sexta-feira, 30 de agosto de 2013

E Viva o Brasil Criativo!

                                                                     Claudia Leitão

Gostaria de informar a todos os amigos, colegas do MinC e parceiros da Secretaria da Economia Criativa (SEC), especialmente ao campo cultural e criativo brasileiro, que não faço mais parte da equipe gestora do Ministério da Cultura.
 
Durante dois anos e meio, eu e minha equipe nos dedicamos a estruturar e institucionalizar, dentro do Sistema MinC, uma Secretaria voltada à formulação, implantação e monitoramento de políticas públicas que contribuíssem para a qualificação de um projeto de desenvolvimento em que a cultura fosse considerada um eixo estratégico.
 
Acredito em uma economia criativa capaz de fomentar solidariedades entre os indivíduos, cooperativismo nas práticas comerciais, e desenvolvimento sustentável nas diversas regiões brasileiras. Diferentemente dos modelos de desenvolvimento das chamadas “indústrias criativas”, propusemos e advogamos, desde que chegamos ao Ministério, uma economia criativa fundamentada na valorização de nossa diversidade cultural, na sustentabilidade econômica, ambiental e social, na inclusão produtiva e na inovação, ressignificada pela dimensão simbólica da cultura.
 
Na importante e definitiva formulação proposta pelo Ministro Gilberto Gil, em 2003, a cultura foi compreendida de forma complexa e, por isso, considerada a partir de suas dimensões antropológica, cidadã e econômica. Penso que o MinC avançou nas duas primeiras dimensões, mas ainda carece de políticas públicas que fortaleçam a dimensão econômica da cultura. Especialmente, a “economia política” da cultura. A SEC assumiu esse papel, a partir de 2011, enfrentando quatro grandes desafios relativos à economia da cultura: a produção e difusão de dados confiáveis sobre os setores criativos, a formação dos profissionais, o fomento aos empreendimentos e, por último, a construção de marcos legais capazes de potencializar novas dinâmicas econômicas para os segmentos culturais e criativos em nosso país.
 
Vários mitos envolvem a gestão cultural, especialmente, no que se refere à formulação de políticas que valorizem a dimensão econômica da cultura. É tarefa do Estado enfrentá-los, sob pena de se reduzir a economia às visões liberais e à primazia do mercado, reduzindo-se, por consequência, os bens e serviços culturais ao jugo da produção cultural de larga escala.
 
A SEC nasceu com a missão de contribuir para a formulação de políticas públicas, ao mesmo tempo macroeconômicas (voltadas aos estudos e pesquisas, ao território e aos marcos legais) e microeconômicas (dedicadas à formação, ao fomento e às redes e coletivos). Políticas públicas para a economia criativa brasileira só podem ser formuladas a partir da produção de conhecimento sobre o campo cultural e, por isso, a primeira tarefa da SEC foi a de estruturar o Observatório Brasileiro da Economia Criativa, o OBEC, que foi institucionalizado no dia 1º de junho de 2012, juntamente com a própria Secretaria.

Penso que um dos maiores legados da SEC são as parcerias construídas com os ministérios, as secretarias, as agências de fomento, o Sistema S, o terceiro setor, as universidades, o Congresso Nacional, e, principalmente, a interlocução sempre instigante e enriquecedora com os artistas, produtores, empreendedores e profissionais dos setores criativos de todas as regiões do Brasil. Tenho certeza de que o Ministério da Cultura ganhou maior transversalidade com a criação da SEC, sobretudo nas discussões relativas aos papéis da cultura na qualificação de um novo desenvolvimento local e regional, fundado na valorização dos micro e pequenos empreendedores culturais e criativos desse grande País.
 
Os desafios da Secretaria não têm sido pequenos, mas, graças ao apoio, cumplicidade e incentivo que recebemos dos nossos parceiros, conseguimos que a economia criativa integrasse políticas públicas de várias pastas dos governos federal, estaduais e municipais.
 
Aprendi muito com a SEC, mas, sobretudo, construí afetos e compartilhei muitos sonhos! Saio do MinC segura de que produzimos a várias mãos os alicerces de uma Secretaria para o século 21, disposta a enfrentar as assimetrias sociais e econômicas brasileiras a partir e através da criatividade das nossas gentes.
 
Inúmeros países e organismos internacionais vêm convocando o Brasil a exercer um papel de liderança, seja na formulação de políticas para a sustentabilidade do planeta, seja na afirmação do valor da diversidade cultural em nossa democracia, seja, ainda, na construção de uma economia mais justa. Esses desafios foram sempre nossa bússola nessa curta, mas importante caminhada.
 
Por isso, acredito firmemente que a institucionalização da temática da economia criativa no Governo Federal produzirá, a médio e longo prazos, impactos extremamente positivos para a sociedade brasileira. Afinal, políticas estruturantes não se constroem a curto prazo. Seu tempo é o da criação e do enraizamento, tempo de plantio, que não se submete aos mandatos políticos nem aos interesses sazonais de pequenos grupos.

Por outro lado, uma política estruturante não pode nem deve prescindir do debate conceitual e acadêmico, assim como da escuta da sociedade, e ao mesmo tempo, não deve subestimar a importância do planejamento e da gestão estratégica. Políticas públicas são por natureza republicanas, fruto da participação social e do exercício cotidiano da transversalidade e da concertação entre políticas. Enfim, políticas públicas não podem prescindir da vontade política dos Governos.
 
Na minha passagem pelo MinC, tive a honra e o privilégio de conversar sobre os desafios e as perspectivas da economia criativa brasileira com a presidenta Dilma Rousseff, e de receber dela a tarefa de construir, em parceria com catorze ministérios e sob a coordenação da Casa Civil, o Plano Brasil Criativo. Trabalhamos durante um ano (2011/2012) para produzir um documento ambicioso, fundamentado na transversalidade de políticas e na integração de programas cujo maior público alvo seria a juventude brasileira. Espero, para o bem do Brasil, que ele possa um dia ser implementado, passado o primeiro momento de institucionalização da temática da economia criativa no país, assim como da chegada dos primeiros programas estruturantes da SEC nos estados e municípios brasileiros.

As bases de um “Brasil Criativo” já foram lançadas: “Criativas Birôs” começam a ser implantados nos estados com o suporte técnico-metodológico do centro de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília (CDT/UnB); Observatórios Estaduais passam a ser instalados nas Universidades; editais de apoio a incubadoras e à gestão de empreendimentos criativos com inscrições abertas; arranjos produtivos locais intensivos em cultura em processo de chancela, para serem beneficiados com a elaboração e pactuação de Planos Estratégicos de Melhoria da Competitividade, em todo o país (em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - MDIC); Centros de Vocação Tecnológica (CVTs) começam a dedicar sua formação para as cadeias produtivas dos setores criativos (o primeiro deles será o CVT do carnaval no Rio de Janeiro, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia- MCTI); um Programa de Ensino Superior para a Economia Criativa Brasileira ( em parceria com Ministério da Educação – MEC) já desenhado. E mais. Com o CNPq, teremos, ainda esse ano, linhas de pesquisa em economia criativa nas Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa em todo o país, e, com o IBGE, em 2014, as primeiras pesquisas econômicas sobre o campo criativo brasileiro que serão lançadas pelo Observatório Brasileiro da Economia Criativa: pesquisas estaduais de cultura (as ESTADICs), nova edição pesquisa municipal (MUNIC) e, finalmente, em 2015, a Conta Satélite da Cultura (em parceria com o Ministério da Fazenda e do Planejamento). A todos que desejarem conhecer todas as ações da SEC, sugiro consultar nosso relatório pormenorizado de gestão, disponível em nossa página no site do MinC, link
http://migre.me/fNSU6.
 
Com catorze meses de existência, a Secretaria da Economia Criativa já tem muito a comemorar e a agradecer. Meu agradecimento às ministras Ana de Hollanda e Marta Suplicy, aos colegas do Ministério, à minha pequena e brava equipe da SEC, aos criativos brasileiros, com quem compartilhei sonhos e utopias. Gostaria de expressar minha eterna gratidão a duas pessoas especialíssimas, dois professores e gestores públicos que imprimiram, a partir de seus ensinamentos, as marcas da “paternidade” e da “maternidade” da Secretaria da Economia Criativa. Meu carinho e profunda gratidão aos professores Paul Singer e Tânia Bacelar.
 
Por último, gostaria de ressaltar que vários homens e mulheres vêm construindo e sonhando com um “Brasil Criativo”. No contexto efervescente dos anos 50 e 60, a arquiteta Lina Bo Bardi construiu um museu de arte popular em Salvador, espaço que permitisse o diálogo entre o conhecimento acadêmico e o de mestres artesãos, para a formação de um desenho original e brasileiro. A arquiteta vislumbrava desenvolver um Centro de Estudos e Trabalho Artesanal e uma Escola de Desenho Industrial, onde haveria troca de experiências entre os estudantes de arquitetura e design e os artesãos. Tratava-se de um projeto político e, por isso, foi abortado em 1964, pela ditadura militar brasileira.
 
Por isso, faço questão de registrar e de enfatizar que a Secretaria da Economia Criativa nasceu à sombra do pensamento do economista e ministro da cultura Celso Furtado. E, enquanto proposta de um modelo de desenvolvimento para o Brasil, a SEC constitui também um projeto político. É para Celso Furtado que dedicamos o legado do que construímos. E viva o Brasil Criativo!
 

Ministério da Cultura - Relatório de Ações da Secretaria da Economia Criativa 2011-2013 - Ações www.cultura.gov.br

Postagem: Silas Falcão

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Madona de Guido



A Rua Dr. Moreira da Rocha – governo entre 1924 a 1928, quando o Ceará enfrentou a Coluna Prestes, a Sedição de Juazeiro, a indesejada visita do Bando de Virgulino Ferreira Lampião – é uma intensa artéria que nos vincula ao mundo! Partindo da frente da saudosa Radio Educadora, a rua logo se transmuta em CE 187, em BR 404 e daí, campeia-se a amplidão de um ermo sem fim! Mas, logo no primeiro quarteirão, ouve-se pisadas apressadas e o rumorejo de vozes na ansiosa lida de um forte comércio que vigora a cidade.
Em frente a um desfigurado Mercado Público, nº 478, ler-se numa empalidecida fachada comercial: Ótica Santa Luzia, e é lá que trabalha um talentoso artífice, artesão afeito arquiteto, um poeta concreto em fluídas orações como art déco, o artista da luz e do vidro, um especialista em óptica com alma musical chamado Antônio Guido Brito, ou como ele prefere: Guido D’arrezo, em honra e glória ao monge criador das neumas, o sistema de sinais que determinava aonde a voz humana deveria elevar-se ou baixar-se, revolucionando a história da música. 
Entro na estreita loja, parecendo-me um longitudinal trem e percebo um ateliê de obras de artes que se esparramam pelos quatro cantos, capelas de vitrais coloridos, sugestivas mandalas circulares, impressionantes quatros multiformes em pintura à óleo intitulados Segmentos de Transgressões. Demoro-me, defronte de uma grande tela, tentando entender o emaranhado de figuras, em traços agradáveis e cores alegres, com o símbolo Yin Yang de equilíbrio de forças, gerando um imenso sol a refletir-se sobre um invulgar oceano de peixes, sobre uma exótica natureza e sobre um nicho musical de guitarras com as neumas do Monge de Arrezo.
O mestre Guido aproxima-se, de surpresa, e percebendo minha atenção presa a um violão transgressor, que pula de um quadro a outro da tela, pergunta-me a queima roupa, com um sorriso de bom dia no rosto:
- Professor, você sabe o que é o som?
Também sorrio, retribuindo o simpático bom dia e cheio de sabedoria professoral, respondo: - Guido, som é uma onda mecânica que precisa do ar para se propagar!
O artista-poeta completa a informação: - Isso é o som físico da sua sala de aula, professor! Mas este que você está tentando captar da tela é um lembrete que Deus nos deixou de que existe algo, mais além! A música está ao nosso redor, Raimundo, basta ouvi-la!
Era exatamente o quadro que ele havia me pedido para inscrevê-lo, pela internet, no Concurso Santander Cultural Talentos da Maturidade, em Minas Gerais, do qual ele já é um veterano participante e colecionador de certificados. Fico observando uma velha estante com as prateleiras repletas de filmes e DVDs, inclusive uma coleção completa do cantor e dançarino Michael Jackson, do qual é fã. Minha atenção logo se volta para o que mais me atrai nos trabalho de Guido D’arrezo, as Ermidas, capelas de vidro coloridos, de todos os modelos, inclusive em forma de floral, espalhadas pelo Ateliê, tudo pela irrestrita paixão por Nossa Senhora e, sobre a mesa, ainda repousa a última peça da qual deu os últimos retoques de acabamento no castiçal e na hóstia, que brilham ao fundo. Elaboradas com paciência, esmero e carinho para abrigo da Mãe do Senhor.
Vendo uma imagem sobre uma estante, que ouso chamar de a Madona de Guido, por ser única, em acrílico que brilha no escuro adquirida à décadas na Casa Íris, de Irismar Frota, e que ele guarda na ermida do coração, e de supetão, também pergunto:
- Guido, de onde vem esse teu amor por Nossa Senhora?  
Se tivesse deixado ele ainda estaria contando a história, de apego, de apreço e amor, da paixão de um artesão que todo dia reza o terço e fabrica com carinho, como um sagrado poeta-ermitão as capelas de vidro coloridos que estão espalhadas pelo Brasil. Ele diz: - Quando a Santa Peregrina saiu de Crateús e foi para Teresina, eu, ainda menino, estava lá! E impressionei-me com aquela festa e com a força da fé do povo! Até hoje faço capelas para Nossa Senhora e só tive de construí uma ermida diferente, uma dupla, que foi para São Cosme e São Damião.
As ermidas fabricadas por Guido são como uma nova coroa para Nossa Senhora, pois a revestem de uma luz colorida, refratada das placas de vidros, como o apaixonado Poeta José Coriolano um dia a revestiu de poesia: “Sim, Maria, meu anjo, terno encanto! / Quanto te amo, dizer não sei, não posso. / É amor que não pode ser descrito / Porém nele o rigor d’ausência adoço!”
Os imensos papelões circulares, cuidadosamente empanados, endurecidos com cola e tinta acrílica são usados para as mandalas, excêntricas, exotéricas, que nos põem a meditar. Dezenas, dependuradas nas paredes, do começo ao fim do imenso carrilhão que é o ateliê de Guido. Pode ter sido uma mera impressão minha – Isso mesmo, pois às vezes vejo coisas que não existem! – mas percebi uma pontinha de saudade incrustada nas palavras, quando ele me disse que fez uma das mandalas a pedido da professora Toty Azevedo!
A Torre Eiffel, uma imensa treliça de ferro, montada por um batalhão de trabalhadores no Campo de Marte em Paris, com seus 324 metros de altura não me impressiona tanto quanto as Torres de Guido, uma réplica de 2.20 metros de altura feita de vidro... De placas de vidro e espelhos, pacientemente colados, peça por peça.   Isso sim, é que é uma verdadeira obra, um louvor a arte e a paciência humana. Imagine construir, não uma, mas quatro destas belezocas e espalhar pelo mundo, só  mesmo o grande Guido!
Encanto-me com uma das capelas coloridas difundindo fé e luz e a adquiro do oculista-artesão. Trago-a para casa e deposito carinhosamente uma Mandona que a professora Maria Delite, incansavelmente, dirigia as suas orações! É uma ermida aconchegante, revestida de carinho, para que possa bem acolher, as duas digníssimas mães e, para que não deixem de olhar por aquele a quem a saudade teima em não querer acabar! Acho que elas, as duas Maria, vão gostar!

 Raimundo Cândido

terça-feira, 27 de agosto de 2013

BAZAR DAS LETRAS ENTREVISTA O POETA DIDEUS SALES



Carlos Vazconcelos (D) mediando o Bazar

Público atento. E aplaudiu bem o poeta.



Abraço Literário sempre prestigiando o Bazar das Letras
Poetisa Rosa Morena e Silas Falcão



Abraço Literário.



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cabra declamador


                                                        Tu, cabra declamador:
                                                        que gosta de uma boa rima,
                                                        aspirina, cafeína, cafetina
                                                        em voz de choro e de furor,
                                                        em farto riso e copiosa dor,
                                                        quero ver se é bom recitador
                                                        se conseguir sem se engasgar,
                                                        sem presunção, sem se alongar,
                                                        na apropriada  entonação,
                                                        com alma, timbre na marcação,
                                                        imitar na firmeza de toda cerda
                                                       o grunhido do bacurim na merda,
                                                       misturando tudo, feito incréu
                                                       e sem faltar uma virgula ou trema,
                                                       com a aguda risada da sariema
                                                       e o esgoelado alarme do tetéu!


                                                              Raimundo Cândido

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A Praça da Matriz - O coração da cidade!


             Quando a comitiva do historiador, autodidata e polígrafo (aquele que redige sobre o que o nariz aponta) Antônio Bezerra de Menezes, na 4ª etapa de uma Viagem Científica de reconhecimento pelo interior do Ceará, chega à Vila Príncipe Imperial, no dia 13 de novembro de 1884, resolveu descansar um pouco. Fica, cinco dias, hospedado na casa do Sr. Francisco Coelho Ferreira, na Praça da Matriz. A esgotada tropa de animais descansa na Rua da Beira do Rio, ruminando o verde capim das margens do Poti, pois o percurso fora longo, desde a cidade do Ipu, no sopé da Serra da Ibiapaba. Já colhera as informações sobre o povoado com o Reverendo Macedo e o Juiz Municipal Antônio Gomes de Macedo Coutinho, sobrinho do padre. Agora, sentado num rústico tamborete, papéis sobre a mesa, faz os apontamentos para as Notas de Viagem. Escreve: “Esta Vila, situada na margem esquerda do Rio Poti, se compõe de uma espaçosa praça em cujo centro se acha a Igreja da Matriz, um templo pequeno, mas bem construído e ainda sem as duas torres.O sino alojado no lado esquerdo, sob um telheiro, é de onde o sacristão anuncia as horas que orientam a vida na vila, as últimas badaladas soam, exatamente, às 9 horas da noite. O povoado tem poucas ruas, com largos intervalos sem edificações, que se estendem de nascente a poente”
É a Praça da Matriz, exalando as primeiras inspirações bucólicas, florejando num instante de puberdade, alargando-se no poeirento chão de terra batida.
Na divagação sobre a Vila, surge nas veias do historiógrafo-poeta uma vontade de versejar, mas como afirmara João Brígido, um dos seus desafetos literário, faltava-lhe a tecla da inspiração. E eis que, repentino, é desperto por um ruído agradável, ininterrupto, vindo de longe, como se fosse a poesia chegando.
— nhein...nhemheinin...renheinhein...onooonnnn...nheim...
Sai a porta, olhando para a praça, e deslumbra-se com o que, naquela época, já se transmuta em momento de saudade. O canto lamentoso, como um gemido de dor, que passa em frente à Igreja, rumo a Boa Vista dos Correias. Quem ouviu, ouviu. Quem não ouviu, não ouve mais o murmúrio doce do carro cantador puxado por uma junta de bois, o primeiro veículo do Brasil. O carreiro caminha ao lado com o ferrão na mão, uma vara comprida e pontiaguda. Comanda os bois com ordem vocais:  —Ôooooo, êeeeeeeeee boi!—Õa, ôa Mimoso!
O escritor volta à mesa, para terminar de descrever a vila, com o Rio Poti, os banhos no Curtume e as cruzes enfincadas nos caminhos do sertão pelo monge capuchinho Frei Vidal da Penha, mas o canto poético não lhe sai da mente, nhein...nhemheinin...do carro de boi que descortina-se no horizonte decaindo para o poete, terra do poeta Coriolano, um massapé torrado e brusco onde nasceu o valoroso e eterno touro fusco.
Por falar em príncipe dos poetas, fundador da literatura do Piauí,que influenciou Castro Alves em alguns versos no épico Navio Negreiros, José Coriolano, ele mesmo, relata em carta a um amigo que o marco inicial da cidade de Crateús foi a construção de uma casinha, para abrigar os frades franciscanos que vinham em missão de evangelização, no povoado de Piranhas. Posteriormente, segundo ele, no mesmo local foi erguida uma igreja, que hoje é a Matriz da Diocese. Antes de uma capela, portanto, houve um alojamento, para o descanso dos franciscanos que percorriam os rincões do Vale do Poti, na nobre missão de pregar o evangelho. Era uma rústica latada de pau-a-pique com cobertura de folhas de coqueiros, entre os mandacarus e algumas frondosas árvores, onde se amarravam os animais.
Da primeira capelinha de taipa(1769), no largo terreno central do povoado de Piranhas,  principiou-se o esboço de uma Praça, que será o pulsante coração da vila, a princesa do sertão.
 Em 1770 é construída, no lugar do tosco tapume, uma capela em alvenaria sólida, tijolos de 17 quilos, tão fortes quando a fé que fervilha na alma do sertanejo aterrorizado pelas imagens horríveis de um purgatório, pintada pelo Pe. Serafim.  O Cel. José Amâncio, sentado numa cadeira de balanço, na calçada de sua casa, olhando para a mureta que circula a Igreja, predizia: -Nosso primeiro sacerdote foi o Padre Serafim e o último será um Bonfim! Levando em consideração uma era, ele acertou em cheio!
Com a chegada de uma imagem esculpida por santeiros da Bahia, conduzida por escravos, em 1792, numa fantástica viagema pé e a mando de Dona Luiza Coelho da Rocha Passos, a Praça da Matriz ganhou novo impulso. A Catedral Senhor do Bonfim, de paredes espessas e dilatáveis como a grossa artéria de um coração-praça, bombeia fôlego e vigor que vitaliza a cidade. A capela de Dona Luiza cresceu de reformas em reformas (Pe. Macedo, Pe. Rosa, Pe. Juvêncio e Pe. Bonfim) chegando à Catedral. A construção das Torres da Igreja, como dois braços implorando aos céus, rogando-nos bênçãos, completara-se com o assentamento da estátua do Cristo Redentor, numa proteção divina.
Existia, numa das solitárias esquinas da praça uma velha casa de taipa, teimosa ruína subsistindo ao inclemente sol e às águas invernosas, que testemunhou o soerguer dos primeiros casarões dos coronéis numa época de indultos fáceis e aquiescência de títulos, comprados de acordo com as posses dos ricos fazendeiros. A antiga tapera viu subir o serpenteado  da fumaça dos fogões a lenha em plena praça, escutou o barulho da fábrica de cigarro e ouviu o tilintar dos vinténs jogados pelo janelão do sobrado da Rua Santos Dummont para os desafortunados sertanejos na cruel seca de 1877. De um Quartel General, na Rua Firmino Rosa, um heroico Capitão Peregrino mirava a torre da Igreja, e nem imaginava o futuro duelo com os revoltosos esgotados, que vinham numa interminável marcha de esperança e sonhos. E na Rua do Poeta José Coriolano, onde já havia um busto lustroso estampado no ar, o comerciante Mariano Raimundo Cândido sai, orgulhoso à porta, expondo aos raios matutinos, o primeiro rebento da professora Maria Delite, sua esposa.
Como uma autêntica acrópole grega, a praça exibe-se, naturalmente exuberante. Como um lugar sagrado, sacrário da alma, o coração de um povo sofrido. Como uma poética sala de estar que é constantemente remodelada de acordo com o mero desejo de um gestor, na vontade de se perpetuar na sua estampa. Num forçado metamorfismo, uma indelicadeza com um rico passado e, assim, a praça passa uma borracha no nome de quem, intencionalmente a transforma. O Paço do resplendor ilumina-se por si, e bem reluz!
Das missas campais, a do cinquentenário da cidade foi inesquecível, com a inauguração de um obelisco egípcio, um quadrante solar em plena praça, guardando, na base de concreto, uma cápsula do tempo que ninguém leu.  As animadíssimas quermesses da Igreja, no mês de Junho, o tempo deletou...  A mão que constrói, também aniquila, como o cruel e huno Átila, e o belíssimo coreto circular, ao lado da catedral, foi apagado.  Cadê os Jovens que, após a missa das 9 horas, iam se deliciar e paquerar na Sorveteria Itália que logo se transformou num inferninho, chamado Barril?  E a noturna e velha praça, giroscópica, em circunvolução de verso e reverso, com as flores-meninas, belas de olhar com cheiro de pétalas?  Como afirmou um velho poeta: “A minha saudade, até agora, rodopia, de tanto lembrar!”
Hoje, uma felicidade, como um invisível vaga-lume, continua a vaguear pelo Largo da Matriz e se senta no banquinho entre as flores de um jardim, aspirando ao aroma gorduroso de presunto e ovos fritos, sem a malemolência opaca da antiga Vila Imperial e da poética vida de outras horas. Um modernismo trouxe uma Praça de Alimentação, com um desespero e uma pressa de viver, ouvindo a canção alegre de um povo fingido e triste. E o saudoso vaga-lume da felicidade, sentado no seu banquinho da praça, relembra uma canção triste, orquestrada no velho coreto da Matriz e animando, no coração da cidade, o povo alegre e resplandecente de outrora.
Raimundo Cândido


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quarta-feira, 21 de agosto de 2013


SOBRE O LIVRO:

“O poeta e escritor Dideus Sales nos encanta com Luiz Gonzaga, muito além de um sanfoneiro, luminosamente ilustrado por Audifax Rios, uma das mais belas e emocionantes homenagens que já se renderam ao criador de Asa Branca e Assum Preto...” EDMÍLSON CAMINHA.

“Encantamento redobrado é quando nos deparamos com poeta cantando e contando a história de outro poeta. Eis que o poeta Dideus Sales dedilha sua lira e em versos cheios de fervor e melodia, conta a vida do filho de Januário, num preito de ímpar homenagem àquele cuja voz soa à audição do povo nordestino como um hino perene de estímulos à resistência e à luta pela liberdade e pelo direito inalienável a uma vida digna. A inteireza da obra se confirma com o traço inconfundível e também eivado de sugestões poéticas de Audifax Rios (...) a encher nosso olhar de terra, coisas e povo do sertão.” 
BARROS ALVES


SOBRE O AUTOR:

DIDEUS SALES, Poeta, Escritor, Radialista, Folclorista e Produtor Cultural. Nasceu na fazenda Várzea do Canto, Independência – Ceará e criou-se em Crateús. Verteu parte de sua produção poética para o áudio, lançando os CDs “Frutos Poéticos”, “Alma Brejeira” e “Cantilena”, este último em parceria com o cantor e compositor Acauã. Foi radialista em várias importantes emissoras do Estado.

                                                       Publicou:

O Sertão de cabo a rabo; Matuto do Pé Rapado; Florescências; Colheita de Versus; O Sertão em Verso e Prosa; Nos Cafundós do Sertão; Veredas de Sol. Flores Vivas e Mortas; Minha Terra, Minha Gente; Natureza, Paz e Poesia.



Postagem: Silas Falcão

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Dor


(FRANCISCO PASCOAL PINTO)

Chega
De chagas, de cravos
De tapatabefe e choque
Providenciem um acalanto
Que a dor (com ou sem mágoa e pranto)
Deve adormecer.

Que a mão verduga
Que a inflige
Exige
Réplica & reparação

 Chega!
Quero aspirina
Morfina
Xilocaína
Para esta dor ausente
dor constante
dor cortante
dor de dente
dor do parto
dor do Horto
dor da cólica
dor de cotovelo
dor da saudade
dor melancólica
dor fingida do poeta
migué do jogador

Tudo nesta vida minha amiga é falsa dor

Portanto
Quando calar o acalanto
Vá devagar com o andor

Que é de terracota o santo
E é de Mártir do Gólgota

A sua sagrada dor.

Última imburana



                                                                       Silêncio...
                                                                       O espírito da mata
                                                                       prescreve calmaria!
                                                                       Astúcia... Precaução...
                                                                       Esquivam-se as plumas!
                                                                       Não piam, a rolinha,
                                                                       a sariema e o cancão!
                                                                       Avizinham-se passos...
                                                                       Machado à mão!
                                                                       Pá... Pá... Pá...
                                                                       Som furioso e seco,
                                                                       tal qual o desespero,
                                                                       impregna o ar,
                                                                       pendoa amargura
                                                                       a escorrer da pele
                                                                       lisa e nobre
                                                                       do tronco musculoso
                                                                       e oleoso da imburana!
                                                                       E a resignada mata-branca
                                                                       em pranto negro-triste
                                                                       abafa o longo silêncio....


                                                                       Raimundo Cândido

sábado, 17 de agosto de 2013

Academias e Associações

Há uma grande quantidade de academias literárias e associações culturais no Ceará. São grupos que comprovam que o intelectual cearense é gregário, gosta de um mutirão, quando o assunto é qualquer vertente das artes. Parece que o nosso artista não confia muito na capacidade individual. É através dessa união de pessoas que os projetos de divulgação de obras se tornam viáveis. Mesmo assim encontram-se alguns intelectuais renitentes em não se aproximarem de outros nessas entidades. São poucos, mas é bom lembrar que o escritor Alcides Pinto era um deles, sempre se negando a ser acadêmico.

Certa feita convidaram Alcides Pinto para pleitear uma cadeira na Academia Cearense de Letras. O poeta respondeu que instituíssem um concurso que ele talvez pudesse concorrer. Francisco Carvalho foi praticamente colocado na Academia. Não pediu voto a ninguém. Inscreveram-no. Foi à posse e não mais frequentou aquele sodalício. O poeta Roberto Pontes e o contista Pedro Salgueiro nunca se interessaram por academias. Há, no entanto, escritores de pequeno porte, que se dilaceram em campanhas para ocupar cadeiras de academias. Há deles que participam de oito a dez dessas entidades.

A Academia Cearense de Letras, a mais disputada, mais glamourosa e a mais antiga, pois foi fundada em 1894, ocupa, atualmente, o Palácio da Luz. Ali, além de ser sediada, ela ainda abre suas portas para as reuniões de outras 11 academias. Além dessas, há outras entidades que também se reúnem nas suas dependências. Entre elas estão a Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil, seção do Ceará; a Associação Brasileira de Bibliófilos e a Sociedade Cearense de Geografia e História. Quanto às academias que se reúnem no Palácio da Luz, além da ACL, podemos citar a de Retórica, a da Língua Portuguesa, a Metropolitana de Letras, a de Letras dos Municípios do Ceará, a Fortalezense de Letras e a Municipalista de Letras, entre as mais atuantes.

A Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará (Almece) possui em seus quadros representantes dos municípios cearenses. Nem todos os municípios estão ali representados. Se isso acontecer um dia, nós teremos 184 sócios já que é esse o número de municípios de nosso Estado. Interessante é que os municípios, por sua vez, estão criando suas academias como é o caso da Academia Limoeirense de Letras, da lavrense, da cedrense, da varzealegrense, da ipuense, da comucinense e de outras. Assim, teremos em breve 184 academias, uma para cada município cearense. É evidente que muitos municípios ainda não criaram seus sodalícios mas o exemplo vale a pena ser seguido.

Curioso é que os colégios também estão criando suas academias. Tudo começou com o Colégio Maria Ester, criando sua Academia de Letras com componentes sendo alunos da entidade. Logo em seguida, outras escolas lhe seguiram o exemplo. Já há um bom número dessas entidades nas escolas cearenses. Acontece que, segundo dados do Conselho Estadual de Educação, há no Ceará 10 mil escolas de ensino fundamental e médio. Se todas essas escolas criarem suas academias, daqui a pouco teremos 10 mil academias a mais.

Diante desse grande número de academias há os que aprovam mas há os que reprovam. Há até escritores que falam mal de tanto academicismo, diante da rara qualidade de muitos dos componentes dessas instituições. Há escritores jovens que falam mal até da Academia Cearense de Letras e, quando chegam à maturidade, lutam para ingressar nos seus quadros. Essa luta para ingressar na ACL muitas vezes apresenta lances inusitados. É que às vezes, no próprio velório de um acadêmico, há quem já se insinue como pretendente à vaga aberta. Depois, sem o respeito pelos prazos regulamentares, há os que já telefonam em pedido de votos. Essa prática condenável também acontece às vezes até na ABL.

Outra prática prejudicial às academias fica por conta daquelas pessoas que lutam para ingressar na entidade, são eleitas, tomam posse e não mais a frequentam. Essas entidades reúnem-se mensalmente e apenas em torno de 30% dos membros frequentam as reuniões. Os dirigentes lutam para que haja frequência maior, mas não conseguem. Aliás, por falar em presidência, são poucos os acadêmicos que desejam dirigir suas academias. É um trabalho espinhoso por falta de apoio público e pela obrigação de manter viva e atuante a entidade. Por isso que há presidentes que são como que permanentes.

Dois presidentes que há bastante tempo vêm sendo reeleitos para suas respectivas academias são Lima Freitas, da Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará, e Maurício Benevides, da Academia Cearense de Retórica. Há outros cidadãos que ocupam a presidência de mais de uma entidade. José Augusto Bezerra é o atual presidente da Academia Cearense de Letras, mas também é presidente da Associação Brasileira de Bibliófilos, isso sem contar que até há pouco tempo presidia o Instituto do Ceará, agora sob a presidência de Ednilo Soarez. O jornalista Vicente Alencar é o atual presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa e presidente da União Brasileira de Trovadores, além de dirigir a Terça-feira em Prosa e Verso.

Se aqui fôssemos citar todas as academias do nosso Ceará e seus presidentes, seria um não acabar mais. Entretanto é bom lembrar que todas elas têm sua função social. Eles congregam pessoas de saberes, estreitam relações de amizades, promovem palestras, confraternizações, e dinamizam hábitos de leitura e aprendizagem. O que poderia ser feito por pesquisador, de uma dessas áreas contempladas, era um levantamento de todas essas entidades, com seus estatutos, seu histórico, seus dirigentes e a relação dos sócios ao longo dos anos. O pesquisador teria material suficiente para monografia, dissertação ou tese. Afinal, o importante seria também apontar as razões que contribuem para tantas entidades culturais entre nós. Não adianta conhecermos o mundo cultural lá de fora se não nos conhecemos, mesmo com nossas limitações.

Batista de Lima

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O Pai-de-chiqueiro

                                                                   
             Sou sertão! Nasci sertão e vivo sertão! Corre, em minhas veias, a seiva vivífica das catingueiras, dos angicos e dos marmeleiros! Detenho, impregnado no faro, o cheiro consistente do mufumbo a perfumar a vasta e desamparada caatinga que se estampa no meu olhar.
Trago, embutido no cerne inflexível de mim, um desalento cassimiriano, quando diz: —   Não sei porque - mas a minh'alma é triste! Perdi os risos - a minh'alma é triste!
                Agora, pagando tributo a uma bucólica dor, caminho por uma tortuosa vereda da qual se vê, ao longe, uma velha casa alpendrada em aspecto decadente e as ruínas dos currais que o impiedoso tempo corrói. A vista cansada percorre o eito do abandono no solo esturricado e a mata seca que resiste a uma cruel estiagem, por três seguidos e demorados anos. O sol da manhã já é impiedoso com um calor refletido dos esbranquiçados ossos espalhados pelo chão, tudo que restou das carcaças, antes criação de robustos animais de criação. Prevejo o presságio das mandíbulas da calamidade! Sinto o que essa terra secular sempre sentiu, o ansioso desejo de um líquido precioso, da água salvadora, numa sede que vem lá das entranhas. Busco um copo de água, das mãos cordiais do sertanejo morador da descorada casa, um cidadão rude, mas hospitaleiro acima de tudo. 
                Caminho ao lado dos currais. A porteira escancarada espera a volta de fantasmas. No aprisco das cabras uma ampla latada oferta o alivio das sombras, mas só para o estrume de bolinhas roliças e ressequidas, nem sinal de um dócil cabritinho demonstrando o longo desuso do recinto e ainda sinto um cheiro forte de um ranço no ar, odor característico dos bodes.
                Dou alguns passos rumo ao alpendre da fazenda, em busca de matar minha sede e ouço um insistente balido, como um chamado:
                — Béeeeeeee! — Béeeeeeee!
                Paro, instantaneamente. No lugar da água redentora para consolar minha sequidão, circula nas veias é a impulsiva adrenalina, mandando-me correr.
                — De novo não, meu Deus do Céu! Mal me recuperei do susto de um jegue falante, já me aparece um bode, agora!
                Embora pouca, coragem foi o que nunca me faltou! Viro-me, lentamente, rumo ao portão do chiqueiro das cabras e um velho bode de longa barba decaída e enormes chifres retorcidos, apresenta-se numa voz puxada e decrépita:
                — Professor Raimundo, aguardava o senhor, por aqui!
                O pai-de-chiqueiro exala um inhaca insuportável e seus claros olhos baços me fitavam como se olhasse para um dos seus semelhantes, um igual. Não consegui dá nem um educado bom dia e, percebendo minha surpresa, o bode continua a falar:
                — Está vendo o abandono em que estamos, professor! Esta seca foi tão perversa quanto àquela que matou o bode do qual senhor usou a carcaça, para tirar um retrato lá em Campo Maior, a terra dos Heróis de Jenipapo e da carne de sol!
                — É verdade, amigo, foi uma seca braba! Consegui responder.
                — Braba é pouco, Seu Raimundo! Está foi mortal, destruiu praticamente todo sertão! Veja aí, como está o chão, apinhado de ossos do gado do patrão, nem o cavalo alazão escapou, e mesmo o jegue, a quem você endeusa, não resistiu. Agora, com seu olhar de poeta chorão, me procure por aí, a ossada de uma cabra ou de um bode... Encontra não, Professor! E quer saber por quê? Deixe eu lhe dizer: Há 7 mil anos, que a humanidade aprende com a gente a resistência e a capacidade de adaptação às condições extremas de vida e sempre somos nós que os salvamos, aos homens. Quando for beber água ali, na casa do patrão, pergunte porque a família dele ainda está viva, aí entenderá o que estou dizendo.
                O arquejado bode demonstrava uma sapiência secular e notei que ele fazia questão de me explicar tudo, tim-tim por tim-tim com a ânsia daquelas pessoas que nos pegam pelo braço e só nos soltam quando desabafa toda uma história que se engasga na alma. O velhusco pai-de-chiqueiro continua a sua lição particular de vida:
                — A seca é um horror secular e você sabe disso, amigo Raimundo, ela sempre existiu e voltará a existir. Desde que Dom Pedro II disse "Não restará uma única joia na minha Coroa, mas nenhum nordestino morrerá mais de fome" que os políticos vêm fazendo promessas e mais promessas, e quando “ela” chega, tudo é como antes, um Deus nos acuda e nem água de beber se tem! Mas para nossa conversa não ficar em vão, quero que leve uma sugestão para esses governantes metidos a sabichões, só há uma solução para essa situação: a criação extensiva de caprinos por todo o sertão! O Estado da Paraíba está conseguindo a sua redenção as nossas custas, os bodes! Lá, somos Reis, os Imperadores do sertão! A nossa festa e os nossos recursos incrementam a economia, valorizam a cultura, a história, o meio ambiente, a arquitetura e a gastronomia e resgatam a autoestima da população. Viu a nossa importância, professor!
                Com a pisada da impaciência e o nariz ardendo, tento me sair da presença do pai-de-chiqueiro, mas ele me retém com autoridade firme dos anciões:
                   — Calma amigo, deixe-lhe dizer mais uma coisinha importante e nem lhe peço desculpa, porque é uma grande verdade! Sei que você não dorme com as cabras, mas é um dos nossos, um libidinoso bode e se pudesse teria uma harém, como nós temos os fatos, repletos de odaliscas caprinas. Você é como o poeta paraibano Ariano Suassuna, criador de bode e que um dia disse:  "Uma das cenas mais bonitas, cavaleiras e fortes que já vi em minha vida foi a de um pai-de-chiqueiro enorme e preto cobrindo uma vermelha e nova novilha-de-cabra, num pedaço áspero e bruto da caatinga sertaneja".  E não deixe que muita gente leia o que anda escrevendo, meu amigo, senão esses assuntos chagam aos ouvidos de quem não pode ouvir... Cuidado com a cabrita Isabelle! Evite os dramas! Mas a vida humana é assim mesmo, uma tragédia e tragédia que dizer: tragos + otos ou literalmente, o Caminho do Bode, por isso calcule bem onde pisa, olhe direitinhos seus passos, faça como os velhos bodes, para não cair nos precipícios! Lembre-se, professor Raimundo, bode, nesta vida, somos todos!
                Esse último conselho foi a gota d’água para escapulir, não aguentava mais tanto atrevimento daquela sabedoria bodiana, ainda mais metido a filósofo, e até meus olhos começavam a arder com o aroma enjoativo que empestava o ar.
                — Obrigado pela bela aula e pelos bons conselhos, amigo pai-de-chiqueiro! Eu levarei sua sugestão ao prefeito da nossa cidade, mas não estou aguentando mais de tanta sede!
                Caminho até o alpendre da casa da fazenda, peço um copo de água ao respeitável senhor que se apresenta e que me pareceu tão velho quanto o bode do abrigo das cabras.
                Bebo sofregamente o líquido precioso e raro por aquela região e pergunto ao fazendeiro:
                — Amigo, me diga uma coisa: Aquele bode que está solitário, ali no chiqueiro, não tem o que comer e o que beber não?
                — Que bode, meu senhor? A última peça do rebanho de caprinos que a gente tinha nós comemos, um velho pai-de-chiqueiro de carne dura que nem pau ferro, há dias!
                Agradeço a hospitalidade do sertanejo, baixo a cabeça, sigo em frente e por outra vereda, para não passar em frente ao aprisco das cabras. Será que além de velho e caduco estou tresvariando assim, para ver um bode velho que já morreu, na porteira de um curral!
Evito olhar até para os troncos das árvores, pois tenho a impressão de que tudo berra!
— Béeeeeeee! — Béeeeeeee!


Raimundo Cândido

domingo, 11 de agosto de 2013

Goela



Aorta pletórica do sertão!
Touro indomável
escramuçando ao vento,
arrastando assombros, 
receios e medos
e mesmo assim 
mergulhávamos
na efervescência 
das águas revoltas
e o sedoso vento 
em nossos rostos
avivava a adrenalina 
na alma infantil
que subjugava 
um selvagem potro,
 sem crinas!
Ainda fluímos,
a pique, por entre
as pedras liquefeitas
de uma triste Goela 
cordialmente estagnada, 
nas locas do tempo!

Raimundo Cândido

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Minha vida!


(A Miriam Menezes Teixeira)

Flor de Nabucodonosor não fui, não sou!
Fico ao vento, verde ramo, tal galho seco
imaginando borboletas que rebentam casulos.
De um inocente subsistir, prisioneira sou!
Oh, Deus... A minha vida!
Desaprendi o infantil sorrir,
mas não me retirei pranteando
o aguado sal a escorrer no rosto,
pela antecipada ruína da vida!
Nada disputei, perdi e ganhei a hora da dor.
Hora de um instante amargo,
é o que me restou!            
Oh, Deus... A minha vida!
O que pintei sem tom, o que fiz de ruim,
Deus dos Profetas?
O que deixei por fazer nas eiras que nunca trilhei,
Deus dos inocentes?
Que pesado holocausto imputam a mim,
Deus da humanidade?
Pois expio o fel do mundo com o reles doce
que em mim, ainda há!
Oh, Deus...Da minha vida!


Raimundo Cândido

terça-feira, 6 de agosto de 2013

ANIVERSÁRIO DO MEDO





Janeiro.
Uma carta apareceu. Curiosos, todos leram a história inacabada.
 
Lua do janeiro seguinte.

Na cidadezinha ainda com medo, a última frase da carta apareceu desvendando o mistério.

 
Do livro O colecionador de dedos – micro contos

Silas Falcão