quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

SLIDES

Rogerlando


Miríade de borboletas amarelam o ar e o dia.
Na América o medo inibe voos e susta e mata
- Já é de penas e escamas os olhos da gélida estátua que vigia Manhattan.
Labaredas vermelhas de um titânico dragão localizado na Ásia sorve o ar e oxigena
o que somente existe cifrado: no câmbio o âmbito do mundo não vale o sopro de um esfolado.
E não tendo sido escrito o poema proibido de ser dito se recita silêncio.
Lio-o abertamente na mente daqueles que, feito eu, querem ir e vir e
respirar, sem grades, o mundo.
Despossuídos de liberdade são liberados a proverem-se de mercado e trabalho
se de inanição morrem as ilhidiotologias que previram animalizar humanos
servando com gente populações de cadáveres.
O mundo transita.
Não sou indício de nada se indico por satélite o oceao Índico
ou à distância identifico sentimentos que aproxima
amor e ódio e ânsias de morte e de matar: tudo na gente rima.
Gramáticos nem bem a revisam a língua cobra trocar
a pele da escrita ao soar das mutações: quando ao ser fala, dita.
Milhões de faróis vagam nas ruas varando rumos aos seres sem luz
- Literatura não é luz, mesmo se luz do que somente se fita na escuridão:
A luz dissolve o ser e o devolve ao cerne, onde, falho, vejo-me pleno.
Um homem sozinho estarrece toda a civilização
exploda, cante ou nos force a dançar à alucinação de se ter por estrela - e pop.
Estelar, um poltro selvagem na Mongólia acaba de sumir
catalogado e devidamente arquivado em bytes.
Algo fez sumir minha sombra enquanto eu encandecia
- O contrito e o irrestrito não se cabe escrito.
O eu não é lírico, megalomaníaco quer-se épico e acaba por ser,
se insolente, feito eu, meramente poético e, se solene, cerimonialmente patético:
limado, estudado, rimado, classificável, concretizado - ou métrico.
Camaleão se confunde não altera - integra-se à miragem: interage.
Eco não mia, miam milhões de gatunos e nem são gatos
os ratos de Paços corroem maços de papel e moeda e a massa moral.
O Phallos venerado nas antigas civilizações, em bytes escandaliza
mas não é mais porno do que outros elementos sagrados que também se comercializa.
A burca desnuda o regime que se ocultA lá de quatro
em Teerã de bunda de fora oram Aiatolás.
O que se torna alegoria de um tempo transcende.
Transpareço por onitorrinco se, brasil, transpiro o continente nordestino.
Na Austrália me estranham por marsupial americano, lá sou um gambá.
No Pantanal o poeta João de Barros fila a língua
untada de matas bichos insetos e se se farta de etimologia e água
cria sapos gramáticos que, enfáticos, saltam classes e originam palavras por girinos e grilos.
No matagal da língua a vida está sempre se a.bolindo.
Se engole o que a devora devolve ao agora o que o ser siga engolindo.
A raquítica criança hatiana que me aparece sorrindo
premiou o fotográfo e a galeria numa expor em Paris.
Prêmio de crítica e público - gente sensível à arte fácil se humaniza
se a vida se esgarça e radicaliza.
A realidade não rivaliza, ridiculariza.
Não há poesia, na miséria há a frágil e brutal humanidade
crua e brutalmente exposta - e a gente gosta
e expeciona o ambiente e se pressente a presa ao prêmio se abandona.
Isso não é um poema, galeria de cada imagem que se desdobra em infinitos links
e a minha revelia aleatórias alegorias camuflam o que confabulam.
Um nativo da Sibéria se veste de pele felpuda e branca contra a neve
para que não falte foca ao abate em Quebec e pelos aos animais das passarelas.
Etnográfos registram populações indiginas que não existem indiginas
- O humano não cabe senão humano mesmo se humano não se sabe.
Há ursos, não há abutres polares nem no mundo de Alice
mas ante certos homens um arrepio me alerta sobre carniceiros frios.
Um nome proferido em todos os idiomas busca um único ser a ser banido.

Suspendo este escrito que o mundo se precipita ainda mais infinito ao esgarçar-se grito.
Cesso o escrito, não de me abandonar ao que fito.

Grito, precipito-me ao infinito.


Sobre o poeta
Um homem de várias facetas. Isso se pode falar, sem medo de errar, de ROGERLANDO GOMES CAVALCANTE. Todas elas voltadas para a produção artística . Com efeito, é na charge, no cordel e na combinação criada por ele dos dois (convenientemente denominada charge/cordel) que Rogerlando acentua mais o espírito criativo e crítico. Mas também há espaço para o desenho, para o ensaio, para a música e até para as histórias em quadrinhos nessa salada. Não por acaso, ele é um dos compositores do hino de sua cidade, Independência, localizada no Vale de Crateús, a 310 quilômetro de Fortaleza. (...) Thiago Barros –especial para O POVO. VISITE O BLOG DO PEQUENO: http://www.rogerlando.com/CHÃO INAUGURAL -2009, obra de estreia. O próximo livro, A MÁQUINA DO MUNDO, está no prelo.
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Elias de França disse...
Decerto, poeta Rogerlando, um grande poema. Grande apesar de extremamente enxuto, conciso, objetivo, nu e cru. Um poema, sim, mesmo sem pretendê-lo, afinal, "Não há poesia, na miséria há a frágil e brutal humanidade crua e brutalmente exposta - e a gente gosta". Concordando, eu diria que, de fato, não há poesia em nenhum recanto desse contexto global, tria das 5 agencias que nos vendem caro o que querem que creiamos ser em manchetes o mundo, verdade ou não. Há sim, alem da brutalidade exposta, os olhos do poeta, que, como na foto, se lançam no infinito, cósmico ou virtual, atirado, precipitado, tresloucado, como um grito lançado desses nossos fins de mundo – Caratis/pelo Sinal (que embora fim, fazem parte, mas em nada influenciam no resto... ou o resto é aqui?) - como quem exprime um desabafo para nada e ninguém. E em tempos onde se leem bem menos coisas inteligentes - enquanto a preguiça, a falta de sentidos e inteligência nos amordaça e nos faz surdos-mudos – e se preferem viver mergulhados num “paiol de bobagens”, surge o olhar poético (ou a visão), corajosamente convertendo a avalanche de catástrofes ou futilidades em bons e teimosos versos prosaicos. Há os que veneram os Deuses, outros os ídolos, outros os sábios, gênios, ricos... Eu, cá de minha pequenez, saúdo a teimosia... de fazer sei lá o que! Do jeito que todos desaconselham. Parabéns por insistir com a poesia, fora ou em moda, grande ou pequena, confusa ou compreensível.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

MINHA TERRA QUERIDA (Isis Celiane)


Tanto tempo sem ver meu povo
O solo que me serviu de berço quando nasci
Terra de sol escaldante e brava gente
Lugar nenhum é como o meu Piauí

Eu aqui com minha saudade
Revirando fotos na lembrança
Recordando os rostos, as ruas e as vozes
Sofrendo até onde a memória alcança

Novamente em solo nordestinho
Longe, porém, da terra querida
Que deixei ainda infante
Terra distante, jamais esquecida

Cada vez que visito minha gente
Trago na bagagem tanta saudade
Tantas lembranças dos dias bons
Que saudade da minha cidade!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Re: FW: VELHOS TEMPOS DO FUTURO‏

Maria do Socorro Camelo maciel
Enviada: quinta-feira, 6 de janeiro de 2011 2:56:16
Para: Elias de França
.
Caro amigo, que lindo!!
Obrigada por presentear-nos com a beleza da poesia que a crueza da vida insiste em ofuscar. É emocionante perceber que a arte mesmo "envelhecida (...), um pouco mais gordinha, menos poética, mais crônica..." não se rende à aparente obviedade humana e arranca do quase impossível a graça da vida. Obrigada pela crença, pela insistência no resgate do humano. É o maior presente que nos pode oferecer.

Maria Antonia Sindiuva disse...
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011 14:42:51
Obrigada professor, por me incluir em sua conrrente de velhos e novos amigos!Não lhe conheço pessoalmente, mas sei pelo que já disse, diz e dirá em outros textos e versos,sei que me sentiria uma criatura melhor, visto que em muitos dias de sol ou de chuva, duvido da criação divina.Contudo, quando conheço pessoas novas ou velhas, mas que sabem usar as palavrasnão para agredir ferir maltratar, furtar, mas para fazê-las carinho, atenção, amizade, poesia,e reinventar a vida, sem dúvida, sinto a criação divina presente...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CRATEÚS DA MANHÃ SEGUINTE (Lourival Veras)


minha boca esse apelo
sua pele outros pêlos
corpo de novo sê-lo
outra vida janeiro

e não me venham com essa
de quando fevereiro chegar...
saudade já me mata agora
no instante mesmo em que miro a porta
que me leva a lugar nenhum em que você está

sobretudo agora
o fosco baço leitoso neblina poeira
sobre a estrada da manhã seguinte

o futuro é um agente
da
scotlad yard...
aqui a gente só ouve falar
.
.
Elias de França disse...
Que bom poder voltar a lê-lo, Sê-lo novo, ou de novo, e com versos tão singelos, como a propria vida, e ao mesmo tempo tão profundos, capazes de nos medir quão distante é Crateús da velha Londres da nova scotlad yard; o agora janeiro nasciturno do carnaval que não se consegue mais pôr como uma promessa; quão distante, enfim, o tempo ideado nos nossos sonhos do futuro decidido além sertões, no centro do mundo, que, por certo, nunca foi aqui.
4 de janeiro de 2011 10:52
Isis Celiane disse...
Que bom ter Lourival Veras no blog, assim posso conhecer melhor suas criações, que de início já me agrada muito. Continue postando e encantando nossos olhares com tão belos versos.
Terça-feira, 04 Janeiro, 2011
Raimundo Candido disse...
Garimpa-se bem pouca coisa boa nestas eras de insensatez, de aflição, de sonho desfeito.Há exceção, é a veia repleta que há num sujeito que passa agora com seu laurel: LOURIVAL VERAS!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

VIRADA (Isis Celiane)


No último dia do ano
Crepúsculo triste anunciando alvorada
Nas ruas a juventude vibrando
Esperando, cheia de vida, a hora da virada

O velho ano de bagagens prontas
Carregadas de recordações, quase indo embora
Deixando sonhos, conquistas e desilusões
Que serão amanhã miragens em nossa memória

E os poetas do tempo e da vida
Dizendo em versos o quanto ela é breve
“Vida louca, vida (...)
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve.”

Alguns carregando seus deveres
Lembrando a rapidez com que o tempo passa
“A vida é uns deveres que nós
Trouxemos para fazer em casa (...)”

“Quando se vê já são seis horas: há tempo (...)
Quando se vê passaram-se 60 anos” num segundo
E embora todo o dia ao acordar não tenha mais o tempo que passou
“(...) tenho muito tempo, temos todo tempo do mundo...”

Elias de França disse...
Que gostoso, Poeta Isis, essa costura de tão preciosos retalhos poeticos de tão grandes trovadores. De fato, falar de tempo é falar de vida. Porque, à otica humana, ambos estão bem imbricados. Li ha alguns meses, não me recordo de quem, a tese de que o tempo não passa; quem passa é a vida, o homem, seus fazeres terrenos. Assim, o lapso de uma volta da terra em torno do sol só tem significado para quem vive, breve vida, como nós mortais. Ainda assim vivemos a esquecer que somos tão pouco, ínfimos até, nessa imensidão de mistérios, codificados desde a célula à mais longínqua poeira do sem fim alem.

ANDARILHOS (Aldo Costa)

Eu e você estrada afora
Dois ciganos a vagar
Sem destino, como a brisa
Sem preguiça, como o mar

Os seu olhos têm o verde
Do milho, lá no roçado
Na boca, doce desejo
Do prazer e do pecado

O amor tem várias fases:
É verão e é inverno
É lucidez e loucura
Paraíso e inferno

Se te quero e te preciso
A vida inteira, só prá mim
Nessa estrada vou contigo
Caminhar até o fim

Estradas...ciganos
Andarilhos cansados
Amor ao relento
Corpos saciados.



Aproveitando este momento dos últimos de 2010,
Gostaria de abraçar a todos(as) amigos(as) acadêmicos(as),
desejando-lhes um novo ano cheio de muita paz, saúde, luz e
muita inspiração ao lado de todos aqueles que amam e prezam!
FELIZ 2011!
Aldo Costa

Isis Celiane disse...
Lindos versos, carregados da simplicidade que torna a poesia encantadora e apaixanante. Feliz ano novo para ti e para todos nós desta casa de versos chamada Academia de Letras de Crateús.
Sexta-feira, 31 Dezembro, 2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

VELHOS TEMPOS DO FUTURO (Elias de França)

Amanhece, e eu de novo à janela.
O céu continua azul;
o sol, deslumbrante, ilustra o nascente;
o mundo tem nova data marcada para acabar: 2012.

Passam os bêbados de volta da noitada,
patinando na lama dos esgotos da rua,
tropeçando em latas de cerveja, copos plásticos,
aspirando poeira, vômito, enxofre...
detritos do homem descartável
em festa de reveillon.
Ainda sobre a calçada,
toda a vizinhança em sacos de lixo
de um ontem tão distante...

Zé Porfírio ainda vive, servindo raro leite, na sua velha carrocinha -
mas já não lhe sou freguês:
hoje bebo pó sintético de cereal transgênico,
dada a intolerância à lactose;
o jegue Stalone não teve a mesma sorte: foi atropelado por um caminhão,
não sem antes ter matado minha muda de palmeira,
e em seu lugar plantei um pé de Nim Indiano.
Totó-da-Bodega faliu!
Aí se aposentou e mudou-se para a capital.
Agora passo o cartão no supermercado da cidade,
E sigo pendurando faturas aos fins dos meses...
A casa vizinha virou uma lan house, um cyber sem café, sei lá o que mais...
os sons sintetizados de supercarros de formula 1, nos games,
redundam em meus tímpanos...
Morro de saudades daquele cheiro de CO2 colorido de cinzas, que enevoava toda a rua – Não desse gás catalisado, incolor, insípido e inodoro,
que todos devoram sem tapar o nariz

e nos dilacera oculto os brônquios -
e do barulho cansado da velha Brasília vermelha,
há dez anos vendida no quilo para o ferro-velho...
A banda militar, ao longe, estranhamente,
ainda toca os velhos refrões,
ensaia as “antigas lições”,
de coturnos em teimosia com o asfalto,
enquanto jovens praças
rondam minha rua em modernas volantes.

Não há robô algum a recolher dejetos,
nem naus espaciais zanzando em meu beco.
Nem mesmo o carro-pipa que abastecia os baldes nos socorre,
pois se encontra no prego no quilômetro 15 da rodovia,
com o diferencial quebrado
e não se fabricam mais peças para sua manutenção...
Aí bebo água tônica comprada a preço de prata
e me banho no canal,
que um dia já foi um rio com nome indígena,
cuja pronúncia me foge à memória...

É 2011, como se fosse ontem...
um ontem tão distante
que insiste em não desaparecer,
com todos os seus resquícios
da “parte rudimentar” da história humana...

É 2011, igualzinho ao ontem,
o ontem tão distante
que não desapareceu,
com sua pobreza, seus males e fracassos...

É 2011, o mesmo que ontem,
que tanto mais mude, tanto mais cresça, tanto mais se modernize,
tão mais velho fica o ontem,
assim tão distante e tão presente.
E eu que tanto já ralhei, gritei, indignei...
continuo a ter amigdalite na garganta operada;
tempero de veneno o repolho, prevenindo a teníase;
respiro caltin para não morrer de dengue;
tomo resignado meus coquetéis de pílulas diários,
um para cada mal,
e vou ao templo todos os dias
louvar ao criador
pela graça de ver a aurora do novo ano,
que me nasce à minha imagem:
enrugado, esclerosado, demente, insano...



Raimundo Candido disse...
Acho que do lirismo de Cecília à poesia filosófica e trina de Pessoa neste poema há. Por sinal, acho que há é uma multidão de poetas que se reunirão na pena do profeta, digo vate Elias( dá no mesmo! ) para entusiasticamente louvar um ano que vai e outro que vem, assim na vida do Zé Porfírio ou de um jegue, que convenientemente tem o nome stalone, pelos velhos tempos do futuro antes que eles se acabem ( Espero que fique bom de sua amigdalite, bem antes! ) .Quinta-feira, 30 Dezembro, 2010

COELHO disse...
O Raimundo Candido acha que "Em Velhos Tempos do Futuro" há Cecília e há Pessoa...Discordo do Raimundo...Quem sou eu para discordar? Mas discordo assim mesmo... Neste poema só há o verbo dilacerante, às vezes impiedoso, deste artista de múltiplos talentos de quem tenho a honra de ser amigo...Salve, salve, grande Elias de França...Espero que nos encontremos antes que o mundo se acabe... Um grade abraço

Elias de França disse...
Muito obrigado Meu Caro Poeta, Raimundo Cândio, e meu caro parceiro de tantas lutas, Coelho. Embora num ensaio de opiniões contraditórias, ambos muito generosos para com este humilde aprendiz metido a poeta. Aprediz sim com os grandes, como Cecília e Pessoa, mas tambem aprediz, inclusive, com os amigos, como por exemplo: ao tempo em que o "natal era feito de belas palavras", "num arriscado balancete vivencial de verificação, nos versos do Raimundo, tirei a ideia de comprar a prazo e pendurar faturas para manter a vida no azul; e das tantas horas de dedicação aos debates e embates das lutas pro-humanidade, ter a coragem de contestar sempe que necessário, ainda que nos digam que é proibido, o que aprendi com o Coelho. Ter meus versos tortos comentados por tão brilhantes mentes, de um lado, o poeta e professor de ciencias exatas, do outro, grande humanista e mestre em economia (na economia util ao povo) é um grande privilégio e gratificante presente de ano novo!
Feliz tempo vindouros, velhos ou novos, vamos pra eles!
Grande Abraço!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

UM SARAU DE POESIA NO SERTÃO: SERÁ POSSÍVEL?



Por Elias de França



Um dia desses, um amigo me surpreendeu com uma informação inusitada: de que ouvira no rádio que eu seria homenageado num sarau em uma comunidade rural de um município vizinho.
A surpresa advinha de dois motivos: um deles, o gênero do evento: sarau, nome dado às rodas de declamação de poesia. Ao longo dos meus mais de 40 anos nesses Sertões, foi a primeira vez que me ocorreu saber de acontecimento desse tipo, pelo menos com amplitude publicada nos meios de comunicação locais. Na infância, era comum ouvir convite enterro, convite festa - no caso forrós, tocados por sanfoneiros da região, convite dança de São Gonçalo, reisados, cantorias de viola, festejos de santo padroeiro, novenas de Nossa Senhora de Fátima, vaquejadas, derrubadas de Judas... Mas nas últimas décadas, as alternativas de eventos se apresentam cada vez mais escassas, quase se resumindo às festas, agora tocadas por megabandas e anunciadas com meses de antecedência.
O outro motivo de estranheza era que eu não havia sido contactado a respeito, mistério esse que foi esclarecido dia seguinte, quando recebi em casa a diretora da Instituição promovente, Gracinha Ferro e o seu coordenador pedagógico, Francisco Antonio. De fato, tratava-se do I Sarau 2010, de realização da Escola de Ensino Fundamental 03 de dezembro, no Assentamento Vitória, na Zona Rural do Município de Ararendá, Região Centro-Oeste do Ceará.
No dia marcado, tomei a estrada, percorri algumas dezenas de quilômetros em asfalto, depois me embrenhei numa trilha estreita, de terreno arenoso, repleta de poças d’água, devido às chuvas da noite anterior, até avistar um caminho de luzes sequenciadas, que me permitiram concluir ser aquele o lugar. Estacionei junto ao muro da Escola, numa das poucas vagas restantes, dado o bom numero de picapes tipo pau-de-arara, microônibus, motos e bicicletas. Segui, enfim, entre boa gente que rondava a escola e ao adentrar o pátio do prédio está lá armado um palco, com estrutura de som montada, alem de uma passarela em forma de T, dessas onde se costumam realizar desfiles. A estrutura e o número de pessoas a prestigiar o acontecimento não deixava a desejar em relação às grandes festas realizadas nas comunidades.
Convidado a sentar em um bloco de cadeiras chamado pelos organizadores de “tribuna de honra”, juntamente com diversas autoridades municipais e regionais, pusemo-nos a contemplar o decorrer do evento. O mestre de cerimonial, vestido a caráter, passa então a anunciar as apresentações, já desde os cumprimentos iniciais, através de bem elaborado script, amplamente fundamentado, todo intercalado de citações de escritores, poetas e pensadores de todos os níveis e estilos. Os declamadores eram os próprios alunos da escola, desde a educação infantil até as séries finais. Todos, desde a menor criança até o mais adulto, demonstrando grande esforço, explicitado no cuidado de haverem memorizado todas as falas, inclusive, as informações biográficas dos autores escolhidos. As declamações dos poemas sempre eram precedidas das apresentações dos respectivos autores, enquanto uma criança desfilava a mostrar sua imagem física ampliada, traçada em grafite por retratista.
O verso soou noite a dentro por uma, duas horas, e nossas atenções ali a flechar aquele elevado. Não se viam abrimentos de boca, gestos de impaciência, ou esvaziamento de nenhum dos tantos sertanejos que ali se encontravam, a despeito de costumarem dormir e acordar cedo. Já pelas dez da noite, após o decurso da ultima apresentação, a palavra é facultada e me inscrevo. Pergunto-lhes que lugar seria aquele; digo que precisaria voltar ali, em um dia comum, para tentar sentir as dificuldades tantas que aquela gente deve ter, sejam necessidades de existência material, sejam demandas artístico-culturais, pois do contrario eu iria sair dali pensando que havia estado no paraíso da cidadania.
De meu trabalho, como um dos homenageados, o único presente em pessoa e um dos poucos ainda vivos, não tinha quase a dizer, posto que tanto já havia sido dito, boa parte pelo próprio fato. Ao fim, como se tamanha honra não bastasse, como se meu peito já não transbordasse, como se não estivéssemos repletos da poesia cantada por aqueles meninos e meninas, ainda ganhei minha caricatura de presente e tomei o caminho de volta, tecendo e desfiando reflexões.
Percorrendo aquelas trilhas, vou recobrando em mente o poder da educação, sua capacidade de produzir nos homens e mulheres, por eles mesmos, e por que não nas crianças, grandeza humana, intelectual e cultural; o poder do educador de fazer escolhas, conduzir pedagogicamente o processo de apropriação e interiorização dos domínios externos, distantes, abstratos, aparentemente inalcançáveis. Pois, quem haveria de imaginar que as letras de Cecília Meireles, Ruth Rocha, Eva Furnari, José Paulo Paes, Manoel Bandeira, Drummond, Vinícius... qual sementinhas trazidas de terras além viessem encontrar adubo no meio da Caatinga e vicejar em parelha com as nossas humildes invenções, com os nossos deuses sagrados como Patativa e Rachel de Queiroz?
E a passarela, não houve desfile? Houve sim. Foram eleitas as garotas poesia. Elas desfilaram com faixas contendo os nomes dos autores, aos efeitos sonoros de um DJ (Dijei, não sei se é assim que se escreve). Ao fim foram convidadas a responder por que ostentavam os nomes daqueles escritores, advertidas pelo mestre de cerimônia de que a beleza física é precária caso não se conjugue a beleza intelectual, cultural e espiritual.
Se aprendemos com Belchior, que “Nordeste é uma ficção, nordeste nunca houve” e que não somos “... do lugar dos esquecidos, da nação dos condenados, do sertão dos ofendidos”, Os meninos e meninas do Assentamento Vitoria bem que poderiam cantar com o mesmo autor “conheço o meu lugar” e por se desafiarem para dizerem que sabedores de sua sina de terra esquecida, tórrida e distante dos grandes centros urbanos, podem transformar a si próprios e a seu lugar num mundo melhor para se viver.





Teddy Williams disse...
Parabéns a todos por esse evento. Que outras comunidades realizem ações parecidas como essa e que possamos, juntos, criar uma Grande Ciranda Cultural divulgando atividades sócioculturais que acontecem nos sertões.Parabéns Elias de França, pelo texto e por sua vasta contribuição.Abraços!Teddy WilliamsCiranda das Coisas do Coração.
Quarta-feira, 29 Dezembro, 2010

Meh'ssias disse...
Realmente... um importante evento! PARABÉNS A TOD@S QUE ORGANIZARAM. Muito bom saber que existem lugares e comunidades que organizam prestigiam um evento como esse! PARABÉNS ELIAS! PARABÉNS Á ESCOLA QUE PROMOVEU ESTA ATIVIDADE!!!
Quinta-feira, 30 Dezembro, 2010

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

AO POETA JOÃO BOSCO,

Meu Caro Poeta João Bosco,

Muito prazer em contatá-lo!

Gostaria de agradecer pelos acessos ao nosso blog, pelas boas impressões manifestadas e pela reflexão acerca da questão das Academias de Letras.

Sobre esse ultimo tema, trata-se de um assunto que tem motivado grandes debates e dividido largos segmentos da sociedade e até a classe dos escritores. Divide, inclusive, a nós aqui de Crateús: alguns bons cultores de letras de nossa terra, que possuem todos os méritos e talentos para compor conosco esta Arcádia, não o estão em face de possuírem restrições de princípios em relação às estruturas orgânicas e fins das academias de letras.

Respeitamos seus posicionamentos e prosseguimos tentando construir esse ente que, para nós, como você sugere, se emprenha na missão de “produzir, de se reunir, discutir e resenhar obras, sem o sentimento da egolatria e do egocentrismo, mas com o sadio desprendimento da solidariedade, do companheirismo".

Pensamos como você; não fizemos uma academia para nos sentirmos “imortais”; para nos vangloriarmos ou celebrar honras e comendas vazias. Pois que, como você e os colegas de letras ai de Francisco Santos, assim como em todos esses rincões tórridos nordestinos, sabemos que a literatura é uma semente rara de difícil cultivo e traquejo que requer, alem do solo fértil, da água tão rara nesse nosso chão, muito amor, compromisso e dedicação. Só temos alguma chance organizados, solidários e companheiros.

Assim, gostaria de nos por a disposição dos amigos aí dessas terras irmãs para maiores intercâmbios, inclusive mediante a troca de postagens, através dos nossos blogs. Nosso email institucional é
alcrateus@gmail.com.

Teremos todo o prazer de corroborar as letras dos amigos.
Abraço Fraternal e que a palavra talhada nos aproxime cada vez mais

Elias de França
Presidente da ALC

sábado, 25 de dezembro de 2010

Caros amigos.

Nosso blog, que por algum tempo pareceu tímido e quieto, agora começa a se movimentar, percorrendo diversas estradas, tendo chegado, inclusive, a outro Estado.

Quero compartilhar com vocês uma bela observação feita pelo poeta e escritor piauiense, João Bosco, no blog da cidade de Francisco Santos-PI, direcionada a todos nós da ALC:

"Prezadíssima Isis.

Através de teu último e-mail, pude "viajar" um pouco pelo blog da ALC, onde me deparei com péroloas como teu poema sobre o natal. Ligando uma coisa à outra, li, com satisfação, no blog de F. Santos, texo teu sobre o mesmo tema, cuja postagem eu havia sugerido.
A propósito do asusnto ACADEMIA, fez-me cócegas comentar conceito depreciativo externado por Fernando Jorge em seu livro ACADEMIA: Do Fardão e da Confusão: "A Casa de Machado de Assis é estéril como uma mula". Quem assim se expressa deve estar cheio de sentimentos malsãos, explindo em gotas de veneno frustrações e desgostos, quem sabe em razao de ali ainda não haver chegado. Acadêmicos da ALC, cuidem de produzir, de se reunir, duscutir e resenhar obras, sem o sentimento da egolatria e do egocentrismo, mas com o sadio desprendimento da solidariedade, do companheirismo e - sim - da sadia competição.
E tu, botão de múltiplas promessas, haverás de, em breve, desabrochar em buquês literários frutos conforme já prometes em teus poucos trablhos (divulgados), que não tardarão em aparecer compilados em livro, sonho maior de todo escritor.
Perdoem a extensão do comentário, pois muitas vezes a emoção me domina.
Saudações natalinas e a desiderata de que o ano novo traga para todos a realização dos nossos sonhos mais caros.
João Bosco da Silva"
(http://fcosantospi.blogspot.com/)

Cuidemos em divulgar nossa arte e compartilhá-la com todos que nutrem amor pelas letras, pois como brilhantemente observou o Sr. João Bosco, "quem escreve só para si, quando muito produz um prazer solitário e egoístico".

Isis Celiane.



João Bosco Disse...


Caríssima Isis,boa noite! Consegui abrir o blog da ALC, onde li muita coisa boa, produções deveras extraordinárias. Elias França: teu natal dos bichos, um primor; dá vontade de a gente, diante de tanta injustiça, desejar tornar-se animal irracional; Rogerlando: vermelho cor, vermelho ora ação, cor velmelha coração. Excelente. E o Raimundo Cândido, em cujo "verso fervilha (...)sanguínea esperança". Ótimo.E os demais? Dos outros falarei depois. Para isso é preciso que tu medigas como postar comentário do blog da ALC, pois não consegui encontrar janela para tal. Sim, e tu és fora de série. Avise para os confrades da ALC que estou com um blog exclusivo para divulgação de minhas produções inéditas. Para acessá-lo, basta digitar http//joaoboscodasilva.blogspot.com/
a
a
Elias de França disse...
Carissimo João Bosco,
Obrigado por acessar nosso blog e pelas considerações sobre nossos poemas e textos. Qual pães postos à mesa, versos e prosas, quando compartilhados em comunhão, terão sempre melhor sabor. Para continuar postando e comentando nosso blog, você pode seguir dois caminhos: 1)clica sobre "comentarios", icone que se encontra no final de cada matéria, aí abrir-se-á a janela com os comentarios ja postados e tambem para os novos comentarios. Então é só mandar brasa e soltar o verbo. Ou você pode postar seus textos no nosso email: alcrateus@gmail.com. Teremos muito prazer em publicá-los
Saudações Literárias e até breve!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

NATAL SEGUNDO OS BICHOS (Elias de França)

É alvorada. O Sol desenha o arrebol no horizonte rasgando as ultimas penumbras da noite. O bem-te-vi acorda, alonga as asas, vê o mundo iluminado com um brilho especial. É um raio eterno, intenso, sublime, profundo. E pia:
- Ele vem aiiiiiiiiiiiiiií!
O cancão, de lá da moita de mufumbo, põe-se a pular de galho em galho, olhando curioso em todos os cantos, a indagar:
- Quem-quem? Quem-quem?
O bezerrinho que acaba de nascer, enquanto tenta encontrar as tetas da mãe, berra de lá:
- um deeeeeeeeus! Deeeeeus!
Do galho mais alto, o pássaro gorgoró afia sua garganta para anunciar:
- agogogogogogogoooooora!
Então, o bem-te-vi emerge em voo, subindo céu-a-pino, e do alto azul, enxerga a revelação, gorjeia seu gozo em pleno ar, depois mergulha veloz em direção a sua estaca, enquanto o galo, no seu poleiro, bate as asas a gritar:
- Jesus Cristo nasceeeeeu! Jesus Cristo nasceeeeu!
A vaca, virando-se de súbito, balança seu chocalho a perguntar:
- Aooooonde! Aoooooooooonde!
Ao que a ovelha responde com seu berro trêmulo:
- Beleeeeem! Beleeem!
O bem-te-vi, de volta à estaca, saltita eufórico:
- bem que vi! Bem que disse! Bem que disse! Bem que disse!
A ninhada de pintinhos piam sem parar:
- viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu?
A rolinha fogo-apagou repete em sequência:
- Cristo chegou! Cristo chegou! Cristo chegou! Cristo chegou!...
O vem-vem decola animado do galho, em voo rasante sobre o pasto a convidar:
- vem ver! Vem ver! Vem ver!
O peru apressa a todos, arrastando suas asas no chão e gritando alto:
- logo! Logo! Logo! Logo!
-logo! Logo! Logo!
O bando de galinhas d’angola salta do poleiro a proclamar em coro:
- que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato!
O pato acompanha balançando o pescoço e apontando a direção com o bico a exclamar:
- de fato! De fato! Fato! Fato!
A lagartixa, pregada no tronco da árvore, tentando descer, vai concordando com tudo balançando a cabeça juntamente com o pato.
Cuspindo entusiasmo, o bode pai-de-chiqueiro bodeja de lá:
- bom bom bom bom bom bom!
E o gavião rapina concorda:
- si-iiimmm! si-iiimmm!
o cavalo, o burro e o jumento soltam suas risadas, as galinhas caem na gargalhada:
-rim rim rim rim hun!
-Hoooooonn Urrrr hoon urrr hon ur hon ur hon!
- cocococococo! cocococococo!
O sabiá, tomando de seu bico de caneta, passa a gorjear sua canção típica, composta exclusivamente para aquele momento especial:
- que bom
Quem bom é ser
Estar aqui pra crer e ver
Menino deus nascer, nascer!
O galo de capina, excelente imitador que é, não perde tempo e passa a fazer coro com o refrão do sabiá, enquanto toda a bicharada se espalha nas florestas, campos, terreiros e quintais para viver um novo dia de uma nova era, porque, enfim, o mundo,desde ali, ganhara um salvador, fonte do amor, da misericórdia e do perdão eterno.
E ainda que, um dia, os homens se esqueçam serem eles as criaturas com imagem e semelhança do criador, que as luzes de natal se apaguem, que o significado do nascimento do menino deus seja associado tão somente à ocasião ideal para vender, comprar e consumir modernidades, que a figura comercial do papai Noel tome o lugar do cristo, enquanto houver alvorada e os animais enxergarem os raios do sol, haverá natal na voz dos bichos e nos corações iluminados. Pois que eles testemunharam, eles haverão de rememorar em todas as manhãs de todos os dias, enquanto houver tempo e vida na Terra.


Raimundo Cândido disse...
Excelente texto onomatopéico com uma mensagem "divina". O Thalles ( meu filho) vibrou com a leitura que fiz para ele!Valeu poeta!Sexta-feira, 24 Dezembro, 2010

SABi CRATEÚS disse...
É sempre gostoso demais ouvir suas histórias de contador sertenejo, raízes plantadas em nosso chão... é uma felicidade! É um prazer que nos motiva e orgulha. Parabéns pelo texto. Haveremos de contá-lo muitas e muitas vezes em nossos encontros de amor à arte, em rodas de criança e alegria, sempre celebrando a esperança de um mundo melhor.
Lourival
Sexta-feira, 24 Dezembro, 2010
Elias disse...
Honra-me e alegra a sorte de pertencer a um grupo tão talentoso de homens e mulheres, amantes das artes e da vida. Nossa essencia animal e sertaneja encontra morada certa no que somos enquanto meio, este ser meio entre vocês. Obrigado por fazerem as letras de nossa gente, lerem e promoverem a leitura!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal (Isis Celiane)


Nas casas onde as luzes não brilham
Sem enfeites ou mesa farta
Há lá no canto do quarto dos sonhos
Um menino a escrever uma carta

Desenha compassadamente as letrinhas
Confusas linhas de uma clara esperança
Não é brinquedo que deseja o menino
Não há qualquer devaneio de criança

Tudo que pede a esse desconhecido velhinho
É que venha depressa e chegue ligeiro
Trazendo no grande saco das ilusões
Comida que o alimente o ano inteiro

E vai para a janela o menino
Dia após dia, sozinho esperando
E na solidão de sua espera amarga
O tempo sem trégua vai passando

Até que apagam-se as luzes e calam-se os sinos
Tudo agora volta ao normal
E o menino recolhe-se ao canto dos sonhos
À espera solitária de mais um Natal.

Elias de França disse...
Lindo, poeta! Essa me tocou bastante. Desmascara a ilusão de que a esperança é auto-aplicável e resolve a vida por si mesma. Nada contra quem aproveita os festejos natalinos para encher a paisagem de luzinhas, musiquinhas com tons tilintantes, cores, cartões de mensagens... Tais ações até podem semear esperanças, mas comida, bebida, diversão, arte... amor, tantas outras necessidades humanas precisam ter materialidade tambem na realidade concreta e não apenas na fantasia. O proprio sentido da vida fundado na ilusão é meio que um sentido sem sentido. Parabens e obrigado por nos lembrar que toda a ostentação apelativa em torno do natal não é bastante para chegar no cantinho das casas dos mais pobres.
E quanto ao estilo? Delicioso! Você acaba de nos apresentar um poema a la Bandeira!
Isis Celiane disse...
Obrigada, Elias, pela bela observação sobre o que escrevi. Percebo que os poetas são poetas em todas as situações, tranformam em poesia tudo que falam. Parabéns!Abraços...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SER SEM SE RESSENTIR (Rogerlando Gomes)

No natal tudo que é humano se maravilha
e transborda todo ser - a humanidade brilha.

Brilha enfeite, presente, brilha, brilha ceia.
Brilha se excede se cede à bebida
e se inebria amor ou ressentimento - se extravase vida.

Os indiferentes também brilham transbordante humanidade
- Mesmos as mais frias e as mais ascetas pupilas cintilam.

O asfalto nos cintila e nós faróis, nós aros, nós prédios
cintilamos muitíssimo mais nos egoísmos e nos assédios
comerciais e de amor, ande pela 25 de Março, desfile na 5ª avenida
ore a Alá, vista burca e na China o vermelho
não seja das vestes do bom Noel, mesmo assim
desnude o cruel da existência oprimida
onde mais se suprima a liberdade de se rir de si mesmo,
sem, contudo, abolir o ridículo - o mal intenta elidir o bem
tornando o humor macabro também,
mas o riso não se contrita e, mesmo se atrita, vem à esmo
- O humano, a sucumbir, cintila e rir e o riso ilumina,
sem disfarce, a face da humanidade que a mais mínima faísca, me fascina:
a China não deixará o vermelho, a atingirá, Liu, o global vermelho humano.
E até a Coréia do Norte sairá do vermelho... que elimina
para o vermelho que de humanidade se contamina
que o globo ainda é a única esfera do universo que cintila
vida - e nutre a impar espécie, única ciente que cria, e aniquila.

O Natal, então, como o bem e o mal não é capital, capital à existência
humana é a liberdade de cintilar humanidade - e independência.

Que qualquer ato - acordar, rir, um beijo...um soco -, pois, nos seja vermelho.
Vermelho cor, vermelho ora ação cora vermelho coração.
E a humanidade tenha suas mãos por seu mais caro aparelho
De toque e de plantar, colher, fazer e todas as manhãs se dividir em pão
Em bebida, em riso e amor, mesmo o de intrigante rivalidade
Para que a gente, humanidade, não se ressinta de humanidade.



Um homem de várias facetas. Isso se pode falar, sem medo de errar, de ROGERLANDO GOMES CAVALCANTE. Todas elas voltadas para a produção artística . Com efeito, é na charge, no cordel e na combinação criada por ele dos dois (convenientemente denominada charge/cordel) que Rogerlando acentua mais o espírito criativo e crítico. Mas também há espaço para o desenho, para o ensaio, para a música e até para as histórias em quadrinhos nessa salada. Não por acaso, ele é um dos compositores do hino de sua cidade, Independência, localizada no Vale de Crateús, a 310 quilômetro de Fortaleza. (...) Thiago Barros –especial para O POVO. VISITE O BLOG DO PEQUENO: http://www.rogerlando.com/CHÃO INAUGURAL -2009, obra de estreia. O próximo livro, A MÁQUINA DO MUNDO, está no prelo.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

RAIMUNDO CÂNDIDO ESTÁ ENTRE OS AGRACIADOS COM O XIII PRÊMIO IDEAL DE LITERATURA, QUE HOMENAGEIA RAQUEL DE QUEIROZ



Companheiros de Academia:

Tinha dito que estava impossibilitado de participar de nossa reunião de dezembro, mas não tinha falado o motivo. Como agora está confirmado, esclareço: Estou na Seleção do XIII Prêmio Ideal Clube de Literatura, Prêmio Raquel de Queiroz.É um livro de conto e estou entre os 40 selecionados, o convite veio pelo correio, por email( abaixo) e por telefone, fechando o ano com um preminho que num é nada ruim!
Um abraço a todos!

Raimundo Cândido

Em 14 de dezembro de 2010 17:18, ana costa escreveu:

Boa tarde!


Prezados Senhores,
desde já desejo muito BOA SORTE a todos.

Senhores, o Prêmio ideal Clube de Literatura foi antecipado para o mês de Dezembro de 2010.
Estou lhes comunicando caso o Convite ainda não tenha chegado em suas residências, pois os mesmos já foram postados.


Detalhes:

O Prêmio acontecerá no dia 16 de Dezembro (Quinta-feira) de 2010.
Local: Salão Nobre
Horário: 20horas
Traje: Esporte Fino



Mais informações: (85) 3248-5688.

Atenciosamente,
Caroline Gadelha.

++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Caro Raimundinho:

Enche-nos de júbilo saber da sua caminhada evolutiva. És um testemunho vivo da brisa criativa espargida pela nossa Academia.

Confrades: mirem-se no exemplo desse Raimundo, Cândido no esmero do trato com os fonemas da fecundação.

Encerras o ano com o prêmio Ideal, que celebra uma das mais poderosas fêmeas da literatura nacional: Raquel de Queiroz!

Parabéns, poeta! De um canto da "goela" do Rio Poty fazes o conto, brinda-nos com o canto e revelas o encanto do telurismo sertanejo!

Na Paz,

Júnior Bonfim

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

EDITAL DE CONVOCAÇÃO

Pelo presente edital, ficam os 22 membros efetivos da Academia de Letras de Crateus - ALC convocados, na forma do Artigo 15 e 24, inciso IV, do seu Estatuto, para Assembléia Geral Extraordinária a realizar-se no dia 18 de dezembro de 2010, às 16:00h, em primeira convocação, com a maioria absoluta dos seus membros, ou às 16:30h, com qualquer numero de presentes, na Sede da Entidade, à Rua do Instituto Santa Inês, n° 231, em Crateús, tendo como pauta os seguintes assuntos: 1) apresentação de contas; 2) definição de perspectivas, expectativas e estratégias de ação para o ano 2011; 3)verificação de etapas da publicação da 1° coletânea da ALC; 4) apreciação de Edital para ingresso de novos membros efetivos; 5) balanço de uso da Sede; 6) outros assuntos do interesse e pertinentes à ALC.


Crateús, 13 de dezembro de 2010


ANTONIO ELIAS DE FRANÇA
Presidente

sábado, 4 de dezembro de 2010

OBAAA!! VAI TER LANÇAMENTO DE LIVRO INFANTIL

A autora é Penélope, 9 aninhos!




O livro: Procurando Max, o cavalinho e outras histórias
e
e
O Ilustrador (desenhista) é Miguel de Paula



dia 8 de dezembro, às 19 horas,

no restaurante Ouro Verde


VAMOS LÁ, GALERINHA!!
Vai ser muito legal!!!!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

JERI


Guiada por uma trilha sem sinal,
Atravessamos a ponte para magia;
Do outro lado um lugar especial,
Aguardava ansioso a nossa alegria.

Deixamos a areia contar nossos passos,
Subimos em busca da celeste atração;
Guardei meu amor nos braços
E, ao pôr do sol, fizemos nossa saudação.

Na diferença de tantas faces,
Vi o mundo ao encontro da natureza;
A noite, sem as luzes do disfarce,
Mostou na penumbra sua beleza.

De uma lua por estrelas enfeitadas;
Da paz entrelaçando os corações;
De ruas com artes nas calçadas;
De um vento que ecoa os violões.

Para mergulhar na luz do amanhecer
Em lagoas de águas azuladas;
Para ver o sol à tarde se esconder
Atrás de uma pedra furada.

Imprimir Jericoacoara na memória
É como sonhar de olhos abertos
E deixar registrado na nossa história
A viagem a um paraíso descoberto.

(Silvia Régia Lopes Melo).

Raimundo Candido disse...
O Blog da academia está cada vez mais sortido e rico!Parabéns para nós!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

MEU PRIMEIRO AMOR (Elias de França)

Tenho um segredo sobre minha professora do primário.
Ela foi os primeiros cabelos lisos a entrelaçarem minhas fantasias...
Os primeiros ombros morenos expostos que enxerguei,
a costa nua que inaugurou minha virilidade.
Um ralho seu valia um verso...
Quantas vezes, beliscava colegas,
à espera de ter seus dedos longos cravados na minha orelha!
Contava, um a um, os minutos das tardes;
à noite, ninava sonhos
e acreditava na manhã seguinte,
no reencontro com a professora.
Ainda hoje, me apanho a olhar ossos da clavícula,
palmados na pele de moças anônimas,
como que a tocar o corpo da tia...
As músicas da época ainda cantam seu olhar.
Gosto mais, nos novos amores,
dos traços iguais aos da professora.



Raimundo Cândido disse...
Nas suas traquinices carregadas de malícias corria-se o risco de um ralho mas gerou-se um verso... e valeu a pena!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Amores

Tenho a leve impressão de que os poetas de hoje
Carregam dores moderadas
Amores conformados
Sentimentos sem sentimentos
Escassez de versos: poesia em crise!

É, já não se ama como Vinícius
Muito menos como Jobim
Não se chora como Marias e Clarices - coisa de Elis
O exagero de roubar mil flores,
Só mesmo o de Cazuza
Ser capaz de perder o medo da chuva
Como um maluco beleza
Ter a paciência de esperar o segundo sol,
Ninguém melhor que Nando Reis
Mas o que mais desejo é carregar
A força e a coragem de Gonzaguinha
Pra começar tudo - sempre - outra vez
Eterno recomeço, "... nada foi em vão"

Nêga