quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O Aracati no sertão.

  
 
O cearense, com sua irreverência nata, inventa cada nome estrambólico para as coisas que ocorrem e que existem nos quatro cantos do sertão: Arre-égua, capoeira, coivara, cangapé, desembestar, embiocar, frivião, gurgúi, mutuca, pixilinga, talagada... Vixe! São tantos os neologismos que aparecem no dia-a-dia do sertanejo que até ajuntaram todos esses vocábulos incomuns num magote só, e chamaram de Dicionário Cearês. Minha admiração maior é de quando, nós, ispritados cabras-da-peste, unimos numa única designação uma série de palavras, como a genial expressão “B.R.O brós” só para indicar os meses mais quentes do ano, de setembro a dezembro. Dizem que o mundo, uma vez, findou-se com muita água e que, agora, vai se acabar é nas labaredas de fogo e o foco é no sertão cearense.
Os B.R. O brós são uns dias tão quentes, mas tão quentes que ainda tem crateuense que fica sentado na calçada, até altas horas da noite, em cadeira de balanço, esperando o Vento do Aracati chegar para amenizar o mormaço que abafa o mundo e, só assim, ter uma noitada tranquila de sono.
Ventilador, na minha meninice, era coisa muito rara e só existia nas casas dos ricaços da cidade que dormiam embalados por uma frescurinha artificial. O Povão ficava era nas calçadas, nas noites quentes dos B.R.O brós, de abanador na mão, fofocando da vida alheia e esperando a friagem do Aracati chegar.
Os mais velhos diziam - e eu piamente acreditava - que o vento do Aracati partia de um gigantesco moinho que ficava assoprando da praia, onde nasceu o Dragão do Mar, e sem falhar um dia sequer, no rumo à fornalha do sertão. Era até um motivo de empurrar, mais cedo, as crianças para dormir nas suas baladeiras, na ameaça da tal de cruviana, que estava, sorrateiramente, chegando.
Alguém, de imaginação muito fértil, tentava explicar a demora do Aracati em chegar ao sertão: - Ele vem de muito longe, lá do fim do mundo, onde o Rio Jaguaribe se despeja no mar e vem muito devagar, vem se arrastando, se entretendo, ora aqui, ora ali e é por isso que demora. É um vento muito invocado, embioca de lá prá cá, fazendo estripulias pelo mundo. Boa parte sobe pela calha do velho Rio Jaguaribe, passa por Russas, Limoeiro e vai bater na terra abençoada do Padim Cíço. O restante do sopro do mar, que parte da praia de Canoa Quebrada, dos verdes mares de Majorlândia, pega o rumo do sertão brabo, encrespa as penas da Galinha Choca, em Quixadá, e tira, numa linha reta, por cima da cidade de Boa Viagem, até chegar nos Sertões de Cratheús e nos cumprimenta com um refrescante boa noite. O Aracati é um vento muito brincalhão, mas vem amenizando as altas temperaturas por onde passa e, às vezes, escaramuça que nem potro selvagem levantando poeira pelo chão. Quando muito cansado, desce pelos povoados, assovia nos telhados e, só de brincadeira, levanta o vestido das moças fogosas ou então assanha os cabelos das senhoras de respeito, que se balançam nas cadeiras, nas calçadas. O bonito é quando ele faz um cansado cata-vento, todo enferrujado no reumatismo agudo, girar sua ventoinha e, só no susto, entoar uma canção de saudade, no meio da noite que, lentamente, vai se esfriando.  O vento do Aracati é como o sopro de Zéfaro, faz a Caatinga criar vida.
Por aqui, nos Sertões de Cratheús, “existiu” outro Vento do Aracati, um outro vento bem diferente daquela friagenzinha que sempre vem do mar, mas que também alegrava quando passava pelas esquinas dos bairros da cidade ou pelos povoados do interior. O eleitor ficava sentado nas calçadas, só aguardando a passagem “da brisa” e, quando chegava a alegria era geral. Se o vento, das notas de cruzeiros, fosse  em Rui Barbosa tinha que ser, no mínimo, de umas dez cédulas, duas de Osvaldo Cruz já serviam ou então um JK brilhozinho e se confirmava o acordo de um quadro endêmico que, por muito tempo corroeu,  e ainda corrói a honradez e o brio do glorioso Brasil: Uma corrupção mútua e safada entre políticos e eleitores, entre eleitores e políticos.
Há quem diga que o verdadeiro Vento do Aracati nunca consegue chegar por aqui, nas lonjuras deste nosso imenso sertão, como um rio que voa, trazendo a rajada da brisa do litoral. Mas quem assim diz é porque não sabe da coragem do Mar que um dia animou a alma do jangadeiro aracatiense Chico da Matilde para se tornar o herói que fez do Ceará o Pioneiro na Abolição.
Há quem diga que não é o Aracati que vem amaciar o rosto do rude sertanejo com sua brisa que acalma a alma, nas madrugadas frias. Mas quem assim pensa é porque não sabe da fluência da poesia do mar, não sabe que o Vento do Aracati recita no ar o doce odor das maresias e nos oferta flores marítimas na inalação, em plena sequidão do sertão.
E quem somos nós para contradizer o grande escritor José de Alencar quando afirmava: “O doce Aracati chega do mar e derrama a deliciosa frescura pelo árido sertão. A planta respira e um doce arrepio eriça a verde camada de capim, pelo chão.” É isso mesmo, o vento do Aracati resvala no sopé da Serra da Ibiapaba, nas beiradas da Bica do Ipu, onde a escultural índia Iracema se banhava, toda vestida de graúna.
E no mormaço brabo do meu querido sertão, aqui na calidez da Ribeira do Poti, só me resta colocar uma cadeira de balanço na calçada e esperar, esperar e muito esperar que a Brisa do Aracati chegue trazendo o desafogo das rajadas de poesias do belíssimo mar de Canoa Quebrada, nos ofertando o frescor dos ventos de Majorlândia que aumenta a esperança de vida de quem só sabe viver no clima quente do sertão. E, como os poetas ribeirinhos, aguardo a eólica inspiração, espero, espero e muito espero o sopro do Vento do Aracati para aliviar este imenso calor que me sufoca e, também, para suavizar a viva fornalha de onde flameja a sequidão desses meus rudes pensamentos.  
- Ah! Que alivio e que vento bom, está chagando a brisa do Ara Katu!
( Através do poeta crateuense Dideus Sales, o nosso abraço e agradecimento à Aracati pelos seus 173 anos que nos manda a suave brisa do Aracati)


Raimundo Cândido 

Um comentário:

  1. P A P O L E G A L !!!
    http://poetadasaguasdoces.blogspot.com.br/2015/10/tomei-um-ita-e-me-fui-la-para-o-nordeste.html
    JASaudações.

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