segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Práxedes , o  Brega!
            Existem duas sentenças proferidas pelo jamaicano Bob Marley que são refutações a estas colisões de desigualdade que paira nos dias de hoje e que a todo custo se tenta abafar. Uma diz: “Vocês riem de mim por eu ser diferente, e eu rio de vocês por serem todos iguais”. A diferença era só a espiritualidade de um gênio que pairava acima de nossa medíocre normalidade. Mas há outra sentença que insisto em mencionar por ser uma grande preleção filosófica de vida, deste uirapuru da fauna musical, pois, quando cantava, nossas almas se afinavam na harmonia que efervescia o nosso sangue e nos dizia: "Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida..." Grande Bob! Pressinto que Deus está se alumbrando com aquele seus batuques rítmicos...
            Já que falo em genialidade, lembro-me agora de Raul Seixas, que proferiu este verso do alto de sua despreocupada irreverência: Eu vou descascando a minha vida,/ Sujando a avenida/ Com meu sangue de limão. Raul repetiu mais de uma vez, como um grande normal fora da lei que sempre foi, que adorava literatura mas odiava os doutrinamentos das escolas. Diga-me se isso pode ser?
            Relembro mais um destes seres exótico, antes de chegarmos lá, onde teremos que ir. É um ícone que representa a praia de Iracema, em Fortaleza. O cantor brega e comediante Falcão, com seu finíssimo humor por trás dos óculos escuro num abafado terno floreado, com aquela patriótica gravata verde e amarela distribuindo seu sorriso autêntico e afirmando que toda besteira é a base das sabedorias! Anda pelo calçadão da beira-mar, dançando e cantando, simpaticamente com sua elegante cafonice. 
            Temos também por estas plagas um breguíssimo e eminente personagem que já faz parte do rol cultural dos nossos notáveis cidadões crateuenses.
            Desfila pelas nossas ruas em seu carro com um alarme especial que emite a sirene do corpo de bombeiros, da polícia ou o bramido de um raivoso touro. Quando passa por uma bela jovem, sua buzina soa num acústico veludoso como se alisasse todo o corpo da donzela que inconscientemente encara o motorista com seu poético bigode de Paulo Leminski.
            Práxeres, com x e um acento no a, como faz questão de explicar, e diz que se não for assim é falso! Raimundo Práxedes de Azevedo já passou por tudo nesta vida. Ele brincava com seus alunos ( Está afastado das salas de aulas depois de 30 anos de lições cativantes e cheias de momentos excêntricos que prendiam a atenção de seus discípulos!) perguntando: Qual o professor que derrubou uma parede de dois tijolos, e só com a cabeça?  Ele mesmo! E numa moto com o filho na garupa, por Deus estão os dois, filho e pai vivos, para contar a historia.
            No seu programa radiofônico, um brega puro e cheio de paixões não correspondidas, aos domingos das 11 horas ao meio dia, a recepção é de Crateús até Brasília, devido a globalizante Internet. Tem muita audiência, diz. Às vezes é o Dr. Paulo Nazareno que mete a cabeça na porta : Ei, rapaz, está cidade é uma selva sem você! E já pede uma música. Com a convicção de seu sucesso , brinca ironicamente com a concorrência: Não me acompanhe que não sou novela! Tem dor de cotovelo em alta voltagem e abundante música chorosa para aliviar a aflição de todos os tipos de cornudos. De Alípio Martins a Lindomar Castilho, o homem que matou sua mulher por amor.  E continua explicando: brega hoje é qualidade, é romantismo. Dentro do seu programa há uma parte cultural em que lança frases proverbiais do tipo:
Sogra, milho e feijão, só debaixo do chão! Com isso sua digníssima esposa andou lhe puxando as grandes orelhas e a frase assim ficou: Sogra, milho e feijão, só debaixo do chão, mas adoro a sogra da minha mulher! Práxedes é assim, irreverente e espirituoso e pelo microfone, em pleno ar tremeluzente das ondas radiofônicas, se sai com essa : Mulher de amigo meu é igual a muro alto, é perigoso, mas eu trepo! Tudo fazendo parte de uma breguiçe de qualidade.
            Folclórico, um patrimônio cultural de nossa cidade, quando vai chegando o mês de dezembro coloca logo sua diária mensagem natalina, repetida nos altos falantes do cimo portes no centro da cidade. Já é habitual e o povo fica aguardando, na expectativa. Certa feita, ele desejou um Bom Natal e um Feliz Ano Novo pelas 38432 gotas de sangue que Jesus derramou na cruz por todos nós! Estava desencadeada uma grande polêmica. Mandaram chamar Práxedes, no programa de Irismar França, que disse: Tem um pastor aí criticando esse negócio das 38432 gotas de sangue. O que você me diz? E Práxedes retrucou: Irismar, eu num sou tartufo não, que usa um parágrafo da Bíblia para poder sair construindo por ai umas quatro paredes para fazer  comércio. Chame esse pastor para um debate, aqui! Eu só falo a verdade e tenho provas.  E assim fez Irismar, mas o Pastor respondeu: - Rapaz, sinceramente eu tenho minhas dúvidas, mas eu não quero conversar com esse homem não!
            Agora mesmo podemos encontrar o breguíssimo Práxedes numa mesa de bar, por qualquer esquina de nossa cidade, ouvindo suas melodiosas musicas bregas em alto e bom som. Entre elas, impõe sua veludosa voz de locutor com um dito picante, de dúbio sentido e que, mais a frente, uma ruborizada e pudorosa senhora se queixará: - Oh bicho imoral!
            Passa por minha mente outro Sui Generis poeta, o acelerado Paulo Leminski, que nos faz lembrar nosso amigo Práxedes, ambos livres das amarras do mundo, com suas almas leves ruflando com seus alados bigodes negros, e pronunciando seus emblemáticos lemas: O pauloleminski e o Práxedes / são dois cachorros loucos / que devem ser mortos / a pau e pedra / a fogo a pique / senão são bem capazes / os filhosdaputa / de fazer chover / em nosso piquenique.
Raimudo Candido


José Alberto de Souza disse...


Excelente crônica que resgata tipos populares ai de Crateus, universalizando um rico cotidiano cearense. Só mesmo poderia ser criada por esta pena brilhante do amigo "Bodegueiro".
Quinta-feira, 04 Agosto, 2011

Um comentário:

  1. Excelente crônica que resgata tipos populares ai de Crateus, universalizando um rico cotidiano cearense. Só mesmo poderia ser criada por esta pena brilhante do amigo "Bodegueiro".

    ResponderExcluir