quinta-feira, 29 de setembro de 2011


        Prof. Luiz Bezerra (Ponderações de um sábio!)

                                                                                                      Uma grande lembrança não morre,
pois se alimenta do sangue que corre!
Irrigando-se cordialmente com a seiva
da ausência, estará eternamente viva!
                                                              (Raimundo Candido)  
                                                                                                                

                   Uma claridade rósea iluminava o familiar céu de chumbo, como um vistoso ornamento de aniversário, naquela quarta-feira em que Crateús despontava, pouco a pouco, para um novo caminhar.
          O dia 15 de novembro de 1961 teve, logo nos seus primeiros instantes, uma festividade solene e triunfal, pois além da imponente aurora a reverenciá-lo com um áureo brilho que adorna unicamente as divinas cidades, um rojão de 21 tiros desfechado pelos paladinos do 4º Batalhão de Engenharia e Construção, o condutor da bandeira do progresso tira de vez a sonolência que impregnava os olhos de nosso amanhecer e nos promete um alvoroçado inesquecível dia. 
             A cidade acorda, estampando na jovem fisionomia meio século de um lento amadurecimento, numa existência de contínuo labor, em busca de um arborescente desenvolvimento que é sempre vagaroso e imperceptível como nas árvores que crescem em suas ruas, pelo estilo de vida calmo e pachorrento. Em todos os lugarejos perdidos no espaço, ostenta-se uma esperança, e essa espera é uma semente carregada de aspirações, repleta de anseios para sair de um adormecimento no tempo. Embora cinqüentenária, Crateús já é uma mocinha cheia de prendas em comparação com outros lugarejos do hinterland cearense.  
             Os últimos repiques dos sinos da Matriz convidavam os crateuenses para a celebração da missa, num preito religioso ao cinqüentenário. O amplo espaço da praça já está qual um formigueiro. As pessoas se aglomeram no pátio da Igreja cujas torres se erguem aos céus. O imenso monumento de Cristo abraça a todos, indistintamente, pois na nave central não caberia tamanha multidão. Elegância à vista em suas roupas novas.
               No altar montado no calçadão, apresenta-se Vossa Reverendíssima Dom João José da Mota de Albuquerque, Bispo de Sobral, que veio especificamente celebrar esta missa campal auxiliado pelo vigário de nossa paróquia, o Pe. José Maria Moreira do Bonfim. 
              Na primeira fila, bem próximo ao altar, está o Governador do Estado o Sr. Parsifal Barroso, os Deputados estaduais, o Juiz da Comarca, O Senhor Prefeito Raimundo Bezerra de Melo, as demais autoridades, juntamente com os ilustres e orgulhosos filhos e perfilhados da terra, este soberbo torrão que um dia se agasalhou às margens do intermitente rio Poti.
                Entre os adotados, pois nascera no Ipu, está o digníssimo professor Luiz Bezerra, de terno branco, trajado com esmero, feições nobres de um philósophos (σοφός) grego. Tem uma apurada distinção de um cavalheiro habituado ao mundo. O professor examina Dom Mota celebrando ao ar livre. Sua mente turbulenta se ativa pelo simples hábito de cismar, sempre absorto em todas as possibilidades que a vida lhe impõe. Analisa cada instante como um lance de xadrez, com acuidade de sua sabedoria prática. Este ensejo religioso lhe puxa da memória a saudosa recordação do Colégio Cearense onde cursou o Ginasial e o Científico, em Fortaleza, para onde lhe mandara o velho pai, José Hermínio, um pecuarista acostumado na lida com o gado, no trato da terra e com uma imensa visão de futuro. Num átimo lhe vem todo conhecimento profundo que adquiriu do Budismo, do Confucionismo, de Jean Paul Sartre, de Martin Heiddger, de todos os clássicos da literatura, de toda Filosofia e História Geral que muito lhe queimara as pestanas. Ali em plena praça, lembrou-se até do grande mestre Platão.
              Uma formação intelectual primorosa e uma erudição assombrosa é coisa rara de se encontrar num único cidadão. Essa imensa consciência refletida no espelho de sua sabedoria foi obtida de muitos e muitos livros que sorveu por estímulo dos irmãos maristas e, mesmo assim, não o ajudou ver a Deus no altar de Dom Mota, pois sempre sentiu que Ele está presente na natureza, na beleza de uma pétala, no perfume de uma flor, no trinado do galo da campina do sertão. Como afirma nas crônicas diárias, tudo que existe é manifestação divina. A preocupação social reflete-se até nos seus versos livres, como o inquietante drama que sentimos no poema Angústia: “E nesta hora / o homem treme / de medo, / de angústia / e vai / procurar refúgio dentro da terra. / Esconde-se / da ciência, / da técnica, / do progresso.”
              Recorda agora que tem de escrever uma crônica a pedido de seu amigo, poeta e professor Antonio Lisboa Rodrigues, e o assunto é nada mais nada menos que o capeta, o traquinas. Não sabe por que motivo foi se lembrar disso agora. Por um momento ficou apreensivo, pensando na reação que o povo poderia ter, ao ouvir o grande locutor Edson Martins ler no ar, pelo auto-falante da Rádio Educadora esta estranha crônica. Tem a leve impressão de que poderá haver alvoroço, devido à ânsia com que os cândidos ouvintes aguardam este momento de forte audiência de radiofonia crateuense. Isso o diverte!
              O poeta Luiz Bezerra olha a sua volta e contempla toda a multidão. Ver as autoridades perfiladas, atentas ao momento sagrado da Eucaristia. Observa ali bem pertinho seus dois grandes amigos, O Seu Ferreirinha e Professor Lisboa, ambos bons escritores e até já pensou em convidá-los para fundarem um Grêmio literário, já que uma Academia de Letras é uma liga muito  imponente, e pressupõe que isso só se realizará lá pela época do longínquo centenário.
              Com os dois colegas, tem uma verdadeira intimidade para prosear sobre todos os assuntos do dia, como o andar audaz da Presidência de Juscelino Kubitschek, o desfecho triste da Guerra do Vietnã, a construção separatista do Muro de Berlim, a inalterabilidade da política crateuense, assuntos meritórios para três mentes brilhantes.
              Bem na frente, com toda importância que o cargo inspira, está V. Ex.ª o Prefeito que recentemente concretizou a maior e mais justa aspiração do povo: a iluminação pública. Lembra de quando a cidade ficou vinte dias no escuro, e sempre a ouvir a mesma desculpa, de que era o tampão do motor que estava rachado e continua achando que tudo na prefeitura está se rachado, e há muito tempo, precisando de muitos tampões novos, principalmente um tampão de aço que impeça o escoamento de verbas. O prefeito atual fez o calçamento de algumas ruas nos arredores do centro, mas tem a impressão de que, pelo andar da carruagem, daqui a mais de meio século após esta data magna, a principal obra dos administradores crateuenses será ainda ladrilhar as ruas com pedras toscas e faz questão de deixar esta afirmativa registrada em suas narrações. Registra também que ainda não apareceu um gestor capaz de impulsionar um ritmo acelerado ao progresso. “É só essa pasmaceira administrativa recheada de politicagem que se inicia com uma esperança e logo se revela num duro desengano.” No meio da bela solenidade o Escritor Luiz Bezerra é só memória... Já entrara também para o rol dos cinqüentões. Sente o declive da ladeira, na indesejada descida, após esta curva fechada para o retorno ao pó na estrada cronológica.
              O hábito de superestimar o passado e temer o futuro lhe mexe com os nervos. Vem a vontade inevitável de acender um cigarro. A mão vai instintivamente ao bolso e confirma a carteira de Continental que comprara na noite anterior. Abstém-se deste prazer momentâneo em respeito à multidão que se aglomera a sua volta, mas inconscientemente sabe que este hábito vai lhe custar caro.  Relembra o tempo da Faculdade Nacional de Medicina no Rio de Janeiro quando metido numa bata branca para as aulas de anatomia, o estômago lhe embrulhava. Saia da presença dos cadáveres, forçosamente, situação que o fez desistir já no segundo ano de faculdade. Pensou assim: é melhor ser coveiro, pelo menos não pego em defunto frio, só na alça do caixão. De todas as boas lembranças da Cidade Maravilhosa, a viúva Mary é uma delas. Aprendeu com essa generosa senhora um bom e fluente inglês. Aproveitou a ocasião para fazer um Curso de Línguas Neo-Latinas, recebendo habilitação pra lecionar a Língua Portuguesa. 
            O retorno a Crateús foi uma procura pelo que não encontrou por navegações distantes. Volta em busca da primordial raiz para lhe suprir novamente a seiva poética, beber na inspiração das musas e se deleitar na confluência natural do amor. Encontra aqui Dona Airam, com quem se casa. Começa assim a aparecer os frutos e os benefícios, não só para o devotado casal, mas para todo o município crateuense.
            Volta, sim, para encontrar aqui sua real missão na devoção habilidosa e quase exclusiva a educação. A ela tem se dedicado de todo coração. É hoje o Delegado Regional de Ensino numa região que detém uma desagradável marca de um alto índice de analfabetismo e por isso, necessita de seu trabalho, de sua interferência para mudar este quadro de abandono que se encontra nossa educação.                  
             Recorda dos primeiros instantes do Colégio Crateuense que fundara com Da. Airam  Veras.  De lá, a fama de bom educador começara a ser apregoada aos quatro cantos do mundo, de boca em boca indo aos confins do Piauí. Chegam alunos de todas as adjacências para estudar com o professor Luiz Bezerra. Muitos ficavam internados nos próprios alojamentos do ginásio que apresenta um ensino tradicional, mas bastante eficiente. Um trabalho concreto e sério onde o que foi semeado nunca vai parar de dar frutos, pois um bom professor, como fazia questão de ser, afeta até a eternidade. É impossível dizer até onde vai sua influência como um grande mestre.
            O educador demonstra seu espírito empreendedor quando, além de erguer fornalhas, se deixa consumir como combustível para lançar ao mundo homens e mulheres, feitos da mesma massa que o compõe: o lenho intelectual de um titã invencível na busca pelo saber.
             Recorda a Escola Normal Rural, também concebida na sua mente. Acompanhou todo o processo de nascimento, cuidou com esmero para o seu desenvolvimento, de lá guarda dias de glórias inesquecíveis. Hoje é o Colégio Regina Pácis, nas mãos abençoadas de irmãs que vieram do Crato e do digníssimo Pe. Bomfim que está ali, ajudando na celebração e é também um dos seus colaboradores na elaboração da Revista do Cinqüentenário, que já está no ponto de ir ao prelo: “Crateús, 50 anos de cidade” cujo lançamento será no salão nobre do Crateús Club. Amanhã, sendo um dia normal de trabalho, o comércio deve estar o burburinho de sempre, num grande vai e vem de gente pelas ruas, e terá que abrir bem cedo as portas de sua Tipografia Central, pois nada como o olho do dono para engordar a boiada. Quem sempre trabalhou com a palavra, lavra da alma, depurada no santo mistério de eterna doçura, deve abranger tudo que lhe diz respeito, de forma escrita ou falada. Já publicara Júlia Maria uma novela sociológica, que começava assim: "A vida é um castigo dos céus, os deuses morreram porque já não podiam suportá-la", escreveu também um opúsculo, Crateús de ontem e de hoje. Pretende reunir suas Crônicas num livro, pois é uma cobrança de seus fiéis ouvintes que querem ser também seus leitores.
            Com o ânimo disperso em relação ao evento, que já se finda, ergue os olhos e vê no céu claro e azul de novembro a estátua de Cristo de braços abertos, como que contrabalanceando toda aquela aglomeração humana e lhe vem uma frase de Buda, que sempre gosta de repetir para seus pupilos ”seja você mesmo sua luz e seu centro de apoio”.
             Alegra-se, pois está quase na hora de ir para o aconchego de seu lar e fazer o que mais deseja nesse momento, nutrir-se da luz da música, ouvindo num deleite íntimo e com uma imensa satisfação na alma, as belíssimas sonatas de Beethoven.
                                                                                                           Raimundo Candido

Caro Raimundinho,

Foi muito bom relembrar as virtudes do inesquecível educador Luiz Bezerra, pessoa competente e apaixonada pelo desenvolvimento educacional de Crateús.
Vale salientar que depois da Escola Normal rural, naquele prédio funcionou o Patronato senhor do Bonfim, instituição criada pelo padre Bonfim em 1958 e também o Ginásio Pio XII, que depois se mudou para o Salão Paroquial, transformado em Colégio Pio XII, quando conquistou do MEC a licença para ministrar o segundo grau.
Na década de 1970 foi criado o Colégio Estadual Regina Pácis, que vem ao longo dos anos galhardeando e engrandecendo o ensino público de Crateús. Por lá já passaram milhares de estudantes que abraçaram as mais diversas profissões e hoje estão espalhados por todos os recantos deste imenso Brasil.
Flávio Machado
                               

Um comentário:

  1. Caro Raimundinho,

    Foi muito bom relembrar as virtudes do inesquecível educador Luiz Bezerra, pessoa competente e apaixonada pelo desenvolvimento educacional de Crateús.
    Vale salientar que depois da Escola Normal rural, naquele prédio funcionou o Patronato senhor do Bonfim, instituição criada pelo padre Bonfim em 1958 e também o Ginásio Pio XII, que depois se mudou para o Salão Paroquial, transformado em Colégio Pio XII, quando conquistou do MEC a licença para ministrar o segundo grau.
    Na década de 1970 foi criado o Colégio Estadual Regina Pácis, que vem ao longo dos anos galhardeando e engrandecendo o ensino público de Crateús. Por lá já passaram milhares de estudantes que abraçaram as mais diversas profissões e hoje estão espalhados por todos os recantos deste imenso Brasil.
    Flávio Machado

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