domingo, 26 de janeiro de 2014

Camarada Raposo – Um revolucionário crateuense

                                       
            Um dia, propuseram-me uma difícil questão e nada comum: E se Hitler tivesse ganho a Segunda Guerra Mundial?  Respondi, denotando certo gracejo, que, talvez, o mundo fosse uma grande Cuba ou uma imensa China, formada exclusivamente por arrogantes brancos, metidos a puros, e nós, brasileiros, possivelmente não existíssemos mais!
Tenho ciência que a resposta poderia ser outra e sei, também, que a história não trabalha com se, e sim com o que aconteceu. Mas a pergunta inoportuna trouxe-me, a mente, um grande poeta americano que se iludiu com as teorias econômicas e ideológicas do Nacional-Socialismo: Erza Pound. Um magnífico vate, um sexagenário crítico literário que perpetrara um crime inafiançável. Defendera as teorias econômicas nazistas numa emissora radiofônica da Itália, com pronunciamentos antidemocráticos, em plena 2ª Guerra Mundial. Arrependera-se: “Fui um estúpido. Enganei-me. O conhecimento me chegou tarde de mais... Muito tarde me chegou a certeza de nada saber... Agora, uma máscara aprisiona meus pensamentos, abafa a minha voz.”  
O mundo literário levantou-se em favor da universal poesia poundiana. Ernert Hemingway, autor de “O Velho e o Mar”, sentenciou o povo americano, em viva voz: “Erza é um grande poeta e o proclamo com orgulho. Deixemos de perseguir os nossos poetas. Modifiquemos a mentalidade americana segundo a qual um homem deve ser castigado, sempre que se recuse a se conformar com a massa!”
Pound passou três semanas num campo de concentração, como um animal dentro de uma jaula e 13 anos num hospital psiquiátrico. Foi a forma encontrada de livrá-lo da prisão, considerando-o mentalmente incapaz e, mesmo numa “gorila cage” rugiu em versos: “Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba / Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas... Sou um poeta, e bebo vida / Como os homens menores bebem vinho.”
Enquanto Erza Pound pagava por seus pecados socialistas, arribava da cidade de Crateús, de encontro a melhores dias, um poeta stalinista estremado, para se tornar um dos mais importantes militantes comunistas do Ceará, dos dourados anos de 50 até a década perdida dos 80, e chamava-se Manoel Coelho Raposo, o Camarada Raposo.
Desde os jogos de bila e as brincadeiras de roda-peão pelas calçadas, ou vendendo bombons e chicletes com um caixote dependurado no pescoço aos namorados na Praça da Matriz, que a sua juventude ia sendo marcada pelas atitudes do humanista e revolucionário socialista Norberto Ferreira Filho, na cidade de Cratheús. Ferreirinha foi o modelo que o influenciou na trajetória de marxista militante da causa proletária.
Um padre havia proibido aos fiéis crateuenses de comprarem pão na padaria daquele comunista, pois vivia metido com “coisas do diabo”. Mas o pai de Manoel, Seu Genuino Raposo, ordenava:
                — Manoel, vai comprar pão lá no compadre Ferreirinha, pois nunca vimos um pão ser comunista!
                Na padaria, o menino sentia o cheiro do pão quentinho saindo do forno e assistia às discussões dos militantes, ali presentes: Vicente Lopes, Osvaldo Farias, Mário Pontes, Seu Ferreirinha entre outros, que elogiavam o heroísmo dos soviéticos na luta contra o nazismo e a resistência aguerrida do povo de Stalingrado frente aos tanques de guerra e aos ataques aéreos alemães. Ouvia, atentamente, aqueles senhores externarem suas preocupações sobre as injustiças sociais e defenderem, com entusiasmo, a liberdade do ser humano cruelmente escravizado pela burguesia conservadora.
                Os sonhos do Camarada Raposo se avolumam, extrapolavam a inóspita caatinga dos Sertões de Crathéus. É ele quem nos esclarece: "Muito jovem, na minha pequena cidade, enxerguei nos livros a minha janela para o mundo, lia tudo que vinha às minhas mãos e como achava que os outros também deviam participar desse maravilhoso mundo da leitura, criei uma pequena biblioteca, a qual mantinha graças a algum dinheiro apurado na venda de frutas nas ruas da cidade. De repente achei que somente ler era pouco, tinha que escrever, que passar a outros minhas impressões sobre tão variados temas e, aí pelos dezoito anos já participava de um concurso literário, tirando o primeiro lugar.”
Um grande amigo crateuense, o Coletor Federal Carlos Rolim, para ajudá-lo a alça o voo, compra seus livros por 30 mil reis e o Manoel ruma para a Capital do Estado onde, além de estudar, trabalha no jornal do Partido Comunista Brasileiro, O Democrata.
Foi pioneiro em levar livros pelas ruas de Fortaleza. Era numa guarita de madeira sobre rodas, como uma Livraria Ambulante que depois foi afixada na Praça do Ferreira com apoio da Prefeitura Municipal. No ambiente da famosa Livraria Feira do Livro realizaram-se as maiores noitadas literárias da história do Ceará. Trouxeram até o Baiano Jorge Amado, autor do Cavaleiro da Esperança, para uma noite de autógrafos. No lançamento do Livro Sua Majestade, O Juiz, o escritor Jader de Carvalho assinou 840 exemplares, ficando com os dedos calejados. Foi uma pena que o seu livro foi proibido e retirado de circulação, pois denunciava a corrupção, a fraude, o estelionato e os atos arbitrários praticados pelos nossos magistrados entre os anos 60 e 80, em subserviência ao poder político estadual.
Ouçam, é voz do Camarada Raposo: “Lia os Romances do povo e as obras de Marx, Engels, Lênin e Stalin. Também as revistas que chegavam da União Soviética e da China contendo as realizações socialistas. Tornei-me um estudioso e propagandista das idéias do socialismo e, enquanto trabalhava na livraria, já escrevia algumas coisas para o jornal sob o pseudônimo de Petrônio."
Em 1964, logo após o golpe militar de 1º de abril, foi preso e encarcerado no 23º Batalhão de Caçadores, onde passou 33 dias. Dentro da prisão, Raposo compôs um de seus mais célebres poemas: “... O silêncio / do silêncio surge a "profecia" / "toda noite tem aurora" / quebra-se o silêncio / do lado esquerdo da rua / rompe o sol no horizonte / os raios invadem o lado / esquerdo da rua / a liberdade se anuncia / treme o lado / direito da rua.”
Ajudou a criar, em Fortaleza, a Frente Sindical dos Trabalhadores Rurais e Urbanos, em 1978. Ela foi uma precursora da Central Única dos Trabalhadores (CUT). E foi uma antecipação da fundação do PT. Quando o barbudo Lula veio à cidade e participou da criação do Partido Independente dos Trabalhadores, levou a ideia para o ABC paulista, para as mãos dos acadêmicos de São Paulo. Aliás, Luiz Carlos Prestes dizia que Luiz Inácio, o Lula, nunca passara  da 10ª página do O Capital.
Os comunistas afirmam: Como podemos acreditar num Deus dos capitalistas que permite que milhões passem fome, milhões não tenham onde dormir, milhões não tenham trabalho, escola, assistência médica...  Deus era uma questão mal resolvida em Manoel Raposo, que dizia: Deus é o incognoscível momentâneo do homem. E um dia se viu entre a Cruz e a Espada. Resolveu casar na Igreja Católica. No dia do casamento com Maria do Carmo, a cerimônia teve de ser interrompida. Tudo corria de acordo com o manual católico até o padre perguntar se o noivo havia confessado os pecados e comungado. “Não senhor”. - Então, o senhor não pode se casar. O ritual foi suspenso. Todos ficam sem saber o que fazer. O padre pergunta, perplexo: -Por que o senhor não cumpriu os mandamentos? “Porque não acredito neles”. Mais alguns minutos de agonia e o clérigo, vencido, decidiu casar o “ateu”.
Raposo confessa: “Convidei o padre para tomar umas cachaças comigo depois da cerimônia”. E continua se confessando: “Cometi um grande e grave erro ao entrar para o PT. Não consegui antever que a burguesia brasileira não era revolucionária, era, sim, conciliatória. Apoiei Lula mesmo sabendo que ele nunca faria a revolução." 
Bertold Brecht disse que os homens imprescindíveis são aqueles que lutam por um ideal durante toda uma vida como Erza Pound e Manoel Coelho Raposo. Arrisco minhas ilusões de um mundo melhor na pessoa do guerrilheiro José Alberto Mujica quando diz: “Precisamos priorizar o choque de valores: tornar cada vez mais clara a mediocridade da vida burguesa e apontar modos alternativos de convívio, de produção e consumo. Sinto como minhas as derrotas do movimento socialista. Ensinam-me o que não devo fazer. Mas isso não significa que vá engolir a pastilha do capitalismo, nesta altura de minha vida”.
Como Hemingway que um dia aclamou Pound, deixo agora que Erza Pound, em nome dos Camaradas Raposo e Mujica, os saudar, meus caros leitores, como mais uma voz perdida no deserto: “Oh geração dos afetados consumados / e os consumadamente deslocados, / Tenho visto pecadores em piqueniques ao sol, / Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas /  Tenho-os vistos seus sorrisos transbordantes de dentes / e escutado seus risos desdentados. / E eu sou o mais feliz de vós, / E eles eram mais felizes que eu; / E os peixes nadam nos lagos / e não possuem nem o que vestir.”



Raimundo Cândido

Silas Falcão disse...
Conheci o Manoel Raposo na Premius Editora. Conversei com ele em reuniões da ACE – Associação Cearense de Escritores, da qual era associado. Sempre falava de um mundo melhor. Sempre discursava felicidades coletivas. Em nenhum momento ouvi da oralidade de Raposo, pensamentos que não fossem de liberdade e igualdade humanas. Comunista sem definhar, ele sempre acreditou no que escreveu em prosa e verso. Escrita louvando a igualdade entre os povos. Em nossos encontros na ACE, eu sempre ouvia mais que falava. Sentia-me muito bem informado quando escutava as memórias de luta dele. Tinha ele uma pequena editora que muito ajudou escritores de recursos menores, a editar livros. Claro que havia uma linha editorial! NUNCA as prensas – naquela época, década de 70-80, a linha de produção de um livro era mais mecânica, de pouca tecnologia - da sua editora imprimiriam conceitos contrários à sua formação comunista. NUNCA! Manoel Raposo construiu uma convicção comunista que o acompanhou até sua morte, mesmo quando se afastou definitivamente do PCR – Partido Comunista Revolucionário. A Carta pode ser lida no http://grandedazibao.blogspot.com.br/2012/04/carta-de-afastamento-do-pcr-de-manoel.html. Ele sempre me falava de uma sociedade sem degraus, liberta das correntes do capitalismo. Dia de sua morte, 10 de novembro de 2009, a inteligência comunista universal perdeu um dos seus mais ferrenhos propagadores em seus 60 anos dedicados à cultura e à luta do nosso povo. O amigo cronista Raimundo Cândido cita também Vicente Lopes. Este, eu não conheci. Mas sei de suas consciências comunistas muito longamente narradas por sua esposa Abgail Lopes, bisavó dos meus filhos. Ela, hoje com 105 anos, inúmeras noites relembrou os passos agressivos dos coturnos da ditadura na busca pelos escondidos da sua casa de Marx, Engels, Lênin e Stalin. Muitas vezes eles estavam em profundos buracos escavados no quintal. Vicente Lopes também foi preso por ler e divulgar maravilhosas ideias de uma sociedade igualitária idealizada por estes escritores. Crateús tem riqueza intelectual. Tem memórias de liberdades ainda contadas diariamente por seu Ferreirinha e registradas por este cronista das Ribeiras do Poty, Raimundo Cândido. Parabéns por este trabalho de pesquisa. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Versejar



                         Versejar é orgasmo!
                           As palavras pulam em ardor...
                              E dançam...
                                 E vicejam...
                                    Agitam-se
                                       num impetuoso remanso.
                                          Exuberam,

                                             em assombro aos olhos,
                                                aturdidas na luz
                                                   de um redemoinho
                                                      que incendeia
                                                          o coração!

                                                                                Raimundo Cândido

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Cerinha, O Mito.

                                                  
           Diz uma lenda que o “estalo” que houve na cabeça do menino Antonio Vieira serviu para torná-lo um dos maiores oradores da Companhia Jesus, o gênio do Barroco brasileiro. Publicou mais de 200 sermões e um calhamaço de umas 700 cartas. Quando em Lisboa, no púlpito da Igreja da Misericórdia, perante Dom João IV, um fidalgo baixinho, gordo, feio, com as pernas cheias de perebas, seguido por uma bajulenta Corte, o Pe. Antônio Vieira disparou o verbo contra os corruptos acompanhantes de sua Majestade: — Antigamente, quem andava ao lado dos Reis eram os Laterones, nobres de coração! Hoje, corrompeu-se o vocábulo e os acompanhantes, chamam-se de latrones! Foi um dos maiores discursos do famoso Pe. Vieira, antes que aquela contagiosa Corte viesse se esbaldar no Brasil, infelizmente. Chamou-se o Sermão do Bom Ladrão, embora na Bíblia a gente não encontre uma citação sequer, sobre um ladrão bom. E continuou o Padre, incisivo: — Quantas vezes se viu Portugal a enforcar um ladrão de galinha e, no mesmo dia, elevar ao triunfo um Governador, por ter roubado uma província?  
Em tempo algum, um discurso antiguíssimo foi tão atual!
No Brasil, do Oiapoque ao Chuí, nunca se roubou tanto! Na quase totalidade dos 5570 municípios o modus operandi da ladroagem é o mesmo, numa criatividade e imaginação insuperáveis para o resto do mundo: Licitações viciadas, desvios de verbas legalizadas, tarifas astronômicas, taxas abusivas que matam o cidadão e a Lei fazendo com que “Fichas Sujas” fiquem limpas como o milagre da água em vinho, através de acordos escusos e indecentes embargos infringentes. Noutro Civilizado Mundo, dizem: No Brasil, o povo é bobo!
O destemido Pe. Antônio Vieira, com o dedo em riste, concluiu ao pronunciar, lentamente, cada palavra como uma punhalada sem misericórdia na consciência desavergonhada e incrédula da platéia: — Basta, senhor, que eu, porque roubo uma galinha, sou ladrão, e vós que rouba descaradamente da força pública, sóis Governador?
Ouçam... A voz de Vieira ainda retumba no ar!
No ano de 1952, no Distrito de Nova Russas, numa das grandes seca dos Sertões de Cratheús, ouviu-se o choro de mais uma criança que nascia na prole, já numerosa, de Dona Maria e do senhor José Henrique do povoado de Rosário. Era o menino Antônio Vieira, que foi adotado pela caridosa Lili Rosa, compadecida daquela precária situação familiar, e resolve levá-lo para o Rio de Janeiro. Poderia ter sido um benévolo padre, com a aptidão do Paiaçu Vieira dos indígenas brasileiros, se a sorte assim o quisesse. Não quis! Desde cedo a criança foi mostrando uma propensão natural para pegar o que não lhe era devido. Um brinquedinho de um amigo, um lápis, uma borracha de um colega no colégio e a coisa foi ficando séria. Tão séria que aos onze anos pegou seu primeiro xilindró!
Os vizinhos o tinham na conta de fino larápio e a polícia já o amaciara, por diversas vezes, com uns “leves carinhos” de um cassetete.  No Rio de Janeiro desenvolveu a arte e a técnica de surrupiar como os gatos, de subtrair furtivamente, imperceptível como se invisível fosse. Roubou até a quem o ajudou!  
As inúmeras tentativas de correção e a paciência de Dona Lili para entender o descaminho daquele menino, já chegaram ao limite. Ele dizia que alguma coisa o impelia a roubar, como um “Estalo de Viera” invertido, uma compulsão enorme para furtar o dominava. Acorrentaram-no, inúmeras vezes, como a um animal perigoso no quintal e nada adiantou!  Mal se via livre das amarras, os roubos começavam na redondeza.
A solução foi mandá-lo de volta para Cratheús, aproveitando uma viagem de navio de Madrinha Francisca Rosa que se encontrava na Cidade Maravilhosa. Torrou o dinheiro da digníssima professora no bar da embarcação, e já surrupiara as reluzentes talheres de prata, quando os marinheiros notaram a artimanha do fino gatuno. Foi um pega num pega, uma correria danada pelo convés do navio, até que o acuaram na amurada. Depois deste costado de ferro rugia a imensidão do mar, estava pego, pensaram os marujos. Ele não teria coragem de pular. Pulou!
Mergulhou na imensidão do Oceano Atlântico sem o mínimo de medo, pois sabia que a sua vida já estava como a brisa do mar, sem rumo, sem prumo e nada mais faria diferença. Mas subiu pelas cordas que lhe jogaram, talvez percebendo que o mar é quem rouba, nunca é roubado.
Já na terra natal arrumaram-lhe um emprego: varrer os capuchos de algodão que ficavam espalhados pelo chão da Algodoeira. A primeira coisa que sumiu foi o dinheiro das vassouras! Aqui encontrou o ambiente ideal de praticar as suas estripulias, pois logo fez amizades com o Chico Lau, O Louro Guaraciaba, o Joaquim da Romana e o grande sócio Luiz Cabeleira, que guardava os frutos diários dos furtos.
Muitos autores consagrados escreveram bons livros como: A arte da Guerra, a Arte da Sedução, a Arte de Falar, a Arte de Amar... Mas somente um escreveu, primorosamente, nas páginas do próprio corpo, a arte da fuga: o memorável gatuno Antônio Vieira, mais conhecido por Cerinha!
A polícia crateuense cansou de jogá-lo nas solitárias masmoras, na escuridão do Cara-Preta, num xadrês apertadíssimo chamado de O Litro, onde ficava totalmente nú, com o chão completamente molhado e ele cinicamente dizia: - Ôpa! Ainda hoje eu fujo daqui! O Litro prá mim é sopa...
O Sgt Holanda foi quem o apelidou, ao vê-lo com as costas grudadas num canto de parede, subindo como uma lagartixa, as mãos e os pés grudando e desgrudando com uma força adesiva das melhores ceras que existem. Os soldados ficavam boquiabertos com a capacidade de fuga do Cerinha. Conseguira fugir facilmente até da Colônia Agropastoril do Amanari, em Maranguape.
Quando “hospedado” na Cadeia Pública de Crateús, no fim de tarde, as alunas da Madre Palmeiras, do Patronato Senhor do Bonfim, todas com uma blusa branca e uma gravatinha azul gravada as letras PSB, iam visitar o Cerinha. Algumas levavam cigarros e até ofereciam bombons. Certo dia cerinha entra pelo teto de uma residência, já marcada para um roubo. Dizem que, antes de descer, silenciosamente, eles defumavam todo o ambiente com o perfume da cannabis  sativa, para fortalecer o sono dos dorminhocos. Cerinha reconhece a aluna que lhe oferecia brindes e ordena aos companheiros: — Nesta casa não vamos roubar! Vamos só ver o que deixaram de bom prá gente, na geladeira!
No dia em que prenderam Luiz Cabeleira, o afoito gatuno Cerinha resolveu soltá-lo! Pois amizade verdadeira não quer saber de defeitos ou de qualidades. Até as sombras da noite dormiam, depois que apagaram os lusco-fuscos dos postes. Errou o local da cela e destelhou foi o aposento do perverso e tarado Manoel da Lindaura, que de burro e tolo ainda alertou os soldados. E o Povo dizia: O Cerinha é mais liso que sabão! Novamente fugiu.
Por toda redondeza dos sertões corria a fama do larapio crateuense: Em Juazeiro do Norte, em São Benedito, em Fortaleza... Em todas elas, com o consentimento da noite, ele furtou!
Tenho a impressão que as paredes da Cadeia Pública de Crateús sentem saudades desde o dia em que ele fugiu pela última vez, e não mais regressou.
Dizem que colocaram um ponto final no seu interminável livro de histórias de fugas.
Dizem que ele se enfadou de tantas facilidades em fugir das prisões do Ceará que rumou para outras aventuras e hoje se encontra muito bem de vida, numa velhice honesta, lá para o lado de Salvador, onde seu xará Pe. Antonio Vieira tanto pregou em prol da dignidade e da honradez do povo brasileiro e que em meu insignificante julgar, que nunca aprendemos!
Mas, como Cerinha que voltou para salvar o velho amigo, volto também atrás em minha opinião, quando me lembro das palavras do grande gênio do Barroco brasileiro: “Quando julgamos aos outros, condenamos a nós mesmo”
Mesmo assim, sinto uma danada nostalgia de quando os ladrões do nosso surripiado Cratheús eram do tipo do mito chamado Cerinha!

Raimundo Cândido

Silas Falcão disse...
Raimundo Cândido, cabra bom de escrita, parabéns por esta belíssima crônica. Criança na minha inesquecível Rua da Cruz, relembro o medo justificado do meu pai, Pedro Severino, quando colocou olhos noturnos escondidos em frente a nossa casa da rua citada para vigiar a chegada do Cerinha, que anunciou para todos os ouvidos da nossa rua que roubaria a casa do Pedro Severino. Durante noites insones o vigia esperou em sua tocaia silenciosa, mas o Cerinha não apareceu para cumprir o prometido. Crianças, ouvimos muitas historias das peripécias inteligentes e habilidosas do Cerinha. Não resta dúvida que ele era um ladrão incontido nas prisões e que passou por Crateús espalhando medos nos anos 60-70. Não sabia que ele vive. Muito boa esta sua pesquisa, amigo cronista.  Outra vez, parabéns. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014



Postagem de Silas Falcão*

19 de novembro de 1988
Como conheci pessoalmente Graciliano Ramos. Anos {19}40. Eu estava no Rio de Janeiro e levava comigo os originais do meu primeiro livro de contos: Vidas Marginais. Queria ouvir a sua opinião, pois o considerava e considero um dos grandes escritores deste país. Conduzia comigo uma carta de apresentação de João Clímaco Bezerra, já seu amigo. Descobri o mestre milagrosamente sozinho, sentando num banco comprido ao fundo da antiga livraria José Olimpio. Lugar quase cativo. Ao lado, uma cadeira em cujo espaldar ele punha o paletó. No momento, amassava um cigarro Selma, tirando-lhe um pouco de fumo.
- É o mestre Graciliano Ramos? - perguntei-lhe.
- Não. Sou Graciliano Ramos ou Graça. Como você quiser.
Perturbei-me um pouco. Entreguei-lhe a carta de apresentação, que ele leu rápido, perguntando-me pelo Clímaco.
- Vai bem.
Já sentado, disse-lhe o que desejava. Que ele, por obséquio, lesse o meu livro e me desse a sua opinião. Não era meu desejo pedir-lhe que o apadrinhasse para uma possível publicação. O seu julgamento bastava-me.
Sentei-me nervoso, catando as palavras.
Graciliano abriu o livro. Leu umas duas páginas. No momento chega a escritora Leoni Tolipan (?), a quem ele passa os originais, com esta observação:
- Veja como o estilo dele é dinâmico.
Chagavam escritores, que o cercavam: José Lins do Rego, Rubem Braga e outros, aos quais me apresentava. Fui-me sentindo gauche, sem encontrar palavras sábias ou inteligentes para uma conversa.
Ao tempo, era profundamente tímido.
Ele marcou um dia da semana para devolver-me o livro. Despedi-me, batendo com a cabeça. No dia marcado, e hora, eu estava lá, e ele também, no mesmo banco comprido, o paletó no espaldar da cadeira, desfazendo igual cigarro Selma. Sua palavra seria minha esperança ou condenação como possível escritor.
Tremia.
Ele apanhou os originais ao lado:
- Li e gostei deveras.
Uma onda de sangue subiu-me ao rosto, literalmente feliz. Disse-me também que sua senhora o lera, gostara muito e me convidava para almoçar com eles no domingo.
Era a consagração!
Foi quando, por encabulamento, temendo encontro difícil com outros intelectuais, cometi a imensa gafe de recusar o convite e convidá-lo para almoçar comigo num restaurante qualquer da cidade. Ele não foi ríspido. Riu, irônico:
- Se você não aceita convite de minha mulher, eu vou aceitar convite seu?
Quase morro, vermelhíssimo.
Contudo, ele sempre me tratou com muita simpatia. Talvez sentisse em mim o matuto que ele fora em Quebrangulo ou Palmeira dos Índios.

*Porta de Academia é uma série de escritos (1987-1994) do Caderno Fame, Jornal O Povo. Sempre aos sábados eram editadas as crônicas de Moreira Campos (1914-1994), contista dos melhores da literatura brasileira. Livro classificado pela Premio Otacílio de Azevedo de Reedição, (Secult-CE). Edições da UFC, 599 páginas impressas na Premius Editora. Porta de Academia foi coordenado por Neuma Cavalcante e organização de Isabel Gouveia Ferreira Lima. Edição 2013.
  
Minha primeira leitura em 2014. Recomendo.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014


PROCURAM-SE POETAS, CRONISTAS E CONTISTAS!

Por Silas Falcão

Quando mentalizei um grupo de escritores compartilhando o mesmo livro, ocorreu-me a ideia de criar o Projeto Edições em coautoria. Na reunião da Associação Cearense de Escritores - ACE – no mês de julho de 2012, apresentei aos associados este Projeto em que cinco escritores compartilhariam o mesmo número de páginas, orçamento e gênero literário. Da ideia até final de 2013, foram editados sete livros, beneficiando, por um valor de investimento financeiro baixíssimo, trinta e cinco escritores. Muitos destes inéditos em livros de prosa e poesia. Este é o objetivo principal do Projeto: edição de parte da obra literária do escritor inédito.

Uma inovação que enriquece o Projeto é a linguagem do marcador de páginas. Em cada edição do livro, o grupo homenageia uma instituição ou pessoa. A Casa de Juvenal Galeno e os poetas Mário Gomes e Horácio Dídimo foram homenageados respectivamente nos livros Toque de acolher, Sinos dos ventos e A janela azul. Poemas em 5 faces homenageará o poeta Barros Pinho.

Participe deste projeto!

luaazuledicoes@gmail.com
Jfsilasfalcao@gmail.com


Abraços, sempre.

sábado, 18 de janeiro de 2014

              

NOTURNO DO VIGIA

O vigia sorri. Mas numa madrugada sem adereços, o velho das histórias engraçadas não aparece mais. Disseram ao vigia que ele sempre faz isso.

Há dois séculos.


Do livro de micro contos O colecionador de dedos.

Silas Falcão

Ânsia férrea


                                                        As rodas escorrem
                                                        e perdem-se
                                                        na palidez reta do infinito...
                                                        Um apito longínquo
                                                        traduz a alinhada mágoa
                                                        e alonga-se nos trilhos,
                                                        afeito sonora dor!
                                                        Os encardidos vagões
                                                        lamentam no choro
                                                        rouco da velha locomotiva,
                                                        que celebra uma férrea poesia
                                                        em frente à minha janela!
                                                        O som da saudade,
                                                        num oleoso sorriso,
                                                        ressoa no dorido peito
                                                        e no chão dos calejados pés,
                                                        invocando-me, ao longe...
                                                        Ir-se, o que é preciso
                                                        e que intuitivamente prezo,
                                                        eu sei!
                                                        Vogar sobre os trilhos...
                                                        Pairar, como as paisagens
                                                        estampadas nas janelas...
                                                        Partir... À última fronteira!
                                                        Quem sabe dá próxima vez,
                                                        eu vou!

                                                        Raimundo Cândido


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A Porta


                                                   Transfiguram-se, sombras e luz!
                                                   Vida afável, morte vil,
                                                   diligentes entram
                                                   e saem, pela velha porta
                                                   escoltando o sol e a lua.
                                                   Bom dia! Boa noite!
                                                   Olá! Como vai?
                                                   E, quando isso se dizia!
                                                   Uma mão cheia de gerações
                                                   pendeu nos degraus e partiu!
                                                   Punha-os a caminho,
                                                   na esperança de regresso,
                                                   e na prostração última, onde se nota
                                                   o turvo sorriso das ruínas
                                                   feito despedida e saudades!
                                                   A enegrecida madeira
                                                   guarda as lembranças
                                                   nos poentos destroços
                                                   e na proteção das tramelas
                                                   que guarnecia os dias de outrora
                                                   e desfere um adeus apagado,
                                                   que dolorido se extingue
                                                   no desfecho das eras!


                                                                             Raimundo Cândido

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Entardecer na Ibiapaba

 
            O boqueirão da Serra Grande engole as águas ralas do Poti que, em tempo, preenchem o sedento Poço do Piau, repleto de cacimbas de beber e da algazarra nos banhos das meninadas. O rio serpenteia sinuoso, marchando entre vertentes profundas, nas milenares gargantas pétreas que assustam o sertão sofredor e segue inabalável, rumo ao vizinho Estado do Piauí.  
Assentado na margem esquerda, o povoado da Ibiapaba vê, com desânimo n’alma, o passar interrupto do Poti. Sem solenidade de despedida, sem choro de adeus, observa fluir, rapidamente, o sangue das sístoles invernosas, entre um suspiro de vida e o arquejar da morte. Como no caririense Rio Jaguaribe, de Demócrito Rocha, há décadas que se espera uma providente pinça hemostática: um salvador Lago de Fronteiras a recuperar os séculos perdidos!
Antes, era um singelo lugarejo chamado Barrinha, com a Casa Mocha no lugar do melancólico Mercado. Hoje, a Ibiapaba sonha em se tornar um próspero município, coisa que já poderia ter acontecido, se a politicagem infame não desejasse somente os votos do humilde cidadão que labuta no sertão.
E o tempo passa, inevitável e célere. E as coisas dificilmente mudam no sopé da Serra Azul. E a enxada sua na empreitada das imprecisas horas de sol inclemente, no incerto mundo de meu Deus.  
Na Ibiapada, na hora do crepúsculo vespertino, mal o sol se põe, as cadeiras já estão espalhadas pelas calçadas. É o instante em que o povo humilde deságua as aflições do dia-a-dia, mirando o fluir dos trilhos que correm paralelos ao Poti, carregando a esperança do ibiapabano. Sentados nas calçadas ouvem-se lorotas, chistes, gracejos, causos e as estórias centenas de vezes contadas, mil vezes repetidas, mas sempre escutadas como se fossem a primeira vez, audição atenta, olhos brilhando e a alma repleta de felicidade, no agreste dos sertões de Cratheús.
O calçadão alto da casa de Abdias Frauzino está repleto de ouvintes para as narrações divertidas de Zé Moisés, um contador de histórias da Ibiapaba. Um típico sertanejo, raquítico, de baixa estatura e o olhar cansado de quem muito padeceu e, tal qual o Patativa de Assaré, sem o dom e a arte confundir-se-ia com um simples lavrador do sertão. Contar historia requer sensibilidade e um alto poder de encantamento, isso é dote. Abrem-se os olhos de ouvir e os ouvidos de ver.
- Zé, e a cobra que te mordeu, como foi? Alguém puxa conversa, senão a sessão de contação de estórias, no entardecer da Ibiapaba, não começa.
Zé Moisés se ajeita na cadeira, olhando a platéia numerosa, os mesmos rostos de sempre para ouvir uma história repetida, mas sempre renovada como a ânsia de quem reza uma oração e se robustece em cada vez que é repetida. O narrador começa:
- Estávamos plantando uns pés de algodão. De repente pisei numa grande touça seca de mameleiro. Em pouco tempo, olhei para meu companheiro de roçado e alarmei:
- Manoel, eu estou ficando com o meu pé dormentizim!
- Valha seu Zé! E o que é?
- Rapaz, eu não sei não!
Encostei-me por ali e lá vem aquela coisa ruim, a coisa pior do mundo. Já estava passando a mão nos olhos:
- Valha-me Deus! Será que vou cegar? Que foi isso que me feroou?
Ainda vi a ruma de cascavel embolada debaixo dos galhos secos de mameleiro e gritei:
- Chega depressa aqui, Manoelzinho!
- Que foi seu Zé? O senhor se cortou?
- Mas antes fosse! Olhe aí! Foi esse animal que me mordeu?
Matamos a cascavel e contamos sete enrusgas no chocalho.
- Vamos logo seu Zé, suba na minha moto, vamos passar primeiro em casa e de lá vamos ao Posto de Ipaporanga, que é mais perto. Mas cuidado com a minha mãe, ela é tiro e queda para quem está com veneno de cobra.
O enfermeiro de Ipaporanga foi logo perguntando que cobra foi que picou. Quando viu o chocalho, alarmou:
- Seu Zé, o senhor é o velho de mais coragem que já vi até hoje! Uma hora destas e ainda desse jeito! Vou lhe mandar para Crateús na ambulância, pois estamos sem o soro antiofídico.
- Dr. posso beber um pouco d’água, não aguento mais tanta sede! Perguntei.
- Nem fale isso! Se você beber é um homem morto!
O motorista da ambulância correu feito um desembestado, a poeira subia na estrada, e eu pensei que a gente ia morrer era na viagem.
Em Crateús, perguntaram a minha idade. Tenho 72 anos, respondi. Aplicaram uma injeção, que não tinha tamanho, nos meus quartos que ainda hoje a agulha está aqui. Em pouco tempo enguiçou tudo, eu fiquei duro, durinho, todo enjambrado de duro.
Na calçada enquanto o Zé conta a história, um ajudante, destes metido a enxerido, vai, simultaneamente, recheado a narrativa alheia de complementos seus:
- São 40 dias de perigo! E os piores são o primeiro e o derradeiro!
A platéia ri. Concentra-se e ri novamente dos trejeitos dos atores.
O contador retoma o fio da meada. Quando um médico passou por mim foi logo perguntando: - O senhor está melhor, meu amigo?
- Tô lá nada, doutô! Agora tô é pior! E fui puxando as capelas dos olhos que já estavam pregadas! Quando meus olhos se abriram é que a coisa ficou feia. Falei para um dos homens vestido de branco: - No lugar de ver um enfermeiro, agora estou vendo é dois? E ele me disse:
- Eu fico é satisfeito, que esteja vendo dois!
- Valha, o senhor fica satisfeito que eu veja duas marmotas?
- É sim! Agora eu ficaria triste se o senhor não tivesse vendo nada!
- Mas me diga uma coisa: Eu vou ficar vendo dois todo tempo?
(Os risos prazenteiros da platéia ecoam no silêncio do povoado e se espalham pelas águas barrentas do Poço do Piau) 
- Quando voltei para casa vi que até a minha roupa tinha ficado com a catinga da cobra. Ele termina a primeira narrativa da noitada.
Enquanto uma história puxa a outra, a noite desce sobre o tranquilo lugarejo, e é quando notam que é hora de repousar para mais um dia de labuta.
No cair da tarde de amanhã, quando as sombras da Serra Grande cobrirem os telhados enegrecidos das casas da antiga Barrinha, o duende Zé estará pronto para mais uma mágica sessão de estórias e peripécias na velha vila, onde um arruinado cruzeiro de aroeira relembra a caminhada do capuchinho Frei Vidal da Penha, que peregrinava rumo à Cratheús. E se você quiser sorrir, gargalhar de contentamento arrebatado dos causos do Zé Moisés, é só ir lá e comprovar o dom de um contador de estórias nas tardes impregnadas de melancolia no entardecer da Ibiapaba.

Raimundo Cândido 

Sebastião César Aguiar Vale disse... 
Raimundinho: O rio Jaguaribe não é um rio caririense; é jaguaribano e nasce onde nasce o rio Poti, na mesma Serra da Joaninha. É um pra lá e outro pra cá. Mas, você não é geógrafo, e sim, matemático, não tem importância. O Rio que vem do Cariri é o rio Salgado, que despeja no Jaguaribe (acho que sim). Um abraço jaguaribano e caririense pra você.

Chico Pascoal disse...
Conheci o seu Zé Moisés. Eu era menino.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Curral da Estação



Ocorre um milagre quando os primeiros pingos de chuva tamborilam no solo calcinado do sertão. O sertanejo, uma vitima inevitável da estiagem, vendo a terra molhada e o verde mato crescendo, agradece a Deus pela abundante fartura e pela renovação da vida ao estrondo do trovão.
  A Caatinga, poesia fecunda, restaura-se pelo aguaceiro que desce do céu escoltado pelos coriscos acesos que caem dos miolos das nuvens, produzindo fartura de porção. O sertão, ditoso e rico, é mágico. Se chover dá de tudo, como diz uma canção.
Nas fazendas de criação de gado forma-se um pasto verdoso nas soltas ilimitadas, a forragem nativa de capim mimoso, que logo se transformará em dinheiro vivo no bolso do patrão pela valorosa carne de engorda.  E, ao fim do inverno, os criadores juntam suas boiadas já formadas, dezenas de reses corpulentas com o peso ideal para venda e abate. É de onde provém a renda principal que mantém lucrativa uma propriedade no impiedoso agreste.
Cratheús, do meado do século XX, é uma pequena cidade que arduamente floresce nas margens do intermitente Rio Poti e se desenvolve graças ao vai-e-vem dos trens correndo sobre os trilhos rumo às cidades de Sobral e Fortaleza. Tudo se transporta nos vagões puxados pelas hercúleas máquinas a óleo: além dos passageiros elegantes e resolutos, a diversificada mercadoria dos comerciantes, os animais dos fazendeiros e as evasivas esperanças de um município que, lentamente, cresce. 
No lado esquerdo do majestoso Prédio da Estação há um armazém abarrotado com pilhas de sacos de oiticicas, de mamonas, de rapadura, de farinha oriunda da Serra dos Tucuns, e as carroças continuam chegando com mais mercancias para se despachar no trem. Do lado direito do monumento construído pelo Engenheiro João Tomé, antes do ponto de manobra do velho viradouro, o povo se empoleira nos trilhos que formam as cercas do Curral da Estação para assistir ao espetáculo de embarque do gado nos vagões. Enchem uns dez gaiolões de treliças de madeira, com vinte cabeças em cada um, para abastecer a Capital do Estado. 
Era um gado curraleiro, mas rústico chamado de pé duro que chegou ao Brasil nas caravelas dos colonizadores, com um porte pequeno e chifres longos, mas de uma carne saborosa, gosto de pastagem semelhante à galinha caipira do sertão. De vez em quando um animal, dos mais ariscos, se assusta com a multidão curiosa ou com o aspecto ferruginoso do trem e foge, pula ou passa por baixo dos trilhos, obrigando aos vaqueiros botarem os cavalos no rastro do bicho e atalham antes que atropele um cidadão. Mesmo no burburinho da cidade, os heróis do aboio, tinham que honrar o gibão!
Quando o Curral da Estação era do lado da praça, o senhor Gentil Cardoso sempre fazia uma investigação minuciosa antes do embarque, pois houve ocasião que ele ordenara aos encarregados que retirassem suas reses que tinha acompanhado o gado que passava na rua e bem sério, determinava:
- Ei, Gabriel e Papilina, retirem aquelas duas reses que são minhas!  Vamos, soltem logo os meus bois!
Foi o Luiz Lima, funcionário da Rede Ferroviária quem ajudou a mudar o curral para o outro lado dos trilhos, o lado do viradouro e evitar os transtornos que estavam causando na cidade.
Os proprietários dos animais de abate, os senhores Chico Pires da Independência, Raimundo de Pinho, Raimundo Nonato, Milton Menezes e o Major Leônidas quando não acompanhavam, pessoalmente, o transporte num vagão de passageiros, mandavam um encarregado como o Senhor Antônio leite, homem de confiança de Seu Leônidas, que em cada estação, verificava a situação dos animais, levantando os que estavam caídos para não ser pisoteados pelos demais.
A volta era uma festa no vagão Sonho Azul, muito dinheiro no bolso e cerveja borbulhando nos copos, ouvindo a gaita do José Ivan Melo.
Passamos por essa bela época de fartura nos Sertões de Cratheús onde exportávamos os frutos da agricultura e os bens da pecuária, mas hoje importamos até água de beber. O Curral da Estação foi desativado pela inclemência do tempo, que nem sempre permite que se cultive uma simples roça de subsistência ou então, como uma fera impiedosa rangendo sequidão, devorava os rebanhos de nosso sertão.
No ano de 1926 o Curral da Estação esteve, momentaneamente, desativado. Depois que o Trem do Medo voltou de marcha à ré da cidade de Ipueiras, numa fuga malograda do cerco dos Revoltosos, uma nuvem de aflição pairava sobre a cidade de Cratheús. A força Policial do Governo entrincheirada na Praça da Matriz e da Estação aguardava a chegada dos Revoltosos.  Eram os legalistas, homens arrogantes, nervosos, violentos, exibindo uma autoridade desregrada e faziam questão de mostrar tudo que podiam. Eram piores que os barbudos revoltosos de lenço vermelho no pescoço, cometiam roubos, bebedeiras, estupros, desmandos de toda ordem.
O comandante da Força Policial, vendo-se sem um cavalo de montaria, convoca um crateuense chamado Negro Cajueiro e pergunta:
- Negro, quem tem uma montaria boa, por aqui?
 E o informante reponde: - É o Seu Júlio Urbino, da fazenda Pereiros! Ele tem a melhor burra da região, um animal resistente , é bem mansa e marchadeira.
- Pois vão logo buscar essa burra! Quero esse animal para minha sela! Ordena.
Seu Júlio Menezes havia comprado a magnífica burra do irmão, Cícero Urbino de Menezes, um cidadão resoluto que nunca provara o sabor insosso do medo e já demonstrara isso ao salvar o irmão Pedro, quando o mesmo raptara a Maria Mathias. Nas veias de Cícero, afora um rubro sangue, corria fibra, firmeza, determinação e coragem. Soube que o comandante colocava a burra para dormir no Curral da Estação, vigiada por um soldado e pede ao irmão um cabresto e a esteira. Seu Júlio até que tentou dissuadi-lo deste intento, não houve jeito!
Na penumbra da madrugada, pelo leito do Rio Poti, Cícero aproxima-se do vigia que tranquilamente roncava. Encosta a arma no cangote do cabra e ordena:
- Não se mexa! Eu só vim buscar meu animal!
Manda o soldado colocar o cabresto e a esteira na burra e ainda determina: - Diga ao seu comandante que a burra fugiu, senão você apanha dele e de mim. Devolve o rifle ao praça e some pela margem escura do rio para entregar o animal ao seu legitimo dono, entes havia retirado as balas do rifle do soldado, que ele não era besta.
Cícero e Júlio Urbino fizeram um pacto de levar para o túmulo essa bela História, mas diz uma antiga tradição que, três pessoas não devem guardar um segredo, se duas delas já estiverem mortas. Saber exatamente a parte do passado que deve ser introduzida no presente, mesmo que seja um sigilo, é um momento raro e precioso de resgate do passado e somos gratos ao Senhor Milton Urbino Menezes que soube, dignamente, honrar a memória dos que se foram.

Raimundo Cândido

Socorro Cavalcanti disse...
Parabéns, meu amigo, Raimundo Cândido, você é um admirável escritor. Parabéns por mais um texto que merece ser lido, relido e divulgado.  Um abraço centrado no desejo de um feliz Natal e um Ano Novo repleto de alegria, saúde e paz.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Heroico

(Ao velho amigo Sobreira)

A malíssima negridão afronta...
E continuará a afligir,
imperturbável,
os olhos metálicos das espadas 
dos anjos de Deus...
O bem e o mal fermentam, 
tônus inflamados, 
como tempero das eras!
E um dia o clamor de um poeta
quebrou os grilhões da escravidão!
Mas o cativeiro continuou, 
dominador e mortal, 
em vapores alcoólicos na alma de seres incautos... 
Um dia, um herói chamado Sobreira
ofertou seus dias, como permuta, 
no altar da negridão, por cegos olhos sãos, 
por dignidades regidas, por entes acorrentados
e os semi-vivos reedificaram-se na vida,
ao suplicar, como no milagre do cego de Jericó:
-Sobreira, filho de Davi, tem misericórdia de mim!

Raimundo Cândido