segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Bodega do Valmir

                                           

Daqui a pouco, eu e os velhos objetos que me cercam, hão de cair no porão do esquecimento. Pouquíssimas coisas animadas, ou inanimadas da vida, resistem às ciladas do tempo. E, mesmo assim, caminho com uma cortina de vidro, a olhar o passado.
Trilhava, absorto, pela minha querida Rua Frei Vidal da Penha que a cada dia se renova, mais e mais. As fachadas de minha infância modernizam-se, adquiriram um colorido vivo como se um dia também não forem taxadas de desusadas, e abrissem espaços para as novas aparências.
No cruzamento com a Rua Delmiro Gouveia torna-se intensa a minha saudade: Vejo uma bodega em cada esquina, poesias que não existem mais. Seu Raimundo Fernandes com uma “gentileza” característica a receber os fregueses e a bodega de meu pai, Seu Raimundo Cândido, com o rústico balcão de velha tábua enegrecida num cheiro forte de couro curtido que irradiava no ar. O que se estampa, aos meus olhos saudosos, não são os prédios novos que enfincaram no lugar.
Já na altura da Cel. Tobias avisto um antigo pé de Castanhola e já era uma árvore copada quando, ainda menino, andava por lá. A refrescante sombra dava para as portas do Bar do Valmir. Este sim, como a heroica castanhola, resistiu. O mesmo aspecto de prédio antigo, por décadas e décadas, como a me convidar: Entre, amigo! Entrei.
- Bom dia, Valmir! Como está?
Ele, por trás do balcão e com surpresa no rosto, por me ver novamente ali, responde:
- Bom dia, Raimundo! Estou bem e você?
Como que autômato, dispõe um copo limpo para a primeira talagada. Muitas vezes saí de lá andando nas nuvens e sem saber que rumo tomar. Agradeço e lembro que perdi o direito de provar a forte Lagoa do Barro, por abuso do uso quando direito tinha de usar.
- Obrigado Valmir! Estou só relembrado as nossas vidas, a minha, a sua e que o tempo logo haverá de levar.
Ele sorri, um sorriso já consumido, a confirmar: - A minha vida é um romance, carregado de amarguras, Raimundo!
Empresto-lhe os ouvidos, o que ele aguardava (Acho!) e o que eu estava a procurar.
- Raimundo, eu comecei a trabalhar neste ramo aos 16 anos, estou com 82. Faça as contas! Passei por muitas coisas, meu amigo. Primeiro foi quando o Batalhão atrasou os pagamentos dos funcionários por quase um ano. Vi muita gente quebrar. O Tenente Messias, o Finado Menezes, e o que a gente podia fazer? Era fazer o que eu fiz, peguei o caderno de fiado e rasguei tudo. E sabe, foi o melhor negócio que fiz até hoje! Eu não ia ficar doido!
Percebi que escutaria uma longa história, uma vida inteira destrinchada e comecei a perguntar.
- Valmir, você que vendeu muita bebida ao povo, me diga uma coisa: você já bebeu?
- Bebi sim, e muito. A primeira bodega que tive, eu acabei foi com a bebida e as cutruvias da Zona. O seu irmão Júlio sabe, eu via ele sempre por lá!
- Raimundo, o sufoco grande foi na cheia de 74. Este prédio aqui ruiu todo, até as paredes o Rio Poti levou. Era um mar d’água, daqui até a Praça da Matriz. E soube que, lá pela rua, quando disseram que caiu o Bar do Valmir, teve gente que chorou: - E agora meu Deus, aonde eu vou me abastecer? Eu tinha uma família para criar, a sorte foi que Seu Agileu me cedeu um quartinho e nas festas do Louro da Cruz a gente vendia bastante pinga e muita caipirinha que minha mulher fazia e quando cuidávamos, os meus meninos, o Xixico, o Leléu, o Capote e o Peru estavam com a barriga já para estourar de tanto tomar caipirinha, escondidos, pensando que era refresco.
- Quando as águas baixaram, eu peguei o material fiado com uns amigos comerciantes e num único domingo os pedreiros, os serventes que bebiam no meu bar, o Manoel Jucá, o Dede Vicente, levantaram as paredes e fizeram o teto, em tempo recorde. Mas também, quando deu 6 horas da tarde estavam todos embriagados, mais melados que espinhaço de pão doce.
Mesmo adoentado, sem poder andar com uma perna quebrada, abre a bodega todos os dias, pontualmente às cinco da manhã. O freguês já está na calçada, impacientemente, aguardando. Do trabalhador ao desocupado, do doutor ao padre, não falta quem venha todo dia queimar os dentes com uma caninha forte para afogar as mágoas dos dias difíceis, para sonhar e suportar essa vida enjoada que Deus nos deu. Esse tal de Baco, que inventou a pinga, foi um gênio!
- Os meus filhos já pediram: “Papai, deixe esse negócio de vender cachaça! Eu lhes explico: “Vocês foram criados com o dinheiro das bebidas, vendidas de dose em dose, então me deixem trabalhar!”
- Muita gente boa, que se escorava no pé deste balcão, já se foi: O Babalu, o Tiú, o Cabo Marinho, o Zé Miolo, o Joaozinho... Foram tantos! O que ainda está vivo é o Mestre Ota, que sempre apoiava a perna no balcão e declamava a carta de despedida de Getúlio Vargas: “Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte...”
¬- Um dia, o Manoel Jumentinho que gostava de cantar imitando a voz do Carlos Nobrega, azucrinou tanto o Véi Chico Alpragata que esse sentou o pau-de-jucá na moleira do Jumento enxerido. Ele ficou ciscando aí no chão, igual uma galinha do pescoço quebrado e foi bater no hospital.
- São coisas da bebida, né Raimundo. Você sabe, se exagerar, qualquer um sai da linha.
E o Valmir continua:
- E teve um dia que o Mané do Cego estava tomando umas, tinha uma curriola danada com ele, tirando o gosto com curimatã e ouvindo o rádio quando o carro da patrulha riscou aí, na porta. Desceu o Capitão Camilo, que era o delegado e foi logo perguntando: - Que rádio baile é esse? O Mané respondeu: - Num é radio baile não, Capitão! É muisica! O delegado segurou-o pelo braço e o coitado do Mané foi preso. Depois, eu soube que o Capitão só andava cheio de conhaque nas ideias e como aqui só tinha cachaça ele mandou fechar o bar e até o rádio. Abri, assim que o delegado foi embora!
- Valmir, com a sua idade, você tem é que se cuidar mais. Mesmo com ajuda dos seus filhos é necessário repouso, não acha?
- Qual nada, Raimundo! Quem nasceu pra morrer peba tem mais é que viver cavando!
Despedi-me do amigo Valmir e segui o meu caminho incerto. Inexplicavelmente senti uma tontura na mente, as pernas trôpegas... Será? Mas não tomei nem uma talagada de São João da Barra ou da quentíssima Lagoa d Barro! Ah, já sei! É que continuo o mesmo velho ébrio de sempre, na lucidez do coração!


Raimundo Cândido

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