sexta-feira, 26 de agosto de 2011

   


                                                                            LIS

No décimo oitavo andar.
– Lis?
–Pois não!
– Há muito tempo desejava lhe visitar.
Ela estranha esta declaração de uma pessoa que não conhece.
– Qual o seu nome?
– Rivera Yazid. Posso entrar?
Num ato mecânico, Lis dá acesso ao corpo esguio, vestido com simplicidade, mas com elegância.  
Ela examina as presenças na sala. Mesas de mármore. Cristaleira protegendo as taças antigas. Estantes horizontais repletas de livros. Telas de artes anulando a imparcialidade das paredes. Iluminação ambiente sem arrogância. Nada mudou. Tudo é ontem - pensa Rivera.
– Não se preocupe com minha visita. Eu e seus pais fomos grandes amigos. Você nem era nascida quando nós criamos momentos agradáveis aqui. Ouvimos músicas. Bebemos vinhos. Comentamos escritores e livros. Nem percebíamos o amanhecer.
Lis ouve com aplicação.
– Só recentemente eu soube do falecimento da sua mãe.
– Foi há três anos. Como você observou, este apartamento continua o mesmo. É a minha invocação para mamãe permanecer comigo. Ela justificou a presença dela neste mundo.
– Compreendo. A morte é uma tragédia interminável.
– Quando começou a amizade de vocês?
– Nossos pais se conheceram na juventude. Ainda crianças, moramos em cidades vizinhas, mas constantemente nos encontrávamos quando seus avôs iam nos visitar. Na minha adolescência meus pais se mudaram para Sete Estrelo, bela cidade onde sua mãe morava. E nos tornamos mais próximas. E mais amigas. Após concluir o ensino médio, fui cursar faculdade em outro Estado. Meses depois seus pais saíram de Sete Estrelo. Passamos duas décadas sem nos encontrarmos. Após minha aposentadoria, resolvi morar nesta cidade. E descobri que sua mãe residia aqui. Retomamos nossa amizade. Aí, a morte em dominó: o assassinato do meu marido, a morte do seu pai... e, por fim, o falecimento da sua mãe.
Silêncios vizinhos.
– Mas tudo bem. Não viemos para ficar aqui. Estamos apenas de passagem. Diz Rivera.
E elas conversam sobre livros e escritores, degustando vinhos de boas safras. 
– Já é tarde, Lis. Preciso voltar.
– Acompanho você até a portaria.
Dia seguinte, noite de segunda feira, Lis descongestiona a caixa postal. E ler: “Lis, muito obrigada por sua hospitalidade. Eu precisava matar saudades antigas”.
Era uma psicografia de Rivera Yazid, falecida há anos.

Silas Falcão

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

TEMPO


O tempo todo o tempo passa
E a gente meio sem graça
Observando tudo que vai
Os amigos já foram
Os amores passaram
A juventude foi embora
Meu Deus, e agora
O que será de nós?
O dia é tão longo
A noite tão comprida
E a gente remoendo a ferida
Que o tempo não levou
A mente cansada
O olhar convalesce
E a gente não esquece
O que a audácia negou
O beijo negado
O olhar desviado
O abraço que não foi abraçado
O amor que não foi amado
E tudo que nunca foi dado
Pelo medo que era maior
Maior que a vontade que agora chora
Porque não se pode mais ir embora
Perdeu-se o bonde da felicidade
Passa o trem da saudade
Este a gente pega
Não se pode negar o rumo
Se está sozinho no mundo
Segue então para lugar nenhum
A saudade vai levando
A cada lembrança a dor aumentando
E a gente só chorando
Pelo bonde que não pegou.
                       Isis Celiane

terça-feira, 23 de agosto de 2011

                                   CENTENÁRIA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE CRATEÚS
                                                  -  PATRIMÔNIO AMEAÇADO
                                                                                                                Edilson Macedo

                Causa tristeza e indignação cruzar os caminhos de ferro à altura de nossa velha Estação Ferroviária. Quem, como eu, cruzou a linha dos cinquenta, e tem um pouco de poesia nas veias, não pode deixar que a tristeza lhe invada a alma ao ver a degradação criminosamente imposta a este belo e importante Patrimônio Histórico de nossa Cidade. Estes antigos trilhos de ferro, onde tantas memórias estão incrustadas, partiram de Camocim, chegaram aqui em 1912, a exatos cem anos, quando, de Vila Imperial, passamos à então Cratheús, tal qual está escrito em alto relevo no pardieiro principal, ali onde comprávamos os bilhetes, de primeira ou segunda classe...  passaporte para mundos distantes, insondáveis, que víamos pelas janelas...
                Antes o trem transportava passageiros e seu patrimônio material era tratado com zelo devido. Hoje o descaso e o abandono põem-no em ruínas. Aquilo que o tempo, por si só, leva à bancarrota  não é reparado, e o que insiste em resistir ao seu labor a Empresa Ferroviária e atual Concessionária vai, aos poucos, sem que ninguém dê um pio,  transformando em escombros.
                Há pouco tempo atrás uns vagões carregados com enormes pneus arrebentaram os alpendres da lateral esquerda (sentido Crateús – Piauí) e a única providência da tal Empresa foi, depois de várias semanas, recolher o entulho, restos de telhas e madeiras, que foram abaixo num ato, a meu ver, de vandalismo institucionalizado – a Empresa tinha conhecimento prévio da impossibilidade do tráfego, dado o tamanho descomunal da mercadoria. Os belos alpendres, construídos em madeira- de- de- lei e antiga arquitetura denominada “Mão-Francesa”  viraram ruínas. Com eles, também, um pouco de nossa história e dignidade... Este crime permanecerá impune? Até quando o interesse financeiro suplantará os valores históricos e mesmo material de um povo?...
                Um carro em desgoverno bateu em galpão que funciona como oficina. A construção rija rachou, não caiu, foi por uns dias interditada, como continuou de pé, voltou a funcionar normalmente...  as rachaduras expostas, como ossos fraturados, esperam, por certo, providências divina...
                As velhas e inabaláveis pontes em ferro e aço, importadas da Inglaterra, resistem como podem, mas sofrem avarias  em pontos vulneráveis. As chapas de zinco que cobriam os dormentes e facilitavam a passagem de pedestres há muito sumiram. Quem por lá se aventura (e não são poucos os desvalidos) andam em corda bamba sobre abismo tenebroso. Dormentes soltos, apodrecidos, fendas enormes, fazem o martírio de quem por lá trafega, sejam crianças ou velhinhos. O constante resfolegar das locomotivas completam o ato de terror a que são submetidos. À noite, à falta de iluminação e sinalização de advertência em caso de aproximação dos comboios, o terror ganha status de bandeira dois. Há quem diga e argumente que as pontes não foram projetadas para tráfego humano. Esquecem, os incautos, que, além de destituídos de asas, nossa pouca fé nos impossibilita de caminhar sobre águas, ainda que poluídas...
                A Empresa Concessionária é protagonista ainda de outros tantos atos criminosos contra nossa gentil aldeia. Destruiu, sem nenhuma explicação, batentes outrora edificados para facilitar a vida de pedestres entre o Centro da Cidade e Bairro São Vicente.  Alguém pode explicar tamanha e desumana barbárie?...
                Diariamente comboios intermináveis de vagões, em movimento ou simplesmente estacionados, impedem a passagem de quem por ali precisa se locomover... ás vezes temos de escalar até três filas de carros estacionados paralelamente... haja coragem e coluna, meu santo do Bonfim!
                Os pátios, imundos, repletos de lixo e onde o mato viceja à rédeas soltas, sem nenhuma iluminação, estão agora repletos de valas abertas... como se não bastasse a distância que nos separa das oficinas de concertar ossos...
                A sinalização na passagem da tão movimentada Avenida Sargento Hermínio, cadê? Se antes, quando nosso transito era mínimo, existia, que razões fazem hoje desmerece-la?
                Enfim, amigos e amigas, seres e ceras, pergunto:
                - Quem deu tanto poder a esta empresazinha para que ela destrua impunimente nosso patrimônio e ponha em risco constante a vida de pessoas inocentes sem dá satisfação a ninguém?
                - Até quando esta Empresa continuará perturbando nossas vidas, manchando nossa história e zurrando pra nossa cultura?¹
                No ano de nosso Centenário, que maravilhoso presente seria a restauração de nossa Centenária Gare, com suas belíssimas Pontes iluminadas... brilhando sobre nosso indômito Rio... alumiando nosso futuro...  clareando nossos passos...
                Quanto custa? Muito, muitíssimo menos que uma vida humana...


1.       Com todo respeito aos nossos jegues, claro!

Paulo Nazareno disse...

Custaria bem menos que uma banda (ou seria bundas?)dessas de "forro" advindas do Glorioso Ministério do Turismo, que insistem em fazer das nossas ouças pinico, com seu ritmo primitivo, medular, impossível de ascender ao cérebro (se eh que ainda nao atrofiou de tanto ouvi-las) e letras imbecilizantes.

Terça-feira, 23 Agosto, 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Diogo - Cavaquinho e Violão


Por Flávio Machado e Silva
                Crateús, ao longo da sua história, ganhou uma infinidade de filhos adotivos. Diogo Barros de Macedo é um destes filhos acolhidos por esta terra desde 1961, quando ainda jovem acompanhou seus pais que escolheram como morada a terra do Senhor do Bonfim.
Nasceu em  Mutuquinha, uma localidade no município de Tauá, onde cresceu e aos 6 anos mudou-se para outro lugar conhecido por Lindoia, perto do distrito de Trici. Filho de família humilde não conheceu nenhuma moleza nos seus dias de vida e logo aos quatorze anos, em 1958 já estava alistado para trabalhar em frente de serviço no lugar Várzea do Boi, onde seu pai conseguiu duas vagas uma para si e outra para o jovem Diogo, na construção do açude.  A penúria acompanhava a família dos seus pais Francisco Fernandes de Macedo e dona Francisca de Souza Barros, a ponto de em certa época terem que morar sob um frondoso Juazeiro, na localidade Retiro, perto da obra onde trabalhava. Quando foi desativado o serviço na Várzea do Boi, em 1959 a família enfrentou o sol causticante do nordeste, onde desta vez aquele garoto viu as dificuldades enfrentadas por quem trabalha na roça, na produção do Ouro Branco, (Algodão), cultura que para dar camisa a quem trabalhava nas capoeiras, precisava ser zelada, através do roço, labuta que hoje o Diogo comenta com a felicidade de quem conheceu e venceu certas intempéries da vida.
Em 1964 ingressou no exército e era integrante do Programa 4° BEC EM SEU LAR, levado ao ar através das ondas sonoras da Rádio Educadora de Crateús. O Soldado Diogo participava na parte musical. O comandante da programação era o Sargento Valdir Labres. No exército Diogo Integrava a Banda de Música do 4° BEC. Pouco foi o tempo de escola do nosso jovem, razão por que logo completado o tempo, deu baixa e ficou quites com o serviço militar, mas passou a integrar o conjunto musical  “OS ALUCINANTES”, organizado por um grupo de sargentos.
Em 1968 conheceu a companheira com quem segue a vida até hoje. Maria Vilani Feitosa Macedo, vem ao longo do tempo, ombro a ombro trilhando os caminhos do casal que divide o lar com o filho Ivany, companheiro inseparável.
Mas aquele menino que, nas veias, nasceu com o dom da musicalidade, logo cedo descobriu a arte e a paixão por instrumentos de corda. Cultivou uma hereditariedade e se familiarizou com o cavaquinho e o violão. Aqui no município de Crateús, morando no quilometro dez, onde trabalhava nos algodoais do agropecuarista Tobias Soares Resende, à noite, hora do descanso, se deleitava com um violão acariciado no peito e se aperfeiçoava naquele instrumento que mais tarde o levaria a ser conhecido como um dos grandes violonistas que Crateús conhece. Integrou-se ao regional do Grande Músico Zé Regino e a partir daí cresceu a fama daquele menino humilde que não mais retornou para as capoeiras de algodão, preferindo participar, nos estúdios da Rádio Educadora de Crateús nas noites das sextas feiras, do Programa Hora da Recordação e Saudade. Integrado ao Regional foi animador de festas e forrós, e também participou das inesquecíveis serenatas, costume tão intensamente vivido nas noites enluaradas de Crateús dos Anos sessenta.
Durante muitos anos dividiu a profissão de músico com a de segurança ou vigilante. Fez curso para esta área e prestou serviço na CORPVS, ajudando a transportar valores e trabalhando como segurança, até se aposentar servindo no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA).
Dificilmente encontramos um tocador de violão ou cavaquinho que não caia na tentação e enfrente, imune, as oportunidades de beber. São viciados em bebida quase todos os violonistas que conheço. Diogo foi um destes, mas consciente e ajudado por amigos, principalmente pelas professoras do CEJA, teve força de vontade e hoje, nunca vemos o nosso amigo tragar algum tipo de bebida alcoólica.
Ao longo da vida o Diogo notabilizou-se como um dos grandes instrumentistas desta terra. É dotado de elevada auto-estima e é amigo de todos que cultivam interesse pela arte e pela música. Atualmente é solicitado por pessoas para ministrar aulas de violão ou cavaquinho. Trabalha em oficinas culturais tanto ensinando, como participando de eventos. É componente de um grupo que se faz presente em aniversários, serestas e eventos outros promovidos por integrantes da sociedade crateuense. Belas páginas musicais compõem o CD intitulado DIOGO MACÊDO – 48 anos de cavaquinho e violão. Portanto, quase cinco décadas integram o mestre Diogo com estes nobres instrumentos utilizados no mundo da música, esta companheira inseparável e harmoniosa participante dos nossos sentimentos.
                                                    
                                                              
                                                         YURI EM PARIS

Amanhã, 23/08, Yuri viajará.

Entre ele e nós, o oceano.

Preciso permanecer sem tristezas. Celebrar deve ser a minha atitude.

Conquistar, aos 23 anos, um mestrado de filosofia em Paris e com bolsa, é uma vitória muito expressiva.

Mas ele é da espécie de geniozinho raro e indisciplinado sempre pronto para conversas e cervejinhas geladíssimas.

A casa ficará silenciosa sem seus passos. A cozinha quieta, sem as delícias que ele cozinhava nas manhãs de sábado.

Ele vai.

E leva muito da gente.

E deixa muito dele.

Sentirei falta das suas histórias engraçadas, das suas trapalhadas, mazelas, pensamentos e risadas.

Sentirei falta do tic-tac que seus dedos produziam na velha remingthon. Dos papéis em cima da escrivaninha, dos livros abertos.

Sentirei falta dele na rede lendo, lendo, lendo.

Sentirei falta dos gritos quando assistíamos aos jogos do Flamengo e dos seus quase infartos comemorando os gols.

Sentirei falta do seu “Olá, John”, quando nos encontravámos.

Vou sentir falta dele por inteiro.

Mas, ele será feliz. E muito!

Quando ele estiver na outra ponta do mar, me esticarei daqui para tentar vê-lo. Sempre que chegar ao mar, ficarei de ponta de pé e tentarei enxergá-lo onde o céu da nó com o mar. Se não o vir, não tem problema, o vento levará o meu olhar.

Esse bondoso vento será o nosso elo.

Quando ele colocar os olhos naquela Torre, terá vento. Quando for para o túmulo de Sartre e Beauvoir e perceber que chegou atrasado ao encontro deles, o vento também estará lá.

Nos cafés, nos livros, no frio haverá vento. E com ele estaremos juntos.

Paris!

Meu filho Yuri vai para a Paris dos seus sonhos!

Vai, menino, vai ser feliz por aquelas ruas! Senta nos cafés e sorri lembrando do nosso Brasil.
Escreve, cria e estuda, mas lembra que o afeto é a maior sabedoria.

E cá vamos ficando: pais, irmãos, tias, avós, amigos e a tua amada Carol, esperando o teu retorno vitorioso.

Silas Falcão

"Pai, cheguei bem, embora a viagem tenha sido desconfortável ao extremo (eu mal cabia na poltrona do avião, não por causa do meu peso, mas acredite, por causa das minhas pernas). Enfim, correu tudo bem, embora eu tenha chorado algumas vezes durante o voo. Estou caindo de sono, porque o fuso horário é mais longo do que eu imaginava: em Paris serão seis horas a mais. Mas adivinha: estou em Madri, em um pub irlandês chamado James Joyce escutando Beatles, e o idioma aqui é o inglês cantando da Irlanda. Já fumei em uma praça em frente a uma fonte magnífica. Estou na Europa, mas posso dizer que a ficha ainda não caiu: fico olhando as ruas organizadas, os cafés com todas as pessoas fumando e o clima europeu, mas não consigo acreditar. Madri é linda, absolutamente linda... O sol torrando mas um vento gelado".

Beijos, Yuri. ­

Anônimo disse...


Desejamos sucesso no Mestrado do Filósofo Yuri e que ele hasteie a bandeira do flamengo no alto da torre eiffel!
Segunda-feira, 22 Agosto, 2011

Anônimo disse...

Você, Silas, que significa 'morador dos bosques', incorporou a faceta da ave mais rápida da terra, o Falcão, para nos brindar com esse chope que é a mais genuína cevada da alma, pura fermentação de amor paternal.
Um brinde a essa primorosa peça onírica!

Júnior Bonfim
Terça-feira, 23 Agosto, 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

Paulo Nazareno disse...

Beleza!!!! Enfim em sua função verdadeira; pena neste dia estar no Ipu a serviço.
Carpe Diem.
Sexta-feira, 19 Agosto, 2011
Nega disse...
Vamos sim!!
Olá Raimundinho, faço coro ao seu chamado!!!
Disse Drumond , o poeta:
"Ir ao teatro é como ir à vida sem nos comprometer."
Então vamos ao teatro!

sábado, 20 de agosto de 2011

PARA INGÊS VER


Não é querer ser do contra, mas muitos hão de concordar que o Brasil é pródigo em leis que nunca saem do papel. Como se diria tempos atrás, é coisa pra inglês ver. O país inteiro, cada município deste imenso território, tem sua fatia de “boas intenções” ou bizarrices entupindo páginas e páginas dos códigos de condutas, leis orgânicas e similares que nunca, nunca mesmo!, viu sua aplicabilidade no campo do mundo real.

Quem de nós, um pouco mais antenado no mundo virtual da informação, não lembra, por exemplo, do prefeito que criou um “discoporto” na cidade de Barra do Garças (MT) esperando, é claro, a visita de ETs. Ora, todos sabem que eles andam por aí aos milhares. Então, nada mais prático do que criar um aeroporto para suas naves!

Sem ir muito longe, que tal você, transeunte desavisado, se meter a besta e tentar atravessar a rua na faixa de pedestre, sem olhar para os lados, pra ver se o carro que vem desembestado em sua direção pára? Vai encarar?

Pois bem. Este mês vence o prazo para as escolas de ensino infantil e fundamental colocarem em prática a educação musical em sua grade curricular, ou adequá-la às aulas de arte. A Lei 11.769, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino de música na educação básica, foi sancionada pelo presidente Lula em agosto de 2008 e estipulou um prazo de 3 anos para que os sistemas de ensinos se adaptassem à lei.

Voltemos aqui à expressão “para inglês ver”, que tem tudo a ver com o que tratamos aqui, mesmo 180 anos depois. Aconteceu em 1831. O Governo Regencial do Brasil, atendendo as pressões da Inglaterra, promulgou, naquele ano, uma lei proibindo o tráfego negreiro, declarando livres os escravos que chegassem aqui e punindo severamente os importadores. Tudo mentira, enganação, engodo! Assim foi cunhada a célebre e sempre atual frase “para inglês ver”.

Será a Lei da Educação Musical uma lei para inglês ver? Para não dizer que somos intransigentes, vamos esperar mais um pouquinho, até 2012 que seja. Quem viver, verá!
 
Lourival Veras
 
Karla disse...

É amigo, as coordenadoras pedagógicas e diretoras estão buscando feito loucas profissionais da área da música, só que não existe pessoas graduadas para ocuparem as vagas. Acho muito "bunito" o Estado fornece os instrumentos e cria a obrigatoriedade, mas não dá condições de formação à professores que sejam músicos, nem estimula músicos a serem professores. Uma prova disso é a greve estourada!
20 de agosto de 2011 11:10

Raimundo Candido disse:
Paulo Freire afirmava, do alto de sua montanhosa experiência vivencial, que: ensinar um povo a ver criticamente o mundo é sempre uma prática incômoda para os que fundam os seus poderes sobre a inocência dos explorados. Eu, de minha diminuta planície existencial,  completo que essa inocência, de que ele fala, ignorante e cega, vem sendo perpetuada perigosamente, quando se coloca um colírio como um tapa olho no rosto do nosso povo. Educação musical na grade curricular, escola inclusiva, aberta, democrática, solidária, laboratórios de física, química e informática, é muito “ bunito” como disse Karlinha, sem o devido profissional capacitado para as respectivas áreas e como sabemos, educação ( e cultura?) não é prioridade de nossos governos. Eu, cá de minha planície, que não dá para ver muito bem, farejo um aroma estranho daquele de probidade, moral e decoro. É realmente, amigo Lourival, para Inglês ver, só pra ver mesmo, porque o que eles viram e gostaram, há muito, já nos “levaram”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011


Ocaso

Agorinha mesmo,
 quebrei as vitrines   
de picos inatingíveis.
Desfiz-me dos museus,
densos de transportar.
Como planta decídua,
que lenta,  desfolha-se
no disparado ímpeto
 de ser árido e só!
Raimundo Candido

Gigante olha pedra e vê pó



Ontem sai pra caminhar em direção a lugar algum, sem pretensão de encontrar amigos, de trocar palavras. Minhas pernas me levaram pelas ruas desta cidade empoeirada, toda em re-construção. Nas calçadas tropeço em tijolos, em montes de barro, entulhos, em homens sujos de cimento e cal.

Tenho certeza que sou deste lugar, que moro nestas casas antigas demolidas sem consideração, que pertenço a estes homens, a estas ruas estreitas e esburacadas onde viro o pé e machuco o tornozelo. Penso naqueles que nunca saberão ao certo como foram as casas e os prazeres destes trabalhadores.

Com o cérebro anuviado busco na lembrança as cores das árvores. Não lembro. Elas são tão poucas e inconvenientes que já estão se tornando invisíveis aos meus olhos. O que vejo com mais clareza são as garagens enfeitadas com flores e araras de gesso multicolorido.

No final do percurso, outra certeza. Ela sussurrou baixinho em meu ouvido, como quem segreda: “Menina, ‘gigante olha pedra e vê pó’".

Karla Gomes

quinta-feira, 18 de agosto de 2011


                                     Dr. Luiz, além de tudo, humano!
            Nunca achei decente começar uma narrativa parafraseando uma citação de efeito de algum outro escriba, principalmente quando nem se sabe que admirável índole a produziu. Louvo quem a gerou e alço-me de uma coragem, como a de quem furta, mas peço desculpas por descerrá-la, adulterada assim: “Se quiseres fazer alguma coisa para durar uma estação, plante flores.  Se quiseres fazer alguma coisa para durar uma vida, plante árvores. Se quiseres fazer alguma coisa para durar uma eternidade, se propale, você mesmo, como uma semente do bem, no coração do um povo e sua obra será ressoada nos ecos do tempo, como uma agradável recordação, num perfumado hálito benfazejo em todas as dobras ferruginosas das longínquas eras!”
            Na comunidade em que vivemos, não somos obrigados a ser médico, a ser professor, político, mestre de obra, ou exercer qualquer outra atividade vantajosa, mas somos obrigados, sim, a ser cidadão! E antes de nos tornamos cidadão, a natureza nos faz homens, e antes de sermos feitos homens, já éramos, como somos e seremos, sempre, espíritos à luz de uma Força Maior!
            Hoje, nesta diminuta área delimitada por uma simples e branca folha de papel, numa tarefa demasiadamente difícil, tento derramar algumas singelas palavras, de modo fiel e convincente, na esperança de que elas sejam suficientes para traduzir numa linguagem cordial e real uma figura ímpar na história de Crateús, que carregava a autêntica humildade sobre uma grandiosa capacidade humana e espiritual. 
            No final década de 30, o mundo se agitava num período de intranquilidade e violência. Na Europa, tinha começado o horrendo genocídio chamado holocausto e iniciava-se a sangrenta Segunda Grande Guerra Mundial. Nesta época, assim conturbada, se um casual forasteiro, displicentemente caminhasse pela rua Cel. Zezé e chegasse na esquina da João Tomé, seria compelido a olhar, inevitavelmente, para um imenso casarão amarelado, com uma larga alameda na frente e um tapete pavimentado, margeado por terrenos ajardinados que dava para um imponente alpendre de grossas colunas, como a dizer: Isto aqui é uma fortaleza, tome cuidado! Mas o viajante estranharia aquele vai-e-vem, num entra e sai diuturno de gente com uma felicidade estampada no rosto e para sua surpresa perceberia que aquele castelo, com fama de mal-assombrado, era a casa da humildade, a senhorial residência da bondade. Um edifício com altas e largas portas abertas para atender o que quer que fosse de necessidade. Era o lar de um cidadão formado em medicina pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, uma aventura impensável para a época, mas o que ele realmente ostentava era um título de Nobreza de Espírito. Também dependurado na parede de sua sala, como se já não bastasse o de doutor, outro Diploma de Farmacêutico, pela antiga Escola de Farmácia do Estado do Pará, mas a honraria principal surgia de sua alma como um invisível sustentáculo de benevolência, confirmando a asserção de Alan Kardec “Fora da caridade não há salvação!”
             Quantas vezes Dona Sancha, sua esposa, ia buscá-lo, na linha do trem, depois que ele tinha distribuído para uma enfileirada pobreza, quase todo o dinheiro apurado com suas receitas, quando recebia por estas consultas, pois na realidade, a maioria dos pacientes levava até os remédios, de graça. Dizia: - Não reclame não, minha querida, o nosso ficou lá! Vamos para casa, baixinha! A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros. Repetia esta frase como base para os dois livros espíritas que logo viria a escrever.
            Numa certa tarde, em que lia um de seus livros favoritos, sentado numa cadeira de balanço, entra um molecote com um anzol enfiado na perna, e ele logo o tranquiliza: - Não chore não, Prego Dourado, não vai doer nada, não! Era o Elias Vieira, um menino traquina, que chegou chorando da pescaria do rio, mas logo saiu contente e ainda com umas moedas de tostões no Bolso. Hoje, Elias relembra quando sua mãe, Dona Maria Vieira, gravemente enferma, procurou Dr. Luiz. Este apertou firmemente sua barriga com as mãos e detectou uma criança que estava lá, há mais de 10 anos, por causa de um trabalho mal feito por uma parteira. Sua influência com o Dr. Cesar Cals , presidente do Centro Médico Cearense, foi primordial para que conseguisse uma das primeiras cirurgias para extração deste esqueleto fetal no Ceará, a qual o Jornal fortalezense Gazeta de Noticias , do dia 4 de abril de 1939, estampava em primeira página esta notícia fenomenal.   
            De outra feita, atendendo ao clamor do povo, se candidata a prefeito, pelo Partido Social Democrático para fazer frente ao forte udenista João Afonso. Não o elegeram, mas se divertiram muito cantando pelas ruas: Eu vou votar é no Dr. Luiz/ é o que o povo diz/ ele é um médico popular/ ele receita o rico e o pobre/ e o remédio ainda dá.
            Do casarão amarelo só um cacimbão restou, um poço como a sabedoria do Dr. e que nunca esgotou, nem na seca de 42, quando uma sequidão invadiu o mundo. O povo chegava com suas latas na cabeça para retirar água de lá, e ainda tinha o direito a tomar um cafezinho com pão que ficavam expostos numa grande mesa. Um de seus herdeiros, material e moral, o bonachão Elpídio ou o moderado Cornélio, ia comprar o saco grande de pão na padaria de seu Norberto, pai de nosso querido Ferreirinha que já trabalhava por lá, no balcão.
            Quem passa por aquela esquina, agora ouve um longo silêncio. É o som mais doce que há, pois é o som da alma, no limiar da grandiosidade entre a vida e morte, neste universo que é obra de Deus... ou será o próprio Deus? Com certeza o Dr. Luiz Chaves e Mello, nos diria! Ou nos dirá?

Raimundo Candido


Luiz Bomfim disse...
Raimundo, O Dr. Luiz foi também escritor, teve ter ainda nos meus arquivos dois livros da autoria do mesmo.
Catecismo Esperita
O TELVIDEO
O primeiro foi o Elpidio que me presenteou e o segundo, o nosso querido Norberto Ferreira Filho.
Quinta-feira, 18 Agosto, 2011

Paulo Nazareno disse...

Primoroso o seu texto; realmente têm personagens que necessitam deste resgate, e dados a conhecer às novas gerações. Esta aí um filão a ser trabalhdo pela cultura (memória) em nossa urbe.
Sexta-feira, 19 Agosto, 2011

Silas Falcão disse...

Esclarecedor texto, Raimundinho. Lembro-me do seu Elpídio atendendo os clientes. Inúmeras vezes saí da Rua da Cruz para comprar remédios na farmácia ao lado do casarão. Nessas horas não perdoamos o tempo que criou esse longo e triste silêncio. Parabéns pela bela crônica que resgata importante memória de Crateús.



Sexta-feira, 19 Agosto, 2011

Junior Bonfim disse...

Caro Raimundinho:

Fiquei encantado com o seu pergaminho telúrico e tomei a liberdade de postá-lo no meu blog.
Quando comecei a escrever crônicas exaltando pessoas que, no seu micro ou macro universo, salpicaram luz na nossa urbe, fui às vezes incompreendido. Por isso, fico feliz em ver essa cultura da difusão das sílabas do bem ganhar força e vigor. Parabéns!
Fraternalmente, faço apenas uma ponderação em relação ao juízo emitido no parágrafo inicial. Jamais se melindre de citar outros lavradores da escrita. Começar uma narrativa citando outro escriba é bom sinal, de sabedoria, de agregação e de humildade, qualidades que você mansamente ostenta.

Paz!
Júnior Bonfim



Sexta-feira, 19 Agosto, 2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Cura centenário


Monsenhor Francisco de Moraes neste agosto completaria 100 anos de idade, se não tivesse ido há dois anos. Foi quando se encontrava na terceira margem do rio da vida, como dizia Guimarães Rosa. Nasceu em Crateús que seria elevada à condição de cidade quatro meses depois. Não nasceu na sede do município. Preferiu o murmúrio do campo. O esplendor e a calma que esverdinhavam a mata. Escolheu agosto. Quando a lua merencória se desfaz em beleza. De um céu pincelado de azul, quase em desmaio. Lá longe já se escutava o balido das ovelhas. Os eflúvios do verde pincelavam a aurora que já se anunciava. Foi assim que a natureza recebeu este homem prodigioso que escreveria uma história de vida notável. Trilhou o caminho do sacerdócio. Foi o evangelizador robusto. O semeador competente. O pregador convincente. Tomou o arado e partiu para trabalhar na vinha do Senhor. Ancorou-se na cidade do Ipu. Lá, escreveu seu apostolado. Homem de profunda fé erigiu torres vivas e inquebrantáveis. Partiu de Crateús como um profeta. Foi praticamente o construtor do Ipu. Lá, deixou a marca do seu imenso destemor. Construiu o Patronato, o Colégio Ipuense, o Salão Paroquial, maternidades, hospitais, estradas de rodagens, capelas e casas do menor abandonado. Porém, foi no recôndito dos templos que se fez arauto de Deus. Pregação profunda e profícua. Foi um mensageiro de uma intensa fé. No altar, nas ruas e nos recônditos mais distantes vivia envasado de Deus. Deixou uma lacuna impreenchível. Mesmo ao ir se já com uma vida tão longeva. Pranteamos hoje a sua memória. Dissecamos sua vida tão cheia de luz. Rememoramos que Moraes passou por esta vida, mas não passou em vão. Deixou marcas indeléveis de trabalhador incansável. Foi promotor de dignidade e de libertação. Não se conteve nas prédicas dos tabernáculos, foi à procura do seu rebanho, para elevá-lo, tirá-lo da miséria. Trouxe-lhe uma centelha de luz. Exerceu esta sua missão embriagado de Deus. Eivado dos princípios maiores de respeitabilidade a todos, inclusive os mais carentes. Deixou saudades. Mas plantou, naquela bela cidade, sementes que frutificarão para sempre.

José Maria Bonfim de Morais - médico cardiologista
Diário do Nordeste, 16/08/2011


Paulo Nazareno disse...


Beleza!!!! Enfim em sua função verdadeira; pena neste dia estar no Ipu a serviço.
Carpe Diem.
Sexta-feira, 19 Agosto, 2011


Nega disse...
Vamos sim!!
Olá Raimundinho, faço coro ao seu chamado!!!
Disse Drumond , o poeta:
"Ir ao teatro é como ir à vida sem nos comprometer."
Então vamos ao teatro!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

 Nelson Sabóia Barros, um Poeta!
            Umas gotas de palavras descem a Serra da Ibiapaba. Murmuram segredos que captam do silêncio sepulcral e arqueológico da Gruta dos Caboclos. A última morada de bravos guerreiros, que ali, em calma ordem, repousavam há milhares de anos, no sono dos justos, antes que passos intrusos e gananciosos lhes removessem os ossos e lhes tirassem o imutável sossego, alimentando novas e excêntricas histórias.
            Mais e mais palavras gotejam e descem aguadas do monte. Vão se juntando, se aglomerando. Percorrem como um rio as modestas ruas de Montenebo. E arrasta um barco em cujo leme vai um Poeta de nome Nelson Sabóia Barros, nascido no sopé da grande serra, o lugar que um dia foi batizado pelo pioneiro Pe. José Juvêncio de Andrade.
            Certas coisas, quando misturadas convenientemente, logo se homogeneízam, como uma multidão de abelhas zunindo, num enxame laborando na florada da época, o que sempre resulta num doce mel. Como a lua clara na abobada escura de Montenebo, apinhada de estrelas. Como a trovadoresca poesia e a doutrina religiosa, que são como dois líquidos homogêneos, quando num mesmo barco, facilmente se misturam. Basta folhearmos a Bíblia, onde navegaremos num caudaloso rio de inspiração poética. Esta narrativa que agora estais a ler, é sobre um agricultor-poeta, ou um poeta-agricultor, mas também está repleta de padres com seus assombrosos sermões que emanavam de suas negras batinas, tudo num só enredo, como uma embarcação que desce um veloz rio.
            Quando um vate canta a sua época, louva o seu lugar, como um patativa canta o sertão, nem o incalculável tempo consegue escondê-lo dos holofotes do mundo, se ele colocou em seus verso a sua alma e a sua arte, numa linguagem nascida do coração.
            Quem consegue transfigurar as duras coisas mundanas em versos, dando-lhes alma, transformando a inusitada luz do dia em poesia, é um arrebatado mago, um prestidigitador. Assim era Nelson, convertia o cotidiano de seu povo em rimas, em versos de pés quebrados, em belos romances. Foi quando o velho caminhão de seu Luiz Estradeiro, mesmo caindo aos pedaços, se arrastando, por lá passou e ressuscitou-se numa bela estória, engraçadíssima, em que cada peça, à medida que se movia, gemia e reclamava da vida e de seu dono, implorando por uma aposentadoria.
            O dia-a-dia se fazia, rapidinho, poesia pela sensibilidade e aptidão que ele tinha com as palavras e com as rimas, como daquela outra vez em que dois sujeitos, um da família Raposo e o outro da estirpe Bandeira, foram às vias de fato, num crime passional e de súbito, saindo da ponta do lápis do nosso Patativa, nasce um verso onde duas iradas feras, um tamanduá bandeira e uma raivosa raposa, duelaram, até a morte.
            Nunca uma só vida é suficiente a um poeta. Ele busca vida nova noutras vidas e noutras paragens. Aí navega. Põe seu barco no rio e o impele com fortes remadas, em busca de mais rimas e mais vida. E já no outono da existência, com sua carga repleta de experiência e os olhos enfastiados da inalterável estampa da serra da Ibiapaba, acolhe o convite de José Palhano, um crateuense nascido na localidade Poty , que se fez Padre sob às sombras das  asas protetoras do poderoso Dom José Tupinambá da Frota. O Padre José Palhano, um galanteador ao estilo Dom Juan sem nada dever aos padres-show da atualidade, aquele mesmo que espalhou aos quatro cantos do mundo que Crateús prendeu a Santa Peregrina, se candidata a prefeito, e o nosso poeta o ajuda a granjear votos, escrevendo “O Testamento de Judas”, uns pesados versos ridicularizando o rival que provavelmente terminava assim: ”Com um abraço e um beijo de Judas”. O adversário se enfeza e mobiliza a polícia na busca do poeta que já estava sob a proteção e amparo da Igreja, dentro de um dos inúmeros templos sagrados dos United States of Sobral .
            Não é mera coincidência se a nossa história sempre recai em barafunda de pessoas e padres, mas é que existe essa atração recíproca entre a poesia e a religião, como já disse. Voltemos a Montenebo. Por lá em anos idos, numa singela capelinha, celebrava uma missa em latim, isso mesmo, no finado idioma latim, numa missa tridentina, o Padre José Maria Moreira do Bonfim. De costas para os fieis, já encerrava a celebração: In nòmine Patris, et Fìlii, et Spìritus Sancti,  e o acólito que o acompanhava, solenemente  respondia: Amen!          
           Numa motocicleta, com o coroinha na garupa, saía o Vigário de Crateús em peregrinação pelas igrejinhas do interior, rezando missa.  Já se fazia tarde e eles teriam que ir, de Montenebo para Santo Antonio, para outra solene celebração. A noite desce seu teatral manto pelas veredas do sertão e eles resolvem pernoitar na fazenda do Sr. Chico Rodrigues Bonfim, no Curral Velho. De lá iriam, de manhã cedo, cumprir esta outra sagrada  missão. A motocicleta devora o chão empoeirado, gemendo sob o peso do padre e do sacristão e eis que, de repente, do meio do mato fechado, surge um bode, que assusta o motoqueiro. E vão os dois ao chão, o padre e o sacristão.
            Notícia assim, num sertão abandonado, corre que nem preá fugindo de raposa. Tem suas veredas próprias para chegar aos ouvidos do povo.  Vai pelo vento, pelos galhos de marmeleiros, dando suporte à inexplicável frase “um passarinho me contou”, matando a curiosidade sedenta da população. E chegou aos ouvidos do nosso poeta Nelson, que de maneira imprevista fez logo uns versos, que agora vou lhes contar, em primeira mão. Aprecie com calma e bem devagar esse primor:
VERSO DO BODE

Eu vou contar pra vocês
Um caso que aconteceu,
Na fazenda Curral Velho
De um bode que apareceu,
Se a história não é verdade
O inventor não fui eu.

Dizem que o caso se deu
Com o Padre José Bonfim,
Este ia viajando
Montado em seu motorzinho
Quando apareceu um bode
Lhe interrompendo o caminho.

O Padre disse assim
Menino tenha cuidado,
Que vejo aqui na minha frente,
Um bode preto danado,
Que na minha experiência
Este bode é endiabrado.

Fui arredando de lado
O bode a frente tomou,
Foi nesta ocasião
Que quase derrapa o motor,
O menino foi caindo
O Padre se desmontou.

O Padre se assombrou
Com o fantasma do bode
Dizendo tenho certeza
Que passar aqui ninguém pode
Ele pegando o motor
Pra qualquer lado sacode.

Tinha palmo e meio de bigode
Na cabeça um chifre só
Com olho no meio da testa
Com uma perna coxó
Não tinha cauda era suro
Como se chama bicó.

O Padre se achando só
Com o menino desmaiado
Com o fantasma do bode
O Padre estava assombrado
O bode sempre na frente
Pulando pra todo lado.


O menino tinha tornado
E conseguiu se montar
Voltaram pra Crateús
Não foram mais celebrar
E o bode sempre na pista
De quando em quando a berrar.

O Padre pois a puxar
Cento e vinte em seu motor
O bode correndo atrás
Que nunca lhe abandonou,
Na passagem do cemitério
Foi este quem lhe salvou.

Daí o bode voltou
Com duas léguas e meia,
O Padre ficou dizendo
Eu vi a coisa bem feia,
O menino criou coragem
Voltando o sangue das veias.

O bode cortou areia
Pra seu ponto terminado,
O padre saiu dizendo
Agora eu estou descansado,
Mas chegando em sua casa
O motor estava amassado.

Era um bode agigantado
Com dois metros de altura,
Com cinco de comprimento,
Com seis palmos de largura,
O Padre quase se assombra
Quando avistou a figura.

Era fazendo a pintura
Os cabelos eram demais
Tanto caindo pra frente
Como deitavam pra trás
O Padre sempre dizendo
Este bode é o satanás.

Eu acho bem capaz
Deste bode ainda estar lá
Pra atacar os devotos
Que passam pra ir rezar
Como atacou o vigário
Que não deixou celebrar.

 Leitores que iam tomar
O conselho do pastor
Para fazer sua páscoa
Como manda o criador
Que é pra todos se livrarem
Do laço do traidor.

Como um bode ele atacou
O Padre da freguesia
Que não deixou celebrar
A missa no outro dia
Por isso que aconselha
Para fazer romaria.

Em Santo Antonio neste dia
Se achava muito animado
Reinava animação
Do povo por todo lado
Com a história do bode
Ficaram tudo assombrado.

Aqui eu dou terminado
A grande história do bode
Dizendo tenho certeza
Passar por lá ninguém pode
Com o fantasma do bicho
Com barba chifre e bigode.


          Agora, aprume seus pavilhões auriculares e aguce o sexto sentido, aquele que pressente os mistérios do mundo, para ouvir um alegre foguetório, que vem lá de longe, do céu dos poetas, que é o que ocorre quando se descobre mais um vate escondido por esse mundo de meu Deus. E olhe que este saiu de um celeiro de grãos, na aprazível Montenebo. Um poeta com alcunha de almirante, mas que sabia fazer vibrar as cordas do coração, pois era um lírico cultivador da terra e dos versos, com um cognome Nelson!


Raimundo Candido

Bruna Ximenes disse...


Parabéns Raimundinho, excelente trabalho e muito obrigada por fazer essa homenagem ao meu querido avô, que se hoje estivesse aqui conosco com certeza estaria muito feliz por tal reconhecimento que o foi atribuído! Fique com Deus!
Quarta-feira, 17 Agosto, 2011

Anônimo disse...


Existe gente interessante, locais interessantes, espalhado por todo lugar.
Mais tem um lugarzinho bem pequeno escondidinho num cantinho do Ceará, que dele não posso deixar de falar.
Devo confessar, que desde que conheci muita coisa mudou por la, haaaá e que saudade que dá.
Monte Nebo é esse lugar. E é la que existe uma família muito peculiar da mais alta linhagem principalmente no quesito de contos contar.
Nelson Sabóia Barros foi poeta e por muito tempo fez ali seu lar e como deixou historia pra contar e alguns filhos seguem nas calçadas a nossas vidas alegrar
Nunca no cotidiano pude vivenciar, mais conheci cada plano que fica difícil de explicar, como o plano de uma placa que muito trabalho deu pra roubar, porem, apenas devo confessar que se um dia vocês tiverem o prazer de escutar as historias de Tirica irão sorrir ate rachar.
E quando uma vaca avistar, não pode nem deixar pra la, pergunte a Terezinha que um causo ela vai contar e o final é hilário, tem café pra todo lugar, pois de olho fechado uma vaca na escuridão não da pra enxergar ,porem ela não mora mais la,hoje pra conseguir com ela falar pra radio você ligar o radio dela sempre sintonizado está ,pode confiar .
Pra chegar nesse lugar muita estrada tive que pegar mais sempre na companhia maravilhosa de uma diva que de nossas vidas nunca sairá. Maria pra sempre iremos te amar, pra mim tu estas vivas, nas marcas que me deixam em cada canto deste lugar. É uma pena que tudo que ouvi naquele carro eu num posso nem sonhar em comentar.
Porem, antes de la chegar conheci primeiro de ouvir falar por outra filha que muito orgulho me da, outra cujo a saudades é impossível de matar, mais as historias que me contaste Zezé é de sempre recordar e esta tinha logos repertórios que iam dês do tempo que os bichos falavam, passando por cavalos, raposas e todas as camaradagens da floresta até cachos de testa que até hoje é perigoso contar, há ia esquecendo de falar alem dos contos, poesias e versos como tu gostavas de tocar e cantar.
E a culinária? Vocês podem me perguntar. Vou falar tem G de galo de galinha, tem milho da vizinha, tem charutos da Tia Raimunda ótimos pra arrematar e uma delicia de se provar, sim e cocada sem coco o que é estranho de falar mais tudo isso tem mesmo nesse lugar.Claro devo ressaltar hoje se precisar de ovo o Kim deve procurar, mais bezerro nem conte a tempos eu estou a esperar.
Hoje se tudo isso você quiser comprovar sente na calçada do Zé Nelson e se ponha a indagar e eu creio que brevemente suas respostas você irá achar.

Quinta-feira, 18 Agosto, 2011

Anônimo disse...


NETO DO VÉI NELSON
NÃO APRENDI A RIMAR,
MAS OUVIR CAUSOS DA VIDA
ISSO APRENDI A GOSTAR
VOU PARANDO POR AQUI
PRA FAMÍLIA NÃO CRITICAR
O QUE GOSTO MESMO DE FAZER
É OUVIR DO QUE PROPRIAMENTE FALAR.
Sou neto e filho de Terezinha de Sabóia Roberto, esta sim tem muito causo a dizer do véio Nelson, inclusive o Verso do Caminhão Velho.
Quinta-feira, 18 Agosto, 2011

Luiz Bomfim disse...

Raimundo, o Curral Velho, aí citado, era de propriedade de Francisco Rodrigues, que não era bonfim, casado com com a sua Tia Fransquinha e que é pregado a Santo Antonio.
Andei muito com o Pe. Bomfim na carupa da motocicleta mas, garanto que não era eu o garupeiro nesta viagem que se deu o encontro com o bode danado.
Quinta-feira, 18 Agosto, 2011

Anônimo disse...


Também sou neto dele e o ouvi recitar várias vezes muitos versos. Sou filho de Terezinha de Saboia e sou apreciador desta e outras artes. Em um outro dia, quem sabe , tentarei alguns versos.
Sábado, 20 Agosto, 2011

Sobre ideologia e literatura


O Estadão traz um artigo de Gao Xingjian, o novelista e dramaturgo chinês, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2000, que “reflete sobre os embates entre a arte da escrita e a política”. Trata-se de uma tradução a partir do inglês, de um texto escrito, originalmente, em chinês para ser lido em duas palestras do autor. Vale a pena a sua leitura, AQUI.