sábado, 27 de abril de 2013

Romaria ao Cemitério de Felícia!



Estamos em pleno mar....  A lua, uma doirada borboleta, admira-se do brigue veloz que cruza as vagas do oceano e, em palidez atônita, indaga: - Por que debandas, infame barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta?  Assim, o vate Castro Alves, inspirado albatroz de incisivos versos, nos denuncia os horrores da escravidão! A força do vento assopra na proa e estufa as velas coladas nos mastros do navio impuro rumando às praias do Novo Mundo, levando em seu bojo uma abominável aberração. A musa, que revela o pavor arrepiante nos porões dos mares ilícitos, em desesperada aflição, lamenta e chora...  Só se ouve o tinir de ferros...  O estalar de açoites, ecoando dos Tumbeiros.
Oh, padecimento atroz! Os vivos, os moribundos e os mortos amontoados em uma única massa. A varíola, contagiosa bexiga, corrói as peles negras dos acorrentados e alguns já completamente cegos, esqueletos vivos, não suportam o peso de seus míseros corpos. Mães com crianças dependuradas em seus peitos, incapazes de lhes oferecer uma única gota de alimento. No compartimento inferior, o mau cheiro é insuportável. Parece inacreditável que seres humanos possam respirar tal atmosfera e viver! Sobre o convés, de um minúsculo porão, 400 negros convivem com a fome, a sede, a imundície, a peste e, lentamente, morrem. Alguns já descansam, os corpos quietos, hirtos!
Em terra, a história da brutalidade humana continua. Aos que escapam da infernal viagem, os nobres senhores, proprietários dos corpos aniquilados e daquelas almas quase apagadas, lhes ofertarão novos martírios, em nome do progresso de uma nação colonial chamada Brasil.
A Vila Imperial, um povoado piauiense, gerado da Fazenda Piranhas, encravada nas margens do Rio Poti, antiga propriedade da baiana Luiza da Rocha Paços, prospera com uma modorrenta vidinha agropastoril e, mesmo assim, necessitam da mão de obra escrava. 
Os sesmeiros transformam o capim mimoso, que abunda no sertões de Crateús, em ambicioso lucro pela engorda de gado, que multiplica-se pelos inúmeros currais nas ribeiras do Poti. Nas fazendas dispersas é comum a posse de meia dúzia de escravos, para a labuta diária. Bem antes dos bafejos libertadores da Lei Áurea, um mapa estatístico da Província do Piauí, de 1854, preceitua a população da afamada Vila crateuense que tinha então: 9707 homens livres para 1020 escravos e dois enigmáticos estrangeiros.
A localidade de Poti, que um dia chegou a ser trocada por uma quarta de fumo, pertenceu a Joana Mereré. Ela recebeu, de herança, as extensas terras e os inúmeros escravos da Coroa Portuguesa. Um dos descendentes de Joana, patrão da escrava Felícia, mandava castigar os servos de diversas formas. Por queimaduras propositalmente localizadas ou com chicotadas nas costas e nas nádegas até rasgar a carne e nas feridas, aplicava-se um coquetel de sal, pimenta e urina, que inflamava, doía, mas a agudeza do sofrimento era mais intensa na alma do que no dorido corpo.
 Todos os dias Felícia levava o gado da fazenda Quirino para as soltas verdejantes do povoado de Poti, nas margens do rio, onde os bovinos ruminavam o viscoso capim mimoso. Uma infecção, uma tristeza, uma doença no casco de uma rés era um motivo sério de punição.  Enquanto ela pastoreava, sentada embaixo de uma imensa imburana, riscava a areia com um graveto, como uma oração, a pedir a Deus que amenizasse seu sofrimento, que realizasse o desejo de ser enterrada ali, na quietude assombreada da esgalhada árvore da caatinga brejeira. Felícia, sangue e alma dos negros africanos, seres humanos que padeceram no estalar dos chicotes nos porões dos tumbeiros sobre o mar, continua a receber o mesmo merecimento injusto em terras crateuense. Certo dia, devido aos inúmeros maus tratos, adoeceu. E o sádico dono não cuidou da enferma, que logo morreu.
Naquela época as pessoas enterravam seus mortos na Vila, hoje cidade de Crateús. O cortejo fúnebre caminha pesaroso, mas resolve parar para descansar debaixo do velho imbuzeiro em que Felícia pastoreava o gado. Colocam o varal, com a rede e o corpo da escrava, no chão. Recuperada as forças, resolvem seguir viagem, pois ainda tinham que atravessar um rio, que estava em alta cheia. Surpresos, percebem que a rede ficara pesada demais e não podia ser transportada. Um dos escravos volta, para avisar da inusitada situação. O patrão manda uma junta de bois para continuar o restante do percurso. As cordas se partem, a rede não saí do chão. O fazendeiro, com raiva, dá ordem para que a escrava fosse enterrada ali mesmo, embaixo da sombra do imbuzeiro. Inexplicavelmente, para surpresa de todos, o peso do féretro volta ao normal. A história correu de boca em boca, por grande extensão. Os sertanejos passaram a invocá-la em suas necessidades e eram prontamente atendidos.
A sepultura de Felícia passou a atrair as pessoas das mais longínquas regiões. Famílias passaram a enterrar as crianças que morriam e o local, aos pouco, foi se transformando num cemitério. Só a família do rico fazendeiro desfazia da crença do povo, pois não acreditava nos milagres de Felícia. O local vivia cheio de símbolos de curas, de rosas, de ex-votos. Já era um Sitio de Peregrinação!
Como os milagres de Anastácia, a bela escrava de olhos azuis sentenciada a usar máscara de ferro, por inveja das mulheres dos Senhores feudais, e mesmo assim conservou a altivez e a dignidade no rosto, no distrito de Poti, a Santa Felícia também manifesta maravilhas inexplicáveis.
                Um dia, a família do menino José Alves de Paula – predestinado advogado, futuro Gerente de Recursos Humanos da Vale do Rio Doce e um dos mediadores na criação do MERCOSUL, no acordo de Assunção entre a Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil – caminha da Fazenda Morro Alegre, propriedade do Pe. Juvêncio, para o lugarejo de Poti, passando pelo Cemitério de Felícia, quando sua irmã, Raimunda, ver um boné muito novo e vistoso que havia sido deixado por alguém em pagamento de uma promessa de enfermidade contagiosa. Pegou o boné e colocou na cabeça de José. Outra irmã, bem mais velha, percebe a violação da coisa sagrada e devolve o ex-voto ao lugar de origem, mas o contato foi o suficiente para contaminar com coceiras e feridas a cabeça do menino, que só foi curado com muita infusões de Jaramataia e emplastros de Mastruço.
                Quem também peregrinou pelo Cemitério de Felícia foi a família de Norberto Ferreira, Seu Ferreirinha. Sua esposa, Dona Lurdes, na iminência de ver o filho preso pela famigerada Ditadura Militar chilena, se vale de Felícia. A fuga das cruéis garras afiadas de Augusto Pinochet foi uma ação cinematográfica, engenhosa artimanha preparada num quarto de hotel. Quando João de Paula volta, são e salvo da Alemanha, a família inteira vai ao Cemitério de Felícia pagar a promessa.
                O Campo Santo de Felícia fica no meio da caatinga aberta, cercado por um alvo muro de alvenaria de onde se ver o eito de um roçado, no qual um heroico sertanejo, que muito crer e muito espera, semeou um campo de milho e feijão na esperança de colher uma boa safra, numa das piores secas no sertão. Confiará em Santa Felícia?
                 Outro dia uma professora do Ceja, a Sandra Ximenes, levou sua digníssima mãe naquele lugar santo, para pagar uma promessa alcançada. As professoras do Ceja Prof. Luiz Bezerra não chegam a ser beatas mocinhas, mas são piedosas, devotas extremadas de religiosidade a flor da pele. Quando não estão angariando mantimentos para distribuir na comunidade carente da região, programam uma peregrinação ao Cemitério de Felícia para a paga de mais uma promessa alcançada, agora pela Senhora Jovelina, tia da professora Socorrinha Rodrigues, e aproveitam para se despedir daquele Lugar Santo que, brevemente, será encoberto pelas águas do Lago de Fronteiras.
                A paz repousante do campo sagrado do Poti, onde se ouve o cantar dos passarinhos e até a seriema vem saudar o visitante com seu grito estridente de alegria, está com seus dias contado, pois a profecia de Frei Vidal se cumprirá, um mar abafará, de vez, o estalo dos chicotes e os gritos de dores das injustiças cometidas no eito do sertão onde repousa o corpo de uma milagrosa negra, uma escrava Santa. Felícia é um nome que depois de amargar tanto sofrimento, imposto pela covardia humana, aflora, hoje, em pura Felicidade.
                Você acredita?          
Raimundo Cândido

Chico Pascoal disse...
Quando íamos de trem, de Ibiapaba para Crateús, ao passar pelo Poti minha mãe e minha avó mostravam o cemitério e contavam a história da escrava santa.

Um comentário:

  1. Quando íamos de trem, de Ibiapaba para Crateús, ao passar pelo Poti minha mãe e minha avó mostravam o cemitério e contavam a história da escrava santa.

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