sexta-feira, 29 de maio de 2015

E o fogo no ar...



Havia um rubro som
   crepitando na luz
      e essência das sombras
         de nenhuma valia...
              Havia!
Havia uma aguda luz
   cintilando ao som
      da penumbra pífia
          de pouca serventia...
               Havia!
Repulsa e compaixão.
       Havia!
Consolo e aflição.
       Havia!
Ausência e presença
       de um Deus singular
            no meu “eu” plural.
                    Havia!
Um sanguíneo violino
      incendiando a luz,
          que arrebata o som...
                 Havia!
                                            E o fogo no ar...
                                                  Havia!


Raimundo Cândido

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O Capeta


                                                                 
É um costume bem antigo, atrelado ao mais remoto dos pecados capitais, o vício da gula que trago embutido na algibeira de meu trivial semblante. Quando passo pelo Mercado Central de Cratheús, e quase diariamente passo, saboreio uma merendinha de cuscuz com carne de porco no Box da Dona Lurdes, uma sublime mestre-cuca, onde o tempero tem um sabor equilibrado, o aroma dos velhos fogões à lenha na saliência de uma refeição ligeira.  Ao estacionar o carro, ao lado da Prefeitura Quadrada, antiga cadeia publica da cidade, vejo um cidadão que, ultimamente, deu para me aparecer nos locais em que mais frequento, até parece perseguição. Caminho pela Praça dos Paus Moles – o povo ainda não se acostumou com o nome de João Melo Cavalcante – e, ao olhar para a entrada da Feira, vejo-o, novamente, postado com o pé escorado na parede, como se me aguardasse atravessar o portão. Passo e faço de conta que não o vejo.
— Vai querer o de sempre, Raimundinho? Pergunta-me, Dona Lurdes, ao me sentar numa das mesas do seu restaurante.
Enquanto a gula louca alegra-se, sem se preocupar com a minha saúde, proseio com a mais eficiente gastrônoma da Feira, notando o cidadão, num jeitão tranquilo, a perambular pelos corredores do mercado e, aqui e acolá, me olha de revés. Já estava preocupado com aquela arrumação.
Ao sair do mercado, o cabra me segue, então resolvo, de supetão, peitá-lo!
— Oh, amigo, tenho a impressão de que o senhor quer me dizer alguma coisa. Pode falar!
— Desculpe a intromissão, meu caro Prof. Raimundo, mas há algum tempo que estou querendo prosear umas coisinhas com você. Houve uma época, nesta importante cidade, que eu possuía alguns amigos professores, e poetas também. O Prof. Luiz Bezerra e o Prof. Lisboa Rodrigues sempre conversavam comigo. Só não gostei quando colocaram numa crônica que eu tinha os dentes pontiagudos, que saíam faíscas dos meus olhos e que eu só fedia a enxofre, sei que foi só para assustar os ignorantes daquela época, mas quero que saiba que sempre fui pessoa bem normal.
Neste exato momento meu sangue parou de correr nas veias. Meus nervos gelaram, pois havia lido a crônica do Prof. Luiz Bezerra e notei do que se tratava.
— Mas...  Mas... Mas... Gaguejei o quiquiqui dos gagos sem ter a língua tarda.
As palavras fugiram de minha boca. Um medo apavorador estampou-se em meu olhar. O cidadão, ou sei lá o que era, tentou me acalmar:
— Fique tranquilo, meu querido professor! Não tenha receio, eu só quero conversar um pouco com você. Eu sou mesmo o Capeta, mas não tenha medo! Estou em Cratheús bem antes do Pe. Juvêncio colocar aqueles cruzeiros nos quantos cantos da cidade, só para que eu não entrasse. Ledo engano do velho sacerdote, eu já aqui morava, há muito tempo.
— Na...  Não estou com medo não! É que... que é difícil acreditar que estou falando com o diabo em pessoa.
Ele sorriu. E eu que não acreditava que, um dia, visse o maligno, o coxo sorrindo na minha frente. E passei a dar crédito, em tudo àquilo que acontecia ali, na minha frente, quando ele, sem que eu pronunciasse nada, me falou:
— Professor, se eu lhe disser que, todo endiabrado dia, tem capeta sorrindo na sua frente, você me acredita? Pois acredite! E é isso que eu quero lhe dizer: Estou com uma vontade louca de ir embora desta terra quente, quente até demais para o meu gosto, pois passei boa parte da minha vida ensinando maldades, maledicências, falsidades, mentiras e as mais diversas falcatruas aos crateuenses e eles me superaram. Não dá mais, passaram a perna em mim! Você já viu o caso em que o discípulo ultrapassa ao mestre, é aqui! Não tenho nada mais a fazer nos Sertões de Cratheús!
 — Como assim? Não entendi. Você quer me dizer que as pessoas daqui estão tão especialistas nas habilidades de enganar, nas diabólicas astúcias quanto você?
— É isso mesmo! Você entendeu muito bem. Olhe, quando eu chego nos gabinetes por aí, para ensinar como desviar as verbas públicas, fico sem ter o que fazer, pois as notas frias já estão todas prontinhas, carimbadas, assinadas e em andamento. Os sabidinhos ficam só esperando o tilintar das moedinhas caírem nos bolsos. Não tenho mais trabalho nem com os fiéis que saem dos cultos, nem com os fervorosos que saem das igrejas, mal dobram as esquinas já estão fofocando dos vizinhos, dos compadres e das comadres, e até aqueles que se dizem muito amigos do peito, na primeira oportunidade, começam a falar mal dos próprios amigos.  Nem os grandes comerciantes e nem os pequenos empresários fazem mais um “pacto com o diabo”, a ganância dele já enraizou, incorporou, encopou e frutifica sem um morno sopro meu, sem um quente empurrãozinho sequer! E as mulheres? Você ainda me pergunta? Bem, eu desisti delas também. Quase toda mulher tem o olhar de Capitu, doce, convidativo e hipnótico. A maioria disfarça muito bem, são anjos e demônios num só corpo! E aí é onde mora o perigo, louvam o sagrado e adoram o profano! Poucas, pouquíssimas ainda são virtuosas!
 — E saiba que já sou sertanejo crateuense, pois os vereadores me deram o título de cidadão, numa sessão especial, há muito tempo, mas agora eu vou embora, aqui já virou um inferninho e daqueles bem grandes.  
Não soube o que dizer daquela situação. Se até o diabo estava correndo daqui, fugindo, pois as traquinices dos capetas crateuenses já estavam incontroláveis e nem o Tinhoso tirava mais proveito...  Fiquei foi com vontade de acompanhá-lo para outra localidade, menos corrompida que a nossa. Imediatamente, arrependi-me daquele horrível pensamento. Lembrei-me da frase de um padre crateuense, se bem que se referindo aos comunistas, mas dizia;"Quando água benta é pouca, os diabos são muitos. Não há quem vença!" Benzi-me, mentalmente, com o sinal da cruz, mas tive pena do capeta e tentei aconselhá-lo:
— Oh, cidadão...  É... Não sabia que nome chamá-lo, pois não é todo dia que se tem o diabo em pessoa na nossa frente. Ele intercedeu e autorizou:
— Pode me chamar de Belzebu, amigo Raimundo! Eu sou o príncipe dos demônios!
— Bem, é que, se você já é crateuense, lavrado, documentado em cartório, não precisa ir embora! A cidade já está acostumada com você e você com a cidade, não é? Então, se você se for, vem outro capeta mais endiabrado ainda e desmancha o que você construiu, para fazer tudo de novo, como fazem os gestores que entram e que saem da prefeitura! Se as cidades são construídas com o bem e com o mal, uma parte de Cratheús é de sua responsabilidade. Você tem que ficar. Fique!
 — É, Raimundinho, até que você tem razão, vou permanecer mais umas eras por aqui. Pois então leve um abraço bem ardente para uns amigos meus que fazem parte da sua Academia de letras, o Lucas, o Flavio, o Aldo, o Cancão, o Elias, o Lourival, o Dideus, o Júnior, o César, o Mardonio, e...  São tantos! Diga que eles estão fazendo as coisas direitinho como eu lhes ensinei. Ah, diga também, para aquela turminha que gosta de um campeonato de mentiras, que a qualquer hora eu levo uns troféus confeccionados com os restos dos tridentes e umas medalhinhas, forjadas no fogo do inferno, para distribuir por lá!
— Darei seu recado. E valeu mesmo, Capeta, até a próxima!


Raimundo Cândido

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Flor Negra



Ontem,
desenterrei um amor
que um dia foi vida
e brotou, em mim,
uma flor dorida!
Hoje, sepulto,
ainda vivo,
outro intenso amor
que me alucina,
e me envenena
em puro mel, sendo fel,
na branca ilusão
da flor que enegreceu:
Bestial Perfídia!


Raimundo Cândido         

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Da Furna ao Morro.

                                       
Época houve em que tive medo da vida. Um estranho acanhamento isolou-me do mundo e, de repente, vi-me mergulhado numa furna sem luz, abatido num triste ambiente de solidão. Somente os livros avivavam-me o espírito, diminuíam a melancolia, pois a boa leitura sempre trilha ao revés da solidão. Foi quando caiu em minhas mãos uma obra literária da escritora cega e surda Helen Kellen, onde ela dizia: “A vida é uma aventura ousada, ou, então, não é nada!” Neste exato momento resolvi derrubar as paredes que tolhiam a minha alma e me predispus, como audaz aventureiro, mas ainda insociável solitário, a trilhar, ao léu, os caminhos desolados do sertão.  Desde então, a passos firmes, ando pela Ribeira do Poti, em busca de mim, em busca de vida!
Percorri longos trechos nas margens do rio e até dos descampados da inóspita Caatinga, sem importar se tudo estava em cinza dos entorpecimentos ou do verdejante renascimento, mas era o que eu procurava e, o mais importante, foi descobrir que sou sertão, que nasci sertão e que viverei sertão! Percebi que corre, nas calhas de minhas veias, a seiva vivífica das catingueiras, dos angicos e dos marmeleiros! E que detenho, impregnado no faro, um aroma consistente de mufumbo a perfumar a vasta e desamparada Caatinga que se estampa ao meu olhar.
Quando em visita a uma comunidade indígena, na vertente da Serra da Ibiapaba, soube da existência de uma furna selvática chamada Quarenta e Sete, localizada entre as tribos de Nazário e Mambira, e o desejo de aventura, mais uma vez, disparou no meu cerne. A sorte é que não sou o único louco aventureiro deste sertão abençoado de meu Deus. Coincidentemente, ou não, o amigo Edilberto Araújo, esposo da benevolente vereadora Eva Vieira Barbosa, liga-me convidando para conhecer a dita caverna, há muito inexplorada. Rapidamente, como experientes espeleólogos, detalhamos toda excursão para explorar aquele sitio no subterrâneo da serra.
Os raios do sol ainda não acordara o dia quando partíamos na Toyota Hilux do Vereador Toré. E já na rampa da serra, com o carro tracionado nas quatro rodas, numa subida íngreme de pedras soltas da estrada cortada pelas enxurradas recentes, vencendo árvores caídas no gume do machado, e só a esplendorosa visão, que se tinha do amplo vale da Ribeira do Poti, compensou o sufoco do dificílimo trajeto. Paramos a meio caminho entre as duas aldeias, por ordem do nosso guia, o experiente índio Severino. Agora tínhamos que seguir a pé, numa picada que ia sendo aberta na mata, a golpe de facão, decepando os galhos de marmeleiros brancos e juremas de bode. Aqui e acola alguém apontava uma marca no chão e interpretava: - Esta pegada aqui, com certeza, não é da pata de um cachorro! Mesmo com os avisos de cuidado, as nossas mãos ficaram urticadas pelos espinhos de cansanção.
Após uma boa caminhada chegamos à rampa do declive da serra e encontramos um grande buraco no chão pétreo, de onde saía os galhos da copa de uma árvore, como uma ofertada escada para descermos para dentro da furna. O medo de cair gelou meus nervos, mas escorregamos, lentamente, uns três metros de altura, pelos galhos e tronco da árvore, como macacos equilibristas. E, já no chão da caverna, um fascínio tomou conta de meus olhos, pois o brilho refletido nas paredes da furna se espalhava no ar. Está ali, pisando no chão da famosa Furna Quarenta e Sete, 47 braças, mais de 100 metros de abertura na rocha, entrando no subterrâneo da serra da Ibiapaba, era inacreditável! Enquanto a luz descia pelas fendas superiores, víamos toda beleza e resplendor de uma furna virgem e, de repente, a caverna foi se fechando, foi se afunilando numa loca estreita, escura e tão baixa que não cabíamos de pé.
O Claudemir Moraes escaneou o chão negro da caverna com a luz de sua lanterna e viu que não havia rastros dos animais perigosos que ele temia. Então fez sinal para que o seguíssemos. Fui o único intrépido que o acompanhou naquela afoiteza, confiado na socadeira engatilhada que ele levava na outra mão. Até lembrei-me da furna da minha solidão! Mal as pupilas se dilataram no breu que engolia o facho de luz artificial, nos assustamos com milhares de morcegos horripilantes voando em disparadas em nossa direção e que passavam como balas na escuridão, rente as nossas orelhas. Foi o tempo mais longo que fiquei sem respirar. Acho que meu rosto era a cara do pavor, naquele crucial instante!
Os poucos minutos que passei mergulhado na escuridão da 47 ficaram, agressivamente, gravados na mente, e sempre que me lembro daqueles vultos me vem o desespero que só vi emergir do famoso quadro O Grito, do pintor norueguês Edvard Munch.
Despedimo-nos da Furna Quarente e Sete, assentada no mais inacessível recanto da Caatinga crateuense, isolada do mundo, com sua vida selvagem, misteriosamente bela, diuturnamente burilando por lá.
Na descida, ainda com espanto nos olhos, olhávamos para o provinciano povoado de Ibiapaba, estendido lá embaixo, tendo ao fundo um grande morro como uma enorme corcova de camelo. Para todo aventureiro, uma paisagem estimulante, assim, é motivo de sonhos, é motor de irrequieta excitação. Parecia até que o Morro do Picôte nos desafiava a enfrentá-lo! A ideia foi criando asas de tal forma que a escalada dos 650 metros de altitude estava com os dias contados. A última excursão tinha acontecido em 1963 para os dados altimétricos do IBGE. Histórias eram só o que se ouviam, de boca em boca, sobre o íngreme oiteiro da Ibiapaba: O povo, que ainda se lembra dos gananciosos americanos que exploram o Picôte, em tempos remotos, na procura de riquezas, conta dos descuidados caçadores de mocós que caíram dos princípios íngremes ou fala do espetáculo dos macacos-prego descendo a rampa, só para invadir as roças de milhos plantadas na base do morro.
Dos mistérios do subitâneo da Serra partimos para os pícaros dos céus da Ibiapaba. Edvaldo Costa, Secretário de Turismo, incumbido de promover o ecoturismo local, propôs que, antes da escalada, se abrissem uma trilha para o topo. Ideia, de imediato, aceita por todos os aventureiros. Um pick-up nos deixa na base do morro e começamos a caminhada, em decidida fila indiana. Água e alimento suficiente, nas mochilas, iam dependurados nas costas. A mata se fechava à medida que subíamos, e as copas dos angicos, das aroeiras, dos jucás, dos paus-brancos aparentavam atentos olhares a nos vigiarem. De vez em quando víamos um enorme mororó, todo ressequido, já sem vida, com a casca roída pelos mocós, como forma de escapar dos anos difíceis de seca. Mel de abelha é uma das farturas do Picôte, enxames que há anos produzem em abundância no mesmo local e víamos as abelhas nativas, sem ferrão, que entravam e saíam dos ocos de paus e até das locas de pedras. Um ninho de Nambu assentado no chão, com três ovos rosados, parecia desprotegido, num ambiente infestado de esfomeadas cascavéis. Com uns 300 metros de altitude, o fôlego já curto, as mãos é que iam ajudando as pernas a subirem, e se grudavam nos embuás, uns bichinhos compridos com mais de 100 pernas avermelhadas. Um vento frio no rosto indicou que o cume estava bem perto e mais uns passos chegaríamos ao topo. Ainda tivemos que subir um enorme bloco de pedra e a visão foi surpreendente. Todo o vale do Poti de descortinou na nossa frente, com o rio correndo, serpenteando feito cobra, passando ao lado da Ibiapaba e absorvendo o grande Riacho Oiti e seguem juntos, rumo ao Estado do Piauí.
A sensação de vencer uma montanha é indescritível. Ali, no topete do Picôte, sentido o vento da liberdade acariciando meu rosto, lembrei-me, mais uma vez, daquela escritora surda e cega a me dizer: “A vida é uma aventura ousada, ou, então, não é nada, amigo Raimundo!” E deixei no pico do morro da Ibiapaba o que ainda havia de medo na minha alma!
 Hoje, graças as aventuras pela Ribeira do Poti, das brandas margens do rio, tal qual um socó-boi, aos carrascais da inóspita Caatinga como os instintivos répteis, ou das furnas misteriosas, repletas de morcegos, aos morros íngremes replenos de incitante coragem, respiro um vento libertador chamado SERTÃO. O Sertão de Cratheús, onde me embriago ao aroma do mufumbo e, vou ao encontro de mim, ao reencontro da vida!


Raimundo Cândido.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Serra das Almas – Um Bioma Admirável!

               
Não é só a jandaia que canta nas frontes das carnaúbas, o irrequieto vento, igualmente, celebra poesias farfalhando nas palhas da nossa esbelta árvore da vida, repleta de flocos amarronzados chamados de cera rainha, um potencial de incomensurável riqueza. E como o cearense só enxergava, nas duras e alongadas folhas, um atenuante chapéu de palha, foi preciso que um americano denominado Herbert Johnson, em 1935, viesse dos EUA num pequeno hidroavião, em três meses de inacreditável viagem, só para se apossar do principal produto das nossas carnaubeiras, um impermeabilizante natural que evita a perda de água pela planta, para transformá-lo em dinheiro vivo com a Fábrica de Ceras Johnson LTDA, em Fortaleza. Da cera nasceram diversos produtos para uso domésticos como polidores de carros, o brilho no assoalho das casas, o papel carbono, os discos, as velas, etc. Herbert construiu, com o ouro dos carnaubais, uma notável fortuna. Samuel, o filho do velho aventureiro, além de refazer a viagem do pai, 63 anos depois, ofertou um valoroso presente ao Ceará, doou recursos para criação de uma área de proteção da Floresta Caatinga e o local escolhido foi a cidade de Cratheús.
                Assim, foi criada a Associação Caatinga que mantém a Reserva Natural Serra das Almas, um éden no espinhaço da Serra da Ibiapaba.  Quando os representantes desta sociedade chegaram aos proprietários rurais Milton Menezes, dono das Almas, do São Luiz e da Boa Vista, e ao Vicente Ludgero, dono das Melancias, ofertando um valor monetário bem acima do normal pelas terras da serra, pensou-se logo que se tratava de uma corrida por minérios na Serra Azul. O tempo, aos pouco, foi mostrando que era somente uma nobre atitude da família Johnson para preservação da Mata Branca em troca das benesses que a Copernicia Prunifera lhes tinha propiciado, uma imensa e respeitável fortuna.
                No início, no ano de 2000, não foi nada fácil. O casarão que pertencera ao fazendeiro Manoel de Matos serviu como base das operações comandadas pelo mateiro, caçador e rastreador Aureliano, que nasceu e se criou trilhando as veredas das almas e das melancias, observando os rastros das onças se cruzando com as pegadas do gado. Uma tropa de três mulas, apelidadas de Chocolate, Gergelim e Canela, não paravam de transportar material para abertura e sinalização das trilhas, com placas elaboradas pelo fino artesão Miguel de Paula. A Serra, sempre foi usada pelos fazendeiros como recurso para salvar o gado,  quando findavam os últimos fiapos de capim no sertão, onde o chão esturricado ficava mais limpo que um prato lambido. A subida do gado para a serra coincidia com as festas nas casas de farinha e com a produção nos engenhos de rapaduras. E só quem sofria com isso era a natureza, pisoteada pelo gado, ameaçada pelo péssimo hábito do sertanejo de andar com uma espingarda na mão e uma foice na outra, desbastando o mato e decepando as jararacas, as caninanas e as cascavéis que encontrasse pelos caminhos.
                Lentamente, o ambiente foi mudando, foi surgindo um alivio de vida, e de 2000 a 2004, data da abertura da reserva, a fauna e a flora respiraram livres de perseguições e tudo criou uma nova aparência. As raposas, as jaguatiricas, as pardas, as vermelhas, os maracajás, as pacas, os veados-catingueiros, os macacos, os soins, os caititus, os tamanduás, os teiús, as iguanas, os tatus, os mocós, os cancões, os jacus e, principalmente, a diversificação colorida das borboletas mostravam que, os 6146 hectares do ambiente da Serra das Almas, estava, novamente, entrando em sagrado equilíbrio ecológico. Ali, não se matava mais nem uma formiga!
                Um dos Guardas mais eficiente da Serra das Almas sempre foi o Marcos Roberto, que fora levado a trabalhar na Associação pelo primeiro administrador da Reserva. Marcos aprendera com o experiente mateiro Aureliano os segredos e os subterfúgios da Caatinga e também num curso de Guarda-Parque que fizera na Reserva Natural da Serra do Teimoso, em Jussari, na Bahia, tornando-se um verdadeiro duende protetor, e protegido, da Mata Branca.
                Passar dias e dias longe da família e longas noites ouvindo o piado das corujas, o coaxar dos sapos e o cri-cri-cri dos grilos eram momentos penosos. Somente a lua e a luz de um lampião aclaravam seus receios e iluminava as suas saudades, mas, pouco a pouco, foi aprendendo a transformar esta difícil solidão numa força sólida. O trabalho diário de construção e manutenção das trilhas, comtemplando a natureza, era o que mais lhe dava prazer e que o fazia continuar na serra. Um dia, enquanto realizava a limpeza de um velho muro de pedra, rente ao chão, olhando  nas fendas se não havia uma perigosa cobra, e recolhendo os gravetos secos não percebeu que o perigo estava enrolado em cima do muro. Uma cascavel, de um metro e meio de comprimento, já preparara o bote e com o sensor de infravermelho mapeara o perfil de Marcos que, de súbito, se levanta e fica testa-a-testa com a cobra de língua sibilante a chocalhar o guizo na ponta do rabo. Os mistérios da floresta, às vezes, intercedem quando preveem que a eliminação de uma vida lhes trará um grande prejuízo. Num átimo de segundo se decide uma vida. O animal peçonhento, de reação mil vezes mais rápida que o homem, disparara o bote no ar, pois o Marcos, num reflexo quase impossível, se jogara para trás, evitando que a cobra lhe picasse a face. De outras vezes se viu foi na frente de um Papa-Mel, a feroz ariranha do sertão. O perigo mora na distração e todo cuidado é pouco para quem trabalha sozinho nas veredas da Serra das Almas.
                Os visitantes, após ouvirem a preleção didática sobre a Caatinga, partem do Centro de Interpretação ambiental rumo às diversas trilhas, cada qual com uma vegetação única e característica. Normalmente começam pela Trilha dos Macacos que segue pelo Riacho Melancia, num estreitamento da garganta da serra. A mata ciliar, gameleiras, cajazeiras, ingazeiras e oiticicas, que protegem as águas, é exuberante. Mal chegam a uma ponte suspensa pelas cordas, sobre o Riacho, o guia que vai à frente levanta a mão e pede para que a fila indiana pare, e faça silêncio absoluto. Uma enorme cobra caninana, amarela e negra, repousa enrolada no corrimão de corda. A serpente levanta a cabeça, nota a presença de intrusos, mas resolve ser camarada, segue seu caminho liberando a passagem para os olhos arregalados dos turistas. Também param na frente de uma gigante gameleira que abraça uma enorme rocha, como se quisesse sustentar a pedra, para não descer a rampa da serra, e ouvem mais explicações sobre os segredos da mata.
                 Em cada trilha da Reserva Natural é uma emoção diferente para os visitantes. Na Trilha do Lajeiro a vegetação é de arbustos de caules finos e espinhosos, mas na Trilha das Arapucas, onde os índios Karatius tangiam o gado dos colonos para cair no precipício, é a mais longa e penosa das caminhadas, mas compensa com uma vista deslumbrante do amplo vale e com direito a ver um casal de urubus-reis maravilhosamente bailando no ar.
                O que mete medo nos visitantes são as histórias dos fantasmas que aparecem no velho casarão do Seu Manoel de Matos, o choro de crianças perdidas na mata e uma mulher de branco que perambula, agoniada e sem rumo, pelas trilhas da reserva.
                Alunos, professores, pesquisadores, cientistas, programas de televisão, diariamente estão por lá, e o movimento na Serra é um burburinho constante de visitantes.
                Como o Cânion do Poti, em Oiticica, os belíssimos Castelos de Pedras dos Tucuns e de Buritizinho ou a Furna 47 em Nazário, a Serras das Almas é um patrimônio ecológico dos Sertões de Cratheús, graças ao nobre Samuel Johnson e à cera dos seus carnaubais.
                Agradecemos a todos os duendes protetores da Associação Caatinga, que possuem a mais nobre das missões: Ser referência nacional no desenvolvimento de modelo integrado de conservação da Caatinga através de ações de valorização deste rico bioma, pautados nos nobres princípios da Paixão pela Natureza e do Profissionalismo exemplar.
                 Como me falou o Guarda- Parque Marcos: “A natureza vive sem o ser humano, Raimundo, nós, é que não podemos viver sem a natureza!” Aproveito para parabenizar a belíssima Serra das Almas nos seus 15 anos de exuberância. E se você ainda não conhece, vá lá conhecer e me faça um favorzinho, leve o meu  abraço para a mulher de branco.

Raimundo Cândido

   

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Assembleia Geral da Academia de Letras de Crateús - ALC


 Confrades e Confreiras,
O Presidente da Academia de Letras de Crateús convida todos os 30 sócios(as) para se fazerem presentes à reunião que acontecerá dia 25/04/2015 às 16:00, na sua sede, Rua Francisco Sá S/N, Praça Gentil Cardoso, Praça da Estação - Centro.

Pauta
- Eleição dos novos membros efetivos para preenchimento de cadeiras vagas de n° 31 a 40.
- Retomada das contribuições financeira por meio de boleto bancários, Carnê.
- E outros Assuntos a serem deliberados.

É importante a presença de todos.
Atenciosamente,
Raimundo Cândido Teixeira Filho

Presidente da ALC

sábado, 18 de abril de 2015

Mestre Erasmo – O Contador de Histórias.


A Rua Marechal Hermes é como um afluente do Rio Poti, caminha paralelo à linha do trem e desemborca numa pedregosa passagem que leva ao agitado Bairro da Ilha. Aquela trilha pétrea é usada somente por quem não quer se arriscar a transpor o leito do rio pela perigosa ponte de ferro, ali ao lado, suspensa na largura do rio.  Mas, na curta rua que leva o nome de um militar que nunca soube da existência da cidade de Crathéus, a casa de número 63, com uma imponente fachada adornada com frisos clássicos, em alto relevo, com duas árvores bem sombreadas na frente, é o lar do Senhor Erasmo Moraes Cavalcante, barbeiro de profissão e guardião das pitorescas histórias da cidade. Um privilégio que a natureza lhe concedeu, pois é dono de uma gigantesca memória. Ao meio dia, ou à noitinha, após uma sagrada caminhada, o mestre se deleita ao ouvir as suas músicas preferidas, as serestas de Carlos Galhardo, os grandes sucessos de Cascatinha e inhana, o afinado violão de Dilermando Reis, os boleros de Carlos José e a melodia “Naquela Mesa” na voz de Nelson Gonçalves: “Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor...” Nestas horas, na certa, lembra-se das histórias que ouvira dos mais velhos, como as que seu avô lhe contava, o senhor Raimundo Marques de Pinho.
Com paciente disposição, como se fosse a um prazeroso passeio, atravessa o pátio de manobras dos trens, na Praça da Estação e se dirige ao salão “O Mestre Belo” no velho Beco da Cachaça, recinto que pertencera ao barbeiro Anicéforo, ao mestre Mundoca, depois ao mestre Vicente, e em seguida ao mestre Belo, e onde trabalha agora, diuturnamente, desde 1969.
Nós, os fregueses do mais famoso barbeiro de Crateús, o procuramos não só pela eficiência no trato com a barba e o cabelo, mas para ter o privilégio de ouvir um dos melhores contadores de histórias da cidade, com narrações pitorescas recheadas de lances teatrais de bom humor, como excelente ator que ele é.
 - Raimundo, neste salão aqui, em 1938, aconteceu um crime horrível. Assim começa o mestre Erasmo uma de suas saborosas histórias.
- Quando pertencia ao Anicéforo, existiam uns sapateiros que trabalhavam encostado nesta parede, aí atrás. Mariinha, a bonita amante do senhor Amadeus Martins, insistia em cortar o cabelo com o Mundoca, mesmo já tendo sido advertida pelo seu enciumado dono: “Procure uma mulher para cortar o seu cabelo. Não quero ver o Mundoca lhe alisando os cachos, não! Dou-lhe uma grande surra e ainda mato aquele cabra sem vergonha!” A amante era corajosa e teimosa, sempre voltava ao salão para cortar o cabelo. Um dia ele perguntou: “Aonde foi que você cortou o cabelo?” Ela respondeu, sem medo: “Ora, você já sabe que foi lá no Mundoca!” O Amadeus deu uma pisa na amante e partiu para o Beco da Estação. Da esquina da casa do Senhor Jacó de Melo, ele gritou ao Mundoca, que estava na porta da barbearia: “Hoje é o teu dia, cabra!” O barbeiro entrou rápido e pegou uma navalha, mas o Amadeus já foi entrando no salão e os dois se atracaram. A faca e a navalha retalhavam facilmente os coros dos dois intrépidos cidadãos que o sangue escorria pelo chão, foi quando Amadeus escorregou num pau de sapateiro e a sua própria faca o perfurou, na virilha. Amadeus foi acabar de morrer em frente a cada de seu Benjamim Machado, e o Mundoca passou dias deitado numa rede, com o sangue pingando numa cuia.
Dali, da barbearia de Erasmo, se ouvia a algazarra de um comício político no Clube Sargento Hermínio, o que fez com que o Mestre Erasmo relatasse outras de suas histórias.
- Um dia chegou um Senhor de olhos claros, bem aí nesta porta, e perguntou: “Vocês conhecem o Carlos Jereissati? Pois está aqui ele! Vou só ali, comprar uma carteira de cigarros e já volto para fazer a barba.” De outra vez foi o Cel. Virgílio Távora, que viera assistir a uma missa celebrada por Dom Fragoso, estava hospedado na casa de Dona Leonete Camerino, e confidenciou: - A Dona Leonete me disse que é aqui que eu posso encontrar o melhor barbeiro da cidade. Respondi: – Pois entre Coronel, aqui está ele, Erasmo, às suas ordens! Ao terminar a barba do Virgílio, eu disse: - Senador, a barba do senhor agora está mais lisa que bunda de menina nova! 
O Barbeiro da Rua Cel. Zezé se empolga mesmo é quando fala do politico, advogado, grande orador crateuense e seu amigo João Afonso de Almeida Vale. “– O João Afonso, enquanto namorava a Dona mariquinha, filha do Cel. Tobias, perdia até as horas. Um dia, o relógio da parede marcou 10 horas da noite e ele sem dá sinal de que ia embora. Foi quando o Coronel, num ímpeto, disse para a filha: - Ó, Mariquinha, abra o baú e tire uma rede para esse rapaz dormir, pois já está tarde! O João aproveitou a deixa, e fez o que pretendia, há muito tempo: - Ó, Coronel Tobias, eu lhe agradeço a generosidade, mas já estou indo embora. Agora, aproveitando a humildade com que se mostra, peço a mão da sua filha em casamento.”
Erasmo conclui, mais admirado que o próprio pretendente a mão de Mariquinha: - E não foi, Raimundo, que o velho coronel deu mesmo a mão da filha em casamento ao João!!!
Quem quiser ouvir as histórias de um Cratheús antigo é só dá um mote, ou mostrar a ponta do fio que ele desenrola o novelo todo. Indaguei: - Com quem foi que esses políticos crateuenses aprenderam tantas raposices para usar num sertão brabo deste? Seu Erasmo mostrou um disfarçado sorriso de satisfação, como se tivesse a resposta do segredo e tinha mesmo. – Ora, ora Raimundo, a UDN vinha de quatro eleições seguidas que só apanhava. Dizem que a ideia foi do Cel. Giló, em mandar buscar uma raposa velha lá da cidade do Ipu. E chegou, na Maria Fumaça, o Major Auton Aragão. Foi como se contratasse o Pelé para um time de futebol, ele tomou conta de tudo, tinha o faro político, sabia tramar para que as coisas acontecessem.
Erasmo conta a história percebendo a interesse dos fregueses, ali sentado, a aguardar a vez para o corte de cabelo: - O Major, após ensinar o pulo do gato para alguns políticos do seu partido, resolve voltar para sua terra, dizia para os amigos “Cumpri minha missão aqui, na terra do Rio Poti, e agora vou morrer no meu Ipu!” Os adversários ficaram sem acreditar que a raposa ia mesmo embora, diziam: - Ele vai lá nada, duvido que ele encontre uma terra melhor que esta aqui!”. Outros praguejavam: “Vai sim! Vai e vai mesmo! E o diabo é que o leve!”
No dia da saída, a alta cúpula da UDN estava presente na Estação, para a despedida e a oposição só espiando, de longe, para ter certeza da partida. Foi quando apareceu um coronelzão destes do interior, montado num cavalo fogoso, deu uma chicotada nos lombos do bicho, para chamar atenção mesmo e falou: - Mas compadre Major Auton, que desgraça vossa mercê vai fazer com a gente. Vai embora e não deixa um homem de bem para nos acudir!
 O Coronel da Guarda Nacional, comerciante arrojado e experiente raposa politica, respondeu: - Calma, Coronel, em Cratheús vai ficando uns homens de bem, sim! Olhe, quando você precisar arregaçar um, esquartejar outro, abrir as bandas mesmo, está aqui o compadre Zé Bezerra Farias; quando você precisar tomar conselho de um cidadão de bem, um cidadão pacato e honesto, está aqui o compadre Francisco Mariano Lins Cavalcante; quando precisar de um cabra sem vergonha, mentiroso, traficante, trapaceiro está aqui o compadre João Afonso de Almeida Vale. Está vendo como aqui fica gente boa? E se mandou, na lerda Maria Fumaça, para as bandas do Ipu.
De vez em quando me olho no espelho, para ver se o cabelo não está no ponto de um novo corte, então me dirijo ao Salão “O Mestre Belo”, com os ouvidos bem atentos, preparado para o encantamento da arte de quem vive a sua vida como se fosse a relatar um causo, o grande mestre Erasmo, o melhor barbeiro-contador de história dos sertões de Cratheús.


Raimundo Cândido

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A Rua FM - ♫ A luz do cabaré .... ♪

                             
Ali, da nave da Igrejinha de São Francisco, ao lado do Mercado do Peixe, em pleno burburinho da Feira Livre, o venerável Padre Alfredinho enquanto rezava pela alma de Antonieta, a prostituta tuberculosa, via, nas duras missões e nas pesadas cruzes das pessoas que iam e vinham com suas incumbências transitórias, o velho mundo insano mesclando o sal do sagrado com o doce do profano, em plena luz do dia, para o clímax das noites.
                A noite dos cabarés que nunca findou, com os seus “paraísos” e as suas “fogueiras” eternas numa cama de um quarto qualquer. Eles nunca deixarão de existir, estão somente se adaptando aos novos dias. Os costumes e os comportamentos arrefeceram os bordeis que vão perdendo espaço, estão, lentamente, se turvando no bojo do tempo. Os estudiosos do comportamento sexual dizem que a sociedade incorporou, no seu seio aconchegante, o modo permissivo de uma vida liberada, até com forma de controle dos filhos. Uma jovem dormir com o namorado, na casa dos pais é, hoje, a coisa mais natural do mundo e com uma rotatividade digna das grandes raparigas dos velhos cabarés de antigamente. Com uma concorrência desta não há zona que aguente!
Não sei se o Pe. Alfredinho, com sua humildade santa, ao socorrer a puta Antonieta, salvou-a, mas algumas sementinhas dos históricos bordeis crateuenses estão a salvo. Da Rua Cel. Totó, na dinâmica Feira do Peixe, subindo pela Rua Francisco Mariano, a famosa Rua FM, até a Rua Tabelião Francisco Antero, é só um pequeno quarteirão que está repleto de lupanares com suas mercadorias ofertadas à luz do dia, enquanto as patacas das cirandas financeiras circulam pela cidade.
São casinhas simples, coloridas, discretas, com as meninas sentadas nas cadeiras da calçada. A sala da frente é um convidativo bar, uma mesinha e o propício som estimulando o solitário cidadão que está a precisar de um obsequioso e carinhoso serviço contratual.
O endereço é, também, adaptado aos novos tempos, nenhum é bordel, aparentemente: É a casa da Noemia com suas meninas, a casa da Helena, da Fransquinha, da Paulona, da Dona Lurdes, da Dilva, o Bar do Aldemir e outros recintos que se assemelham a aconchegantes lares.
A agitação é até a última hora em que os transportes do interior ainda estão circulando pela cidade, em plena luz do dia. A própria mãe de todas as prostitutas, a Semíramis, uma deusa que queria ser a própria lua, fundadora da cidade de Babilônia, estranharia esse hábito incomum, um circo dos amores à luz do dia! Até as meretrizes deixaram de ser esvoaçadas mariposas.
Percebem-se moças que circulam pelas calçadas, atravessam a estreita rua, como se em vitrines dos bordeis da Cidade do Amor, a Ilha de Florianópolis. Se não se conhece, passa-se por uma rua qualquer da cidade, com seu ardor e seu labor.
Mal o tímido cidadão senta-se na cadeira, uma andorinha se achega, e não perde tempo, pois, no brilho do sol, cada instante refulge como a dinheiro vivo e, nas buchas, o convida: - Vamos namorar? É assim, direto, e sem perda de um segundo a mais, dirigem-se a um quarto ali aos fundos do lupanar crateuense, em pleno liberal e socialista século XXI.
Ao abrir da porta do quarto um cheiro característico chega ao olfato, o odor dos supérfluos amores que fica no ar, num incitamento da deusa dos pecados e ainda mais o rigor do apetite sexual se aguça. Um quartinho com um pequeno banheiro no canto, uma surrada cama de casal com uma rota colcha a convidar à volúpia, à lubricidade, à lascívia. Ao instante fugaz e momentâneo, sim, ao amor e à paixão, não!
De uma caixa de som, dependurada na parede, a música Boate Azul, na voz de Bruno e Marrone vibra no ar: “Doente de amor procurei remédio na vida noturna / Como a flor da noite em uma boate aqui na zona sul / A dor do amor é com outro amor que a gente cura / Vim curar a dor deste mal de amor na boate azul.”  No exato instante em que a andorinha se prepara para o momento primordial da humanidade é o instante em que damos corda na vida. Ali, vendo aberta a máquina do mundo, ofertada, com todos os mistérios despetalados como uma melodia ovidiana, como uma poesia remota, sente-se que o coração é um bordel gótico onde se prostituem as ninfetas decidas. Dama da noite, cuja profissão é alugar a flor enraizada da vida, em consequência de uma vil miséria, de um cruel abandono, e ainda levar no corpo a culpa de todos os pecados, ó injustiça!   
Mas todas as mulheres, santas ou putas, sem exceção, são perfumes, são pétalas, são espinhos... Ofertadas numa taça repleta de mel e de fel, com o gosto do sagrado, com o sabor do profano onde perdemos o natural equilíbrio, pelo sublime inebriamento das paixões e por uma overdose de prazer e de vida.
E nem o santo Pe. Alfredinho, nem o rígido Coronel Francisco Mariano sonhariam, um dia, com a sobrevivência da rua dos amores no centro da cidade, a rua dos desejos profanos, do amor carnal, mas como uma firme coluna que a tudo sustenta, desde que o mundo é mundo.
E pelas esquinas da Rua Francisco Mariano, enquanto inocentes crianças brincam de bilas pelas esquinas e no malfeito calçamento transitam motos, bicicletas, caros num vai-e-vem constante, a FM cumpre sua sobrenatural missão na existência dos bordeis, com a força das brumas do passado trazendo a exuberância dos velhos lupanares para o presente na histórica cidade de Cratheús que de há muito tempo, além de recinto de prostitutas, é uma cândida urbe prostituída.

Raimundo Cândido     


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Dona Helena – Uma Potiguara crateuense.

                                          

O poeta José Coriolano começa um dos seus versos assim: ”Há na minha província uma ribeira, / Um sertão, onde eu vi a vez primeira / Sorrir-me da existência a doce luz: / Tem o nome da tribo que o habitava, / Quando ao rude tapuia entregue estava, / Esse nome, sabei-o, - Cratheús.”
 Foi no grande Vale dos Sertões de Kara- thi-us que o brutal bandeirante português Domingo Jorge Velho, no começo do século XVIII, implantou a criação extensiva de bois, à solta, pelas imensidões sem cercas das margens do Rio Poti, motivo pelo qual começaram os sanguíneos conflitos entre os silvícolas e os colonos. Os coitadinhos dos índios não tinham a menor noção do direito à propriedade. Os Tapuias eram fortes, semblantes ameaçadores, corriam iguais a feras, indomesticáveis, irredutíveis, mas só possuíam uns simplórios arcos e flechas contra os bacamartes cuspidores de fogo dos “conquistadores”. Ou deixavam a condição de índio hostil, ou eram sumariamente exterminados! E muitos preferiam à morte a serem pacificados, pois ser índio é um estado de espírito, é um modo de ser, é algo rígido e que é invisível aos olhos.
Um dos últimos conflitos entre os pecuaristas e os índios no Vale do Poti ficou conhecido como o Massacre da Furna dos Caboclos e aconteceu na região do Distrito de Montenebo, no sopé da grande Serra Azul.  O fazendeiro José de Barros, dono da propriedade Bebida Nova, notou que os seus animais estavam sumindo e descobriu que os mesmos vinham sendo caçados pelos índios que dormiam numa furna na vertente da Serra. Então, tramou um ardil bem perverso. Mandou um caçador conquistar a confiança dos índios e, em determinada noite, este cortou as tiras de todos os arcos, dando sinal para que os homens de Zé de Barros atacassem, eles entraram na caverna exterminando homens, mulheres e crianças que ali se encontravam e ateando fogo em tudo. Milagrosamente uma criança escapou pela boca da furna, ganhou à Caatinga, passando a viver no meio do mato, como fera e um dia foi pego, com ajuda dos dentes dos cachorros de caça. A criança se tornaria a senhora Jovelina Barata, bisavó do índio potiguara Mariano Barata, que deixou muitos descendentes no bairro da Maratoan.
Na localidade de Lagoa dos Neres, na cidade de Novo Oriente, existe a Associação do Povo Potiguara. E é registrada na FUNAI como a Lagoinha dos Potiguaras. Numa época, de um passado não muito distante, o famoso Pe. da Varginha em brigas por terras com o tal de  Antônio Bento, numa feroz guerra de cangaceirismo, expulsara os potiguaras das redondezas. Antes, porém, quem tangeu os índios de lá foi a cruel seca de 32. Procuravam escapar da dura estiagem cearense nas terras amenas do Piauí. A Dona Nazaré, uma líder, curandeira, parteira e possuidora de poderes espirituais, acampa a turma de retirantes, debaixo de uns juazeiros, para alimentação e descanso. E, quando resolve prossegui, descobre que está faltando a sua filha Gonçala. A procura é incansável, muitas rezas fortes e, depois de três dias de desespero, acham um caçador e rastreador que os ajudam na busca. O pai da menina sobe nas árvores e grita a todo pulmões: - Gonçaliiiiiinha!!! Em determinado momento ouvem uma vozinha, já sem força, em resposta – Estou aqui meu pai! Ao se dirigirem para o local em que estava a criança notam as pegadas da onça que se cruzam com o rastro da menina, e o feroz animal, por algum motivo, não pôde encontrar a sua presa! Nestas viagens, de desespero, alguns morreriam de fome ou de sezão braba, com febres altas e coceiras pelo corpo.
Gonçala, sempre sob a proteção de Nazaré, teve de fugir outras vezes para o Piauí, tangida pelas secas. E, já mulher feita, casada, vem morar em Crateús, trazendo Helena, Nonato, Miguel e Raimunda, seus filhos. As duras lutas pela sobrevivência e os tempos ruins os perseguem impiedosamente. A sequência de anos: 1979 / 80 /81 / 82 e 83 mostra-se mais perversa do que quando fugiam para o Estado vizinho. No Grito da Seca, o ano de 1983, a Helena já com filhos para criar, alista-se no Bolsão da Santa Fé. Tem que levar latas d’água de 18 litros na cabeça para a construção da parede de um açude. Foi quando o Pe. Afredinho a convidou para ir à Igreja de São Francisco.
 – Esta Senhora magrinha, de touca na cabeça, venha aqui para cima! O sacerdote a convoca para assistir à missa ao seu lado e no altar. O Pe. Alfred Kurtz dormia oito dias seguidos na casa de um pobre sofredor do bolsão, como pernoitara muitas vezes na casa de Dona Helena. Um dia teve que escolher um, entre os trabalhadores que lhe hospedara, para relatar o modo de vida e a resistência dos pobres de Cratheús num retiro em que estava nada menos que Dom Helder Câmara. Colocam os nomes de 15 pessoas numa sacola e pedem para retirar um, e deu o de Dona Helena.  Alguém, enciumado, protesta. Isso não é justo, essa senhora raramente vai à missa e quase nunca está ao lado dos padres, lhes fazendo mesuras. Outro sorteio e novamente o nome da tapuia-potiguara é escolhido. Quando não estava estudando – Alfabetizou-se pelo Mobral, concluiu o Normal no Colégio Regina Pacis e fez um curso especial de Licenciatura para o Magistério Indígena - estava ajudando a Dona Nazaré, na Rua Júlio Lima, em frente a um altar de madeira, realizando curas, preparando banhos ou entoando orações: “Meu cordão é de ouro / Minha medalha é de prata / Se eu não me engano / quem chegou foi João da Mata / Eu baiei na mata / Na mata eu baiei / E na mata ninguém me viu...”  Via muitas vezes, a qualquer hora do dia ou da noite, a avó cruzando os braços em frente do corpo, balbuciava a oração secreta de Santa Margarida, a mais popular entre as parteiras, e partia para pegar mais uma criança que nascia no mundo.
Dom Fragoso, bispo de Crateús, oferece como prêmio pelo esforço de Dona Helena uma viagem à cidade de Tefé, na Amazônia, para especializar-se na cultura indígena, ela preferiu conhecer os Tremembé de Almofala, em Itarema, e a bonita luta por suas terras.
Era missão de guerreira indígena, Dona Helena, como foi a da índia Joana em derrubar as cercas que o violento Major Pe. da Varginha levantava, reerguer a cultura do povo Kara-thi-us, reeducar as crianças índias crateuenses e brigar pelas terras que  eram suas, desde o descobrimento do Brasil.
Foi preciso convidar alguns dos grandes especialistas em línguas indígenas do Brasil, como Professor Pinheiro, Dr. Gilvan Muller e a Dra. Marinalva Vieira Barbosa. Requisitaram-se, de Portugal, as Cartas das Sesmarias e constatou-se, até linguisticamente, uma grande herança indígena na ribeira do Poti, identificando as etnias espalhadas por aqui, Tupinamba, Kariri, Tabajara, kalabaça e Potiguara. O caminho para o reconhecimento e recuperação da história indígena estava iniciado.
Existem, atualmente, duas comunidades indígenas no município de Cratheús, totalizando 5900 ha, que são as aldeias de Nazário, no topo da Serra da Ibiapaba e a de Mambira, no sopé da mesma serra, onde o cacique Renato Potiguara, filho de Dona Helena, é o chefe.
Na primeira escola indígena do Brasil a educação era pautada no princípio da catequização, orientada pelos missionários jesuítas. Hoje, na Escola Indígena Raízes de Crateús, com 380 alunos, o resgate da cultura vem sendo feito na mente das criancinhas para que o passado, que um dia tentaram destruir, volte a brotar novamente, vigoroso e florido.
Dona Maria Helena Gomes circula pelo pátio da sua Escola comprovando que as coisas andam por si e as mil maravilhas.  Os alunos que não estão na sala de aula fazem as atividades de reforço nas Potiocas, umas cabaninhas de palhas, outros recebem instruções na roça de milho e de feijão ou no canteiro de hortaliças que ficam ali, ao lado. É um colégio que além de ensinar para a vida, mostra, realmente, o significado de liberdade e felicidade!
                Uma reaprendizagem com o passado, numa rica experiência como a nos dizer: “Quando vieram, eles tinham as fantasias, a Bíblia e nós a terra. E nos disseram, peguem essas ilusões, fechem os olhos e rezem. Quando abrimos os olhos, nós éramos os sonhadores com a Bíblia nas mãos e eles os donos das terras.”
                A guerreira Maria Helena  muito tem feito pelo resgate dos valores culturais e da memoria indígena, coisas que comprovamos no pátio do Colégio em que é a diretora: os alunos alegremente dançam o Torem, eles pulam, eles cantam em louvor à vida, agradecendo a natureza, na antiga língua dos tapuias, como a dizer: Vocês cortaram nossos galhos, nossos trancos, mais se esqueceram de arrancar as nossas raízes, e elas brotaram. E aqui estamos, de pé!
                A todos os Karatis que tombaram defendendo as terras do Vale do Poti, sem se curvarem ao vil invasor e àqueles que trazem na alma e no sangue a intrepidez índia e o enorme valor silvícola, dedico minha admiração e meu louvor!    

Raimundo Candido

     

quarta-feira, 8 de abril de 2015

OLIVIA BEZERRA DO BONFIM


(Crônica do escritor Flavio Machado da Academia de Letras de Crateús)
                  O magistério é uma das mais nobres e antigas carreiras da humanidade. É a prática do Amai-vos uns aos outros, pregado por cristo. As mais importantes personalidades do mundo, sem exceção, passaram pelo crivo de professores, que dedicados, souberam multiplicar os talentos concedidos por DEUS, através dos ensinamentos. Foi o magistério a missão recebida e desempenhada pela jovem Olivia Bezerra.
Nascida em 1912, logo nos seus primeiros anos de vida de vida conheceu o caminho do Instituto XV de novembro, escola do professor Lisboa Rodrigues. Em 1929 iniciou um trajeto de penúria, enfrentando longa viagem, a cavalo, de Crateús a Quixeramobim, a fim de tomar assento no trem e seguir para Fortaleza, onde no Colégio das Dorotéias, em regime de internato, se preparava para, o magistério. Depois fez especialização na língua Francesa, concluindo o curso da CADES.
                 Em 1936, na cidade do Ipu, iniciou sua vida profissional, assumindo o cargo de professora nas Escolas Reunidas. Voltou para o seu torrão natal e continuou sua missão, ensinando no Grupo Escolar Firmino Rosa, nome posteriormente mudado para Grupo Escolar Lourenço Filho. Neste estabelecimento educacional se firmou, chegando a assumir durante 10 anos o cargo de diretora.
                 Filha de tradicional família católica, contraiu núpcias matrimoniais com Manoel Bonfim Filho (Manelim), então viúvo, com quem teve a filha Ana Maria Bezerra Bonfim, Advogada e o Engenheiro José Maria Bonfim.
Dona Olívia nasceu no dia 08 de abril de 1912, pouco mais de quatro meses após Crateús ser elevada à categoria de cidade. Cresceu ao lado deste torrão e muito contribuiu para elevar o nome de Crateús. Não se pode falar sobre educação nesta terra sem incluir o nome de Olivia Bezerra do Bonfim, pois além de exercer a função de professora durante décadas, foi por 10 anos diretora do Grupo Escolar e contribuiu significativamente, para ajudar o Professor Luiz Bezerra na instalação da Escola Normal Rural e o seu cunhado Padre José Maria Moreira do Bonfim por ocasião da fundação do Ginásio Pio XII e do Patronato Senhor do Bonfim. Prestou significativa ajuda à nossa diocese, pois constantemente era requisitada para redigir e traduzir as inúmeras correspondências recebidas e enviadas por Dom Fragoso, em intercâmbio com a França.
                   Na vida de Crateús, testemunhou muitas ocorrências, retendo na memória o episódio da chegada dos revoltosos, da expectativa gerada na população, quando parte dela abandonou a cidade e temerosa escondeu jóias e pertences de valor, naquela época de medo e pavor. Testemunhou o profícuo vicariato do padre Juvêncio e do padre Bonfim. Assistiu a visita de Nossa Senhora de Fátima, ocasião em que a cidade ficou mal falada, pela falsa afirmativa de que o juiz da cidade prendeu a Santa. Dona Olivia testemunhou a chegada do 4º Batalhão Ferroviário, transformado em 4º BEC. Por certo acompanhou o desenrolar dos acontecimentos na cidade em função da ditadura militar, implantada em 31 de março de 1964. Testemunhou muitas e acirradas campanhas eleitorais.
                Com seus 102 anos vividos e dedicados ao beneficio da coletividade, também viu inúmeros sofrimentos de nosso povo em decorrência de secas nordestinas e se alegrou com a fartura de água em muitos bons invernos que produziram grandes safras.
               Olivia Bezerra do Bonfim por uma casualidade nasceu no dia 08 de abril de 1912 no município de Independência, quando seus pais, temporariamente, cuidavam de uma retirada de gado. Foi na fazenda Tourão, pertinho de Crateús, onde ela morou e cresceu ao lado de sua família. É Filha de João Rodrigues de Melo e Rita Ubelina de Melo. Está prestes a completar 103 anos de vida, mora em Fortaleza desde 1993, mantém-se lúcida, tem ainda boa visão e locomoção. Ler e demonstra desembaraço ao recordar as coisas do passado. Sua longa vida não se constitui em um simples existir, pois no decorrer da sua trajectória mostrou aos seus alunos e aos seus filhos a trilha dos princípios morais e éticos que norteiam a vida e precisam ser cultivados no seio da população.

sábado, 4 de abril de 2015

Arribação



Uma ave pousou na minha mão!
     Emplumou, exibida e ostentosa
          como a seda nas flores.
               Cativou-me! Tanto canto triste e doce
                    e até no gorjeio de Sol Maior delirei!
                         A avezinha medrou, o ânimo cresceu,
                              mas seu olhar mirava um horizonte...
                                   Sofria na invocação dos crepúsculos!
                             Não trinou seu canto de despedida
                        e, num voo rápido, sem adeus, partiu!
                  Liberdade, enfim, desprendida
             de minha triste e inútil mão!
       Um peso enorme ficou no vazio,
   com meu olhar a buscar o  infinito,
e não vi chegar a hora de arribação!

Raimundo Cândido

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Poeira



Da realidade poenta:
  Eu sou, tu és,
    nos somos impuro pó!
      Atila, os Papas,
        as putas, as freiras,
          as santas intensões,
as tramas do capeta,
a claridade do dia,
o breu da noite,
as lamurias, as orações,
a esperança que nos guia,
o fútil, o essencial,
                          e o cruento tempo
                          é, fundamentalmente,  
                          impudico pó.
Toda existência, por fim!
Mas só a dor no peito,
atada ao pó que sou,
ainda não pulverizou!


                   Raimundo Cândido

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Tintinha, a Poetisa da Ribeira do Poti.

                                                                                                              
O Sertão de Cratheús, mesmo se despindo do manto verde de esperanças nas raras quadras invernosas e se revestindo de um desalento, quase sem vida, numa paisagem repleta de gravetos secos e de brancos ossos espalhados pelo chão, ainda é um dos mais belos e puros poemas que compõem as plagas nordestinas.
Desde a época áurea do Ciclo do Couro que o Distrito de Curral Velho é uma terra bárbara, de estradinhas tortuosas e tristes, esmaecida pelos raios escaldantes do sol, mas nunca cessou de brotar poesias na alma esperançosa do rústico sertanejo. Povoados dispersos pelas margens dos Riachos Serrote e do Meio, que desemborcam no leito Rio Poti, sobrevivem à custa do esforço incomum do homem do campo, num heroísmo inimaginável.
A Lagoa das Pedras dos Rodrigues, um local cheio de pequenos lagos que ficam repletos de marrecos e patos nos invernos abundantes, é a morada de homens e mulheres de uma estirpe sólida e obstinada. É onde residem alguns laboriosos Bonfins, leitões e Rodrigues que plantam as sementes de esperança em suas roças, ao som do mugido do gado, do balido dos carneiros, do relincho dos jegues, do berro dos bodes e depois ficam aguardando as providências divinas.
Da produtiva terra do barro, e seus arredores, emergiram grandes poetas como Bastiãozinho, Datin Bonfim, Lucas Boquady... E, aqui e acolá, assim de repente como quem não quer nada, outros vates vão aparecendo: o Junior, o Luciano... Todos, gerados no seio da enorme família Bonfim.  
Habita na Lagoa das Pedras dos Rodrigues, entre a Vaca Morta e a Ipueira Cercado, uma eficiente Palas Athena, a deusa que rege a sabedoria, símbolo da inteligência, da educação e até da sublime poesia! E no meio do inóspito sertão crateuense, reina a poetisa tintinha, sim senhor! Uma pupila preparada pelas orientações da Mestra Dona Delite Menezes para lecionar nos Sertões de Cratheús, desde a época do Mobral. Além de Professora, é versada nas rimas e canta as coisas do chão e as lidas diárias de sobrevivência do homem do campo. No grato poema: “ Dona Delite minha Mestra / Como posso esquecer / Pois o pouco que sei / eu aprendi com você” percebemos a dignidade de uma poetisa que reconhece quem lhe deu a mão. Uma prova de dignidade. E celebra os acontecimentos de seu lugar com o lirismo simples da sua poesia de rima popular, alegria, dor, esperança e o amor que é um tema constante de seus versos: “Amar é coisa divina / veja que tenho razão / Se amar me faz sofrer / Antes dá satisfação / amor para mim é tudo / Ele é a minha inspiração.” Este “ele” é o Abdias, seu esposo há 35 anos, e fiel companheiro de vida. A poetisa assistia aos jogos de futebol, nos campinhos do interior, só par gritar com emoção o nome do atleta preferido: Abdias! Abdias! E aí surgiu o entusiasmado namoro e logo marcara o grande casamento. Outro companheiro inseparável da poetisa da margem do Riacho do Meio é um elegante e velho cachorro chamado Leopardo. Protetor só até ali, ninguém toca em nada de Tintinha, ele diz logo o porquê do nome, mostrando os caninos finos e as garras afiadas. Os cães aliviam a nossa solidão e são elos com o esperado paraíso, dizem os poetas.
Francisca Leitão Rodrigues Pereira, a doce Tintinha, ex-professora, inspirada poetisa, passa o dia sentada numa cadeira vendo televisão, ouvindo o rádio, captando o som da natureza que o vento joga para dentro de casa. Um velho galo que canta, as galinhas que cacarejam, o balido das cabras, o trinado do galo campina que chega misturado com o farfalhar das folhas nas árvores do terreiro. Tintinha está doente. A poetisa perde aos pouco os movimentos das pernas, a visão vai diminuindo à medida que uma ataxia degenerativa toma de conta de seu sistema nervoso. Uma doença hereditária embutida no DNA de uma ramificação da família Bonfim que aos pouco vai deformando seu cerebelo e a sua retina, tornando-a quase cega. Mas ela não se entrega: “Eu queria está sadia / Para mais tempo durar / Pois viver é muito bom / temos que aproveitar / até quando Deus quiser / Só nos resta esperar...” A Palas Athenas crateuense tem consciência de sua situação e se esforça para não deixar perecer o que tem de mais belo dentro de si, o dom da vida e a vocação para a poesia: “Minha vida é um romance / Dos que todo mundo cria / Não sou triste nem alegre / Nem vivo de fantasia...”  
Sentado ao lado de Francisca Leitão, a poetisa da Lagoa das Pedras dos Rodrigues, sob os olhares vigilantes do cachorro Leopardo, o seu anjo leal e guardião, lia os versos de Tintinha, em dezenas de cadernos, rabiscados com as mãos trêmulas, as palavras já escapulindo das linhas e sobre os mais variados motes: A festa do Barro em Curral Velho com suas olarias fabricando tijolos e telhas, o embuste da construção do Lago de Fronteiras, os políticos descarados e sem palavras, os elogios à Rádio Camponesa, no Assentamento Palmares, onde de vez em quando o locutor declama um dos seus versos para os ouvintes do sertão, o desequilíbrio ecológico trazendo seríssimas consequências para o nordeste, como a falta de água, a chegada do terceiro bispo à Cratheús e os constantes louvores a Nossa Senhora, a quem pede proteção para sua família, pois já tem uma das filhas molestada pela irrevogável e perversa barreira que o destino impõe no caminho da gente e então me lembrei do poeta Manoel Bandeira, com sua doença estigmatizante, forçado a viver na solidão, mas nunca deixou que isso fosse o fim de seus sonhos, descobriu, como a poetisa Tintinha, que a sua salvação era assumir o compromisso com a maravilhosa e divina poesia.
Ganhei, de Tintinha, um verso pela visita que lhe fiz, intitulado Surpresa: “...O Raimundinho da Dona Delite... / Comigo muito conversou / E mais poderia ser / pois minha voz atrapalhou / dava pouco para entender / Mas é assim que estou / E nada se pode fazer...”
Despeço-me da poetisa da Ribeira do Poti, prometendo outras visitas para terminar de ler o restante da montanha de versos em seus cadernos, e volto para casa pensando que, se não podemos mudar o nosso destino, podemos mudar nossa atitude para com a vida, para com a outra vida que poderiam ter sido e que não foi.
O canto poético, na pouca voz da poetisa, me arrebatou. O sorriso sincero que mostra uma fortaleza de espírito, é como uma flor que o belíssimo Sertão de Cratheús tem a nos presentear. E pensando na Paz, estampada no rosto tranquilo, afirmando que poesia é vida, é epifania e salvação, silenciosamente rezei: "Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras".
Obrigado, doce poetisa Tintinha, tu és uma esplendorosa flor poética que o Sertão de Cratheús me mostrou!


Raimundo Cândido

terça-feira, 31 de março de 2015

Quimera



A ilusão, astuciosa, num rígido gesto,
interpelou-me: - O que tens, amigo?
Vãs promessas vi, nos olhos dos sonhos.
- Não tenho nada, não! Deixe-me

em paz, oh, malvada ilusão!
- Tem sim! Categórica, ela insistiu:
- Até as sombras da noite estão
irrequietas, por tua apreensão!
- Está certo, dir-te-ei, mas não
me perturbe depois, Oh danação!
E então, cochichei ao seu ouvido:
“Senti o cheiro das rosas mortas
corrompendo o ar e vi o vago tempo
orvalhando um doloroso abandono.
E no divã da irrequieta madrugada
não pude deixar minhas insanidades,
as minhas rugas, as minhas dores
e um mar de água salobra escorreu
para a imensidade do nada!
Nem a voz do divã soube
prenunciar o que sobrevêm,
ou algo além de meu destino
sequer o que restou, por hora, de mim!
Porém, ela disse-me: - O ermo é tua sina,
triste poeta da Ribeira do Poti.
E meus olhos se afogam na longa solidão.”
Estás satisfeita agora, Quimera?
A ilusão abraçou-me, meigamente,
e consolou-me: - Não acredites
neste adivinho não, poeta!
Recomece... Se puderes. E não descanse,
não se desespere nas trilhas do mundo.
Fim é só para quem não vê um recomeço.
E segui, caminhando ao lado da ilusão,
que ia borrifando, nos ímpios,
os seus predominantes capricho
s!

Raimundo Cândido

Boaventura Bonfim disse...
Quanta poesia, meu Deus, haurida de um ímpeto do poeta em contato com o Divino, que os mortais denominamos de "momento de inspiração". Parabéns, Professor Raimundo Cândido. Continue plasmando seus momentos com Deus, que os poetas chamamos de instantes de "loucura". Um forte abraço do amigo Boaventura Joaquim Furtado Bonfim, velho parente e conterrâneo radicado em Fortaleza.

domingo, 29 de março de 2015

Carrapicho

Na ocasião,
como os carrapichos,
grudo-me ao vento,
e ao brilho da luz.
Pelas circunstâncias,
tal preciso velcro,
entrelaço-me às brisas
e ao silêncio das noites!
Exigência de vida,
pois apeteço seguir-te,
agarrado ao teu vulto!

Raimundo Cândido

sábado, 7 de março de 2015

Rio Poti – A Fonte

                                                             

No principio era a Poesia. E a poesia estava na fonte, e da fonte nasceu o córrego, e o córrego fez-se um majestoso rio. Era o Poti, ziguezagueante, sinuoso, serpenteando como cobra de vidro pelos descampados sertões de Cratheús. Por princípio, os rios já existiam, sacrossantos, no plano da Divina Poesia!
Um dia, a criança que rompia as manhãs em turvas águas fluviais, subitamente anoiteceu, perplexa e tristonha, nas exauridas ruínas de um rio maltratado, sem o precioso líquido a escorrer no seu mortificado leito que vai, pouco a pouco, deixando de existir. O rio que brotou de meu peito só quis desaguar e permanecer distante, ao largo mar. Mas ele sempre retorna, nos sonhos, trazendo a infância que rebenta da ampulheta do tempo. Os rios não morrem, hibernam. A gente é que não sabe dos fluviais mistérios que há! O Rio Poti, que ainda flui em mim, tem uma parte perene e outra intermitente, com suspensão quase contínua, interpondo-se no fluxo da existência. Concede-nos a mínima estação, cheia de benesses (E quando há!), numa incomensurável alegria e impõe as temporadas amargas e de longas paisagens cinzentas (Quase sempre!), e é um pesar!
Havia fortes indícios suspendendo o porvir fluvial e se estampava como uma tragédia no ar, como agouro ameaçando o retorno do velho Itaim-açu, como é chamado o Poti na sua nascente. Os quatro anos seguidos (2011 - 2014) de estiagens pesadas e a profecia de retorno do maior desastre que se tem notícias na história do sertão crateuense, a seca do 15, cem anos depois, ameaçava o regresso do estimado rio, num prenúncio tenebroso. Como se a natureza entendesse as datas prefixadas pelo homem, e obedecesse minunciosamente.
Tive medo, fiquei com receio de não mais ver o Rio dos Camarões escaramuçar na sua velha calha e então, resolvi conhecê-lo, por inteiro, desde a sua falada nascente, na Serra da Joaninha, até a foz, no belíssimo Encontro das Águas, no Piauí, onde reina o famigerado Cabeça de Cuia.
Munido das informações necessárias, quase na madrugada ainda, apanhei a Topic que faz horário para a cidade Quiterianópolis, onde fica a nascente do Poti. Passamos por Novo Oriente, seguindo pela BR 404 e, cedo da manhã, chegamos às terras que pertenceram a Senhora Quitéria de Lima, a antiga Vila Coutinho, a 78 km de Cratheús. O topiqueiro me avisa: - Esteja aqui, na parada, antes de 1 hora da tarde, senão você vai pernoitar. E apresenta-me a um Moto-taxi, dizendo: — O João Caburé lhe levará aonde pretende ir!    
Firmo contrato com o tal João, mas não tive coragem de falar seu apelido (Encobri um leve sorriso, pois o coitado até parecia um agouro!), mas era um guia tagarelo, que logo me comunica: — Até a Fazenda Jatobá são 40 km de distância e cobro R$ 1,00 por cada quilômetro rodado, mas antes  saiba que a rodagem é toda de terra batida. E na estrada, de novo!  A garupa da moto pulava mais que burra coiceira pela carroçal da CE 277, e eu já imaginava como seria inconveniente o regresso. Além dos solavancos, dos catabis no chão esburacado, ainda tinha a procissão de carros-pipas, que iam e vinham sem parar, com o mundo desaparecendo no poeirão que subia no ar, mais pareciam tropas de jegues na seca de 32, a denunciar mais uma grande crise hídrica.
De vez em quando passávamos por um pontilhão. Perguntei: — Ó João, esses riachos que estamos passando, caem todos no Poti? Responde-me, gritando, para superar o barulho do motor: — Que nada, amigo! Isto que você está vendo é o próprio Poti!
E lembrei-me de um ditado antigo: “Rio torto a gente passa é mil vezes”. Uma paisagem desolada, vegetação desmatada, um imenso eito de abandono e solidão, até a Mata Ciliar é uma raridade no leito do Poti, no município de Quiterianópolis.
Ao longe, uma nuvem de poeira negra sobe em coluna, e o guia, notando meu interesse, esclarece-me: — É a Mineradora Globest, que retira, todo mês, 80 mil toneladas de pó de ferro e manda para a China!  Perguntei: - Esse pó não polui o Poti? Ele proferiu um longo “Huuum!” de descaso ou descredito, não sei, mas concluiu: - A Secretária do Meio Ambiente vive brigando na justiça. Até as crianças, que moram aí, estão com uma alergia encruada. Dá em nada!
Não sei por que, mas lembrei-me do Livro de Exame de Admissão, onde estudei pela primeira vez a lição intitulada: “O Brasil Colônia”. Até que achava bom quando topávamos com uma cancela, só assim esticava as pernas. Na frente de cada residência se estampava uma cisterna, de cimento ou de um plástico azulado, como parte do Programa Água Para Todos. A surpresa foi quando apareceu o talhado da Serra da Joaninha, uma asa pétrea em ramificação na Grande Serra Azul, o grandioso maciço da Ibiapaba. — Já estamos na Fazenda Jatobá! Anunciou o moto-taxista.
Uma casinha branca, assentada quase na fralda da serra, o reboco caindo, a calçada corroída pelo tempo, um curral de carcomidos paus-a-pique, eram sinais de que havia vida naquele sopé de solidão. O morador, um típico vaqueiro chamado Mazim, veio nos receber e, a priori, já sabia o que tínhamos ido fazer. Mandou-nos aguardar, enquanto pegava um enorme facão do mato, de umas 20 polegadas, e uma lanterna que daria para clarear o mundo. Seguimos por uma trilha estreita e íngreme, margeada de angicos, de aroeiras, de pau d’arcos, todos de caules finos ainda, dando sinal de replantio. Alegro-me, pois ouço, ao longe, o belíssimo flauteado de um sabiá. Sempre achei o Poti parecido com um pássaro, a cantar e a voar! Saindo de uma boca pétrea, na base calcária da Serra da Joaninha, ouvi um som de uma torneira pingando: Ping! Ping! Ping! Era o Olho d’Água do Fundão e descemos uns três metros de rocha, numa loca, para chegar a primeira nascente do Poti, já dentro da famosa Gruta Pinga era só escuridão e entendi o porquê da lanterna. A água brotava do teto, pingava numa poça, caindo de uma enorme pedra côncava, no teto, dentro de uma convexa, no chão, e a escorrer para dentro da montanha. E em cada pingo que caia eu via as lágrimas do sertão! Mazim bebe na concha da mão, o que me faz repetir o gesto. Ele me dirige um olhar fixo e diz: — Ó, Seu Raimundo, neste local aí, só vi três coisas matar a sede, até hoje.  — O que foi que o Senhor viu bebendo aqui, onde eu estou, Seu Mazim? Pergunto, assustado.
— Os guaxinins, as pardas e, agora, você!
— E o que é essa parda, Seu Mazim? Pergunto de novo.
— É uma oncinha vermelha, a maçaroca, chamam também de suçuarana, mas elas só aparecem por aqui, quando anoitece, Seu Raimundo!
Antes de sair da gruta, pressenti, como que a presença de Patâmide, a ninfa dos rios, mas só vi uma enorme gia, quieta num canto, com seus olhos arregalados no meu rumo.
Fomos ver o outro manancial que fica do lado de fora, ao pé da gigantesca gameleira que abraça as rochas com suas grosas raízes, como que a espremê-las, para a fonte poder brotar. Era a nascente do Poti, que hoje é escoada por canos de plásticos, direcionada para um comprido tanque de concreto, o bebedouro das vacas da Fazenda Jatobá, que pisoteiam o solo sagrado do início de um rio.
Recordei da lei que obriga a, pelo menos, uns 50 metros de raio de proteção em cada insurgência de água natural, cercada de mata nativa, mas logo me lembrei de que estava no Brasil, e no fim do mundo, na encosta da Serra da Joaninha, que um dia foi mar, o mar que esculpiu, poeticamente, a Gruta Pinga, com a punção das águas revoltas e o cinzel dos ventos furiosos, e então agradeci, então roguei: “Bendito Sejais, Ó Grandíssimo Deus! Pelo rio, obra Tua! Pela água, criatura Tua! Peço-te, Ó Onipotente, fazei com que toda ameaça de mais sofrimento se dissipe, protegei a nascente do Poti, fazei com o velho Itaim ganhe novamente vida e corra, como um barco ébrio, voe como um pássaro a recitar versos aquosos pelo sertão sofrido e que encha o Colinas, e que encha, com o líquido da vida, o Flor do Campo e estenda suas benesses ao nosso sofrido Carnaubal. “
Despeço-me da Fazenda Jatobá, mas levo no peito a certeza de que o Rio Poti é eterno, pois vi o seu sangue minando das solidas rochas, e pressenti nos olhos da ninfa Potâmide que, um dia, ele há de voltar.


Raimundo Cândido