segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O Padre


              Havia desistido de perscrutar a vida do velho padre, por conselhos de cautelosos amigos que têm por bem resguardar os valores eclesiais e também pela persuasão, agudamente sábia, de um ex-clerigo que me convenceu a empregar o dom da prudência. Acatei e me arrependi desta obsequiosa sensatez, pois o fantasma do sacerdote ficou martelando na minha mente, forçando a maçaneta como a querer provocar uma nova visita. Apoiei-me na prudência de Dostoievski, um escritor russo que diz ser, o seu mal, uma doença chamada consciência e recomenda: para se conhecer uma pessoa é preciso ir-se chegando devagar, com cautela, evitando equívocos e preconceitos, coisas bem difíceis de corrigir e de se reparar. Já tinha suficiente dados sobre as ações e impressões que o reverendo deixara assinalados na linha do tempo, e a consciência impeliu-me a segui em frente. Prudens in loquendo est tardus! (Bom saber é o calar, até ser tempo de falar!)
               Achei por bem começar esse relato pelo mês de fevereiro de 1937, devido a intervenção de outro digníssimo padre em nossas vidas, o Padre Cícero de Juazeiro.  Foi um sacerdote cuja fama de milagreiro só aumentava desde o dia de sua morte, em 1934, aos 90 anos. O Padim, com uns túrgidos olhos azuis, sonhara com Jesus Cristo no exato momento da última ceia e, enquanto Ele celebrava para os apóstolos, uma multidão de retirantes invadem o recinto interrompendo, obrigando-O a se pronunciar pela decepção com os homens, disse estar disposto a fazer um último sacrifício para salvar o mundo. Porém, se a humanidade não se arrependessem depressa, Ele acabaria com tudo de uma vez. Naquele momento, apontou para os pobres nordestinos e, voltando-se inesperadamente para Cícero, ordenou: - E você, Padre, tome conta deles! Eram sonhos determinantes, os sonhos daquela época. Por uma sonhosa prescrição,  Padim Cícero ganhou uma enorme autoridade.

                Uma das beatas da Igreja de Crateús, além de oniróloga, era devota incondicional de Padre Cícero. Decifrava sem medo de errar os sonhos das colegas. Para uma, que sonhara com o Pe. Juvêncio celebrando uma missa para ela,  a religiosa advinha interpretou como uma provável felicidade no lar, se ela deixasse de bajulações com o dignissimo padre. À outra que vivia sonhando com uma pessoa pegando uma caça, disse: você conseguirá um homem valente e forte. Dito e feito! A amiga logo casa-se com um caçador, um velho amigo de infância.

                Naquela noite, de um invernoso fevereiro, foi ela mesma que sonhou: O Padre Cícero lhe chega ao pé do ouvido e confessa baixinho: “Cratéus está com seus dias contados! Fujam depressa, pois tudo será destruido pelas águas caudalosas e barrentas do poti!”  Acorda assombrada e alardeia o mundo. Depois de uma madrugada chuvosa e o rio avolumando-se,  as colegas se dispõem a espalhar a notícia pela cidade inteira. O desespero já toma conta de muitos e alguém ainda nota uma fenda na estátua do Cristo Redentor. Outro, com memória de prontidão,  recorda a profecia do capichunho Frei Vidal da Penha a dizer: o patamar da Igreja vai ser uma cama de monstros marinhos e só escapará quem ficar à 8 léguas, rio acima ou arribar de vez com a família toda. O senhor João Batista de Sá fez questão de não deixar nem saudades!  Uma pandegas foi lentamente se incorporando, tomando feições de incontido alvoroço e necessitou da intervenção, na missa noturna, do agil e inteligente Padre Juvêncio:

                - Meus queridos amigos e amigas, crateuenses fiéis, ouçam-me bem! Comecou o sermão com uma voz intensa, rouca que saía de um rosto com feições helénicas, num perfil alto e garboso que arrebatava os ouvintes. - Sonhar é próprio do ser humano! Sem sonhos a vida não tem brilho e às vezes, às vezes... Quero que me entendam direitinho, por isso estou repitindo, somente às vezes, estes sonhos são mensagens divinas!  E continua com uma voz firme: - Saibam que não é dia, nem hora de divinais mensagens de sonhos em nosso meio, mesmo porque o Pe. Cícero ainda tem muito que fazer em Juazeiro. Acalmem-se! Tirem esse medo de seus corações! O Rio Poti terá uma cheia normal e escoará tranquilo para o mar! Rezemos para que as nossas safras não sejam prejudicadas e tenhamos boas colheitas.

                Foi alívio geral, no pavor e nas apreensões mentais dos fiéis, ali presentes.

                A religiosa sonhadora se dirige à fila da comunhão e quando o Padre deposita a hóstia sagrada na sedenta lingua, alguém lamenta que não tenha escorrido uma flepinha de sangue pela boca da beata, pois teria sido a nossa redenção.

                A safra daquele ano foi uma benesses dos céus, e há muto se acabara o hábito de deixar as igrejas inacabadas para não pagar impostos ao Governo Português, o dinheiro arrecadado deu para que o vigário construísse  a torre do lado esquerdo da monumental Igreja Matriz, colocando um pequeno sino de cobre e ainda empossando um segundo galo altaneiro, que mais tarde receberia o nome de Macedo, para fazer companhia ao galo Bonfim.

                A máxima em latim que diz: Devemos nos calar até um momento propício, havia deixado de molho, em mim, irrequietas palavras que teimavam em falar. Da pesquisa de campo para o artigo Os Distritos do Município no livro Crateús 100 Anos da Academia de Letras, percebi, admirado,  como o Padre Juvêncio de Andrade ainda vive na memória do povo.

                O distrito dos Tucuns, repleto de palmeiras com uns frutinhos doces, era o local preferido para o descanso do reverendo nos fins de semana. Uma tropa de adestrados cavalos subia a ladeira íngreme, numa perigosa trilha por entre rochas, até o clima aprazível da serra, onde uma casinha o aguardava. Afirmava que nos Tucuns tinha tudo que gostava, gente sincera e humilde,  caldo-de-cana, a farinha, o manzape, a água mineral e o ar puro da serra. Em Crateús, dizia-se:  quando o Padre sobe a ladeira, até do mundo ele esquece!

                Outro Distrito predileto era o disperso Irapuá. Sempre ia celebrar na Capelinha do Senhor Bom Jesus, que é mais antiga que a Catedral da Matriz. Uma casarão bem montado tembém o acolhia, isso quando não dormia num reservado da própria igreja, atrás do Altar. O povo, em bisbilhotice indiscreta, encostava os ouvidos na parede por trás da igreja, para ouvir os gemidos das orações entre os rangeres dos armadores das redes do padre e das cantoras do coro que ele levava para lá. Num botequin, que quebra a monotonia do abandonado agreste, alguém nota uma figura depauperada se arrastando pela estrada e afirma: - Lá vem, novamente,  o filho do Padre!  Aquele ali...  Nem foice nem terço, é só cachaça!

                Os Torres, com olhos azuis dos sulistas que fundaram o lugar, conjecturam o que teria sido do pobre moço, se não tivesse sido desamparado a esmolar pinga pelas veredas da caatinga e que, um dia seria encontrado morto nas coxias da vida. Faz-me recordar o Padre Martiniano de Alencar, que montou uma casa bem afastada de Fortaleza para uma prima, da qual  nasceu José de alencar. Teve que abandonar a batina e casar-se, para adquirir aceitação na sociedade e poder politicar.  O amigo memorialista Ferreirinha, no Livro Fatos e Causas do Passado, afirma: “O velho vigário teve grandes pecados na sua vida, mas os seus méritos ultrapassaram tudo aquilo”.

                A política sempre ferveu entre o vinho e a hóstia, turbilhando a vida dos padres e ali, no Irapuá, o Pe. Juvêncio conheceu a história da morte brutal do Pe. Inácio, por rixas políticas.

                Assim mesmo, atuou politicamente fervoroso, sendo eleito prefeito pelo Partido Conservador(os Marretas) mas administrou a cidade com os oposicionistas, os Rabelistas.

                Aproveitava até a pregação do evangelho na igreja, dizia  que PSD significava Partido sem Deus. Um dos afiliados ao socialismo, Abdoral Tataia, que sempre sentava à esquerda do altar, se remexia todo, com receio por estar na missa, mas protestava alto: - Isso não é verdade! - Não é verdade!   E o Padre retrucava: - Ouviram? Pisei nos calos de um!

                O Sacerdote-político, como gestor, pôs em prática boas obras e numa época sem rendimentos, pois o povo não pagava impostos, coisas que as atuais administrações se encaracolam em ardilezas políticas, projetos dificultosos, tramas sem fim com dinheiro suficiente e nunca realizam.

                  A cadeia Pública ficaca no centro da cidade, bem no início da Rua Santos Dumont, no edifício da atual prefeitura. Era um prédio de aspecto desagradável, feio e sujo, tinha uma calçada de meio metro de altura com tijolos desgastados e janelas com grossas e horrorosas grades de ferro.  Quem por ali passasse logo via os detentos trabalhando, uns cortando couro, outros batendo taxinha para fazer chinelos e diversos apetrechos. O prefeito Pe. Juvêncio construiu o atual Quartel da Polícia e um higiênico Matadouro Público. Inaugura, também, um monumento ao Cristo Rei, na Praça da Matriz e uma capela no cemitério São Miguel.

                A rigidez política e a austeridade de caráter o fizeram se inimizar com muita gente. Para um comerciante muito popular, Hermenegildo Augusto, um descendente dos bravos do pé-da-serra dos cocos, sempre a socorrer a pobreza, dentista prático e proprietário da Drogaria Popular, a vida lhe escasseava. A família chama o Padre Juvêncio para lhe confessar. O sacerdote se aproxima e o moribundo, de súbito, reage: - Retirem daqui esse homem, deixem que eu morra em paz! Não pode esquecer as mágoas que guardava do velho adversário político, uma consequência hereditária da impetuosidade tradicional dos velhos guerreiros chamados Mourões, que fizeram fama em Crateús.

                Dia 9 de outubro de 1930, pára um trem na Estação de Crateús e desce o célebre Tenente Aristide Rosal, seguido por inúmeros soldados revolucionários armados com fuzil e mosquetão, chefiado pelo Cel. Otacílio Mota para depor o Prefeito Padre Juvêncio de Andrade.

                Um padre que nascera em Santana de Acaraú, e que floresceu por aqui, prestando assistência eclesiástica a diversas gerações de crateuenses, foi falecer ao lado da família, em julho de 1947, em Fortaleza.

                 Cumpriu-se sua última vontade, quando o predileto coroinha e pupilo, o Monsenhor Bonfim, pessoalmente se encarregou do translado dos seus  restos mortais e o depositou numa lápide na cripta da Igreja da matriz, marcando o fim de seus brandos dias, no clima suave dos Tucuns, e o término dos instantes agitados na tumultuosa política crateuense, e me fez recordar que, nos momentos calmos  ou de repentinas tempestades, devemos sempre valorizar os dias de fé, os dias de luz, não importando se o tempo está nublado ou se é  dia de radiante sol!   

 Raimundo Candido

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Rápido Crateús- Um marco apagado.


 
            Depois da violenta 2ª guerra mundial, o bairro mais apropriado pra mudar de nome, na esbelta cidade de Fortaleza, era o Pirocaia - do tupi, aldeia dos pele queimada - que parecia um povoadozinho característico do interior: umas singelas casinhas, currais de gado e o choro penoso dos carros de bois na labuta campestre. Por ali, o que mais se viam, eram as tropas de jegues em trote rápido nas veredas sinuosas rumo ao centro da cidade, levando a melhor água potável da região nos canecos de madeiras dependurados em estrepitosas cangalhas, para matar a sede do arguto cearense da capital. Hoje, o local se chama Montese, em honra a uma batalha ganha pelos brasileiros da FEB, um populoso bairro de vida própria e um intensificado comércio. Lá também fica a Garagem da Empresa Rápido Crateús, um marco histórico da nossa cidade.

Na Rua Desembarcador Praxedes, nº 370, num grande muro branco, há um portão largo e alto com um escritoriozinho ao lado, é a garagem da Rápido Crateús. Um senhor de meia idade, perfil atarracado e pançudo, sai do escritório e caminha vagaroso, inspecionando os mínimos detalhes da sua organização de transporte de passageiro.

Sempre que ele se manifesta com uma das pernas da calça arregaçada, como agora, é sinal que está para poucos amigos. Um funcionário logo diz: - Vou dá o fora daqui!  O outro, evitando um encontro, cochicha: - Vou me esconder no almoxarifado!

Zé arteiro pára, apoiando as mãos na meia-parede de um grande tanque e olhando para a água, que é utilizada tanto na oficina mecânica como na borracharia, grita alto e desesperado: - Socorro! Depressa, acudam aqui!  Os funcionários correm ao local e apuram a vista para o fundo do Tanque. Ele, ainda sério, diz: - Rápido, tirem daí o coitado do trocador que morreu afogado! Todos veem, surpresos, um enorme rato que estufa, no fundo do tanque.

A disposição para o trabalho aprendera com o pai, um exímio ferreiro no município de Tamboril, o temperamento sério e rígido, também. De um caminhãozinho que pegava fretes, um aqui e outro ali, fazer brotar uma grandiosa frota de 82 ônibus, não tem muito segredo, não: é só regar cada quilômetro percorrido pelas estradas deste mundão de Deus com abundante suor do rosto e adubar, diariamente, os sonhos com um contínuo esforço. Esta vitória, o José Arteiro conseguiu!

Teve ajuda de muitos amigos que labutavam diuturnamente ao seu lado, como o comandante Jabá, Francisco Pereira da Costa, que recebeu um troféu da TVE e uma jangada de prata da TV Ceará, das mãos do famoso Jornalista João Ramos, como um dos melhores motoristas do Estado do Ceará.

Conduziu o ônibus da empresa na primeira viagem entre Fortaleza e Crateús com um único e privilegiado viajante, Dr. Gentil Barreira, o sogro do empreendedor Zé Arteiro. Dona Leonor Rosa, irmã de Zé, conseguiu formar uma lista de passageiros para que fosse possível a volta do ônibus pioneiro.

Já era um veículo bem mais moderno, aquele que saiu da Agência que ficava ao lado da Rádio Educadora de Crateús para chegar ao outro ponto de parada,  Rua Castro e Silva na Praça da Estação, em Fortaleza, e um dos ilustres passageiros era a Professora Maria Delite com a sua filharada. Mal saímos do Distrito de Capuan, em Caucaia, Jabá passa por um carro lotado de banhistas que vinham da praia e em poucos minutos o mesmo automóvel ultrapassa novamente o ônibus, páram e dessem todos, altamente embriagados e de armas em punho.  O nosso comandante já estava era na cozinha, pois esperar por tempo ruim, ficou foi para trouxas. O desespero dos passageiros fez com que os alcoolizados praieiros desistissem de algum intento.

Uma imensa frota precisa de um grande quadro de funcionários para conduzi-la, ao pé da letra mesmo! Na garagem, os olhos do chefe orientam com firmeza e determinação ao exigir a máxima perfeição em cada serviço. Demorava a empregar um sujeito, mas também o desempregava rapidinho!  O motorista chegou só com a cara e a coragem e se dirige ao dono da empresa: - Seu Zé Arteiro, eu gostaria que o senhor me arranjasse um emprego de motorista. A resposta foi rápida: - Tem não, meu amigo! Eu nem lhe conheço!!!

No outro dia estava o coitado do motorista escorado na parede, esperando. O José faz de conta que não o ver. No dia seguinte, novamente escorando o muro. Zé Arteiro se aproxima e diz: - Rapaz, você de novo, o que está esperando? Ingenuamente, responde: - Seu Zé, eu estou esperando que o senhor me conheça! Deu sorte, pois naquele dia a perna da calça não estava arregaçada: - Está bem, o emprego é seu!

 Outro amigo que o ajudou na construção da fama da empresa foi o Vicente Bacorim, era o motorista de maior confiança do patrão! Os crateuenses mais antigos dizem: O Vicente me transportou, transportou meu filho e agora transporta meus netos! Desde que desistiu de ficar com o 4º BEC em Barreiras e, após fazer o translado de toda aquela unidade tática, escolheu trabalhar para a Rápido Crateús e não se arrependeu! 

Pioneirismo é uma questão de fibra e coragem, em 1982, num grandioso coquetel nos salões da Apavel, a revendedora dos luxuosos ônibus Volvo, em fortaleza, José Arteiro recebe uma placa de prata por ser o primeiro empresário na linha de transportes a entrar na nova era, no Ceará. E o comandante do confortável ônibus é nada menos que o Vicente

Mas nem sempre foi assim, houve muitas reclamações. Uma nota do Jornal O Povo do dia 22/01/2001 dizia: “Andar em certos ônibus intermunicipais é um desconto de pecado ou até um martírio. A empresa Rápido Crateús, por exemplo, tem uma frota que deixa muito a desejar, por não existir nenhum conforto, principalmente os que fazem o percurso Crateús-Fortaleza. De dia, seus passageiros tem que suportar uma temperatura até 40 graus, em uma viagem de quase oito horas, uns por cima dos outros.”

Já na nota do dia 11/03/1998: “Quatro homens armados, um deles de escopeta calibre 12, assaltaram, ontem, em Quiterianópolis, um ônibus da Rápido Crateús que seguia com destino a Novo Oriente. Os ladrões fugiram num Ômega levando um malote com R$ 18 mil.“

Sempre tentou melhorar a qualidade dos ônibus, chegando a adquirir um Marcopolo Volvo de dois pavimentos que foi intimado a transportar o Presidente José Sarney, quando o mesmo esteve em Juazeiro do Norte, e o comandante Vicente foi logo avisando: - Esta viagem é de exceção, pois Seu Zé falou que esse ônibus é para atender ao pessoal dele, de Crateús. Alugou sim, para uma tradicional família crateuense, os Gomes, que numa turnê de trinta dias pelo Uruguai, Argentina e Paraguai onde Jabá e Vivente se revezavam e se divertiam ao ouvirem o nome de Crateús sendo soletrado de todas as formas possíveis, por aqueles povos sulistas. Na viagem de volta passaram por Brasília e, do hotel em que estavam hospedados admiram-se ao ver um velinho mostrando, vaidoso, o ônibus para a netinha. Aproxima-se para indagar o nome do cidadão e surpreendido, ouvem: - Eu sou o Coronel Souto Maior! E orgulho-me de bater continência, com minha neta, para esse grande nome de minha região: Crateús!

Nada é para sempre! Mas toda obra que é grandiosa fica na memória de um povo, visto que a vida é feita de sonhos realizados e estas aspirações que se efetivam nos trazem gloriosas recordações! A viagem de partida do empresário, empreendedor arrojado José Arteiro Rosa, foi o começo do fim da grande Empresa Rápido Crateús. Esfacela-se entre os membros da família. Não foi o processo de carterização dos meios de transporte no Ceará que detonou a Empresa Rápido Cratéus, foi a falta do pulso forte de um austero senhor, baixinho e determinado, que nos ensinou que todo sonho pode ser realizado, basta que alguém acredite nele!

O grandioso sonho da Rápido virou um marco, que se eternizou, mesmo sendo apagado por aproveitadores oportunistas, como muito bem disse o Vate Eduardo Alves da Costa no poema No caminho, com Maiakovski:Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”

Raimundo Cândido

sábado, 26 de janeiro de 2013


                                                     OUTRA FESTA
Música perene. Multidão de sorrisos, de dança, de mesas, de bebidas, de fauna bem temperada no cardápio. Parecia festa de casamento grande. Mas era de separação judicial.

Do livro O colecionador de dedos.

Silas Falcão

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Verbo amar

 
Pensas que sabes conjugar?
Pois sim!!! Pois tá!!
No ermo de nós dois
passam, com folgas,
dó e compaixão,
subsistem bem ajustados,
piedade e desilusão!
Acreditas que és capaz?
O mágico amor
dissimula-se dançante 
em enganosas flexões,
embora aparente ordem,
harmonia e simetria
é defectivo, irregular.
Desista, abandone de vez!
Ele desconsidera aos poetas
e só  aos loucos se revela!
Somente os insensatos
o sabem declamar!
 Raimundo Cândido
 
José Alberto de Sousa disse...
 

Versos clássicos, belas metáforas, dignos de um poeta que sabe mostrar a singularidade de sua obra romântica


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Troféu


 
             Ao caminhar pela belíssima Avenida Treze de Maio – antiga e poética Flor do Prado para quem não conhece a história de Fortaleza – saindo da Estação do Metrô (a funcionar brevemente!) no cruzamento da Rua Carapinima e subindo rumo a Igreja de Fátima, nos deslumbramos com uns arcaicos palacetes, réplicas europeias que pertenceram ao antigo Patriarca, Comerciante e Banqueiro sobralense José Gentil, fundador de um império e que deu nome ao local: Gentilândia, hoje Benfica.
            A residência principal do sitio, um magnífico solar, foi renovado e transformado na sede da Reitoria da Universidade Federal do Ceará. Uma gravura no muro daquele estabelecimento, subitamente, nos chama atenção. Num grafite gigantesco está o corpo nu de uma mulher com as veias expostas, representando aqueles que sofreram torturas e morte pela famigerada ditadura militar brasileira. Automaticamente pronunciamos o nome de muita gente, como: Frei Tito, Lamarca, Molina, Vladimir Herzog entre tantos outros.  O título do quadro é o lema positivista da bandeira do Brasil, invertido, como se fosse uma imagem no espelho. Inconscientemente veio-me, à memória, uma grave canção ao contemplar aquele simbólico quadro: Vem, vamos embora, que esperar não é saber...  
             Existe outro imenso painel em óleo sobre acrílico com o título “A verdade ainda que tardia” dependurado permanentemente nos corredores da Câmara dos Deputados, em Brasília, com imagens chocantes em cores fortes, das torturas praticadas pelo Governo Militar: uma mulher agoniza dependurada no pau-de-arara, outra se esvai em sangue pela vagina, um homem sendo afogado num pequeno balde, outro na cadeira do dragão sofrendo choques elétrico no pênis, enquanto um torturador aperta os parafusos da “coroa de cristo” sobre a cabeça de um cidadão e gravado no topo da obra está o verso de um grito de liberdade “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura.. se é verdade tanto horror perante os céus?”. O artista plástico Alifas Andreato, doou a obra para o acervo da Câmara.
            A presidente Dilma Rousseff – que nos anos de ferro foi torturada e indenizada com 30 mil reais pelo governo de Minas Gerais – aprovou uma lei instituindo a Comissão Nacional da Verdade, que visa investigar as violações dos direitos humanos ocorridos entre 1946 e 1988, no Brasil. Os militares brasileiros, além de assinarem um protesto contra a Comissão, prepararam uma provocação, descumprindo uma ordem presidencial e comemoraram os 48 anos do golpe militar, combatido pela guerrilheira Dilma. De quebra, o polêmico cantor romântico Agnaldo Timóteo, defendeu a ditadura brasileira na Câmara Municipal de São Paulo, afirmando que durante o governo militar nunca houve corrupção, desvios de recursos públicos, lavagens de dinheiro, esquemas de influências ou mensalões, isso numa sessão da Comissão da Verdade e só faltou pedir que se implantassem o AI 6 sobre nossas cabeças, o que me trás pesadas recordações...
             A chegada do primeiro bispo na cidade, em 64, quando os militares já se dispunham a caçar comunistas e subversivos em cada esquina e não foi a festa que as elites locais esperavam, pois se decepcionaram ao ver um Dom Fragoso rejeitar as honrarias preparadas para ele, e se dispôs contente no meio de um humilde povo. Indispôs-se, mesmo, foi com uma Igreja de orientação ideológica conservadora ao optar pelos sem voz e sem vez.  E quando recusou o convite do 4º BEC para celebrar a missa em “Ação de Graças” pelo primeiro ano do golpe de 31 de Março, surgiram os primeiros conflitos.  Numa entrevista a um jornal falou da libertação da America Latina do jugo de todas as opressões!  E logo se ouviu falar em DOPS, Departamento de Ordem e Polícia social, em Crateús a implantar um clima de medo: o medo da policia, o medo do exército, medo do vizinho delator, medo da própria sombra!
            Pessoas “subversivas” eram vigiadas, reuniões reveladas, ações difamadas, estimulavam-se as delações e infiltrações em repartições, colégios, igrejas, comércios e nas casas. Quando as pesadas botas sentiram vontade de esmagar, triturar tudo por aqui, subitamente veio um amparo e uma solidariedade imensamente protetora das igrejas, do Brasil e do mundo.
           O Pe. Geraldinho foi detido por 11 dias no Recife, pois os militares queriam saber tudo sobre os focos de agitação e subversão em Crateús, comando pelo famoso “agitador comunista” Dom Antonio Batista Fragoso.  Depois daquele março de 64 o ambiente começou a ficar pesado, era tempo de meio silêncio, tempo de boca gelada e murmúrio, de palavras indiretas, de avisos nas esquinas. Tempo de cinco sentidos num só, pois o espião jantava conosco, como disse o poeta Ferreira Gullar em sua rota de fuga.
           Em Crateús, o professor Luiz Bezerra passa um telegrama aos Diários e Rádios Associados, avisando que o Vice-prefeito José Bezerra de Melo e alguns vereadores foram cassados, por participarem de movimentos subversivos. No ano seguinte também é cassado o mandato do prefeito Municipal Dr. Olavo de Araujo Cardoso.
          Um grupo de 16 pessoas, corajosos heróis crateuenses, manifestam-se publicamente contra o regime militar e são presos, entre eles o socialista Noberto Ferreira, o Sr. Ferreirinha, que em breve entraria em aflição pela vida do filho, o estudante de medicina João de Paula, que participaria do XXX Congresso da UNE em Ibiúna, SP. Quando a moçada ouviu aquele ratatatá ratatatá para todo lado, perceberam que o encontro havia chegado ao fim. Entre centenas e centenas de estudantes, com cartazes de Che Guevara e livros com o título “Guerra - Guerrilha – Chê”, a polícia notou logo a presença de José Dirceu.  João de Paula, o corajoso crateuense, logo teve que se evadir para o Chile do Marxista Salvador Allende que seria então derrubado pelo capacho do dedo sujo americano e um dos piores ditadores da humanidade, Augusto Pinochet. Ele exalava morte ao respirar, diziam. A fuga, foi digna dos estúdios cinematográficos de Hollywood, tramaram assim: a irmã de Ruth, a namorada do João, com os disfarces na bolsa a tiracolo entra na pensão que era espreitada por vivos olhos de lince. Não demora muito e saem. As sorridentes freiras abençoam a todos, por ali, enquanto se dirigem à porta. O chuveiro ligado afirmava que João de Paula ainda aguardava, tremendo e hesitante, num quanto de aluguel.  
            Em Crateús vivia-se sob o ferrete do medo, que deixava marcas doloridas como aquelas feitas em gados tangidos para o curral. A Rádio Educadora de Crateús tinha mais ouvidos nas paredes que os reais ouvintes espalhados pelo imenso sertão. O programa da Diocese que informava sobre a semana das catequeses, as atividades da Conferência nacional dos Bispos e leituras do Evangelho, era de responsabilidade da Professora Luzia Neide Menezes Teixeira e do Senhor Manoel Messias Coriolano, eles elaboravam os textos que seriam lidos pelo jovem Flávio Machado no programa A Voz da Paróquia. Antes, tinha que levar o script para uma censura previa, no 4º BEC.
            – Por que você escolheu essa notícia, professora? Era a pergunta de sempre dos sensores e um dia a indagação foi mais específica;
            – Por que você trabalha para esse Bispo Comunista, Professora? Ela sempre se saía bem, nas respostas.
           – Sou filha de uma viúva e preciso trabalhar!
           Um dia, chega um assustador aviso aos ouvido da viúva Dona Delite: – O Monsenhor Bonfim mandou dizer que a Luzia Neide vai ser presa. Se continuar como estar, ela vai ser torturada e a qualquer hora!
            Foi a gota d’água. Chama a filha e vai logo determinando, numa ordem dura: – Escute, minha filha, eu já aluguei uma casa na Rua Senador Alencar, em Fortaleza. Você vai trabalhar e estudar agora é por lá! E pronto!
            Se em Crateús a ditadura implicou com a professora, em Fortaleza o despotismo embaraçou-se mesmo foi com o Manoel Nene Martins Coriolano, seu esposo. Nene aprendera a arte da tipografia e os segredos da vida com o grande Professor Luiz Bezerra. Não foi difícil arranjar emprego em fortaleza. Desde a invenção da imprensa que a arte do tipografo é primordial ao mundo, mas na escura época de uma ditadura é um cidadão muito visado: Panfletos! 
           Bem que ele tentara entrar para o partidão, mas lhe explicaram qu não poderia ser aceito: – Seu Manoel, não podemos lhe admitir, o senhor acredita em Deus, gosta das músicas do Roberto Carlos e ainda torce pelo Botafogo! Logo você não tem credenciais!
           Ter alguns amigos do peito, esquerdistas de carteirinhas, em época de ditadura é um sério perigo!
           Quando a intimação da Polícia Federal chegou, tentaram explicar por que ele não poderia comparecer naquele horário, por motivo de trabalho. Pelo sorriso sarcástico no rosto do emissário, perceberam a seriedade da coisa:
           – Ah, senhora, ele vai sim... Não se preocupe, ele estará lá, com toda certeza!
           Enquanto Luzia Neide aguardava dentro do fusquinha, rezando e suando apreensivamente “ Sai ou não sai, Minha Nossa Senhora!” enquanto o Nene era esmiuçado, ao avesso, dentro do prédio da Federal.  Demorou uma eternidade, mas lá vem ele, pálido com uma broa, mas com um largo sorriso de felicidade no rosto.  Aprendera, com a esposa, a sair pela tangente nas respostas!
             Recentemente, só para me contradizer, pois achava a juventude de hoje totalmente alienada, sem saber o que é contestação, defesa de causa, ou voluntarismo e nem sequer imaginavam o que foi os horrores da ditadura, e fiquei surpreso ao ver um Levante Popular da Juventude, em apoio à comissão da verdade, os jovens picharam certas calçadas com os dizeres: Aqui mora um torturador!
            Faz-me recordar daquela madrugada boemia de um singelo sábado do ano de 1983, nas calçadas dos bares da Avenida José Bastos, em Fortaleza. Depois das aulas cansativas de sexta-feira é justo e meritório o alivio numa rodada de cachaça e cervejas. Num eclético grupo de universitários e professores, a conversa nunca é leviana. Andávamos com o jornalzinho do Pasquim e já se ouvia uns acordes de Diretas Já, pois a ditadura já afrouxava as rédeas.
            Um dos mestres pergunta se tínhamos assistido ao Canal Livre da TV Bandeirante e nos confirma que foi com Teotônio Vilela. Outro reclama que a inflação ultrapassara o patamar de 200%. Até nas brincadeiras havia cultura. A certa altura cada um tinha que dizer o nome de uma pessoa ilustre e uma coisa bem significativa de sua terra. Um fortalezense brincando, disse: – O bode Ioiô e a praia de Iracema! Risos e protestos! Ele corrige trocou o bode por Gustavo Barroso. Um sobralense afirmou: – Belchior e o Arco do Triunfo e não se contradisse, pois vivia cantarolando “Eu sou apenas um rapaz latino-americano...”
             Minha timidez já estava adormecida pela neblina do álcool e na minha vez detonei, alto e em bom tom, para que todos pudessem ouvir: – O Rio Poti de onde tirei o sangue que corre em minha veias e um guerreiro imortal chamado Dom Fragoso!
             A noite é uma criança e a madrugada é dos boêmios inveterados. Às três da manhã só restavam mesas vazias, garrafas consumidas, eu e o saudoso amigo Pedro Mota, o melhor professor de desenho técnico que já houve naquela redondeza.
            Sem pedir licença, um cidadão aproxima-se e senta-se na nossa mesa. Identifica-se como Polícia Federal, já mostrando um distintivo na carteira e uma pistola na mão! Pede que nos identifiquemos. Pedro mostra seu documento, ele ler e o devolve. Mostro a minha identidade, ele só olha para o fundo dos meus olhos e pressinto a frieza e uma raiva louca naquele olhar que rosna raivoso: – Eu sabia que você era da terra daquele comunista imundo! Só não lhe meto uma bala na testa, agora, porque ainda tem gente aqui na rua! Levou o documento aos dentes, rasgando-o como a um osso na boca de cão esfomeado. Joga-o ao chão, levantou-se e vai embora.
            Guardo esse documento, como um precioso troféu, não pelo sufoco daquele dia, mas como uma lembrança de um cidadão do bem que infundiu medo, desespero e raiva na mais vil das ditaduras!    

 

Raimundo Candido

Elias de França disse...
O seu troféu, Raimundo Cândido, reluz aos olhos de todos nós e clama que todas as histórias silenciadas pela brutalidade sejam agora contadas, pois " a verdade ainda que tardia". Se há hoje os que podem gritar indignação, porque houve os que não calaram quando a ordem era silêncio e medo. Que a história nunca esqueça os nomes daqueles que tiveram a coragem e a dignidade de enfrentar o peso dos tanques e os horrores das torturas, tendo muitos a própria vida sefada!

 

 



                                            TERNURA MALDITA
Assoviante. Dia e noite. Dora Mundo percorre a vida assoviando grande. Com simetria e harmonia.  Mesmo sabendo que amanhã será o dia da decisão.

Silas Falcão
Do livro O colecionador de dedos

terça-feira, 22 de janeiro de 2013


DONA GENA

Segurei em suas mãos
E, agora, andando a passos lentos,
Desacelerei meu coração
E valorizei aquele belo momento.

A minha avó completara noventa anos de idade;
Na missa, o Padre lhe prestou uma homenagem,
Todos lhe aplaudiram com felicidade,
Mas não sabiam contar a história desta longa viagem.

Primeira parada, em cima da Serra,
Na Arara dos Rodrigues, como era chamada,
O lugar que seus pais lhe receberam na Terra,
Como a décima primeira filha tão amada.

A família convivia com alegria e respeito,
Uma infância de brincadeiras; juventude de responsabilidade,
As chamas do saber já iluminavam seu peito,
Como uma ânsia de suprir sua curiosidade.

Logo, seu pai contratara um professor
Para lecionar aos filhos por sessenta dias,
Aquele curto tempo para ela teve o valor
De levar para posteridade sua latente sabedoria.

Queimando pestanas, à luz de lamparina,
Junto com as palavras já não queria dormir,
Encontrou, no aprendizado, a esperança da menina
Superar obstáculos e conseguir evoluir.

O tempo passara e os olhos castanhos da bela mulher
Era cortejado em toda a redondeza,
Mas ela sabia o que seu coração quer
E guardou para seu amor, toda sua beleza.

O encontro com o José de Melo Ribeiro
Em uma festa de agosto no Assis,
Mudara seu destino por inteiro,
Nascera dali uma união feliz.

O companheirismo de sessenta e um anos de casamento,
Uma vida de trabalho para criar os descendentes,
Sete filhos que guardam no pensamento
A honra de terem sido educados por um casal descente.

Àquelas lições do professor contratado
E a compreensão do seu companheiro, acredite!
Fizeram com que os sete filhos fossem matriculados
Na inesquecível escola da Dona Delite.

E, dali, os passos largos da educação
Impulsionaram esta família para o futuro profissional,
A atitude desta mulher de visão,
Faz com que os netos lhe agradeçam em especial.

Voltemos, ao casal, que era referência no distrito e na região,
Com portas abertas, a casa era dos amigos;
No comércio, o crédito para quem não tinha um tostão;
Na cozinha, um prato para matar o pior inimigo.

A fome que assombrava o nordestino;
Na casa Rodrigues Melo, conheceu a solidariedade,
Comida, no prato, não se deixa menino!
Tem outros irmãos nosso, esperando esta caridade.

Ainda recordo dos meus amigos do interior,
Sendo alimentados pela minha avó,
“Tigena”, como é bonita a prática do amor,
Pois a teoria não produz efeito só.

Mas naqueles tempos, a vida também era divertida
E, na bodega do Sr. “Zé Padre”, sempre à frente do balcão,
Tinha muita gente reunida
Na gargalhada, sem confusão.

A Vovó comandava a brincadeira
Sinuca, baralho e muita prosa engraçada,
Vinham pessoas da região inteira
E ficavam sentados até na calçada.

Fazia picolés de saco para os pequenos,
Ainda sinto o gosto do Q’Suco e da coalhada
E o vovô com seu olhar sereno,
Reprovando a turma da cerveja gelada.

Às quatro e meia, ainda no escurinho,
A erva doce exalava seu cheiro nunca esquecido,
Era Dona Eugênia, preparando com carinho,
O chá de despedida de seu marido.

Que partia para cidade de Crateús,
No seu ônibus, que interligava às difíceis estradas,
Naquelas casas, ainda não tinha chegado a luz
E os seus faróis iluminavam aquelas jornadas.

Há dois anos, na parada de uma estação,
Descera seu maior companheiro de viagem,
Mas permanecera em seu coração
O brilho que deixou em sua passagem.

Hoje, que o trem fez estada na casa dos filhos,
Vivencia o progresso que iniciou com sua lição;
Sente-se orgulhosa de nunca ter saído dos trilhos
E do sangue dos Rodrigues pulsar em seu coração.

Nascimentos, casamentos, formaturas, aprovações a comemorar
Em mais de trinta e um mil dias, ofertados pelo Senhor,
Honestidade, união, alegria a desfrutar,
Colheitas de uma plantação de amor.

(Na data de hoje, 22 de janeiro de 2013, a Vovó completou 91 anos de idade para alegria de toda a família. Felicidades e Muita Saúde!).

                                                                                            Silvia Melo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Chuva


 




A chuva já vem!
Corre... recolhe
as redes e os lençóis
estendidos no varal!
 
A chuva já vem!
Depressa...agasalha
no alpendre a lenha,
o carvão e a flor de cal.

A chuva já vem!
Ligeiro... pega o pote
e põe debaixo
da fonte do beiral!

A chuva já vem!
Oh, garoto traquina,
já foi ao banho na bica!
Arreda... este sereno lhe faz mal!

 Raimundo Candido
Louvival disse...
 
Bonito ver o seu processo criativo, poeta. Como chuva que, de um fiapo dágua a escorrer no chão esturricado do sertão, transforma-se num mar revolto, pegando-nos por nossas memórias mais caras. Vi 3 versões desta chuva, e cada uma mais atraente que a outra, todas cada vez mais belas! Oxalá isto prenuncie um inverno farto e feliz. Precisamos.

José Alberto de Souza disse...

À beira mar, a gente esquece dos irmãos aí do sertão. Mas quando se está na cidade, reclamamos da nossa canícula e ai sim clamamos por esse aguaceiro benfazejo.
Que alegria maior pode existir para um moleque do que um banho de chuva?