sexta-feira, 4 de abril de 2014

Rosal : O ceifeiro da morte!

Foi um tempo de medo incontrolável, época de incertezas, de pavor estampado no olhar do sertanejo obstinado e abandonado no ermo da Caatinga nordestina. Nos Sertões de Cratheús percebia-se, frente ao pacato silêncio enganador, o anúncio de um desassossego, a iminência do incontido assombro. O simples latir de cães ou o tropel dos cascos de cavalos na madrugada era motivo de inquietações. Esse violento desvio de conduta se alastrava por todo o território cearense. Era comum se ver um homem humilde andando com uma espingarda à mão ou uma longa faca do mato no quadril. E não se distinguia mais quem era cidadão pacífico ou um desalmado cangaceiro dos Coronéis, caminhando isento pelas ruas das cidadezinhas do interior. A compra de títulos, por parte de ricos fazendeiros, dava-lhes o direito de ter uma força militar particular, fortemente armada: eram os famigerados jagunços.
A Terra da Luz vivia na escuridão, mas ofuscada pelo clarão do bacamarte ou pela luz instantânea do disparo das lazarinas, nas emboscadas armadas pelas veredas do sertão. Crimes que sempre ficavam impunes, pois nunca eram “desvendados”.
Foi, exatamente, neste período de desordens que estourou a Revolução de 1930.
O Movimento Revolucionário dos Tenentes, que depôs Washington Luis da Presidência da República, foi um duro golpe nos alicerces dos coronéis e, pela primeira vez na História do Brasil, abalou-se o poderio dos latifúndios que sustentava o coronelismo dominante no interior. Oito governadores estaduais foram depostos, muitos prefeitos foram presos, retirou-se a força de polícia que mantinha a importância dos Célebres mandatários dos votos de cabrestos e coiteros de cangaceiros, desarmando-os, mas os que estavam do lado da Revolução continuaram fortemente municiados, gerando um período de inquietação e desordens. 
No dia 9 de Outubro de 1930, uma quinta-feira histórica para Cratheús, quando a Maria Fumaça para na Estação Ferroviária, o calçadão já estava aglomerado de curiosos, homens, mulheres e crianças, pois as notícias das prisões efetuadas pela Revolução já chegaram aos confins dos sertões. De um vagão desce o poderoso “Coronel” Otacílio Mota, herdeiro do poderio da Fazenda Otacilândia de Ipueiras, um monumento colonial construído em 1636, seguido pelo Tenente Aristides Rosal, da Força pública do Estado. Vieram depor o Pe. José Juvêncio de Andrade, o prefeito da cidade. Uma criança guardaria, no brilho espantado das retinas, aquele momento singular observando o vulto apavorador de Rosal: “Lembro-me de seu traje e de suas feições de cenho carregado, barba crescida, os dentes brilhando pelo ouro que havia na boca, calça e camisa cáqui, alpergatas de rabicho, à frente de um grupo de homens armados, todos com lenços vermelhos no pescoço.” O menino é, hoje, o Sr. Norberto Ferreira, nosso memorialista maior.
O Tenente Rosal ficou na história como personagem ímpar no cangaceirismo de sangue frio que se vendia aos coronéis, pela sua perversidade em eliminar os adversários e pelo grande número de vitimas assassinadas cruelmente, como uma sombra de terror sobre o sertão, afirmando-o como o ceifeiro da morte! Fazia questão de espalhar essa fama desde que saíra da Paraíba, terra em que nasceu.            
Chegou a comandar, em 1928, a Cavalaria da 2ª Delegacia de Fortaleza contra a greve da Usina da Light, uma companhia inglesa, colocando seus soldados de prontidão nas paradas dos Bondes, com os fuzis engatilhados no intuito de matar, mesmo que não fosse necessário.
Em Tauá e Nova Russas, onde fora delegado, cometera crimes absurdos por essa índole sanguinária. E assim, foi expulso dos quadros da Força Pública, devido aos inúmeros crimes desnecessários. Mas a polícia e os coronéis sempre precisavam dos serviços profissionais do exterminador e, vez por outra, convocavam o mercenário Aristides Rosal.
Ficaram as marcas, na bucólica cidade de Independência, da passagem do facínora paraibano: Cruzes de madeira, tanto quanto os pés de mandacarus, adornam as veredas como marcas de tocaias, onde algum incauto tombou, numa contenda feroz de pistoleiros, conhecida como Questão da Vaca Brava.  Entre as localidades de Varzinha, Cachoeira do Fogo, Pitombeira e Vaca Brava, com pastagem farta para o gado, reinava uma morte brutal no seio da vida campestre, com o amor e a feroz guerra do cangaço sendo temperados à bala que, nem por um instante sequer, deixava esfriar os rifles dos pistoleiros. O Tenente Aristides Rosal combateu os capangas do “Padre” da Varzinha, defendendo a viúva de um dos Coutinho que colocara seu capataz, o destemido Manoel Senhor, como chefe do amor e da fortuna, coisa que o famoso Jose Matheus Gomes não podia aceitar no clã dos Coutinhos, descendente do patriarca Major Zacarias Gomes Coutinho. O “Padre” da Varzinha era um potentado, dono de 36 propriedades rurais com os paióis apinhados de milho e de pólvora, senhor de 35 filhos legítimos e outras três dezenas de bastardos, além de comandar um batalhão de capangas fortemente armados para defesa dos seus haveres e da sua sorte. Era o pai do cangaço, diziam. E a extensa várzea de solo negro dos Coutinhos se irrigou com o grosso sangue dos que caiam nas tocaias, no sertão da Vaca Brava.
O Dr. Coutinho, afamado bacharel em direito, de Fortaleza, irmão do Pe. da Varzinha, tinha uma grande propriedade (a Fazenda Queimadas, com três léguas de frente) no distrito de Novo Oriente - lugar que brotou das pisadas dos cascos dos bois - e em litígio com o dono das terras da Lagoa do Tigre, o Sr. Manoel Rufino. O Dr. Coutinho teve uma infeliz ideia, uma atitude que amargou pelo resto da vida: Contratou os serviços profissionais de Aristides Rosal, a fim perseguir seu inimigo. Queimadas tinha um novo capataz, o Tenente Rosal. Mas há quem diga que houve uma trama bem elaborada, premeditada, pois ouviram o Pe. da Varzinha dizer para o  Dr. Coutinho: "Bote o boi no curral para amansá-lo e depois poder matar."
Em suas periódicas visitas de inspeção de bens, o doutor percebe que o gado e as ovelhas estavam sumindo da sua fazenda. Os amigos, ironicamente, perguntam: - Doutor Coutinho, o senhor agora tem um sócio em Queimadas? Nada podia fazer, só mastigava o receio e o arrependimento, procurando uma forma de despedir o capataz que tomava ares de dono das terras das Queimadas. Antes de sair da fazenda alheia, o tenente fizera, além do pé de meia, um rosário de inimigos por toda região. Ele proibira o caboclo Cambirimba de fazer carvoarias, mesmo o sertanejo tendo a permissão do doutor. O caboclo continuou a queimar lenha, sem se preocupar com o veto do capataz.
Os recados iam e vinham, que para desgraças não falta quem se faça de correio. Avisavam: - Cambirimba, fica de olho aberto! Toma cuidado, pois o Rosal anda dizendo por aí que vai te dá uma surra e das grandes!  O caboclo respondia, firme: - Eu não tenho medo do Rosal!  O povo se alvoroçava e fazia restrições na presença do ex-militar, visto que já cumprira as promessas de bater em quem ameaçava. O chicote de Rosal estalou nas costas de Antônio Calango, entre a Praça da Matriz e o Mercado. As chibatadas eram cantadas de mansinho, uma a uma, com recados para o patrão de Antônio: - E esta lapada, seu cabra safado, é para você avisar ao seu chefe, o covarde Manoel Rufino, que o dia dele está chegando!
No Mercado Velho, com os portões furados de bala, dia de feira era momento de muita festa. No pátio interno o cheiro de carne assada se dissipava no ar. Cambirimba não se assustou quando, de repente, Rosal entrou no Box em que estava, e foi logo asseverando: - Caboclo, tu anda dizendo que eu sou ladrão! Cambirimba lembrou-se da ameaça de relho nos lombos, mas respondeu, no ato: - Disse, sim! Você roubou mesmo as criações do Dr. Coutinho! E não esperou pela reação do tenente, partiu, com ímpeto, para cima de Rosal agarrando pela gola do terno branco e o sugigou na parede, com uma das mãos. Com a outra tentava tira a faca do cós da calça, mas a camisa passada pelo cinto não permitiu. Rosal já estava com a língua de fora quando separaram a briga que já exalava o cheiro de morte. Quem não correu, olhava por trás das portas, o pátio em desordem com as mesas e as cadeiras de pernas para o ar.
Houve quem, disfarçado, comemorasse em rejubilação, dando vivas ao caboclo Cambirimba.  
O velho João de Sousa, em refutação, prometera fazer do cocuruto de Rosal uma cuia de beber água. Por uma série de crimes: tiros, brigas, mortes, chega à cidade de Cratheús uma ordem de prisão para João de Sousa. Parte um volante de quatro praças para realizar a difícil missão, mas vão direto à localidade chamada de Macacos, residência de Rosal, que é incorporado no comando, recebendo armas e munições.
João de Sousa, avisado da chegada da volante crateuense, aguarda na sala da frente, serenamente, com o rifle entre as pernas. Gritam, do lado de fora: - Entregue-se, João de Sousa. Temos ordens de lhe prender!
Ele responde: - Só me entrego se o Rosal não estiver aí.
Mentem: - Ele não veio! Não está aqui! O velho e cansado João confia na palavra da volante, desarma o espírito e joga a arma no chão. Como um fantasma, Rosal aparece à porta, e pronúncia a fatídica sentença: - Te prepara João da Porca, que agora tu está pegue é com o homem da “cabeça”. João leva as mãos ao rosto antes das cargas das armas automáticas deceparem-lhe os dedos e dilacerarem-lhe o crânio. Matam também o Pedro, um dos filhos de João, e os dois cadáveres, decapitados, são postos em cangalhas de burros amarrados por cordas passadas nos furos dos tornozelos, como quem leva as bandas de porcos para o açougue. E já no fim do dia o cortejo macabro segue rumo a Novo Oriente, passando em frente ao Mercado Público onde o cangaceiro intima alguns curiosos a cavarem as sepulturas. O povo logo apelidou Rosal de “O Tenente da Cangalha”.
O destino é uma sorte que a gente mesmo faz, e Rosal sabia disso, pois estava cansado de escapar das tocaias, fugir de emboscada em emboscada, milagrosamente. Era obrigado a passar por aquele trecho, de antiguíssima cerca de faxina, na localidade de Emaus, quando vinha da casa de sua amante, a Daurides. Naquele dia esquecera-se de trazer o menino que colocava na sua frente, como escudo, e golpeia com vontade as ancas da burra castanha, que capricha na disparada.
Atrás da cerca, num buraco coberto com uma copa fechada de uma moita, o tocaieiro nem respira, só alisa a espingarda, de prontidão. Há três dias que aguarda o momento propício, e a hora era chegada. A burra em disparada vem ao encontro do cano do rifle no exato momento em que o paladino puxa o gatilho. O projétil sibila no ar, indo quebrar o medalhão no peito de Rosal que fica estendido no chão. A burra velha passa em disparada pelas ruas de Novo Oriente, dando a notícia que muitos já aguardavam. A cidade inteira se rejubila em festa e dão vivas ao herói vingador, sem citar seu nome, pois logo tudo aquilo estará empestada de polícia.
Um dia, Antonino resolveu se separar da filha de Cambirimba. Isso deu uma intriga danada e das grandes. Cambirimba ameaçou: - Seu cabra safado, no dia em que você passar na frente de minha casa, eu te mato!
Depois de uma boa caçada e, já tarde do dia, Antonino resolve não desviar caminho e passa em frente à casa do ex-sogro. Alguém comenta dentro de casa: - Oh, que o Antonino hoje matou e foi caça! O velho levanta-se depressa, arma-se e vai ao encontro do genro teimoso: - Eu não disse, cabrinha, que te mataria se passasse em frente da minha casa! Só deu tempo de Antonino se virar e também atirar. As balas passaram se beijando, como saudação de morte e tombam ao chão os dois rudes sertanejos.
Antes de fechar os olhos, Cambirimba chama os filhos e confirma o que muitos já sabiam: - Cuidem bem desta lazarina velha que está aí no canto, pois foi ela que deu fim nos desmandos do cangaceiro Rosal!
Há muito que o Sertão de Cratheús se apazigou, esqueceram os incendiados ânimos por disputas de terras e as danações incontidas dos cangaços, desde quando o Pe. da Varzinha, já velho e cansado, vendo suas terras sumirem nas mãos dos outros, sonhou: - Ah, se o Padre tivesse 50 anos, iria incendiar a varzinha, mas era de bala! E ainda bem que a lazarina de Cambirimba se aposentou!  

Raimundo Cândido   

José Alberto de Souza disse...
Se isso não dá  romance histórico, não sei não. 
É só ir juntando cada pedaço  e acrescentando imaginação no que se ressente para lá continuar.

7 comentários:

  1. Se isso não dá
    romance histórico, não sei não.
    É só ir juntando cada pedaço
    e acrescentando imaginação
    no que se ressente
    para lá continuar.

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  2. Prezado Raimundo,
    Brilhante trabalho!
    Permita-me fazer uma pequena retificação e um comentário.

    1-Miguel Euzébio, “Padre da Varzinha”, era filho de Miguel Gomes Coutinho (2º), neto de Antonio Gomes Coutinho e bisneto de Miguel Gomes Coutinho (1º), o patriarca.

    Zacarias Gomes Coutinho, “Major Zaca”, era primo legítimo de Miguel Euzébio.

    2-O falecimento do Tenente Rosal está registrado no cartório de Novo Oriente, no seguinte formato:

    “Aristides Rosal de Oliveira Leite, nascido aos 09/08/1882, filho de Antonio Vitalino de Oliveira e Izabel Costa Rosal. Tenente, falecido no lugar “Macacos” aos 15/04/1939. Era casado e criador.”

    Conforme declaração de José Rosal Leite, aos 16/04/1939, no cartório de Novo Oriente.

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  3. Muito bom encontrar a história da família. Sou Miguel Eusébio Pereira Coutinho Júnior, bisneto do Padre da Varzinha. Gostaria de manter contato sobre mais arquivos e pesquisas relacionados aos Coutinhos.

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    1. Prezado Miguel, quando estiveres em Independência, entre em contato comigo através do celular (88) 9644-4317. Far-lhe-ei a entrega de um trabalho sobre nossa família.

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    2. Irei entre o Natal e o ano novo deste ano, ainda está de pé a proposta?

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  4. Parabéns Raimundo Cândido.Sobre o padre da Varzinha, tem muitas histórias.Meu pai nos contava e sou amiga de uma sobrinha dele, de 85 anos.Filha do sr. Coutinho da Realeza ,amigo do meu avô e pai.Nessa família nessa época havia homens de boa formação e alguns em bons cargos na área de Direito.

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