domingo, 2 de junho de 2013

O Trem do medo


A nave da Igreja Senhor do Bonfim nunca admitira tantos fiéis como naquele distante domingo de janeiro de 1926, estava lotada. Aglomera-se gente até nas calçadas e, na ponta dos pés, estiravam o pescoço para melhor ver e ouvir a homilia do Padre Juvêncio. A pregação do sacerdote teve de tudo, menos o seu estilo característico, coloquial e ameaçador, sobre as benesses e os castigos do Evangelho. O Padre Juvêncio, ao perceber a grande inquietação, parecia um psicólogo:
- Meus amigos, fiquem calmos! Sabemos que os revoltosos estão chegando, mas não se alvorocem, por favor! Rezemos para que tenhamos a proteção de Nosso Senhor Jesus Cristo!
A maioria não esperou o final da missa. A prédica surtira um efeito contrário. Correram para suas casas e reforçaram as tramelas das janelas e das portas. Pelas ruas só se via os soldados dos municípios vizinhos ajudando à força policial do Governo Federal e da cidade de Crateús a reforçarem as barricadas e a cavarem trincheiras na Praça da Estação.
Alguém, imprudentemente e numa propagação desesperançada, anuncia aos quatro cantos da cidade, para que todos possam ouvir:
- O aviso do ataque veio pelo telégrafo da estação! A coisa não é de brincadeira, meu povo! Quem puder que se salve, pois o Capitão Peregrino soltou até o famigerado cangaceiro Zé Mourão, para proteger a nossa cidade!
O alvoroço, que já era grande, piorou. Os mais abastados, na calada da madrugada, sumiram para as fazendas, em ligeiras tropas de animais e, antes de escapulir, enterraram suas patacas de ouro e prata, amarradas em mocós de couro de bode, debaixo de algum verde juazeiro, pelas redondezas da cidade. Nestas desesperadas apreensões, para evacuar uma população em perigo, a quem tolha os movimentos e trave as suas ações, mas também há quem cedo se alvoroce e busque as soluções dos desespero.
Um trem estava parado na estação. E da idéia para a ação foi só o tempinho de reunir algumas famílias importantes, incluindo a do maquinista e do foguista, sem eles não teriam como partir.  Tudo em surdina.  Não poderiam espalhar a notícia, pois não comportaria uma cidade inteira nos vagões da Maria Fumaça. Dizem que foi o único trem que partiu sem um apito de despedida, e até o fumo que exalava de sua negra chaminé era pálido como a neve, para não chamar atenção! Mesmo assim, estava abarrotado de gente, que desertavam de sua cidade.
Fora o desagradável sacolejo dos vagões e o repetitivo som metálico: tchuc tchuc tchuc das rodas de aço nos encontros dos trilhos, só se ouvia as aves marias e as salve rainhas, quase silenciosas, dos lábios das aflitas senhoras com terços nas mãos. Algum soluço choroso, pelo pavor reinante nos lábios de uma criança, era imediatamente abafado. O Trem do Medo abria caminho pela madrugada incerta e todos tinham a impressão que caminhavam para a morte!
 Alguns corajosos cidadãos, com seus revólveres winchester Smith na cartucheira, ou mesmo um socadeira dependurada no ombro, confabulavam com o condutor sobre a probabilidade de encontrarem os revoltosos pela frente, eles diziam:
- Maquinista, se avista uma tropa com lenço vermelho no pescoço, não pare o trem, siga em frente!
Avisaram para os demais passageiros que ficassem abaixados, principalmente quando passassem por uma cidade, e quem olhasse para aquele trem, deslizando sobre a linha férrea, teria a impressão de que era uns vagoes fantasmas, sem um vivente nas cadeiras.
O trem, enquanto engolia carvão, comendo distâncias, soltava fumaça e já passara pela cidade de Ipueiras, ao sopé da Serra de Ipiapaba, sem parar. Subitamente um grande medo toma conta de todos, pois o maquinista reduzira a velocidade. Na frente, um amontoado de dormentes despregados sobre os trilhos, anunciava perigo. Tiveram que parar, senão desencarrilhariam e seria grande o desastre. Primeiro, perscrutam qualquer som estranho, como um estalar de galhos, vozes de soldados ou o engatilhar de fuzis, pois estavam todos abaixados. Levantam-se, lentamente, e percebem que estão sozinhos, sem poder seguir para a cidade do Ipu. A linha férrea havia sido destruída.
Ponderam sobre o que fazer, diversas sugestões aparecem, até em abandonar o trem e ganhar a caatinga sem rumo, em busca de algum socorro. O maquinista, como líder experiente, toma uma firme decisão, ele retornará e quem quiser ficar, que fique e ganhe as brenhas da caatinga, sem comida, sem água para beber. Todos resolvem segui-lo e o trem começa a longa viagem de volta, rumo à cidade de Crateús e de marcha à ré.
As mesmas orações que foram ditas na vinda são, desesperadamente, reconfirmadas na volta, pois mesmo em regresso, continuam numa viagem de fuga e cheia de incertezas. Mais de 200 quilômetros percorridos pelo Trem do Medo, onde em cada janelinha semiaberta pares de olhos imaginam vultos armados nas moitas de mufumbo, que margeavam a linha férrea.
Ou foi o poderio das rezas das senhoras ou um grande lapso da sorte, pois o destacamento de João Alberto marchava seguindo a linha férrea. Retornam à Crateús, são e salvos. Param o trem ao lado de uns cargueiros repleto de algodão, e se dirige as suas casas, vão reforçar, também, as tramelas da portas e das janelas.
Foi a tempo de saberem notícias de um estranho mendigo, se fazendo de aleijado, pedindo esmolas pela cidade, perambulando pelas ruas, mapeando tudo, caxingando por uma perna e com uma suja capa preta cobrindo a cabeça. O pedinte estira a mão para o casarão da Rua João Tomé nº 290 e pede esmola. Dona Isabel Bonfim Leitão oferece água, café e bolo, mas nota que o aleijado tinha boas maneiras, firmeza em pegar na xícara e levá-la à boca. Corajosa, pergunta:
- O que o senhor sabe dos revoltosos?
- Minha Senhora, eu não sei de nada, só sei das minhas esmolas!
Era o capitão Pretinho, perigoso espião do Batalhão de João Alberto, que anunciava angustiantes momentos de tempestades e medo!
Às três horas da madrugada, quando os revoltosos soltaram uma saraivada de fuzis, pelos cantos, denotando o cerco da cidade, os corações dos passageiros do Trem do Medo aceleraram novamente em disparada, e ao mesmo tempo sentiram alívio por não terem encontrado esses disparos em sua frustrada rota da fuga. A força policial que defenderia a cidade, revida com um crepitar intenso de fuzilaria. Era a cidade de Crateús em guerra!
O cangaceiro Zé Mourão rolava pelas calçadas e, agilmente, disparava seu fuzil, tal qual o bacamante de Alexandre Mourão, mas a Praça da Estação caiu em poder dos revoltosos, que ataram fogo nos cargueiros com algodão.
A nossa sorte foi que o Quartel General da polícia era a Matriz do Senhor Do Bonfim e do alto de uma das Torres um tiro certeiro acerta Antônio Cabeleira que saía correndo de uma casa em frente à Igreja. O tiroteio continua cerrado.
Dona Maria Augusta, olhando por uma fresta de porta, atesta o fim da luta. O Pelotão de policiais comandados pelo capitão Peregrino Montenegro encontra-se com uma tropa de revoltosos liderada pelo Tenente Tarquínio, na Rua da Pimenta, separados por um monte de pedras. Os dois oficiais, em duelo, trocam palavrões, vitupérios mútuos e por fim, tiros, mas erram. O Tenente provoca o Comandante da guarnição de Crateús para uma luta, na ponta ferro branco. O que faz Peregrino gritar: - Pois então saia daí e venha brigar! Mal o delegado de Crateús fecha a boca, já viu diante de si o audaz guerreiro revoltoso, que foi recebido com um tiro certeiro de mosquetão. Com o revoltoso ao chão, as pontas de facas o acabam de matar.
Era o crepúsculo de uma luta feroz pelas ruas de Crateús.  Os revoltosos, com seus lenços vermelhos nos pescoços, desaparecem pela Várzea dos Paus Brancos, foram enterrar seus mortos... Mas as lutas, as eternas lutas, pelas quais começaram uma grande marcha contra as fraudes eleitorais, a concentração de poder político nas mãos das elite agrárias, exploração das camadas mais pobres pelos coronéis, ainda continuam...
Pelo visto, os Trens do Medo nos trilhos da vida, permanecerão a circular!

Raimundo Cândido

José Alberto de Souza disse ...
Isto já não é crônica, mas sim capítulo de um romance histórico que, a partir deste momento, esse grande escritor está desafiado para concluir, pois deixou seus leitores ansiosos em saber começo e fim de tais acontecimentos.

Joâo Silas Falcão Soares disse...
Poeta e presidente eleito da Academia de Letras de Crateús, Raimundo Cândido. Li e reli com atenção única e vigorosa a sua crônica histórica e muito bem narrada. O título O trem do medo se encaixou com muita fidelidade ao contexto da narrativa de medo, receios, fugas e perigos. Desde criança escuto falar dos revoltosos, da Coluna Prestes em nossa cidade, mas não com detalhes como você abordou. Sei que você tem muitas pesquisas sobre a história de Crateús. Muito bom porque todas estas pesquisas serão assuntos para suas crônicas. 
Parabéns, amigo cronista.

2 comentários:

  1. Isto já não é crônica, mas sim capítulo de um romance histórico que, a partir deste momento, esse grande escritor está desafiado para concluir, pois deixou seus leitores ansiosos em saber começo e fim de tais acontecimentos.

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  2. Poeta e presidente eleito da Academia de Letras de Crateús, Raimundo Cândido. Li e reli com atenção única e vigorosa a sua crônica histórica e muito bem narrada. O título O trem do medo se encaixou com muita fidelidade ao contexto da narrativa de medo, receios, fugas e perigos. Desde criança escuto falar dos revoltosos, da Coluna Prestes em nossa cidade, mas não com detalhes como você abordou. Sei que você tem muitas pesquisas sobre a história de Crateús. Muito bom porque todas estas pesquisas serão assuntos para suas crônicas.

    Parabéns, amigo cronista.

    Silas Falcão

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