quarta-feira, 12 de abril de 2017

Epopeia de José Coriolano.




Um cidadão destes que gostam de provocar o que está quieto com indagações inusitadas, interpelou-me: Professor, diga-me, como é que nasce um poeta? Passado o atordoamento que a insólita pergunta me causou, tentei responder: - Bem, meu amigo, depois de nove meses de gestação surge um ser quase que normal, como todos nós, porém dotado de estranhas mutações, no íntimo da alma: eles possuem olhos que ouvem, ouvidos que enxergam, sofrem de uma eterna febre no enternecer e, contrariando a ordem natural das coisas, crescem, se desenvolvem e nunca morrem! O cidadão ficou boquiaberto com minha afirmativa, mas respondi convicto, pois estava pautado na vida e na obra do primeiro vate crateuense: O grande poeta José Coriolano de Souza Lima.
Na fazenda Boa Vista, propriedade do Sr. Gonçalo Correia Lima, descendente dos aguerridos Mourões, corria o ano de 1851 e a existência era uma eterna lida com o gado nas mãos calejadas pela enxada e no espanto de ver a Caatinga, ora abatida num cinza semimorto, ora pintada de uma verdejante vida. Dona Ana Bezerra, católica fervorosa, em época de quaresma, vai à Vila Príncipe Imperial para as desobrigas, quando os padres vinham do São Raimundo Nonato, celebrando pelos sertões abandonados. Desta vez o sacerdote era seu filho primogênito, o Cônego Sebastião Ribeiro Lima, que, ainda criança, acompanhara os padres para seguir a Cristo. O coração de mãe estava, mais uma vez, apertado, pois o filho caçula, o José Coriolano, acompanharia o irmão padre para estudar na cidade que um dia fora a fazenda de Domingos Afonso Mafrense, terras doadas aos jesuítas, após a morte do famoso bandeirante matador de índios. O Jovem Coriolano, de 16 anos, já demonstrara uma inteligência extraordinária, lia todos os livros que o irmão padre lhe trazia: os poetas portugueses Luiz de Camões, Gil Vicente, Almeida Garret, inclusive os versos picantes de Manoel Maria Barbosa du Bocage.    
Se no rude sertão da época existia uma criança com olhos que ouviam, ouvidos que enxergavam, a padecer febres no corpo raquítico e asmático e ardência poética na alma causando admiração no sertanejo rude, é logico que tinha que bater asas e arribar seguindo a trilha do irmão mais velho, numa longa e penosa viagem de centenas de quilômetros, em lombos de animais.
São Raimundo Nonato também se mostrou ínfimo aos sonhos do menino que desenvolvia um estro literário ao sabor dos ventos e, saudoso, cantava o Rio Poti, as aves, a mata e o homem da terra e os pintava em versos telúricos. E lá, entre tantos, escreve mudanças, um dos mais belos poemas da nossa literatura: “... Já balouça o vento as verdes copas / As flores não dispersam mais perfumes! / Quem uma tal mudança produzira, / Eu bem saber quisera! // Mas, ah! nada mudou-se – eu só me iludo! / Meus olhos, sim, mudaram-se de tristes: / Tudo existe no estado primitivo: / Eu somente mudei!” E segue com seus protetores, os bonachões padres, rumo a ilha de São Luís do Maranhão.
Na ilha continua compondo belos versos e a crescer espiritual e literariamente. Poeta romântico, modernista, social, abolicionista e a cantar a natureza e a Deus de forma magistral.  E da saudade da amada, Cisalpina, a musa que lhe fora prometido como esposa quando ainda criança, brotam os versos liricamente românticos: “Eu careço de ti, ó minha amada, / Como da rotação carece a terra, / Como d’alma carece o corpo imbele.  / Como o mundo – de tudo quanto encerra...”
As notícias do mundo circulavam no vai e vem das batinas dos padres e de Olinda, mais precisamente do Mosteiro de São Bento, em Pernambuco, chegam notícias da primeira Faculdade de Direito a funcionar no Brasil. Alvissaras que atiçam, ainda mais, os sonhos do poeta crateuense. Com a benevolência dos padres, Coriolano embarca num navio rumo a Marim dos Caetés, numa viagem perigosíssima para a época, pois quem embarcava ao mar nunca sabia se voltava. Mas Coriolano levava, além de uma carta de recomendação, a coragem sertaneja e aquelas mutações determinantes com que nascem os poetas. E Olinda mostrou-se arrebatadora aos olhos do primeiro poeta crateuense. A inspiração jorrou como lavras de um vulcão, tornou-se um incansável cultor das ciências e das letras.  Como Orfeu que, quando sua lira vibrava, os pássaros paravam de cantar e até as árvores se curvavam para pegar seus versos dispersos aos ventos. Antes da Faculdade de Direito de Olinda mudar-se para Recife, o poeta vai buscar sua amada nos sertões de Cratheús e retorna para terminar o curso na afamada Escola de Recife, onde estudaram nada mais nada menos que Tobias Barreto, Joaquim Nabuco, Clovis Bevilaqua, Sílvio Romero, Capistrano de Abreu, Graça Aranha,  Araripe Júnior e muitos outros intelectuais, entre eles o poeta Castro Alves, e há quem afirme, após ler Coriolano, que nos versos de Navio Negreiro estão embutidas as influências do poeta crateuense. Escreveu centenas de poemas e inúmeras prosas ficaram impressos no jornal Ateneu Pernambucano e nas revistas literárias: Revista Acadêmica, Ensaio Filosófico, Arena e Iris. Coriolano foi senhor do seu tempo e é considerado, por muitos, como o fundador da literatura piauiense.
Ainda em Olinda concebera um épico magistral em homenagem a um touro da fazenda de seu pai: “No belo Crateús, sertão formoso, / Obra sublime do Supremo Artista, / Num terreno coberto de mimoso, / Está sita a Fazenda Boa Vista”; / Do Príncipe Imperial, pravo e rixoso, / Vila do Piauí, seis léguas dista: / Aí, num massapê torrado e brusco,  / Nasceu o valoroso “touro-fusco”.” Cantou também sua terra natal: “Lindo sertão meus amores, / Cratheús, onde nasci, / Que saudade, que rigores, / Sofre meu peito por ti! / São amargos dissabores / Que em funda taça bebi! / Que saudade, ó meus amores, Cratheús, onde nasci!”
Terminado o Curso de Direito volta ao Piauí, exercendo diversos cargos públicos em várias cidades: Deputado Provincial, Promotor Público e até Juiz. Aos 40 anos, a asma crônica e uma congestão cerebral o fazem voltar à Cratheús, terra onde nasceu e onde haveria de... Não, morrer, não! Um poeta nunca morre! José Coriolano de Souza Lima encantou-se no Sertão de Cratheús onde, um dia, reinou o Touro Fusco!
(Os poemas de José Coriolano podem ser lidos no Blog: Impressões e Gemidos, postados por Ivens Mourão, trineto do poeta. O escritor Saulo Barreto Lima, bisneto de Amâncio Correia Lima, tem feito um belíssimo trabalho de resgate do nosso primeiro poeta, poesia inéditas e suas prosas, e conseguiu publicar dois volumes de poemas do Coriolano em São Luís do Maranhão.)

Raimundo Cândido

Um comentário:

  1. É fogo um poeta falar sobre outro poeta,
    a linguagem, as metáforas se misturam
    para esconder o seu nexo
    que a gente mal percebe a quem fala.

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