quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Flor



                                                                        A flor que colhi
                                                                        no teu coração,
                                                                        murchou!
                                                                        Despetalou-se,
                                                                        sozinha.
                                                                        Me ama...
                                                                        Não me ama...
                                                                        ...
                                                                        ...
                                                                        E a última pétala
                                                                        emudecida,
                                                                        pálida, sem cor,
                                                                        exprimia dor
                                                                        espinho na mão,
                                                                        ausência a dizer:
                                                                        morrer...
                                                                        não hei de morrer...
                                                                        ...
                                                                        ...


Raimundo Cândido

Viver...
Hei de viver
Reviver...
Sobreviver!

José Alberto de Souza disse...
Na gangorra de mal-me-queres
ou bem-me-queres,
ocultos na farsa das máscaras,
alternam-se indecisões
nas encruzilhadas de fingidos amores. 

Piranhas

                                                        
 Todo povoado hierarquizado que brotou no seio do mundo, deliberadamente, assentou-se nas margens de um imenso rio de correntes revoltas. Formou-se, inicialmente, como uma pequena aldeia que evoluiu para um povoado, vencendo tantas dificuldades em subsistir que revelou-se numa grande cidade, num formigueiro humano vivendo da agricultura irrigada, aproveitando as terras férteis deixadas pelas repetidas enchentes do Tigre, do Eufrates, do Jordão, do Nilo e até mesmo do Ganges, no sagrado coração da Índia. Os volumosos cursos de água geraram, nas planícies varzianas, as cidades históricas de Ur, que um dia foi encoberta pelo quadragenário dilúvio de Noé, a cidade de Damasco, no caminho da qual a Luz cegou Saulo, a fenícia Biblos de onde se enviavam os papiros egípcios para os manuscritos da instruída Grécia ou, a mais antiga de todas elas, a cidade guarnecida de Jericó, onde Josué com estrondosas cornetas e um brado potente de guerra derrubou suas intransponíveis muralhas de pedras.  
Dezenas de séculos depois, nos idos de 1700 da história do Brasil, nos sertões de Cratheús, onde perambulavam índios tapuas, os Kara-thi-us, ainda pertencentes ao domínio do Piauí, um bucólico povoado afoitava-se em existir. Nas margens serpenteadas do Rio Itaim-Assu, os primeiros currais de gado começaram a aparecer, ao lado de uma grande invenção daquelas civilizações antigas, a enxada, usada como arado para revolver e renovar os substratos da terra.
Casinhas de taipa iam se aglomerando, em torno das outras, habitadas pelos descendentes dos colonos que foram os primeiros sesmeiros dos lotes de terras da região dos Caratius. Em 1770 é construída uma capela, em homenagem ao Senhor do Bonfim, uma imagem de madeira vinda da Bahia a mando de Dona Luísa da Rocha Passos.
O povoado, denominado Piranhas, que brotava do descampado subjugado a machado, facão e foice, possuía dois marcos de referências importantes, motivo de orgulho para seus habitantes, a branca capelinha com um cruzeiro de madeira fincado no alto de sua fachada, onde o Pe. João Ferreira dos Santos, da Vila de Marvão, vinha em comissão de evangelização, para a desobriga dos sacramentos, batizados e casamentos e o intermitente Itaim- Assu, o rio das pedras grandes, com suas águas transparentes e puras e que, já nas proximidades do povoado, é chamado de Potingh - afluente do grande rio, na linguagem indígena, ou com o poético significado de águas de camarão - quando parte em fuga, rumo ao paredão da Ibiapaba.
O filho das nascentes da Serra da Joaninha, já deixara de correr em sua calha seca, pois a época invernosa já passara, mas fica decantando como lâmina espelhada nos poços, largos e profundos, repletos de peixes: curimatãs, piaus, traíras, mandis, cari-bodós, branquinhas, surubins e as carnívoras piranhas, vermelhas ou pretas, mas todas perigosas com dentes serrilhados, afiadíssimos e um faro muito apurado para o sangue! Todos os poços eram infestados destes peixes vorazes, daí o nome da bucólica localidade: Piranhas! Alguns até chamaram o velho e intermitente Rio Poti de o rio das piranhas!
 Os habitantes do lugarejo, ao perceberem a poeira levantada pelo redemoinho em pleno meio-dia, fazem o “pelo sinal” para afastar um Saci Pererê que passa, à luz do dia, rodopiando em desafeto e dissipando ofensas. Muitos compram água das cacimbas do Retiro, cargas transportadas em canecos pelos incansáveis jegues e enchem os potes de beber e os tachos de banho. A maioria vai tirar a poeira do dia-a-dia e dos empoados remoinhos trazidos pelo negrinho de uma perna só, nos banhos da Goela e do Curtume, arriscando uma mordidinha da famigerada piranha.
A boca deste peixe, quando fechada, engana os imprudentes, parece banguela, mas numa rapidez tremenda abocanha a sua presa e o sangue escorre fazendo com que todo o cardume entre em desenfreada frenesi e, em poucos minutos, só restará um alvo esqueleto, raspado a navalha, do que antes fora vida. Era um espetáculo horrendo, um show cruel do peixe carnívoro no leito do Rio Poti, capaz de fazer inveja às películas de terror da indústria cinematográfica de Hollywood.
Algumas localidades conservaram seus nomes de peixes, como Jardins das Piranhas (RN), Peixe-Boi (PA), Peixe-Gordo (CE) e mesmo a cidade de Piranhas em Alagoas, banhada pelo majestoso Rio São Francisco, onde ficaram expostas as cabeças de Lampião, Maria Bonita e nove cangaceiros decapitados, todos à mostra infame, na escadaria da Prefeitura Municipal daquela cidade peixeira.
Quando o historiador Antonio Bezerra esteve em Cratheús, no ano de 1884, foi tomar banho nas águas famosas do Curtume, e ficou sabendo que: “Há muitos anos, um grupo de senhoras tendo ido banhar-se naquele poço, uma caíra inesperadamente na água e, fora assaltada pelas piranhas ( Serrasalmus piranha).  As companheiras pedem socorro, e chegando um preto nadador, não mede o tamanho do seu sacrifício, atira-se ao fundo do poço, saindo à riba oposta com o precioso fardo, mas em vez de ter salvado uma preciosa mulher, traz um esqueleto horrivelmente mutilado. O nadador não sofreu a mais leve arranhadura.”
A literatura crateuense é rica em espetáculo macabro das piranhas, quando estas carniceiras ainda existiam no bojo do nosso querido rio, porém, hoje,  maltratado e abandonado. Conta-nos o Senhor Norberto Ferreira Filho no Livro Fatos e Cousas do Passado sobre as piranhas do Poti: “Estávamos no verão de 1931. Grandes farras já se faziam naquele tempo. Depois de uma dessas festas, alguns jovens operários rumaram para o grande poço denominado Curtume, ponto tradicionalmente preferido pelos que gostavam de natação. Eram quase seis horas da manhã e já se retiravam os banhistas, o Lourenço da Cecília disse que ia dar mais um mergulho e, por ironia do destino, antes de pular da lisa pedra do mandi, falou “Adeus, negrada”. E daquele mergulho não voltou mais o Lourenço e sim, um corpo com o rosto todo comido por peixe carnívoro, que é a piranha.”
Há muito que o Rio Poti não é mais o mesmo, pois está mais morto que vivo, resistindo às agressões humanas com a força que a natureza guarda para se reconstruir e me lembra o Tietê paulista, cheio de sulfitos e sulfatos, consequências de uma irresponsável poluição. Com o projeto de saneamento da cidade de Cratheús era de se esperar que, uma revitalização de nossa artéria vital ocorresse, mas num determinado dia ensolarado, a CAGECE solta grande quantidade de uma amarelada salmoura química da estação de tratamento e a vida que existia no leito do rio, a contar da velha Fazenda Boa Vista, passando pelo Morro Alegre, pelo Quirino e descendo até o Vale da Ibiapaba, pereceram todas: garças, socós, mergulhões, cagados, e os peixes... Todos mortos! Acho que, as famintas piranhas que sobraram, ainda estão por aí, na expectativa, em espreita nos açudes limpos da região, aguardando que o sofrido Rio Poti um dia respire e reviva, para que possam voltar!
Sonho com o Poti dos poços translúcidos e limpos de minha infância e até nas manchas oleosas de suas águas poluídas vejo o voo branco das garças transbordando de sua paisagem, e não quero mais essa solidão de suas águas poluídas que se mostram como túmulo do silêncio.
Sonho com o Poti dos poços translúcidos e limpos de onde, um dia, surgiu o povoado de Piranha, evoluindo para uma bucólica Vila chamada Príncipe Imperial, hoje a promissora cidade de Cratheús, como brotou Ur, Biblos e Jericó nas margens de seus caudalosos rios...
Sonhos com o Poti dos poços translúcidos e limpos, mesmo que o veja, novamente, infestado de horríveis piranhas carnívoras!

Raimundo Cândido

José Alberto de Souza disse...
Abençoada a comunidade 
que dispõe de um poeta-historiador 
para preservar a sua rica memória 
em registros pictóricos 
de artísticos coloridos.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013


Carlos Mourão (RENAP) e André Feitosa (ARPIA) no Debates ADUFC na última segunda-feira (2/9) sobre "Direito à Resiliência na Ocupação do Cocó: Enfrentamento Jurídico e Psicológico ao Estado-de-Violação" (Foto: Assessoria ADUFC).
 
"Um dos melhores debates que tive a oportunidade de assistir nos últimos tempos! Uma abordagem séria, consistente e original. Parabéns ADUFC e palestrantes André Feitosa e Carlos Mourão.

Tânia Batista

 
"Concordo Tânia. Também estive no debate. Muito esclarecedor. Sugeri ao Carlos Mourão - a esquerda e meu filho -  e ao André que expandisse o debate a outras Universidades, Faculdades, Colégios. Há necessidade do público conhecer sobre os reais motivos que determinaram a ocupação do Cocô.  E, o mais grave, a reação autoritária e agressiva do estado e do município por ação da força policial".

 
Silas Falcão

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pombal – Os pássaros de fogo!


             A divina catálise do fogo foi e sempre será uma afluência necessária... Um crepitar de labaredas, cauterizando, purificando as maturações orgânicas que estalejam aos ouvidos... Isso, desde o começo das eras! Uma purificação de ardências em brasas, pelo calor que ilumina e cega, transformando em cinzas um velho mundo caduco, fazendo emergir, de um quase nada, o súbito porvir. E foi assim que surgiu a Caatinga, numa ardência disforme e despretensiosamente tosca!
Quem já esteve no epicentro de um agitado pombal, com milhares de avoantes em revoadas aleatórias, percebe que o calor é o pai da vida... E também da morte! A quantidade fabulosa de pombas-de-bando que se assusta e levanta voo, simultaneamente, faz lembrar o ruído de uma locomotiva resfolegando em marcha acelerada: - Ôooo... Ôooo...  O Pombal, uma colônia reprodutiva gigantesca, é um forno inclemente pela alta incidência dos raios solares e pela quentura viva, emanada dos corpos dos incontáveis columbiformes, desesperados com a invasão do sacrossanto local de postura, e chegam a partir galhos, quando pousam. Os caçadores não fazem pontaria, não miram... Atiram no bolo em revoada constante e as coitadinhas das aves nem fogem dos estampidos das espingardas, que só intensificam o calor, a escorrer das frontes concentradas de Júlio de Maria e do certeiro mestre Doca, preocupados em não pisar numa cascavel que se farta com os milhares de ovos e com os empenujados filhotes, postos ao leu pelo chão irregular do carrascal arbustivo de ramos secos e retorcidos da inóspita caatinga, próximo ao grande açude de São Francisco.
Sempre voando, em massa prodigiosa, as ribaçãs deitam ao chão uma quantidade imensa de ovos, que atraem de suas tocas os gulosos teiús e as terríveis cobras, mas também convida o esfomeado sertanejo de sua rústica cabana, para o farto banquete a céu aberto.
À beira do açude São Francisco, no crepúsculo vespertino, o caçador Quidé prepara uma invisível forja e se camufla com galhos secos e sob um manto de terra batida, aguardando que as avoantes, com os papos cheios de grãos maturados no chão ressequido da caatinga, sementes de marmeleiros, de mufumbo, de bambural, de jurema e favela, venham matar a incontrolável sede. Uma coluna cerrada, num acinzado denso, aparece no horizonte como uma nuvem compacta que voa sem interrupção. A secura é enorme, e elas descem num funil de turbilhão, tremeluzindo as asas de prata e com uma plumagem de ouro esmaecida pelos últimos raios de sol. Os pássaros de fogo pousam nas margens e, sem perda de tempo, mergulham a cabeça num glub, glub, glub de desespero e sequer notam as companheiras sumindo na flor d’água, pelas hábeis mãos de Quidé.
Depois que o bíblico povo de Israel fugiu para o deserto e após muitos dias de fome, queixam-se a Moises: - Teria sido melhor que o Senhor tivesse nos matado no Egito! Lá, nós podíamos, pelo menos, nos sentar e comer carne à vontade! Deus manda um recado pelo Profeta: - Diga a eles que hoje à tarde, antes de escurecer, eles comerão carne em abundância. E fez chover uma incrível quantidade de avoantes, pássaros do fogo de carne amarga, fatigados de um longo vôo numa rota de arribação!
Como os Árabes do deserto e os Judeus errantes, os retirantes cearenses na grande seca de 1888, também foram salvos pela Providência Divina por um bando incomensurável de avoantes, mas os irmãos sertanejos não praguejavam pela dura sina imposta pelo cruel tempo, pois antes de tudo, mesmo inocentes injustiçados, são uns simplórios no modo de vida e de respeitável vigor de agreste alma!
No mês de setembro as pombas, zenaidas aureculatas, se despedem do sertão nordestino e levantam vôo, como as andorinhas, arribam para o longínquo sudeste. Vão nidificar nos canaviais de São Paulo e Paraná, onde encontram uma alimentação abundante nos cotilédones de soja que brotam do chão, nos grãos de trigo e nas sementes dos imensos arrozais, sendo consideradas pelos agricultores sulistas como animais sinantrópicos e por isso, combatidas por todos os meios, como uma pesada praga bíblica.   
Como um repentino sereno que libera o cheirinho gostoso de terra molhada, o calor dos fogões liberta o alifático cheiro de um café torrando, ou o infiltrante anel aromático de um peixe sendo frito ao meio dia, à hora da digníssima fome.  A divina catálise do fogo foi, e sempre será, uma afluência necessária... Principalmente na hora do almoço! Um vento brincalhão passa pelo crepitar das brasas, de uma casa vizinha ao Ceja Prof. Luiz Bezerra e nos traz um cheiro característico e raro, um petisco sendo preparado com esmero, e indica a atividade recente de um caçador. O professor André pergunta-me: - Oh, aí, Raimundo! Sabe que aroma é esse?
                Desde aquele dia, em que o caçador Júlio de Maria chegou em casa com um saco cheio de avoantes,as quais tivemos de depenar e tratar com muito cuidado, que este aroma e este sabor, de rara iguaria, não larga da minha mente!
                Os espertos caçadores, tentando burlar o negrinho de uma perna só, com seu cachimbo e com barrete vermelho, não mais atiram, para não atrair os colegas do Saci Pererê,  funcionários do IBAMA. Eles inventaram uma arapuca feita com varas de uma única entrada, sem saída, e pegam, silenciosamente, dezenas de avoantes enquanto essas tentam encher o papo pela capoeira aberta no eito de um deserto sertão.
                A Caatinga, com seu crepitar de labaredas, cauterizando, purificando as maturações orgânicas que estalejam aos meus ouvidos, nesta época impiedosa de contínua seca, me fala de aspirações e de longínquas saudades, pois também tenho alma incerta no eterno desejo de arribação!
                   
                Raimundo Cândido


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

E Viva o Brasil Criativo!

                                                                     Claudia Leitão

Gostaria de informar a todos os amigos, colegas do MinC e parceiros da Secretaria da Economia Criativa (SEC), especialmente ao campo cultural e criativo brasileiro, que não faço mais parte da equipe gestora do Ministério da Cultura.
 
Durante dois anos e meio, eu e minha equipe nos dedicamos a estruturar e institucionalizar, dentro do Sistema MinC, uma Secretaria voltada à formulação, implantação e monitoramento de políticas públicas que contribuíssem para a qualificação de um projeto de desenvolvimento em que a cultura fosse considerada um eixo estratégico.
 
Acredito em uma economia criativa capaz de fomentar solidariedades entre os indivíduos, cooperativismo nas práticas comerciais, e desenvolvimento sustentável nas diversas regiões brasileiras. Diferentemente dos modelos de desenvolvimento das chamadas “indústrias criativas”, propusemos e advogamos, desde que chegamos ao Ministério, uma economia criativa fundamentada na valorização de nossa diversidade cultural, na sustentabilidade econômica, ambiental e social, na inclusão produtiva e na inovação, ressignificada pela dimensão simbólica da cultura.
 
Na importante e definitiva formulação proposta pelo Ministro Gilberto Gil, em 2003, a cultura foi compreendida de forma complexa e, por isso, considerada a partir de suas dimensões antropológica, cidadã e econômica. Penso que o MinC avançou nas duas primeiras dimensões, mas ainda carece de políticas públicas que fortaleçam a dimensão econômica da cultura. Especialmente, a “economia política” da cultura. A SEC assumiu esse papel, a partir de 2011, enfrentando quatro grandes desafios relativos à economia da cultura: a produção e difusão de dados confiáveis sobre os setores criativos, a formação dos profissionais, o fomento aos empreendimentos e, por último, a construção de marcos legais capazes de potencializar novas dinâmicas econômicas para os segmentos culturais e criativos em nosso país.
 
Vários mitos envolvem a gestão cultural, especialmente, no que se refere à formulação de políticas que valorizem a dimensão econômica da cultura. É tarefa do Estado enfrentá-los, sob pena de se reduzir a economia às visões liberais e à primazia do mercado, reduzindo-se, por consequência, os bens e serviços culturais ao jugo da produção cultural de larga escala.
 
A SEC nasceu com a missão de contribuir para a formulação de políticas públicas, ao mesmo tempo macroeconômicas (voltadas aos estudos e pesquisas, ao território e aos marcos legais) e microeconômicas (dedicadas à formação, ao fomento e às redes e coletivos). Políticas públicas para a economia criativa brasileira só podem ser formuladas a partir da produção de conhecimento sobre o campo cultural e, por isso, a primeira tarefa da SEC foi a de estruturar o Observatório Brasileiro da Economia Criativa, o OBEC, que foi institucionalizado no dia 1º de junho de 2012, juntamente com a própria Secretaria.

Penso que um dos maiores legados da SEC são as parcerias construídas com os ministérios, as secretarias, as agências de fomento, o Sistema S, o terceiro setor, as universidades, o Congresso Nacional, e, principalmente, a interlocução sempre instigante e enriquecedora com os artistas, produtores, empreendedores e profissionais dos setores criativos de todas as regiões do Brasil. Tenho certeza de que o Ministério da Cultura ganhou maior transversalidade com a criação da SEC, sobretudo nas discussões relativas aos papéis da cultura na qualificação de um novo desenvolvimento local e regional, fundado na valorização dos micro e pequenos empreendedores culturais e criativos desse grande País.
 
Os desafios da Secretaria não têm sido pequenos, mas, graças ao apoio, cumplicidade e incentivo que recebemos dos nossos parceiros, conseguimos que a economia criativa integrasse políticas públicas de várias pastas dos governos federal, estaduais e municipais.
 
Aprendi muito com a SEC, mas, sobretudo, construí afetos e compartilhei muitos sonhos! Saio do MinC segura de que produzimos a várias mãos os alicerces de uma Secretaria para o século 21, disposta a enfrentar as assimetrias sociais e econômicas brasileiras a partir e através da criatividade das nossas gentes.
 
Inúmeros países e organismos internacionais vêm convocando o Brasil a exercer um papel de liderança, seja na formulação de políticas para a sustentabilidade do planeta, seja na afirmação do valor da diversidade cultural em nossa democracia, seja, ainda, na construção de uma economia mais justa. Esses desafios foram sempre nossa bússola nessa curta, mas importante caminhada.
 
Por isso, acredito firmemente que a institucionalização da temática da economia criativa no Governo Federal produzirá, a médio e longo prazos, impactos extremamente positivos para a sociedade brasileira. Afinal, políticas estruturantes não se constroem a curto prazo. Seu tempo é o da criação e do enraizamento, tempo de plantio, que não se submete aos mandatos políticos nem aos interesses sazonais de pequenos grupos.

Por outro lado, uma política estruturante não pode nem deve prescindir do debate conceitual e acadêmico, assim como da escuta da sociedade, e ao mesmo tempo, não deve subestimar a importância do planejamento e da gestão estratégica. Políticas públicas são por natureza republicanas, fruto da participação social e do exercício cotidiano da transversalidade e da concertação entre políticas. Enfim, políticas públicas não podem prescindir da vontade política dos Governos.
 
Na minha passagem pelo MinC, tive a honra e o privilégio de conversar sobre os desafios e as perspectivas da economia criativa brasileira com a presidenta Dilma Rousseff, e de receber dela a tarefa de construir, em parceria com catorze ministérios e sob a coordenação da Casa Civil, o Plano Brasil Criativo. Trabalhamos durante um ano (2011/2012) para produzir um documento ambicioso, fundamentado na transversalidade de políticas e na integração de programas cujo maior público alvo seria a juventude brasileira. Espero, para o bem do Brasil, que ele possa um dia ser implementado, passado o primeiro momento de institucionalização da temática da economia criativa no país, assim como da chegada dos primeiros programas estruturantes da SEC nos estados e municípios brasileiros.

As bases de um “Brasil Criativo” já foram lançadas: “Criativas Birôs” começam a ser implantados nos estados com o suporte técnico-metodológico do centro de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília (CDT/UnB); Observatórios Estaduais passam a ser instalados nas Universidades; editais de apoio a incubadoras e à gestão de empreendimentos criativos com inscrições abertas; arranjos produtivos locais intensivos em cultura em processo de chancela, para serem beneficiados com a elaboração e pactuação de Planos Estratégicos de Melhoria da Competitividade, em todo o país (em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - MDIC); Centros de Vocação Tecnológica (CVTs) começam a dedicar sua formação para as cadeias produtivas dos setores criativos (o primeiro deles será o CVT do carnaval no Rio de Janeiro, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia- MCTI); um Programa de Ensino Superior para a Economia Criativa Brasileira ( em parceria com Ministério da Educação – MEC) já desenhado. E mais. Com o CNPq, teremos, ainda esse ano, linhas de pesquisa em economia criativa nas Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa em todo o país, e, com o IBGE, em 2014, as primeiras pesquisas econômicas sobre o campo criativo brasileiro que serão lançadas pelo Observatório Brasileiro da Economia Criativa: pesquisas estaduais de cultura (as ESTADICs), nova edição pesquisa municipal (MUNIC) e, finalmente, em 2015, a Conta Satélite da Cultura (em parceria com o Ministério da Fazenda e do Planejamento). A todos que desejarem conhecer todas as ações da SEC, sugiro consultar nosso relatório pormenorizado de gestão, disponível em nossa página no site do MinC, link
http://migre.me/fNSU6.
 
Com catorze meses de existência, a Secretaria da Economia Criativa já tem muito a comemorar e a agradecer. Meu agradecimento às ministras Ana de Hollanda e Marta Suplicy, aos colegas do Ministério, à minha pequena e brava equipe da SEC, aos criativos brasileiros, com quem compartilhei sonhos e utopias. Gostaria de expressar minha eterna gratidão a duas pessoas especialíssimas, dois professores e gestores públicos que imprimiram, a partir de seus ensinamentos, as marcas da “paternidade” e da “maternidade” da Secretaria da Economia Criativa. Meu carinho e profunda gratidão aos professores Paul Singer e Tânia Bacelar.
 
Por último, gostaria de ressaltar que vários homens e mulheres vêm construindo e sonhando com um “Brasil Criativo”. No contexto efervescente dos anos 50 e 60, a arquiteta Lina Bo Bardi construiu um museu de arte popular em Salvador, espaço que permitisse o diálogo entre o conhecimento acadêmico e o de mestres artesãos, para a formação de um desenho original e brasileiro. A arquiteta vislumbrava desenvolver um Centro de Estudos e Trabalho Artesanal e uma Escola de Desenho Industrial, onde haveria troca de experiências entre os estudantes de arquitetura e design e os artesãos. Tratava-se de um projeto político e, por isso, foi abortado em 1964, pela ditadura militar brasileira.
 
Por isso, faço questão de registrar e de enfatizar que a Secretaria da Economia Criativa nasceu à sombra do pensamento do economista e ministro da cultura Celso Furtado. E, enquanto proposta de um modelo de desenvolvimento para o Brasil, a SEC constitui também um projeto político. É para Celso Furtado que dedicamos o legado do que construímos. E viva o Brasil Criativo!
 

Ministério da Cultura - Relatório de Ações da Secretaria da Economia Criativa 2011-2013 - Ações www.cultura.gov.br

Postagem: Silas Falcão

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Madona de Guido



A Rua Dr. Moreira da Rocha – governo entre 1924 a 1928, quando o Ceará enfrentou a Coluna Prestes, a Sedição de Juazeiro, a indesejada visita do Bando de Virgulino Ferreira Lampião – é uma intensa artéria que nos vincula ao mundo! Partindo da frente da saudosa Radio Educadora, a rua logo se transmuta em CE 187, em BR 404 e daí, campeia-se a amplidão de um ermo sem fim! Mas, logo no primeiro quarteirão, ouve-se pisadas apressadas e o rumorejo de vozes na ansiosa lida de um forte comércio que vigora a cidade.
Em frente a um desfigurado Mercado Público, nº 478, ler-se numa empalidecida fachada comercial: Ótica Santa Luzia, e é lá que trabalha um talentoso artífice, artesão afeito arquiteto, um poeta concreto em fluídas orações como art déco, o artista da luz e do vidro, um especialista em óptica com alma musical chamado Antônio Guido Brito, ou como ele prefere: Guido D’arrezo, em honra e glória ao monge criador das neumas, o sistema de sinais que determinava aonde a voz humana deveria elevar-se ou baixar-se, revolucionando a história da música. 
Entro na estreita loja, parecendo-me um longitudinal trem e percebo um ateliê de obras de artes que se esparramam pelos quatro cantos, capelas de vitrais coloridos, sugestivas mandalas circulares, impressionantes quatros multiformes em pintura à óleo intitulados Segmentos de Transgressões. Demoro-me, defronte de uma grande tela, tentando entender o emaranhado de figuras, em traços agradáveis e cores alegres, com o símbolo Yin Yang de equilíbrio de forças, gerando um imenso sol a refletir-se sobre um invulgar oceano de peixes, sobre uma exótica natureza e sobre um nicho musical de guitarras com as neumas do Monge de Arrezo.
O mestre Guido aproxima-se, de surpresa, e percebendo minha atenção presa a um violão transgressor, que pula de um quadro a outro da tela, pergunta-me a queima roupa, com um sorriso de bom dia no rosto:
- Professor, você sabe o que é o som?
Também sorrio, retribuindo o simpático bom dia e cheio de sabedoria professoral, respondo: - Guido, som é uma onda mecânica que precisa do ar para se propagar!
O artista-poeta completa a informação: - Isso é o som físico da sua sala de aula, professor! Mas este que você está tentando captar da tela é um lembrete que Deus nos deixou de que existe algo, mais além! A música está ao nosso redor, Raimundo, basta ouvi-la!
Era exatamente o quadro que ele havia me pedido para inscrevê-lo, pela internet, no Concurso Santander Cultural Talentos da Maturidade, em Minas Gerais, do qual ele já é um veterano participante e colecionador de certificados. Fico observando uma velha estante com as prateleiras repletas de filmes e DVDs, inclusive uma coleção completa do cantor e dançarino Michael Jackson, do qual é fã. Minha atenção logo se volta para o que mais me atrai nos trabalho de Guido D’arrezo, as Ermidas, capelas de vidro coloridos, de todos os modelos, inclusive em forma de floral, espalhadas pelo Ateliê, tudo pela irrestrita paixão por Nossa Senhora e, sobre a mesa, ainda repousa a última peça da qual deu os últimos retoques de acabamento no castiçal e na hóstia, que brilham ao fundo. Elaboradas com paciência, esmero e carinho para abrigo da Mãe do Senhor.
Vendo uma imagem sobre uma estante, que ouso chamar de a Madona de Guido, por ser única, em acrílico que brilha no escuro adquirida à décadas na Casa Íris, de Irismar Frota, e que ele guarda na ermida do coração, e de supetão, também pergunto:
- Guido, de onde vem esse teu amor por Nossa Senhora?  
Se tivesse deixado ele ainda estaria contando a história, de apego, de apreço e amor, da paixão de um artesão que todo dia reza o terço e fabrica com carinho, como um sagrado poeta-ermitão as capelas de vidro coloridos que estão espalhadas pelo Brasil. Ele diz: - Quando a Santa Peregrina saiu de Crateús e foi para Teresina, eu, ainda menino, estava lá! E impressionei-me com aquela festa e com a força da fé do povo! Até hoje faço capelas para Nossa Senhora e só tive de construí uma ermida diferente, uma dupla, que foi para São Cosme e São Damião.
As ermidas fabricadas por Guido são como uma nova coroa para Nossa Senhora, pois a revestem de uma luz colorida, refratada das placas de vidros, como o apaixonado Poeta José Coriolano um dia a revestiu de poesia: “Sim, Maria, meu anjo, terno encanto! / Quanto te amo, dizer não sei, não posso. / É amor que não pode ser descrito / Porém nele o rigor d’ausência adoço!”
Os imensos papelões circulares, cuidadosamente empanados, endurecidos com cola e tinta acrílica são usados para as mandalas, excêntricas, exotéricas, que nos põem a meditar. Dezenas, dependuradas nas paredes, do começo ao fim do imenso carrilhão que é o ateliê de Guido. Pode ter sido uma mera impressão minha – Isso mesmo, pois às vezes vejo coisas que não existem! – mas percebi uma pontinha de saudade incrustada nas palavras, quando ele me disse que fez uma das mandalas a pedido da professora Toty Azevedo!
A Torre Eiffel, uma imensa treliça de ferro, montada por um batalhão de trabalhadores no Campo de Marte em Paris, com seus 324 metros de altura não me impressiona tanto quanto as Torres de Guido, uma réplica de 2.20 metros de altura feita de vidro... De placas de vidro e espelhos, pacientemente colados, peça por peça.   Isso sim, é que é uma verdadeira obra, um louvor a arte e a paciência humana. Imagine construir, não uma, mas quatro destas belezocas e espalhar pelo mundo, só  mesmo o grande Guido!
Encanto-me com uma das capelas coloridas difundindo fé e luz e a adquiro do oculista-artesão. Trago-a para casa e deposito carinhosamente uma Mandona que a professora Maria Delite, incansavelmente, dirigia as suas orações! É uma ermida aconchegante, revestida de carinho, para que possa bem acolher, as duas digníssimas mães e, para que não deixem de olhar por aquele a quem a saudade teima em não querer acabar! Acho que elas, as duas Maria, vão gostar!

 Raimundo Cândido

terça-feira, 27 de agosto de 2013

BAZAR DAS LETRAS ENTREVISTA O POETA DIDEUS SALES



Carlos Vazconcelos (D) mediando o Bazar

Público atento. E aplaudiu bem o poeta.



Abraço Literário sempre prestigiando o Bazar das Letras
Poetisa Rosa Morena e Silas Falcão



Abraço Literário.



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cabra declamador


                                                        Tu, cabra declamador:
                                                        que gosta de uma boa rima,
                                                        aspirina, cafeína, cafetina
                                                        em voz de choro e de furor,
                                                        em farto riso e copiosa dor,
                                                        quero ver se é bom recitador
                                                        se conseguir sem se engasgar,
                                                        sem presunção, sem se alongar,
                                                        na apropriada  entonação,
                                                        com alma, timbre na marcação,
                                                        imitar na firmeza de toda cerda
                                                       o grunhido do bacurim na merda,
                                                       misturando tudo, feito incréu
                                                       e sem faltar uma virgula ou trema,
                                                       com a aguda risada da sariema
                                                       e o esgoelado alarme do tetéu!


                                                              Raimundo Cândido

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A Praça da Matriz - O coração da cidade!


             Quando a comitiva do historiador, autodidata e polígrafo (aquele que redige sobre o que o nariz aponta) Antônio Bezerra de Menezes, na 4ª etapa de uma Viagem Científica de reconhecimento pelo interior do Ceará, chega à Vila Príncipe Imperial, no dia 13 de novembro de 1884, resolveu descansar um pouco. Fica, cinco dias, hospedado na casa do Sr. Francisco Coelho Ferreira, na Praça da Matriz. A esgotada tropa de animais descansa na Rua da Beira do Rio, ruminando o verde capim das margens do Poti, pois o percurso fora longo, desde a cidade do Ipu, no sopé da Serra da Ibiapaba. Já colhera as informações sobre o povoado com o Reverendo Macedo e o Juiz Municipal Antônio Gomes de Macedo Coutinho, sobrinho do padre. Agora, sentado num rústico tamborete, papéis sobre a mesa, faz os apontamentos para as Notas de Viagem. Escreve: “Esta Vila, situada na margem esquerda do Rio Poti, se compõe de uma espaçosa praça em cujo centro se acha a Igreja da Matriz, um templo pequeno, mas bem construído e ainda sem as duas torres.O sino alojado no lado esquerdo, sob um telheiro, é de onde o sacristão anuncia as horas que orientam a vida na vila, as últimas badaladas soam, exatamente, às 9 horas da noite. O povoado tem poucas ruas, com largos intervalos sem edificações, que se estendem de nascente a poente”
É a Praça da Matriz, exalando as primeiras inspirações bucólicas, florejando num instante de puberdade, alargando-se no poeirento chão de terra batida.
Na divagação sobre a Vila, surge nas veias do historiógrafo-poeta uma vontade de versejar, mas como afirmara João Brígido, um dos seus desafetos literário, faltava-lhe a tecla da inspiração. E eis que, repentino, é desperto por um ruído agradável, ininterrupto, vindo de longe, como se fosse a poesia chegando.
— nhein...nhemheinin...renheinhein...onooonnnn...nheim...
Sai a porta, olhando para a praça, e deslumbra-se com o que, naquela época, já se transmuta em momento de saudade. O canto lamentoso, como um gemido de dor, que passa em frente à Igreja, rumo a Boa Vista dos Correias. Quem ouviu, ouviu. Quem não ouviu, não ouve mais o murmúrio doce do carro cantador puxado por uma junta de bois, o primeiro veículo do Brasil. O carreiro caminha ao lado com o ferrão na mão, uma vara comprida e pontiaguda. Comanda os bois com ordem vocais:  —Ôooooo, êeeeeeeeee boi!—Õa, ôa Mimoso!
O escritor volta à mesa, para terminar de descrever a vila, com o Rio Poti, os banhos no Curtume e as cruzes enfincadas nos caminhos do sertão pelo monge capuchinho Frei Vidal da Penha, mas o canto poético não lhe sai da mente, nhein...nhemheinin...do carro de boi que descortina-se no horizonte decaindo para o poete, terra do poeta Coriolano, um massapé torrado e brusco onde nasceu o valoroso e eterno touro fusco.
Por falar em príncipe dos poetas, fundador da literatura do Piauí,que influenciou Castro Alves em alguns versos no épico Navio Negreiros, José Coriolano, ele mesmo, relata em carta a um amigo que o marco inicial da cidade de Crateús foi a construção de uma casinha, para abrigar os frades franciscanos que vinham em missão de evangelização, no povoado de Piranhas. Posteriormente, segundo ele, no mesmo local foi erguida uma igreja, que hoje é a Matriz da Diocese. Antes de uma capela, portanto, houve um alojamento, para o descanso dos franciscanos que percorriam os rincões do Vale do Poti, na nobre missão de pregar o evangelho. Era uma rústica latada de pau-a-pique com cobertura de folhas de coqueiros, entre os mandacarus e algumas frondosas árvores, onde se amarravam os animais.
Da primeira capelinha de taipa(1769), no largo terreno central do povoado de Piranhas,  principiou-se o esboço de uma Praça, que será o pulsante coração da vila, a princesa do sertão.
 Em 1770 é construída, no lugar do tosco tapume, uma capela em alvenaria sólida, tijolos de 17 quilos, tão fortes quando a fé que fervilha na alma do sertanejo aterrorizado pelas imagens horríveis de um purgatório, pintada pelo Pe. Serafim.  O Cel. José Amâncio, sentado numa cadeira de balanço, na calçada de sua casa, olhando para a mureta que circula a Igreja, predizia: -Nosso primeiro sacerdote foi o Padre Serafim e o último será um Bonfim! Levando em consideração uma era, ele acertou em cheio!
Com a chegada de uma imagem esculpida por santeiros da Bahia, conduzida por escravos, em 1792, numa fantástica viagema pé e a mando de Dona Luiza Coelho da Rocha Passos, a Praça da Matriz ganhou novo impulso. A Catedral Senhor do Bonfim, de paredes espessas e dilatáveis como a grossa artéria de um coração-praça, bombeia fôlego e vigor que vitaliza a cidade. A capela de Dona Luiza cresceu de reformas em reformas (Pe. Macedo, Pe. Rosa, Pe. Juvêncio e Pe. Bonfim) chegando à Catedral. A construção das Torres da Igreja, como dois braços implorando aos céus, rogando-nos bênçãos, completara-se com o assentamento da estátua do Cristo Redentor, numa proteção divina.
Existia, numa das solitárias esquinas da praça uma velha casa de taipa, teimosa ruína subsistindo ao inclemente sol e às águas invernosas, que testemunhou o soerguer dos primeiros casarões dos coronéis numa época de indultos fáceis e aquiescência de títulos, comprados de acordo com as posses dos ricos fazendeiros. A antiga tapera viu subir o serpenteado  da fumaça dos fogões a lenha em plena praça, escutou o barulho da fábrica de cigarro e ouviu o tilintar dos vinténs jogados pelo janelão do sobrado da Rua Santos Dummont para os desafortunados sertanejos na cruel seca de 1877. De um Quartel General, na Rua Firmino Rosa, um heroico Capitão Peregrino mirava a torre da Igreja, e nem imaginava o futuro duelo com os revoltosos esgotados, que vinham numa interminável marcha de esperança e sonhos. E na Rua do Poeta José Coriolano, onde já havia um busto lustroso estampado no ar, o comerciante Mariano Raimundo Cândido sai, orgulhoso à porta, expondo aos raios matutinos, o primeiro rebento da professora Maria Delite, sua esposa.
Como uma autêntica acrópole grega, a praça exibe-se, naturalmente exuberante. Como um lugar sagrado, sacrário da alma, o coração de um povo sofrido. Como uma poética sala de estar que é constantemente remodelada de acordo com o mero desejo de um gestor, na vontade de se perpetuar na sua estampa. Num forçado metamorfismo, uma indelicadeza com um rico passado e, assim, a praça passa uma borracha no nome de quem, intencionalmente a transforma. O Paço do resplendor ilumina-se por si, e bem reluz!
Das missas campais, a do cinquentenário da cidade foi inesquecível, com a inauguração de um obelisco egípcio, um quadrante solar em plena praça, guardando, na base de concreto, uma cápsula do tempo que ninguém leu.  As animadíssimas quermesses da Igreja, no mês de Junho, o tempo deletou...  A mão que constrói, também aniquila, como o cruel e huno Átila, e o belíssimo coreto circular, ao lado da catedral, foi apagado.  Cadê os Jovens que, após a missa das 9 horas, iam se deliciar e paquerar na Sorveteria Itália que logo se transformou num inferninho, chamado Barril?  E a noturna e velha praça, giroscópica, em circunvolução de verso e reverso, com as flores-meninas, belas de olhar com cheiro de pétalas?  Como afirmou um velho poeta: “A minha saudade, até agora, rodopia, de tanto lembrar!”
Hoje, uma felicidade, como um invisível vaga-lume, continua a vaguear pelo Largo da Matriz e se senta no banquinho entre as flores de um jardim, aspirando ao aroma gorduroso de presunto e ovos fritos, sem a malemolência opaca da antiga Vila Imperial e da poética vida de outras horas. Um modernismo trouxe uma Praça de Alimentação, com um desespero e uma pressa de viver, ouvindo a canção alegre de um povo fingido e triste. E o saudoso vaga-lume da felicidade, sentado no seu banquinho da praça, relembra uma canção triste, orquestrada no velho coreto da Matriz e animando, no coração da cidade, o povo alegre e resplandecente de outrora.
Raimundo Cândido


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quarta-feira, 21 de agosto de 2013


SOBRE O LIVRO:

“O poeta e escritor Dideus Sales nos encanta com Luiz Gonzaga, muito além de um sanfoneiro, luminosamente ilustrado por Audifax Rios, uma das mais belas e emocionantes homenagens que já se renderam ao criador de Asa Branca e Assum Preto...” EDMÍLSON CAMINHA.

“Encantamento redobrado é quando nos deparamos com poeta cantando e contando a história de outro poeta. Eis que o poeta Dideus Sales dedilha sua lira e em versos cheios de fervor e melodia, conta a vida do filho de Januário, num preito de ímpar homenagem àquele cuja voz soa à audição do povo nordestino como um hino perene de estímulos à resistência e à luta pela liberdade e pelo direito inalienável a uma vida digna. A inteireza da obra se confirma com o traço inconfundível e também eivado de sugestões poéticas de Audifax Rios (...) a encher nosso olhar de terra, coisas e povo do sertão.” 
BARROS ALVES


SOBRE O AUTOR:

DIDEUS SALES, Poeta, Escritor, Radialista, Folclorista e Produtor Cultural. Nasceu na fazenda Várzea do Canto, Independência – Ceará e criou-se em Crateús. Verteu parte de sua produção poética para o áudio, lançando os CDs “Frutos Poéticos”, “Alma Brejeira” e “Cantilena”, este último em parceria com o cantor e compositor Acauã. Foi radialista em várias importantes emissoras do Estado.

                                                       Publicou:

O Sertão de cabo a rabo; Matuto do Pé Rapado; Florescências; Colheita de Versus; O Sertão em Verso e Prosa; Nos Cafundós do Sertão; Veredas de Sol. Flores Vivas e Mortas; Minha Terra, Minha Gente; Natureza, Paz e Poesia.



Postagem: Silas Falcão

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Dor


(FRANCISCO PASCOAL PINTO)

Chega
De chagas, de cravos
De tapatabefe e choque
Providenciem um acalanto
Que a dor (com ou sem mágoa e pranto)
Deve adormecer.

Que a mão verduga
Que a inflige
Exige
Réplica & reparação

 Chega!
Quero aspirina
Morfina
Xilocaína
Para esta dor ausente
dor constante
dor cortante
dor de dente
dor do parto
dor do Horto
dor da cólica
dor de cotovelo
dor da saudade
dor melancólica
dor fingida do poeta
migué do jogador

Tudo nesta vida minha amiga é falsa dor

Portanto
Quando calar o acalanto
Vá devagar com o andor

Que é de terracota o santo
E é de Mártir do Gólgota

A sua sagrada dor.

Última imburana



                                                                       Silêncio...
                                                                       O espírito da mata
                                                                       prescreve calmaria!
                                                                       Astúcia... Precaução...
                                                                       Esquivam-se as plumas!
                                                                       Não piam, a rolinha,
                                                                       a sariema e o cancão!
                                                                       Avizinham-se passos...
                                                                       Machado à mão!
                                                                       Pá... Pá... Pá...
                                                                       Som furioso e seco,
                                                                       tal qual o desespero,
                                                                       impregna o ar,
                                                                       pendoa amargura
                                                                       a escorrer da pele
                                                                       lisa e nobre
                                                                       do tronco musculoso
                                                                       e oleoso da imburana!
                                                                       E a resignada mata-branca
                                                                       em pranto negro-triste
                                                                       abafa o longo silêncio....


                                                                       Raimundo Cândido