quinta-feira, 3 de março de 2011






A dádiva do Poti
...................... A Secular Crateús.

Este habitat, árido atributo é uma dádiva do rio
que jorra despido, amorosamente paterno,
tanto viril quanto oferecido
mas distraidamente intermitente.
Sobressaltado cabrito selvagem, flama aquosa
em voluptuosa profanação dos veios secretos,
nas entranhas sagradas da terra pelo seminal
líquido vital em ejaculação plasmática.
Célula fecunda, a cidade se dar terna e plena
no ventre farto da rijeza terrestre
e se expele do leito à margem,
como flor silvícola gerada de água e luz
tateando um úbere que a faça medrar.
Cândidos, de epiderme incandescente,
no ermo bravio que em mim ainda fervilha
como memória de extintos guerreiros,
os gloriosos karatis que ululavam por aqui,
com um intenso canto em danças de rogação
à caça e à pesca, nas margens pedregosas do rio
que se encobria em arremessada fuga, feito carcará
pela mata a dentro, como flecha rápida e sinuosa.
Neste inculto agreste um inexplicável fenômeno,
em decorrência do rio, um avivamento miraculoso,
na tosca mata branca de marmeleiro e mufumbos,
desta caatinga povoada por criaturas esquálidas,
o habilidoso pincel foi tingindo um quadro citadino
suficientemente bucólico pelo aroma dos currais,
espargindo o mungir do gado ao nascer do sol
e o aboio plangente que vem de um rústico gibão.
Contra as evidências de impassíveis estiagens
que assolavam, extirpavam, aniquilavam o que nem existia,
o sertanejo levantou-se como um audaz Hercules,
um heróico Quixote de La Mancha e pegou sua cuia d’água,
exibiu sua nobre enxada como fuzil de guerra
e ecoou sua imensa coragem no intrépido peito,
ao contemplar uma barra de chumbo visível ao céu,
dando existência a algo inimaginável: vida no sertão.
E foi deitando corpo, uma aldeia, uma vila, um povoado
de intensidade rústica, espírito indomável como seu rio,
mas o coração na imensidade de um horizonte.
Uma eminente capela guardava as coisas sagradas
com seus mandacarus padecente a render sentinela,
atordoados na hora escaldante. Hoje o suplício
é oficio de um crucifixo que se espreita na face da matriz,
com um ar sagrado velando as corredeiras que dançam,
por entre as serras vogando com ímpeto ao mar.
Ao se povoar em torno de uma imagem santa
a cidade exubera zelosa, como uma mulher virtuosa
que traja véus para invocar as bem-aventuranças ao lar
e suplicar clemências nas procissões de São José,
aleitando as robustas crias que brotam copiosas,
pelas esquinas onde parteiras para todos não há.
É um só ímpeto a urbe que se expande como se espicha
um couro curtido nos curtumes, espalhados pela beira do rio.
Paralelo a curva do velho Poti, avança a linha férrea.
Um formigueiro incansável firma os dormentes,
assenta os trilhos ao chão rumo a um sem fim,
como num tapete retalhado a ferro e fogo,
conduzindo condições de um haver fôlego por aqui .
O trem de ferro abre uma trilha sem porteira,
com seu dilatado apito cortando os ares, numa gargalhada
fina proferida por um meteórico rastro de fumaça
que desenha num trajeto aéreo e acetinado de uma nova lida.
O comércio é um rebuliço irrequieto de rude gente
que não sabe se vai ou se vem, mas mantém sua graça
de cidade que cresce e se mostra formosa e faceira.
E tudo se ameniza com o perfume de terra molhada,
que incita um faro comprido a farejar colheita e fartura.
O lavrador já arou, sente-se feliz, cheio de promessas,
esquecendo a penúria da seca recente que o vergou.
Condutor de benesses, mensageiro de vida,
do Poti sempre jorrou o nosso riso e o nosso sangue,
mas que de vez em quando conduz um fraco arroio, infecundo,
transcorrendo no lugar do grande e paternal rio,
um fio vertido em lamacento choro, num canto penoso
pelas circunstâncias corrompidas que lhe impõem.
Um dia desses, algum encantado do rio,
a mãe d’água feroz, apavorante iara guerreira
que entrança as linhas do tempo em devaneio,
nos anfiteatros pétreos a vigiar as cidades ribeirinhas,
subirá pelas corredeiras de revolta em punho
e com voz de trovão, caminhará pelas ruelas e becos,
tomando satisfação por este descaso e desleixo,
já que por aqui outro bastião, para nos ajudar, não há .
Indagará pelos filhos ingratos, os desalmados políticos
que só se saciam de um vil metal e daqui se vão
deleitar em outras pastagens, não tão agrestes,
esquecidos, sem se inquietar por nosso destino,
filhos ingratos, como vil raposas que são.
Mas a água do Poti é um fio de seda,
no vigor de um aço que prende em laço
afetuoso e sincero, numa proteção cordialmente aquosa,
o ensejo de quem o bebe e não mais esquece.
Aqui é o lugar em que a coragem brota do áspero chão,
onde bravura é sobrenome de um intrépido cidadão
que o leva marcado no peito, junto a designação
a de ser crateuense por índole, ou por amor ou por vocação.

Raimundo Candido
www.raimundinho.hpg.com.br

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011



Prezado Raimundo, acabei de ler seu texto sobre o Bandeira. É bom quebrar o jejum com uma iguaria desta. Parabéns. A propósito, outro dia, de brincadeira, rascunhei a paródia abaixo, no espírito gozador de Oswald de Andrade. E o meu amigo Claudio Parreira, do site de Literatura O Bule (conheces?) me disse que eu estava dessacralizando um cânone da nossa poesia que adorava dessacralizar seus antecessores.

Pasárgada, a Outra, primeira mão para voce dar uma apreciada.

Vou me embora de Pasárgada
A República triunfou
As mulheres não me querem
A minha cama quebrou.

Vou-me embora de Pasárgada
Escaparei por um triz
Da turba que não me atura
Caio fora, sigo em frente
Que Joana, safada, me estranha
Diz que me ama mas mente.
Já empregou seus parentes
Chance que eu jamais tive.

Na fuga farei um cooper
Roubarei uma bicicleta
Não mais burro nem mais brabo
Liso como pau-de-sebo
Tomarei banhos de gato
E quando estiver bem longe
Em São Paulo ou no Rio
Bebo, viro um pau-d'água
E dano a contar histórias
Que no tempo das vacas-gordas
Eu costumava inventar.

Vou-me embora de Pasárgada
Em Pasárgada não tem nada
Fim de civilização
Tenho um processo nas costas
Movido por Conceição
Meu celular não funciona
A Lei Seca me esturrica
As putas beijam na boca
Tenho pena de quem fica.

Um abraço de Tamanduá
Chico Pascoal
Crateuense de Ibiapaba, residindo em São Paulo
escritor/leitor. um aprendiz da arte de contar estórias.
postao por: Raimundo Candido

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Um dos três contos inéditos de Luciano Bonfim no www.patriciatenorio.com.br

APESAR DA INSENSATEZ DOS CÃES QUE LADRAM NA RUA


Há vida no lixo que se acumula nas velhas sacolas de supermercado. Com amplo domínio da casa, as formigas, em disputa desleal com as baratas, inventam trilhas sobre os copos – agora livres dos enganos passados e habituais prisioneiros da desordem da pia. A imagem vinda da tela da TV se assemelha a cor do céu da manhã que talvez não me veja. As roupas no varal, apesar da insensatez dos cães que ladram na rua, dormem tranquilas, mimadas pelo vento da noite; e o meu corpo, vazio de roupas e significados, permanece à procura de um espírito…

LUCIANO BONFIM [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam – Contos[2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético[1992] s e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia ; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado[2002] e As Mulheres Cegas[2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências[2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA[desde 1996]; Mestre em Educação Brasileira[FACED-UFC/2008]; selecionado pelo programa Bolsa Funarte de Criação Literária/2010 – FUNARTE/MinC.
e-mail: luciano.bonfim@yahoo.com.br
Postado por: Raimundo Candido



chico pascoal disse...
O Luciano cada vez mais me surpreende com sua prosa. Onde há textos desse moço de Crateús, lá estou eu a apreciá-los.um abraçoChico Pascoal
Segunda-feira, 28 Fevereiro, 2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

DOIS MUNDOS (Isis Celiane)

Menino pobre perdido no mundo,
correndo no tempo contra o relógio dos dias.
Querendo viver além das horas dormidas,
além daquelas sofridas em que todo esforço dedica.
- “O trabalho dignifica o homem”
e esgota-lhe a vida.

Menino rico conhecendo o mundo,
abraçando as horas: generosas, amigas...
Aquelas dormidas, sossego da mente.
Raramente cansado, pouco é o esforço do dia
- O poder enobrece o homem
e guarnece-lhe a vida.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O NARIZ DA ESFINGE RESPIRA

Rogerlando Gomes Cavalcante

As areias do deserto sopram teu nome, Rosni,
à eternidade mais absoluta - a do esquecimento.

Obscuridade a que resistem as múmias sucumbem
tiranias - atropelados pelos acontecimentos
obtusos despertam, tardiamente, despertam
surpreendidos, estupefatos, às mudanças que se dão
primeiro, miudamente, micro, depois gigantes maiores que pirâmides
e morte. E oferto o que ofertam: o coração
pulsa entre braços e atinge sonhos que a um dar de mãos
partem correntes - Partam também doutrinas, que
se Deus fAla
sua língua não troa audível a quem não se sabe ouvir:
Alá não é islâmico como Deus não é cristão:
o que não cala
o homem é que é divino
– ser infiel e/ou ateu não é inexistir.
Quem exige sectário é que quer elidir, quem não aceita desertor
também e com mais fervor - Sendo que o que livra é amor.
Livra para além de adorações e dogmas e das orações políticas,
inclusive as que façam o lívido Alá corar. Livre, comemorais a críticas.
Críticas libertam e mantêm livre do que elimina:
sangue servido - e/ou sorvido - em latrina
só pode ser humano que Deus não sangra, Alá não sacrifica e morte não doutrina.
Opressão não doutrina. Morte, opressão, demência - terror
Tortura, humilhação: mas decepar orelhas não ensurdece,
aguça a audição do mundo aos obtusos que nos estarrece.
E se adoradores de cadáveres também decepam narizes
a vislumbrarem como bela a horrenda face da morte
- carnais cadavéricas fossas nasais -,
os façamos felizes: cortemos seus narizes
de pinóquios e cera de suas caras de madeira.

Talvez por isso se proíba afigurar o humano:
se Deus não é gente
Alá se desfigura em quem o anuncie e represente.

Que amanhã - com ou sem islã -
O único nariz que falte seja aquele que já falta
A esfinge de Gizé que, porque estátua, não faz falta.
E se cortam narizes na intenção de sufocar
independência é ar - respire e a obterás
como a si mesmo, o ser livre civiliza
a cada vez que sonha, luta - realiza,
ande por Novo York, cate lixo em São Paulo,
puxe carroça na India, fabrique brinquedo na China...
Liberdade, me instauro por tua via
a cada consciência que iluminas:
independência, respira-a e ela te pronuncia.

E que as areias dos desertos e os mares varram
Do Egito - de toda a África, do Oriente -, do Mundo Inteiro
tudo que imaterial, mas que nos barra
ao ir navegar, sem velas, o veleiro
que se define pelo que porta aberto:
a humanidade falha enquanto houver alguém a ser liberto.
Territórios, se limitam etnos
Não delimitam contornos humanos
- O universo é meu limite
que, farto, transponho, pois que habito
o infinito
onde tudo se eterniza:
o silêncio se hiberna grito
em que o humano se divisa
ir livre ao esmo de ser prisioneiro apenas de si mesmo:
sê do mundo inteiro.

O mundo se desencadeia
na gente - A gente em cadeia
conec.ta.da.mente se liga
se do que mina se desliga.

Interno e universalizo
o que é da gente e à revelia dos desumanos, humanizo:
minha mensagem não precisa de mecanismo para ser entendida
ou cifrada ou transmitida,
que a mensagem não é minha, sentida
por qualquer um, dá em vida.
Vida além das areias, além da águas, além da lama
natural ou humana. E se liberdade é tudo que o infinito reclama,
sede e habita
a tua liberdade infinita
que o infinito, desde sempre, ó finitos, nos habita
e nos habilita
a vencer o que limita.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Beatriz : o nome da alegria

Quem carrega no nome a alegria
sendo chamada de Bia...
passa a rejeitar na vida toda forma de tristeza
Dizendo Não (!!!) a mesmice
Dizendo Não (!!!) a chatice
deixar de rirr é uma tolice.


Ora, melhor é enfeitar o mundo com a pintura de um belo rosto
sorrir sem muito esforço
animar a festa da vida
Dançar Funk com a graça de uma bailarina

O mundo é festa
Beatriz a que nos traz alegria
Quem é Hanna carrega consigo a graça, tanta beleza!
Charme com harmonia...
assim ficamos com saudade da menina moça que partiu ( Tão cedo)
pra faze a festa no céu.

Tia Nêga

Essa é uma homenagem para nossa Hanna Beatriz que partiu tão cedo de nosso convivio. Em nome de toda família Martins Feitosa

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

EDITAL DE CONVOCAÇÃO

Pelo presente Edital, ficam os membros efetivos da Academia de Letras de Crateús - ALC - convocados para Assembléia Geral Extraordinária, que se realizará no dia 19 de fevereiro de 2011, às 16:30h, em sua Sede, à Rua do Instituto Santa Inês, 231 - Centro, para tratar e deliberar sobre a seguinte pauta: 1) Avaliação das atividades de 2010; 2) planejamento de ações para 2011; 3) encaminhamentos acerca da 1° coletânea da ALC; 4) ingresso de novos membros; 5) Centenário da Cidade de Crateús; 6) outros assuntos do interesse da Arcádia.


Crateús, 14 de fevereiro de 2011


ANTONIO ELIAS DE FRANÇA

Presidente

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Re: FW: Contradições

João Bosco da Silva
Enviada: domingo, 13 de fevereiro de 2011.
Para: Isis Celiane

Prezada Isis Celiane,
novamente bom dia!

Faltam-me adjetivos para comentar teus sempre inteligentes poemas; igualmente belos são os dos teus confrades. Parabéns.
Conforme já disse para alguns, sou "brabo" em internet. Já me disseste como entrar no blog da ALC e como postar comentários. Hoje mesmo entrei no blog (http://academiadeletrasdecrateus.blogspot.com) e não consegui encontrar a maneira de postar no blog. Assim, resta-me apenas dizer que o dístico no pórtico da ALC: TEMPLO ECUMÊNICO para todos que adoram cultura e beleza (e os demais sintagmas que lhe seguem), já se constituem belíssimos poemas.
Lendo as poesias tuas e de teus confrades, revolta-me a constatação de não sermos, nós nordestinos, vistos, lidos e apreciados com o valor que temos. Lembro-me bem de, há muitos anos, ter lido um livro cujo título era: HOMEM ALGUM É UMA ILHA. Isso era um refrão de que o escritor, católico francês, se apropriou para falar de religião e outros temas. Por que, na literatura, somos ilhas? Por questão midiática? Preconceito? No Sul-maravilha os escritores e poetas são mais inspirados? Mas perdoemos os sulistas, porque os intelectuais de nossas capitais ou cidades maiores do interrior, também têm suas "cismas" com aqueles que vivem no que consideram "Grotões". Será que alguém em Fortaleza é mais inspirado e escreve melhor que Isis ou Cândido, e outros mais da ALC?
Vocês são dignos de figurar em qualquer antologia do país. Eu também já amarguei este tipo de preconceito. Herculano Morais, membro da Acad. P. de Letras, em carta que me dirigiu em fev/96, sobre meu livro PENSÃO CASSILDA (Familiar), que por sinal estará sendo postado em meu blog brevemente, diz textualmente: "Na própria Academia Piauiense de Letras você aponta quatro ou cinco que têm hábito de ler. Desses, menos da metade gosta dos autorers piauienses. Preferem os "best-sellers" anunciados pela mídia nacional.
Perdoe o desabafo.
Abraço a você e aos demais confrade desse belo Templo literário
João Bosco.
.


João Bosco disse...
Prezada Isis,boa noite.Finalmente consegui acessar o blog. Doravante vou fazer bastante uso. Saudações
João Bosco
Nota: Sim, muito obrigado pela postagem.
Domingo, 13 Fevereiro, 2011

sábado, 12 de fevereiro de 2011

CONTRADIÇÕES (Isis Celiane)

Definitivamente: não morrerei de amor!
Não serei um poeta fanático a fenecer de paixão,
tampouco um trovador triste a chorar seus versos.
Meu canto não será sofrido, minha dor não será infinita.

Não. Não morrerei de amor!
Se dele me restar ainda amarguras,
que sejam somente agruras
e passem velozes feito o vento.
Que não me reste qualquer pensamento.

E se existir ainda a saudade,
que não seja nostálgica a lembrança.
Ainda que exista um fio de esperança,
seja espera alegre e não sofrida.
Que não haja dor se houver partida.

Não morrerei de amor!
Não cobrirei as flores com o véu de minha tristeza,
não ignorarei a lua como se não fosse mais poeta,
não perderei o pôr-do-sol como se ele agora
houvesse perdido o encanto.

Seguirei a lógica incoerente do coração:
Não morrerei de amor!
Mas quero morrer de tanto amar
Este amor sem media e sem razão
que um dia longe fui achar.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Cafezinho
.
Perninaz na espreita, ouço:
- O café está pronto!
Nem necessita, ele se diz.
Fragrante desde a aurora,
espirituoso e intenso,
ouro negro de luxuria e nobreza
apetitosamente ativo na xícara.
Meu olfato, cão de caça, fareja
bem antes do vapor de ébano subir.
Suavidade líquida, sólido deleite,
esplendor dos deuses.
Sugo, sôfrego, mais um cafezinho
e saio absorto, embevecido!

Raimundo Candido
WWW.raimundinho.hpg.com.br

sábado, 29 de janeiro de 2011

ILUSÃO (Elias de França)

Qual (ilusão) te leva ao engano?
Qual a que te faz insano?
Qual a ilusão matriz?
Qual a que te faz feliz?
Qual a ilusão do ano?
(Erasmo Roseno - Erasmito)
.
.
.
Disseram-me um dia – acreditei -
que os sonhos levam à vida nova
e pus-me tempo-a-diante
fiando linhas azuis
polindo bilros de cedro
batendo estacas no tabuleiro
tecendo e enchendo meus baús de planos
suei o peso constante de malas mil
por, de repente, um limiar
subi, desci
descansei nos braços da morena da ocasião
doei horizontes aos despojados
adornei de flores os caminhos
arranquei pedras, amaciei trilhas
amoleci e endureci...

Fim de estrada:
não há mais linha nem vontade...
nenhum limiar
nem ao menos uma aurora cor-de-rosa
os caminhos continuam
de pedras e passos
a vida segue em passos
... passa
passo
sem chegar à vida sonhada
mas, olhando para trás:
minha vida foi “um sonho!”

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

QUANDO CHEGA A VELHICE (Isis Celiane)


Aquela voz que outrora gritava
e esbravejava por seus ideais,
agora enfraquecida quase não fala,
quando raramente não cala,
diz manso, diz baixinho.

O corpo sempre apoiado,
não arrisca um passo sem seu bastão,
aquele bordão que lhe sustenta a matéria cansada,
servindo de apoio a velha mão calejada.
Marca que o trabalho lhe deixou de herança.

Mãos trêmulas tentando equilibrar o copo.
É difícil andar, falar e comer...
Viver é difícil quando se chega à velhice.
Na mente cansada, sinais de caduquice.
Permanecem intactas as boas memórias.

A vida se esgota!
Todos os sonhos estão esgotados,
encerrados nas conquistas e nas frustrações.
Exaurem-se os desejos e as ilusões.
O velho deseja apenas descansar.

Quando se chega à velhice
nada mais parece lhe pertencer.
É comum ouvir dizer: “no meu tempo...”
Como se o tempo da gente durasse apenas o instante
em que se é jovem.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A exposição.....................................................................................................................As horas que eu passava no quintal eram de treino para a poesia.
..................................................................................Manuel Bandeira.

Seu primo conta-lhe a novidade. Atentamente ele ouve, estranhando, porque nasceu crescendo em apartamento de passos medidos. Desde então a curiosidade borbulhante insulta-lhe viagem.
Interior.
A pequena cidade é construída de ruas mansas, sorrisos fáceis, simplicidades abundantes, natureza ativa, rio corrente, pássaros emoldurando as casas niveladas. Ambiente de caráter.
O primo detalha cada centímetro da área feita de liberdade. Universo de aventuras.
Sua alma, ganhando movimentos inéditos, corre espaços como o vento, o sol.
Seu olhar, desviando-se de um plano a outro, se amplifica como os puros sons do sino anunciando missa.
Sua maturidade de concreto sensibiliza-se insolitamente.
Ele se sente outro. Outro completo.
E fotografa.
Fotografa minuciosamente como quem eterniza uma relíquia volátil.
No final de semana ele convida os amigos dos apartamentos de passos medidos para a exposição fotográfica dos quintais, que os concretos do crescimento urbano aterraram.
(João Silas Falcão Soares)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

... e todo o resto!

Van Gogh - Stary Night

Havia algo
adoçando as noites de insônia
e lembranças de belas namoradas.
Havia alma,
e mais oxigênio na brisa matutina.
Eu pensava versos,
gemia cantigas
e enxergava com o coração...

Algo se perdeu no emaranhado de sonhos e tentativas,
levado pelo vento errante
com a poeira dos chinelos, ao caminhar.
Algo desbotou na retina embotada...
Gastou-se junto às botas...

O coração ficou cego:
não me deixa ver graça em viver.
O coração está surdo:
só ouço esvaírem-se os encantos
das melodias mundanas...
Salta, coração aleijado,
enquanto a vida corre
para lugar nenhum...

O tempo passa...
leva o doce
ficam as noites de insônia;
leva as namoradas,
ficam as lembranças tenras;
leva a alma,
fica o corpo cansado
implorando a piedade eterna;
leva a inspiração,
fica a brisa matutina
cada vez mais poluída;
leva o verso,
fica o pensamento repleto de remorsos;
leva as cantigas,
fica o gemido;
leva o coração,
ficam as pontes de safena...

O homem passa...
leva sua ganância,
fica sua fortuna;
leva sua esperança,
ficam as marcas dos seus atos;
leva sua arrogância,
fica o desprezo pelo seu ódio;
leva sua bondade,
fica a saudade;
leva suas derrotas,
ficam as chacotas;
leva suas utopias,
leva suas vitórias,
leva suas alegrias... suas agonias,
fica a história...
.
(Elias de França - do livro "cantigas do oco do mundo - poesia. Ed. independente, Fortaleza, 2002.)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

SLIDES

Rogerlando


Miríade de borboletas amarelam o ar e o dia.
Na América o medo inibe voos e susta e mata
- Já é de penas e escamas os olhos da gélida estátua que vigia Manhattan.
Labaredas vermelhas de um titânico dragão localizado na Ásia sorve o ar e oxigena
o que somente existe cifrado: no câmbio o âmbito do mundo não vale o sopro de um esfolado.
E não tendo sido escrito o poema proibido de ser dito se recita silêncio.
Lio-o abertamente na mente daqueles que, feito eu, querem ir e vir e
respirar, sem grades, o mundo.
Despossuídos de liberdade são liberados a proverem-se de mercado e trabalho
se de inanição morrem as ilhidiotologias que previram animalizar humanos
servando com gente populações de cadáveres.
O mundo transita.
Não sou indício de nada se indico por satélite o oceao Índico
ou à distância identifico sentimentos que aproxima
amor e ódio e ânsias de morte e de matar: tudo na gente rima.
Gramáticos nem bem a revisam a língua cobra trocar
a pele da escrita ao soar das mutações: quando ao ser fala, dita.
Milhões de faróis vagam nas ruas varando rumos aos seres sem luz
- Literatura não é luz, mesmo se luz do que somente se fita na escuridão:
A luz dissolve o ser e o devolve ao cerne, onde, falho, vejo-me pleno.
Um homem sozinho estarrece toda a civilização
exploda, cante ou nos force a dançar à alucinação de se ter por estrela - e pop.
Estelar, um poltro selvagem na Mongólia acaba de sumir
catalogado e devidamente arquivado em bytes.
Algo fez sumir minha sombra enquanto eu encandecia
- O contrito e o irrestrito não se cabe escrito.
O eu não é lírico, megalomaníaco quer-se épico e acaba por ser,
se insolente, feito eu, meramente poético e, se solene, cerimonialmente patético:
limado, estudado, rimado, classificável, concretizado - ou métrico.
Camaleão se confunde não altera - integra-se à miragem: interage.
Eco não mia, miam milhões de gatunos e nem são gatos
os ratos de Paços corroem maços de papel e moeda e a massa moral.
O Phallos venerado nas antigas civilizações, em bytes escandaliza
mas não é mais porno do que outros elementos sagrados que também se comercializa.
A burca desnuda o regime que se ocultA lá de quatro
em Teerã de bunda de fora oram Aiatolás.
O que se torna alegoria de um tempo transcende.
Transpareço por onitorrinco se, brasil, transpiro o continente nordestino.
Na Austrália me estranham por marsupial americano, lá sou um gambá.
No Pantanal o poeta João de Barros fila a língua
untada de matas bichos insetos e se se farta de etimologia e água
cria sapos gramáticos que, enfáticos, saltam classes e originam palavras por girinos e grilos.
No matagal da língua a vida está sempre se a.bolindo.
Se engole o que a devora devolve ao agora o que o ser siga engolindo.
A raquítica criança hatiana que me aparece sorrindo
premiou o fotográfo e a galeria numa expor em Paris.
Prêmio de crítica e público - gente sensível à arte fácil se humaniza
se a vida se esgarça e radicaliza.
A realidade não rivaliza, ridiculariza.
Não há poesia, na miséria há a frágil e brutal humanidade
crua e brutalmente exposta - e a gente gosta
e expeciona o ambiente e se pressente a presa ao prêmio se abandona.
Isso não é um poema, galeria de cada imagem que se desdobra em infinitos links
e a minha revelia aleatórias alegorias camuflam o que confabulam.
Um nativo da Sibéria se veste de pele felpuda e branca contra a neve
para que não falte foca ao abate em Quebec e pelos aos animais das passarelas.
Etnográfos registram populações indiginas que não existem indiginas
- O humano não cabe senão humano mesmo se humano não se sabe.
Há ursos, não há abutres polares nem no mundo de Alice
mas ante certos homens um arrepio me alerta sobre carniceiros frios.
Um nome proferido em todos os idiomas busca um único ser a ser banido.

Suspendo este escrito que o mundo se precipita ainda mais infinito ao esgarçar-se grito.
Cesso o escrito, não de me abandonar ao que fito.

Grito, precipito-me ao infinito.


Sobre o poeta
Um homem de várias facetas. Isso se pode falar, sem medo de errar, de ROGERLANDO GOMES CAVALCANTE. Todas elas voltadas para a produção artística . Com efeito, é na charge, no cordel e na combinação criada por ele dos dois (convenientemente denominada charge/cordel) que Rogerlando acentua mais o espírito criativo e crítico. Mas também há espaço para o desenho, para o ensaio, para a música e até para as histórias em quadrinhos nessa salada. Não por acaso, ele é um dos compositores do hino de sua cidade, Independência, localizada no Vale de Crateús, a 310 quilômetro de Fortaleza. (...) Thiago Barros –especial para O POVO. VISITE O BLOG DO PEQUENO: http://www.rogerlando.com/CHÃO INAUGURAL -2009, obra de estreia. O próximo livro, A MÁQUINA DO MUNDO, está no prelo.
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.
Elias de França disse...
Decerto, poeta Rogerlando, um grande poema. Grande apesar de extremamente enxuto, conciso, objetivo, nu e cru. Um poema, sim, mesmo sem pretendê-lo, afinal, "Não há poesia, na miséria há a frágil e brutal humanidade crua e brutalmente exposta - e a gente gosta". Concordando, eu diria que, de fato, não há poesia em nenhum recanto desse contexto global, tria das 5 agencias que nos vendem caro o que querem que creiamos ser em manchetes o mundo, verdade ou não. Há sim, alem da brutalidade exposta, os olhos do poeta, que, como na foto, se lançam no infinito, cósmico ou virtual, atirado, precipitado, tresloucado, como um grito lançado desses nossos fins de mundo – Caratis/pelo Sinal (que embora fim, fazem parte, mas em nada influenciam no resto... ou o resto é aqui?) - como quem exprime um desabafo para nada e ninguém. E em tempos onde se leem bem menos coisas inteligentes - enquanto a preguiça, a falta de sentidos e inteligência nos amordaça e nos faz surdos-mudos – e se preferem viver mergulhados num “paiol de bobagens”, surge o olhar poético (ou a visão), corajosamente convertendo a avalanche de catástrofes ou futilidades em bons e teimosos versos prosaicos. Há os que veneram os Deuses, outros os ídolos, outros os sábios, gênios, ricos... Eu, cá de minha pequenez, saúdo a teimosia... de fazer sei lá o que! Do jeito que todos desaconselham. Parabéns por insistir com a poesia, fora ou em moda, grande ou pequena, confusa ou compreensível.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

MINHA TERRA QUERIDA (Isis Celiane)


Tanto tempo sem ver meu povo
O solo que me serviu de berço quando nasci
Terra de sol escaldante e brava gente
Lugar nenhum é como o meu Piauí

Eu aqui com minha saudade
Revirando fotos na lembrança
Recordando os rostos, as ruas e as vozes
Sofrendo até onde a memória alcança

Novamente em solo nordestinho
Longe, porém, da terra querida
Que deixei ainda infante
Terra distante, jamais esquecida

Cada vez que visito minha gente
Trago na bagagem tanta saudade
Tantas lembranças dos dias bons
Que saudade da minha cidade!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Re: FW: VELHOS TEMPOS DO FUTURO‏

Maria do Socorro Camelo maciel
Enviada: quinta-feira, 6 de janeiro de 2011 2:56:16
Para: Elias de França
.
Caro amigo, que lindo!!
Obrigada por presentear-nos com a beleza da poesia que a crueza da vida insiste em ofuscar. É emocionante perceber que a arte mesmo "envelhecida (...), um pouco mais gordinha, menos poética, mais crônica..." não se rende à aparente obviedade humana e arranca do quase impossível a graça da vida. Obrigada pela crença, pela insistência no resgate do humano. É o maior presente que nos pode oferecer.

Maria Antonia Sindiuva disse...
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011 14:42:51
Obrigada professor, por me incluir em sua conrrente de velhos e novos amigos!Não lhe conheço pessoalmente, mas sei pelo que já disse, diz e dirá em outros textos e versos,sei que me sentiria uma criatura melhor, visto que em muitos dias de sol ou de chuva, duvido da criação divina.Contudo, quando conheço pessoas novas ou velhas, mas que sabem usar as palavrasnão para agredir ferir maltratar, furtar, mas para fazê-las carinho, atenção, amizade, poesia,e reinventar a vida, sem dúvida, sinto a criação divina presente...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CRATEÚS DA MANHÃ SEGUINTE (Lourival Veras)


minha boca esse apelo
sua pele outros pêlos
corpo de novo sê-lo
outra vida janeiro

e não me venham com essa
de quando fevereiro chegar...
saudade já me mata agora
no instante mesmo em que miro a porta
que me leva a lugar nenhum em que você está

sobretudo agora
o fosco baço leitoso neblina poeira
sobre a estrada da manhã seguinte

o futuro é um agente
da
scotlad yard...
aqui a gente só ouve falar
.
.
Elias de França disse...
Que bom poder voltar a lê-lo, Sê-lo novo, ou de novo, e com versos tão singelos, como a propria vida, e ao mesmo tempo tão profundos, capazes de nos medir quão distante é Crateús da velha Londres da nova scotlad yard; o agora janeiro nasciturno do carnaval que não se consegue mais pôr como uma promessa; quão distante, enfim, o tempo ideado nos nossos sonhos do futuro decidido além sertões, no centro do mundo, que, por certo, nunca foi aqui.
4 de janeiro de 2011 10:52
Isis Celiane disse...
Que bom ter Lourival Veras no blog, assim posso conhecer melhor suas criações, que de início já me agrada muito. Continue postando e encantando nossos olhares com tão belos versos.
Terça-feira, 04 Janeiro, 2011
Raimundo Candido disse...
Garimpa-se bem pouca coisa boa nestas eras de insensatez, de aflição, de sonho desfeito.Há exceção, é a veia repleta que há num sujeito que passa agora com seu laurel: LOURIVAL VERAS!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

VIRADA (Isis Celiane)


No último dia do ano
Crepúsculo triste anunciando alvorada
Nas ruas a juventude vibrando
Esperando, cheia de vida, a hora da virada

O velho ano de bagagens prontas
Carregadas de recordações, quase indo embora
Deixando sonhos, conquistas e desilusões
Que serão amanhã miragens em nossa memória

E os poetas do tempo e da vida
Dizendo em versos o quanto ela é breve
“Vida louca, vida (...)
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve.”

Alguns carregando seus deveres
Lembrando a rapidez com que o tempo passa
“A vida é uns deveres que nós
Trouxemos para fazer em casa (...)”

“Quando se vê já são seis horas: há tempo (...)
Quando se vê passaram-se 60 anos” num segundo
E embora todo o dia ao acordar não tenha mais o tempo que passou
“(...) tenho muito tempo, temos todo tempo do mundo...”

Elias de França disse...
Que gostoso, Poeta Isis, essa costura de tão preciosos retalhos poeticos de tão grandes trovadores. De fato, falar de tempo é falar de vida. Porque, à otica humana, ambos estão bem imbricados. Li ha alguns meses, não me recordo de quem, a tese de que o tempo não passa; quem passa é a vida, o homem, seus fazeres terrenos. Assim, o lapso de uma volta da terra em torno do sol só tem significado para quem vive, breve vida, como nós mortais. Ainda assim vivemos a esquecer que somos tão pouco, ínfimos até, nessa imensidão de mistérios, codificados desde a célula à mais longínqua poeira do sem fim alem.

ANDARILHOS (Aldo Costa)

Eu e você estrada afora
Dois ciganos a vagar
Sem destino, como a brisa
Sem preguiça, como o mar

Os seu olhos têm o verde
Do milho, lá no roçado
Na boca, doce desejo
Do prazer e do pecado

O amor tem várias fases:
É verão e é inverno
É lucidez e loucura
Paraíso e inferno

Se te quero e te preciso
A vida inteira, só prá mim
Nessa estrada vou contigo
Caminhar até o fim

Estradas...ciganos
Andarilhos cansados
Amor ao relento
Corpos saciados.



Aproveitando este momento dos últimos de 2010,
Gostaria de abraçar a todos(as) amigos(as) acadêmicos(as),
desejando-lhes um novo ano cheio de muita paz, saúde, luz e
muita inspiração ao lado de todos aqueles que amam e prezam!
FELIZ 2011!
Aldo Costa

Isis Celiane disse...
Lindos versos, carregados da simplicidade que torna a poesia encantadora e apaixanante. Feliz ano novo para ti e para todos nós desta casa de versos chamada Academia de Letras de Crateús.
Sexta-feira, 31 Dezembro, 2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

VELHOS TEMPOS DO FUTURO (Elias de França)

Amanhece, e eu de novo à janela.
O céu continua azul;
o sol, deslumbrante, ilustra o nascente;
o mundo tem nova data marcada para acabar: 2012.

Passam os bêbados de volta da noitada,
patinando na lama dos esgotos da rua,
tropeçando em latas de cerveja, copos plásticos,
aspirando poeira, vômito, enxofre...
detritos do homem descartável
em festa de reveillon.
Ainda sobre a calçada,
toda a vizinhança em sacos de lixo
de um ontem tão distante...

Zé Porfírio ainda vive, servindo raro leite, na sua velha carrocinha -
mas já não lhe sou freguês:
hoje bebo pó sintético de cereal transgênico,
dada a intolerância à lactose;
o jegue Stalone não teve a mesma sorte: foi atropelado por um caminhão,
não sem antes ter matado minha muda de palmeira,
e em seu lugar plantei um pé de Nim Indiano.
Totó-da-Bodega faliu!
Aí se aposentou e mudou-se para a capital.
Agora passo o cartão no supermercado da cidade,
E sigo pendurando faturas aos fins dos meses...
A casa vizinha virou uma lan house, um cyber sem café, sei lá o que mais...
os sons sintetizados de supercarros de formula 1, nos games,
redundam em meus tímpanos...
Morro de saudades daquele cheiro de CO2 colorido de cinzas, que enevoava toda a rua – Não desse gás catalisado, incolor, insípido e inodoro,
que todos devoram sem tapar o nariz

e nos dilacera oculto os brônquios -
e do barulho cansado da velha Brasília vermelha,
há dez anos vendida no quilo para o ferro-velho...
A banda militar, ao longe, estranhamente,
ainda toca os velhos refrões,
ensaia as “antigas lições”,
de coturnos em teimosia com o asfalto,
enquanto jovens praças
rondam minha rua em modernas volantes.

Não há robô algum a recolher dejetos,
nem naus espaciais zanzando em meu beco.
Nem mesmo o carro-pipa que abastecia os baldes nos socorre,
pois se encontra no prego no quilômetro 15 da rodovia,
com o diferencial quebrado
e não se fabricam mais peças para sua manutenção...
Aí bebo água tônica comprada a preço de prata
e me banho no canal,
que um dia já foi um rio com nome indígena,
cuja pronúncia me foge à memória...

É 2011, como se fosse ontem...
um ontem tão distante
que insiste em não desaparecer,
com todos os seus resquícios
da “parte rudimentar” da história humana...

É 2011, igualzinho ao ontem,
o ontem tão distante
que não desapareceu,
com sua pobreza, seus males e fracassos...

É 2011, o mesmo que ontem,
que tanto mais mude, tanto mais cresça, tanto mais se modernize,
tão mais velho fica o ontem,
assim tão distante e tão presente.
E eu que tanto já ralhei, gritei, indignei...
continuo a ter amigdalite na garganta operada;
tempero de veneno o repolho, prevenindo a teníase;
respiro caltin para não morrer de dengue;
tomo resignado meus coquetéis de pílulas diários,
um para cada mal,
e vou ao templo todos os dias
louvar ao criador
pela graça de ver a aurora do novo ano,
que me nasce à minha imagem:
enrugado, esclerosado, demente, insano...



Raimundo Candido disse...
Acho que do lirismo de Cecília à poesia filosófica e trina de Pessoa neste poema há. Por sinal, acho que há é uma multidão de poetas que se reunirão na pena do profeta, digo vate Elias( dá no mesmo! ) para entusiasticamente louvar um ano que vai e outro que vem, assim na vida do Zé Porfírio ou de um jegue, que convenientemente tem o nome stalone, pelos velhos tempos do futuro antes que eles se acabem ( Espero que fique bom de sua amigdalite, bem antes! ) .Quinta-feira, 30 Dezembro, 2010

COELHO disse...
O Raimundo Candido acha que "Em Velhos Tempos do Futuro" há Cecília e há Pessoa...Discordo do Raimundo...Quem sou eu para discordar? Mas discordo assim mesmo... Neste poema só há o verbo dilacerante, às vezes impiedoso, deste artista de múltiplos talentos de quem tenho a honra de ser amigo...Salve, salve, grande Elias de França...Espero que nos encontremos antes que o mundo se acabe... Um grade abraço

Elias de França disse...
Muito obrigado Meu Caro Poeta, Raimundo Cândio, e meu caro parceiro de tantas lutas, Coelho. Embora num ensaio de opiniões contraditórias, ambos muito generosos para com este humilde aprendiz metido a poeta. Aprediz sim com os grandes, como Cecília e Pessoa, mas tambem aprediz, inclusive, com os amigos, como por exemplo: ao tempo em que o "natal era feito de belas palavras", "num arriscado balancete vivencial de verificação, nos versos do Raimundo, tirei a ideia de comprar a prazo e pendurar faturas para manter a vida no azul; e das tantas horas de dedicação aos debates e embates das lutas pro-humanidade, ter a coragem de contestar sempe que necessário, ainda que nos digam que é proibido, o que aprendi com o Coelho. Ter meus versos tortos comentados por tão brilhantes mentes, de um lado, o poeta e professor de ciencias exatas, do outro, grande humanista e mestre em economia (na economia util ao povo) é um grande privilégio e gratificante presente de ano novo!
Feliz tempo vindouros, velhos ou novos, vamos pra eles!
Grande Abraço!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

UM SARAU DE POESIA NO SERTÃO: SERÁ POSSÍVEL?



Por Elias de França



Um dia desses, um amigo me surpreendeu com uma informação inusitada: de que ouvira no rádio que eu seria homenageado num sarau em uma comunidade rural de um município vizinho.
A surpresa advinha de dois motivos: um deles, o gênero do evento: sarau, nome dado às rodas de declamação de poesia. Ao longo dos meus mais de 40 anos nesses Sertões, foi a primeira vez que me ocorreu saber de acontecimento desse tipo, pelo menos com amplitude publicada nos meios de comunicação locais. Na infância, era comum ouvir convite enterro, convite festa - no caso forrós, tocados por sanfoneiros da região, convite dança de São Gonçalo, reisados, cantorias de viola, festejos de santo padroeiro, novenas de Nossa Senhora de Fátima, vaquejadas, derrubadas de Judas... Mas nas últimas décadas, as alternativas de eventos se apresentam cada vez mais escassas, quase se resumindo às festas, agora tocadas por megabandas e anunciadas com meses de antecedência.
O outro motivo de estranheza era que eu não havia sido contactado a respeito, mistério esse que foi esclarecido dia seguinte, quando recebi em casa a diretora da Instituição promovente, Gracinha Ferro e o seu coordenador pedagógico, Francisco Antonio. De fato, tratava-se do I Sarau 2010, de realização da Escola de Ensino Fundamental 03 de dezembro, no Assentamento Vitória, na Zona Rural do Município de Ararendá, Região Centro-Oeste do Ceará.
No dia marcado, tomei a estrada, percorri algumas dezenas de quilômetros em asfalto, depois me embrenhei numa trilha estreita, de terreno arenoso, repleta de poças d’água, devido às chuvas da noite anterior, até avistar um caminho de luzes sequenciadas, que me permitiram concluir ser aquele o lugar. Estacionei junto ao muro da Escola, numa das poucas vagas restantes, dado o bom numero de picapes tipo pau-de-arara, microônibus, motos e bicicletas. Segui, enfim, entre boa gente que rondava a escola e ao adentrar o pátio do prédio está lá armado um palco, com estrutura de som montada, alem de uma passarela em forma de T, dessas onde se costumam realizar desfiles. A estrutura e o número de pessoas a prestigiar o acontecimento não deixava a desejar em relação às grandes festas realizadas nas comunidades.
Convidado a sentar em um bloco de cadeiras chamado pelos organizadores de “tribuna de honra”, juntamente com diversas autoridades municipais e regionais, pusemo-nos a contemplar o decorrer do evento. O mestre de cerimonial, vestido a caráter, passa então a anunciar as apresentações, já desde os cumprimentos iniciais, através de bem elaborado script, amplamente fundamentado, todo intercalado de citações de escritores, poetas e pensadores de todos os níveis e estilos. Os declamadores eram os próprios alunos da escola, desde a educação infantil até as séries finais. Todos, desde a menor criança até o mais adulto, demonstrando grande esforço, explicitado no cuidado de haverem memorizado todas as falas, inclusive, as informações biográficas dos autores escolhidos. As declamações dos poemas sempre eram precedidas das apresentações dos respectivos autores, enquanto uma criança desfilava a mostrar sua imagem física ampliada, traçada em grafite por retratista.
O verso soou noite a dentro por uma, duas horas, e nossas atenções ali a flechar aquele elevado. Não se viam abrimentos de boca, gestos de impaciência, ou esvaziamento de nenhum dos tantos sertanejos que ali se encontravam, a despeito de costumarem dormir e acordar cedo. Já pelas dez da noite, após o decurso da ultima apresentação, a palavra é facultada e me inscrevo. Pergunto-lhes que lugar seria aquele; digo que precisaria voltar ali, em um dia comum, para tentar sentir as dificuldades tantas que aquela gente deve ter, sejam necessidades de existência material, sejam demandas artístico-culturais, pois do contrario eu iria sair dali pensando que havia estado no paraíso da cidadania.
De meu trabalho, como um dos homenageados, o único presente em pessoa e um dos poucos ainda vivos, não tinha quase a dizer, posto que tanto já havia sido dito, boa parte pelo próprio fato. Ao fim, como se tamanha honra não bastasse, como se meu peito já não transbordasse, como se não estivéssemos repletos da poesia cantada por aqueles meninos e meninas, ainda ganhei minha caricatura de presente e tomei o caminho de volta, tecendo e desfiando reflexões.
Percorrendo aquelas trilhas, vou recobrando em mente o poder da educação, sua capacidade de produzir nos homens e mulheres, por eles mesmos, e por que não nas crianças, grandeza humana, intelectual e cultural; o poder do educador de fazer escolhas, conduzir pedagogicamente o processo de apropriação e interiorização dos domínios externos, distantes, abstratos, aparentemente inalcançáveis. Pois, quem haveria de imaginar que as letras de Cecília Meireles, Ruth Rocha, Eva Furnari, José Paulo Paes, Manoel Bandeira, Drummond, Vinícius... qual sementinhas trazidas de terras além viessem encontrar adubo no meio da Caatinga e vicejar em parelha com as nossas humildes invenções, com os nossos deuses sagrados como Patativa e Rachel de Queiroz?
E a passarela, não houve desfile? Houve sim. Foram eleitas as garotas poesia. Elas desfilaram com faixas contendo os nomes dos autores, aos efeitos sonoros de um DJ (Dijei, não sei se é assim que se escreve). Ao fim foram convidadas a responder por que ostentavam os nomes daqueles escritores, advertidas pelo mestre de cerimônia de que a beleza física é precária caso não se conjugue a beleza intelectual, cultural e espiritual.
Se aprendemos com Belchior, que “Nordeste é uma ficção, nordeste nunca houve” e que não somos “... do lugar dos esquecidos, da nação dos condenados, do sertão dos ofendidos”, Os meninos e meninas do Assentamento Vitoria bem que poderiam cantar com o mesmo autor “conheço o meu lugar” e por se desafiarem para dizerem que sabedores de sua sina de terra esquecida, tórrida e distante dos grandes centros urbanos, podem transformar a si próprios e a seu lugar num mundo melhor para se viver.





Teddy Williams disse...
Parabéns a todos por esse evento. Que outras comunidades realizem ações parecidas como essa e que possamos, juntos, criar uma Grande Ciranda Cultural divulgando atividades sócioculturais que acontecem nos sertões.Parabéns Elias de França, pelo texto e por sua vasta contribuição.Abraços!Teddy WilliamsCiranda das Coisas do Coração.
Quarta-feira, 29 Dezembro, 2010

Meh'ssias disse...
Realmente... um importante evento! PARABÉNS A TOD@S QUE ORGANIZARAM. Muito bom saber que existem lugares e comunidades que organizam prestigiam um evento como esse! PARABÉNS ELIAS! PARABÉNS Á ESCOLA QUE PROMOVEU ESTA ATIVIDADE!!!
Quinta-feira, 30 Dezembro, 2010

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

AO POETA JOÃO BOSCO,

Meu Caro Poeta João Bosco,

Muito prazer em contatá-lo!

Gostaria de agradecer pelos acessos ao nosso blog, pelas boas impressões manifestadas e pela reflexão acerca da questão das Academias de Letras.

Sobre esse ultimo tema, trata-se de um assunto que tem motivado grandes debates e dividido largos segmentos da sociedade e até a classe dos escritores. Divide, inclusive, a nós aqui de Crateús: alguns bons cultores de letras de nossa terra, que possuem todos os méritos e talentos para compor conosco esta Arcádia, não o estão em face de possuírem restrições de princípios em relação às estruturas orgânicas e fins das academias de letras.

Respeitamos seus posicionamentos e prosseguimos tentando construir esse ente que, para nós, como você sugere, se emprenha na missão de “produzir, de se reunir, discutir e resenhar obras, sem o sentimento da egolatria e do egocentrismo, mas com o sadio desprendimento da solidariedade, do companheirismo".

Pensamos como você; não fizemos uma academia para nos sentirmos “imortais”; para nos vangloriarmos ou celebrar honras e comendas vazias. Pois que, como você e os colegas de letras ai de Francisco Santos, assim como em todos esses rincões tórridos nordestinos, sabemos que a literatura é uma semente rara de difícil cultivo e traquejo que requer, alem do solo fértil, da água tão rara nesse nosso chão, muito amor, compromisso e dedicação. Só temos alguma chance organizados, solidários e companheiros.

Assim, gostaria de nos por a disposição dos amigos aí dessas terras irmãs para maiores intercâmbios, inclusive mediante a troca de postagens, através dos nossos blogs. Nosso email institucional é
alcrateus@gmail.com.

Teremos todo o prazer de corroborar as letras dos amigos.
Abraço Fraternal e que a palavra talhada nos aproxime cada vez mais

Elias de França
Presidente da ALC

sábado, 25 de dezembro de 2010

Caros amigos.

Nosso blog, que por algum tempo pareceu tímido e quieto, agora começa a se movimentar, percorrendo diversas estradas, tendo chegado, inclusive, a outro Estado.

Quero compartilhar com vocês uma bela observação feita pelo poeta e escritor piauiense, João Bosco, no blog da cidade de Francisco Santos-PI, direcionada a todos nós da ALC:

"Prezadíssima Isis.

Através de teu último e-mail, pude "viajar" um pouco pelo blog da ALC, onde me deparei com péroloas como teu poema sobre o natal. Ligando uma coisa à outra, li, com satisfação, no blog de F. Santos, texo teu sobre o mesmo tema, cuja postagem eu havia sugerido.
A propósito do asusnto ACADEMIA, fez-me cócegas comentar conceito depreciativo externado por Fernando Jorge em seu livro ACADEMIA: Do Fardão e da Confusão: "A Casa de Machado de Assis é estéril como uma mula". Quem assim se expressa deve estar cheio de sentimentos malsãos, explindo em gotas de veneno frustrações e desgostos, quem sabe em razao de ali ainda não haver chegado. Acadêmicos da ALC, cuidem de produzir, de se reunir, duscutir e resenhar obras, sem o sentimento da egolatria e do egocentrismo, mas com o sadio desprendimento da solidariedade, do companheirismo e - sim - da sadia competição.
E tu, botão de múltiplas promessas, haverás de, em breve, desabrochar em buquês literários frutos conforme já prometes em teus poucos trablhos (divulgados), que não tardarão em aparecer compilados em livro, sonho maior de todo escritor.
Perdoem a extensão do comentário, pois muitas vezes a emoção me domina.
Saudações natalinas e a desiderata de que o ano novo traga para todos a realização dos nossos sonhos mais caros.
João Bosco da Silva"
(http://fcosantospi.blogspot.com/)

Cuidemos em divulgar nossa arte e compartilhá-la com todos que nutrem amor pelas letras, pois como brilhantemente observou o Sr. João Bosco, "quem escreve só para si, quando muito produz um prazer solitário e egoístico".

Isis Celiane.



João Bosco Disse...


Caríssima Isis,boa noite! Consegui abrir o blog da ALC, onde li muita coisa boa, produções deveras extraordinárias. Elias França: teu natal dos bichos, um primor; dá vontade de a gente, diante de tanta injustiça, desejar tornar-se animal irracional; Rogerlando: vermelho cor, vermelho ora ação, cor velmelha coração. Excelente. E o Raimundo Cândido, em cujo "verso fervilha (...)sanguínea esperança". Ótimo.E os demais? Dos outros falarei depois. Para isso é preciso que tu medigas como postar comentário do blog da ALC, pois não consegui encontrar janela para tal. Sim, e tu és fora de série. Avise para os confrades da ALC que estou com um blog exclusivo para divulgação de minhas produções inéditas. Para acessá-lo, basta digitar http//joaoboscodasilva.blogspot.com/
a
a
Elias de França disse...
Carissimo João Bosco,
Obrigado por acessar nosso blog e pelas considerações sobre nossos poemas e textos. Qual pães postos à mesa, versos e prosas, quando compartilhados em comunhão, terão sempre melhor sabor. Para continuar postando e comentando nosso blog, você pode seguir dois caminhos: 1)clica sobre "comentarios", icone que se encontra no final de cada matéria, aí abrir-se-á a janela com os comentarios ja postados e tambem para os novos comentarios. Então é só mandar brasa e soltar o verbo. Ou você pode postar seus textos no nosso email: alcrateus@gmail.com. Teremos muito prazer em publicá-los
Saudações Literárias e até breve!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

NATAL SEGUNDO OS BICHOS (Elias de França)

É alvorada. O Sol desenha o arrebol no horizonte rasgando as ultimas penumbras da noite. O bem-te-vi acorda, alonga as asas, vê o mundo iluminado com um brilho especial. É um raio eterno, intenso, sublime, profundo. E pia:
- Ele vem aiiiiiiiiiiiiiií!
O cancão, de lá da moita de mufumbo, põe-se a pular de galho em galho, olhando curioso em todos os cantos, a indagar:
- Quem-quem? Quem-quem?
O bezerrinho que acaba de nascer, enquanto tenta encontrar as tetas da mãe, berra de lá:
- um deeeeeeeeus! Deeeeeus!
Do galho mais alto, o pássaro gorgoró afia sua garganta para anunciar:
- agogogogogogogoooooora!
Então, o bem-te-vi emerge em voo, subindo céu-a-pino, e do alto azul, enxerga a revelação, gorjeia seu gozo em pleno ar, depois mergulha veloz em direção a sua estaca, enquanto o galo, no seu poleiro, bate as asas a gritar:
- Jesus Cristo nasceeeeeu! Jesus Cristo nasceeeeu!
A vaca, virando-se de súbito, balança seu chocalho a perguntar:
- Aooooonde! Aoooooooooonde!
Ao que a ovelha responde com seu berro trêmulo:
- Beleeeeem! Beleeem!
O bem-te-vi, de volta à estaca, saltita eufórico:
- bem que vi! Bem que disse! Bem que disse! Bem que disse!
A ninhada de pintinhos piam sem parar:
- viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu? viu?
A rolinha fogo-apagou repete em sequência:
- Cristo chegou! Cristo chegou! Cristo chegou! Cristo chegou!...
O vem-vem decola animado do galho, em voo rasante sobre o pasto a convidar:
- vem ver! Vem ver! Vem ver!
O peru apressa a todos, arrastando suas asas no chão e gritando alto:
- logo! Logo! Logo! Logo!
-logo! Logo! Logo!
O bando de galinhas d’angola salta do poleiro a proclamar em coro:
- que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato! que fato!
O pato acompanha balançando o pescoço e apontando a direção com o bico a exclamar:
- de fato! De fato! Fato! Fato!
A lagartixa, pregada no tronco da árvore, tentando descer, vai concordando com tudo balançando a cabeça juntamente com o pato.
Cuspindo entusiasmo, o bode pai-de-chiqueiro bodeja de lá:
- bom bom bom bom bom bom!
E o gavião rapina concorda:
- si-iiimmm! si-iiimmm!
o cavalo, o burro e o jumento soltam suas risadas, as galinhas caem na gargalhada:
-rim rim rim rim hun!
-Hoooooonn Urrrr hoon urrr hon ur hon ur hon!
- cocococococo! cocococococo!
O sabiá, tomando de seu bico de caneta, passa a gorjear sua canção típica, composta exclusivamente para aquele momento especial:
- que bom
Quem bom é ser
Estar aqui pra crer e ver
Menino deus nascer, nascer!
O galo de capina, excelente imitador que é, não perde tempo e passa a fazer coro com o refrão do sabiá, enquanto toda a bicharada se espalha nas florestas, campos, terreiros e quintais para viver um novo dia de uma nova era, porque, enfim, o mundo,desde ali, ganhara um salvador, fonte do amor, da misericórdia e do perdão eterno.
E ainda que, um dia, os homens se esqueçam serem eles as criaturas com imagem e semelhança do criador, que as luzes de natal se apaguem, que o significado do nascimento do menino deus seja associado tão somente à ocasião ideal para vender, comprar e consumir modernidades, que a figura comercial do papai Noel tome o lugar do cristo, enquanto houver alvorada e os animais enxergarem os raios do sol, haverá natal na voz dos bichos e nos corações iluminados. Pois que eles testemunharam, eles haverão de rememorar em todas as manhãs de todos os dias, enquanto houver tempo e vida na Terra.


Raimundo Cândido disse...
Excelente texto onomatopéico com uma mensagem "divina". O Thalles ( meu filho) vibrou com a leitura que fiz para ele!Valeu poeta!Sexta-feira, 24 Dezembro, 2010

SABi CRATEÚS disse...
É sempre gostoso demais ouvir suas histórias de contador sertenejo, raízes plantadas em nosso chão... é uma felicidade! É um prazer que nos motiva e orgulha. Parabéns pelo texto. Haveremos de contá-lo muitas e muitas vezes em nossos encontros de amor à arte, em rodas de criança e alegria, sempre celebrando a esperança de um mundo melhor.
Lourival
Sexta-feira, 24 Dezembro, 2010
Elias disse...
Honra-me e alegra a sorte de pertencer a um grupo tão talentoso de homens e mulheres, amantes das artes e da vida. Nossa essencia animal e sertaneja encontra morada certa no que somos enquanto meio, este ser meio entre vocês. Obrigado por fazerem as letras de nossa gente, lerem e promoverem a leitura!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal (Isis Celiane)


Nas casas onde as luzes não brilham
Sem enfeites ou mesa farta
Há lá no canto do quarto dos sonhos
Um menino a escrever uma carta

Desenha compassadamente as letrinhas
Confusas linhas de uma clara esperança
Não é brinquedo que deseja o menino
Não há qualquer devaneio de criança

Tudo que pede a esse desconhecido velhinho
É que venha depressa e chegue ligeiro
Trazendo no grande saco das ilusões
Comida que o alimente o ano inteiro

E vai para a janela o menino
Dia após dia, sozinho esperando
E na solidão de sua espera amarga
O tempo sem trégua vai passando

Até que apagam-se as luzes e calam-se os sinos
Tudo agora volta ao normal
E o menino recolhe-se ao canto dos sonhos
À espera solitária de mais um Natal.

Elias de França disse...
Lindo, poeta! Essa me tocou bastante. Desmascara a ilusão de que a esperança é auto-aplicável e resolve a vida por si mesma. Nada contra quem aproveita os festejos natalinos para encher a paisagem de luzinhas, musiquinhas com tons tilintantes, cores, cartões de mensagens... Tais ações até podem semear esperanças, mas comida, bebida, diversão, arte... amor, tantas outras necessidades humanas precisam ter materialidade tambem na realidade concreta e não apenas na fantasia. O proprio sentido da vida fundado na ilusão é meio que um sentido sem sentido. Parabens e obrigado por nos lembrar que toda a ostentação apelativa em torno do natal não é bastante para chegar no cantinho das casas dos mais pobres.
E quanto ao estilo? Delicioso! Você acaba de nos apresentar um poema a la Bandeira!
Isis Celiane disse...
Obrigada, Elias, pela bela observação sobre o que escrevi. Percebo que os poetas são poetas em todas as situações, tranformam em poesia tudo que falam. Parabéns!Abraços...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SER SEM SE RESSENTIR (Rogerlando Gomes)

No natal tudo que é humano se maravilha
e transborda todo ser - a humanidade brilha.

Brilha enfeite, presente, brilha, brilha ceia.
Brilha se excede se cede à bebida
e se inebria amor ou ressentimento - se extravase vida.

Os indiferentes também brilham transbordante humanidade
- Mesmos as mais frias e as mais ascetas pupilas cintilam.

O asfalto nos cintila e nós faróis, nós aros, nós prédios
cintilamos muitíssimo mais nos egoísmos e nos assédios
comerciais e de amor, ande pela 25 de Março, desfile na 5ª avenida
ore a Alá, vista burca e na China o vermelho
não seja das vestes do bom Noel, mesmo assim
desnude o cruel da existência oprimida
onde mais se suprima a liberdade de se rir de si mesmo,
sem, contudo, abolir o ridículo - o mal intenta elidir o bem
tornando o humor macabro também,
mas o riso não se contrita e, mesmo se atrita, vem à esmo
- O humano, a sucumbir, cintila e rir e o riso ilumina,
sem disfarce, a face da humanidade que a mais mínima faísca, me fascina:
a China não deixará o vermelho, a atingirá, Liu, o global vermelho humano.
E até a Coréia do Norte sairá do vermelho... que elimina
para o vermelho que de humanidade se contamina
que o globo ainda é a única esfera do universo que cintila
vida - e nutre a impar espécie, única ciente que cria, e aniquila.

O Natal, então, como o bem e o mal não é capital, capital à existência
humana é a liberdade de cintilar humanidade - e independência.

Que qualquer ato - acordar, rir, um beijo...um soco -, pois, nos seja vermelho.
Vermelho cor, vermelho ora ação cora vermelho coração.
E a humanidade tenha suas mãos por seu mais caro aparelho
De toque e de plantar, colher, fazer e todas as manhãs se dividir em pão
Em bebida, em riso e amor, mesmo o de intrigante rivalidade
Para que a gente, humanidade, não se ressinta de humanidade.



Um homem de várias facetas. Isso se pode falar, sem medo de errar, de ROGERLANDO GOMES CAVALCANTE. Todas elas voltadas para a produção artística . Com efeito, é na charge, no cordel e na combinação criada por ele dos dois (convenientemente denominada charge/cordel) que Rogerlando acentua mais o espírito criativo e crítico. Mas também há espaço para o desenho, para o ensaio, para a música e até para as histórias em quadrinhos nessa salada. Não por acaso, ele é um dos compositores do hino de sua cidade, Independência, localizada no Vale de Crateús, a 310 quilômetro de Fortaleza. (...) Thiago Barros –especial para O POVO. VISITE O BLOG DO PEQUENO: http://www.rogerlando.com/CHÃO INAUGURAL -2009, obra de estreia. O próximo livro, A MÁQUINA DO MUNDO, está no prelo.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

RAIMUNDO CÂNDIDO ESTÁ ENTRE OS AGRACIADOS COM O XIII PRÊMIO IDEAL DE LITERATURA, QUE HOMENAGEIA RAQUEL DE QUEIROZ



Companheiros de Academia:

Tinha dito que estava impossibilitado de participar de nossa reunião de dezembro, mas não tinha falado o motivo. Como agora está confirmado, esclareço: Estou na Seleção do XIII Prêmio Ideal Clube de Literatura, Prêmio Raquel de Queiroz.É um livro de conto e estou entre os 40 selecionados, o convite veio pelo correio, por email( abaixo) e por telefone, fechando o ano com um preminho que num é nada ruim!
Um abraço a todos!

Raimundo Cândido

Em 14 de dezembro de 2010 17:18, ana costa escreveu:

Boa tarde!


Prezados Senhores,
desde já desejo muito BOA SORTE a todos.

Senhores, o Prêmio ideal Clube de Literatura foi antecipado para o mês de Dezembro de 2010.
Estou lhes comunicando caso o Convite ainda não tenha chegado em suas residências, pois os mesmos já foram postados.


Detalhes:

O Prêmio acontecerá no dia 16 de Dezembro (Quinta-feira) de 2010.
Local: Salão Nobre
Horário: 20horas
Traje: Esporte Fino



Mais informações: (85) 3248-5688.

Atenciosamente,
Caroline Gadelha.

++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Caro Raimundinho:

Enche-nos de júbilo saber da sua caminhada evolutiva. És um testemunho vivo da brisa criativa espargida pela nossa Academia.

Confrades: mirem-se no exemplo desse Raimundo, Cândido no esmero do trato com os fonemas da fecundação.

Encerras o ano com o prêmio Ideal, que celebra uma das mais poderosas fêmeas da literatura nacional: Raquel de Queiroz!

Parabéns, poeta! De um canto da "goela" do Rio Poty fazes o conto, brinda-nos com o canto e revelas o encanto do telurismo sertanejo!

Na Paz,

Júnior Bonfim

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

EDITAL DE CONVOCAÇÃO

Pelo presente edital, ficam os 22 membros efetivos da Academia de Letras de Crateus - ALC convocados, na forma do Artigo 15 e 24, inciso IV, do seu Estatuto, para Assembléia Geral Extraordinária a realizar-se no dia 18 de dezembro de 2010, às 16:00h, em primeira convocação, com a maioria absoluta dos seus membros, ou às 16:30h, com qualquer numero de presentes, na Sede da Entidade, à Rua do Instituto Santa Inês, n° 231, em Crateús, tendo como pauta os seguintes assuntos: 1) apresentação de contas; 2) definição de perspectivas, expectativas e estratégias de ação para o ano 2011; 3)verificação de etapas da publicação da 1° coletânea da ALC; 4) apreciação de Edital para ingresso de novos membros efetivos; 5) balanço de uso da Sede; 6) outros assuntos do interesse e pertinentes à ALC.


Crateús, 13 de dezembro de 2010


ANTONIO ELIAS DE FRANÇA
Presidente

sábado, 4 de dezembro de 2010

OBAAA!! VAI TER LANÇAMENTO DE LIVRO INFANTIL

A autora é Penélope, 9 aninhos!




O livro: Procurando Max, o cavalinho e outras histórias
e
e
O Ilustrador (desenhista) é Miguel de Paula



dia 8 de dezembro, às 19 horas,

no restaurante Ouro Verde


VAMOS LÁ, GALERINHA!!
Vai ser muito legal!!!!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

JERI


Guiada por uma trilha sem sinal,
Atravessamos a ponte para magia;
Do outro lado um lugar especial,
Aguardava ansioso a nossa alegria.

Deixamos a areia contar nossos passos,
Subimos em busca da celeste atração;
Guardei meu amor nos braços
E, ao pôr do sol, fizemos nossa saudação.

Na diferença de tantas faces,
Vi o mundo ao encontro da natureza;
A noite, sem as luzes do disfarce,
Mostou na penumbra sua beleza.

De uma lua por estrelas enfeitadas;
Da paz entrelaçando os corações;
De ruas com artes nas calçadas;
De um vento que ecoa os violões.

Para mergulhar na luz do amanhecer
Em lagoas de águas azuladas;
Para ver o sol à tarde se esconder
Atrás de uma pedra furada.

Imprimir Jericoacoara na memória
É como sonhar de olhos abertos
E deixar registrado na nossa história
A viagem a um paraíso descoberto.

(Silvia Régia Lopes Melo).

Raimundo Candido disse...
O Blog da academia está cada vez mais sortido e rico!Parabéns para nós!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

MEU PRIMEIRO AMOR (Elias de França)

Tenho um segredo sobre minha professora do primário.
Ela foi os primeiros cabelos lisos a entrelaçarem minhas fantasias...
Os primeiros ombros morenos expostos que enxerguei,
a costa nua que inaugurou minha virilidade.
Um ralho seu valia um verso...
Quantas vezes, beliscava colegas,
à espera de ter seus dedos longos cravados na minha orelha!
Contava, um a um, os minutos das tardes;
à noite, ninava sonhos
e acreditava na manhã seguinte,
no reencontro com a professora.
Ainda hoje, me apanho a olhar ossos da clavícula,
palmados na pele de moças anônimas,
como que a tocar o corpo da tia...
As músicas da época ainda cantam seu olhar.
Gosto mais, nos novos amores,
dos traços iguais aos da professora.



Raimundo Cândido disse...
Nas suas traquinices carregadas de malícias corria-se o risco de um ralho mas gerou-se um verso... e valeu a pena!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Amores

Tenho a leve impressão de que os poetas de hoje
Carregam dores moderadas
Amores conformados
Sentimentos sem sentimentos
Escassez de versos: poesia em crise!

É, já não se ama como Vinícius
Muito menos como Jobim
Não se chora como Marias e Clarices - coisa de Elis
O exagero de roubar mil flores,
Só mesmo o de Cazuza
Ser capaz de perder o medo da chuva
Como um maluco beleza
Ter a paciência de esperar o segundo sol,
Ninguém melhor que Nando Reis
Mas o que mais desejo é carregar
A força e a coragem de Gonzaguinha
Pra começar tudo - sempre - outra vez
Eterno recomeço, "... nada foi em vão"

Nêga

domingo, 28 de novembro de 2010

ESCRITOR (Isis Celiane)

Mesmo quando o sol esquecer de sair
E às manhãs não vir a aurora
Mesmo quando tudo for nostalgia
Estaremos como agora
Mesmo que a lua perca seu brilho
E as estrelas se tornem frígidas
Mesmo que o frio nos faça tremer
Estaremos como agora
E não adiaremos para outra hora
O momento de escrever
Mesmo que nos faltem paisagens belas
E não tenha verão nem primavera
Estaremos como agora
E tudo é como era
Mesmo que o tempo passe
E a velhice venha nos tomar
De cabelos brancos e mãos trêmulas
Estaremos como agora
Mesmo que o nosso lugar se torne pequeno
E o nosso peito fique sereno
Estaremos como agora
E não adiaremos para outra hora
O momento de escrever
Mesmo que sejamos imperceptíveis
E os nossos versos ilegíveis
Estaremos como agora
Mesmo quando chegar nossa hora
E nossa alma tiver de ir embora
Estaremos como agora
Mesmo que já tenhamos partido
Se o céu nos for permitido
Entraremos como agora
E não adiaremos para outra hora
O momento de escrever!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O QUADRO DA SALA



Vinte anos afastado de sua criação,
Como um barco à deriva pela vida,
E as cores pedindo ajuda as suas mãos
Para darem formas as novas margaridas.

Então, pela cidade de Paraty, sentiu-se atraído
Como se aquele lugar fosse sua aquarela
Ao chegar, por um pássaro vermelho foi recebido
Quando abriu para o mundo sua janela.

Mas gente sempre foi sua verdadeira paixão
E os quadros foram chegando com rostos e cores,
Pintados sobre a lona de um caminhão,
Que de suas viagens traz remendos e amores.

Histórias foram completando seu ateliê e galeria,
Enquanto suas telas traçavam as rotas do mundo,
Mas no Rio de Janeiro existia uma sala ainda vazia
Em que um casal aguardava um quadro profundo.

Este em busca de uma arte que tocasse o seu ser
Até que um intenso azul iluminou suas retinas.
Nascendo nele, o ávido desejo de conhecer
O criador da pureza das duas belas meninas.

Os pincéis com suavidade traçaram linhas convergentes
E as vidas dos três se cruzaram na “Veneza Brasileira”,
Pois a arte que por sublimidade é atraente
Constrói entre as pessoas uma relação verdadeira.

Depois de apreciarem tanta beleza,
Em uma tarde, em tão agradável companhia,
O Casal sentiu no âmago a certeza
De que sua sala clamava por aquela alegria.

Então, foram surpreendidos pela nobreza do pintor
Que lhe propôs criar um quadro com seu gosto
E nas noites seguintes, a moça sonhou com a cor
Que daria vida a tela e cada rosto.

Já no aniversário dela, como se por magia,
Duas jovens de sombrinhas em tons vibrantes
Preencheram de encanto a sua sala vazia,
Tornando inesquecível cada instante.


(Silvia Régia Lopes Melo)


Elias de França disse...
Que belo poema, poetisa!
Como que pintando uma historia de vida, os versos vão pincelando as imagens de distâncias findas em doces reencontros, longas idas em coloridos chegares, saudades perdidas reachadas em novas invenções... pintada assim, então, a vida parece tela em aquarela!

Raimundo Candido disse...
Qur bom ter novamente a Silvia Régia por aqui, e agora bem mais colorida! Muito bom!

Isis Celiane disse...
Gostei muito! Versos doces e serenos como sua criadora. Parabéns, Dra. Sílvia!

Silvia Melo disse...
As palavras dos colegas: Elias, Raimundinho e Celiane seguiram em linha reta rumo ao meu coração.Obrigada pelo carinho!Silvia Melo.

sábado, 20 de novembro de 2010

INQUIETAÇÃO (Elias de França)

Quanta vontade de fazer algo,
algo que sirva para alegrar.
Não é cantar, não é dançar,
não é correr, nem é parar.
Não é brincar, nem é brigar;
é uma vontade de fazer algo,
algo que sirva para alegrar.

Viver não serve; morrer, pior.
Tenho vontade de provocar um sono intenso,
não fosse dia de trabalhar.
Eta vontade!
Eta ansiedade!

Beber é ruim,
mas ficar lúcido me faz cismar:
serei só eu quem sente isso?
Essa vontade de novidade?

Estando em casa, quero o trabalho.
Vou trabalhando, me atrapalhando,
sempre pensando que estou cansando,
envelhecendo sem estar vivendo...
Um velho dirá que encontrou vida
nas margaridas, nas carraspanas,
na boemia, na fantasia...
E eu, poesia?!
De um baile a outro,
tanto me enfado que fico inchado,
sempre pensando que estou cansando,
envelhecendo sem estar vivendo...
Ah! Que vontade de novidade!

eliasdefranca@hotmail.com

RAIMUNDO CÂNDIDO DISSE:

Poeta Elias acho que já senti essa inquietação e tenho a impressão que é poesia borbotando das entranhas! Um abraço!
Raimundo Candido

ELIAS DISSE:
Fico aliviado em saber que "nao sou so eu quem sente isso, essa vontade de novidade"
E que mais poesia no sangue nos inquiete sempre
abraço

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

VIVENDO...

Da idéia fiz a arte
Da oportunidade a ocasião
Da palavra fiz a chave
Do sentimento a poesia
Fiz amigos inesquecíveis
Outros que se esqueceram
Fiz projetos “absurdos”
Alguns já realizei
Fiz do medo a coragem
E da coragem a ousadia
Do risco fiz a chance
Do abismo um alerta
Fiz das pedras obra prima
Dos desvios, novos caminhos
Fiz da vontade o que pude
E agora o que posso fazer?
Da interrogação alguns pontos
Três pontos infinitos para viver
...
Isis Celiane