terça-feira, 25 de abril de 2017

O Martim-pescador



                                                 
Um dia, não muito distante, acordei impelido por um desejo de “busca” que me induziu a pegar a estrada que leva ao Boqueirão do Poti, depois da Ibiapaba e, irrefletido, percorri léguas e léguas para saber que necessidade premente era aquela. Repentino, parei o carro, atravessei a linha férrea que corre paralela à estrada para o Distrito de Oiticica, e me dirigi ao poço do rio chamado Pesqueiro. Era onde, outrora, a Maria Fumaça matava a sede, para ganhar fôlego e seguir viagem para o Piauí. Ao me aproximar, cautelosamente, vi um Martim-pescador macho (Peito todo ferrugíneo) saíndo de um buraco, no barranco da beira do rio e, em seguida, a fêmea também escapuliu de lá.  Ficaram revoando e cantando estridente como uma matraca: Ta-ta-ta ti-ti-ti trr-trr-trr, bem longe do orifício no barranco. Como conheço bem esses espertos Martins, notei que estavam despistando, pois ali era o ninho onde iriam reproduzir. Compreendi: os ovinhos no ninho precisavam do calor dos corpos dos pais, 24 horas por dia e eu estava atrapalhando. Saí, rapidinho, dali.  Voltei para casa, com a mesma ausência no peito que eu tinha levado!
Recentemente, a mesma “carência” incompreensível me impulsionou a voltar ao Poço Pesqueiro. Desta vez fui equipado, linha, anzol e uma cadeirinha de pescador dissimulado. Queria mesmo era ficar na tranquilidade mágica da mata-ciliar do Poço Pesqueiro.  Abanquei-me sob uma enorme Canafístula e nem sequer joguei o anzol na água, fiquei admirando o estirão de água do Pesqueiro que se emendava com o Poço da Croa, lá onde o brilho do rio faz uma curva. Via-se, quase no horizonte, a passagem cortada na Serra Grande, o Boqueirão que a milênios o Rio Poti cavou no paredão pétreo para ir de encontro ao mar. Amazonas, São Francisco, Sena , Reno, Tigre, Nilo... Não há outro rio igual ao nosso Poti!  As fogo-pagou não paravam de cantar. Um Papa-arroz voava de moita em moita procurando o que comer, o pássaro boé provocava inquietação com seu canto onomatopaico: Kiiiii kocorôoo boéeee...  Três belíssimos Martins-pescadores revoavam, em majestosas piruetas pelo espelho d’água. As algazarras dos anus-pretos era uma anarquia só e sempre considerei esses pássaros negros destituídos de quaisquer boas maneiras. Depois que passei repelente nos braços, nas mãos e até nas orelhas os mosquitos deixaram de me perturbar.
De repente meus tímpanos vibraram com um som agudo e estrepitoso: - Thiiiii thiiiii thiiiii thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrrr ....  Não caí da cadeira por pouco! Foi muito perto, pensei até que meus ouvidos iriam estourar. Olho de lado e, assustado, percebo um grande Martim-pescador pousado num galho, a dois palmos de mim. Quando vi o pontiagudo bico preto, tal qual o punhal de lampião, deu uma dor nos olhos pela proximidade do perigo, uma gola muito branca brilhava ao redor do pescoço e abaixo, pelo papo, descia uma ferruginosa e sanguinolenta gola contrastando com o manto azulado que ele trazia nas costas. Era o dândi pescador! O Martim percebeu meu medo. Então, falou: - Não se assuste, oh Ribeira do Poti. Vim lhe agradecer! Você está vendo aqueles três Martins que treinam a pesca no leito do rio? Os dois menores são meus filhos sendo instruídos por minha esposa a sobreviverem nesta difícil vida! Naquele dia que você esteve aqui, era um dia de máxima necessidade de calor para os ovinhos e você compreendeu e foi logo embora, por isso estou aqui para manifestar minha gratidão. 
Era mais uma circunstância fora do normal aquela por que passava, são situações que estou até me acostumando. Eu não sei explicar... Soa estranho dizer, mas falar com jegues, com bodes, com pássaros está virando coisa de praxe, então aceitei o diálogo... Embora não seja normal, nem ao meu juízo, nem ao senso de alguns companheiros, como o historiador Flavio Machado, que já me sugeriu uma sessão com um psicólogo. Disse-me ele: - Tu só vive em cima das pedras, tu tá é virando bode! Tu fala com jegue, fala com cabras , compreende os pássaros, é amicíssimo das mariposas... Sei não, em?
Deixa pra lá! O Martim chamava minha atenção, tinha algo importante para me dizer.  Embora a voz soasse estridente  “Thiiiii thiiiii thiiiii thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrrr” no ar, eu compreendia o que ele falava:
- Ribeira, naquele dia, que você veio aqui sem saber por que, lembra-se? Quem lhe intimou foi a Potâmide, a ninfa do rio. Ela queria lhe testar e como você obedeceu nossa lei, saído para não perturbar o equilíbrio da natureza, ela ficou lhe admirando e agora mesmo lhe observa. O olhar por entre o capim, por trás dos galhos e das folhas nem sempre é de um passarinho. Você sabe disso, não é Ribeira?
- ...
Quis responder, mas as palavras não saíam da minha boca. Acho que o Martim entendeu pelos meus olhos arregalados o que eu queria dizer. E ele continuou:
- Ribeira, você está encantado pelos mistérios do rio, sabia?  E isso é bom e é ruim. Bom porque temos um grande admirador e um protetor do nosso ambiente, mas você deve tomar cuidado, não confie muito no que vê por aqui, os mistérios da natureza são traiçoeiros. A Potâmide e a Mãe D’água são muito possesivas e podem lhe transformar num socó, ou mesmo num cari-bodó, só para que você fique com elas. Cuidado, Ribeira!
O Martim Pescador, à medida que falava comigo, subia e baixava o rabinho, olhando para os três companheiros que revoavam na flor d’água. Notei que estava apressado e, por fim, despediu-se: - Até logo, meu amigo, você será sempre bem-vindo por aqui, agora me deixe ensinar aos meus meninos a se peneirarem no ar, disparando pela cloaca uma iscazinha de cuspe para as piabas emergirem. É quando mergulhamos rápido e subimos com o peixe no bico. Hasta la vista, Ribeira!
Só deu tempo ouvi a matraca estridente novamente, Thiiiii  thiiiiiiiii   trrrrr  trrrrrr, e já  percebi que os quatro Martins estavam juntos deslizando pelas águas do belo poço Pesqueiro.
Agora sim, eu estava feliz. Entendi aquela “ausência” estranha que me fazia ir aos poços do rio. Estava encantado pela ninfa Potâmide e pela Mãe D’água, que legal! Mas... Matutei! E se elas me transformarem num socó? Tudo bem, viveria pescando na beira do rio. E se fosse num cari-bodó?  Aí a coisa complicaria, acho que nem o meu amigo Martins, quando estivesse pescando, saberia que era eu! Vou ficar mais esperto e deixar de andar amiúde nos poços do rio!
Raimundo Cândido

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