terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

                                                        
                                                            COISA
                                                                                                         
                                                                                      Autor desconhecido
  
A palavra "coisa" é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia.
 Coisas do português.
Gramaticalmente, "coisa" pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma "coisificar". E no Nordeste há "coisar": "Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?".
Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as "coisas" nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. "E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios" (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, "coisa" também é cigarro de maconha.
Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: "Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já." E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha. [Incentivando crianças ao uso de baseado???!!!]
Na literatura, a "coisa" é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica "O Coisa" em 1943."
A Coisa" é título de romance de Stephen King.
Simone de Beauvoir escreveu "A Força das Coisas", e Michel Foucault, "As Palavras e as Coisas."
Em Minas Gerais , todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de "a coisa". A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: "Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!".
Devido lugar: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (...)". A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro.

"Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca." Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.
Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta "Alguma coisa acontece no meu coração", de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).
Em 1997, a NASA lançou a "Missão Mars Pathfinder", enviando um robô para explorar Marte. O mecanismo foi programado para ser acionado a partir do som de uma música e a escolhida foi um samba de Jorge Aragão/Almir Guineto/Luis Carlos da Vila. Assim, o robô da Nasa, foi "acordado" com a música: "Ô coisinha tão bonitinha do pai...". Lembram?
Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!
Coisa de cinema! "A Coisa" virou nome de filme de Hollywood, que tinha o "seu Coisa" no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem "Coisinha de Jesus".
Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, "coisa nenhuma" vira "coisíssima". Mas a "coisa" tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré: "Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar", e A Banda, de Chico Buarque: "Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor". Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: "Coisa linda / Coisa que eu adoro".
Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o "rei" das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.
 Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade afinal, "são tantas coisinhas miúdas".
 "Todas as Coisas e Eu" é título de CD de Gal. "Esse papo já tá qualquer coisa...Já qualquer coisa doida dentro mexe." Essa coisa doida é uma citação da música "Qualquer Coisa", de Caetano, que canta também: "Alguma coisa está fora da ordem."
Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal.
O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa.
Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.
A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: "Agora a coisa vai." Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!
Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema "Eu, Etiqueta", Drummond radicaliza: "Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa.

Silas Falcão

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Madrinha Francisca


               O repique de nove pancadas no sino do SS Sacramento: Dlão! Dlão! Dlão! Dlão! Dlão... anunciava a hora do Angelus, quando um mensageiro trouxe a notícia do despontar de Jesus Cristo, nosso Salvador. Pelas esquinas da cidade, uns temerosos católicos faziam o pelo sinal da Santa Cruz: Livrai-nos, Deus, nosso Senhor, dos nossos inimigos. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém...  Mas, nas duas torres da Matriz com a tinta branca empalidecidamente enodoada, as vigorosas badaladas perturbavam um bando de morcegos, que fugiam em louca revoada. O poeta, cronista e professor Luiz Bezerra, aproveitava, mais um episódio citadino, para confirmar o humor perspicaz: - Eles saem assim, feitos uns alucinados, porque não foram batizados!

                Os portãozinhos da longa mureta, que davam acesso ao pátio da Matriz, já estavam abertos naquele crepúsculo vespertino dominical de 1952, e o povo ia chegando para a retreta no belo coreto circular que ficava no alto calçadão da Matriz. Até já se falava, devido à polêmica campanha do rebaixamento das calçadas, em diminuir aqueles cinco degraus dificultosos, mas o Padre Bonfim sonhava em, além de retirar a mureta erguida pelo Pe. Juvêncio, construir as alas laterais da nave da catedral.

                O Talentoso músico, Mestre Chico sempre foi pontual.  A banda começava, exatamente, às 7 da noite, tocando o dobrado “Jaçanã na lagoa”, seguido de um belíssimo roteiro musical que deleitava ouvintes de bom gosto, até na maneira de vestir. Enterneciam-se quando a voz do cantor se diluía em Índia ”... seus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar...”. Precisamente às nove horas, antes que apagassem as luzes dos postes, o sopro da flauta anunciava A Baratinha: “Chega, chega, minha gente, que o choro vai começá, repara como é gostoso, este samba de matá. A  Baratinha, a Baratinha, a Baratinha, bateu asas e voou.” Uma jovem Senhora de pele trigueira, olhos vivos, mente ativa, e puro espírito de alegria, que todos conheciam por Madrinha Francisca, rodopiava sem a mínima timidez por entre aquela gente requintada, dirigindo-se para a saída do pátio. Convidava a todos para que, amanhã de manhã, segunda-feira, não perdessem o 7 de Setembro, pois o Instituto Santa Inês, mais uma vez ia desfilar.

                Era um espetáculo ímpar. Uma emoção que aflorava com a beleza dos colégios desfilando em cores cívicas para equilibrar uma verde exibição das forças varonis no entorpecido sentimento nacional. O povo ia se perfilando na linha do meio fio da Rua Firmino Rosa, delimitada por uma grossa corda colocada pelo 4º BEC. Alguns pais instalavam o filho menor no cocuruto para que este pudesse “enxergar” uma pátria dentro do Brasil.

                O Instituto Santa Inês sempre foi o melhor a desfilar. E agora estava a capricho, com as balizas ostentando elegantes vestidos brancos e mãos calçadas em luvas, anunciando os motivos de cada bloco que passava: o cobiçado ouro de nossas riquezas, os emplumados índios, a colorida fauna, a verde flora. As meninas marchavam com jardineiras azuis, os meninos em calças caqui e engomadas túnicas, os mais pequeninos simbolizavam o futuro da nação, metidos nas alvas batas de médicos, nas togas de advogados ou nos capacetes de engenheiros. Ao som dos tambores da banda, uma propriedade do colégio, iam marchando e encantando o público para júbilo dos pais que acenavam orgulhosos para os seus rebentos. A cavalaria trotava com os filhos dos fazendeiros, chamando atenção para encerramento do show do Instituto.

                Houve um tempo, dizem os mais velhos, em que no planeta Terra reinava uma intolerável melancolia e os duendes, por compaixão da raça humana, inventaram a alegria. Saíram pelo mundo a ensinar a boa nova, como professores da arte do contentamento e da emoção. Em Crateús, a fada chamava-se Francisca de Araujo Rosa, que magicamente infundia, em seus alunos, um estado de extraordinária satisfação e alegria.

                Para o Instituto Santa Inês, o ano fora de muitas atividades sociais, culturais e cívicas, mostrando o empenho e a determinação da diretora em moldar seus filhos, como fazia questão de chamar os alunos, em cidadãos prontos para enfrentar o mundo com trato social, instrução e sabedoria.

                Enquanto se dirigia à casa do Prof. Luiz Bezerra, onde reside como hospede de honra, relembra os momentos do carnaval realizado no mês de fevereiro, para seus queridos alunos e das noitadas divertidas no salão do Crateús Clube. E vai cantarolando baixinho: Oh! Jardineira porque estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? No mesmo instante em que lhe vem à mente o 24 de Junho, dia de São João. Ela brinca mentalmente até com o santo:  “Oh, cabra festeiro, esse joão!” Naquele dia, fora madrinha de fogueira de tantos amigos que até perdera a conta. Só a meninada no batismo na igreja superava em quantidade, para amadrinhar. Mas gostava mesmo era de “passar fogo” nas noites estreladas do sertão, banhada pela luz da Lua, ouvindo o pipocar de fogos. As brasas inda fumegando em vermelhidão e os dois, madrinha e afilhado, caminhando em semicírculo até encontrarem-se para então darem-se  as mãos.  Ela proferia: ” São João dormiu, São Pedro acordou, vou ser sua madrinha que São João mandou”. O afilhado, imediatamente, repetia: “São João dormiu, São Pedro acordou, vou ser seu afilhado que São João mandou”. Repetiam o ritual três vezes, circundando as brasas vivas da fogueira. No final, o afilhado orgulhosamente solicitava: - Beça, Madrinha Francisca! Deus te abençoe, meu afilhado! Eram momentos de poesia e para toda vida!

                Como a trágica filósofa-matemática Hipártia,  Madrinhha Francisca andava um passo à frente de sua época. Usava as artes diversas, a ciência, a natureza, a dança, o teatro, os jogos e principalmente a música para o desenvolvimento sócio-efetivo das crianças, tornado-as mais alegres e receptivas no processo de aprendizagem, criando uma nova dimensão na vida dos seus privilegiados alunos, coisa que só aconteceu nas antigas sociedades gregas. Criou a Orquestra Morais Rolim, integrada por talentosos discípulos, em homenagem ao amigo comerciante. Sempre que a professora retornava de suas constantes viagens, a orquestra ia esperá-la no patamar da estação, e com o próprio Morais a comandar a orquestração inicial: “Tum, Tum, Tum...tumtumtum... É Morais Rolim! Tum, Tum ,Tum...tumtumtum... É Morais Rolim!”

                De longe, avista o Prof. Luiz Bezerra no portão da casa, como se já aguardasse pela chegada dela e logo imagina “Isto foi bem coisa da Airan, que ordenou que ele fizesse as pazes comigo!” Reclamara de uma pequena sova que o menino Hermínio, seu afilhado, levara do pai e a reação do professor foi brusca: - Se você está achando ruim que eu eduque meu filho,assim, está ali a porta da rua!

                Mal se aproximara da casa, o professor vai logo falando: - Chica, vamos acabar com isso! Deixe de se antipática! Os dois titãs da educação fizeram as pazes, mas a comemoração foi um longo abraço na sua grande amiga Airan Veras, esposa do Prof. Luiz Bezerra.

                Outra curiosa amiga, um dia lhe perguntou: - Madrinha Francisca, a senhora gosta tanto de festas, mas porque não casou? Ela pacientemente explicou: - Vou lhe dizer uma coisa minha companheira, o Padrinho Totonho Rosa, que me criou, não queria que eu dançasse, que eu me divertisse e não permitia que eu pegasse na mão de nenhum homem, imagine namorar.Um dia, ele quis me casar, à força, com um motorista dele, fiquei detestando casamento. Eu moro só porque é o jeito, mas nunca me acostumei. Também... Ninguém aguentaria minha pisada, é para cima e para baixo, neste mundo de meu Deus! Aprendi a dançar sozinha, gosto de festas porque eu sou é Araújo!.

                A querida professora nos dá a impressão de ser a própria estrofe de um belo poema da Cecília: “Adestrei-me com o vento e minha festa é a tempestade!”

              E se hoje, você andar pela Rua do Instituto Santa Inês, antiga Érico Mota e, inesperadamente, ouvir um grito de “Anarriê, anavan tur... Olha o balancê!!!” com certeza é a digníssima e saudosa professora Madrinha Francisca que adorava um exuberante viver, como uma abelha venera o néctar das flores para elaborar o mais doce mel!

 Raimundo Cândido

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013


CONCURSO DE MINICONTOS

Por Silas Falcão
REGULAMENTO

QUAL É O OBJETIVO DESSE CONCURSO?
O gênero de nano-micro-mini contos está crescendo a cada dia mais, diante dos novos meios tecnológicos de postagens instantâneas, como o Facebook e o SMS, por exemplo, e da necessidade da praticidade nos dias de hoje. Não obstante essa praticidade, criar um miniconto é um exercício árduo, que exige criatividade e sintetismo. Logo, o objetivo desse certame é estimular a criação de minicontos na língua portuguesa, reforçando ainda mais esse momento literário dos dias atuais, descobrir e publicar novos talentos da área.
           
QUEM PODE PARTICIPAR?
Todos, desde que elaborem textos em língua portuguesa (sendo permitidos termos em outros idiomas).

COMO POSSO PARTICIPAR?
Primeiramente, cada participante deverá se tornar um seguidor (a) do blog Autores S/A: Concursos Literários. A inscrição é gratuita. Ela deve ser feita através de um formulário de inscrição, o qual será encontrado no menu inicial do blog ou na própria postagem do regulamento. Cada participante poderá enviar apenas 01 (um) miniconto.

QUAIS SÃO AS REGRAS PARA A ESCRITA DO MINICONTO?
           
 - O miniconto deverá conter, obrigatoriamente, um título;
 - O miniconto deverá conter, no máximo, 150 palavras (não serão considerados os espaços). Excedendo esse limite, o autor será automaticamente desclassificado.
            - O miniconto poderá abordar qualquer temática, ou seja, não haverá qualquer restrição.
     
- O miniconto não precisa ser necessariamente inédito nesta primeira etapa.
 -Em caso de suspeita de plágio, o autor será automaticamente desclassificado e ainda correrá risco de ser penalizado de acordo com a Constituição Nacional.

DEVO CRIAR UM PSEUDÔNIMO?
Sim. Do começo ao fim do concurso, cada participante será identificado apenas pelo seu pseudônimo. No entanto, atenção: não crie um pseudônimo que guarde alguma semelhança com o seu nome verdadeiro. Caso o seu pseudônimo comprometa a sua real identidade, haverá risco de eliminação automática.

QUAL SERÁ O PRAZO PARA AS INSCRIÇÕES?
O prazo de inscrição vai do dia 15 de fevereiro de 2013 até as 23h59min do dia 20 de março de 2013. Fique ligado!

COMO FUNCIONARÁ O PROCESSO DE SELEÇÃO?
Quatro jurados renomados no cenário crítico-literário brasileiro, cujos nomes serão revelados a partir da fase final do certame, farão a leitura e o julgamento de todos os minicontos inscritos. Feito isso, cada um deles irá escolher 5 autores inscritos, os quais serão classificados para a próxima fase. A segunda fase será devidamente explicada aos 20 classificados.

QUAL SERÁ A PREMIAÇÃO?
A premiação consistirá na publicação de uma antologia com os 60 melhores minicontos do certame pelo Selo Microlux (Editora Penalux), que é dedicado exclusivamente ao gênero. Todos os 20 classificados serão publicados e todos os 20 receberão, cada um deles, 01 (um) exemplar da antologia.

AS DEMAIS PREMIAÇÕES SERÃO:
1º lugar: um troféu; publicação de minicontos em pelo menos dois sites e revistas importantes do meio literário; um box com 1 DVD (o documentário “Tropicália”) 2 livros (“Os cem menores contos brasileiros do século”, org. por Marcelino Freire e um livro de microcontos do Selo Microlux - Ed. Penalux) e 1 CD (“Chico”, de Chico Buarque, 2011) ;
2º lugar: um troféu; publicação de minicontos em pelo menos dois sites e revistas importantes do meio literário; 2 livros (sendo um deles um livro de microcontos do Selo Microlux - Ed. Penalux);
3º lugar: um troféu; publicação de minicontos em pelo menos dois sites e revistas importantes do meio literário; 1 livro de microcontos do Selo Microlux - Ed. Penalux.
4º lugar: Publicação de minicontos em pelo menos dois sites e revistas importantes do meio literário.
O jurado que tiver escolhido, na primeira etapa, o autor vencedor do certame, também receberá uma premiação surpresa.
Vale ressaltar que haverá participações especiais de autores renomados no decorrer do certame, além dos jurados que já compõem a mesa fixa. As avaliações que serão realizadas serão muito importantes para a formação e para o crescimento de todos os autores participantes. Ou seja, muito além de uma premiação material, este concurso oferecerá ao autor uma possível base formadora, calcada em críticas construtivas.

ALGUMA DÚVIDA?
Em caso de dúvidas, por favor, sintam-se a vontade em enviá-las para o seguinte e-mail: lohanlp@yahoo.com.br
 Também serão respondidos os comentários deixados na postagem referente ao concurso.

BOA SORTE A TODOS!
                                               Lohan Lage Pignone (Organizador)
Patrocínio:
Editora Penalux

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013



              PROCURA-SE POETAS, CRONISTAS E CONTISTAS
Por Silas Falcão
Quando mentalizei um grupo de escritores compartilhando um mesmo livro, ocorreu-me a ideia de criar o Projeto Edições em coautoria. Na reunião da ACE – Associação Cearense de Escritores - no mês de julho de 2012, apresentei aos associados este projeto em que cinco escritores compartilhariam um determinado número de páginas, o mesmo orçamento e o mesmo gênero literário. Da criação da ideia até o início de 2013, o Projeto já editou seis livros compartilhados, beneficiando, por um valor de investimento financeiro baixíssimo, trinta escritores. Muitos destes ainda inéditos em publicações literárias nos gêneros prosa e poesia. Este é o objetivo maior do projeto: a edição de parte da obra literária do escritor inédito. O Projeto edita quinhentos livros que são distribuidos igualmente entre os cinco autores.
Uma inovação que enriquece o Projeto é o marcador de páginas. Em cada edição de um livro, o grupo homenageia uma instituição ou uma pessoa. A Casa de Juvenal Galeno e o poeta Mário Gomes foram os primeiros homenageados.
Este projeto tem o apoio cultural da ACE e da Premius Editora.
Participe deste magnífico projeto literário.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

BARRA


 

Nada nos trás,
o raiar da barra!
Nada! Nem um
bom dia, como vai?
Ao menos um olhar ameno,
mas nada transparece
nas diáfanas intensões
de uma nova aurora,
só um deconfio de embromação
um melindre de quem ofende.
Se eu fosse ele, o afiançado dia,
assim esbranquiçado e morto,
nem vinha!
Raimundo Cândido

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Taipa


 

A taipa reveste a pele
como o túmulo ao corpo,
 
feito descarnado tapume
que a indigência clama.
 
Se a taipa urde o ânimo
o homem orbita a taipa
 
tosca, no refúgio da choça
que brande e se inflama
 
feito pele cálida e arrefecida,
na solidão de sepulcro ou lama.
 
Raimundo Cândido
 
José Alberto de Souza disse...
Metáfora que reflete fielmente a realidade das populações excluídas
 
 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Deus e a dor


A humanidade de quando em vez caminha com a tragédia. Muitas vezes um terremoto. Um tsunami. Um tornado. Outras vezes o próprio homem se destrói. Londres foi destruído duas vezes: por um grande incêndio provocado por um padeiro. E na II Grande Guerra, quando foi bombardeada durante 40 noites. A mesma cidade foi acometida por uma epidemia da chamada peste negra, quando a cada dia morria 8 mil londrinos. No grande Terremoto que destruiu Lisboa em 1755, todos correram para os barcos ancorados na praia. Surgiu um tsunami. Todos voltaram para terra e a cidade se incinerava em um incêndio dantesco. Era 1 de novembro, dia de todos os santos. Em plena missa o celebrante ao proferir:”memento Domine, famulorum famularunque tuarum. Lembra-te Senhor de teus fieis, uma laje desabou sobre o próprio padre. Voltaire perguntou em meio aquela catástrofe: “onde esta Deus?”. Na  tragédia de Santa Maria da Boca do Monte, RS, alguém ira fazer a mesma pergunta. Deus deu ao homem o livre arbítrio. O direito de se decidir por si. Deus não patrocinaria a morte de tantos jovens mergulhados em sonhos e esperanças. A ilicitude ética legalizada neste Brasil, é responsável por esta tragédia. Deus está na solidariedade. Deus está na dor compartilhada. Deus está nas lagrimas divididas. Deus está nos abraços de enternecimento. De compaixão. A morte nada salva. O que salva e a vida. Não foi a morte de Jesus, a experiência consistente de Deus, que nos salvou. Quem nos salvou foi a ressurreição. Foi a pedra tombada do sepulcro que deixou derramar-se a vida sobre nós. O antídoto da morte é o nascimento. Nesta dor que não tem fim, a presença de Deus se faz nos gestos humanitários. A dor que se divide na imensidão do mundo. Quando fui medico residente em Porto Alegre, a Universidade de Santa Maria era referencia nacional. Foi a primeira Universidade no interior do Brasil. Nos anos setenta, somente a USP e Santa Maria dispunham de microscópio eletrônico. Cidade de gente pacata, educada e companheira. Esta triste maneira de morrer, lembra Manoel Bandeira: eu suspiro por ar. Jovens abatidos em pleno voo quando se preparavam para trazer mais esperanças e mais vidas para tantos. Como águias que alçam voos para o céu e são mortalmente feridos de morte. Sonhos e esperança que se transformaram em negras fumaças de dor.

Fortaleza, janeiro de 2013

Jose mariabonfim de morais- medico cardiologista

 

O Padre


              Havia desistido de perscrutar a vida do velho padre, por conselhos de cautelosos amigos que têm por bem resguardar os valores eclesiais e também pela persuasão, agudamente sábia, de um ex-clerigo que me convenceu a empregar o dom da prudência. Acatei e me arrependi desta obsequiosa sensatez, pois o fantasma do sacerdote ficou martelando na minha mente, forçando a maçaneta como a querer provocar uma nova visita. Apoiei-me na prudência de Dostoievski, um escritor russo que diz ser, o seu mal, uma doença chamada consciência e recomenda: para se conhecer uma pessoa é preciso ir-se chegando devagar, com cautela, evitando equívocos e preconceitos, coisas bem difíceis de corrigir e de se reparar. Já tinha suficiente dados sobre as ações e impressões que o reverendo deixara assinalados na linha do tempo, e a consciência impeliu-me a segui em frente. Prudens in loquendo est tardus! (Bom saber é o calar, até ser tempo de falar!)
               Achei por bem começar esse relato pelo mês de fevereiro de 1937, devido a intervenção de outro digníssimo padre em nossas vidas, o Padre Cícero de Juazeiro.  Foi um sacerdote cuja fama de milagreiro só aumentava desde o dia de sua morte, em 1934, aos 90 anos. O Padim, com uns túrgidos olhos azuis, sonhara com Jesus Cristo no exato momento da última ceia e, enquanto Ele celebrava para os apóstolos, uma multidão de retirantes invadem o recinto interrompendo, obrigando-O a se pronunciar pela decepção com os homens, disse estar disposto a fazer um último sacrifício para salvar o mundo. Porém, se a humanidade não se arrependessem depressa, Ele acabaria com tudo de uma vez. Naquele momento, apontou para os pobres nordestinos e, voltando-se inesperadamente para Cícero, ordenou: - E você, Padre, tome conta deles! Eram sonhos determinantes, os sonhos daquela época. Por uma sonhosa prescrição,  Padim Cícero ganhou uma enorme autoridade.

                Uma das beatas da Igreja de Crateús, além de oniróloga, era devota incondicional de Padre Cícero. Decifrava sem medo de errar os sonhos das colegas. Para uma, que sonhara com o Pe. Juvêncio celebrando uma missa para ela,  a religiosa advinha interpretou como uma provável felicidade no lar, se ela deixasse de bajulações com o dignissimo padre. À outra que vivia sonhando com uma pessoa pegando uma caça, disse: você conseguirá um homem valente e forte. Dito e feito! A amiga logo casa-se com um caçador, um velho amigo de infância.

                Naquela noite, de um invernoso fevereiro, foi ela mesma que sonhou: O Padre Cícero lhe chega ao pé do ouvido e confessa baixinho: “Cratéus está com seus dias contados! Fujam depressa, pois tudo será destruido pelas águas caudalosas e barrentas do poti!”  Acorda assombrada e alardeia o mundo. Depois de uma madrugada chuvosa e o rio avolumando-se,  as colegas se dispõem a espalhar a notícia pela cidade inteira. O desespero já toma conta de muitos e alguém ainda nota uma fenda na estátua do Cristo Redentor. Outro, com memória de prontidão,  recorda a profecia do capichunho Frei Vidal da Penha a dizer: o patamar da Igreja vai ser uma cama de monstros marinhos e só escapará quem ficar à 8 léguas, rio acima ou arribar de vez com a família toda. O senhor João Batista de Sá fez questão de não deixar nem saudades!  Uma pandegas foi lentamente se incorporando, tomando feições de incontido alvoroço e necessitou da intervenção, na missa noturna, do agil e inteligente Padre Juvêncio:

                - Meus queridos amigos e amigas, crateuenses fiéis, ouçam-me bem! Comecou o sermão com uma voz intensa, rouca que saía de um rosto com feições helénicas, num perfil alto e garboso que arrebatava os ouvintes. - Sonhar é próprio do ser humano! Sem sonhos a vida não tem brilho e às vezes, às vezes... Quero que me entendam direitinho, por isso estou repitindo, somente às vezes, estes sonhos são mensagens divinas!  E continua com uma voz firme: - Saibam que não é dia, nem hora de divinais mensagens de sonhos em nosso meio, mesmo porque o Pe. Cícero ainda tem muito que fazer em Juazeiro. Acalmem-se! Tirem esse medo de seus corações! O Rio Poti terá uma cheia normal e escoará tranquilo para o mar! Rezemos para que as nossas safras não sejam prejudicadas e tenhamos boas colheitas.

                Foi alívio geral, no pavor e nas apreensões mentais dos fiéis, ali presentes.

                A religiosa sonhadora se dirige à fila da comunhão e quando o Padre deposita a hóstia sagrada na sedenta lingua, alguém lamenta que não tenha escorrido uma flepinha de sangue pela boca da beata, pois teria sido a nossa redenção.

                A safra daquele ano foi uma benesses dos céus, e há muto se acabara o hábito de deixar as igrejas inacabadas para não pagar impostos ao Governo Português, o dinheiro arrecadado deu para que o vigário construísse  a torre do lado esquerdo da monumental Igreja Matriz, colocando um pequeno sino de cobre e ainda empossando um segundo galo altaneiro, que mais tarde receberia o nome de Macedo, para fazer companhia ao galo Bonfim.

                A máxima em latim que diz: Devemos nos calar até um momento propício, havia deixado de molho, em mim, irrequietas palavras que teimavam em falar. Da pesquisa de campo para o artigo Os Distritos do Município no livro Crateús 100 Anos da Academia de Letras, percebi, admirado,  como o Padre Juvêncio de Andrade ainda vive na memória do povo.

                O distrito dos Tucuns, repleto de palmeiras com uns frutinhos doces, era o local preferido para o descanso do reverendo nos fins de semana. Uma tropa de adestrados cavalos subia a ladeira íngreme, numa perigosa trilha por entre rochas, até o clima aprazível da serra, onde uma casinha o aguardava. Afirmava que nos Tucuns tinha tudo que gostava, gente sincera e humilde,  caldo-de-cana, a farinha, o manzape, a água mineral e o ar puro da serra. Em Crateús, dizia-se:  quando o Padre sobe a ladeira, até do mundo ele esquece!

                Outro Distrito predileto era o disperso Irapuá. Sempre ia celebrar na Capelinha do Senhor Bom Jesus, que é mais antiga que a Catedral da Matriz. Uma casarão bem montado tembém o acolhia, isso quando não dormia num reservado da própria igreja, atrás do Altar. O povo, em bisbilhotice indiscreta, encostava os ouvidos na parede por trás da igreja, para ouvir os gemidos das orações entre os rangeres dos armadores das redes do padre e das cantoras do coro que ele levava para lá. Num botequin, que quebra a monotonia do abandonado agreste, alguém nota uma figura depauperada se arrastando pela estrada e afirma: - Lá vem, novamente,  o filho do Padre!  Aquele ali...  Nem foice nem terço, é só cachaça!

                Os Torres, com olhos azuis dos sulistas que fundaram o lugar, conjecturam o que teria sido do pobre moço, se não tivesse sido desamparado a esmolar pinga pelas veredas da caatinga e que, um dia seria encontrado morto nas coxias da vida. Faz-me recordar o Padre Martiniano de Alencar, que montou uma casa bem afastada de Fortaleza para uma prima, da qual  nasceu José de alencar. Teve que abandonar a batina e casar-se, para adquirir aceitação na sociedade e poder politicar.  O amigo memorialista Ferreirinha, no Livro Fatos e Causas do Passado, afirma: “O velho vigário teve grandes pecados na sua vida, mas os seus méritos ultrapassaram tudo aquilo”.

                A política sempre ferveu entre o vinho e a hóstia, turbilhando a vida dos padres e ali, no Irapuá, o Pe. Juvêncio conheceu a história da morte brutal do Pe. Inácio, por rixas políticas.

                Assim mesmo, atuou politicamente fervoroso, sendo eleito prefeito pelo Partido Conservador(os Marretas) mas administrou a cidade com os oposicionistas, os Rabelistas.

                Aproveitava até a pregação do evangelho na igreja, dizia  que PSD significava Partido sem Deus. Um dos afiliados ao socialismo, Abdoral Tataia, que sempre sentava à esquerda do altar, se remexia todo, com receio por estar na missa, mas protestava alto: - Isso não é verdade! - Não é verdade!   E o Padre retrucava: - Ouviram? Pisei nos calos de um!

                O Sacerdote-político, como gestor, pôs em prática boas obras e numa época sem rendimentos, pois o povo não pagava impostos, coisas que as atuais administrações se encaracolam em ardilezas políticas, projetos dificultosos, tramas sem fim com dinheiro suficiente e nunca realizam.

                  A cadeia Pública ficaca no centro da cidade, bem no início da Rua Santos Dumont, no edifício da atual prefeitura. Era um prédio de aspecto desagradável, feio e sujo, tinha uma calçada de meio metro de altura com tijolos desgastados e janelas com grossas e horrorosas grades de ferro.  Quem por ali passasse logo via os detentos trabalhando, uns cortando couro, outros batendo taxinha para fazer chinelos e diversos apetrechos. O prefeito Pe. Juvêncio construiu o atual Quartel da Polícia e um higiênico Matadouro Público. Inaugura, também, um monumento ao Cristo Rei, na Praça da Matriz e uma capela no cemitério São Miguel.

                A rigidez política e a austeridade de caráter o fizeram se inimizar com muita gente. Para um comerciante muito popular, Hermenegildo Augusto, um descendente dos bravos do pé-da-serra dos cocos, sempre a socorrer a pobreza, dentista prático e proprietário da Drogaria Popular, a vida lhe escasseava. A família chama o Padre Juvêncio para lhe confessar. O sacerdote se aproxima e o moribundo, de súbito, reage: - Retirem daqui esse homem, deixem que eu morra em paz! Não pode esquecer as mágoas que guardava do velho adversário político, uma consequência hereditária da impetuosidade tradicional dos velhos guerreiros chamados Mourões, que fizeram fama em Crateús.

                Dia 9 de outubro de 1930, pára um trem na Estação de Crateús e desce o célebre Tenente Aristide Rosal, seguido por inúmeros soldados revolucionários armados com fuzil e mosquetão, chefiado pelo Cel. Otacílio Mota para depor o Prefeito Padre Juvêncio de Andrade.

                Um padre que nascera em Santana de Acaraú, e que floresceu por aqui, prestando assistência eclesiástica a diversas gerações de crateuenses, foi falecer ao lado da família, em julho de 1947, em Fortaleza.

                 Cumpriu-se sua última vontade, quando o predileto coroinha e pupilo, o Monsenhor Bonfim, pessoalmente se encarregou do translado dos seus  restos mortais e o depositou numa lápide na cripta da Igreja da matriz, marcando o fim de seus brandos dias, no clima suave dos Tucuns, e o término dos instantes agitados na tumultuosa política crateuense, e me fez recordar que, nos momentos calmos  ou de repentinas tempestades, devemos sempre valorizar os dias de fé, os dias de luz, não importando se o tempo está nublado ou se é  dia de radiante sol!   

 Raimundo Candido

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Rápido Crateús- Um marco apagado.


 
            Depois da violenta 2ª guerra mundial, o bairro mais apropriado pra mudar de nome, na esbelta cidade de Fortaleza, era o Pirocaia - do tupi, aldeia dos pele queimada - que parecia um povoadozinho característico do interior: umas singelas casinhas, currais de gado e o choro penoso dos carros de bois na labuta campestre. Por ali, o que mais se viam, eram as tropas de jegues em trote rápido nas veredas sinuosas rumo ao centro da cidade, levando a melhor água potável da região nos canecos de madeiras dependurados em estrepitosas cangalhas, para matar a sede do arguto cearense da capital. Hoje, o local se chama Montese, em honra a uma batalha ganha pelos brasileiros da FEB, um populoso bairro de vida própria e um intensificado comércio. Lá também fica a Garagem da Empresa Rápido Crateús, um marco histórico da nossa cidade.

Na Rua Desembarcador Praxedes, nº 370, num grande muro branco, há um portão largo e alto com um escritoriozinho ao lado, é a garagem da Rápido Crateús. Um senhor de meia idade, perfil atarracado e pançudo, sai do escritório e caminha vagaroso, inspecionando os mínimos detalhes da sua organização de transporte de passageiro.

Sempre que ele se manifesta com uma das pernas da calça arregaçada, como agora, é sinal que está para poucos amigos. Um funcionário logo diz: - Vou dá o fora daqui!  O outro, evitando um encontro, cochicha: - Vou me esconder no almoxarifado!

Zé arteiro pára, apoiando as mãos na meia-parede de um grande tanque e olhando para a água, que é utilizada tanto na oficina mecânica como na borracharia, grita alto e desesperado: - Socorro! Depressa, acudam aqui!  Os funcionários correm ao local e apuram a vista para o fundo do Tanque. Ele, ainda sério, diz: - Rápido, tirem daí o coitado do trocador que morreu afogado! Todos veem, surpresos, um enorme rato que estufa, no fundo do tanque.

A disposição para o trabalho aprendera com o pai, um exímio ferreiro no município de Tamboril, o temperamento sério e rígido, também. De um caminhãozinho que pegava fretes, um aqui e outro ali, fazer brotar uma grandiosa frota de 82 ônibus, não tem muito segredo, não: é só regar cada quilômetro percorrido pelas estradas deste mundão de Deus com abundante suor do rosto e adubar, diariamente, os sonhos com um contínuo esforço. Esta vitória, o José Arteiro conseguiu!

Teve ajuda de muitos amigos que labutavam diuturnamente ao seu lado, como o comandante Jabá, Francisco Pereira da Costa, que recebeu um troféu da TVE e uma jangada de prata da TV Ceará, das mãos do famoso Jornalista João Ramos, como um dos melhores motoristas do Estado do Ceará.

Conduziu o ônibus da empresa na primeira viagem entre Fortaleza e Crateús com um único e privilegiado viajante, Dr. Gentil Barreira, o sogro do empreendedor Zé Arteiro. Dona Leonor Rosa, irmã de Zé, conseguiu formar uma lista de passageiros para que fosse possível a volta do ônibus pioneiro.

Já era um veículo bem mais moderno, aquele que saiu da Agência que ficava ao lado da Rádio Educadora de Crateús para chegar ao outro ponto de parada,  Rua Castro e Silva na Praça da Estação, em Fortaleza, e um dos ilustres passageiros era a Professora Maria Delite com a sua filharada. Mal saímos do Distrito de Capuan, em Caucaia, Jabá passa por um carro lotado de banhistas que vinham da praia e em poucos minutos o mesmo automóvel ultrapassa novamente o ônibus, páram e dessem todos, altamente embriagados e de armas em punho.  O nosso comandante já estava era na cozinha, pois esperar por tempo ruim, ficou foi para trouxas. O desespero dos passageiros fez com que os alcoolizados praieiros desistissem de algum intento.

Uma imensa frota precisa de um grande quadro de funcionários para conduzi-la, ao pé da letra mesmo! Na garagem, os olhos do chefe orientam com firmeza e determinação ao exigir a máxima perfeição em cada serviço. Demorava a empregar um sujeito, mas também o desempregava rapidinho!  O motorista chegou só com a cara e a coragem e se dirige ao dono da empresa: - Seu Zé Arteiro, eu gostaria que o senhor me arranjasse um emprego de motorista. A resposta foi rápida: - Tem não, meu amigo! Eu nem lhe conheço!!!

No outro dia estava o coitado do motorista escorado na parede, esperando. O José faz de conta que não o ver. No dia seguinte, novamente escorando o muro. Zé Arteiro se aproxima e diz: - Rapaz, você de novo, o que está esperando? Ingenuamente, responde: - Seu Zé, eu estou esperando que o senhor me conheça! Deu sorte, pois naquele dia a perna da calça não estava arregaçada: - Está bem, o emprego é seu!

 Outro amigo que o ajudou na construção da fama da empresa foi o Vicente Bacorim, era o motorista de maior confiança do patrão! Os crateuenses mais antigos dizem: O Vicente me transportou, transportou meu filho e agora transporta meus netos! Desde que desistiu de ficar com o 4º BEC em Barreiras e, após fazer o translado de toda aquela unidade tática, escolheu trabalhar para a Rápido Crateús e não se arrependeu! 

Pioneirismo é uma questão de fibra e coragem, em 1982, num grandioso coquetel nos salões da Apavel, a revendedora dos luxuosos ônibus Volvo, em fortaleza, José Arteiro recebe uma placa de prata por ser o primeiro empresário na linha de transportes a entrar na nova era, no Ceará. E o comandante do confortável ônibus é nada menos que o Vicente

Mas nem sempre foi assim, houve muitas reclamações. Uma nota do Jornal O Povo do dia 22/01/2001 dizia: “Andar em certos ônibus intermunicipais é um desconto de pecado ou até um martírio. A empresa Rápido Crateús, por exemplo, tem uma frota que deixa muito a desejar, por não existir nenhum conforto, principalmente os que fazem o percurso Crateús-Fortaleza. De dia, seus passageiros tem que suportar uma temperatura até 40 graus, em uma viagem de quase oito horas, uns por cima dos outros.”

Já na nota do dia 11/03/1998: “Quatro homens armados, um deles de escopeta calibre 12, assaltaram, ontem, em Quiterianópolis, um ônibus da Rápido Crateús que seguia com destino a Novo Oriente. Os ladrões fugiram num Ômega levando um malote com R$ 18 mil.“

Sempre tentou melhorar a qualidade dos ônibus, chegando a adquirir um Marcopolo Volvo de dois pavimentos que foi intimado a transportar o Presidente José Sarney, quando o mesmo esteve em Juazeiro do Norte, e o comandante Vicente foi logo avisando: - Esta viagem é de exceção, pois Seu Zé falou que esse ônibus é para atender ao pessoal dele, de Crateús. Alugou sim, para uma tradicional família crateuense, os Gomes, que numa turnê de trinta dias pelo Uruguai, Argentina e Paraguai onde Jabá e Vivente se revezavam e se divertiam ao ouvirem o nome de Crateús sendo soletrado de todas as formas possíveis, por aqueles povos sulistas. Na viagem de volta passaram por Brasília e, do hotel em que estavam hospedados admiram-se ao ver um velinho mostrando, vaidoso, o ônibus para a netinha. Aproxima-se para indagar o nome do cidadão e surpreendido, ouvem: - Eu sou o Coronel Souto Maior! E orgulho-me de bater continência, com minha neta, para esse grande nome de minha região: Crateús!

Nada é para sempre! Mas toda obra que é grandiosa fica na memória de um povo, visto que a vida é feita de sonhos realizados e estas aspirações que se efetivam nos trazem gloriosas recordações! A viagem de partida do empresário, empreendedor arrojado José Arteiro Rosa, foi o começo do fim da grande Empresa Rápido Crateús. Esfacela-se entre os membros da família. Não foi o processo de carterização dos meios de transporte no Ceará que detonou a Empresa Rápido Cratéus, foi a falta do pulso forte de um austero senhor, baixinho e determinado, que nos ensinou que todo sonho pode ser realizado, basta que alguém acredite nele!

O grandioso sonho da Rápido virou um marco, que se eternizou, mesmo sendo apagado por aproveitadores oportunistas, como muito bem disse o Vate Eduardo Alves da Costa no poema No caminho, com Maiakovski:Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim e não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”

Raimundo Cândido