quinta-feira, 19 de novembro de 2009

APENAS UM POETA - Elias de França

Não, não construí as sete maravilhas.
Sequer vi a esfinge, senão em ilustrações de livros infantis;
nunca senti o cheiro dos jardins suspensos,
e a pirâmide que eu arquiteto em volúpias
contraria a lei de Newton
com sua base para cima.

Não descobri a lei da gravidade,
nem a gravidade da lei.
Não inventei a lâmpada, nem a escuridão.
Não curei nem matei ninguém,
nem a mim mesmo.
Não fui o rei do futebol,
nem agente da INTERPOL.

Nunca concebi qualquer filosofia
nem por qualquer delas me deixei conceber.
Não marchei sobre a Rússia nem sobre a Alemanha.
Não multipliquei o vinho,
nem abreviei a embriaguez.
Não conquistei a lua, apesar de tantas cantadas e trovas...

Mas quem me vir verá um louco ou um palhaço
escavar jazidas de risos na seriedade alheia;
entortar a retidão lingüística
buscando desenhar um verso redondo;
lavar a alma do mundo
com a minha lágrima!

Do livro "Cantigas do Oco do Mundo - 2002)

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