visto que a vida é feita de sonhos realizados e estas aspirações que se efetivam nos trazem gloriosas recordações! A viagem de partida do empresário, empreendedor arrojado José Arteiro Rosa, foi o começo do fim da grande Empresa Rápido Crateús. Esfacela-se entre os membros da família. Não foi o processo de carterização dos meios de transporte no Ceará que detonou a Empresa Rápido Cratéus, foi a falta do pulso forte de um austero senhor, baixinho e determinado, que nos ensinou que todo sonho pode ser realizado, basta que alguém acredite nele!

O grandioso sonho da Rápido virou um marco, que se eternizou, mesmo sendo apagado por aproveitadores oportunistas, como muito bem disse o Vate Eduardo Alves da Costa no poema No caminho, com Maiakovski:Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”

Raimundo Cândido

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