Este é o chão sagrado da Academia de Letras de Crateús na internet. Como um templo ecumênico, nele há espaço para todos que adoram cultuar a beleza da virtude, a simplicidade da inteligência, a singeleza do verbo, o fascínio da cultura, a liberdade da palavra, a profundidade do amor.
A noite de sexta-feira (8) teve um calor especial misturado àquele natural da seca que assola nosso Nordeste querido. Depois de uma ausência de anos, eis que voltou ao aconchego dos que lhe querem bem o "príncipe dos poetas piauenses", o crateuense José Coriolano. Voltou dourado, anunciando um futuro mais promissor às letras locais. Voltou para emprestar, uma vez mais, peso à já rica e extensa história cultural de Crateús. Voltou para juntar-se a panteões da altura de Dom Fragoso e Padre Alfredinho (que adotaram Crateús e seu povo como morada e missão de amor), para ombrear batalhas tão épicas quanto a travada pelas ruas da cidade contra os "revoltosos" de Carlos Prestes, para apreciar coisas simples e belas do dia a dia, praticadas anonimamente por cada um dos habitantes deste torrão amado.
Segundo o poeta Raimundo Cândido, membro da Academia de Letras de Crateús e responsável, juntamente com Edmilson Lopes Providência, pelo resgate do busto do poeta José Coriolano ao seu lugar de origem, um dia o grande poeta Gerardo Melo Mourão olhou o vazio da praça e cobrou: "Meu povo, cadê o Coriolano?" Pois bem, José Coriolano de Souza Lima está de volta! E continua a entoar Crateús:
"..... terra, onde a alvorada
Primeira pra mim raiou!
Onde a primeira morada
Meu pai querido assentou!
Onde o galo, à madrugada
Cantando me despertou!
Onde à primeira alvorada
Ouvi-lhe o có-corô-cô!"
Sua festa de retorno foi linda, bem ao gosto do poeta – que certamente estava por lá, dando uma conferida. As fotos abaixo (de autoria de Carlos Henrique) dão uma ideia de como foi um momento cultural gostoso e de que a cidade precisa vez por outra.
Entre os presentes, dona Rosa Moraes (agraciada com uma bênção papal), seu Ferreirinha, autoridades municipais e eclesiais, população em geral, além do trineto do poeta, Ivens Roberto de Araújo Mourão, que fez doação dos originais do poema Crateús à Academia de Letras de Crateús.
É válido ressaltar que o retorno do poeta teve a contribuição inestimável da Prefeitura Municipal de Crateús.
No final da Rua Cel. Giló
avista-se o solitário Casarão dos Morais. Na sala de estar, repleta de quadros,
exibem-se os vultos que outrora se abancavam na calçada para uma genuína prosa
sobre o imponderável tempo, arrematando as conclusões da vida. Hoje,
estamparam-se nas paredes, numa saudosa galeria mnemônica. As janelas abertas,
de par em par, observam atentamente os inquietos transeuntes que passam rumo ao
Bairro dos Venâncio. Havia, até recentemente, mais o que se ver, porém o
impiedoso tempo corroeu a robustez das coisas e as volúveis lembranças. Um
frondoso Flamboyant, fincado em frente à senhorial casa, é testemunha daquelas
fulgurantes eras.
Às vezes o intempestivo rio,
que passa ali em frente, ilhava o casarão. Irrequietos remos de canoas, num
esforço hercúleo, trabalhavam para ir de uma margem a outra. A meninada, em
algazarra, fazia estripulias nos banhos do Poti. De quando em quando, o intermitente
fluído aquoso, esquecia-se de voltar. As forças da natureza, que fazem desaguar
as providenciaischuvas, se afastavam do sertão. O
verão, outra vez doloridamente infecundo, estica o mês de abril destroçando as
esperanças de um ser que teima em sobreviver, que insiste na agreste ilusão.
Naqueles tórridos dias, o homem do campo veste um aviltante gibão do
inaceitável padecer. Tudo perdido, esgotada as provisões, a fome é um ranger de
dentes nas mirradas carne dos filhos pequeninos e o único apelo é campear um
minguado auxílio nas cidades. Até a insensível caatinga agoniza no aspecto
desolador, árvores sem folhas, galhos estorcidos e secos afeito à dolorosa
paisagem que concebe a tristezas dos ermos.
Assim, transcorrem pesarosos os ressequidos
meses de 1951. Como Portinari a pintar “Os Retirantes”, uma solene senhora,
debaixo de um imenso chapéu abriga-se de um sol escaldante, exibe paleta e
pincel nas mãos a tingir um quadro sobre um cavalete. Bem próximo, no leito do
Rio Poti, os retirantes montaram imensas latadas de moitas de mufumbo, onde
diversas famílias de maltrapilhos sertanejos descansam, após uma manhã de
suplicantes esmolas campeadas pelo centro da cidade. Enquanto a jovem Rosa
Morais imprime aquele momento histórico na oleosa tela intitulada “Realidade
Nordestina” recorda-se de outros momentos marcantes de sua vida.Foi em outra grande seca, a de 21, mal
completara 4 anos de ingenuidade infantil e já se deslumbra com as belezas da
natureza nas margens do Poti. Vendo o exemplo dos retirantes, experimenta o
frutinho verde de jaramataia, atitude que lhe custa a boa saúde, mesmo com
tanto purga de leite que sua mãe lhe obrigara a beber.
Fora as graves consequências
do envenenamento pelo fruto silvestre, a jovem Rosa Morais é uma pessoa
temperada na disposição de fazer, na vontade aprender e, principalmente, na
vigorosa fé pela busca da vida. Transporta uma considerável cultura, aprendida
de forma quase autodidata, como uma mestra de si mesmo em constante evolução,
num sábio fluir, mas os pés na realidade.Mal termina o 3º Ano Primário no Colégio Lourenço Filho, passa no
concurso para professora do Estado, indo substituir uma professora na cidade de
Novo Oriente.
Recorda-se de quando o senhor
Agostinho Teixeira, da fazenda campestre, chama os dois netos e ordena: - Oh,
Antônio Cândido, chame o Raimundinho, selem três cavalos e vão buscar a
professora Rosa, na cidade de Novo Oriente. Ela vem passar o fim de semana com
a gente. Os meninos vão satisfeitos,
pois têm a meiga Rosa como uma querida irmã. Na volta, a professora, sentada de
lado numa sela especial, conversa amenidades com os rapazes, relata seus
acontecimentos na terra da Lagoa do Tigre, aponta displicente para um carcará
na copa de uma aroeira a vigiar a solidão do sertão e pergunta o que os meninos
fizeram na semana.
Uma de suas amigas, com
ciúmes, até afirmara: - A Rosa, agora,
só quer saber dos Teixeiras!
Mas amizade é um amor que
nunca morre! O jovial Antônio Cândido, espirito brincalhão, confiante na
lealdade da companheira, se faz até de confidente ao contar que noivara em
Ipueiras e socorria-se com ela nos momentos de apertos: - Rosa, você tem um
dinheirinho aí? Mas não diga a Joaninha, que depois eu lhe pago! Sabia que ele
gostava de se entreter numa mesa de bilhar. Já o Raimundo era mais pacato,
concentrado, e já caprichara ao escrever o discurso que ele iria pronunciar na
posse de Presidente da Congregação Mariana, na cidade de Sobral e com certeza
Dom José Tupinambá estaria na plateia! Nunca entendeu direito porque seu grande
amigo Raimundinho se afastara de sua companhia, só desconfia, pois tudo aconteceu
depois que ele conheceu a professora Delite. Não viam a hora de chegar logo na
cidade para, à noitinha, ir a praça da Matriz e ficar ouvindo a banda tocar no
coreto.
Imensa é sua gratidão ao
professor Luiz Bezerra, pois o mesmo a obrigou aceitar um convite para ensinar
desenho na Escola Normal. Na apreensão pela missão imposta, ele a tranquiliza:
- Rosa, mesmo faltando um semestre para você se diplomar, sei que és capaz e
dará conta, até vai lhe ajudar no pagamento da mensalidade! Desta experiência,
ao longo dos anos, foram surgindo as 42 belas obras que compõem o tema
“Natureza e Arte” a maioria das telas com perspectivas nordestinas que estão
espalhadas pelo mundo.
Lecionava pela manhã, estudava
à tarde e à noite, na luz do lampião, fazia florzinhas de fécula de batata, de
papel, de couro, de parafina, enfeites de velas de primeira comunhão para
adquirir dinheiro e pagar a escola. Concorrido foi o Curso de pintura, que
montou na Escola Normal, entre os alunos tinha um padre francês, chamado João,
que pincelava os quadros como se fosse uma oração.
Outro amigo que a digníssima
professora Rosa Morais recorda com carinho é do Pe. Moacir, que planejou sua
entrada para a Congregação Religiosa das Josefinas. A irmã Rosita permitiu que
ela passasse 17 dias internada, para pensar e se avaliar.Rosa afirma: – Eu rezei muito para o Senhor
mostrar minha vocação. Tive vontade, mas me faltou aptidão para usar o habito
das freiras. Não sabia o que fazer, nunca usei batom, nem esmaltes nas unhas.
Eu sou eu mesma, sempre me pertenci! Não fiquei na irmandade, mas também não
tive coragem de casar! Apareceu um rapaz, era um ex-seminarista e eu lhe disse
que ele foi bobo, por ter jogado os pés no Senhor.
Rosa
sempre esteve em contado com os padres, inclusive o irmão, Francisco Ferreira
de Morais que foi um deles, na cidade do Ipu. Do Pe. Bonfim, em Crateús,
lembra-se do temperamento explosivo e de quando surgia um probleminha no
colégio, onde ensinou por 37 anos, ela mesma tentava resolver, com ajuda do
Senhor Expedito Paiva, antes de o levar ao conhecimento do duro Monsenhor. No famoso
colégio da Firmino Rosa, exerceu mais um dos seus dotes artísticos, o poético,
é a autora do belo hino que glorifica o Colégio Pio XII.
Hoje,
o velho casarão dos Morais tem um ar nostálgico, que transparece no olhar das janelas abertas ao horizonte, mirrando a calha seca do
rio. E na sala de estar, Dona Rosa repousa de uma longa batalha para educar
gerações de crateuenses, assistindo uma destas emissoras católicas de TV. Nem
imagina que nesta sexta-feira, dia 8 de Março, receberá uma homenagem, que
pouquíssimas pessoas no mundo tiveram a honra de receber, uma Benção Papal,
assinada pelo punho do próprio Bento XVI, antes de renunciar. Sem falar que já
se prepara a grande festa para o dia 26 de outubro, quando completará 100 anos
de admirável existência. A professora Rosa Morais, com tantos motivos para ser
feliz, sendo a própria dona da felicidade autêntica, ainda ganha mais uma
longeva e poética satisfação: vida cônscia! Obrigado, Mestra!
Raimundo Cândido
José
Alberto de Souza disse...
Salve,
ilustre poeta e prosador!
Você nem imagina a grande alegria que me traz, quando apresenta todos esses
vultos do seu caminho que lhe inspiraram tantas mensagens de gratidão e
reconhecimento.
Ainda bem que existe um Raimundo Cândido a exaltar essas eminentes figuras de
Crateús, não se deixando iludir por falsos mitos do cenário nacional.
Zacarias Bezerra de Oliveira disse...
Uma Prosa para uma Rosa é uma rima de mote e glosa
que irá abrilhantar a biografia dessa grande personalidade de Crateús, caso o
autor assim o permita. Nesse dia 8 de março a homenagem mais adequada ao Dia
Internacional da Mulher é esse texto publicado aqui nesse "chão sagrado da
Academia de Letras de Crateús na internet": Uma Prosa para uma Rosa,que é
uma rima de mote e glosa!
CONVITE DE INAUGURAÇÃO DO BUSTO DO Poeta José Coriolano de Souza Lima - Dia 8 de Março – 19: 30 horas Do lado direito da Praça da Matriz. Crateús Ceará.
Quem foi ele? Foi um grande poeta, autor de mais de 250
poesias. Nasceu em Crateús, em 29/10/1829, onde habitaram os índios Carateús,
outrora chamada Povoação de Piranhas e, posteriormente, Vila do Príncipe
Imperial. Sétimo e último filho de Gonçalves Correia Lima e Anna Rosa Bezerra.
Descende do primeiro Mourão cearense: Alexandre da Silva Mourão (I). A sua avó
paterna, Joana Batista Correia Lima, era neta desse primeiro Mourão, filha que
era de sua única filha do primeiro casamento, Maria Coelho Franca. Em 1870 os
amigos fizeram publicar parte de suas poesias, com o título: “Impressões e
Gemidos”, escolhido por José Coriolano atendendo a sugestão do seu pai. O plano
era publicar seus originais, escritos de próprio punho pelo poeta, em dois
volumes. O primeiro veio a lume com a ajuda do Governo do Piauí. O segundo
nunca chegou a ser publicado, por não contar mais com o apoio oficial. Como
houve uma mudança na direção da Província, o novo Governo decidiu não
patrociná-lo (segundo volume), por não concordar com as ideias republicanas do
poeta e de seus amigos. Foi, portanto, vítima da ignorância de uma censura
política que, nos anos seguintes, tanto se repetiu na história brasileira. A
viúva, com cinco filhos menores, não tinha recursos para arcar com a publicação.
Em 1973 o Governo do Piauí, na gestão de Alberto Silva, promoveu uma nova
edição de Impressões e Gemidos, com o título: Deus e a Natureza em José de
Coriolano. O Piauí o considera “o Príncipe dos Poetas Piauienses”, pois na
época em que viveu (1829 a 1869), Crateús, sua cidade natal, pertencia àquele
Estado. A passagem para o Ceará deu-se em 1880. Chico Pascoal
disse ... Ainda que tardia, a homenagem ao nosso primeiro
homem de letras. Soube que é uma reinauguração, mas não conheci o antigo busto.
Crateús bem o merece, Parabéns a todos. Ivens Mourão disse... A todos que fazem a Academia de Letras de Crateús
meus parabéns por resgatar a memória do grande poeta José Coriolano. Que venha
agora um Memorial para o estudo da sua grande obra poética.
Farei o possível para estar presente. Ivens Roberto de Araújo Mourão
Trineto do poeta Luiza Lira disse ...
Estimado colega, Raimundinho. Bom dia! Agradecemos o convite e sugiro que a academia de Letras em colaboração com a Prefeitura, possa criar um espaço onde tenhamos a oportunidade de conhecermos o acervo bibliográfico e de forma explícita possamos divulgar para turistas a obra poética deste renomado escritor.
Um carinhoso abraço a todos da ALC.
Luiza Lira
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
SOBRE A AUTORA
FERNANDA COUTINHO é Doutora em Teoria da Literatura pela UFPE e Pós-Doutora em Literatura Comparada, junto à UFMG e à Université de la Sorbonne – Paris. Professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na UFC. Responsável pelo projeto intitulado Infância e interculturalidade, cujo objetivo é refletir sobre a construção e desconstrução da noção de infância num movimento histórico-sócio-ideológico.
Publicou Família e sentimento: paisagens da infância em Vidas Secas; organizou o seminário “Vidas, para sempre secas” e a exposição “Caras murchas das vidas secas”, no CCBNB. Organizou ainda os livros: A vida ao rés do chão: artes de Bispo do Rosário, em colaboração com Marília Carvalho e Renata Moreira; Raquel de Queiroz: uma escrita no tempo; Clarices: uma homenagem (90 anos de lançamento de Laços de família, em parceria com a Profª Vera Moraes.
SOBRE O LIVRO
“Num livro claro, denso e preciso, Fernanda Coutinho sabe como ninguém abrir o envelope das palavras, dando-lhes vida. Mais do que um ensaio sobre literatura comparada, esse livro é uma meditação. Merece estar nas mãos de todos os que se preocupam com a infância, real ou imaginária, no Brasil.”
Mary Del Priore
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Gosto de livros antigos, mesmo tendo edições recentes. Li vários títulos de Jorge Amado. Tenda dos milagres foi um dos apreciados. Este exemplar é de 1969. Editora Martins. 75 mil exemplares. Na estante virtual ele é comprado por 8,00/9,00 reais acrescido do frete. Encontrei em um sebo de Fortaleza por 3,00 reais. Aliás, encontrei Moacyr Sclyar, Ledo Ivo e etc. Todos nas prateleiras da promoção.
Silas Falcão Raimundo Candido disse... Grande Silas Traça Falcão, aproveito para lhe agradecer o Livro de Crônicas do Drummond, acho que ele foi editado antes do poeta nascer. Valeu!
COISA
Autor desconhecido
A palavra "coisa" é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia.
Coisas do português.
Gramaticalmente, "coisa" pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma "coisificar". E no Nordeste há "coisar": "Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?".
Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as "coisas" nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. "E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios" (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, "coisa" também é cigarro de maconha.
Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: "Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já." E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha. [Incentivando crianças ao uso de baseado???!!!]
Na literatura, a "coisa" é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica "O Coisa" em 1943."
A Coisa" é título de romance de Stephen King.
Simone de Beauvoir escreveu "A Força das Coisas", e Michel Foucault, "As Palavras e as Coisas."
Em Minas Gerais , todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de "a coisa". A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: "Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!".
Devido lugar: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...)". A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro.
"Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca." Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.
Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta "Alguma coisa acontece no meu coração", de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).
Em 1997, a NASA lançou a "Missão Mars Pathfinder", enviando um robô para explorar Marte. O mecanismo foi programado para ser acionado a partir do som de uma música e a escolhida foi um samba de Jorge Aragão/Almir Guineto/Luis Carlos da Vila. Assim, o robô da Nasa, foi "acordado" com a música: "Ô coisinha tão bonitinha do pai...". Lembram?
Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!
Coisa de cinema! "A Coisa" virou nome de filme de Hollywood, que tinha o "seu Coisa" no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem "Coisinha de Jesus".
Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, "coisa nenhuma" vira "coisíssima". Mas a "coisa" tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré: "Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar", e A Banda, de Chico Buarque: "Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor". Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: "Coisa linda / Coisa que eu adoro".
Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o "rei" das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.
Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade afinal, "são tantas coisinhas miúdas".
"Todas as Coisas e Eu" é título de CD de Gal. "Esse papo já tá qualquer coisa...Já qualquer coisa doida dentro mexe." Essa coisa doida é uma citação da música "Qualquer Coisa", de Caetano, que canta também: "Alguma coisa está fora da ordem."
Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal.
O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa.
Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.
A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: "Agora a coisa vai." Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!
Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema "Eu, Etiqueta", Drummond radicaliza: "Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa.
O repique
de nove pancadas no sino do SS Sacramento: Dlão! Dlão! Dlão! Dlão! Dlão...
anunciava a hora do Angelus, quando um mensageiro trouxe a notícia do despontar
de Jesus Cristo, nosso Salvador. Pelas esquinas da cidade, uns temerosos
católicos faziam o pelo
sinal da Santa Cruz: Livrai-nos, Deus, nosso
Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Amém...Mas, nas duas torres da Matriz
com a tinta branca empalidecidamente enodoada, as vigorosas badaladas perturbavam um
bando de morcegos, que fugiam em louca revoada. O poeta, cronista e professor
Luiz Bezerra, aproveitava, mais um episódio citadino, para confirmar o humor
perspicaz: - Eles saem assim, feitos uns alucinados, porque não foram
batizados!
Os portãozinhos da longa mureta,
que davam acesso ao pátio da Matriz, já estavam abertos naquele crepúsculo
vespertino dominical de 1952, e o povo ia chegando para a retreta no belo
coreto circular que ficava no alto calçadão da Matriz. Até já se falava, devido
à polêmica campanha do rebaixamento das calçadas, em diminuir aqueles cinco
degraus dificultosos, mas o Padre Bonfim sonhava em, além de retirar a mureta erguida
pelo Pe. Juvêncio, construir as alas laterais da nave da catedral.
O Talentoso músico, Mestre Chico
sempre foi pontual.A banda começava,
exatamente, às 7 da noite, tocando o dobrado “Jaçanã na lagoa”, seguido de um
belíssimo roteiro musical que deleitava ouvintes de bom gosto, até na maneira
de vestir. Enterneciam-se quando a voz do cantor se diluía em Índia ”... seus cabelos nos ombros
caídos, negros como a noite que não tem luar...”. Precisamente às nove horas,
antes que apagassem as luzes dos postes, o sopro da flauta anunciava A Baratinha: “Chega,
chega, minha gente, que o choro vai começá, repara como é gostoso, este samba
de matá. ABaratinha, a Baratinha, a
Baratinha, bateu asas e voou.” Uma jovem Senhora de pele trigueira, olhos
vivos, mente ativa, e puro espírito de alegria, que todos conheciam por
Madrinha Francisca, rodopiava sem a mínima timidez por entre aquela gente requintada,
dirigindo-se para a saída do pátio. Convidava a todos para que, amanhã de
manhã, segunda-feira, não perdessem o 7 de Setembro, pois o Instituto Santa
Inês, mais uma vez ia desfilar.
Era
um espetáculo ímpar. Uma emoção que aflorava com a beleza dos colégios
desfilando em cores cívicas para equilibrar uma verde exibição das forças
varonis no entorpecido sentimento nacional. O povo ia se perfilando na linha do
meio fio da Rua Firmino Rosa, delimitada por uma grossa corda colocada pelo 4º
BEC. Alguns pais instalavam o filho menor no cocuruto para que este pudesse
“enxergar” uma pátria dentro do Brasil.
O
Instituto Santa Inês sempre foi o melhor a desfilar. E agora estava a capricho,
com as balizas ostentando elegantes vestidos brancos e mãos calçadas em luvas,
anunciando os motivos de cada bloco que passava: o cobiçado ouro de nossas
riquezas, os emplumados índios, a colorida fauna, a verde flora. As meninas
marchavam com jardineiras azuis, os meninos em calças caqui e engomadas
túnicas, os mais pequeninos simbolizavam o futuro da nação, metidos nas alvas
batas de médicos, nas togas de advogados ou nos capacetes de engenheiros. Ao
som dos tambores da banda, uma propriedade do colégio, iam marchando e
encantando o público para júbilo dos pais que acenavam orgulhosos para os seus
rebentos. A cavalaria trotava com os filhos dos fazendeiros, chamando atenção
para encerramento do show do Instituto.
Houve
um tempo, dizem os mais velhos, em que no planeta Terra reinava uma intolerável
melancolia e os duendes, por compaixão da raça humana, inventaram a alegria.
Saíram pelo mundo a ensinar a boa nova, como professores da arte do
contentamento e da emoção. Em Crateús, a fada chamava-se Francisca de Araujo
Rosa, que magicamente infundia, em seus alunos, um estado de extraordinária
satisfação e alegria.
Para
o Instituto Santa Inês, o ano fora de muitas atividades sociais, culturais e
cívicas, mostrando o empenho e a determinação da diretora em moldar seus
filhos, como fazia questão de chamar os alunos, em cidadãos prontos para
enfrentar o mundo com trato social, instrução e sabedoria.
Enquanto
se dirigia à casa do Prof. Luiz Bezerra, onde reside como hospede de honra,
relembra os momentos do carnaval realizado no mês de fevereiro, para seus queridos
alunos e das noitadas divertidas no salão do Crateús Clube. E vai cantarolando
baixinho: Oh! Jardineiraporque estás tão triste?Mas o que foi que teaconteceu?No mesmo instante em que lhe vem à mente o 24 de Junho,
dia de São João. Ela brinca mentalmente até com o santo:“Oh, cabra festeiro, esse joão!” Naquele dia,
fora madrinha de fogueira de tantos amigos que até perdera a conta. Só a
meninada no batismo na igreja superava em quantidade, para amadrinhar. Mas gostava
mesmo era de “passar fogo” nas noites estreladas do sertão, banhada pela luz da
Lua, ouvindo o pipocar de fogos. As brasas inda fumegando em vermelhidão e os
dois, madrinha e afilhado, caminhando em semicírculo até encontrarem-se para
então darem-seas mãos.Ela proferia: ” São João
dormiu, São Pedro acordou, vou ser sua madrinha que São João mandou”. O afilhado, imediatamente, repetia: “São João dormiu, São
Pedro acordou, vou ser seu afilhado que São João mandou”. Repetiam o
ritual três vezes, circundando as brasas vivas da fogueira. No final, o afilhado orgulhosamente
solicitava: - Beça, Madrinha Francisca! Deus te abençoe, meu afilhado! Eram
momentos de poesia e para toda vida!
Como a
trágica filósofa-matemática Hipártia,Madrinhha Francisca andava um passo à frente de sua época. Usava as
artes diversas, a ciência, a natureza, a dança, o teatro, os jogos e
principalmente a música para o desenvolvimento sócio-efetivo das crianças,
tornado-as mais alegres e receptivas no processo de aprendizagem, criando uma
nova dimensão na vida dos seus privilegiados alunos, coisa que só aconteceu nas
antigas sociedades gregas. Criou a Orquestra Morais Rolim, integrada por
talentosos discípulos, em homenagem ao amigo comerciante. Sempre que a
professora retornava de suas constantes viagens, a orquestra ia esperá-la no
patamar da estação, e com o próprio Morais a comandar a orquestração inicial:
“Tum, Tum, Tum...tumtumtum... É Morais Rolim! Tum, Tum ,Tum...tumtumtum... É
Morais Rolim!”
De
longe, avista o Prof. Luiz Bezerra no portão da casa, como se já aguardasse
pela chegada dela e logo imagina “Isto foi bem coisa da Airan, que ordenou que
ele fizesse as pazes comigo!” Reclamara de uma pequena sova que o menino
Hermínio, seu afilhado, levara do pai e a reação do professor foi brusca: - Se
você está achando ruim que eu eduque meu filho,assim, está ali a porta da rua!
Mal se
aproximara da casa, o professor vai logo falando: - Chica, vamos acabar com
isso! Deixe de se antipática! Os dois titãs da educação fizeram as pazes, mas a
comemoração foi um longo abraço na sua grande amiga Airan Veras, esposa do Prof.
Luiz Bezerra.
Outra
curiosa amiga, um dia lhe perguntou: - Madrinha Francisca, a senhora gosta tanto
de festas, mas porque não casou? Ela pacientemente explicou: - Vou lhe dizer uma
coisa minha companheira, o Padrinho Totonho Rosa, que me criou, não queria que
eu dançasse, que eu me divertisse e não permitia que eu pegasse na mão de nenhum
homem, imagine namorar.Um dia, ele quis me casar, à força, com um motorista
dele, fiquei detestando casamento. Eu moro só porque é o jeito, mas nunca me
acostumei. Também... Ninguém aguentaria minha pisada, é para cima e para baixo,
neste mundo de meu Deus! Aprendi a dançar sozinha, gosto de festas porque eu sou
é Araújo!.
A
querida professora nos dá a impressão de ser a própria estrofe de um belo poema
da Cecília: “Adestrei-me com o vento e minha festa é a tempestade!”
E se hoje,
você andar pela Rua do Instituto Santa Inês, antiga Érico Mota e,
inesperadamente, ouvir um grito de “Anarriê, anavan tur... Olha o balancê!!!” com certeza é a digníssima e
saudosa professora Madrinha Francisca que adorava um exuberante viver, como uma
abelha venera o néctar das flores para elaborar o mais doce mel!
Raimundo Cândido
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
CONCURSO DE MINICONTOS
Por Silas Falcão
REGULAMENTO
QUAL É O OBJETIVO DESSE CONCURSO?
O gênero de nano-micro-mini contos está crescendo a cada dia mais, diante dos novos meios tecnológicos de postagens instantâneas, como o Facebook e o SMS, por exemplo, e da necessidade da praticidade nos dias de hoje. Não obstante essa praticidade, criar um miniconto é um exercício árduo, que exige criatividade e sintetismo. Logo, o objetivo desse certame é estimular a criação de minicontos na língua portuguesa, reforçando ainda mais esse momento literário dos dias atuais, descobrir e publicar novos talentos da área.
QUEM PODE PARTICIPAR?
Todos, desde que elaborem textos em língua portuguesa (sendo permitidos termos em outros idiomas).
COMO POSSO PARTICIPAR?
Primeiramente, cada participante deverá se tornar um seguidor (a) do blog Autores S/A: Concursos Literários. A inscrição é gratuita. Ela deve ser feita através de um formulário de inscrição, o qual será encontrado no menu inicial do blog ou na própria postagem do regulamento. Cada participante poderá enviar apenas 01 (um) miniconto.
QUAIS SÃO AS REGRAS PARA A ESCRITA DO MINICONTO?
- O miniconto deverá conter, obrigatoriamente, um título;
- O miniconto deverá conter, no máximo, 150 palavras (não serão considerados os espaços). Excedendo esse limite, o autor será automaticamente desclassificado.
- O miniconto poderá abordar qualquer temática, ou seja, não haverá qualquer restrição.
- O miniconto não precisa ser necessariamente inédito nesta primeira etapa.
-Em caso de suspeita de plágio, o autor será automaticamente desclassificado e ainda correrá risco de ser penalizado de acordo com a Constituição Nacional.
DEVO CRIAR UM PSEUDÔNIMO?
Sim. Do começo ao fim do concurso, cada participante será identificado apenas pelo seu pseudônimo. No entanto, atenção: não crie um pseudônimo que guarde alguma semelhança com o seu nome verdadeiro. Caso o seu pseudônimo comprometa a sua real identidade, haverá risco de eliminação automática.
QUAL SERÁ O PRAZO PARA AS INSCRIÇÕES?
O prazo de inscrição vai do dia 15 de fevereiro de 2013 até as 23h59min do dia 20 de março de 2013. Fique ligado!
COMO FUNCIONARÁ O PROCESSO DE SELEÇÃO?
Quatro jurados renomados no cenário crítico-literário brasileiro, cujos nomes serão revelados a partir da fase final do certame, farão a leitura e o julgamento de todos os minicontos inscritos. Feito isso, cada um deles irá escolher 5 autores inscritos, os quais serão classificados para a próxima fase. A segunda fase será devidamente explicada aos 20 classificados.
QUAL SERÁ A PREMIAÇÃO?
A premiação consistirá na publicação de uma antologia com os 60 melhores minicontos do certame pelo Selo Microlux (Editora Penalux), que é dedicado exclusivamente ao gênero. Todos os 20 classificados serão publicados e todos os 20 receberão, cada um deles, 01 (um) exemplar da antologia.
AS DEMAIS PREMIAÇÕES SERÃO:
1º lugar: um troféu; publicação de minicontos em pelo menos dois sites e revistas importantes do meio literário; um box com 1 DVD (o documentário “Tropicália”) 2 livros (“Os cem menores contos brasileiros do século”, org. por Marcelino Freire e um livro de microcontos do Selo Microlux - Ed. Penalux) e 1 CD (“Chico”, de Chico Buarque, 2011) ;
2º lugar: um troféu; publicação de minicontos em pelo menos dois sites e revistas importantes do meio literário; 2 livros (sendo um deles um livro de microcontos do Selo Microlux - Ed. Penalux);
3º lugar: um troféu; publicação de minicontos em pelo menos dois sites e revistas importantes do meio literário; 1 livro de microcontos do Selo Microlux - Ed. Penalux.
4º lugar: Publicação de minicontos em pelo menos dois sites e revistas importantes do meio literário.
O jurado que tiver escolhido, na primeira etapa, o autor vencedor do certame, também receberá uma premiação surpresa.
Vale ressaltar que haverá participações especiais de autores renomados no decorrer do certame, além dos jurados que já compõem a mesa fixa. As avaliações que serão realizadas serão muito importantes para a formação e para o crescimento de todos os autores participantes. Ou seja, muito além de uma premiação material, este concurso oferecerá ao autor uma possível base formadora, calcada em críticas construtivas.
ALGUMA DÚVIDA?
Em caso de dúvidas, por favor, sintam-se a vontade em enviá-las para o seguinte e-mail: lohanlp@yahoo.com.br
Também serão respondidos os comentários deixados na postagem referente ao concurso.
BOA SORTE A TODOS!
Lohan Lage Pignone (Organizador)
Patrocínio:
Editora Penalux
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
PROCURA-SE POETAS, CRONISTAS E CONTISTAS
Por Silas Falcão
Quando mentalizei um grupo de escritores compartilhando um mesmo livro, ocorreu-me a ideia de criar o Projeto Edições em coautoria. Na reunião da ACE – Associação Cearense de Escritores - no mês de julho de 2012, apresentei aos associados este projeto em que cinco escritores compartilhariam um determinado número de páginas, o mesmo orçamento e o mesmo gênero literário. Da criação da ideia até o início de 2013, o Projeto já editou seis livros compartilhados, beneficiando, por um valor de investimento financeiro baixíssimo, trinta escritores. Muitos destes ainda inéditos em publicações literárias nos gêneros prosa e poesia. Este é o objetivo maior do projeto: a edição de parte da obra literária do escritor inédito. O Projeto edita quinhentos livros que são distribuidos igualmente entre os cinco autores.
Uma inovação que enriquece o Projeto é o marcador de páginas. Em cada edição de um livro, o grupo homenageia uma instituição ou uma pessoa. A Casa de Juvenal Galeno e o poeta Mário Gomes foram os primeiros homenageados.
Este projeto tem o apoio cultural da ACE e da Premius Editora.