Este é o chão sagrado da Academia de Letras de Crateús na internet. Como um templo ecumênico, nele há espaço para todos que adoram cultuar a beleza da virtude, a simplicidade da inteligência, a singeleza do verbo, o fascínio da cultura, a liberdade da palavra, a profundidade do amor.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Karatiús", crônica de Pedro Salgueiro para O POVO
terça-feira, 12 de abril de 2011
CRATEÚS PRESTIGIA LANÇAMENTO DE LIVROS PREMIADOS
ENCONTRO DE LETRAS E LETRADOS
segunda-feira, 11 de abril de 2011
DO EMBRIÃO AOS FRUTOS
segunda-feira, 4 de abril de 2011
LANÇAMENTO DE LIVRO EM DOSE DUPLA
. DATA: 09 DE ABRIL DE 2011, ÀS 19:30 HORAS
LOCAL: TEATRO ROSA MORAES, COM AUTÓGRAFOS NA SEDE DA ACADEMIA DE LETRAS DE CRATEUS .
. CUSTO DE CADA EXEMPLAR: R$ 20,00, SENDO R$ 30,00 A COMPRA CASADA
Habita-me dois sujeitos e um só predicado!
Um diz ao outro, com certo sentido e razão:
– O que vale é a pataca no bolso, Raimundo,
esse lero-lero literário de tua poética afetação
é inútil, do teu poema exala um ar de excreção!
Replica o outro a advertir, com argumentação:
– Meu insensível amigo, deixe de incivil ganância,
a vida não é só o cobiçar de Money que a sustenta ,
há um humano apreço que degustamos na poesia!
Hábil piloto, este predicado, que me norteia ao leme
num atributo máximo de si,como de hábito fraseia:
– A opulência da vida é um belo prato de pão e poesia,
calem-se os dois e aprendam a conviver em harmonia!
Raimundo Candido
sábado, 2 de abril de 2011
Ex
Dei-me com ela
vestida de lua,
musselinosa
a desfilar na praça.
Esparramava-se
toda, cintilando
no maneio das ancas,
dois prá lá, dois pra cá.
Reanimou-me,
vulcão adormecido
que julgava morto,
audaz, eruptivo.
.
Junto a si, alguém,
como nova sombra
de sua sombra que
rebolava também.
Palpitei no seu ondular,
mas veio-me a paralisia,
reduzindo a um nada
toda lembrança que havia.
Raimundo Candido
http://www.raimundinho.hpg.com.br/
quinta-feira, 24 de março de 2011
A.PREÇO A CLAVA
Reza à vida pela morte de quem encarna
O que ele encarna e, a reza, escarnece
- Seu Deus, sua fé, sua terra ofendida...
Deus e o homem se infeli.citam a cada prece.
Deus e o homem se contestam a cada prece.
A cada prece o ser se aproxima de quem já não reza.
Ou não ore – e deplore –, ou parle, ou verse
Por moeda, por moda, se paga ao ser e a Deus lesa.
O homem e Deus se partícula.rizam a cada fissão.
E onde a filosofia não se fez evocar ser Deus,
O homem também se afastou à imensidão.
Não de Deus, que não cultua, da sabedoria dos seus.
E o homem a cada clava, a cada conclave – enclave,
Se tem mais de ciência e a cada avanço, um recuo:
Nem fé cega, nem auto-sufi.ciência – nada que trave
Sabedoria, vivência antes de irmos ao futuro, atuo
Para que a gente possa continua bestamente humano.
No tempo corrente não correr, coerente andar sem pressa
segunda-feira, 21 de março de 2011

Fukushima
Toda Terra é enxofre, sal e abrasamento
de uma imensa fornalha lambendo nossos fatigados pés,
onde os gritos de Sodoma e Gamorra em desamparado dó, ecoam.
Toda Terra é um pavor bafejado da boca de um Vesúvio,
soterrando as perplexas estátuas de Pompéia e Herculano,
como um feroz dragão que nos habita desde a remota Pangéia.
Toda Terra tem um prenúncio de um insano Enola Gay
sobrevoando impiedosamente nossas imprudentes cabeças,
evacuando o flash mortal que ainda corrói Hiroshima e Nagasaki.
Toda Terra é um monte Fiji, com um pesado olho adormecido
e outro na instantânea prontidão à desdita e ao flagelo
de um inflamado rio sem foz, para ardermos em seu desprezo.
Toda Terra rodopia com um vórtice de ímpeto veemente
pelo colossal turbilhão que a nós remete o terrível Poseidon,
feito um afogado estremecimento tsunâmico de nossa secura.
Toda Terra chora, num gemido contínuo, choro aflito e monótono
pela escuridão de Chernobyl, pelas insônias de Angras, pelas Fukushimas
que agora refutam digerir a bílis e a liberar a fissão na última sangria.
Raimundo Candido
www.raimundinho.hpg.com.br
sexta-feira, 18 de março de 2011
Eram três (ou tema para um conto triste)

Para o amigo Lourival Mourão
Eram três amigos.
Eram três amigos inseparáveis.
Ficaram unidos desde a primeira vez que se viram (gostavam de se pabular disso).
Eram carne e unha desde as primeiras brincadeiras de bila, bola e arraia. Moravam em ruas separadas, mas não distantes. Nunca houve briga, mancha alguma que os separasse.
Cresceram juntos, apaixonaram-se pelas quase mesmas meninas. Dois torciam pelo São Vicente e o outro pelo Unidos do Petróleo.
Cresceram, irremediavelmente.
Um ficou pelo ginásio e ajudava o pai na bodega. Outro foi para o seminário em Sobral. E o terceiro perambulou de festa em festa.
Fatalmente um deles seria próspero comerciante. Outro, dedicado padre. E o último, professor e poeta.
Porém um deles suicidou-se por causa de um amor não correspondido. O outro foi assassinado ao separar uma briga de casais. E o derradeiro pulou da ponte da linha férrea e espatifou a coluna.
Eram três amigos.
Eram três.
Eram.
Pedro Salgueiro
Especial para O PovoNOVOS TEMPOS
O homem conquistou o mundo, fez a revolução que pretendia e tornou-se vazio. Inventou e reinventou a tecnologia e de tanta fixação por suas máquinas, transformou-se numa delas. As relações afetivas deram espaço aos acordos e às sociedades, os abraços agora obedecem à lógica fria da cordialidade. Atingimos o absurdo da escassez de sentimentos, onde vale mais um contato profissional do que um amigo.
Creio que aquele tempo que previa o poeta já chegou, “Tempo em que não se diz mais: meu amor./Porque o amor resultou inútil./E os olhos não choram./E as mãos tecem apenas o rude trabalho./E o coração está seco”. Versos do genial Carlos Drummond, do poema Os Ombros Suportam o Mundo.
Na verdade, o homem caiu na armadilha de seus próprios anseios, na busca por seus objetivos transformou seus companheiros em adversários, em concorrentes. De tanto ser racional, esqueceu de sentir e tornou-se sozinho.
Hoje, os homens, práticos que se tornaram, se encarregam da racionalidade desmedida para concretizar o que acreditam ser um sonho. E os poetas se cometem da admirável tarefa de sentir e bradar em seus versos a tristeza que é chegar a um tempo “em que não se diz mais: Meu Deus.”, como fez Carlos Drummond de Andrade.
quinta-feira, 17 de março de 2011
A MORTE HUMANIZADA NÃO HUMANIZA A VIDA
Sismógrafo algum capta o pavor
aterrorizante, petrificante do tremor
nem grafa a gravidade da nossa impotência e humanidade,
se registra a intensidade de nossa fragilidade - trememos
ante a vida em seus extremos.
Tememos a vida em seus extremos.
A terra se desloca oceânica e ronca o pacífico,
liquidificador arromba e estronda e violenta e rasga
a vida em desumanas ondas devolve ao homem
tudo que ele, se a esgarça, a faça: comércio e saga.
A saga de reformar a terra - e a vida - à ciência e tecnologia
que ao fim e ao cabo vale e equivale a poesia
que por mais pungente e real rareia e, vaga,
nem é sólido, nem gás nem liquidifica nem liquida,
não morre, que o que morre evapora-se nela que fica para mais algum tempo de vida,
não maior que o tempo de acontecer - luzir e sumir.
E a saga de superar catástrofe
mesmo se o homem com a terra não rompe porque
se dela se separa não funde cofre
- E o que o ser rompe interrompe o ser.
E saga maior não pode haver
que a das águas e da terra
e do ar e do fogo que o que faz viver
afoga, aterra, sufoca, queima - encerra...
Encerra, mas, fênix, faz ressurgir
- A vida humana não vale mais que carvão ou rubi.
Época épica à pó cai ali piscam cenas priscas incontrastáveis com o que é cine
em que o que é trágico, dramático, cômico é arte
e eleva platéias em sessões de sensações exorcistas
- todo mundo quer-se livre da vida, aí fantasia.
Mas o tsunami em instantes raptou
vítimas, que não couberam ser expectadoras
como.são os que mundo afora também
assistam as transmissões dos horrores
sem graça, aflitivos, mortais - sem arte, vivos.
( A violência Cine América
quimérica, mas - do império - triunfal.
E a violência real e cadavérica
Do terremoto nos mostra que fenomenal
Não é o ser, não é a terra.
É a vida se nos desterra.)
- No Japão a terra range
e mata e no Norte da África falanges
de dementes nos constrange
a condição humana - negada
por tiranos e, por fundamentalismos, condicionada.
Expectador, também me aflige,
Não afetar em nada o que me atinge:
Influir como quando a gente se faz ouvir
Ouvindo o mundo ouvindo os próprios ruídos de existir
- O que vida e silencia, cia
que a vida é via de ir influ.ir.
Se as placas tectônicas no fundo da terra se movem e comovem o mundo
demove o homem da condição de senhor da terra que se nega da terra oriundo.
Navioscarroscarnescasasroupasprédioslouçasesmigalhadastrituradasliquidificados
detritos
e pessoas encerradas em gritos.
Toneladas de bens humanos acumulados em anos trituradas em minutos
- Quão diminutos são os feitos antropocenos da gente
tão ensimesmados que somos que não notamos
que a revolução não significa seguir em frente, expandir e inundar o
mar
de restos e dejetos de progresso – abrir abscessos
e abismos entre a gente e a terra. Evolução é o preenchimento
desse hiato em que se intervala a terra e permite a civilização
e a civilização que quer desvincular-se da terra
- viver dela, mas sem ela: tê-la sem ser dela.
Eis que aí é que o ser se cancela
Eis que aí é que a terra o sela
Eis que aí é que a vida vela
Que a terra pela a sua zela.
Zela se irrompe, que a vida é ruptura
E rompe o homem; o homem, sutura.
- E a terra não se parte ainda que aberta em brecha
Se parte o homem, sempre que se fecha.
Se fecha em sistema, incuba morte
Que a vida não pode se ditada
- Incontida em teocracia e na Coréia do Norte
E onde quer que a queiram ideal.mente encerrada,
Se nem mesmo no centro da terra a vida
Fica concentrada, retida, estacio.nada – detida:
Incontida eclode primaveras, vulcões, terremotos...usinas nucleares
que seu núcleo é ar, onde, sucessiva, é de morte viva.
Divago a vencer a distância que me separa da devastação
que irradia o Japão e chega a mim.
Divago, divagamos a irmos a todos os rumos que nos distanciem da radiação
mas daqui a pouco – planeta contaminado –
não haverá para onde fugir:
o homem precisa escapar de si.
Divago e estreito o mundo em meu peito com tal arrebatamento
que essa distensão
– se rumino – nada, de tão estarrecido, teria a dizer
e, enfim, silencio consternado para dizer da nossa insignificância na vastidão.
Sim poderia também ser enigmático
E referir-me a rigidez moral japa
Que, em contraste, deu leveza a arte
E a capacidade de registrar o que nos escapa
- Estoicismo que reduziria a dor.
Mas não, não recorro a esse desvio
Que o silêncio não mina a dor
E a gente não domina o acaso nem o rio,
O rio em que cabe toda a terra - e o mar:
O rio de ser onde mergulho a ser ar
respirável.
Ar sem poluição atômica e despoluído
Da razão fulminada pelo que imagina que domina.
A poesia não é do que se funda
E na língua se distancia.
É o que nos inunda
E aproxima – a vida enquanto nos fia.
Nem ciência é a própria consciência
Que se experimenta
Que nem a vida é de auto-suficiência
Se acaso e o ocaso a complementa.
E o que é de autoria humana
Não requer assinatura para identificação
- Bomba, usina nuclear, um poema, nome, mamute, banana...
Só a gente distingue morte de extinção.
De vasta ação a radiação erradica
Pulveriza a própria energia que a ciência predica.
De vasta ação o reator fundido, átomo a átomo, reata
Seus elementos e tudo que alcança mata.
De vasta ação a radiação se, átomo a átomo, aflora
Célula a célula torna a vida nada e nada a faz contida.
Intentando, não prolongar a vida, mas retardar a morte erradica – e o horror
Tem sido que o homem se fez da morte o acelera.dor
- Ciência é exata enquanto na mente e abstrata,
exposta a realidade até a consciência se desgasta.
De vasta ação elimina com mais horror que maremoto
A morte humanizada, o ser é que se faz remoto.
O risco não é nada cientifico – é o definitivo
De riscar da terra tudo que é vivo:
Da vasta ação do homem restará o que erradica – radiação.
Depois, ninguém para sentir-se e vagar – desolação.
De vasta ação, se danifica, nada se enxerta bio,
Por isso exorto: desumanizemos a morte que ela não é do que é vazio
- a tudo desativa.
Se a retarda a morte a acelera, se célere é que se vive,
Se ante ao que destroça a humanidade minha humanidade não contive
É que um sentimento sem palavra me arrasta
– O terror não é remoto. Político, natural – geo.po.ético – me devasta...
E não me desolam senão as perdas incalculáveis
– As de vidas que, atinja-se uma, minha humanidade denuncia:
humanizada a morte não é a si que esvazia.
quarta-feira, 9 de março de 2011
BECO do VELHO LEÔNIDAS
Antes do Beco da Civil, todos os cortejos funerários, da igreja matriz ao cemitério, tinham passagem obrigatória pelo Beco do Velho Leônidas – gente famosa, gente desconhecida, gente pobre, rica, amada, odiada. É beco curto e apertado. Sequer tem aparência sinistra. No entanto, sua atenção emerge de seu símbolo da morte ou do mau agouro, ou da fama de lugar de visagens, almas-penadas e assombros. Ainda na cidade, terra do poeta José Coriolano, sempre quando alguém bate as botas, os antigos (parece que só os antigos) têm mania de dizer em meio tom: "Fulano pegou o Beco do Véi Leônidas". Ontem de manhazinha, a pequena cidade foi pego de surpresa, ao se descobrir que o velho Leônidas existia de fato, ou seja, não era só um desses nomes de agourar e praguejar. Hoje ao fim da tarde, enquanto muitos seguiam o cortejo ao repico lento e cadenciado do sino da igreja, vários moradores do beco, que de suas janelas e calçadas assistiam, comentavam burlescos e de olhos embaçados: "Valha, meu deus, seu Leônidas pegou o Beco do Véi (...)".
Conto e ilustração: Carlos Bonfim (Antonio Carlos F. Bonfim)
sábado, 5 de março de 2011
DESPEDIDA (Isis Celiane)
da voz fugiram as palavras.
As mãos não se apertaram
e os olhares empreenderam fuga
e não se olharam.
Dos sentimentos sinceros,
aquela ausência impondo sua presença.
Nenhum sinal de gratidão,
somente ela: solidão
foi estrela naquele palco sem luz.
Inevitável era a sensação:
quanta vida deixada ali foi em vão!
Não valeu à pena sonhar tantos sonhos
nem fazer tantos planos.
Afeição sem desvelo não é afeição.
Recomeçar e mudar...
embora enfrentando as faces ríspidas
dos que não se alegram com sua chegada.
É preciso coragem para recomeçar
e fazer do desengano uma oportunidade nova.
E esta saudade
que será dor por algum tempo,
chegará um tempo
em que será só saudade.
.
.
João Bosco disse...
Boa tarde, grande poeta!
Cecília Meireles, em uma de suas belas canções, diz que "O poeta abriu o mar com as mãos para o seu sonho naufragar".Você, Isis, tem um quê de Cecília. É a herdeira moderna desse "monstro sagrado" da nossa literatura, desaparecida em 1965.Se ela, por acaso, lesse os seus poemas e canções, decerto ficaria envaidecida.Parabéns, poeta "espritada". E que tenha um bom carnaval.
João Bosco
Sábado, 05 Março, 2011
quinta-feira, 3 de março de 2011
A dádiva do Poti
...................... A Secular Crateús.
Este habitat, árido atributo é uma dádiva do rio
que jorra despido, amorosamente paterno,
tanto viril quanto oferecido
mas distraidamente intermitente.
Sobressaltado cabrito selvagem, flama aquosa
em voluptuosa profanação dos veios secretos,
nas entranhas sagradas da terra pelo seminal
líquido vital em ejaculação plasmática.
Célula fecunda, a cidade se dar terna e plena
no ventre farto da rijeza terrestre
e se expele do leito à margem,
como flor silvícola gerada de água e luz
tateando um úbere que a faça medrar.
Cândidos, de epiderme incandescente,
no ermo bravio que em mim ainda fervilha
como memória de extintos guerreiros,
os gloriosos karatis que ululavam por aqui,
com um intenso canto em danças de rogação
à caça e à pesca, nas margens pedregosas do rio
que se encobria em arremessada fuga, feito carcará
pela mata a dentro, como flecha rápida e sinuosa.
Neste inculto agreste um inexplicável fenômeno,
em decorrência do rio, um avivamento miraculoso,
na tosca mata branca de marmeleiro e mufumbos,
desta caatinga povoada por criaturas esquálidas,
o habilidoso pincel foi tingindo um quadro citadino
suficientemente bucólico pelo aroma dos currais,
espargindo o mungir do gado ao nascer do sol
e o aboio plangente que vem de um rústico gibão.
Contra as evidências de impassíveis estiagens
que assolavam, extirpavam, aniquilavam o que nem existia,
o sertanejo levantou-se como um audaz Hercules,
um heróico Quixote de La Mancha e pegou sua cuia d’água,
exibiu sua nobre enxada como fuzil de guerra
e ecoou sua imensa coragem no intrépido peito,
ao contemplar uma barra de chumbo visível ao céu,
dando existência a algo inimaginável: vida no sertão.
E foi deitando corpo, uma aldeia, uma vila, um povoado
de intensidade rústica, espírito indomável como seu rio,
mas o coração na imensidade de um horizonte.
Uma eminente capela guardava as coisas sagradas
com seus mandacarus padecente a render sentinela,
atordoados na hora escaldante. Hoje o suplício
é oficio de um crucifixo que se espreita na face da matriz,
com um ar sagrado velando as corredeiras que dançam,
por entre as serras vogando com ímpeto ao mar.
Ao se povoar em torno de uma imagem santa
a cidade exubera zelosa, como uma mulher virtuosa
que traja véus para invocar as bem-aventuranças ao lar
e suplicar clemências nas procissões de São José,
aleitando as robustas crias que brotam copiosas,
pelas esquinas onde parteiras para todos não há.
É um só ímpeto a urbe que se expande como se espicha
um couro curtido nos curtumes, espalhados pela beira do rio.
Paralelo a curva do velho Poti, avança a linha férrea.
Um formigueiro incansável firma os dormentes,
assenta os trilhos ao chão rumo a um sem fim,
como num tapete retalhado a ferro e fogo,
conduzindo condições de um haver fôlego por aqui .
O trem de ferro abre uma trilha sem porteira,
com seu dilatado apito cortando os ares, numa gargalhada
fina proferida por um meteórico rastro de fumaça
que desenha num trajeto aéreo e acetinado de uma nova lida.
O comércio é um rebuliço irrequieto de rude gente
que não sabe se vai ou se vem, mas mantém sua graça
de cidade que cresce e se mostra formosa e faceira.
E tudo se ameniza com o perfume de terra molhada,
que incita um faro comprido a farejar colheita e fartura.
O lavrador já arou, sente-se feliz, cheio de promessas,
esquecendo a penúria da seca recente que o vergou.
Condutor de benesses, mensageiro de vida,
do Poti sempre jorrou o nosso riso e o nosso sangue,
mas que de vez em quando conduz um fraco arroio, infecundo,
transcorrendo no lugar do grande e paternal rio,
um fio vertido em lamacento choro, num canto penoso
pelas circunstâncias corrompidas que lhe impõem.
Um dia desses, algum encantado do rio,
a mãe d’água feroz, apavorante iara guerreira
que entrança as linhas do tempo em devaneio,
nos anfiteatros pétreos a vigiar as cidades ribeirinhas,
subirá pelas corredeiras de revolta em punho
e com voz de trovão, caminhará pelas ruelas e becos,
tomando satisfação por este descaso e desleixo,
já que por aqui outro bastião, para nos ajudar, não há .
Indagará pelos filhos ingratos, os desalmados políticos
que só se saciam de um vil metal e daqui se vão
deleitar em outras pastagens, não tão agrestes,
esquecidos, sem se inquietar por nosso destino,
filhos ingratos, como vil raposas que são.
Mas a água do Poti é um fio de seda,
no vigor de um aço que prende em laço
afetuoso e sincero, numa proteção cordialmente aquosa,
o ensejo de quem o bebe e não mais esquece.
Aqui é o lugar em que a coragem brota do áspero chão,
onde bravura é sobrenome de um intrépido cidadão
que o leva marcado no peito, junto a designação
a de ser crateuense por índole, ou por amor ou por vocação.
Raimundo Candido
www.raimundinho.hpg.com.br
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Pasárgada, a Outra, primeira mão para voce dar uma apreciada.
Vou me embora de Pasárgada
A República triunfou
As mulheres não me querem
A minha cama quebrou.
Vou-me embora de Pasárgada
Escaparei por um triz
Da turba que não me atura
Caio fora, sigo em frente
Que Joana, safada, me estranha
Diz que me ama mas mente.
Já empregou seus parentes
Chance que eu jamais tive.
Na fuga farei um cooper
Roubarei uma bicicleta
Não mais burro nem mais brabo
Liso como pau-de-sebo
Tomarei banhos de gato
E quando estiver bem longe
Em São Paulo ou no Rio
Bebo, viro um pau-d'água
E dano a contar histórias
Que no tempo das vacas-gordas
Eu costumava inventar.
Vou-me embora de Pasárgada
Em Pasárgada não tem nada
Fim de civilização
Tenho um processo nas costas
Movido por Conceição
Meu celular não funciona
A Lei Seca me esturrica
As putas beijam na boca
Tenho pena de quem fica.
Um abraço de Tamanduá
Chico Pascoal
Crateuense de Ibiapaba, residindo em São Paulo
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
APESAR DA INSENSATEZ DOS CÃES QUE LADRAM NA RUA
Há vida no lixo que se acumula nas velhas sacolas de supermercado. Com amplo domínio da casa, as formigas, em disputa desleal com as baratas, inventam trilhas sobre os copos – agora livres dos enganos passados e habituais prisioneiros da desordem da pia. A imagem vinda da tela da TV se assemelha a cor do céu da manhã que talvez não me veja. As roupas no varal, apesar da insensatez dos cães que ladram na rua, dormem tranquilas, mimadas pelo vento da noite; e o meu corpo, vazio de roupas e significados, permanece à procura de um espírito…
LUCIANO BONFIM [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam – Contos[2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético[1992] s e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia ; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado[2002] e As Mulheres Cegas[2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências[2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA[desde 1996]; Mestre em Educação Brasileira[FACED-UFC/2008]; selecionado pelo programa Bolsa Funarte de Criação Literária/2010 – FUNARTE/MinC.
e-mail: luciano.bonfim@yahoo.com.br
Postado por: Raimundo Candido
chico pascoal disse...
O Luciano cada vez mais me surpreende com sua prosa. Onde há textos desse moço de Crateús, lá estou eu a apreciá-los.um abraçoChico Pascoal
Segunda-feira, 28 Fevereiro, 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
DOIS MUNDOS (Isis Celiane)
correndo no tempo contra o relógio dos dias.
Querendo viver além das horas dormidas,
além daquelas sofridas em que todo esforço dedica.
- “O trabalho dignifica o homem”
e esgota-lhe a vida.
Menino rico conhecendo o mundo,
abraçando as horas: generosas, amigas...
Aquelas dormidas, sossego da mente.
Raramente cansado, pouco é o esforço do dia
- O poder enobrece o homem
e guarnece-lhe a vida.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
O NARIZ DA ESFINGE RESPIRA
As areias do deserto sopram teu nome, Rosni,
à eternidade mais absoluta - a do esquecimento.
Obscuridade a que resistem as múmias sucumbem
tiranias - atropelados pelos acontecimentos
obtusos despertam, tardiamente, despertam
surpreendidos, estupefatos, às mudanças que se dão
primeiro, miudamente, micro, depois gigantes maiores que pirâmides
e morte. E oferto o que ofertam: o coração
pulsa entre braços e atinge sonhos que a um dar de mãos
partem correntes - Partam também doutrinas, que se Deus fAla
sua língua não troa audível a quem não se sabe ouvir:
Alá não é islâmico como Deus não é cristão: o que não cala
o homem é que é divino – ser infiel e/ou ateu não é inexistir.
Quem exige sectário é que quer elidir, quem não aceita desertor
também e com mais fervor - Sendo que o que livra é amor.
Livra para além de adorações e dogmas e das orações políticas,
inclusive as que façam o lívido Alá corar. Livre, comemorais a críticas.
Críticas libertam e mantêm livre do que elimina:
sangue servido - e/ou sorvido - em latrina
só pode ser humano que Deus não sangra, Alá não sacrifica e morte não doutrina.
Opressão não doutrina. Morte, opressão, demência - terror
Tortura, humilhação: mas decepar orelhas não ensurdece,
aguça a audição do mundo aos obtusos que nos estarrece.
E se adoradores de cadáveres também decepam narizes
a vislumbrarem como bela a horrenda face da morte
- carnais cadavéricas fossas nasais -,
os façamos felizes: cortemos seus narizes
de pinóquios e cera de suas caras de madeira.
Talvez por isso se proíba afigurar o humano: se Deus não é gente
Alá se desfigura em quem o anuncie e represente.
Que amanhã - com ou sem islã -
O único nariz que falte seja aquele que já falta
A esfinge de Gizé que, porque estátua, não faz falta.
E se cortam narizes na intenção de sufocar
independência é ar - respire e a obterás
como a si mesmo, o ser livre civiliza
a cada vez que sonha, luta - realiza,
ande por Novo York, cate lixo em São Paulo,
puxe carroça na India, fabrique brinquedo na China...
Liberdade, me instauro por tua via
a cada consciência que iluminas:
independência, respira-a e ela te pronuncia.
E que as areias dos desertos e os mares varram
Do Egito - de toda a África, do Oriente -, do Mundo Inteiro
tudo que imaterial, mas que nos barra
ao ir navegar, sem velas, o veleiro
que se define pelo que porta aberto:
a humanidade falha enquanto houver alguém a ser liberto.
Territórios, se limitam etnos
Não delimitam contornos humanos
- O universo é meu limite
que, farto, transponho, pois que habito
o infinito
onde tudo se eterniza:
o silêncio se hiberna grito
em que o humano se divisa
ir livre ao esmo de ser prisioneiro apenas de si mesmo:
sê do mundo inteiro.
O mundo se desencadeia
na gente - A gente em cadeia
conec.ta.da.mente se liga
se do que mina se desliga.
Interno e universalizo
o que é da gente e à revelia dos desumanos, humanizo:
minha mensagem não precisa de mecanismo para ser entendida
ou cifrada ou transmitida,
que a mensagem não é minha, sentida
por qualquer um, dá em vida.
Vida além das areias, além da águas, além da lama
natural ou humana. E se liberdade é tudo que o infinito reclama,
sede e habita
a tua liberdade infinita
que o infinito, desde sempre, ó finitos, nos habita
e nos habilita
a vencer o que limita.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Beatriz : o nome da alegria
Quem carrega no nome a alegriasendo chamada de Bia...
passa a rejeitar na vida toda forma de tristeza
Dizendo Não (!!!) a mesmice
Dizendo Não (!!!) a chatice
deixar de rirr é uma tolice.
Ora, melhor é enfeitar o mundo com a pintura de um belo rosto
sorrir sem muito esforço
animar a festa da vida
Dançar Funk com a graça de uma bailarina
O mundo é festa
Beatriz a que nos traz alegria
Quem é Hanna carrega consigo a graça, tanta beleza!
Charme com harmonia...
assim ficamos com saudade da menina moça que partiu ( Tão cedo)
pra faze a festa no céu.
Tia Nêga
Essa é uma homenagem para nossa Hanna Beatriz que partiu tão cedo de nosso convivio. Em nome de toda família Martins Feitosa
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
EDITAL DE CONVOCAÇÃO
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Re: FW: Contradições
Enviada: domingo, 13 de fevereiro de 2011.
Para: Isis Celiane
Prezada Isis Celiane,
novamente bom dia!
Faltam-me adjetivos para comentar teus sempre inteligentes poemas; igualmente belos são os dos teus confrades. Parabéns.
Conforme já disse para alguns, sou "brabo" em internet. Já me disseste como entrar no blog da ALC e como postar comentários. Hoje mesmo entrei no blog (http://academiadeletrasdecrateus.blogspot.com) e não consegui encontrar a maneira de postar no blog. Assim, resta-me apenas dizer que o dístico no pórtico da ALC: TEMPLO ECUMÊNICO para todos que adoram cultura e beleza (e os demais sintagmas que lhe seguem), já se constituem belíssimos poemas.
Lendo as poesias tuas e de teus confrades, revolta-me a constatação de não sermos, nós nordestinos, vistos, lidos e apreciados com o valor que temos. Lembro-me bem de, há muitos anos, ter lido um livro cujo título era: HOMEM ALGUM É UMA ILHA. Isso era um refrão de que o escritor, católico francês, se apropriou para falar de religião e outros temas. Por que, na literatura, somos ilhas? Por questão midiática? Preconceito? No Sul-maravilha os escritores e poetas são mais inspirados? Mas perdoemos os sulistas, porque os intelectuais de nossas capitais ou cidades maiores do interrior, também têm suas "cismas" com aqueles que vivem no que consideram "Grotões". Será que alguém em Fortaleza é mais inspirado e escreve melhor que Isis ou Cândido, e outros mais da ALC?
Vocês são dignos de figurar em qualquer antologia do país. Eu também já amarguei este tipo de preconceito. Herculano Morais, membro da Acad. P. de Letras, em carta que me dirigiu em fev/96, sobre meu livro PENSÃO CASSILDA (Familiar), que por sinal estará sendo postado em meu blog brevemente, diz textualmente: "Na própria Academia Piauiense de Letras você aponta quatro ou cinco que têm hábito de ler. Desses, menos da metade gosta dos autorers piauienses. Preferem os "best-sellers" anunciados pela mídia nacional.
Perdoe o desabafo.
Abraço a você e aos demais confrade desse belo Templo literário
João Bosco.
.
João Bosco disse...
Prezada Isis,boa noite.Finalmente consegui acessar o blog. Doravante vou fazer bastante uso. Saudações
João Bosco
Nota: Sim, muito obrigado pela postagem.
Domingo, 13 Fevereiro, 2011
sábado, 12 de fevereiro de 2011
CONTRADIÇÕES (Isis Celiane)
Não serei um poeta fanático a fenecer de paixão,
tampouco um trovador triste a chorar seus versos.
Meu canto não será sofrido, minha dor não será infinita.
Não. Não morrerei de amor!
Se dele me restar ainda amarguras,
que sejam somente agruras
e passem velozes feito o vento.
Que não me reste qualquer pensamento.
E se existir ainda a saudade,
que não seja nostálgica a lembrança.
Ainda que exista um fio de esperança,
seja espera alegre e não sofrida.
Que não haja dor se houver partida.
Não morrerei de amor!
Não cobrirei as flores com o véu de minha tristeza,
não ignorarei a lua como se não fosse mais poeta,
não perderei o pôr-do-sol como se ele agora
houvesse perdido o encanto.
Seguirei a lógica incoerente do coração:
Não morrerei de amor!
Mas quero morrer de tanto amar
Este amor sem media e sem razão
que um dia longe fui achar.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Nem necessita, ele se diz.
Fragrante desde a aurora,
espirituoso e intenso,
ouro negro de luxuria e nobreza
apetitosamente ativo na xícara.
Meu olfato, cão de caça, fareja
bem antes do vapor de ébano subir.
Suavidade líquida, sólido deleite,
esplendor dos deuses.
Sugo, sôfrego, mais um cafezinho
e saio absorto, embevecido!
Raimundo Candido
WWW.raimundinho.hpg.com.br




